<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[O Substack de Angela]]></title><description><![CDATA[O meu Substack pessoal]]></description><link>https://algumtempo.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zNJt!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6a8f9f2b-a84f-493a-9389-5eabd3670a76_959x959.webp</url><title>O Substack de Angela</title><link>https://algumtempo.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 04 Nov 2026 13:30:51 GMT</lastBuildDate><atom:link href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Falgumtempo.substack.com%2Ffeed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Angela Silva]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[algumtempo@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[algumtempo@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Angela Silva]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Angela Silva]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[algumtempo@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[algumtempo@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Angela Silva]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[É muito psicanalista se autorizando por si mesmo]]></title><description><![CDATA[Ain porque a neutralidade]]></description><link>https://algumtempo.substack.com/p/e-muito-psicanalista-se-autorizando</link><guid isPermaLink="false">https://algumtempo.substack.com/p/e-muito-psicanalista-se-autorizando</guid><dc:creator><![CDATA[Angela Silva]]></dc:creator><pubDate>Tue, 13 Oct 2026 19:36:22 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21zNJt%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6a8f9f2b-a84f-493a-9389-5eabd3670a76_959x959.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; alguns anos eu escrevi uma tese de doutorado. A defesa aconteceu dia 05 de abril de 2018. Nesse dia, foi decretada a pris&#227;o de Lula. Dois dias depois ele foi preso. O tema da minha tese &#233; a pol&#237;tica no interior da psican&#225;lise. Em palavras muito simples, a pergunta de pesquisa foi: a psican&#225;lise tem alguma coisa a ver com a pol&#237;tica? Para responder a essa pergunta eu fui bastante tradicional. Percorri as obras de Freud e de Lacan com a lente de quem procura posicionamentos pol&#237;ticos relativos ao tempo em que eles viveram. Como estes homens, cujas palavras tantas vezes usamos de escudo e que temos o p&#233;ssimo h&#225;bito de papagaiar, se posicionaram diante do mundo que viveram? Freud morreu em 23 de setembro de 1939. No dia primeiro daquele m&#234;s foi decretada a Segunda Guerra Mundial. Mas as atrocidades que antecederam o in&#237;cio da Guerra foram vivenciadas por ele e por seus analisantes. </p><p>Lacan, como Freud, viveu as duas grandes gueras do s&#233;culo XX. Durante a segunda ele j&#225; era adulto, formado, vacinado. J&#225; era algu&#233;m que assinava em nome pr&#243;prio e alguns anos depois, muitos de n&#243;s, psicanalistas, vir&#237;amos a assinar a partir de seu nome. Ao se dizer freudiano, lacaniano, kleniano, ferencziano, uma das coisas que a gente faz &#233; se apresentar a partir de uma identidade dentro da psican&#225;lise. E o pr&#243;prio Lacan disse uma vez que usar o artigo definido para se referir aos psicanalistas seria desejar demais. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Na tese, de uma forma tamb&#233;m tradicional, eu parti de uma defini&#231;&#227;o aristot&#233;lica de pol&#237;tica, aquela de acordo com a qual se entende a pol&#237;tica como uma inven&#231;&#227;o humana para tornar a vida uns com os outros poss&#237;vel. No decorrer dela percorri, al&#233;m da obra dos autores citados, alguns comentadores e te&#243;ricos do campo da filosofia e sociologia - estes &#250;ltimos com mais dificuldade. Procurei por autores contempor&#226;neos que, antes de mim, fizeram perguntas parecidas. Mas h&#225; algo sobre a tese de doutorado que &#233; a quest&#227;o da originalidade. E pode ser muito dif&#237;cil discerni-la num campo em que tem muita gente se ocupando do tema (ainda bem!). </p><p>Hoje, mais de dez anos depois que eu escrevi o projeto de doutorado, &#233; mais f&#225;cil conseguir delinear essa originalidade. Eu vim de um percurso de mestrado que teve como resultado uma disserta&#231;&#227;o sobre os fundamentos da psican&#225;lise no interior da teoria freudiana. A Angela de vinte e poucos anos queria saber o que &#233; imprescind&#237;vel ao cabedal de um psicanalista quando ele n&#227;o atua em consult&#243;rio. Ela queria saber o que &#233; inegoci&#225;vel &#224; psican&#225;lise, o que funda seu campo. Eu gostei muito de escrever aquele texto. Lembro das madrugadas acordada na quitinete que eu aluguei em Curitiba. Como eu gostava de morar l&#225; e como aquela solid&#227;o me ajudou a ler Freud. Naquela &#233;poca, eu lia a obra dele do jeito que o diabo gosta (na edi&#231;&#227;o da Imago), fichando textos e mais textos. Ca&#231;ando linha a linha momentos na obra em que aquele v&#233;io safado dizia: <em>&#8220;olha, t&#225; vendo isso daqui, isso daqui &#233; essencial &#224; psican&#225;lise&#8221;</em>. </p><p>Uma coisa que eu sempre digo aos meus alunos &#233; que a psican&#225;lise &#233; um caminho sem volta; e quando digo isso, quero dizer tanto a partir do momento que voc&#234; se engaja em uma an&#225;lise, quando voc&#234; come&#231;a a estudar psican&#225;lise e, claro, quando voc&#234; se prop&#245;e a sentar a bunda em uma poltrona a escutar como o inconsciente escreve a vida de algu&#233;m, j&#225; era. Minha professora de teorias de personalidade uma vez disse: um dia algu&#233;m vai te pedir uma opini&#227;o dizendo pra voc&#234; esquecer que &#233; psicanalista. E no dia que voc&#234; n&#227;o conseguir fazer isso, &#233; porque voc&#234; se tornou um. Na &#233;poca eu achei isso extremametne exagerado. Eu tinha vinte anos e era bem cabe&#231;a de vento. Um tipo de cabe&#231;a de vento que s&#243; pode ser quem tem uma vida de muitos privil&#233;gios.</p><p>Quando eu terminei a gradua&#231;&#227;o e consegui um emprego dentro uma unidade psiqui&#225;trica em um hospital geral, me deparei com um tipo de mis&#233;ria humana que n&#227;o era bem uma novidade, mas o que era novidade &#233; aquilo ser escancarado como algo que faz parte da minha vida. Pessoas contidas fisicamente, pessoas dopadas, pessoas encontradas peladas amarradas em galinheiros no quintal de casa. Um ano antes eu fiz um est&#225;gio num hospital psiqui&#225;trico de filme. L&#225; tinha gente andando pelada e cagada no meio do p&#225;tio. Tinha a ala dos agressivos e dos mansos, tal qual no manic&#244;mio descrito por Machado de Assis. Quando iniciei aquele trabalho eu comecei a pensar: mas eu aprendi psican&#225;lise na faculdade para atender pessoas de um outro jeito. Como faz pra ser psicanalista aqui?</p><p>Levei semanas, talvez meses para conseguir delinear essa pergunta. Para conseguir entender o que eu fazia e propor algo. Um dia, um paciente que tinha sido admitido no dia anterior, se aproximou de mim. Ele me ouviu pedindo os prontu&#225;rios dos doentes mentais &#224; enfermagem. Isso porque os dependentes qu&#237;micos eram pacientes de responsabilidade do outro psic&#243;logo. Ele n&#227;o gostou disso e me falou: <em>&#8220;eu ouvi que voc&#234; chamou a gente de doente mental. Eu n&#227;o gostei dessa forma de tratamento&#8221;</em>.   Fiquei assustada com a abordagem como ficaria quem n&#227;o est&#225; acostumada a ser questionada em uma posica&#231;&#227;o de saber bem sedimentada. Mas mesmo surpresa, consegui perguntar: <em>&#8220;e como eu deveria ter pedido os prontu&#225;rios?</em>&#8221;. Ele disse: <em>&#8220;Poderia ter pedido os prontu&#225;rios dos pacientes que voc&#234; atende.</em>&#8221; Era muito comum naquele hospital os pacientes me chamarem de psic&#243;tica. Porque psic&#243;tica &#233; uma palavra que combina com psic&#243;loga. E &#233; uma palavra que circula na terminologia m&#233;dica, que consta na CID e no DSM. E eu estava l&#225; para tratar dos pacientes internados, quase sempre por conta da psicose.</p><p>At&#233; hoje eu tenho um apre&#231;o grande pela cl&#237;nica das psicoses, para mim s&#227;o atendimentos que n&#227;o me causam embara&#231;o. N&#227;o significa que sejam atendimentos f&#225;ceis. Apenas que eu n&#227;o recuo deles. Esse mesmo paciente um dia chegou angustiado dizendo que a cabe&#231;a dele n&#227;o estava em cima do pesco&#231;o; est&#225;vamos no meio do p&#225;tio externo, muitos pacientes me abordando, conversando, puxando. Ele chegou e disse isso. Eu peguei as duas m&#227;os dele, coloquei ambas em minha cabe&#231;a e fiz o mesmo. Numa situa&#231;&#227;o espelhada comecei a apalpar a cabe&#231;a dele. E ele fez o mesmo na minha. Isso durou alguns segundos. Quando ele baixou as m&#227;os eu perguntei: <em>&#8220;e agora?&#8221;</em> Ent&#227;o, ele disse: <em>&#8220;agora t&#225;</em>&#8221;. Colocar as m&#227;os na cabe&#231;a dele foi um ato fundamentado teoricamente. N&#227;o foi um pressentimento, n&#227;o foi uma adivinha&#231;&#227;o. Eu lembrei do que eu li sobre a estrutura&#231;&#227;o do sujeito psic&#243;tico; sobre a quest&#227;o do corpo; eu lembrei do meu professor de psican&#225;lise dizendo <em>&#8220;o neur&#243;tico te questiona o que foi que aconteceu com ele, o psic&#243;tico te conta&#8221;</em>. E essa foi uma internve&#231;&#227;o essencial para eu decidir fazer um mestrado, projeto que tinha ficado temporariamente suspenso em minha vida depois da gradua&#231;&#227;o. Quero dizer: eu precisei alcan&#231;ar como a psican&#225;lise me amparava em uma pr&#225;tica fundamentada, com objetivos. E por isso eu fui fazer um mestrado (em psicologia, na UFPR). </p><p>Na disserta&#231;&#227;o, eu me debrucei sobre dois conceitos (poderia ter me debru&#231;ado sobre outros, mas eu tinha menos de 2 anos): o determinismo inconsciente e o recalque. E qual foi a minha surpresa quando, ao come&#231;ar a escrita, naquele momento quase m&#237;stico em que um texto come&#231;a a ter surpreender a medida que sai da ponta dos seus dedos, eu me deparei com algo que eu n&#227;o esperava: o desejo de analista.</p><p>Quando eu me inscrevi no mestrado, no final de 2009, eu tinha 25 anos. Estava terminando uma especializa&#231;&#227;o em psican&#225;lise na PUC do Paran&#225; e ali eu conheci pessoas que foram e s&#227;o essenciais em minha trajet&#243;ria. E no artigo de conclus&#227;o eu escrevi sobre um caso que atendi no &#250;ltimo ano de gradua&#231;&#227;o. E naquele caso eu me perguntei muito se aquilo que eu fazia era psican&#225;lise. Hoje eu tenho certeza que era e sempre penso naquele atendimento. Era um menino que n&#227;o suportava ser atendido dentro da sala de atendimento. E eu decidi atend&#234;-lo do lado de fora. E passei todo o ano letivo brincando de esconde-esconde e de futebol. Meus colegas passavam por n&#243;s e ficavam intrigados. Lembro de uma ter me dito: <em>&#8220;mas, ent&#227;o, voc&#234; fica aqui fora s&#243; brincando com ele?&#8221;, </em>eu n&#227;o sabia o que dizer. Mas o que eu sei &#233; que aquele menino chegou com um com um sintoma de ang&#250;stia. E que &#224; medida que eu o atendi do lado de fora colhendo pitanga e amora, ele me falava sobre as coisinhas de menino dele. E eu dizia coisas que me ocorriam amparada por uma teoria que eu come&#231;ava a estudar. e amparada por uma supervisora que me dizia: isso &#233; sim psican&#225;lise.</p><p>Em 2013 quando comecei a escrever meu projeto de doutorado eu tamb&#233;m estava inquieta. Era o ano das manifesta&#231;&#245;es que foram tomando propor&#231;&#245;es pouco imaginadas e cujas pautas come&#231;aram a ficar muito confusas. Tem uma cena que n&#227;o consigo esquecer. Eu e meu namorado (hoje meu marido), parados em frente ao Shopping M&#252;ller em Curitiba assistindo &#224; manifesta&#231;&#227;o passar. Nos olhamos e n&#227;o conseguimos nos juntar &#224; manifesta&#231;&#227;o. Havia ali algo de errado, algo que a gente n&#227;o conseguia entender. Foi a partir disso que decidi escrever uma tese sobre a pol&#237;tica no interior da psican&#225;lise. &#201; que vejam, eu queria ser uma psicanalista com algum rigor. Eu via meus pares se posicionarem nas redes, eu participava de grupos de discuss&#227;o. A ideia de uma psican&#225;lise neutra circulava de modo muito contundente. Em 2014, meu projeto foi aceito em um programa de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o em psican&#225;lise (na UERJ). E por que isso importa? Por que essa &#233; uma pergunta que foi pertinente? Por que minha pesquisa vale de alguma coisa?</p><p>N&#227;o sei se voc&#234;s sabem, mas de acordo com o CensoPsi de 2022, a psican&#225;lise &#233; a abordagem a partir da qual se apresentam a maioria das psic&#243;logas brasileiras (37%). Em 2013 o pa&#237;s come&#231;ou um movimento esquisito em rela&#231;&#227;o &#224; democracria; em 2014, Dilma foi eleita a duras penas; em 2016 ela sofreu um golpe parlamentar e popular; em 2018, Lula foi preso. E enquanto isso eu viajava todas as semanas ao Rio de Janeiro para cumprir os cr&#233;ditos, fazer trabalhos e estudar Lacan como uma filha da puta. Em 2016 minha tese foi qualificada, nesse mesmo ano meu pai foi diagnosticado com um c&#226;ncer no c&#233;rebro. Em 2017, eu casei e mudei de estado. Muita coisa acontece nas vidas e nos pa&#237;ses em um intervalo de 4 anos. Que calha ser tamb&#233;m o tempo de um mandato de presidente. E o que acontece em quatro anos, pode repercutir um vida inteira.</p><p>Nesse intervalo, gradualmente, eu vi as discuss&#245;es sobre pol&#237;ica se tornando mais prementes no movimento psicanal&#237;tico. E toda vez que eu via algu&#233;m torcer o nariz para isso, ou fazer de conta que esse assunto n&#227;o &#233; pra ser discutido pela via da psican&#225;lise eu come&#231;ava a pensar sobre o que eu tinha estudado naqueles anos e sobre o quanto os psicanalistas escolhem fazer vista grossa para alguns aspectos centrais &#224; teoria psicanal&#237;tica. Com isso eu n&#227;o quero enaltecer Freud e Lacan, mas retirar das obras deles o que &#233; crucial &#224; escuta do inconsciente. Por exemplo: Freud fala sobre o analista como um espelho opaco. Lacan fala sobre o psicanalista no papel de semblante de objeto a. Sobre o que falam essas duas afirma&#231;&#245;es? Elas falam sobre um psicanalista em trasnfer&#234;ncia. Por isso, eu acho muito problem&#225;tico um analista, seja ele quem for, crer que est&#225; sendo psicanalista quando fala a partir da psican&#225;lise fora da transfer&#234;ncia. Nas redes sociais, por exemplo, se voc&#234; der uma de espelho opaco, na real, voc&#234; vai estar sendo meio rid&#237;culo. Lembram da minha professora que falava sobre a gente se tornar psicanalista quando n&#227;o consegue emitir uma opini&#227;o sem levar em conta a psican&#225;lise? Hoje que eu t&#244; mais rodada, eu sei que n&#227;o se trata de fazer an&#225;lises selvagens de tudo e todas as situa&#231;&#245;es. Eu n&#227;o sei o que ela acharia a respeito isso hoje, n&#227;o sei nem se ela t&#225; viva ou morta, mas o que eu sei &#233; que fundamentalmente, em sua constru&#231;&#227;o epistemol&#243;gica, a psican&#225;lise n&#227;o tem condi&#231;&#245;es de existir sob uma l&#243;gica totalit&#225;ria. </p><p>Lacan tem um texto em que ele fala sobre a vergonha da Fran&#231;a diante da posi&#231;&#227;o da Inglaterra (<em>A psiquiatria inglesa e a guerra</em>). Ele fala sobre a vergonha de um pa&#237;s que se rende. E que essa vergonha teria impacto sobre a subjetividade dos franceses: se for pra morrer, a gente precisa morrer atirando. Freud apostou que o mal-estar na civiliza&#231;&#227;o poderia ser contido com as produ&#231;&#245;es cient&#237;ficas, culturiais e art&#237;sticas. Eu os cito porque essa foi a pesquisa que eu fiz. E olha, eu fui incans&#225;vel. Hoje eu faria uma pesquisa diferente e se eu fosse fazer um p&#243;s-doutorado, deus me livre, mas quem me dera, eu pesquisaria outros autores. Mas naquela &#233;poca eu queria construir algo que apontasse em uma dire&#231;&#227;o que eu penso que, mais que um argumento de autoridade produzisse um argumento epistemol&#243;gico, isto &#233;, que o eixo dessa teoria gira em torno da no&#231;&#227;o de alteridade. </p><p>Me posicionar no meu instagram ou nesse texto n&#227;o seria psicanal&#237;tico porque Freud preconizou a neutralidade? Meu cu cheio de graveto. Freud teve que abdicar dos bens dele para ir embora pra Inglaterra, sendo que ele tava mais pra l&#225; do que pra c&#225;. S&#243; fez isso pelos filhos. Duas irm&#227;s dele morreram em campos de concentra&#231;&#227;o. E ele s&#243; saiu &#8220;por bem&#8221; porque ele j&#225; era Freud. A&#237; voc&#234;, psicanalist&#227;o para um caralho fica de bibibibobob&#243; de neutralidade. Voc&#234; diz que nem Lula nem Bolsonaro, num cl&#225;ssico sinal que crava o numero 2 duas vezes na urna? </p><p>Lacan conta que ouviu de um psicanalista que jamais atacaria as formas institu&#237;das porque elas asseguram sem problemas uma rotina que gera comodidade (t&#225; na <em>Proposi&#231;&#227;o 9 de outubro de 1967</em>). &#201; uma rotina que aliena a psican&#225;lise de seu dever na sociedade e que destaca a coniv&#234;ncia com as arbitrariedades em nome do poder. Em <em>Radiofonia</em> ele fala que os psicanalistas se vangloriam de n&#227;o querer saber nada sobre pol&#237;tica. Eu t&#244; dizendo isso pelo seguinte: amiguinho, se &#233; argumento de autoridade que voc&#234; quer esfregar na cara de quem se posiciona contra o fascismo, eu tenho V&#193;RIOS para jogar nessa tua fu&#231;a sem vergonha.</p><p>Acho que esse meu texto &#233; uma esp&#233;cie de an&#250;ncio a algo que quero fazer que &#233; pensar sobre a forma&#231;&#227;o do analista. Tenho discutido isso com amigas e temos pensado sobre essas quest&#245;es e eu gostaria de conseguir organizar em palavras, de prefer&#234;ncia coletivamente. Mas isso vai ficar para depois do segundo turno, porque independente do resultado, vamos ter que nos organizar de uma forma diferente. De uma forma em que as institui&#231;&#245;es de psican&#225;lise tamb&#233;m descubram, penso eu, que &#233; preciso separar o joio do trigo. E nas nossas redes internas, penso ser necess&#225;rio marcar quem &#233; quem.  &#201; chique ser psicanalista, n&#233;?! Mas desejo de analista &#233; diferente do desejo de de ser analista.  </p><p> PS: me deu pregui&#231;a de colocar as refer&#234;ncias, mas pega os t&#237;tulos e d&#225; um Google.  </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Quando me viu, sorriu e deve ter perguntado se eu fiz uma boa viagem. Essa cena do port&#227;o pode parecer irris&#243;ria, exceto porque a partir do dia seguinte, meu pai nunca mais foi capaz de pegar um molho de chaves e abrir portas e port&#245;es para mim. Agora &#233; preciso evitar que ele se apodere de uma chave ou do controle do port&#227;o e se aventure rua afora. N&#227;o sabe mais atravessar ruas ou avaliar riscos. Ele encontra as pessoas no meio do caminho e faz perguntas descabidas. Isso enche minha m&#227;e de vergonha.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Vergonha &#233; uma palavra que se repetiu em tr&#234;s an&#225;lises diferentes nos &#250;ltimos dias. Nos tr&#234;s casos, perguntei: vergonha de qu&#234;? Minha m&#227;e tentou iniciar uma an&#225;lise logo nas primeiras semanas depois da cirurgia que levou um tanto do c&#233;rebro do meu pai. Mas foi insuport&#225;vel para ela, que queria respostas sem conseguir se fazer nenhuma pergunta. Outro dia, uma amiga perguntou: </span><em><span>o que levou voc&#234; a procurar an&#225;lise? </span></em><span>Procurei porque achava estranho ter vinte e poucos anos e nunca ter me apaixonado de verdade. Se ela tivesse me perguntado o que &#233; se apaixonar de verdade, eu diria: </span><em><span>sofrer por amor. </span></em><span>E quando aconteceu de eu sofrer por amor, lembro de ter sentido vergonha. Eu j&#225; perguntei &#224; minha m&#227;e do que ela se  envergonha diante da debilidade do meu pai. </span><em><span>Do que os outros v&#227;o pensar</span></em><span>, ela diz</span><em><span>. </span></em><span>Dela. Do que os outros v&#227;o pensar dela, eu completo dentro da minha cabe&#231;a e &#224;s vezes fora.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Quase sempre mais animado, mais alegre. &#192; medida que envelheceu, minha m&#227;e se tornou cada vez menos soci&#225;vel e eu percebo que mesmo aos quarenta anos ainda presto aten&#231;&#227;o &#224;s mulheres da idade da minha m&#227;e e me admiro de um saber viver a vida que nunca encontrei nela. Isso me fazia procurar alguma cumplicidade em meu pai, que como era em casa, era na rua. Mesmo senil ele continua muito parecido, o mesmo jeito autocentrado, o mesmo tom professoral. Depois que adoeceu, muitas vezes tomei partido da minha m&#227;e. Uma vez ele acusou: </span><em><span>&#8220;N&#243;s sempre fomos pr&#243;ximos e agora parece que voc&#234; s&#243; v&#234; o lado da sua m&#227;e&#8221;.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Por que voc&#234; se tornou analista? </span></em><span>Porque eu fiz an&#225;lise. Esta &#233; a resposta em linha reta. Mas eu n&#227;o sei falar em linha reta. Muito me admira eu conseguir come&#231;ar e terminar uma aula, tamanho o emaranhado que eu construo quando falo, quando escrevo. E nesse emaranhado que leva a outras respostas &#224; pergunta do in&#237;cio do par&#225;grafo, eu come&#231;aria com: uma crian&#231;a que eu conhecia sofria e ia &#224; psic&#243;loga. Isso era dito em voz baixa. O que &#233; psic&#243;loga? N&#227;o sei o que responderam, mas cresci querendo me tornar uma. Lembro de concluir que eu tamb&#233;m precisava de uma psic&#243;loga. Minha m&#227;e, quando tentou iniciar uma an&#225;lise, mentia sobre onde estava indo. Eu assistia &#224; cena perplexa porque ela sa&#237;a para a analista em segredo, me olhava e dizia em voz baix&#237;ssima: </span><em><span>n&#227;o diga nada a ningu&#233;m, Angela.</span></em><span> Por qu&#234;? Sil&#234;ncio. Voc&#234; tem vergonha, n&#233;? Muito choro, um choro que me enraivece. Por que o choro dela n&#227;o me causa como&#231;&#227;o?</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Ela &#233; um beb&#234; de olhar vivo com uma m&#227;e de olhar amoroso. </span></em><span>Uma amiga escreveu quando enviei a ela uma foto. Outro dia fui rever nossa conversa e ela n&#227;o existe mais. Lembro do olhar da m&#227;e dela sobre o corpo da filha no caix&#227;o. N&#227;o era um olhar de tristeza e pesar. Era um olhar amoroso. Por que n&#227;o tenho esse olhar amoroso sobre minha m&#227;e? Era domingo, todos sent&#225;vamos na sala de estar pra comer sobremesa. Um breve sil&#234;ncio se instala. Minha filha diz: </span><em><span>fala, mam&#227;e. </span></em><span>Falar o que, filha? </span><em><span>Fala pra vov&#243;</span></em><span>. Intrigada, repito a pergunta. Ela responde: </span><em><span>fala pra vov&#243; que voc&#234; ama ela. </span></em><span>Ela tinha tr&#234;s anos. Minha m&#227;e respondeu: </span><em><span>eu acho que ela n&#227;o ama</span></em><span>. Essa menina vai ser analista, me disseram.</span><em><span> </span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Passei uns bons anos da minha an&#225;lise falando sobre minha m&#227;e. Quando meu pai adoeceu e o que sustentava a din&#226;mica do relacionamento deles mudou, passei a falar dele. Comecei a me tornar analista quando, um pouco maior do que minha filha, me foi dado espa&#231;o &#224; solid&#227;o. Meu pai me levava todos os s&#225;bados para a ch&#225;cara e fazia as coisas dele. Eu me perdia. Sabia exatamente onde estava, mas passava a tarde andando a esmo. Pensava sobre muitas coisas, inventava hist&#243;rias e di&#225;logos. Falava sozinha a tarde inteira. Pegava um galho e furava bosta de vaca no pasto. Na volta, ele colocava a r&#225;dio na emissora da cidade em que a transmiss&#227;o era em alem&#227;o. Eu gostava de ouvir porque era o som da minha m&#227;e e da minha av&#243; conversando, mas nunca aprendi alem&#227;o. Minha av&#243; tinha um olhar amoroso sobre mim. O meu pai tamb&#233;m. Minha av&#243; morreu quando eu tinha 23 anos, um pouco depois da minha primeira an&#225;lise. O meu pai est&#225; vivo, mas hoje ele tem um olhar vazio sobre quem quer que seja. Minha m&#227;e tem um olhar ressentido sobre a vida. Eu n&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Observa&#231;&#227;o: escrevi esse texto para uma oficina de processos criativos que fiz recentemente. Fiz algumas edi&#231;&#245;es no texto original.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212cjK%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F4d828fa2-01ca-4833-9ab1-464ae8bb8448_2560x1700.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212cjK%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F4d828fa2-01ca-4833-9ab1-464ae8bb8448_2560x1700.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Ava usando o casaco de Deborah me fez chorar</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;">Vou come&#231;ar fazendo um alerta para quem me conheceu porque em minha &#250;ltima <em>newsletter</em> escrevi sobre considera&#231;&#245;es &#233;ticas envolvendo ser psic&#243;loga em tempos de algoritmo. Foi um texto que chegou em muita gente e que gostei de ter escrito. Uma das pessoas que leu contou que me seguia no Twitter e que l&#225; tamb&#233;m tinha chegado ao meu perfil por conta de algum fio que eu escrevi sobre psicologia ou psican&#225;lise. Desde que sa&#237; daquele umbral, tentei usar o Bluesky (sem muito &#237;mpeto, confesso), e h&#225; pouco mais de um ano escrevo aqui. Mas escrevo na internet h&#225; muitos anos, desde quando fiz, em 2005, um LiveJournal (LJ).</p><p style="text-align: justify;">Nos meus vinte e poucos anos eu tive um namorado que teve um papel bem paradigm&#225;tico na minha vida. Quando me vejo hoje e penso sobre quem eu era aos 21, penso que uma parte importante come&#231;ou a acontecer com o fim daquele namoro e o impacto disso sobre a forma como me vejo, como lido com a minha sexualidade e sobre o papel das minhas amigas na minha vida. Quando aquele menino terminou comigo era uma &#233;poca diferente. Como eu tinha basicamente o Orkut e um Motorola do Guga K&#252;erten, era um pouco mais f&#225;cil n&#227;o  acompanhar a vida de um ex-namorado que seguiu adiante. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21ZayW%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F0be0327d-9f43-46ae-8c9a-bec1936f70ec_168x300.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 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Quando come&#231;amos a namorar eu contei sobre o LJ, ele fez um e me seguiu. E eu n&#227;o tirei ele dos meus seguidores quando ele terminou comigo. Ent&#227;o, durante mais de um ano, eu escrevia aqueles textos em que contava sobre a minha vida para ele. E quando voltamos, um tempo depois - para a completo desgra&#231;amento da cabe&#231;a de quem me viu sofrer horrores - ele me disse que ter me acompanhado pelo LJ era um jeito de estar perto de mim e de n&#227;o sentir tanto a minha falta. Quem me conhece sabe que eu comi um caminh&#227;o de bosta por ele, mas estou falando sobre isso porque eu gostaria que a gente seja capaz de olhar com mais carinho por quem foi aos vinte e poucos anos. </p><p style="text-align: justify;">Dos bons textos que j&#225; escrevi na vida, a maioria tinha destinat&#225;rios mais ou menos estabelecidos na minha cabe&#231;a. O meu &#250;ltimo dediquei &#224;s minhas alunas e psic&#243;logas rec&#233;m-formadas. O anterior foi especialmente escrito para uma pessoa que me pediu uma opini&#227;o sobre uma treta. E a <em>newsletter</em> de hoje eu gostaria de escrever para quem gosta de conversar sobre a vida e sobre a maluquice que &#233; a gente fechar os olhos e quando os abre novamente, se v&#234; vinte anos mais velha, com uma fam&#237;lia e tendo que parcelar o imposto de renda porque ter duas fontes pagadoras te coloca numa al&#237;quota que &#233; completamente surreal para uma pessoa que vive a vida que eu vivo, vida essa que &#233; bem boa, mas que eu penso que poderia me dar condi&#231;&#245;es de ser mais colonizada e viajar para gastar em euros.</p><p style="text-align: justify;">E j&#225; que falei sobre a import&#226;ncia de taxar os super ricos e de maneirar com a taxa&#231;&#227;o dos remediados que compram seu pequeno apartamento porque foram criados acreditando que isso &#233; sucesso na vida e como falei sobre meu desejo de comer p&#227;o de verdade em Paris - e, no meu caso,  <em>pain au chocolat</em> de verdade - chego finalmente aonde queria chegar: a saudade que eu vou sentir de <em>Hacks</em>. Sim, eu n&#227;o consigo come&#231;ar um assunto t&#227;o simples quanto a falta que vou sentir do &#250;ltimo seriado pelo qual me apaixonei sem fazer um grande pre&#226;mbulo para que a querida leitora tente acessar as milhares de gavetinhas que comp&#245;e os arquivos da biblioteca da minha mem&#243;ria. Desculpem, mas s&#227;o anos e anos de associa&#231;&#227;o livre no curr&#237;culo. </p><p style="text-align: justify;">Ava, como uma mulher da gera&#231;&#227;o Z, dificilmente ter&#225; conhecido o sistema de buscas nas bibliotecas antes em que a informatiza&#231;&#227;o come&#231;ou a deixar de fora uma parcela significativa da popula&#231;&#227;o que n&#227;o consegue sequer ver um jogo de futebol na televis&#227;o, qui&#231;&#225; solicitar um aux&#237;lio-doen&#231;a. Tenho certeza que se eu falasse sobre e exclus&#227;o digital para nossa milituda favorita, ela me acompanharia na lacra&#231;&#227;o, mesmo que a rela&#231;&#227;o de Deborah com o iphone tenha sido motivo de zoa&#231;&#227;o algumas vezes. Com isso adianto que se voc&#234; n&#227;o assistiu <em>Hacks, </em>que acabou na semana passada, possivelmente nada do que eu escrever daqui para frente vai fazer muito sentido. E esse &#233;, portanto, um segundo alerta num texto que j&#225; deve ter uns cinco par&#225;grafos, mas quem est&#225; contando?</p><p style="text-align: justify;">Minha filha Lila, n&#227;o sei se voc&#234;s sabem, &#233; meu xod&#243;. Eu sempre falo sobre ela porque ter uma crian&#231;a de cinco anos ao seu lado &#233; ter algu&#233;m em quem o recalque secund&#225;rio ainda est&#225; em vias de operar (n&#227;o, n&#227;o vou escrever sobre o que &#233; recalque secund&#225;rio em um pr&#243;ximo texto, mas posso oferecer um curso online). E minha filha, como a p&#233;ssima aquariana, &#233; bastante dram&#225;tica e ruim com despedidas. Ent&#227;o, n&#227;o raro, Lila se ressente do fim das coisas e podem ser pequenas, como um pirulito, mas pode ser tamb&#233;m o fim de uma viagem, do feriado, enfim. Nessas horas, como sou uma m&#227;e sem muito ju&#237;zo e que falo coisas para minha filha que sei que ela ainda n&#227;o &#233; capaz de entender [outro dia, por exemplo, ela me perguntou por que n&#227;o vamos &#224; Igreja. Respondi que &#233; porque n&#227;o temos religi&#227;o. Ela, ent&#227;o, perguntou o que &#233; religi&#227;o. Respondi que &#233; um sistema de cren&#231;as], costumo dizer uma frase de caderno de confid&#234;ncias: <em>&#8220;Filha, tudo o que &#233; bom dura pouco, mas o bastante para ser inesquec&#237;vel, n&#227;o importa que acabou, o que importa &#233; que existiu&#8221;</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#201; preciso que se diga que quando respondo isso a ela, o fa&#231;o sabendo que &#233; cafon&#233;rrimo mas que, um, estou dizendo a verdade e, dois, estou fazendo uma piada com a verdade. Porque se tem uma coisa que eu tenho certeza &#233; que a vida &#233; uma bosta, mas que se a gente n&#227;o consegue imprimir um pouco de humor nela, ela fica insuport&#225;vel. Ent&#227;o, embora saiba que minha filha sofre com muitas coisas que s&#227;o pr&#243;prias de crian&#231;a sofrer, &#233; com al&#237;vio que eu e o pai dela olhamos para essa crian&#231;a e conseguimos ver nela o humor. E <em>Hacks</em> &#233; basicamente uma s&#233;rie sobre como o humor n&#227;o salva ningu&#233;m, mas te ajuda a reconhecer quem anda junto com voc&#234;.  </p><p style="text-align: justify;">Meu marido &#233; uma pessoa com dos melhores humores que eu conhe&#231;o. Eu sempre fui meio piadista-malandrops, mas meu humor mudou e ficou melhor com a conviv&#234;ncia com ele. Eu n&#227;o consigo dar uma aula sem falar coisas altamente question&#225;veis, mas ouso dizer que a maioria &#233; colocada no momento certo e no lugar certo para ilustrar aquilo que estou dizendo. E para mim &#233; bem dif&#237;cil dar uma aula sobre algo que eu n&#227;o gosto porque eu n&#227;o consigo colocar humor. Quando ensino psican&#225;lise para quem est&#225; come&#231;ando, utilizo basicamente quatro textos: o cap&#237;tulo IV de <em>Estudos sobre a Histeria, o</em>s cap&#237;tulos VI e VII de <em>A interpreta&#231;&#227;o do sonho</em>, o cap&#237;tulo I de <em>Psicopatologia da vida cotidiana </em>e, se poss&#237;vel, todo o texto de <em>O chiste e sua rela&#231;&#227;o com o inconsciente. </em>Ent&#227;o, se voc&#234; come&#231;ou a aprender algo da psican&#225;lise comigo, foi por meio desses textos e, deles, o meu preferido &#233; o texto sobre os chistes. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21XJRO%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fb359a4ff-9af6-4838-ad79-8c954a394e78_620x367.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XJRO!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb359a4ff-9af6-4838-ad79-8c954a394e78_620x367.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XJRO!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb359a4ff-9af6-4838-ad79-8c954a394e78_620x367.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XJRO!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb359a4ff-9af6-4838-ad79-8c954a394e78_620x367.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XJRO!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb359a4ff-9af6-4838-ad79-8c954a394e78_620x367.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw"><img 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" 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Bem, uma das coisas que aquele v&#233;io que a gente n&#227;o pode jogar com a &#225;gua do banho diz &#233; que <em>&#8220;As palavras s&#227;o um material pl&#225;stico com que se pode fazer tudo&#8221;</em> (Freud, 1905, p. 52). E, meua migo, quando Freud diz isso ele adianta a no&#231;&#227;o de o inconsciente estruturado como uma linguagem e a perspectiva lacaniana de acordo com a qual a psican&#225;lise lida com algo material. E ele usa a express&#227;o &#8220;trabalho do chiste&#8221; e &#8220;trabalho de compreens&#227;o do chiste&#8221; e explica como s&#227;o duas coisas diferentes; fala sobre os variados mecanismos que podem produzir um chiste:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Os interessantes processos da condensa&#231;&#227;o com forma&#231;&#227;o substitutiva, que reconhecemos como o n&#250;cleo da t&#233;cnica do chiste verbal, nos conduziram &#224; forma&#231;&#227;o dos sonhos, em cujo mecanismo se revelam os mesmos processos ps&#237;quicos. [&#8230;] Uma concord&#226;ncia t&#227;o grande quanto essa entre os recursos do trabalho chistoso e do trabalho on&#237;rico n&#227;o pode ser fortuita. Demonstrar essa concord&#226;ncia detalhadamente e investigar seus fundamentos constituir&#225; uma de nossas pr&#243;ximas tarefas&#8221;.</em> (Freud, 1905, p. 127-128)  </p><p style="text-align: justify;">A minha conclus&#227;o disso &#233; mais ou menos a seguinte: contar um sonho &#233; algo que funciona em an&#225;lise por conta da aten&#231;&#227;o flutuante que &#233; um jeito de acessar o encadeamento inconsciente do outro. Na vida normal, contar um sonho pode ser s&#243; um exerc&#237;cio de estupefa&#231;&#227;o diante do absurdo e at&#233; meio chato, a ponto de Deborah dizer &#224; Ava que ela tem uma regra sobre n&#227;o contar sonhos. E algumas temporadas &#224; frente, Deborah conta um sonho e Ava a lembra da tal regra. Mas Deborah  responde: &#8220;<em>Voc&#234; n&#227;o pode me contar os seus sonhos, eu posso contar os meus&#8221;. </em>E isso s&#243; &#233; engra&#231;ado porque algo que se partilha nesse momento &#233; do humor. </p><p style="text-align: justify;">A primeira temporada de Hacks &#233; pesada e a segunda at&#233; certa altura tamb&#233;m &#233; porque existe algo na rela&#231;&#227;o entre as pessoas que torna o exerc&#237;cio de se tornar &#237;ntimo de algu&#233;m, em primeiro lugar, uma escolha e, em segundo lugar, uma decis&#227;o rec&#237;proca. N&#227;o &#233; poss&#237;vel ser amigo de algu&#233;m sozinho e n&#227;o d&#225; pra insistir em rela&#231;&#245;es que te colocam numa posi&#231;&#227;o de expectativa em rela&#231;&#227;o &#224; quantidade de tempo e energia que a pessoa tem para gastar com voc&#234;. Quando Ava e Deborah se conhecem elas n&#227;o t&#234;m essa disposi&#231;&#227;o, ao contr&#225;rio, elas se veem como muito diferentes. E elas s&#227;o de fato, mas h&#225; algo sobre elas que as aproxima, e que, mais de uma vez, Deborah usa como uma den&#250;ncia: somos iguais. Eu acho que sim, Ava e Deborah tem algumas caracter&#237;sticas em comum, sendo uma das principais a obstina&#231;&#227;o. Mas o que torna o encontro entre as duas digno de assistir como quem presencia um belo (des)encontro amoroso &#233; o humor. </p><p style="text-align: justify;">Acho que Freud acerta muito quando diz que das forma&#231;&#245;es do inconsciente o chiste &#233; a mais feliz porque o drible ao recalque produz riso. E &#233; um drible que vai exigir uma s&#233;rie de caracter&#237;sticas das pessoas envolvidas, sendo uma delas partilhar de uma intelig&#234;ncia em comum. Intelig&#234;ncia &#233; uma forma de compreender as coisas. Por isso pode ser desesperador habitar esse mundo que Ava Daniels denuncia com seus rompantes de <em>GenZ</em> e que Debora Vance, do alto dos seus 70 anos, consegue olhar a partir de outra perspectiva. </p><p style="text-align: justify;">&#192;s vezes quando eu converso com meus alunos, escuto tamb&#233;m esses desespero e tento n&#227;o meter o famoso <em>&#8220;voc&#234; &#233; muito jovem&#8221;. </em>Em vez disso, costumo contar como eu era com vinte e poucos anos e as coisas que eu fazia quando achava que ia faltar ch&#227;o para eu pisar. Eu j&#225; vivi o dobro da vida deles e isso n&#227;o me torna mais experiente. Ali&#225;s, isso em <em>Hacks</em> &#233; sensacional: Deborah &#233; uma mulher mais velha numa rela&#231;&#227;o de poder diante de Ava, mas ela NUNCA a aconselha. E o que Deborah sabe &#233; que ela s&#243; sabe viver a pr&#243;pria vida e n&#227;o a dos outros. </p><p style="text-align: justify;">Certa feita eu estava tendo uma conversa com a minha m&#227;e em que ela dizia sobre o quanto eu e a minha fam&#237;lia viv&#237;amos errado. Ela falou isso com essas palavras mesmo. Escutei e perguntei: <em>&#8220;voc&#234; acha que o &#250;nico jeito certo de viver a vida &#233; o que voc&#234;s (ela e meu pai) vivem?&#8221;</em> E ela disse que sim. Ali eu vi que n&#227;o haveria di&#225;logo poss&#237;vel. Porque a minha <em>baby boomer</em> de estima&#231;&#227;o, respons&#225;vel por v&#225;rias concep&#231;&#245;es centrais &#224; minha exist&#234;ncia - como a n&#227;o obriga&#231;&#227;o de se casar e ter filhos e a import&#226;ncia de trabalhar -  gostaria que eu vivesse minha vida como ela viveu, o que talvez daria a ela algum al&#237;vio, uma no&#231;&#227;o de que fez as coisas de forma correta. Quanto a mim, quando vejo minha filha se derretendo quando aparece um menino perto dela e olho chacoalhando a cabe&#231;a contrariada para meu marido dizendo <em>&#8220;certeza que vai ser hetero&#8221;, </em>al&#233;m de protagonizar uma esquete do porta dos fundos, fico com a impress&#227;o de que, como m&#227;e, preciso me esfor&#231;ar para n&#227;o virar a moeda da minha m&#227;e e agir de acordo com a mesm&#237;ssima l&#243;gica operando em seu oposto: <em>&#8220;seja diferente de mim&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Hacks </em>&#233; sensacional por v&#225;rios motivos e eu tamb&#233;m achei os primeiros epis&#243;dios da primeira temporada meio nh&#233;. Sentirei falta de Ava, e do jeito afobado e falante demais dela - coisa que a mim tamb&#233;m j&#225; custou coisas caras. Sentirei falta de Deborah, cuja impaci&#234;ncia, sentimento de solid&#227;o eventual e gosto por antiguidades e guarda-roupa de on&#231;a eu compartilho. Mas sobretudo sentirei falta desse amor cuidadosamente constru&#237;do com o texto dos autores. Quando comecei a ver a quinta temporada, retomei as anteriores e fui me dando conta do quanto o texto dessa s&#233;rie &#233; consistente. H&#225; coisas que acontecem nos primeiros epis&#243;dios que s&#227;o lindamente rematadas na &#250;ltima. E n&#227;o, n&#227;o acho que deveria continuar. N&#227;o acho que deveria ter um filme. Como tamb&#233;m n&#227;o quero voltar a ter 20 anos. &#201; bom lembrar de mim com 20 e tantos anos e perceber que, como Ava, foi beirando os 30 que eu encontrei minha voz e me tornei mais parecida com o que sou. E que ter amigas foi parte essencial disso. Ainda &#233;.</p><p style="text-align: justify;">Ao final do &#250;ltimo epis&#243;dio, quando os cr&#233;ditos terminaram eu chorei porque nunca mais veria Ava e Deborah interpretar algo que &#233; sensacional no humor: oferecer uma abertura do pr&#243;prio inconsciente ao inconsciente do outro. N&#227;o tem como n&#227;o se apaixonar quando isso acontece. E que fique registrado: se eu tiver outra filha, vou dar o nome de Ava Daniels.</p><p style="text-align: justify;">FREUD, S. (1905). Obras completas, volume 7: o chiste e suas rela&#231;&#245;es com o inconsciente. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2017</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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O ano era 2013 e a disciplina era Teorias da Personalidade. No meio do almo&#231;o, uma das ex-alunas narrou uma cena de que n&#227;o tenho nenhuma lembran&#231;a, mas que ela afirmou ter tido um impacto sobre a forma como ela se posiciona profissionalmente at&#233; hoje. Eu era supervisora de cl&#237;nica e a supervis&#227;o acontecia sextas de manh&#227;. Em uma dessas sextas, ela chegou virada de uma festa. Assim que entrou,  farejei algo no ar e disse impass&#237;vel: <em>&#8220;Voc&#234; vai pra casa, voc&#234; vai tomar um banho, vai tirar esse cheiro de cacha&#231;a do corpo, voc&#234; vai dormir e segunda-feira a gente conversa&#8221;.</em> </p><p style="text-align: justify;">Embora a lembran&#231;a tenha sido mais marcante a ela do que a mim - quem bate esquece, quem apanha lembra - ela &#233; muito veross&#237;mil, assim como a frase que ilustra o t&#237;tulo dessa publica&#231;&#227;o. A cada nova turma formada de psicologia, pipocam os perfis profissionais das novas psic&#243;logas. Destes, alguns me seguem e pedem para eu seguir de volta, outros vejo aparecerem como sugest&#227;o e raramente pe&#231;o para seguir, porque parto do princ&#237;pio que a pessoa em quest&#227;o tenha levado a s&#233;rio <s>a amea&#231;a</s> o aviso do t&#237;tulo. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Mas como fa&#231;o parte do processo formativo e, eventualmente, entrego at&#233; os diplomas, vou delinear algumas coisas.</p><p style="text-align: justify;">Escrevo esse texto para todas as minhas alunas, para estudantes de psicologia que porventura tenham acesso a ele, para colegas j&#225; formadas que se debatem com quest&#245;es similares e para pessoas que procuram psic&#243;logas para fazer psicoterapia. Escreverei sobre algumas coisas que vejo na rede ao lado sobre as quais penso: "<em>puxa vida, ser&#225; que, numa dessas, n&#227;o teria outro jeito de ser psic&#243;loga nas redes sociais? </em>Parte do que penso desenvolvi  <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Falgumtempo.substack.com%2Fp%2Fagenda-aberta-para-atendimentos">aqui</a>, quando falei sobre a famigerada &#8220;agenda aberta para atendimentos&#8221;. Mas hoje  quero explorar outros aspectos, e estes dizem respeito ao que eu vou chamar de &#8220;psicologia cosm&#233;tica&#8221;.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21pmH2%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21pmH2%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg" width="528" height="356" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:356,&quot;width&quot;:528,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:69971,&quot;alt&quot;:&quot;Imagem de Chico Buarque em que numa das fotos ele est&#225; s&#233;rio e na outra sorrindo, remetendo ao meme Chico feliz, Chico triste&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/i/196421295?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Imagem de Chico Buarque em que numa das fotos ele est&#225; s&#233;rio e na outra sorrindo, remetendo ao meme Chico feliz, Chico triste" title="Imagem de Chico Buarque em que numa das fotos ele est&#225; s&#233;rio e na outra sorrindo, remetendo ao meme Chico feliz, Chico triste" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pmH2!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F70cfadf3-2bcd-4495-8a9e-968c9c51f295_528x356.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Chico antes da terapia             Chico depois da terapia </figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;">Por raz&#245;es &#243;bvias, o algoritmo do Instagram frequentemente me mostra publica&#231;&#245;es de psic&#243;logas (n&#227;o apenas daquelas de cujas forma&#231;&#245;es participei). S&#227;o postagens patrocinadas de marketing para psic&#243;logas, contadores para psic&#243;logas e, meu preferido, cursos para psic&#243;logas atra&#237;rem os &#8220;clientes n&#237;vel ouro&#8221;, vulgo, que pagam mais. As postagens s&#227;o muito apelativas e s&#227;o promovidas por quem atua no nicho vender curso para <s>enganar ot&#225;rios</s> atrair profissionais que querem viver da cl&#237;nica. Essas publica&#231;&#245;es revelam quanto as psic&#243;logas cobram, quantas horas trabalham por semana e sobre como deixar de ser uma psic&#243;loga que faz &#8220;atendimento social&#8221;. Em algumas delas, rola at&#233; um apelo relativo &#224; imagem de si mesma (roupas, maquiagem e afins) e do consult&#243;rio (sim, existe uma est&#233;tica do consult&#243;rio de sucesso).</p><p style="text-align: justify;">Eu, definitivamente, n&#227;o vejo problema em psic&#243;loga ganhar dinheiro sendo psic&#243;loga. Acredito que n&#227;o podemos precarizar o valor dos atendimentos e poderia discorrer longamente sobre as aspas que coloquei quando escrevi atendimento social (fica para outro texto). Penso que a forma&#231;&#227;o em Psicologia precisa se deparar com as contradi&#231;&#245;es que envolvem ser psic&#243;loga no Brasil e precisa preparar suas alunas para a realidade do mercado de trabalho que &#233; sim prec&#225;rio. Como a vasta maioria das psic&#243;logas brasileiras que ganham mais que seis sal&#225;rios m&#237;nimos, eu mesma tenho duas fontes de renda. Mas tenho visto com preocupa&#231;&#227;o a forma como psic&#243;logas t&#234;m conduzido seu trabalho nas redes sociais. Alguns pontos em particular me incomodam: </p><p style="text-align: justify;"><strong>1. A psicoterapia como imperativo e ins&#237;gnia de autocuidado em sa&#250;de mental:</strong></p><p style="text-align: justify;">Esse &#233; um tema que aparece muito e, nas postagens, o objetivo de textos um tanto apelativos &#233; chamar as pessoas para fazer psicoterapia. Fico pensando que n&#227;o &#233; muito diferente das publica&#231;&#245;es de dermatologistas que aparecem para mim, que sou uma mulher 40+ e por isso deveria - em tese - estar fazendo Botox, preenchimento e blefaroplastia. Voc&#234; pode sequer ter cogitado uma queixa e uma postagem sugere que voc&#234; t&#225; vivendo errado, que trabalha demais, sofre demais, se descuida demais de si mesma, tem um relacionamento violento demais. E vejam, o problema n&#227;o &#233; fazer uma postagem dizendo que existem relacionamentos abusivos, que existe Burnout, e insira aqui v&#225;rios eteceteras. O que me incomoda &#233; quando as postagens t&#234;m esse tom aqui:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yxTs%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F794e478f-231f-4dac-8639-e1eba7e6d013_550x362.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yxTs!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F794e478f-231f-4dac-8639-e1eba7e6d013_550x362.jpeg 424w, 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width="550" height="362" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/794e478f-231f-4dac-8639-e1eba7e6d013_550x362.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:362,&quot;width&quot;:550,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Personagem seu Creyson do programa Casseta e Planeta que prometia produtos milagrosos para muitos problemas&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Personagem seu Creyson do programa Casseta e Planeta que prometia produtos milagrosos para muitos problemas" title="Personagem seu Creyson do programa Casseta e Planeta que prometia produtos milagrosos para muitos problemas" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" 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T&#225; tudo bem sim escrever sobre situa&#231;&#245;es, sintomas e temas de sa&#250;de mental, mas o cuidado &#233;: ao fazer isso, dar a entender que, ao fazer psicoterapia, a pessoa vai encontrar a resposta, a solu&#231;&#227;o, a cura. Se esse for o tom, vamos rever? Porque por melhor que seja nossa forma&#231;&#227;o, por mais cursos que a gente tenha, por mais credenciais, nunca em tempo algum uma psic&#243;loga pode oferecer garantias. Ent&#227;o, a descri&#231;&#227;o <em>&#8220;te ajudo a [insira aqui qualquer coisa, desde lidar com m&#227;e narcisista at&#233; acertar no jogo do bicho]&#8221;</em> precisa ser questionada. Ajuda mesmo? O que &#233; ajudar? Percebem o quanto &#233; vaga essa afirma&#231;&#227;o? Voc&#234; pode garantir que ajuda? Assina um contrato em duas vias e reconhece firma no cart&#243;rio? Porque, se n&#227;o, talvez seja melhor colocar na bio seu n&#250;mero de CRP, sua forma&#231;&#227;o e abrir caixinha de perguntas sobre assuntos do seu interesse, ajudando a promover a psicologia como ci&#234;ncia e profiss&#227;o. E essa dica me leva ao segundo ponto:</p><p style="text-align: justify;"><strong>2. Publicizar </strong><em><strong>feedbacks </strong></em><strong>de clientes/pacientes/analisantes/&#244;, freguesia:</strong></p><p style="text-align: justify;">Legal, voc&#234; abriu seu consult&#243;rio e &#233; relativamente usual que psic&#243;logas e pessoas atendidas se comuniquem por mensagem. &#201; ainda comum que as pessoas atendidas tentem usar esse canal para coisas que fogem do escopo da comunica&#231;&#227;o e situa&#231;&#245;es de urg&#234;ncia e emerg&#234;ncia e mandem mensagem para falar sobre outras coisas. N&#227;o &#233; incomum que por vezes, uma psic&#243;loga responda essas mensagens, quando acha que deve. E &#233; menos incomum ainda ela sentir que est&#225; utilizando mais desse espa&#231;o do que deveria. Contudo, trata-se de uma conversa privada e que, portanto, est&#225; resguardada pelo sigilo profissional. Ent&#227;o, mensagens de agradecimento e reconhecimento pelo trabalho podem sim aparecer. Mas o que a gente faz com elas? Agradece e segue o baile. Segura os dedinhos do print, t&#225;? <em>Mas eu pedi autoriza&#231;&#227;o para a pessoa e ela deu. Al&#233;m disso, n&#227;o a identifiquei na mensagem. Por que &#233; errado? </em>Bem, dentre os princ&#237;pios fundamentais do c&#243;digo de &#233;tica est&#225; resguardar o sigilo. Vamos supor que algu&#233;m do c&#237;rculo &#237;ntimo daquela pessoa segue seu perfil profissional e sabe que aquela pessoa &#233; atendida por voc&#234;. S&#243; de passar pela cabe&#231;a de um terceiro a possibilidade de aquela mensagem ser do colega do <em>beach</em>, voc&#234; j&#225; quebrou o sigilo. </p><p style="text-align: justify;">Al&#233;m disso, vamos falar sobre autoriza&#231;&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">O nosso c&#243;digo de &#233;tica foi formulado a partir da Declara&#231;&#227;o Universal dos Direitos Humanos, princ&#237;pios da bio&#233;tica e alguns estatutos (vamos falar sobre isso adiante). Dentre os princ&#237;pios da bio&#233;tica existe o da autonomia. Ent&#227;o, quando uma pessoa te d&#225; autoriza&#231;&#227;o para algo, a pergunta que um profissional s&#233;rio tem a se fazer &#233;: <em>essa pessoa tem todas as condi&#231;&#245;es de autonomia necess&#225;rias para me autorizar?</em> E mesmo que eu esteja falando de um adulto, eu gostaria de lembrar que a rela&#231;&#227;o psic&#243;loga e pessoa atendida n&#227;o &#233; uma rela&#231;&#227;o horizontal. Por isso a gente tem que cuidar tanto do que fala, porque assumimos uma rela&#231;&#227;o de poder no momento em que uma pessoa nos procura quando tem algum tipo de sofrimento e confia que podemos acompanh&#225;-la na travessia que envolve lidar com esse sofrimento. Logo, ao assumir essa posi&#231;&#227;o, uma psic&#243;loga n&#227;o pode fazer pedidos que a pessoa possa se sentir constrangida em responder negativamente. Que tal preservarmos a rela&#231;&#227;o terap&#234;utica ao ambiente estrito do atendimento? Oba! J&#225; estou com a roupa de ir.</p><p style="text-align: justify;"><strong>3. Postar foto das pessoas, comentar casos em stories (mesmo que no close friends, estamos de olho), postar imagens de desenhos e produ&#231;&#245;es infantis</strong></p><p style="text-align: justify;">Uma d&#250;vida sincera: no meio do atendimento a pessoa saca o celular e tira uma foto da crian&#231;a brincando? Lembram que eu disse no t&#243;pico anterior sobre o c&#243;digo de &#233;tica ser regido por alguns estatutos? Um deles &#233; o ECA e, portanto, voc&#234; n&#227;o exp&#245;e NADA que diga respeito a uma criatura que j&#225; &#233; vulnerabilizada. Vou dar um exemplo pessoal fora do campo da Psicologia: anos atr&#225;s meu pai foi fotografado em uma atividade desenvolvida por um profissional de sa&#250;de usando um adere&#231;o que fazia alus&#227;o a uma data comemorativa. Meu pai &#233; idoso e tem dem&#234;ncia. Pessoas da minha fam&#237;lia viram a postagem e n&#227;o gostaram de v&#234;-lo numa situa&#231;&#227;o que interpretaram - com raz&#227;o - como infantilizada. E &#233; por isso que a gente n&#227;o deve chamar pessoas idosas de &#8220;menininha&#8221;, &#8220;mocinha&#8221; ou usar voz infantil para falar com o p&#250;blico (mais um assunto para outro texto).</p><p style="text-align: justify;">Aqui o argumento &#233; bem parecido com os prints das mensagens. Mas aqui a exposi&#231;&#227;o extrapolou em muitas casinhas o m&#237;nimo esperado de bom senso. N&#227;o existe NENHUM argumento no campo da psicologia enquanto ci&#234;ncia que ateste o benef&#237;cio ao tratamento de voc&#234; mostrar uma imagem de algu&#233;m ou de uma produ&#231;&#227;o exceto para publica&#231;&#245;es cient&#237;ficas que passaram por comit&#234; de &#233;tica em pesquisa. Uma produ&#231;&#227;o infantil, uma brincadeira, um presente, um tatu que o analisante deixou na sua mesa, tudo isso &#233; conte&#250;do subjetivo, diz respeito &#224;quele atendimento e deve estar submetido ao princ&#237;pio do sigilo. E n&#227;o vou repetir o que eu j&#225; disse sobre autoriza&#231;&#227;o e autonomia porque n&#227;o vou chover no molhado.</p><p style="text-align: justify;">Mas vou perguntar de novo: o pessoal saca o celular na caruda e tira uma foto? Pede selfie tamb&#233;m? Se apresenta para a crian&#231;a como a &#8220;tia&#8221;? E se faz acompanhamento terap&#234;utico, registra no stories tamb&#233;m? A necessidade de exibi&#231;&#227;o dos atendimentos &#233; uma das aulas do curso de marketing para psic&#243;logas? &#192;s vezes no sil&#234;ncio da noite me pego pensando sobre essas quest&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">Para concluir, vou contar uma coisa aqui: outro dia eu dei uma aula sobre o c&#243;digo de &#233;tica porque queria retomar os princ&#237;pios fundamentais com minhas alunas do quinto ano. Foi uma aula em que tentei articular as nossas pr&#225;ticas, enquanto psic&#243;logas, a partir da dimens&#227;o de cuidado. E o que envolve cuidar do outro levando em considera&#231;&#227;o os princ&#237;pios da bio&#233;tica. N&#227;o sem deixar de destacar o quanto esses princ&#237;pios podem ser problematizados, levando em conta a diversidade da popula&#231;&#227;o que atendemos. As pesquisas indicam que o sonho dourado da estudante de psicologia ainda &#233; a cl&#237;nica. &#201; sim um local rent&#225;vel para trabalhar quando voc&#234; consegue se firmar profissionalmente nesse espa&#231;o. Mas isso vai depender de muita coisa e posso falar a esse respeito outro dia. Hoje temos mais de mil cursos de Psicologia no Brasil e esse n&#250;mero s&#243; cresce, portanto, a forma&#231;&#227;o precisa ser cr&#237;tica o suficiente para o que a gente tenha a oferecer ultrapasse uma dimens&#227;o cosm&#233;tica da psicologia em que, bem conversadinho, a gente pode apenas estar ensinando as pessoas a dormir melhor para serem melhor exploradas.</p><p style="text-align: justify;">Temos hoje uma discuss&#227;o muito s&#233;ria no STF em torno da tentativa de permitir que psic&#243;logas se apresentem como psic&#243;logas crist&#227;s. Isso tamb&#233;m &#233; assunto para outro texto. Mas n&#227;o se enganem, pois as viola&#231;&#245;es que eu elenquei aqui s&#243; diferem em grau da falta de cuidado promovida pela ideia de que a psicologia pode ser um ferramenta de f&#233;. Aqui eu falei sobre um tipo de f&#233;: a f&#233; no algoritmo. &#192; meia noite, te conto um segredo: &#224; medida que o algoritmo te coloca pra trabalhar pra ele, voc&#234; vai se descuidar das pessoas com as quais voc&#234; se comprometeu a escutar. Minha dica &#233;: para come&#231;ar a trilhar essa carreira, do ponto de vista f&#237;sico, o consult&#243;rio s&#243; precisa ser limpo. A forma&#231;&#227;o precisa ser constante. As postagens v&#227;o rarear porque n&#227;o vai sobrar tempo pra elas, mas quando elas aparecerem, que elas sejam sobre a psicologia e n&#227;o sobre voc&#234;. Isso tamb&#233;m est&#225; nos princ&#237;pios fundamentais. Bora voltar pra casa, tomar um banho e tirar esse cheiro de psicologia cosm&#233;tica do corpo? Segunda-feira a gente conversa.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Na imagem, lemos uma nota de retrata&#231;&#227;o divulgada pela <em>Revista Estilos da Cl&#237;nica</em>, peri&#243;dico de ampla circula&#231;&#227;o no meio psi. O editor afirma a constata&#231;&#227;o de que um <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fpepsic.bvsalud.org%2Fpdf%2Festic%2Fv24n1%2Fa13v24n1.pdf">artigo publicado</a>, cuja autoria havia sido atribu&#237;da a Alexandre Patr&#237;cio, foi em grande parte plagiado a partir de um <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.fundamentalpsychopathology.org.br%2Fwp-content%2Fuploads%2F2025%2F11%2F82.3.docx-Rafaela-Paixao-4.pdf">trabalho publicado anos antes</a>, de autoria de Rafaela. Eu recomendo fortemente a leitura dos dois textos.</p><p style="text-align: justify;">Minhas considera&#231;&#245;es partem de algu&#233;m que vive esse <em>feat</em> psican&#225;lise e universidade, coisa que pode ser muito dissonante, mas que pode n&#227;o ser (coisa que me anima). O pl&#225;gio cometido por Patr&#237;cio aponta para alguns problemas pr&#243;prios desse tempo louco que a gente vive. Aponta tamb&#233;m para o produtivismo acad&#234;mico. E, aponta para um modo de estar psicanalista nas redes sociais que me preocupa e, confesso, me deprime um pouquinho. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Eu acredito, porque com mais um tempo de academia ele teria aprendido uma pr&#225;tica deveras comum que &#233; ler um texto publicado, &#8220;se inspirar&#8221; nas ideias e constru&#231;&#245;es te&#243;ricas ali desenvolvidas e convenientemente n&#227;o citar aquele autor, mas apenas os autores de maior renome. &#201; bonito isso? N&#227;o, &#233; feio. Pode fazer? N&#227;o, n&#227;o pode. Mas &#233; menos detect&#225;vel. Mas, como avaliadora em revistas, afirmo: eu nunca fui procurar pl&#225;gio. Simplesmente porque parto do princ&#237;pio da boa-f&#233;. </p><p style="text-align: justify;">Quando o artigo foi publicado ele fez uma postagem para divulgar. &#201; um parto publicar e quando um texto finalmente sai a gente conta at&#233; pro padeiro. Mas ele, na legenda do post, falou que estava feliz em compartilhar aquele artigo porque o caso que ele ilustrava tinha sido muito desafiador. E a&#237;, minha gente, a coisa ela entra num outro patamar, porque para quem n&#227;o se deu o trabalho de ler os textos que eu fiz quest&#227;o de linkar, o pl&#225;gio era de um caso cl&#237;nico. E n&#227;o s&#243;, as autoras o apresentaram em um evento cuja mesa-redonda Patricio era o coordenador. Logo, ele ouviu o relato daquele caso, ele se deparou com as constru&#231;&#245;es cl&#237;nicas ali realizadas. As autoras bancaram uma decis&#227;o cl&#237;nica, fundamentaram essa decis&#227;o, refletiram sobre ela e deram a cara a tapa em um evento. Isso significa que, se copiar um pensamento j&#225; &#233; bem ruim, se apropriar de caso cl&#237;nico &#233; mais feio que bater na m&#227;e. E por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">Eu e qualquer estudante de segundo ano de Psicologia poder&#237;amos discorrer longamente sobre o assunto. Mas vou ser sucinta (risos, n&#227;o vou): porque a psican&#225;lise s&#243; existe por causa da cl&#237;nica. Essa &#233; a resposta mais simples que eu poderia dar, mas sei que ela tem camadas e mais camadas que colocam a gente cara a cara com os conceitos fundamentais, conceitos estes que n&#227;o foram inven&#231;&#245;es, mas descobertas a partir da experi&#234;ncia anal&#237;tica. A metapsicologia, nome que Freud deu pra resumir as explica&#231;&#245;es te&#243;ricas que ele desenvolveu para pensar a cl&#237;nica, s&#243; existe porque a psican&#225;lise come&#231;a como uma pr&#225;tica de investiga&#231;&#227;o do inconsciente. Por isso que a gente ouve tanto falar de coisas como Caso Dora, Caso Schreber, Homems dos Ratos e assim por diante. Resumindo bem: a psican&#225;lise s&#243; aconteceu porque um tipo espec&#237;fico de sofrimento foi escutado e porque Freud deixou de ser m&#233;dico. Mas acima de tudo, porque ele reconheceu na analisante um saber sobre seu sintoma que ele mesmo n&#227;o tinha. Ent&#227;o, quando um pesquisador se apropria de um caso cl&#237;nico, potencializa a ideia de plagiar um texto. Ele se apropriou de uma experi&#234;ncia cl&#237;nica e tratou como se dele fosse. Um homem barbado. Acrescento: para a maioria de n&#243;s, psicanalistas, a psican&#225;lise se fez possibilidade de trabalho por tr&#234;s motivos que se complementam de modos muito singulares: an&#225;lise pessoal, experi&#234;ncia com a teoria e experi&#234;ncia cl&#237;nica. Quando uma analista faz uma aposta, uma interven&#231;&#227;o ousada, ela faz no exerc&#237;cio da pr&#243;pria criatividade. Uma an&#225;lise &#233; um produto artesanal. N&#227;o deveria ser preciso dizer pro colega <em>&#8220;pode usar, s&#243; n&#227;o faz igual&#8221;.</em></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21vVB9%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F81fafb2e-dac4-47c1-8764-de88fc2f5c48_3000x2477.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vVB9!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F81fafb2e-dac4-47c1-8764-de88fc2f5c48_3000x2477.jpeg 424w, 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width="1456" height="1202" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/81fafb2e-dac4-47c1-8764-de88fc2f5c48_3000x2477.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1202,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2546933,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/i/192863264?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F81fafb2e-dac4-47c1-8764-de88fc2f5c48_3000x2477.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" title="" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;">Tem uma teclazinha que eu vivo batendo como professora, sobretudo quando vou orientar trabalho ou falar sobre a psican&#225;lise como m&#233;todo de pesquisa. Ela &#233;: a psican&#225;lise tem seu pr&#243;prio m&#233;todo, aprenda a usar na pesquisa. Tem muitos bons textos sobre o assunto e, sinceramente, estou com pregui&#231;a de linkar eles aqui, mas fiquem bem &#224; vontade para colocar no google &#8220;pesquisa em psican&#225;lise&#8221;. Rapaz, a quantidade de coisas que voc&#234;s v&#227;o encontrar&#8230; E uma das possibilidades de pesquisar em psican&#225;lise &#233;, PASME, a constru&#231;&#227;o do caso cl&#237;nico. Eu acho muito legal porque um caso cl&#237;nico te implica, te revira, te faz mergulhar fundo, sobretudo: TE MOVIMENTA. Se psicanalista gosta de estudar n&#227;o &#233; por amor &#224; teoria, por amor &#224; ret&#243;rica psicanalit&#237;ca, mas &#233; por algo que nosso querido Sigmund ensinou pouco antes de virar o cabo da boa esperan&#231;a: &#233; por amor &#224; verdade. E essa verdade &#233; a verdade do inconsciente. </p><p style="text-align: justify;">Sobre esse assunto, a &#250;nica coisa que falarei aqui e que deve ter algo a ver com as linhas que estou tra&#231;ando &#233; que essa verdade n&#227;o &#233; a verdade da raz&#227;o. E &#233; por causa disso que a rela&#231;&#227;o entre psican&#225;lise e universidade nunca foi sem conflito. S&#227;o epistemologias distintas. Ent&#227;o, quando a gente t&#225; na universidade e fala sobre psican&#225;lise, seja na gradua&#231;&#227;o seja na p&#243;s-gradua&#231;&#227;o, &#233; importante entrar sabendo que vamos ter que marcar territ&#243;rio. E foi marcando territ&#243;rio a partir desse objeto de investiga&#231;&#227;o disruptivo que a psican&#225;lise se mant&#233;m. No ano da gra&#231;a de 2026 esse territ&#243;rio precisa sim ser defendido, precisa sim ser consistente. E existem muitos meios de fazer isso. Na minha pr&#225;tica eu tento ter uma cl&#237;nica consistente e tento ser uma boa professora de psican&#225;lise na gradua&#231;&#227;o. Algumas pessoas v&#227;o buscar outras vias, por exemplo, levar a psican&#225;lise pra rua, popularizar, fazer circular nas redes. E, gente, nada contra. Tenho at&#233; amigos que s&#227;o. Contudo, &#233; preciso dizer: cuidado. </p><p style="text-align: justify;">Outra frase do Freud que curto muito diz que primeiro a gente abre m&#227;o da palavra depois da coisa. Quando ele disse isso, ele falava sobre a palavra sexualidade. E abrir m&#227;o da coisa sexualidade seria um grande problema pra psican&#225;lise. Mas do que a gente t&#225; abrindo m&#227;o enquanto palavra hoje e que desemboca na perda da coisa? Quem &#233; que tem tempo de entrar na roda-viva acad&#234;mica e publicar nas redes sociais e dar aula e ter consult&#243;rio? Eu sei que eu n&#227;o tenho. E tem uma receitinha que os psicanalistos usam muito quando eles est&#227;o no topo da cadeia alimentar (que nem &#233; o caso do Patr&#237;cio): colocar os outros pra produzir por eles. E os outros que n&#227;o querem ser comidos, fazem. Mas fazem sabendo, podem ter certeza. Fazem jogando o jogo. &#201; um salve-se quem puder que, confesso, para mim &#233; bem dif&#237;cil de entrar. Deve ser por isso que j&#225; fiz dez concursos p&#250;blicos e uma coisa que me derruba &#233; sempre curr&#237;culo. Eu nunca foi muito prol&#237;fica. </p><p style="text-align: justify;">Portanto, o que pensar de um artigo plagiado que trata um caso cl&#237;nico, a experi&#234;ncia &#250;nica e insubstitu&#237;vel de um caso cl&#237;nico, sempre pensado um a um, como se seu fosse? Eu fico chocada. E me choca tamb&#233;m quem defenda que n&#227;o devemos falar sobre isso porque a pessoa se desculpou. Amada???? Voc&#234; tem duas horas pra eu te explicar o conceito de recalque? O que a gente recalca quando a gente n&#227;o fala sobre isso ou julga errado as pessoas falarem que o ato de plagiar um artigo &#233; ruim e o de se apossar de um caso cl&#237;nico beira a canalhice? Tudo isso pra n&#227;o constranger? Imagine voc&#234; ler um artigo e ver suas palavras ali. Imagine a sensa&#231;&#227;o de ter suas elabora&#231;&#245;es que custaram an&#225;lise e supervis&#227;o usurpadas. Mas n&#227;o, imagina a pessoa plagiadora se deparar com o fato que as opini&#245;es sobre si podem n&#227;o ser lisonjeiras. Responsabilidade nesse caso n&#227;o &#233; s&#243; admitir o erro. &#201; lidar com as consequ&#234;ncias de um erro ter se tornado p&#250;blico. </p><p style="text-align: justify;">Fico pensando se toda essa situa&#231;&#227;o n&#227;o nos colocaria a pensar sobre o lugar dos homens na psican&#225;lise. Minha opini&#227;o a esse respeito est&#225; no t&#237;tulo quando escolhi falar sobre um psicanalisto e n&#227;o um psicanalista. Eu realmente n&#227;o tenho condi&#231;&#245;es de elaborar isso daqui num post do substack. Mas h&#225; alguns anos escrevi uma tese, cujo assunto era os registros da pol&#237;tica no interior da psican&#225;lise. E eu conclu&#237; algumas coisas. Primeiro, com Lacan eu aprendi que usar artigo definido pra nomear os psicanalistas pode ser complicado. Com Freud, eu aprendi que as maiores resist&#234;ncias &#224; psican&#225;lise se constroem em seu campo de origem. Ricardo Goldenberg em um livro que se chama <em>&#8220;No c&#237;rculo c&#237;nico ou caro Lacan, por que negar a psican&#225;lise aos canalhas&#8221;</em>, vai dizer que um canalha &#233; algu&#233;m que invoca normas universais para defender transgress&#245;es particulares. Ora, ora, ora. Basicamente significa fazer um uso c&#237;nico da liberdade. Imagine o perigo disso quando quem carrega o cinismo &#233; um psicanalista? Lacan ensinou que a identifica&#231;&#227;o com a psican&#225;lise n&#227;o &#233; o suficiente para sedimentar o desejo de analista. E eu digo uma coisinha aqui pra voc&#234;s para terminar, eu escrevi isso na <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.bdtd.uerj.br%3A8443%2Fhandle%2F1%2F14567">minha tese</a>, ent&#227;o, nada de copiar, viu: <em>&#8220;para ser psicanalista tem que ter disposi&#231;&#227;o, para ser psicanalista tem que ter habilidade, Disposi&#231;&#227;o e habilidade para assumir que a verdade &#233; a causa da inven&#231;&#227;o de sua pr&#225;tica&#8221;</em> (p. 121). Concluindo, &#233; um trabalho sem fim. E, se no fim do dia, der pra diferenciar um psicanalista de um canalha com boas refer&#234;ncias, estamos no lucro.  </p><p style="text-align: justify;">PS: Maria Rita, esse texto eu escrevi pra voc&#234;, que me disse que queria saber minha opini&#227;o a respeito da treta.</p><p style="text-align: justify;"> </p><p style="text-align: justify;"></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Ali ela ficou por tr&#234;s anos. A sa&#237;da do ber&#231;&#225;rio foi dif&#237;cil pra ela e pra n&#243;s e eu n&#227;o consegui sequer me despedir. Ano passado, a adapta&#231;&#227;o &#224; escola nova n&#227;o foi f&#225;cil, e por algumas semanas ela ia pra aula um pouco chorosa, mas compreensiva.  </p><p>Outro dia, no anivers&#225;rio de uma amiguinha, conversava com as m&#227;es das crian&#231;as com as quais a Lila cresceu sobre como foi sair do ber&#231;&#225;rio e frequentar o ensino regular. Fal&#225;vamos sobre o jeito das crian&#231;as e sobre o quanto elas s&#227;o atiradas em dire&#231;&#227;o &#224; vida. Eu disse rindo: <em>&#8220;&#201;, Carol, essas crian&#231;as s&#227;o desse jeito por causa de voc&#234;&#8221;. </em>Ela tamb&#233;m riu e sei que entendeu exatamente o que eu quis dizer<em>. </em></p><p>E ontem eu testemunhei o que a Lila guarda daquele tempo. Como o ber&#231;&#225;rio recebe poucas crian&#231;as entre 0 a 4 anos, &#233; comum que as maiores e as menores convivam. Naqueles tr&#234;s anos, vimos crian&#231;as crescerem e irem embora e, como a cidade &#233; pequena, &#233; comum a gente se esbarrar. </p><p>Ent&#227;o, quando uma menina de uns 7 anos se aproximou no restaurante, tentei fazer o cara-crach&#225; daquele rosto de crian&#231;a grande ao rosto que eu lembrava de uma crian&#231;a pequena. Ontem, eu deixava a Lila em frente &#224; escola, e aquela mesma menininha se aproximou e de um jeito muito doce e silencioso deu um abra&#231;o nela. Destaco o silencioso porque crian&#231;as pequenas s&#227;o muitro estridentes e gritam os nomes dos amigos quando os v&#234;em. Aquela menininha, n&#227;o. Ela se aproximou, se abaixou at&#233; ficar da altura da Lila e a abra&#231;ou. Na sa&#237;da, j&#225; no carro, perguntei se ela lembrava daquela crian&#231;a. A resposta me pegou muito desprevenida.</p><p>&#8220;<em>Mam&#227;e, eu tenho uma lembran&#231;a com a &#205;sis de uma coisa que eu nunca mais vou viver de novo. Eu, ela e a Julia brincando na chuva, l&#225; na tia Carol&#8221;.</em></p><p>Minha garganta fechou num n&#243;. Aquilo tinha acontecido em janeiro do ano passado, o &#250;ltimo m&#234;s da Lila no ber&#231;&#225;rio. Eu lembrava desse dia porque existe um v&#237;deo. A mem&#243;ria da Lila a enganou, n&#227;o era a Julia, era ela, Isis e outra amiguinha. Na imagem, a felicidade delas diante daquele momento da vida &#233; tocante, mas n&#227;o mais do que o que ela disse.</p><p>Contei pro Wyllian sobre nossa conversa. Ele olhou pra ela e disse: <em>&#8220;O nome disso, filha, &#233; saudade&#8221;. </em>Depois um pouco triste, me disse: nossa filha j&#225; tem saudades da inf&#226;ncia dela. Que dif&#237;cil &#233; crescer.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21QtXi%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F462ce07c-ed2c-451a-9f22-bea028a8be91_2610x1360.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QtXi!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F462ce07c-ed2c-451a-9f22-bea028a8be91_2610x1360.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QtXi!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F462ce07c-ed2c-451a-9f22-bea028a8be91_2610x1360.jpeg 848w, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" 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url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21bdYB%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fff0ade8c-c6fb-44cb-b4a5-0eeb759a8415_1329x988.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>O sonho: </strong>estou em um lugar com muitas pessoas. Uma feira? H&#225; algo relacionado &#224; venda de comida. A amiga que decidiu se afastar conversa comigo no tom constrangido usual dela. Fico incomodada. Ela menciona a participa&#231;&#227;o de uma amiga minha no evento de uma forma pejorativa. O coment&#225;rio me incomoda e penso: <em>&#8220;claro que ela est&#225; envolvida, por que n&#227;o se envolveria?&#8221;</em>. A amiga que decidiu se afastar fica perto, mas de forma que deixa d&#250;vidas se ela est&#225; comigo. Dou um passo pra tr&#225;s. Encontro meu marido. Ela fala com ele, que responde sem entusiasmo. Ela se afasta.</p><p><strong>O projeto: </strong>h&#225; tempos me incomodava o estado da casinha da Lila. Quando eu mandei faz&#234;-la, avisei ao marceneiro que ela ficaria no tempo. J&#225; entendi que esse marceneiro se faz de sonso. A casinha ficou feia, com manchas escuras. Eu n&#227;o tinha tempo de lidar com ela. Mas as f&#233;rias e a decis&#227;o de fazer coisas que me deixam contente conflu&#237;ram e eu tinha tinta, corantes e muita autoconfian&#231;a. Eu n&#227;o precisava perguntar como a Lila gostaria que a casinha fosse pintada porque esse &#233; o tipo de desenho que ela faz:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21bdYB%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fff0ade8c-c6fb-44cb-b4a5-0eeb759a8415_1329x988.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bdYB!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff0ade8c-c6fb-44cb-b4a5-0eeb759a8415_1329x988.png 424w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" 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Organizei uma pequena esta&#231;&#227;o de trabalho e fui no  free-style. O resultado &#233; que passei muito tempo encarapitada em cima de uma escada.</p><p><strong>Fazer as coisas: </strong>meu barulho preferido quando fa&#231;o coisas &#233; nenhum. Eu s&#243; penso. Tamb&#233;m penso quando n&#227;o fa&#231;o nada, mas hoje em dia, acho mais dif&#237;cil fazer nada. Quando eu era crian&#231;a, eu era especialista nisso. Gostava de ficar sozinha e gostava de fazer nada. E eu pensava. Sendo professora, quando trabalho, penso, mas n&#227;o sobre mim. Sendo analista, n&#227;o penso. Fazendo essas coisas que invento, penso sobre a vida. Quando minha amiga decidiu se afastar, os pensamentos foram dif&#237;ceis e foram muitas as noites em que custei a pegar no sono. Quando eu era crian&#231;a, custar a dormir por conta dos pensamentos obsessivos era regra.</p><p><strong>Minha casinha: </strong> ca&#237; nessa gaveta da mem&#243;ria. Eu n&#227;o tinha uma casinha no quintal. Mas tinha um pequeno peda&#231;o da casa do qual me adonei. N&#227;o lembro como foi o processo de usucapi&#227;o, s&#243; sei que quando ganhei uma mesinha com quatro cadeiras, esse espa&#231;o no s&#243;t&#227;o virou o lugar dela, junto do armarinho e das minhas sete bonecas, cada uma com seu ber&#231;o fabricado por mim &#224;s custas de roupas, caixas, cestos e panos que eu achava pelo caminho. Esse s&#243;t&#227;o &#233; um lugar importante da casa dos meus pais. Tinha um ar de ca&#231;a ao tesouro, acumula&#231;&#227;o e dep&#243;sito de coisas importantes dos trabalhos do meu pai. Ali era o escrit&#243;rio dele, mas tamb&#233;m tinha uma salinha de TV, um quarto de visitas, a minha casa de bonecas e um acesso &#224; caixa d&#8217;&#225;gua. N&#227;o sei porque escrevi no passado, pois com exce&#231;&#227;o da casinha, tudo continua mais ou menos igual. Nessa &#233;poca, em minha dificuldade infantil para pegar no sono, por vezes eu levantava, sobretudo no inverno, para colocar as bonecas na cama. O pensamento era: <em>&#8220;se eu n&#227;o cobri-las, elas n&#227;o v&#227;o mais me amar&#8221;.</em></p><p><strong>Amar: </strong>passei muito tempo no topo da escada pintando o teto da casinha, que &#233; feito de madeira naval. A madeira naval &#233; muito porosa e eu n&#227;o sabia que eu precisava passar um fundo antes de passar a tinta. O resultado &#233; que passei muitas horas nesse telhado. Dois dias e meio para ser mais exata. E mais da metade da minha lata de 3,6 litros de tinta. Por alguma raz&#227;o, a cada dem&#227;o eu apostava que seria a &#250;ltima, bastava eu fazer aquilo com cuidado. Ent&#227;o, eu passava pincel e depois o rolo com o maior zelo poss&#237;vel. Enquanto fazia isso, pensei muito sobre o sonho, em que cada personagem encena um peda&#231;o de mim ou uma fra&#231;&#227;o da minha interpreta&#231;&#227;o sobre aquilo. Me senti muito injusti&#231;ada quando minha amiga se afastou e fui acolhida nesse sentimento. Foi preciso falar muito sobre isso para ele descolar de mim. Um dia a Lila me perguntou se o amor acaba. Eu disse que alguns sim. Ela tem 4 anos e j&#225; sofreu rejei&#231;&#245;es e h&#225; vezes em que nada pode ser feito a respeito. </p><p><strong>O vendedor de tintas: </strong>depois de concluir que n&#227;o havia mais jeito, cheguei &#224; loja de tintas me sentindo Riobaldo. Para que o mo&#231;o conseguisse me ajudar, eu precisava contar a hist&#243;ria da minha empreitada com a casinha do come&#231;o. N&#227;o falei tudo isso que escrevi aqui, mas poderia. Cheguei no balc&#227;o, entreguei &#224; Lila um cat&#225;logo de amostras de tintas pra ela n&#227;o atrapalhar a conversa e disse: <em>&#8220;Mo&#231;o, eu decidi fazer uma coisa sem perguntar pra ningu&#233;m. Eu sempre fa&#231;o isso porque parto do princ&#237;pio de que sei fazer. O resultado &#233; que estou h&#225; 3 dias pintando um telhado, minha tinta acabando e minha esperan&#231;a de conseguir acabar se esvaindo&#8221;</em>. Juro. Ele riu. Me pediu pra eu explicar. Mostrei fotos. Ele falou sobre o fundo, sobre que n&#227;o se dilui tinta com thinner - que n&#227;o &#233; a mesma coisa que aguaras - e ent&#227;o disse: </p><p><em>&#8220;Depois que voc&#234; passar o fundo, tem que esperar pelo menos 12 horas pra curar&#8221;.</em></p><p><em>&#8220;Curar?&#8221;</em></p><p><em>&#8220;Secar, dona. O fundo precisa estar curado pra passar a tinta&#8221;</em></p><p><em>&#8220;E o que eu fa&#231;o?&#8221;</em></p><p><em>&#8220;Passa o fundo e espera, para curar n&#227;o pode ter pressa, depende de muitos fatores. Esse fundo vai curar rapidinho porque o tempo t&#225; bom. Tamb&#233;m n&#227;o pode passar grosso, tem que diluir. Voc&#234; vai ver que agora vai dar certo&#8221;</em></p><p>Deu certo. Terminei a casinha, fiz persianas com uma toalha de pl&#225;stico em metro que a Lila gostou porque tem cora&#231;&#245;es. Fomos &#224; floricultura e ela escolheu cravos. N&#227;o seria a minha escolha, mas a casinha &#233; dela (&#233; preciso lembrar). Plantamos juntas. </p><p>Sobre o tempo de cura, lembrei que em <em>A mulher desiludida </em>(Simone de Beauvoir), tem uma frase que &#233; a &#250;nica coisa que eu j&#225; quis tatuar na vida [mas muito grande pra tatuar]: <em>&#8220;&#201; preciso esperar que o a&#231;&#250;car derreta, que o sol se ponha, que o &#243;dio se dissipe&#8221;.* </em>O que ela carrega consigo &#233; que as coisas precisam de paci&#234;ncia para curar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21aqHO%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F067ddf0f-b92a-44c0-b3b6-71151adf4865_2218x3079.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" 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O c&#244;modo em quest&#227;o &#233; um quarto que serve como dep&#243;sito. De forma completamente aleat&#243;ria, ali s&#227;o armazenados peda&#231;os da hist&#243;ria de casas, eventos, empregos.  Todas as minhas bonecas de porcelana e anjinhos que colecionei na inf&#226;ncia. Todas as cortinas trocadas em intervalos de dez aos. Todos os 150 sousplats de croch&#234; que eu mandei fazer para o meu casamento. Todos os diplomas que meu pai mandava emoldurar. </p><p>Em uma dessas caixas em uma miscel&#226;nea de coisas, encontrei alguns objetos que pertenceram a outra vida minha. Naquela vida eu fazia mestrado e morava  sozinha pela primeira vez. Mais ou menos por essa &#233;poca, uma amiga me deu uma sacola de feira que ela tinha feito. Achei bonita a sacola, que tinha muitas coisas em comum com a minha amiga: ela era forte, bonita, bem feita e carregava um tiquinho de delicadeza pois, embora feita de sarja e estruturada com madeira, era enfeitada com o tricoline do mesmo padr&#227;o de xadrez do meu guarda-p&#243; da pr&#233;-escola. Quando recebi, perguntei a ela se ela j&#225; tinha pensado em vender. Me disse que sim e que, por um tempo, encorajada pelo ent&#227;o namorado, ensaiou essa empreitada, mas logo percebeu uma coisa: vender tinha tirado o prazer em fazer as ditas sacolas: <em>&#8220;Por exemplo, eu fiz essa sacola pra voc&#234;, escolhi as cores, o tecido, o la&#231;o, pensando em voc&#234;&#8221;</em>.</p><p>Esse presente me encorajou a tentar costurar. Nunca fui boa nisso, mas naquele ano fiz na m&#225;quina de costura os presentes de natal para minha m&#227;e, irm&#227;s e amigas. Foi a m&#227;e de uma delas que me ensinou a montar a pe&#231;a, um porta bijuterias de viagem. Minha amiga que me deu a sacola tamb&#233;m ganhou um. </p><p>Quando ela morreu, h&#225; pouco mais de um ano, lembrei da sacola. Eu achava que estava guardada no guarda-roupas do meu antigo quarto. Procurei, mas n&#227;o achei e pensei entristecida que num dos meus ataques de me desfazer do que n&#227;o uso, dei embora. Meu gosto em mexer nas coisas h&#225; muito guardadas, caixas h&#225; muito fechadas, arm&#225;rios h&#225; muito abarrotados &#233; infantil porque preserva a certeza de que algo muito precioso pode ser encontrado. E pouco antes deste &#250;ltimo natal, numa dessas caixas, eu encontrei um tesouro.</p><p>A caixa guardava coisas da &#233;poca do mestrado. A bolsa de estudos n&#227;o dava pra muita coisa, mas aquela casa, eu decorei. Pintei a parede da sala de azul turquesa e do quarto de um azul hort&#234;nsia. Eu tinha uma cama box sem cabeceira e comprei tr&#234;s telas em branco que foram cobertas com uma estampa diferente, fazendo uma composi&#231;&#227;o: flores, listras e bolas. </p><p>A sacola estava nessa caixa, junto das telas e de um mural que eu usava para marcar as pend&#234;ncias da escrita. Ela estava manchada de bolor e bem suja. Reuni tudo para trazer para minha casa, inclusive os tecidos que arranquei das telas. No dia 31 de dezembro sa&#237; para comprar lim&#245;es e me deparei com seis gavetas descartadas por um vizinho. Primeiro peguei duas, depois voltei e peguei as outras quatro, porque elas estragariam na chuva: eu n&#227;o sabia o que faria com elas, mas sabia que faria alguma coisa. Comprei tinta, achei umas madeiras aqui em casa e reaproveitei aqueles tecidos. </p><p>Quando fui lavar a sacola, ao tentar tirar a mancha de bolor da parte da sarja, com a mistura infal&#237;vel de quiboa e a&#231;&#250;car, pinguei um pouco no la&#231;o e manchou muito, ficou destru&#237;do. Peguei minha tesoura de cortar tecido - a tesoura que eu escondo porque tesoura de cortar tecido n&#227;o pode nunca ser usada para outra coisa -, desmontei o la&#231;o passo a passo, analisando cada ponto que eu cortava e qual o processo as m&#227;os da minha amiga tinham feito para chegar nele. Enquanto eu fazia isso, lembrei de como ela movia as m&#227;os de um jeito bonito quando falava. </p><p>Ontem sa&#237; comprar o tecido. Fui certeira nas prateleiras e eram muitas op&#231;&#245;es. Fiquei um pouco desapontada, at&#233; que, balan&#231;ando num rolo entre os mais populares, estava l&#225; o xadrezinho vermelho e branco miudinho. Comprei, voltei pra casa e lidei com as gavetas. Eu queria ter um tempo s&#243; pra refazer aquele la&#231;o, sem nada mais na minha cabe&#231;a. Isso s&#243; aconteceu hoje, l&#225; pelas duas da tarde. </p><p>Guardei todas as coisas, lavei a lou&#231;a, desliguei a m&#250;sica. A casa quieta, o vento entrando. Sentei na cadeira da cozinha e comecei a trabalhar. Primeiro eu cortei o tecido no tamanho do la&#231;o desmontado. Eram duas partes: dois ret&#226;ngulos costurados no meio. No grande, depois de unir as duas laterais maiores, franzi o centro. Franzi as duas extremidades e depois levei cada uma ao centro, unindo as pontas com o fio. Por fim, para rematar, com o outro ret&#226;ngulo, j&#225; costurado, fiz o acabamento. Costurei um alfinete de seguran&#231;a e coloquei na sacola. Passei a ferro para marcar os vincos.</p><p>Peguei a sacola e fui a feira. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21GaLO%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fb7b36e44-c029-4d7a-9e78-95f0e586c950_4000x3000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!GaLO!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb7b36e44-c029-4d7a-9e78-95f0e586c950_4000x3000.jpeg 424w, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p><code>Descri&#231;&#227;o da imagem: &#224; esquerda um quadro pintado com tinta a &#243;leo que ilustra uma cidade &#224; beira-mar. &#192; direita, uma tela bordada &#224; m&#227;o em que na base est&#227;o bordadas linhas que ilustram uma cidade litor&#226;nea e sobre este bordado, l&#234;-se o seguinte di&#225;logo: </code></p><p><code>&#8220;Vamos voltar&#8221;, disse Lila.</code></p><p><code>&#8220;E o mar?&#8221;</code></p><p><code>&#8220;Est&#225; muito longe.&#8221;</code></p><p><code>&#8220;E a casa?&#8221;</code></p><p><code>&#8220;Tamb&#233;m.&#8221;</code></p><p><code>&#8220;Ent&#227;o, vamos para o mar&#8221;.</code></p><p><code>&#8220;N&#227;o.&#8221;</code></p><p><code>&#8220;Por qu&#234;?&#8221;</code></p><p>2025 n&#227;o foi f&#225;cil e por isso n&#227;o prometo grandes coisas com esse texto. Eu o resumo como uma rebordosa de 2024 ou um 2024 piorado. Foram dois anos consecutivos de muito estudo e trabalho somado a uma rotina dom&#233;stica que poderia ser bem pior se eu n&#227;o fosse uma burguesa safada capaz de bancar um monte de regalias. E os dois acabaram do mesmo jeito: a sensa&#231;&#227;o de nadar e nadar e nadar e morrer na praia. </p><p>H&#225; alguns dias, ganhei os dois quadros da foto de uma turma de Psicologia, junto com um amigurumi do Lacan e muitos pacotes da minha bala Fini preferida. O presente reuniu meu estilo como professora: algu&#233;m identificado a partir de uma teoria; algu&#233;m cujas refer&#234;ncias n&#227;o se restringem &#224; vida acad&#234;mica; e algu&#233;m s&#233;ria o bastante para todo mundo saber sobre o gosto por guloseimas.</p><p>Suspeito que a escolha pela frase se deva a eu falar sobre a <em>Tetralogia Napolitana</em>, sobre eu recomendar fortemente &#224;s alunas que elas leiam Elena Ferrante e sobre o fato de que eu falo muito sobre a Lila, a minha filha, que recebeu esse nome em homenagem a uma personagem cheia de contradi&#231;&#245;es. Na cena, Lila e Lenu saem nessa aventura, a partir de uma sugest&#227;o de Lila, com destino ao mar. Elas moram em uma cidade litor&#226;nea, mas viviam em um bairro afastado. Conhecer o mar significava deixar o bairro, fazer um movimento ousado em dire&#231;&#227;o a um lugar que n&#227;o lhes era cabido ou autorizado circular.</p><p>Na minha inf&#226;ncia, eu vivia em um bairro tranquilo o suficiente para ter certa autonomia em circular na rua sem nenhum adulto olhando. Estava com o bra&#231;o quebrado h&#225; poucos dias, depois de ter ca&#237;do da escada em uma corrida alucinada em que queria que meu pai me levasse ao circo. Aos quatro anos, empunhando um pesado gesso no bra&#231;o esquerdo, sugeri &#224; vizinha irmos buscar nossas irm&#227;s na escola. Eu sabia que a aventura n&#227;o era permitida porque nos abaixamos ao passar em frente &#224; janela da casa, onde minha irm&#227; mais velha, assistia &#224; televis&#227;o. Sa&#237;mos port&#227;o afora, viramos a esquina e seguimos em um caminho conhecido at&#233; a escola.</p><p>Fomos interceptadas em uma esquina a uma quadra de chegarmos l&#225;. A vizinha que era a encarregada no rod&#237;zio de m&#227;es nos colocou no bagageiro e, antes de nos levar para casa e nos entregar s&#227;s e salvas, foi fazer algumas coisas que precisava tipo ir ao mercado. Quando chegamos, a rua toda achava que duas crian&#231;as de 3 e 4 anos haviam sido sequestradas. Quando cheguei em casa, apanhei da minha m&#227;e, tal qual a Lenu apanhou da m&#227;e dela quando ela e Lila retornaram ensopadas da aventura que, como a minha, n&#227;o se concretizou.</p><p>H&#225; algumas semanas eu e duas das minhas melhores amigas e nossas fam&#237;lias nos reunimos na praia. Nossas filhas tem idades pr&#243;ximas e gostam de brincar juntas. Na v&#233;spera da viagem, Lila e Cora decidiram que iriam fugir assim que tivessem a oportunidade de encontrar o port&#227;o aberto. Mas elas contaram pra n&#243;s que fariam isso. Perto da casa da praia havia um parquinho a poucos metros de dist&#226;ncia. Ali elas tamb&#233;m anunciaram a fuga, que n&#227;o se efetivou. Confesso que senti pena pelo pouco espa&#231;o aberto &#224; subvers&#227;o das inf&#226;ncias delas. <br></p><p>Mas gostei de ver pulsando a vontade de fugir, assim como gosto de lembrar da minha vontade infantil de sair daquele campo de for&#231;a magn&#233;tico que &#233; a casa. A Lila da Ferrante tem bastante dificuldade em deixar esse campo. Na hist&#243;ria, embora tenha sido a Lila quem sugeriu ir at&#233; o mar, ela n&#227;o conseguiu bancar essa decis&#227;o. Eu entendo que Lenu concordou em voltar n&#227;o porque n&#227;o tinha coragem de ir, mas porque uma das t&#244;nicas da rela&#231;&#227;o entre elas &#233; de certa sidera&#231;&#227;o em que a Lila &#233; algu&#233;m que causa repulsa e atra&#231;&#227;o simultaneamente.</p><p>Quando ganhei o quadro fiquei impactada ao me lembrar de toda a cena do livro. A hist&#243;ria da minha fuga e um bra&#231;o quebrado j&#225; denunciavam meu &#237;mpeto infantil em dire&#231;&#227;o &#224; vida. Hoje, aos 41 anos, tento cicatrizar partes de mim que se quebraram nos &#250;ltimos dois anos por conta das minhas escolhas, e outras que foram quebradas &#224; minha revelia (e que t&#234;m sido dif&#237;ceis demais de colar). N&#227;o sei se quando as alunas escolheram essa frase, elas se deram conta de que o dilema que ela enuncia &#233; tamb&#233;m o meu hoje. O mar ou a casa? Um representa a ousadia, percorrer um caminho desconhecido e alcan&#231;ar algo distante. O outro representa algo que se n&#227;o &#233; bom, &#233; conhecido, &#233; seguro.</p><p>Terminei esse ano com a melanc&#243;lica sensa&#231;&#227;o de ter sido mais Lila do que Lenu. 2026 ainda n&#227;o chegou, mas eu j&#225; come&#231;o a me haver com essa escolha. </p><p> </p><p> </p><p>    </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Água mole em pedra dura]]></title><description><![CDATA[ou como n&#227;o desistir de um projeto de mais de 20 anos]]></description><link>https://algumtempo.substack.com/p/agua-mole-em-pedra-dura</link><guid isPermaLink="false">https://algumtempo.substack.com/p/agua-mole-em-pedra-dura</guid><dc:creator><![CDATA[Angela Silva]]></dc:creator><pubDate>Sat, 02 Aug 2025 14:53:16 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21zNJt%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6a8f9f2b-a84f-493a-9389-5eabd3670a76_959x959.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Escrevo esse texto para tentar driblar a dificuldade em escrever outros necess&#225;rios. &#201; que eu preciso desenvolver 11 pontos para um concurso para professora de psican&#225;lise. Desde o ano passado eu imaginava que esse concurso abriria. </p><p>Eu decidi que seria professora universit&#225;ria em 2002, quando entrei na universidade. Embora aquele primeiro ano seja meio nebuloso, como um sonho ou uma dissocia&#231;&#227;o, algumas coisas me marcaram. </p><p>Eu fazia Servi&#231;o Social, que n&#227;o era minha primeira escolha, mas era a que eu tinha passado. Olhando em retrospecto, percebo o quanto eu me desestimulei pela reprova&#231;&#227;o no &#250;nico vestibular para Psicologia que eu tinha feito at&#233; ent&#227;o. Lembro de pouqu&#237;ssimas coisas daqueles meses esquisitos em que, aos 17 anos, eu j&#225; sabia que estava no lugar errado, mas que n&#227;o conseguia me movimentar. </p><p>Lembro tamb&#233;m de uma aula em que a professora explicou que o que diferencia o ser humano dos outros animais &#233; o trabalho. A frase &#8220;meu sobrenome &#233; trabalho&#8221; se aplicaria a ela no sentido literal e ela falou sobre isso. Naquela &#233;poca, eu j&#225; tinha um interesse grande a respeito de nomes, e gostei como ela partiu disso para falar sobre como a nossa sociedade valoriza essa dimens&#227;o humana. Uma aula &#233; isso mesmo, a professora chega com o objetivo de explicar o que &#233; trabalho, mas na semeadura, a semente caiu em uma terra que estava mais interessada sobre os nomes e como eles singularizam quem a gente &#233;. </p><p>Outra aula que me marcou foi uma em que todas as professoras do curso ajudaram a gente a entender o curso e a estrutura acad&#234;mica. Muita gente ali n&#227;o tinha escolhido Servi&#231;o Social como primeira op&#231;&#227;o, porque aquele tinha sido o primeiro vestibular em que a universidade abriu a possibilidade de voc&#234; marcar uma segunda na inscri&#231;&#227;o. O resultado &#233; que ali tinha muita gente cuja primeira op&#231;&#227;o era Direito, curso mais concorrido e correlato. Tenho lembran&#231;a de, a cada aula, ter menos uma, menos duas, menos tr&#234;s alunas porque a desist&#234;ncia foi enorme. Logo eu me juntaria &#224;s que sa&#237;ram. </p><p>Mas naquela aula as professoras come&#231;aram a traduzir termos: inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica, extens&#227;o, monitoria. Uma delas disse: para quem quiser se tornar professora universit&#225;ria, &#233; essencial passar por essas experi&#234;ncias. Naquele ano, a grade curricular tinha mudado e era a primeira vez que n&#243;s dever&#237;amos fazer est&#225;gios b&#225;sicos. E eu me juntei ao projeto de extens&#227;o de uma daquelas professoras. O filho dela de vinte e poucos anos tinha morrido em um acidente de carro uma semana antes do in&#237;cio das aulas. Foi a primeira professora enlutada que eu tive. Na Psicologia, outra professora perdeu o filho da mesma forma. Lembro dos sil&#234;ncios das aulas, das pausas, de ela pegar a bolsa e sair sem dizer nada.</p><p>De todo modo, antes de concluir o semestre, desisti do curso amparada pela minha m&#227;e que, como quando a gente &#233; crian&#231;a pequena, adivinha o que se passa na nossa cabe&#231;a. Foi ela quem disse: &#8220;se voc&#234; n&#227;o gosta, voc&#234; pode desistir, voc&#234; acabou de come&#231;ar, voc&#234; &#233; muito nova&#8221;. Com a autoriza&#231;&#227;o (subjetiva) em m&#227;os, eu:</p><ol><li><p>Fiz uma prova (RISOS);</p></li><li><p>Fui at&#233; a diretoria acad&#234;mica;</p></li><li><p>Pedi o cancelamento da minha matr&#237;cula deixando claro: n&#227;o quero trancar. Quero desistir. N&#227;o quero que haja possibilidade de eu voltar.</p></li><li><p>N&#227;o me despedi de ningu&#233;m.</p></li><li><p>Nunca mais voltei.</p></li></ol><p>No ano seguinte, comecei a faculdade de Psicologia, na qual fiz IC, monitoria e sa&#237; da gradua&#231;&#227;o com planos de entrar em um mestrado. Reprovei em dois processos seletivos, comecei duas especializa&#231;&#245;es, comecei a dar aulas e passei no mestrado dois anos depois que me formei. O ano era 2012, exatamente 10 anos depois daquelas aulas-sonhos no curso de Servi&#231;o Social.</p><p>O doutorado tamb&#233;m veio na melhor de tr&#234;s. Em 2012 eu me candidatei na UFMG e n&#227;o passei na entrevista. Em 2013, n&#227;o passei na prova escrita da USP. No come&#231;o de 2014, fui aprovada na UERJ. Durante todo esse tempo, fui professora e a cada ano que passava, quanto mais eu estudava, melhor professora eu me tornava. Eu, que n&#227;o fui uma aluna estudiosa, hoje sou muito e gosto. Sou do tipo que aprende falando e aprende escrevendo, ent&#227;o, isso faz de mim uma pessoa que precisa das duas coisas.</p><p>Quando defendi a tese em 2018, comecei a fazer v&#225;rios concursos. O primeiro foi para psican&#225;lise, na Universidade Federal de S&#227;o Jo&#227;o del Rei. Reprovei na prova escrita, o que muito me surpreendeu, porque achei que tinha sido boa. Talvez tivesse sido, mas como era um concurso daqueles tipo um BBB, com as coisas acontecendo em tempo real, a banca corrigindo provas de um dia para o outro. A prova escrita precisava ser MUITO boa.</p><p>Por isso, no segundo concurso, quase levantei e sa&#237; quando foi sorteado o que era o pior ponto do concurso da UFPE, na mesma &#225;rea. O tema era psican&#225;lise e g&#234;nero e, na &#233;poca, eu pouco havia estudado qualquer coisa sobre isso. Eu passei naquela prova com m&#233;dia 7, mas como naquele concurso todos fariam a prova did&#225;tica, a certeza que eu tive de ter feito uma escrita mequetrefe me desestimulou e reprovei na did&#225;tica. </p><p>No ano seguinte, fiz dois na UnB. Psican&#225;lise e Psicopatologia. Sem prova escrita, tirei quase 10 na prova did&#225;tica, mas minha nota na defesa de curr&#237;culo e memorial (que tinha peso 2) foi baixa em compara&#231;&#227;o aos colegas. Na primeira fiquei em sexto, na segunda em quarto. Essa &#250;ltima configuraria aprova&#231;&#227;o, caso houvesse mais vagas.</p><p>Naquele ano me inscrevi em mais um, em Divin&#243;polis, pela UEMG, tamb&#233;m em psican&#225;lise. Aquele concurso foi uma loucura. Passei na prova escrita e reprovei na did&#225;tica porque tergiversei de um modo bem parecido com que fiz na UFPE. </p><p>Em 2021 me inscrevi na Universidade Federal de Rondon&#243;polis, em psican&#225;lise com crian&#231;as. Passei na prova escrita (com uma nota apenas OK), tirei uma notona na prova did&#225;tica e meu curr&#237;culo me deixou em terceiro. </p><p>Em 2024 fiz um concurso para Psicologia: Ci&#234;ncia e profiss&#227;o onde dou aula. Estudei por meses de forma incans&#225;vel. Fiquei em primeiro lugar. Por&#233;m, a vaga com prioridade. Eu achei que estava tranquila em rela&#231;&#227;o a isso, mas outro dia, uma colega fez um coment&#225;rio a respeito e me deu vontade de chorar. </p><p>Esse ano me inscrevi em um de avalia&#231;&#227;o Psicol&#243;gica aqui tamb&#233;m. Estou estudando e tendo que aprender coisas do zero. Sei que minhas chances s&#227;o p&#237;fias, porque &#233; muito fora da minha &#225;rea. E na semana em que eu finalizei tudo, recebi o edital da UFPR com essa vaga para psican&#225;lise. Mudei o cronograma e comecei a me organizar. Ainda vou fazer o de avalia&#231;&#227;o, afinal, eu moro aqui, j&#225; escrevi todos os pontos e estudei muito. </p><p>Hoje eu preciso agora olhar para as minhas anota&#231;&#245;es sobre os 11 pontos e lembrar uma coisa que uma aluna querida me disse: tudo o que est&#225; ali eu ou j&#225; escrevi sobre ou j&#225; fiz grupos de estudos sobre ou j&#225; dei aulas sobre. Ontem organizando meu curr&#237;culo de acordo com o gabarito da Federal, gabarito esse que considera a trajet&#243;ria de forma completa e n&#227;o restrita aos &#250;ltimos cinco anos, eu percebi que meu caminho &#233; longo. Um dos itens &#233; a classifica&#231;&#227;o em concursos p&#250;blicos. Fiquei contente: &#233; um jeito de ressignificar o quarto, o terceiro e at&#233; aquele primeiro lugar que n&#227;o valeu pra mim. Espero conseguir dessa vez. Volto pra contar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quanto vale um sonho?]]></title><description><![CDATA[&#192;s vezes vale uma passagem para Bras&#237;lia]]></description><link>https://algumtempo.substack.com/p/quanto-vale-um-ato-falho</link><guid isPermaLink="false">https://algumtempo.substack.com/p/quanto-vale-um-ato-falho</guid><dc:creator><![CDATA[Angela Silva]]></dc:creator><pubDate>Wed, 02 Apr 2025 19:12:59 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21zNJt%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6a8f9f2b-a84f-493a-9389-5eabd3670a76_959x959.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em minha &#250;ltima newsletter, propus a leitura de <em>Inibi&#231;&#227;o, sintoma e ang&#250;stia</em>, do Freud. Como vamos come&#231;ar nessa sexta-feira, peguei meu exemplar e abri para lembrar qual teria sido a &#250;ltima vez que o li. Abri e me deparei com uma frase na contracapa:</p><p><em>Existe uma senha para entrar no Bauhaus?</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Quando eu li a pergunta escrita com a minha letra, fiquei intrigada. Ela n&#227;o faz sentido e imediatamente pensei: Bauhaus? Eu n&#227;o sabia de cara o que era, mas sabia que tinha a ver com arquitetura e com a Alemanha. Nada al&#233;m disso. Dei um Google e me deparei com imagens de uma escola de arquitetura e depois, de falar a respeito, bastante intrigada, pensei: provavelmente eu anotei essa frase depois de acordar de um sonho. </p><p>A &#250;ltima vez que li <em>Inibic&#227;o </em>escrevia minha tese de doutorado, portanto, 2017 e 2018. Eu fazia isso durante todo o dia: manh&#227;, tarde e noite. O tempo era curto e eu me distra&#237;a com muita facilidade. N&#227;o era incomum eu deixar minha mesa de trabalho com todo o material espalhado e ir dormir no meio de um racioc&#237;nio ou par&#225;grafo por pura exaust&#227;o. N&#227;o era tamb&#233;m incomum eu sonhar com a tese. </p><p>Eu tinha acabado de chegar em Bras&#237;lia e achava a cidade muito estranha. A l&#243;gica de localiza&#231;&#227;o n&#227;o entrava na minha cabe&#231;a e eu tinha muito medo de me perder. Frequentemente, ao entrar em uma superquadra, pensava que j&#225; tinha estado ali antes, porque tudo parecia igual e muito artificial, o que me incomodava. </p><p>Ent&#227;o, refazendo o caminho de como essa frase foi parar no meu exemplar do Freud, pensei que em algum momento durante a escrita da tese, fui dormir, seja da noite para o dia, seja uma soneca vespertina, sonhei, acordei e lembrei da frase. Para n&#227;o perd&#234;-la de vista, anotei no primeiro papel que encontrei e calhou de ser uma contracapa. </p><p>Mas a quest&#227;o continua. Existe uma senha para entrar no Bauhaus?</p><p>Durante a tese eu li bastante coisas sobre a Alemanha e sobre o per&#237;odo anterior e posterior &#224; II Guerra mundial. A Escola Bauhaus &#233; anterior a essa guerra e inaugura um movimento modernista que n&#227;o foi bem visto pela ode &#224; tradi&#231;&#227;o t&#237;pica do nazismo. Pr&#233;dios com linhas retas e simples caracterizaram Bauhaus. E algo dessa est&#233;tica, a gente encontra em Bras&#237;lia. </p><p>Eu n&#227;o achei f&#225;cil me mudar em Bras&#237;lia seja porque era dif&#237;cil me localizar diante de tantas siglas seja porque a l&#243;gica do plano piloto resistiu em entrar no meu modo de pensar (ou eu resisti a ela). Mas havia algo que era um fechamento das pessoas de l&#225; que me parecia quase intranspon&#237;vel, al&#233;m de sentir uma artificialidade na cidade, artificialidade que eu sentia t&#227;o grande que meu lugar preferido era um dos lugares mais feios da cidade, a W3, uma via que parece uma cidade normal.</p><p>Foi s&#243; depois de terminar a tese que eu sa&#237; de casa, me aproximei de brasilienses que se tornaram amigas e amigos. Me aproximei tamb&#233;m de muitas institui&#231;&#245;es de psican&#225;lise, me instalei. O que eu n&#227;o sei &#233; se de fato eu consegui acessar a dita senha, porque sempre quando penso sobre a vontade de sair de Bras&#237;lia, lembro da sensa&#231;&#227;o de que viver l&#225; ficaria cada vez mais dif&#237;cil, seja por conting&#234;ncias pessoais - eu me tornei m&#227;e - seja por conting&#234;ncias econ&#244;micas. </p><p>Por fim, n&#227;o sei se cheguei a acessar a senha para entrar na Bauhaus. Uma amiga minha lembrou que o termo tamb&#233;m &#233; citado na letra de Eduardo e M&#244;nica, uma m&#250;sica sobre dois brasilienses que se conhecem, v&#227;o embora de Bras&#237;lia e um dia voltam pra l&#225; e a amizade deles d&#225; saudades no ver&#227;o. Eu tamb&#233;m tenho saudades das amizades que fiz em Bras&#237;lia. Acho que &#233; tempo de voltar, pelo menos para uma visita.</p><p>PS: A leitura de <em>Inibi&#231;&#227;o, Sintoma e Ang&#250;stia</em> vai acontecer por Meet, toda sexta, das 11h &#224;s 12h30. Quem quiser, s&#243; falar comigo que eu mando o link.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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A sensa&#231;&#227;o que eu tinha &#233; que, embora as pessoas estivessem ali, a presen&#231;a delas era t&#227;o expressiva quanto as salas de aula EAD em que elas achavam poder escolher se abriam ou n&#227;o a c&#226;mera. </p><p>Durante a Pandemia eu participei de e ofereci atividades on-line. Coordenei um clube de leitura, um semin&#225;rio sobre a &#233;tica da psican&#225;lise, participei de bancas de defesa de trabalho de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o e dei aulas sobre psican&#225;lise e pol&#237;tica para uma institui&#231;&#227;o de psican&#225;lise. Fora essas atividades, nas quais eu tinha a obriga&#231;&#227;o de estar apresent&#225;vel diante da c&#226;mera, fui participante de outras tantas e, em todas elas a c&#226;mera desligada era uma coisa que me incomodava porque, num paralelo com a vida, &#233; o mesmo que voc&#234; estar em uma sala falando e ningu&#233;m estar ouvindo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Certo, eram bem legais para mim, n&#227;o necessariamente para eles, mas fato &#233; que eles decidiram fazer uma faculdade. &#201; s&#233;rio que voc&#234; escolhe ficar 5 anos sem investir algo de si para al&#233;m do desempenho? </p><p>A postura economia de energia cr&#234; que, ao descansar, ao n&#227;o se movimentar, ao evitar a fadiga, ter&#225; como resultado a pessoa ficar mais disposta quando sair da in&#233;rcia e decidir - num futuro distante, s&#243; Deus sabe qual - come&#231;ar a viver a vida. Se voc&#234; j&#225; viu uma usina funcionando, vai saber que &#233; o movimento que gera a energia. E com libido &#233; a mesma coisa. Ent&#227;o, se voc&#234; for esperar dar vontade de ler aquele PDF, sinto informar, a vontade n&#227;o vir&#225; porque a vontade que vem f&#225;cil, facinha, sem esfor&#231;o, &#233; aquela de ficar deitado comendo bala Fini Tube morango e nata.</p><p>H&#225; algumas semanas estou participando de um ateli&#234; cl&#237;nico. &#201; uma modalidade de apresenta&#231;&#227;o em que voc&#234; manda a constru&#231;&#227;o do caso com anteced&#234;ncia, os participantes leem, no dia marcado voc&#234; apresenta e todo mundo est&#225; em posi&#231;&#227;o de ajudar na leitura daquela escrita, n&#227;o daquele texto, mas daquela narrativa que se faz quando se constr&#243;i um caso. Sugerir leituras, apontar o que escutou do texto do analista, fazer perguntas, sugerir uma dire&#231;&#227;o, enfim. No primeiro dia eu sa&#237; incomodada porque, em um grupo de 8 pessoas mais a coordenadora, 4 pessoas al&#233;m dela participaram da discuss&#227;o. Ontem foi a vez de eu apresentar e s&#243; n&#227;o foi foi um di&#225;logo porque aos quarenta do segundo tempo uma das pessoas que participou ativamente da primeira vez trouxe contribui&#231;&#245;es. Mas eu sa&#237; incomodada.</p><p>Na semana passada, conversei a respeito com amigas minhas com quem compartilho, entre tantos interesses pela vida, aquele pela psican&#225;lise. E elas corroboraram a impress&#227;o de que a postura &#233; geral e que urge convocar as pessoas a assumir uma posi&#231;&#227;o ativa diante do saber. Julgo a postura como o puro suco da l&#243;gica neoliberal em que me sirvo do que est&#225; sendo apresentado, cultivando a ilus&#227;o de que vou me nutrir de conhecimento, podendo dizer batendo no peito: <em>eu invisto em minha forma&#231;&#227;o</em>!</p><p>SPOILER: se voc&#234; acha que investir em forma&#231;&#227;o &#233; pagar dinheiros para ouvir algu&#233;m falar, sinto informar que voc&#234; est&#225; enganado. Dinheiro a gente paga, a gente trabalha, ganha, parcela no cart&#227;o. Agora pagar com a cara a tapa, da&#237; j&#225; &#233; mais complicado. </p><p>Enquanto eu apresentava aquele caso ontem, suava em bicas nas costas. &#201; desconfort&#225;vel expor a pr&#243;pria cl&#237;nica. As pessoas se pelam de medo at&#233; de fazer isso com supervisor, imagina com 8 pessoas que voc&#234; n&#227;o conhece? Pois &#233;, e quando voc&#234; decide fazer parte desse momento da vida de algu&#233;m, &#233; de bom tom pagar de novo, mas agora pagar com resultados das sinapses que voc&#234; fez. </p><p>Vou dizer uma coisa: em qualquer espa&#231;o de forma&#231;&#227;o que eu j&#225; frequentei, desde a universidade, passando por especializa&#231;&#227;o, mestrado, doutorado e institui&#231;&#245;es de psican&#225;lise, eu SEMPRE achei que o que eu tinha pra falar eu tinha que deixar pra l&#225;. Com alguma frequ&#234;ncia, me acho a pessoa mais limitada intelectualmente do rol&#234;. &#192;s vezes tenho medo de parecer burra diante das minhas amigas e alunos. Mas mesmo assim, mesmo diante do desconforto, eu n&#227;o cedo &#224; inibi&#231;&#227;o. </p><p>Ali&#225;s, como conclus&#227;o do meu texto, vale uma proposta: quem topa ler comigo <em>Inibi&#231;&#227;o, sintoma e ang&#250;stia</em>? Penso que seja um bom texto para gente conseguir sistematizar um pouco mais nosso pensamento sobre o modo de vida em constante economia de energia e extrair algo dessa eterna c&#226;mera desligada.</p><p>   </p><p>   </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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H&#225; alguns anos, portanto, a express&#227;o &#8220;formei&#8221;, para se referir ao recebimento do canudo em uma formatura virou banal e forma corrente, junto com pavorosa e tamb&#233;m corrente express&#227;o &#8220;formamos o Fulano&#8221;.  </p><p>Ano passado, proferi um discurso  atravessado pelos temas que eu estudava para um concurso. Nesse ano, mais uma vez do lugar da paraninfa, tenho pensado sobre o que escrever. Decidi reler aquele texto e publicar trechos dele enquanto penso que recado darei agora que - e como sou professora, n&#227;o erro gramaticalmente ao dizer - formo mais uma turma de Psicologia. </p><p></p><p><em>Certa vez, um jovem rep&#243;rter recebeu a tarefa de escrever sobre Canind&#233;, a maior favela de S&#227;o Paulo da d&#233;cada de 50, mas encontrou Carolina Maria de Jesus e seus di&#225;rios de mulher preta e favelada. Desse encontro, surgiu o livro &#8220;Quarto de despejo&#8221;, e &#233; sobre a no&#231;&#227;o e encontro que eu gostaria de falar hoje com voc&#234;s. </em></p><p><em>Ailton Krenak ensina que o encontro acontece quando reconhecemos o outro e nos reconhecemos no outro. O encontro entre Carolina e o jornalista a al&#231;ou a outros mundos. Por qu&#234;? Porque ao escrever sobre si, ela escrevia sobre o Brasil dos 50 anos em 5, Brasil que a subalternizava. Em um dos registros de seu di&#225;rio de 13 de maio de 1958, ela escrevia que sua luta era contra a escravatura daquele tempo, a fome, e que a felicidade dos pretos dependia da felicidade dos brancos. </em></p><p><em>Por isso eu penso que o encontro entre Carolina e o jornalista d&#225; ensejo ao nosso [&#8230;]. As hist&#243;rias de Carolina e da Psicologia brasileira dizem respeito uma &#224; outra, afinal n&#227;o &#233; sem consequ&#234;ncia ser psic&#243;loga e tampouco viver em quartos de despejo Brasil adentro. Enquanto Carolina escrevia, come&#231;avam a funcionar os primeiros cursos de Psicologia no pa&#237;s. Mas, durante muito tempo, apenas uma parcela &#237;nfima da popula&#231;&#227;o brasileira tinha acesso a servi&#231;os psicol&#243;gicos. De l&#225; para c&#225;, houve avan&#231;os e hoje nossa profiss&#227;o &#233; reconhecida como antirracista, feminista, defensora da diversidade sexual e dos direitos humanos. Nossa categoria n&#227;o est&#225; reclusa aos consult&#243;rios privados, mas atuando no SUS, SUAS, Educa&#231;&#227;o e outras pol&#237;ticas p&#250;blicas.</em></p><p><em>Na gradua&#231;&#227;o, voc&#234;s conheceram a dimens&#227;o contextualizada dos problemas do pa&#237;s, os impactos disso sobre a profiss&#227;o e o seu compromisso social. Mas vou contar uma coisa que me choca muito: voc&#234;s sabiam que metade das psic&#243;logas n&#227;o acredita que a profiss&#227;o ajuda a solucionar problemas sociais? E que mais da metade n&#227;o distingue pr&#225;ticas psicol&#243;gicas das n&#227;o respaldadas pela ci&#234;ncia? Levando em conta que apenas 15% da categoria se formam em institui&#231;&#245;es p&#250;blicas, voc&#234;s, minhas queridas, representam uma minoria em nossa profiss&#227;o. E isso &#233; muito s&#233;rio.</em></p><p><em>A Psicologia &#233; uma comunidade cient&#237;fica cuja responsabilidade &#233; fazer avan&#231;ar teorias, tecnologias e pr&#225;ticas. Para que ela seja consistente, o trabalho em sala de aula &#233; base para uma transmiss&#227;o que opera como resist&#234;ncia. Trata-se de um curso rebelde, cujos efeitos incidem sobre pr&#225;ticas eticamente comprometidas (assim espero!). Tenho certeza que se [&#8230;] estou aqui hoje &#233; porque transmiti algo dessa rebeldia que voc&#234;s ajudaram a refor&#231;ar em minha trajet&#243;ria profissional. </em></p><p><em>Diante disso, eis os votos que fa&#231;o a voc&#234;s, inspirada nas palavras da psicanalista que, como voc&#234;s fizeram comigo, escolhi como madrinha: desejo que voc&#234;s reafirmem, em suas pr&#225;ticas, o vi&#233;s transformador da Psicologia, pautando historicamente causas com as quais ela tem d&#237;vidas; desejo que voc&#234;s valorizem quem sabe mais sobre tais pautas e que revejam bases te&#243;ricas tradicionais e colonizadas. Desejo, finalmente, que suportem o fato de que v&#227;o cometer equ&#237;vocos, mas que nunca, nunca recuem.</em></p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["É culpa do nome"]]></title><description><![CDATA[Nomear, crime doloso]]></description><link>https://algumtempo.substack.com/p/e-culpa-do-nome</link><guid isPermaLink="false">https://algumtempo.substack.com/p/e-culpa-do-nome</guid><dc:creator><![CDATA[Angela Silva]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Jan 2025 16:23:12 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1733f62-d492-4edc-84a8-77c644341c29_1600x1066.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Embora eu sempre tenha me considerado uma pessoa que gosta de ler,  h&#225; alguns anos descobri que gosto pouco ou que sou uma leitora pregui&#231;osa. Isso porque gosto de ler, mas nunca vou atr&#225;s do que ler. Os livros, coitados, t&#234;m que chegar magicamente at&#233; a mim, seja por um presente ou uma indica&#231;&#227;o. </p><p>Acho que o ano era 2015 ou 2016, eu estava sentada numa poltrona da finada Fnac esperando meu namorado escolher livros. Eu ficava extremamente entediada com o modo diligente com que ele entrava nas livrarias e come&#231;ava a examinar os exemplares e ler a primeira frase das primeiras p&#225;ginas dos livros. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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E depois, o estrago estava feito.</p><p>Uma amiga, ao ouvir eu contar a hist&#243;ria em que a minha filha de 3 anos me diz <em>&#8220;quando eu crescer eu vou ter saudades do meu corpo&#8221;, </em>disse que a culpa era do nome. Essa mesma amiga, em outra conversa sobre nomes, disse que n&#227;o teria coragem de dar o nome de Lila nem para um gato. Eu achei gra&#231;a dos dois coment&#225;rios porque pode-se dizer que batizar a filha de Lila foi um ato doloso. Toda vez, eu digo TODA VEZ, em que as pessoas me perguntam o nome dela, a rea&#231;&#227;o &#233; de surpresa e certo deleite. Mais de uma pessoa j&#225; me disse que sugeriria o nome para algu&#233;m que esperava uma menina, e algumas me falaram que gostariam de dar esse nome &#224; pr&#243;pria filha.</p><p>Quando as pessoas perguntam por que eu escolhi um nome que parece um apelido, primeiro eu digo que ele vem de um apelido. Depois eu digo que queria um nome curto, bonito e sonoro. Se a pessoa estiver com tempo, conto que antes de engravidar, sempre pensava que teria um menino e que daria a ele o nome de Guido, porque eu li uma carta que Maquiavel escreveu para o filho dele e achei bonito. Mas quando eu soube que estava gr&#225;vida, passei a desejar ter uma filha. E eu tinha uma cole&#231;&#227;o de nomes que eu gostava nessa &#233;poca, Lu&#237;sa e Laura estavam no topo de lista. Eu tamb&#233;m gostava de Clara, nome da minha bisav&#243;, de uma tia-av&#243; e segundo nome da minha av&#243; materna, figura important&#237;ssima para mim. Por isso, tamb&#233;m cogitei Irene, o primeiro nome dela, mas o achava muito s&#233;rio. Ao come&#231;ar a reler a tetralogia napolitana no in&#237;cio da gravidez, perguntei ao Wyllian: &#8220;<em>se for menina, o que voc&#234; acha de Lila?&#8221;</em> Ele gostou.</p><p>Quando Lila tinha alguns meses, fazendo muita bagun&#231;a em uma consulta, a m&#233;dica disse: <em>&#8220;Lila, voc&#234; &#233; muito sapeca. Sabia que Lila &#233; nome uma menininha calminha?&#8221;</em>. N&#243;s rimos. A primeir&#237;ssima coisa que me fez admirar a Lila foi a forma como ela grudou no bico da meu peito, ainda na sala de parto.  <em>&#8220;Como &#233; &#225;vida&#8221;</em>, pensei. Ela era muito pequenininha e, como se soubesse que para crescer e ficar forte precisaria mamar (muito), foi exatamente o que ela fez. Era engra&#231;ado o jeitinho com que ela se plugava, como se n&#227;o titubeasse. </p><p>Curiosamente, quando come&#231;ou a falar, quando a cham&#225;vamos para fazer algo, &#8220;<em>vamos tomar banho? Vamos comer? Vamos passear?&#8221;</em>, ela respondia: <em>&#8220;Mamo&#8221;</em>.<em> </em>Viver a vida como quem mama no peito n&#227;o &#233; para qualquer um e &#233; uma alegria testemunhar essa vontade dela que, por vezes, tamb&#233;m esbarra na barreira do medo. Ainda assim, &#233; com admira&#231;&#227;o que a vejo resoluta tentando ultrapassar essa barreira e completamente extasiada ao conseguir.  Ao mesmo tempo, h&#225; nela uma obstina&#231;&#227;o em dizer <em>&#8220;agora n&#227;o&#8221;</em> frente aos desafios, dizendo <em>&#8220;quando eu crescer, eu vou aprender&#8221;</em>, obstina&#231;&#227;o que provoca em mim e no pai dela certo inc&#244;modo: <em>como teima em ser quem ela &#233;.</em></p><p>Um exemplo disso foi o tema da Pequena Sereia para a festa de 4 anos. As hist&#243;rias das princesas s&#227;o p&#233;ssimas, mas a da Ariel apenas escolhe pagar com a pr&#243;pria voz para ficar tr&#234;s dias ao lado de um cara que sequer a reconhece. Ela deve se fazer amar sem ter voz e se ela n&#227;o conseguir, ficar&#225; sem voz para sempre. H&#225; alguns dias sentei para assistir novamente ao filme. Ariel tenta ser outra coisa, contrariando quem o pai gostaria que ela fosse e o faz n&#227;o importando o custo. Dias depois, contei a minha vers&#227;o da hist&#243;ria, em que Ariel n&#227;o cede aos imperativos de &#218;rsula e se apresenta ao pr&#237;ncipe como a sereia que &#233;, coisa que, de sa&#237;da, o havia encantado. Com algum esfor&#231;o ret&#243;rico, Ariel ensina que a obstina&#231;&#227;o &#233; uma coisa boa, que tamb&#233;m nos leva a enrascadas pois n&#227;o existem garantias em rela&#231;&#227;o &#224; vida, compreens&#227;o que considero bem importante.</p><p>Quando a Lila tinha poucos meses, o pai dela dava banho enquanto conversava comigo. Ele n&#227;o estava muito bem e disse a ela: <em>&#8220;Filha, sabe o que eu mais desejo para voc&#234;? Eu desejo que voc&#234; saiba se virar com a vida&#8221;. </em></p><p>H&#225; algumas semanas, ela me interpelou: </p><p><em>-Mam&#227;e, voc&#234; sabia que existem outras J&#250;lias? </em></p><p>-<em>Sim, filha. Eu tamb&#233;m tenho uma amiga que se chama J&#250;lia.</em></p><p><em>-E por que n&#227;o existem outras Lilas?</em></p><p><em>-Existem, filha. Mas &#233; mais dif&#237;cil de achar. </em></p><p><em>-Por qu&#234;?</em></p><p><em>-Porque quando voc&#234; estava na minha barriga, eu queria um nome que fosse dif&#237;cil de achar outra pessoa com o nome igual.</em></p><p>-<em>Por qu&#234;?</em></p><p>-<em>Porque eu queria que voc&#234; fosse a &#250;nica Lila na maioria dos lugares.</em></p><p>-<em>Por qu&#234;?</em></p><p><em>-Porque sim, filha.</em></p><p>Dias depois ela perguntou sobre que nome vai ter quando for adulta. Achei boa essa sacada. Um nome &#233; algo que pode ir mudando com a vida e que, conforme a gente cresce, vai ficando mais e mais respons&#225;vel pelo o que fazemos com ele. No pr&#243;ximo dia 02 de fevereiro, Lila completa 4 anos. Vai ter a primeira festa de anivers&#225;rio grande dela, equivalente para mim ao que algumas m&#227;es fazem no primeiro anivers&#225;rio. Contratei uma decoradora, mas por conta pr&#243;pria, fiz dois itens da decora&#231;&#227;o: o nome e o n&#250;mero 4.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Logo antes, eu havia passado na secretaria da p&#243;s-gradua&#231;&#227;o, num misto de ansiedade e medo, para ver se uma das professoras j&#225; tinha corrigido o trabalho semestral. Ao me juntar a eles, que estavam em uma conversa animada, fui interpelada sobre o assunto e informei que n&#227;o, ela n&#227;o corrigira os trabalhos. Desapontada, a colega revelou ter sonhado que tinha tirado 10 no trabalho. Eu ri e disse: <em>&#8220;Tamb&#233;m sonhei com o trabalho, mas sonhei que tirei 9+1&#8221;</em>. Ela ent&#227;o perguntou se eu fazia parte de uma institui&#231;&#227;o de psican&#225;lise, emendando: <em>&#8220;Por conta dessa tua men&#231;&#227;o ao +1, pensei que voc&#234; poderia estar em um cartel&#8221;.</em> </p><p>A pergunta dela &#233; uma &#8220;pergunta-r&#233;gua&#8221;, aquela que a gente faz pra medir alguma coisa sobre o interlocutor. Antes de contar o que respondi, quero alinhavar coisas a respeito das quais penso desde que encarno duas identidades d&#237;spares: a de uma psicanalista e de uma professora em curso de Psicologia.</p><p>Sou professora substituta de Psicologia em uma Universidade p&#250;blica no Paran&#225;. Essa n&#227;o &#233; s&#243; uma informa&#231;&#227;o para o Lattes, mas algo que contextualiza a minha trajet&#243;ria  e o qu&#227;o dif&#237;cil &#233; se estabelecer nas duas profiss&#245;es que exer&#231;o. Embora a vaga para a qual fui contratada seja de psican&#225;lise, isso n&#227;o significa que eu apenas ministre disciplinas de psican&#225;lise. Como professora tempor&#225;ria, estou &#224; disposi&#231;&#227;o da Universidade e do curso para o que for necess&#225;rio. Eu poderia falar sobre esse ser um trabalho docente precarizado, mas esse n&#227;o &#233; (exatamente) meu ponto. Desde o in&#237;cio da gradua&#231;&#227;o eu entendi que queria ser professora e comecei a percorrer os caminhos acad&#234;micos que entendi que me dariam melhores chances. Quando terminei o doutorado e me deparei com a realidade dos concursos p&#250;blicos para docentes, cheguei a experimentar dizer <em>&#8220;n&#227;o quero mais&#8221;. </em>Ali&#225;s, ouso dizer, &#233; s&#243; porque ser professora &#233; algo de que eu abriria m&#227;o, &#233; que posso ser a professora que eu sou. E o mesmo vale para a psicanalista que eu sou. Se eu quiser fazer outra coisa da vida, eu n&#227;o teria dificuldades em experimentar uma novidade. </p><p>Isso fez com que, em 2024, eu me dedicasse durante muitos meses me preparando par uma vaga de concurso que n&#227;o era de psican&#225;lise. Durante esse ano, estudei como nunca tinha feito antes, sobre a hist&#243;ria da Psicologia brasileira e, sem sombra de d&#250;vidas, foi uma inje&#231;&#227;o de energia &#224; minha pr&#225;tica docente. E sobre essa hist&#243;ria, um dado &#233; muito importante de ser levado em considera&#231;&#227;o: hoje quase 65% das psic&#243;logas atuam exclusivamente com a psicologia e aquelas que t&#234;m maior renda, s&#227;o as que t&#234;m mais de um v&#237;nculo profissional (incluindo a&#237; atua&#231;&#227;o aut&#244;noma). Hoje h&#225; mais profissionais atuando exclusivamente como aut&#244;nomas do que assalariadas e maior parte concilia trabalho aut&#244;nomo e assalariado.</p><p>Ao estudar sobre a Psicologia brasileira, me vi naqueles textos. Enxerguei os caminhos que percorri. Eu me identifiquei com as ang&#250;stias ali traduzidas em formas de n&#250;meros. Eu sou uma psic&#243;loga que atua como aut&#244;noma e que atua na doc&#234;ncia. Eu j&#225; atuei exclusivamente como professora e j&#225; atuei exclusivamente no consult&#243;rio. E hoje, passados 17 anos da minha formatura, eu tenho condi&#231;&#245;es de escolher manter os dois v&#237;nculos ou abrir m&#227;o de um deles. Mas nem sempre foi assim. </p><p>A colega que sonhou que tinha tirado 10 no trabalho e que me perguntou se eu fazia parte de uma institui&#231;&#227;o &#233; uma mulher animada, risonha e despojada. J&#225; eu, fora do meu habitat natural, pare&#231;o um bichinho. No primeiro dia de aula, eu soube que ela era professora em uma institui&#231;&#227;o privada, que o projeto dela teria a ver com o trabalho realizado como supervisora naquela institui&#231;&#227;o. No dia da conversa com a qual iniciei esse texto, ela estava contando algo que tinha acontecido na institui&#231;&#227;o de psican&#225;lise da qual ela fazia parte. Contou que havia v&#225;rios membros novos e que as pessoas se apresentavam dizendo <em>&#8220;Meu nome &#233; fulano, sou psicologo&#8230;&#8221;</em> e assim sucessivamente at&#233; que chegou a vez dela, que disse <em>&#8220;Meu nome &#233; Sicrana e eu nunca fui psic&#243;loga! Nem CRP eu tenho&#8221;</em>. Achei estranho, porque, em tese, ela deveria ter, pois supervisionava alunos de Psicologia (depois eu fui confirmar e ela tinha sim CRP) </p><p>Dez anos depois, essa conversa rende sempre muitas reflex&#245;es porque esse <em>mise en sc&#232;ne</em> sobre qu&#227;o psicanalista ela era/&#233; pode ter impactos bem ruins quando voc&#234; &#233; um jovem formado em Psicologia e decide enveredar pela psican&#225;lise. E para al&#233;m das tentativas de regularizar a profiss&#227;o do psicanalista ou de criar cursos de forma&#231;&#227;o em psican&#225;lise reconhecidos pelo MEC, tem muito psicanalista com nome e sobrenome dando uma de Melqu&#237;ades e vendendo a pedra filosofal ao mesmo tempo em que diz que a pedra filosofal n&#227;o existe. Mas o problema &#233; o seguinte: quando a gente &#233; rec&#233;m-formado e t&#225; com muito tempo livre e a fim de trabalhar, vai pular conte&#250;do desse tipo e voc&#234; vai ter certeza que <em>&#8220;tenho que fazer curso com Fulano&#8221;</em>, <em>&#8220;tenho que comprar livro do Beltrano&#8221;</em> e o famigerado: <em>&#8220;tenho que ter p&#225;gina profissional no Instagram&#8221;</em>. E &#233; a&#237; que o caldo come&#231;a a entornar.</p><p>A cilada do &#8220;tenho que&#8221; come&#231;a a ser transmitida pelos professores na gradua&#231;&#227;o que s&#227;o categ&#243;ricos quanto ao imperativo de se vender Online. A cada ano vejo minhas alunas e meus alunos iniciando suas p&#225;ginas em redes sociais. Vejo as pessoas pr&#243;ximas compartilhando essas postagens, dando uma for&#231;a. Acompanho algumas dessas p&#225;ginas, curto, leio os textos, comento, interajo at&#233;, mas fico preocupada com essa ideia de que aquela p&#225;gina &#233; a condi&#231;&#227;o sem a qual n&#227;o &#233; poss&#237;vel exercer a profiss&#227;o de psic&#243;loga ou de psicanalista em consult&#243;rio particular.</p><p><em>Mas, Angela, ent&#227;o voc&#234; n&#227;o acha que para exercer a profiss&#227;o de psicanalista ou de psic&#243;loga cl&#237;nica, eu tenho que ter um perfil profissional?</em></p><p>A resposta mais imediata &#233;: n&#227;o. Mas com mais cuidado eu diria, n&#227;o necessariamente. Se sim ou n&#227;o vai depender do uso que voc&#234; far&#225; das redes sociais ou se voc&#234; ser&#225; objeto de uso delas (n&#227;o se engane, porque em alguma medida, todos somos, mas a gente pode tentar segurar o quanto somos).  Se for pra estar ref&#233;m das exig&#234;ncias dessa rede para construir conte&#250;dos a ponto de negligenciar a forma&#231;&#227;o ou ainda, aparecer nas redes mesmo que n&#227;o nos sintamos confort&#225;veis para tanto, para qu&#234;? Eventualmente, ter tempo de investir em outras frentes de recursos que possibilitariam construir com mais tranquilidade o trabalho cl&#237;nico pode ser uma via. </p><p>Sou um filhote da internet. Eu gosto da internet. Acho que a gente alcan&#231;a um n&#237;vel de comunica&#231;&#227;o sem igual. Mas existem efeitos colaterais e a banaliza&#231;&#227;o da import&#226;ncia da forma&#231;&#227;o &#233; um deles. Eu diria que as redes s&#227;o essenciais para que hoje possamos realizar uma trajet&#243;ria de forma&#231;&#227;o acess&#237;vel e isso &#233; maravilhoso. Nas redes sociais a gente constr&#243;i transfer&#234;ncia de trabalho com muita gente bacana, a gente se coloca pra pensar, a gente se p&#245;e ao trabalho. </p><p><em>E</em> <em>caixinhas de perguntas sobre o trabalho? Posts sobre sa&#250;de mental? Textos informativos sobre o que &#233; ansiedade ou rebatendo o diagn&#243;stico de m&#227;e narc&#237;sica? Declara&#231;&#245;es de agenda aberta? O que voc&#234; acha? </em></p><p>Eu acho que a pergunta &#233;: por que eu deveria fazer isso? E a partir de cada resposta, pessoal e intransfer&#237;vel, um uso das redes sociais e n&#227;o pelas redes sociais pode se dar. Termino com a resposta que eu dei &#224; colega que perguntou se eu frequentava alguma institui&#231;&#227;o de psican&#225;lise, destacando que o conte&#250;do manifesto do meu sonho remetia ao dispositivo institucional do cartel: <em>Sobre o +1, n&#227;o, nunca participei de um quartel. </em></p><p>O riso de constrangimento se fez e diante do ato bem sucedido e ent&#227;o contei que minha posi&#231;&#227;o perif&#233;rica em rela&#231;&#227;o aos grandes centros de forma&#231;&#227;o em psican&#225;lise n&#227;o me havia possibilitado estar em uma institui&#231;&#227;o de forma permanente. Contei que frequentava institui&#231;&#245;es sim, mas que n&#227;o me considerava parte de nenhuma delas e que toda a minha trajet&#243;ria de forma&#231;&#227;o se dava dessa forma n&#244;made. Acho que na r&#233;gua dela, eu tamb&#233;m n&#227;o era psicanalista.</p><p>Com isso, ao falar sobre estar ou n&#227;o em redes sociais de forma profissional, concluo deixando aparecer os fundilhos das minhas pondera&#231;&#245;es sobre estar em uma institui&#231;&#227;o de psican&#225;lise. Estar ou n&#227;o estar: trata-se de uma decis&#227;o que, tal como estar nas redes sociais vendendo o pr&#243;prio peixe eu responderia com: por que voc&#234; quer isso? A Babel &#233; essa e eu acredito que a gente tem condi&#231;&#245;es de posicionar de modos singulares diante dela sem ser completamente capturado. &#201; minha posi&#231;&#227;o de resist&#234;ncia, no sentido de n&#227;o se render de pronto ao que se propaga ao vento.</p><p>Refer&#234;ncias: </p><p>CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). <strong>Quem faz a psicologia brasileira?</strong>: um olhar sobre o presente para construir o futuro: forma&#231;&#227;o e inser&#231;&#227;o no mundo do trabalho: volume I: um olhar sobre o presente para construir o futuro. Bras&#237;lia: CFP, 2022.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Eu vou sentir muita saudade do meu corpo"]]></title><description><![CDATA[A constru&#231;&#227;o da subjetividade &#233; um ponto essencial do qual partir quando o assunto &#233; psican&#225;lise]]></description><link>https://algumtempo.substack.com/p/eu-vou-sentir-muita-saudade-do-meu</link><guid isPermaLink="false">https://algumtempo.substack.com/p/eu-vou-sentir-muita-saudade-do-meu</guid><dc:creator><![CDATA[Angela Silva]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Jan 2025 13:06:12 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9bb08a8-2194-4c04-a047-d2eeda27e784_2029x2007.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em uma cena infantil que tenho guardada, estou sozinha no meu quarto, abro a &#250;ltima gaveta da c&#244;moda, pego e visto um macac&#227;o que estava guardado ali. N&#227;o por acaso, em um dos poucos registros que tenho da minha primeira inf&#226;ncia, estou usando esse macac&#227;o (que quando eu me tornei m&#227;e, descobri que atualmente chamam de romper). </p><p>Um dos problemas dessa mem&#243;ria &#233; que na foto em que o macac&#227;o me servia, eu deveria ter menos de 2 anos e seria estranho eu lembrar de us&#225;-lo. O outro &#233; que tampouco faz muito sentido eu, com essa idade, conseguir vesti-lo sozinha. Numa atualiza&#231;&#227;o a posteriori, penso que eu deveria ter uns 3 ou 4 anos, que eu deveria ter tentado ou at&#233; conseguido vestir com algum esfor&#231;o e certo aperto. Ou ainda, que apenas peguei o macac&#227;o nas m&#227;os experimentando n&#227;o o macac&#227;o, mas algo que para mim era v&#237;vido, embora eu n&#227;o conseguisse nomear: a saudade que eu tinha de ser beb&#234;. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Em 2022 em uma aula de Psicologia da Personalidade, depois de ter introduzido Freud a partir de <em>Estudos sobre a histeria </em>(1895)<em>, A Interpreta&#231;&#227;o dos sonhos </em>(1900)<em>,  Psicopatologia da vida cotidiana </em>(1901) e <em>O chiste e suas rela&#231;&#245;es com o inconsciente </em>(1905), escolhi falar sobre a constitui&#231;&#227;o do sujeito a partir de um texto da metapsicologia que costuma ser muito mal interpretado: <em>O Eu e o Id </em>(1923). </p><p>Nunca &#233; f&#225;cil escolher por onde come&#231;ar a ler Freud e acredito que n&#227;o exista uma f&#243;rmula m&#225;gica para tanto, uma organiza&#231;&#227;o ouro (embora a <em>Editora Aut&#234;ntica</em> tenha se empenhado nesse sentido). Na gradua&#231;&#227;o, comecei com outro texto metapsicol&#243;gico: <em>O inconsciente </em>(1915), que  me empurrou, por algum tempo, para longe da psican&#225;lise.</p><p>Por isso, quando quem deveria decidir quais textos recomendar era eu, pensei: como eu vou fazer para causar um movimento em dire&#231;&#227;o &#224; psican&#225;lise, no sentido de um interesse genu&#237;no em saber mais, em lugar de uma resist&#234;ncia repelente em rela&#231;&#227;o a ela? A escolha n&#227;o foi aleat&#243;ria e tem tudo a ver com a minha forma&#231;&#227;o e com a import&#226;ncia que adquiriu nela o primeiro semin&#225;rio de Lacan que eu li: <em> A &#233;tica da psican&#225;lise</em> (1959/1960).  </p><p>No post passado, coloquei um trecho da minha tese e hoje vou colocar outro: <em>A moral em psican&#225;lise sintetiza-se assim: Wo Es war soll Ich werden [Onde isso estava, deve o eu advir] (Lacan, 1960[1959]/1988, p. 16). A experi&#234;ncia anal&#237;tica &#233; moral porque permite ao eu perguntar-se sobre o que quer. [&#8230;] Ao contr&#225;rio de uma perspectiva que poderia situar a frase de Freud como anunciando a emers&#227;o de um eu poderoso &#8211; operacional e capaz de s&#237;ntese, basta chamar o life coach &#8211;, Lacan a compreende como uma convoca&#231;&#227;o &#224; responsabilidade.</em></p><p>Eis a raz&#227;o da minha escolha: poder falar aos meus alunos sobre o processo de constitui&#231;&#227;o subjetiva em uma perspectiva freudiana a partir de um texto que Lacan situa como sendo a base de um equ&#237;voco entre os p&#243;s-freudianos que entenderam que o resultado deste processo seria algu&#233;m muito fod&#227;o. E a leitura lacaniana ensina que, desse processo, viria &#224; luz o sujeito do inconsciente, marcado pelos efeitos morais que se enunciam a partir do princ&#237;pio do prazer e para al&#233;m dele. </p><p>No texto de 1923 &#233; onde tamb&#233;m Freud desenha - porque para mim Freud &#233; o exemplo do &#8220;entendeu ou quer que eu desenhe?&#8221; - o quanto na constitui&#231;&#227;o ps&#237;quica existe um corpo: <em>&#8220;O Eu &#233; sobretudo corporal, n&#227;o &#233; apenas uma entidade superficial, mas ele mesmo a proje&#231;&#227;o de uma superf&#237;cie&#8221;</em> (Freud, 1923/2011, p. 32). E quanto mais eu estudo esse texto e penso sobre a inf&#226;ncia como esse tempo perene do qual sobrevivemos - na melhor das hip&#243;teses - mais penso que <em>O Eu e o Id</em>  a gente deveria ler como quem l&#234; <em>Caf&#233; com Deus Pai</em>.  </p><p>Comecei essa postagem falando sobre a minha saudade de ser beb&#234;. Saudade essa que eu n&#227;o era capaz de enunciar, embora, dentro da minha cabe&#231;a, fosse capaz de alcan&#231;ar, com as limita&#231;&#245;es de uma crian&#231;a dessa idade, que tinha algo a ver com amor ou com a ideia de que os beb&#234;s s&#227;o mais amados do que as crian&#231;as em idade ed&#237;pica.</p><p>Conviver com a Lila e fazer parte do processo de constitui&#231;&#227;o subjetiva dela ampliou muito a compreens&#227;o que eu tinha desse eu corporal sobre o qual Freud fala ao abordar o sujeito do inconsciente. Volta e meia ela lan&#231;a perguntas ou mesmo afirma&#231;&#245;es bastante desconcertantes. Consigo alcan&#231;ar que quando ela diz essas coisas, ela t&#225; tateando a pr&#243;pria ang&#250;stia e coloca eu e o pai dela como interlocutores privilegiados em situa&#231;&#245;es que teria gente dizendo que imagina que uma crian&#231;a dessa idade diz tal coisa. As pessoas tendem a menosprezar muito as crian&#231;as. Sempre tratei a Lila n&#227;o a partir do que ela tem condi&#231;&#245;es de entender agora, mas do que ela ter&#225; condi&#231;&#245;es de entender um dia (eu sei, n&#227;o &#233; muito neuro-compat&#237;vel da minha parte, mas &#233; sujeito-compat&#237;vel).</p><p>Assim, o tema do crescimento e da morte h&#225; algum tempo &#233; objeto de questionamentos dela e, a partir dessas investiga&#231;&#245;es, ela conseguiu chegar com as d&#250;vidas dela nas perguntas sobre a origem da vida. Eu achei muito interessante o fato de que nascer, crescer e morrer s&#227;o sentidos que ela j&#225; consegue alcan&#231;ar como correlatos. Dia desses, depois de uma crise vinculada a alguma limita&#231;&#227;o que demos (provavelmente ver desenho), ela chorou muito dizendo que gostaria de voltar a ser beb&#234;. Como sou m&#227;e e n&#227;o analista dela, eu disse: <em>&#8220;mas ser crian&#231;a &#233; muito mais legal do que ser beb&#234;&#8221;</em>. O pai dela veio fazer coro: <em>&#8220;beb&#234; n&#227;o assiste TV, beb&#234; n&#227;o come doce&#8221;</em>.</p><p>A coitada teve que ser did&#225;tica: </p><p>- <em>Mam&#227;e, quando eu crescer eu vou morrer, eu nunca vou ser adulta. Vou ser outra pessoa. Eu vou morrer e vou sentir muita saudade do meu corpo. </em></p><p>A menina n&#227;o completou 4 anos e j&#225; equipara crescer e morrer e mais: ela entende o que ela vai perder &#224; medida que cresce o quanto vai sentir falta disso. &#201; claro que diante desse n&#237;vel de ang&#250;stia, n&#227;o h&#225; muita coisa a dizer exceto buscar algum sentido, ent&#227;o, eu abracei e disse que quando a gente cresce as coisas mudam mesmo e que muita coisa boa tamb&#233;m vem junto. E que sim, a gente sente saudades do corpo. [escrevendo isso, penso que eu deveria ter dito que eu a continuaria amando, independente se ela for beb&#234;, crian&#231;a, adulta, mas na hora n&#227;o me ocorreu].</p><p>Um ou dois dias depois do di&#225;logo sobre crescer e morrer, ela me perguntou: <em>Qual vai ser meu nome quando eu for adulta? </em>Eu: como assim? Ela: <em>Que nome voc&#234;s v&#227;o me dar quando eu crescer? </em>Ent&#227;o eu disse: <em>Filha, algumas pessoas mudam de nome quando crescem mas quase todo mundo fica com o mesmo nome. Voc&#234; gosta do teu nome? </em>Ela respondeu afirmativamente. A&#237; eu disse: <em>Ent&#227;o, quando voc&#234; crescer, voc&#234; pode continuar se chamando Lila, mas al&#233;m desse nome, voc&#234; pode ter muitos outros, como o nome das coisas que voc&#234; vai escolher ser. A mam&#227;e, por exemplo, &#233; professora e psicanalista. Algumas pessoas me conhecem por esses nomes</em>. </p><p>Eu sei que ela ainda n&#227;o &#233; capaz de alcan&#231;ar o que eu disse sobre identidade. Mas ela chega l&#225;. As perguntas dela indicam a emerg&#234;ncia desse sujeito que se projeta numa superf&#237;cie corporal, se identifica a ela e tem medo de perd&#234;-la. A boa not&#237;cia &#233; que a Lila consegue alcan&#231;ar isso de um jeito muito bonito. A ruim, &#233; que isso nunca vai passar e que ser&#227;o muitas as vezes em que a gente vai tentar entrar numa roupa que n&#227;o serve mais. </p><p>A tese citada: Silva, Angela Cristina da. Menos amor, por favor: os registros da pol&#237;tica em Freud e Lacan / Angela Cristina da Silva. &#8211; 2018. 201 f.</p><p>O texto de Lacan citado: Lacan, J. (1960[1959]). <em>O Semin&#225;rio livro 7: a &#233;tica da psican&#225;lise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.</p><p>Os textos de Freud citados eu li pela Companhia das Letras.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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Fato &#233; que, como muita gente que resolve escrever uma tese depois de escrever uma disserta&#231;&#227;o, eu havia entregado o texto nos 45 do segundo tempo e a maior parte do texto foi sem edi&#231;&#227;o, sem muita revis&#227;o, mas com a corre&#231;&#227;o da minha orientadora.  Nesse ano quero publicar o segundo cap&#237;tulo dela que explora a rela&#231;&#227;o entre a pol&#237;tica e a &#233;tica da psican&#225;lise. E por isso, e para me animar em realizar a empreitada, vou postar um trechinho aqui:</p><p><em>Freud enfatizou a import&#226;ncia da busca pelo prazer para a constitui&#231;&#227;o humana, mas sua vanguarda foi t&#234;-la ordenado em correla&#231;&#227;o ao princ&#237;pio de realidade. [&#8230;] Projeto e de Dois princ&#237;pios convergem e indicam que o animal humano &#233; mal acabado, quebrando o paradigma de que o aparelho ps&#237;quico resulta de excita&#231;&#245;es end&#243;genas ou ex&#243;genas que levam a respostas instintivas. Enquanto escancara a inadequa&#231;&#227;o radical, o sistema freudiano, diz Lacan (1960[1959]/1988), preocupa-se com a moral, porque o humano precisa ser inventado a cada nascimento. Por isso, quando Freud aborda as consequ&#234;ncias morais relativas &#224; puls&#227;o, ele trata do advento do sujeito.</em></p><p><em>Nesse &#225;rduo processo constitutivo, instala-se a divis&#227;o subjetiva que evidencia o real, diante do qual chega a ser ing&#234;nua &#224; ideia do eu integral e coeso. Em uma perspectiva que situa o inconsciente como sendo estruturado como uma linguagem, n&#227;o h&#225; como a verdade ser produto da raz&#227;o. &#201; a&#237; que se delineia a concep&#231;&#227;o da Lacan: &#8220;[...] minha tese &#233; de que a lei moral, o mandamento moral, a presen&#231;a da inst&#226;ncia moral, &#233; aquilo por meio do qual em nossa atividade enquanto estruturada pelo simb&#243;lico, se presentifica o real&#8221; (Lacan, 1960[1959]/1988, p. 31).</em></p><p><em>Ignorando a descoberta freudiana, &#233; poss&#237;vel cair no conto segundo o qual a realidade pode ser dominada com as capacidades superiores: &#8220;&#201; uma posi&#231;&#227;o reconfortante. A de Freud, ali&#225;s, como a de todo homem sensato, &#233; coisa bem diferente&#8221; (Lacan, 1960[1959]/1988, p. 43). Mal-estar &#233; um texto escrito tendo como base essa sensatez. O homem sensato n&#227;o est&#225; confort&#225;vel porque reconhece que n&#227;o acessa a realidade, mas uma vers&#227;o dela. Sobre este ponto, Lacan demarca a cr&#237;tica &#224; ortopedia do eu, que n&#227;o faz mais que especular sobre as capacidades humanas. Esperando que elas sejam rent&#225;veis, como atesta o uso dos termos t&#237;picos &#224; gest&#227;o, investe nelas todas as fichas. Cedo ou tarde a bolha estoura.</em></p><p>Silva, Angela Cristina da. Menos amor, por favor: os registros da pol&#237;tica em Freud e Lacan / Angela Cristina da Silva. &#8211; 2018. 201 f.</p><p>O texto de Lacan citado &#233;: </p><p>Lacan, J. (1960[1959]). <em>O Semin&#225;rio livro 7: a &#233;tica da psican&#225;lise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Há algum tempo]]></title><description><![CDATA[Enferrujada]]></description><link>https://algumtempo.substack.com/p/ha-algum-tempo</link><guid isPermaLink="false">https://algumtempo.substack.com/p/ha-algum-tempo</guid><dc:creator><![CDATA[Angela Silva]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Jan 2025 19:09:58 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5bca4990-072b-44ee-9751-794cdaa76400_1329x1017.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; algum tempo penso sobre voltar a escrever. &#201; estranho dizer &#8220;voltar a&#8221; quando fa&#231;o isso todos os dias. Escrevo mensagens de textos, aulas e pequenos textos nas fotos que posto no Instagram. Mas todas as vezes em que penso sobre voltar a escrever em um espa&#231;o como esse, sinto como se minha cabe&#231;a se esvaziasse e eu n&#227;o tivesse mais nada a dizer. </p><p>No in&#237;cio da minha gravidez, fiz um perfil no Medium e o plano era aproveitar o tempo relativamente livre e escrever sobre aquele momento da minha vida, momento &#237;mpar e que pretendo jamais reviver. Eu sabia que estava gr&#225;vida de poucas semanas em junho de 2020 e, mais especificamente no dia 11 de junho, fizemos o teste que confirmou numa linha rosada bastante apagadinha que a minha filha j&#225; come&#231;ava a crescer dentro de mim.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Hoje, quando penso em retrospecto, coloco as duas m&#227;os na cabe&#231;a e me pergunto onde &#233; que eu e Wyllian est&#225;vamos com a nossa para tomar aquela decis&#227;o. Eu, que cheguei a dizer em voz alta para um p&#250;blico consider&#225;vel - como fui lembrada outro dia - que jamais teria filho no governo Bolsonaro, engravidei com a Pandemia tendo come&#231;ado h&#225; pouco mais de dois meses e pasmem, em uma gravidez planejada. O objetivo era mesmo fazer nen&#233;m. Por qu&#234;?</p><p>Olha, tenho certeza que muitas pessoas se fizeram essa pergunta e guardo na lembran&#231;a uma chamada de v&#237;deo realizada com um grupo de amigos que parecia uma esquete do porta-dos-fundos do apocalipse. Hoje em dia eu penso que ter engravidado naquela &#233;poca foi sim uma loucura, mas ao mesmo tempo, foi um voto de esperan&#231;a em dire&#231;&#227;o &#224; vida, n&#227;o &#224; vida de uma forma ampla, mas muito espec&#237;fica e personificada hoje na minha filha.</p><p>Mas o fato &#233; que eu achei que teria tempo e vontade de escrever e, naquela &#233;poca, e eu tinha as duas coisas. O que eu n&#227;o tinha eram ideias, eu n&#227;o sabia sobre o que escrever, o que narrar. E a&#237; voc&#234; pode me perguntar: e &#233; importante escrever alguma coisa? H&#225; algo importante que voc&#234; teria a dizer que algu&#233;m nesse mundo se importaria em ler e pensar com voc&#234; a respeito?</p><p>De sa&#237;da, eu diria que n&#227;o. Mas eu tenho esperan&#231;a de que escrever aqui me ajude a organizar parte das minhas reflex&#245;es sobre os lugares que eu ocupo nesse mundo. </p><p>Outro dia eu tive um sonho: eu estava no meu trabalho participando de uma atividade que reunia os professores do departamento em que dou aula, n&#227;o lembro que atividade era, mas em dado momento um grupo de colegas levantou e saiu. Eu n&#227;o atinei que aquela sa&#237;da era uma sa&#237;da definitiva e que eu tinha ficado para tr&#225;s, participando com meia d&#250;zia de gatos pingados de seja l&#225; qual fosse a atividade para a qual est&#225;vamos l&#225; reunidos. E quando me dei conta disso, senti um desamparo muito grande. </p><p>Dias atr&#225;s, levei minha filha no parquinho. Ela brincava com algumas crian&#231;as at&#233; que ouvi o nome dela. Era uma crian&#231;a que minha filha conhecia, de quem ela gosta muito. Ela estava com outra amiguinha e as tr&#234;s come&#231;aram a brincar juntas. Mas as duas menininhas come&#231;aram, tempos depois, a fazer coisas sem inclu&#237;-la. Em dado momento come&#231;aram a brincar de pega-pega, e a Lila era quem estava pegando. Olhando de longe, percebi que elas estavam fugindo dela que, por ser bem menor, tinha dificuldades em acompanh&#225;-las. Quando ela percebeu que estava sendo exclu&#237;da, come&#231;ou a chorar e veio at&#233; a mim. Eu a abracei e comecei a conversar com ela, perguntei se ela queria ir embora. Ela disse que n&#227;o, que queria brincar com a amiga. Ent&#227;o eu disse: <em>&#8220;O problema, filha, &#233; que ela parece n&#227;o querer brincar com voc&#234; e quando as pessoas n&#227;o querem brincar com a gente, a gente n&#227;o deve insistir"</em>. Nisso, as meninas se aproximaram de mim e perguntaram por que ela estava chorando. Me abaixei e disse: <em>&#8220;a Lila n&#227;o consegue brincar com voc&#234;s no mesmo ritmo, ela &#233; pequena. Voc&#234;s j&#225; passaram por isso?&#8221;</em>. E ent&#227;o, as duas come&#231;aram a me contar situa&#231;&#245;es parecidas. Perguntei como elas se sentiam nessas situa&#231;&#245;es e elas disseram que se sentiam mal. Ent&#227;o, conclu&#237; dizendo: <em>&#8220;ent&#227;o, voc&#234;s a entendem!&#8221;.</em> Depois disso, elas conseguiram incluir a Lila, mas eu voltei com ela pra casa falando sobre aceita&#231;&#227;o.</p><p>&#201; muito duro ter essa conversa com uma crian&#231;a de 3 anos. Sei que isso n&#227;o est&#225; no meu controle, mas se eu pudesse escolher, gostaria que ela decidisse n&#227;o estar em um lugar, em uma rela&#231;&#227;o, em uma profiss&#227;o a qualquer custo - embora tudo nessa vida tenha um custo qualquer.</p><p>&#201; sobre esse tipo de coisa - sonhos, acontecimentos, di&#225;logos, encontros - que eu quero escrever. Escrevo na internet porque gosto de escrever na internet. Fa&#231;o isso desde que criei, l&#225; pelos 20 anos, uma conta no Live Journal. Depois, tive dois blogs ativos no Blogger. Mas quando comecei a usar o Facebook, percebi que passei a escrever muito mais l&#225;. Durante os &#250;ltimos anos, escrevi no Twitter e atualmente, vez ou outra, lembro que tenho BlueSky. O Instagram &#233; a rede social onde mais escrevo, mas atualmente, gosto muito pouco de estar l&#225; e quero estar cada vez menos. </p><p>Cada vez menos capturada pela vontade de postar fotos da minha filha.</p><p>Cada vez menos capturada pelo algor&#237;timo insuport&#225;vel.</p><p>Cada vez menos tendo meu tempo capturado.</p><p>Ser&#225; que h&#225; tempo para isso?</p><p>Penso que h&#225; algum tempo. </p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://algumtempo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Angela! 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