<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></title><description><![CDATA[Eterno Aprendiz]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2baw!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png</url><title>GERA TEIXEIRA</title><link>https://gerateixeira.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 04 Nov 2026 18:36:18 GMT</lastBuildDate><atom:link href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fgerateixeira.substack.com%2Ffeed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[gerateixeira@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[gerateixeira@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[gerateixeira@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[gerateixeira@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A bolha dos privilegiados]]></title><description><![CDATA[Entre o discurso da conviv&#234;ncia e a indiferen&#231;a diante da mis&#233;ria]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/a-bolha-dos-privilegiados</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/a-bolha-dos-privilegiados</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Thu, 22 Oct 2026 14:44:10 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; uma peculiaridade nas elites brasileiras que merece reflex&#227;o. Re&#250;nem pessoas de elevada instru&#231;&#227;o, s&#243;lida forma&#231;&#227;o cultural e confort&#225;vel condi&#231;&#227;o econ&#244;mica. Constituem uma minoria privilegiada que, n&#227;o raramente, contempla o pa&#237;s pelas janelas de sua pr&#243;pria bolha.</p><p>Em per&#237;odos eleitorais, essa contradi&#231;&#227;o torna-se particularmente evidente. Multiplicam-se publica&#231;&#245;es de indig&#234;ncia intelectual desconcertante, reproduzidas sem reflex&#227;o, enquanto manifesta&#231;&#245;es aparentemente elaboradas frequentemente revelam mais preocupa&#231;&#227;o com interesses particulares do que com o destino coletivo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gerateixeira.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Fala-se em ideologias como se estiv&#233;ssemos diante de projetos consistentes de sociedade. Mas quais ideologias? Onde est&#227;o as propostas estruturantes para enfrentar a pobreza, superar a mis&#233;ria, combater a fome e assegurar oportunidades reais de emancipa&#231;&#227;o humana?</p><p>O que predomina &#233; uma disputa pelo poder, frequentemente revestida de ret&#243;rica moral, conveni&#234;ncias partid&#225;rias e interesses pessoais. Confunde-se toler&#226;ncia com acomoda&#231;&#227;o, conviv&#234;ncia democr&#225;tica com complac&#234;ncia diante do inaceit&#225;vel.</p><p>O assistencialismo pode aliviar urg&#234;ncias. &#201; necess&#225;rio quando a fome n&#227;o pode esperar. Mas, convertido em instrumento permanente de depend&#234;ncia pol&#237;tica, deixa de representar uma ponte para a cidadania e passa a sustentar rela&#231;&#245;es de clientelismo.</p><p>N&#227;o se constr&#243;i justi&#231;a social mantendo multid&#245;es dependentes da generosidade calculada dos governantes. Tampouco se transforma uma na&#231;&#227;o com discursos ornamentados por palavras que seus pr&#243;prios defensores parecem desconhecer.</p><p>A conviv&#234;ncia civilizada entre diferentes pensamentos &#233; indispens&#225;vel &#224; democracia. Mas exige honestidade intelectual, responsabilidade p&#250;blica e disposi&#231;&#227;o para enfrentar privil&#233;gios, inclusive os nossos.</p><p>Sem isso, o debate pol&#237;tico continuar&#225; oscilando entre o espet&#225;culo circense e o constrangimento moral.</p><p>E a bolha permanecer&#225; intacta, enquanto o Brasil real continuar&#225; esperando do lado de fora.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gerateixeira.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler! 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Voltam diante de uma perda, de uma decis&#227;o, de um amanhecer em que custa levantar. Tenho algumas assim. N&#227;o lhes conhe&#231;o ao certo a origem; conhe&#231;o os lugares que ocupam em mim.</p><p>&#8220;Enfrente o sol e as sombras cair&#227;o &#224;s tuas costas.&#8221; Voltar o rosto para a luz nem sempre foi f&#225;cil. H&#225; m&#225;goas que pedem companhia, lembran&#231;as que insistem em governar o presente. &#192;s vezes, permanecemos junto daquilo que nos feriu porque o sofrimento conhecido parece mais seguro que uma alegria ainda desconhecida. Procuro reconhecer quando fa&#231;o isso. Depois, abro uma janela.</p><p>&#8220;N&#227;o se mede a profundidade de um lago com os dois p&#233;s.&#8221; A frase conversa com meu temperamento inquieto. Curioso, eterno aprendiz, j&#225; quis compreender a &#225;gua entrando nela. Aprendi, com algum preju&#237;zo, que o entusiasmo tamb&#233;m pode esconder uma pressa: a de provar meu valor, vencer uma d&#250;vida, receber aprova&#231;&#227;o. Hoje tento escutar o que me empurra antes de dar o passo. A prud&#234;ncia me permite continuar a viagem.</p><p>&#8220;Liderar &#233; servir.&#8221; Depois de tantas jornadas de trabalho, essa ideia ficou exigente. Servir pede aten&#231;&#227;o ao outro, inclusive quando ele n&#227;o confirma o que penso. Nem sempre consigo. Tamb&#233;m desejo ser ouvido, reconhecido, considerado. Admitir isso me ajuda a perceber quando ofere&#231;o uma contribui&#231;&#227;o e quando espero, em sil&#234;ncio, que ela me devolva um lugar. H&#225; dias em que servir come&#231;a por suportar n&#227;o ter a &#250;ltima palavra.</p><p>&#8220;No final tudo d&#225; certo; se ainda n&#227;o deu, &#233; porque ainda n&#227;o chegou ao fim.&#8221; Acolho essa frase com a esperan&#231;a de quem j&#225; viu planos se desfazerem. Algumas coisas n&#227;o se recomp&#245;em como desejamos. Ainda assim, posso dar um destino ao que restou. Uma decep&#231;&#227;o n&#227;o precisa encerrar minha hist&#243;ria. Enquanto houver manh&#227;, haver&#225; alguma coisa a cuidar, algu&#233;m a amar, algo a aprender.</p><p>&#8220;A loucura &#233; o exerc&#237;cio mais pleno da lucidez.&#8221; Leio essa provoca&#231;&#227;o como licen&#231;a para conservar minhas estranhezas. Na maturidade, ainda estudo, escrevo, fa&#231;o perguntas. Talvez pare&#231;a excessivo. Mas quanto de n&#243;s foi silenciado para caber no olhar alheio ? Quero dar voz ao que continua vivo em mim, sem perder o cuidado com quem caminha ao meu lado.</p><p>Essas frases me acompanham porque ainda trope&#231;o nas li&#231;&#245;es que carregam. Preciso de luz, de cautela, de humildade e de esperan&#231;a. E de alguma liberdade para envelhecer sem me abandonar. Entre o que compreendo e o que consigo viver, vou tentando.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A FOME DE QUEM JÁ TEM]]></title><description><![CDATA[Numa terra pobre como a nossa, h&#225; uma fome que n&#227;o se resolve com p&#227;o.]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/a-fome-de-quem-ja-tem</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/a-fome-de-quem-ja-tem</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Sun, 11 Oct 2026 20:50:19 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Numa terra pobre como a nossa, h&#225; uma fome que n&#227;o se resolve com p&#227;o. &#201; a fome de quem j&#225; tem e continua querendo. Para certos donos do poder, governar o estado e a capital parece pouco. O horizonte se alarga at&#233; Bras&#237;lia, onde o dinheiro p&#250;blico ganha outra escala e as alian&#231;as podem abrir portas que o or&#231;amento local mant&#233;m estreitas.</p><p>A pobreza do povo imp&#245;e limites &#224; vida de todos. &#192; ambi&#231;&#227;o de alguns, serve de argumento para pedir mais recursos. Prometem combater a mis&#233;ria, corrigir desigualdades, devolver dignidade. O discurso vem bem vestido. O povo espera de chinelos, numa fila que atravessa governos.</p><p>N&#227;o h&#225; mal em buscar apoio federal. Uma terra carente precisa de investimentos, obras e servi&#231;os. O problema come&#231;a quando a necessidade coletiva vira senha de acesso a vantagens particulares. Quando a verba chega e o cidad&#227;o continua procurando o rem&#233;dio, a escola, a &#225;gua, enquanto os pr&#243;ximos do poder parecem encontrar tudo.</p><p>Esc&#226;ndalos vultosos deixam atr&#225;s de si algo que as cifras n&#227;o mostram: o tempo de quem esperou atendimento, a inf&#226;ncia encurtada pela fome, o trabalhador que perdeu o dia atr&#225;s de um direito. Cada recurso desviado faz falta em algum lugar. Algu&#233;m paga por ele sem ter participado da festa.</p><p>E h&#225; quem se habitue tanto &#224;s benesses que j&#225; n&#227;o saiba viver fora delas. Trata o cargo como patrim&#244;nio, o aliado como credor e o or&#231;amento como heran&#231;a. Troca de discurso, de companhia, de promessa. A disposi&#231;&#227;o de permanecer &#233; a mesma.</p><p>A mis&#233;ria oferece a essa gente uma vantagem cruel: torna urgente qualquer al&#237;vio. Quem precisa comer hoje tem pouca liberdade para discutir o amanh&#227;. Uma ajuda pode virar d&#237;vida de gratid&#227;o; um direito, favor eleitoral.</p><p>Passam os mandatos. A pobreza fica. Certas fortunas prosperam.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[FREUD NA POLTRONA AO LADO]]></title><description><![CDATA[Freud na poltrona ao lado]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/freud-na-poltrona-ao-lado</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/freud-na-poltrona-ao-lado</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Wed, 07 Oct 2026 00:31:36 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Freud na poltrona ao lado</p><p>Gera Teixeira</p><p>Fiz uma p&#243;s-gradua&#231;&#227;o em psican&#225;lise. Acrescentei os estudos &#224; bagagem de uma vida intensa, &#224; leitura voraz e ao h&#225;bito de observar as pessoas, inclusive quando elas acreditam n&#227;o estar dizendo nada. Ainda assim, quando algu&#233;m me procura querendo atendimento, prefiro guardar a prud&#234;ncia. Por enquanto, uso o que aprendi para tentar compreender este sujeito que me acompanha desde o nascimento e nem sempre colabora comigo.</p><p>O amanh&#227;, n&#227;o sei. J&#225; vivi o suficiente para desconfiar das decis&#245;es que come&#231;am com &#8220;nunca&#8221;.</p><p>Num voo para Atlanta, sentou-se ao meu lado uma jovem. Poderia ser minha filha; pensando melhor, minha neta. Come&#231;amos conversando por aquela solidariedade entre passageiros condenados &#224;s mesmas horas de voo, &#224; mesma comida e &#224; esperan&#231;a de conseguir dormir numa posi&#231;&#227;o que o corpo n&#227;o aprova.</p><p>Perguntou o motivo da viagem. Perguntei o dela. Falamos da fam&#237;lia, do trabalho, das coisas que se dizem antes de saber se vale a pena continuar conversando.</p><p>Quando mencionei meus estudos, ela se virou um pouco na poltrona.</p><p>&#8212; Ent&#227;o o senhor &#233; psicanalista ?</p><p>Expliquei minha situa&#231;&#227;o. Tinha estudado, continuava interessado, mas n&#227;o atendia.</p><p>&#8212; Mas posso lhe perguntar uma coisa ?</p><p>Pensei que, a dez mil metros de altitude, seria dif&#237;cil alegar outro compromisso.</p><p>&#8212; Pode.</p><p>Ela ajeitou a manta sobre os joelhos.</p><p>&#8212; Por que eu me sinto uma crian&#231;a perto dos meus pais ?</p><p>At&#233; ali, eu vinha tentando encontrar uma posi&#231;&#227;o para as pernas. De repente, precisava encontrar uma posi&#231;&#227;o para a escuta.</p><p>&#8212; Como &#233; isso ?</p><p>&#8212; Tenho meu trabalho, pago minhas contas, moro sozinha. Mas meu pai pergunta se tenho certeza de alguma decis&#227;o e pronto: come&#231;o a achar que estou fazendo uma besteira.</p><p>&#8212; Ele diz que voc&#234; est&#225; fazendo uma besteira ?</p><p>&#8212; Nem sempre. &#192;s vezes s&#243; pergunta.</p><p>Ficou olhando para a tela apagada &#224; sua frente.</p><p>&#8212; Acho que eu completo o resto.</p><p>A frase me interessou mais do que qualquer explica&#231;&#227;o que eu pudesse oferecer.</p><p>&#8212; O que voc&#234; costuma ouvir nessa pergunta ?</p><p>Ela demorou.</p><p>&#8212; Que eu n&#227;o sei cuidar de mim.</p><p>Contou que o pai trabalhara muito, dera conforto &#224; fam&#237;lia e acompanhara de perto seus estudos. Falava dele com carinho. Tamb&#233;m se lembrava de levar uma nota boa para casa e escutar uma pergunta sobre os pontos que faltaram.</p><p>&#8212; Talvez ele quisesse me incentivar.</p><p>&#8212; E como voc&#234; recebia isso ?</p><p>&#8212; Como se ainda n&#227;o estivesse bom.</p><p>Passou o dedo pela borda do copo. Esperei.</p><p>&#8212; Com minha m&#227;e &#233; diferente. Ela diz que eu posso fazer o que quiser. Depois fica triste quando fa&#231;o.</p><p>&#8212; O que acontece ent&#227;o ?</p><p>&#8212; Eu mudo meus planos. Ou fa&#231;o escondido. E me sinto p&#233;ssima dos dois jeitos.</p><p>A aeromo&#231;a interrompeu para oferecer caf&#233;. Aceitei. Freud, naquela altura, teria de trabalhar com um copinho de pl&#225;stico.</p><p>&#8212; Minha m&#227;e tem medo de ficar sozinha &#8212; continuou. &#8212; Eu entendo. Mas &#224;s vezes parece que preciso escolher entre viver e ser uma boa filha.</p><p>&#8212; O que seria uma boa filha para voc&#234; ?</p><p>Ela abriu a boca para responder e parou.</p><p>&#8212; N&#227;o sei se essa defini&#231;&#227;o &#233; minha.</p><p>Houve um sil&#234;ncio. O avi&#227;o seguia com seu ru&#237;do constante, indiferente ao trabalho que aquela pergunta come&#231;ava a dar.</p><p>Tive vontade de dizer algo bonito sobre liberdade, culpa, crescimento. Contive-me. Uma pessoa acaba de abrir uma porta e n&#243;s, por vaidade ou ansiedade, j&#225; queremos mobiliar a casa.</p><p>&#8212; O senhor acha que meus pais s&#227;o o meu problema ?</p><p>&#8212; Conhe&#231;o seus pais h&#225; poucos minutos, pelo que voc&#234; me contou. E ainda estou conhecendo voc&#234;.</p><p>Ela sorriu.</p><p>&#8212; Achei que ia me dar uma resposta.</p><p>&#8212; Eu tamb&#233;m gostaria de receber algumas.</p><p>Rimos. A conversa perdeu um pouco da solenidade e ganhou intimidade.</p><p>Disse-lhe que eu tamb&#233;m era pai, av&#244;, e que certamente havia feito perguntas julgando demonstrar cuidado quando meus filhos talvez tivessem escutado desconfian&#231;a. Amar algu&#233;m n&#227;o nos d&#225; acesso garantido ao modo como esse amor chega.</p><p>&#8212; Ent&#227;o eles podem me amar e me fazer mal ?</p><p>&#8212; Podemos magoar pessoas que amamos. Imagino que voc&#234; tamb&#233;m se lembre de alguma vez.</p><p>Lembrou. Sua express&#227;o mudou. J&#225; n&#227;o falava de dois personagens encarregados de explicar sua vida. Falava de pessoas com quem mantinha uma rela&#231;&#227;o dif&#237;cil, querida, ainda em movimento.</p><p>Mais tarde, apagaram as luzes da cabine. Ela agradeceu e reclinou a poltrona.</p><p>Fiquei acordado por algum tempo. Eu, que preferia usar meus estudos em proveito pr&#243;prio, tinha passado parte do voo escutando uma desconhecida. E ela, sem saber, me fizera examinar a maneira como eu perguntava, aconselhava, cuidava.</p><p>Meu pequeno papel de Freud terminara sem diagn&#243;stico, sem div&#227; e sem resposta definitiva.</p><p>Antes de adormecer, fiz uma anota&#231;&#227;o no celular: na pr&#243;xima conversa com um filho, perguntar menos depressa. Dar tempo para que ele termine.</p><p>Ainda havia muito voo pela frente.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[AMANHÃ CONTO MAIS]]></title><description><![CDATA[Gera Teixeira]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/amanha-conto-mais</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/amanha-conto-mais</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Sun, 04 Oct 2026 00:06:19 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Gera Teixeira</p><p>N&#227;o sou de apostar. Nunca fui. De jogo, gosto de um xadrez de iniciante ou de uma partida de damas. J&#225; me bastaram as surpresas da vida, que nunca precisou da minha autoriza&#231;&#227;o para mexer nas pe&#231;as.</p><p>V&#237;cios ? Quem n&#227;o os tem, indico Memoriol. Ser&#225; que ainda fabricam ? E Cibalena ? H&#225; nomes que ficaram guardados numa prateleira da mem&#243;ria, junto de coisas que desapareceram das farm&#225;cias, mas continuam circulando dentro da gente.</p><p>O cigarro foi meu carrasco. Comecei aos 18 anos, no primeiro ano da universidade. Foram trinta anos de conviv&#234;ncia: Hollywood durante muito tempo e, no fim, Carlton. Largar foi dif&#237;cil. Consegui aos exatos 48 anos.</p><p>Ainda guardo o &#250;ltimo ma&#231;o, fechado. O isqueiro Zippo virou quase uma rel&#237;quia. Olho para os dois e lembro quanto me custou deix&#225;-los sem serventia. Foi uma gra&#231;a que alcancei, dessas que a gente agradece sem esquecer o esfor&#231;o que exigiram.</p><p>At&#233; aqui, meus pulm&#245;es n&#227;o me apresentaram a conta daqueles anos. Tamb&#233;m atravessei a pandemia sem contrair Covid. Em outubro de 2022, retirei a pr&#243;stata junto com um carcinoma descoberto cedo, encapsulado. A cirurgia rob&#243;tica aconteceu numa ter&#231;a-feira; na quarta, tive alta. Guardo daquele epis&#243;dio a gratid&#227;o pelo diagn&#243;stico e por ter voltado para casa.</p><p>Durante muito tempo, algo me dizia que eu n&#227;o chegaria nem perto dos setenta. N&#227;o era uma previs&#227;o fundamentada. Era uma impress&#227;o que me acompanhava. Pois cheguei. E, em novembro, completo 72.</p><p>Gostei de chegar.</p><p>Pretendo viver os anos que a lucidez me permitir, com curiosidade suficiente para ainda ter o que aprender e o que contar.</p><p>Amo minha fam&#237;lia. &#201; a maior riqueza que constru&#237; e que continuo cuidando. A alegria cresce quando vejo os filhos seguindo seus caminhos, os netos crescendo, a vida encontrando novas maneiras de reunir os nossos.</p><p>Os livros tamb&#233;m me acompanham. Sou voraz, confesso. S&#227;o meus amigos silenciosos desde os doze anos, quando ganhei de uma professora particular um exemplar de Mitologia Grega. Ainda o guardo como um tesouro precioso. Entre tantos livros que chegaram depois, aquele conserva o lugar de quem abriu a porta.</p><p>Na juventude, joguei basquete. Meu maior feito esportivo foi uma medalha de ouro nos Jogos Universit&#225;rios dos anos setenta, pelo Centro de Tecnologia da UFC. Eram os primeiros tempos do ent&#227;o afastado Campus do Pici. A dist&#226;ncia parecia grande; a disposi&#231;&#227;o para percorr&#234;-la, maior ainda.</p><p>N&#227;o conheci patrulhamento ideol&#243;gico naquele conv&#237;vio. Onde eu bebericava rum com Coca-Cola, cabiam todos os credos. Havia diferen&#231;as, naturalmente, mas consegu&#237;amos conversar com respeito. Tenho saudade dessa liberdade de estar entre pessoas sem precisar conferir primeiro o que cada uma pensava.</p><p>Enquanto estudava engenharia, trabalhei como revisor de jornal e mantive uma p&#225;gina semanal num tabloide local. A experi&#234;ncia me conferiu o honroso t&#237;tulo de jornalista. Eu aprendia a c&#225;lculos e, ao mesmo tempo, a prestar aten&#231;&#227;o numa frase. As palavras acabaram ficando comigo.</p><p>Minha trajet&#243;ria profissional me permitiu conhecer as duas faces da moeda e toda a borda que as circunda. Houve altos e baixos. No balan&#231;o, considero que alcancei uma medida adequada e saud&#225;vel. Nunca fui muito de excessos, embora o cigarro tenha sabido explorar uma exce&#231;&#227;o.</p><p>Sempre carreguei comigo a espiritualidade franciscana. Ela esteve presente no trabalho, em casa, nas perdas e nos recome&#231;os. Com os anos, fui compreendendo melhor o valor de viver com menos pretens&#227;o e mais aten&#231;&#227;o ao outro.</p><p>Minhas origens fazem de mim um cidad&#227;o &#237;talo-brasileiro. Entre Roma e Atlanta, fiquei com Atlanta, onde um filho vive h&#225; mais de uma d&#233;cada com sua bela fam&#237;lia made in USA. A It&#225;lia continua nas ra&#237;zes, nos afetos e, evidentemente, &#224; mesa.</p><p>Curti Chico, Caetano, Gal e tantos outros do mesmo naipe. Mas meu encantamento pela m&#250;sica chamada de brega permanece. Ela conta a hist&#243;ria dessa nossa gente, suas paix&#245;es, seus abandonos, a esperan&#231;a de que algu&#233;m volte. &#192;s vezes, um refr&#227;o sabe dizer aquilo que uma conversa inteira n&#227;o consegue.</p><p>Descobri Raul Seixas no come&#231;o da carreira dele. Alguns at&#233; me criticavam. Tenho todos os seus discos. Gosto tamb&#233;m de Roberto Carlos, o nosso Rei. O brasileiro tem um curioso complexo de monarquia: &#233; rei para tudo. Talvez eu volte a esse assunto outro dia.</p><p>De uns tempos para c&#225;, minha curiosidade de eterno aprendiz me levou a uma p&#243;s-gradua&#231;&#227;o em Psican&#225;lise e a outra em Neuroci&#234;ncia. Esses estudos, reunidos &#224; espiritualidade franciscana, me ajudaram a perceber facetas da vida que antes passavam despercebidas. Inclusive algumas das minhas.</p><p>Incentivado, comecei a reunir os escritos espalhados em cadernos, agendas, disquetes, pen drives, guardanapos e at&#233; papel de embrulhar p&#227;o. Desse trabalho nasceu um livro aqui, outro acol&#225;. Edito nos Estados Unidos, em pequenas tiragens, com a inten&#231;&#227;o de preservar os guardados. &#201; uma satisfa&#231;&#227;o encontrar nas p&#225;ginas alguma coisa que escrevi h&#225; tanto tempo e reconhecer o homem que eu era.</p><p>Macarr&#227;o &#233; meu prato predileto. Evidente.</p><p>Levaria uma boa surra dos meus amados av&#243;s italianos se me vissem acompanhando uma pasta de grano duro, com molho de tomate feito em casa, de uma Coca-Cola em lugar de uma ta&#231;a de vinho.</p><p>Sacril&#233;gio, diriam. E eu teria pouca defesa.</p><p>Por hoje, basta. Costumo dormir &#224;s dez da noite e acordar &#224;s quatro, ainda antes de o dia clarear, para o meu ritual do caf&#233;. Gosto desse come&#231;o silencioso, quando a casa dorme e tenho algum tempo para os meus pensamentos.</p><p>Amanh&#227; conto mais.</p><p>Boa noite a todos. </p><p>Paz e Bem.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Mito de Sísifo, de Albert Camus, sob a perspectiva de O Sentido da Vida, de Viktor Frankl]]></title><description><![CDATA[Escrevo isso como quem carrega, h&#225; mais de cinquenta anos, um trip&#233; que insiste em dialogar consigo mesmo : as ci&#234;ncias exatas, que me ensinaram que toda estrutura tem um limite de carga; a psican&#225;lise e a neuroci&#234;ncia, que me mostraram que esse limite tamb&#233;m existe na alma; e a espiritualidade franciscana, que me ensinou que mesmo a ru&#237;na pode ser habitada com paz.]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/o-mito-de-sisifo-de-albert-camus</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/o-mito-de-sisifo-de-albert-camus</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Sat, 12 Sep 2026 22:14:52 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Escrevo isso como quem carrega, h&#225; mais de cinquenta anos, um trip&#233; que insiste em dialogar consigo mesmo : as ci&#234;ncias exatas, que me ensinaram que toda estrutura tem um limite de carga; a psican&#225;lise e a neuroci&#234;ncia, que me mostraram que esse limite tamb&#233;m existe na alma; e a espiritualidade franciscana, que me ensinou que mesmo a ru&#237;na pode ser habitada com paz.</strong></p><p></p><p><strong>Camus e Frankl partem do mesmo diagn&#243;stico : a vida, olhada de frente, n&#227;o oferece sentido pronto. S&#237;sifo empurra a pedra sabendo que ela rolar&#225; de volta. N&#227;o h&#225; vit&#243;ria poss&#237;vel dentro da l&#243;gica da tarefa. &#201; exatamente aqui que Camus prop&#245;e sua resposta : a revolta consciente, a aceita&#231;&#227;o l&#250;cida do absurdo sem fuga para dogmas ou ideologias que anestesiem a pergunta. "&#201; preciso imaginar S&#237;sifo feliz", escreve ele - n&#227;o porque a pedra pare de cair, mas porque o homem, ao tomar posse consciente de seu destino, transforma o castigo em destino pr&#243;prio.</strong></p><p></p><p><strong>Frankl, que sobreviveu aos campos de concentra&#231;&#227;o nazistas, n&#227;o discorda do diagn&#243;stico - discorda da conclus&#227;o. Para ele, o sofrimento n&#227;o precisa ser apenas suportado com lucidez estoica; pode ser transformado em sentido quando o homem descobre uma tarefa, um amor ou uma atitude diante da pr&#243;pria dor que ningu&#233;m pode lhe tirar. Enquanto Camus encontra a dignidade na revolta contra a aus&#234;ncia de sentido, Frankl encontra a dignidade na constru&#231;&#227;o ativa de um sentido - ainda que provis&#243;rio, ainda que pessoal, ainda que invis&#237;vel aos olhos de quem observa de fora.</strong></p><p></p><p><strong>&#201; neste ponto que minha forma&#231;&#227;o me obriga a mediar. As ci&#234;ncias exatas me ensinaram que toda estrutura inst&#225;vel busca um novo equil&#237;brio - n&#227;o porque o equil&#237;brio anterior fosse ilus&#243;rio, mas porque a vida real n&#227;o tolera o vazio por muito tempo. A psican&#225;lise me mostrou que a psique humana, mesmo fraturada, tende a reorganizar-se em torno de um n&#250;cleo de significado; &#233; o que Frankl chamou de vontade de sentido, t&#227;o fundamental quanto a vontade de prazer freudiana ou a vontade de poder de Adler. E a neuroci&#234;ncia contempor&#226;nea, ao estudar a resili&#234;ncia, confirma algo que Camus talvez n&#227;o quisesse admitir : encontrar sentido, mesmo provis&#243;rio, altera literalmente a forma como o c&#233;rebro humano processa o sofrimento.</strong></p><p></p><p><strong>Mas &#233; a espiritualidade franciscana que, para mim, costura definitivamente as duas perspectivas. Francisco de Assis n&#227;o negou o absurdo do mundo - a doen&#231;a, a pobreza, a injusti&#231;a estavam todas ali, diante dele, t&#227;o mudas e indiferentes quanto o rochedo de S&#237;sifo. Tampouco Francisco inventou uma ideologia para escapar delas. O que ele fez foi transformar a pr&#243;pria aceita&#231;&#227;o do absurdo em ato de amor - louvando o sol e a morte na mesma respira&#231;&#227;o, sem hierarquiz&#225;-los. Nisso, Francisco antecipa uma s&#237;ntese : &#233; poss&#237;vel revoltar-se lucidamente contra o absurdo, como Camus prop&#245;e, e ao mesmo tempo encontrar nesse mesmo gesto um sentido que sustente a vontade de viver, como Frankl prop&#245;e. A revolta e o sentido n&#227;o s&#227;o necessariamente opostos; podem ser o mesmo movimento, olhado de dois &#226;ngulos.</strong></p><p></p><p><strong>Talvez seja por isso que, em meus pr&#243;prios escritos, evito tanto a resposta pronta quanto a nega&#231;&#227;o de toda resposta. Aos setenta anos, tendo atravessado d&#233;cadas de decis&#245;es empresariais, perdas familiares e a lenta reconstru&#231;&#227;o que cada uma delas exige, aprendi que a pedra de S&#237;sifo e a busca de sentido de Frankl convivem na mesma vida - &#224;s vezes na mesma manh&#227;. N&#227;o &#233; preciso escolher entre imaginar S&#237;sifo feliz e encontrar, no meio do inverno, um ver&#227;o invenc&#237;vel dentro de si. As duas frases, lidas juntas, dizem a mesma coisa com vocabul&#225;rios diferentes : a dignidade humana n&#227;o depende de o universo responder &#224;s nossas perguntas; depende de continuarmos perguntando, empurrando e, apesar de tudo, amando.</strong></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[QUANDO JÁ NÃO É POSSÍVEL DESVER]]></title><description><![CDATA[QUANDO J&#193; N&#195;O &#201; POSS&#205;VEL DESVER]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/quando-ja-nao-e-possivel-desver</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/quando-ja-nao-e-possivel-desver</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Tue, 08 Sep 2026 03:10:27 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>QUANDO J&#193; N&#195;O &#201; POSS&#205;VEL DESVER</em></p><p>Durante muito tempo, pensei que compreender melhor a vida me traria serenidade. Imaginava que, quanto mais soubesse sobre as pessoas, as rela&#231;&#245;es e o mundo, mais seguro estaria. A experi&#234;ncia ensinou-me o contr&#225;rio: perceber com nitidez tamb&#233;m pesa.</p><p>H&#225; momentos em que noto o que preferiria ignorar: interesses escondidos sob palavras generosas, conveni&#234;ncias apresentadas como princ&#237;pios e sil&#234;ncios usados para evitar verdades inc&#244;modas. N&#227;o considero isso um m&#233;rito. &#192;s vezes, &#233; um fardo.</p><p>Depois que aprendi a observar certos movimentos, j&#225; n&#227;o consigo participar deles com a mesma inoc&#234;ncia. Posso calar, mudar de assunto ou fingir distra&#231;&#227;o, mas algo em mim registra o que aconteceu. A compreens&#227;o pode silenciar, mas n&#227;o desaparecer.</p><p>Talvez por isso eu nem sempre me adapte a ambientes que exigem concord&#226;ncia para pertencer. J&#225; tentei diminuir minhas perguntas e esconder desconfortos para preservar harmonias aparentes. Descobri que o pre&#231;o era abandonar partes de mim. Nenhuma companhia compensa uma aus&#234;ncia interior.</p><p>Tamb&#233;m precisei vigiar o risco de transformar percep&#231;&#227;o em vaidade. Reconhecer uma incoer&#234;ncia n&#227;o significa conhecer toda a hist&#243;ria. Posso perceber o que algu&#233;m ainda n&#227;o percebeu e ignorar muito do que essa pessoa j&#225; compreendeu. A verdadeira lucidez n&#227;o me coloca acima de ningu&#233;m; apenas amplia minha responsabilidade.</p><p>Com o tempo, entendi que n&#227;o basta apontar o que est&#225; errado. A cr&#237;tica permanente pode tornar-se uma morada escura. Preciso transformar discernimento em conduta, inquieta&#231;&#227;o em movimento e decep&#231;&#227;o em coragem para escolher outros caminhos.</p><p>Hoje aceito que certos espa&#231;os n&#227;o foram feitos para mim. N&#227;o porque eu seja melhor, mas porque, para permanecer neles, precisaria representar um personagem que j&#225; n&#227;o consigo sustentar. Prefiro a dist&#226;ncia honesta &#224; proximidade constru&#237;da sobre ren&#250;ncias silenciosas.</p><p>Ainda sinto o peso de perceber al&#233;m das apar&#234;ncias, mas j&#225; n&#227;o desejo recuperar a ingenuidade perdida. Ela talvez trouxesse sossego, mas me afastaria de quem sou.</p><p>Aprendi, enfim, que nem todo espa&#231;o vazio representa abandono. &#192;s vezes, &#233; a vida abrindo terreno para que eu exista sem precisar me trair.</p><p><em>Gera Teixeira</em></p><p>#Reflex&#227;o #Consci&#234;ncia #Autenticidade #Lucidez #GeraTeixeira</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[AS COMPORTAS]]></title><description><![CDATA[Tenho escrito como quem abre comportas]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/as-comportas</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/as-comportas</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Tue, 08 Sep 2026 03:04:12 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>AS COMPORTAS</p><p>Tenho escrito como quem abre comportas.</p><p>Durante muitos anos, a vida acumulou em mim acontecimentos, perguntas, dores, indigna&#231;&#245;es e descobertas. Algumas experi&#234;ncias foram compreendidas no instante em que aconteceram. Outras permaneceram guardadas, silenciosas, &#224; espera de um tempo em que eu pudesse revisit&#225;-las sem o peso da urg&#234;ncia. Talvez esse tempo tenha chegado.</p><p>Agora, tudo parece procurar uma forma.</p><p>As ideias transformam-se em palavras. As palavras procuram frases. As frases re&#250;nem-se em par&#225;grafos e, quando percebo, estou diante de mais uma hist&#243;ria, uma cr&#244;nica, uma reflex&#227;o ou apenas uma pergunta que se recusou a desaparecer. Uma ideia chama outra. Uma lembran&#231;a desperta outra lembran&#231;a. Aquilo que come&#231;ou como uma frase solta logo encontra caminhos que eu mesmo n&#227;o sabia que existiam.</p><p>N&#227;o planejei que fosse assim.</p><p>Sento-me para registrar um pensamento breve e descubro que havia um mundo escondido dentro dele. &#201; como puxar a ponta de um fio e perceber que, do outro lado, existe um tecido inteiro. Pessoas que conheci reaparecem. Conversas antigas recuperam suas vozes. Lugares que julgava esquecidos voltam a ter cor, cheiro e temperatura. O menino, o jovem, o marido, o pai, o profissional e o homem que hoje sou encontram-se sobre a p&#225;gina.</p><p>Todos querem dizer alguma coisa.</p><p>Talvez eu n&#227;o esteja escrevendo apenas sobre aquilo que vivi. Talvez esteja tentando compreender, pela escrita, o significado do que me aconteceu. A mem&#243;ria guarda os fatos, mas nem sempre revela imediatamente o sentido. Certas experi&#234;ncias precisam envelhecer dentro de n&#243;s at&#233; que se tornem compreens&#237;veis. O tempo n&#227;o modifica somente aquilo que recordamos. Modifica tamb&#233;m o olhar daquele que recorda.</p><p>Hoje consigo visitar passagens da minha vida levando comigo perguntas que antes n&#227;o sabia formular. Consigo perceber feridas onde julgava haver apenas indigna&#231;&#227;o. Reconhe&#231;o necessidades escondidas sob responsabilidades que assumi como se fossem exclusivamente deveres. Vejo que minha disposi&#231;&#227;o para organizar, resolver, proteger e aconselhar talvez tenha sido tamb&#233;m uma maneira de encontrar um lugar no mundo.</p><p>Ser necess&#225;rio tornou-se, durante muito tempo, uma forma de existir.</p><p>A escrita come&#231;a justamente onde as explica&#231;&#245;es simples j&#225; n&#227;o bastam. Escrevo porque algumas respostas me inquietam tanto quanto as perguntas. Escrevo para aproximar o homem que fui daquele que me tornei. Escrevo para compreender minhas escolhas, mas tamb&#233;m aquilo que deixei de escolher. Escrevo sobre os caminhos percorridos e sobre as estradas que apenas contemplei &#224; dist&#226;ncia.</p><p>Nem sempre procuro conclus&#245;es. Em muitas ocasi&#245;es, desejo somente n&#227;o permitir que certas perguntas morram antes de mim.</p><p>H&#225; dias em que as palavras chegam serenas. Aproximam-se sem ru&#237;do e sentam-se ao meu lado. Em outros, chegam impetuosas, atropelando umas &#224;s outras, exigindo passagem. Preciso interromper o que estou fazendo para registr&#225;-las, como se receasse perd&#234;-las para sempre. N&#227;o sei exatamente de onde v&#234;m. Sei apenas que trazem algo meu - ainda que eu s&#243; reconhe&#231;a depois de escrever.</p><p>Talvez sejam vozes que permaneceram caladas por tempo demais.</p><p>Por isso, n&#227;o considero essa torrente apenas uma produ&#231;&#227;o liter&#225;ria. Ela parece corresponder a um movimento interior. Aquilo que durante d&#233;cadas precisou ceder espa&#231;o ao trabalho, &#224;s responsabilidades, aos compromissos e &#224;s urg&#234;ncias agora reclama presen&#231;a. N&#227;o &#233; que anteriormente me faltassem ideias. Faltava-me, talvez, o tempo interior necess&#225;rio para escut&#225;-las.</p><p>Passei grande parte da vida fazendo o que precisava ser feito. Havia problemas a resolver, decis&#245;es a tomar, pessoas a proteger e estruturas a sustentar. A exist&#234;ncia apresentava suas exig&#234;ncias e eu respondia como conseguia. Pouco importava se estava cansado, inquieto ou ferido. O dia seguinte sempre trazia uma nova necessidade e eu precisava estar de p&#233;.</p><p>Agora, parte daquilo que ficou para depois parece ter vindo cobrar sua vez.</p><p>N&#227;o escrevo porque tenha todas as respostas. Escrevo justamente porque continuo procurando. Cada texto &#233; uma tentativa de iluminar por alguns instantes uma parte da condi&#231;&#227;o humana - especialmente aquela que descubro em mim. Quando escrevo sobre a ingratid&#227;o, examino tamb&#233;m minhas expectativas. Quando escrevo sobre a justi&#231;a, interrogo minha intoler&#226;ncia diante do que considero injusto. Quando critico o poder, preciso vigiar o poder que minhas pr&#243;prias certezas podem exercer sobre os outros.</p><p>A escrita n&#227;o me permite permanecer inteiramente escondido.</p><p>Posso iniciar um texto falando do mundo e terminar diante de mim mesmo. Posso acreditar que estou julgando o comportamento de algu&#233;m e descobrir que minhas palavras revelam muito mais sobre mim do que sobre aquele a quem dirigi o olhar. Escrever &#233; uma forma de exposi&#231;&#227;o, mesmo quando n&#227;o menciono meu nome, minha hist&#243;ria ou minhas feridas.</p><p>Talvez seja por isso que algumas p&#225;ginas me perturbem. Elas dizem o que eu ainda n&#227;o havia admitido. Colocam diante de mim sentimentos que preferia considerar superados. Mostram que a lucidez n&#227;o elimina as contradi&#231;&#245;es e que compreender a pr&#243;pria sombra n&#227;o significa deixar de projet&#225;-la.</p><p>Ainda assim, continuo.</p><p>Continuo porque escrever me oferece uma maneira de conversar com o tempo. Aquilo que vivi n&#227;o precisa permanecer limitado ao instante em que aconteceu. Uma experi&#234;ncia pessoal pode tocar outra pessoa e ajud&#225;-la a reconhecer algo que tamb&#233;m existe dentro dela. Nesse encontro, o que era apenas mem&#243;ria transforma-se em partilha.</p><p>N&#227;o desejo escrever para parecer s&#225;bio. A sabedoria que se anuncia demasiadamente costuma esconder suas fragilidades. Escrevo porque vivi o suficiente para desconfiar das verdades perfeitas e porque ainda tenho perguntas demais para aceitar respostas definitivas.</p><p>Tamb&#233;m escrevo porque desejo permanecer.</p><p>N&#227;o permanecer como uma est&#225;tua, uma fotografia ou um nome repetido por obriga&#231;&#227;o, mas como presen&#231;a humana. Gostaria que meus filhos, meus netos e aqueles que vierem depois encontrassem em minhas palavras n&#227;o um homem sem falhas, mas algu&#233;m que procurou compreender a vida enquanto a vivia. Algu&#233;m que amou, errou, trabalhou, lutou, sofreu, recome&#231;ou e continuou perguntando.</p><p>Talvez escrever seja minha forma de deixar acesa uma conversa que o tempo, inevitavelmente, tentar&#225; interromper.</p><p>Mas toda torrente precisa de margens.</p><p>Sem elas, a &#225;gua se espalha, perde for&#231;a e n&#227;o encontra destino. Tamb&#233;m minhas palavras precisam de dire&#231;&#227;o. Nem toda ideia deve transformar-se imediatamente em livro. Nem todo pensamento necessita chegar ao p&#250;blico. Algumas p&#225;ginas talvez existam apenas para que eu consiga atravessar determinado momento. Outras precisar&#227;o repousar, amadurecer e esperar que eu volte a elas com olhos menos envolvidos.</p><p>Preciso aprender a distinguir aquilo que pede publica&#231;&#227;o daquilo que pede recolhimento.</p><p>Escrever muito n&#227;o significa necessariamente dizer tudo. H&#225; sil&#234;ncios que protegem, pausas que aprofundam e intervalos que permitem &#224; palavra encontrar sua verdadeira medida. A cria&#231;&#227;o n&#227;o acontece apenas quando escrevo. Tamb&#233;m acontece quando releio, retiro, reorganizo e aceito que uma ideia ainda n&#227;o est&#225; pronta.</p><p>Construir margens n&#227;o significa conter a torrente at&#233; faz&#234;-la desaparecer. Significa oferecer-lhe um leito, para que sua for&#231;a n&#227;o seja desperdi&#231;ada. Significa reunir textos dispersos, reconhecer os temas que retornam, perceber quais perguntas acompanham toda a minha obra e decidir a quem desejo entregar aquilo que escrevo.</p><p>A quest&#227;o central talvez j&#225; n&#227;o seja: por que escrevo tanto ?</p><p>Talvez a pergunta seja outra:</p><p>O que, dentro de mim, tem tanta urg&#234;ncia de ser dito - e a quem desejo entregar tudo isso ?</p><p>Ainda n&#227;o tenho uma resposta completa. Talvez cada texto seja uma parte dela.</p><p>Por enquanto, sigo abrindo as comportas. N&#227;o para que as palavras simplesmente passem, mas para que encontrem dire&#231;&#227;o, profundidade e destino. Se existe uma torrente dentro de mim, quero aprender a conduzi-la sem retirar sua for&#231;a. Quero que ela atravesse minhas mem&#243;rias, reconhe&#231;a minhas contradi&#231;&#245;es e alcance outros territ&#243;rios.</p><p>E, se um dia algu&#233;m encontrar nessas p&#225;ginas uma pergunta que tamb&#233;m era sua, talvez toda essa abund&#226;ncia tenha cumprido sua finalidade.</p><p>Talvez eu n&#227;o esteja escrevendo demais.</p><p>Talvez esteja apenas dando voz, finalmente, a tudo aquilo que passou a vida inteira esperando para ser dito.</p><p>Gera Teixeira</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[CINDERELA]]></title><description><![CDATA[Era uma vez, depois do &#8220;felizes para sempre&#8221;]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/cinderela</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/cinderela</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Tue, 12 May 2026 18:47:48 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Era uma vez, depois do &#8220;felizes para sempre&#8221;</p><p>Gera Teixeira</p><p>Cinderela acordou no dia seguinte ao casamento com o corpo mo&#237;do. A valsa tinha durado tr&#234;s minutos e meio, mas o sapatinho de cristal ainda pesava como chumbo na mem&#243;ria. O pr&#237;ncipe, sorridente e perfumado, beijou-lhe a testa e saiu para uma &#8220;reuni&#227;o de reino&#8221;. Ela ficou sozinha num quarto maior que a casa inteira da madrasta.</p><p>Olhou o guarda-roupa. Trezentos vestidos. Nenhum com bolso.</p><p>&#8212; Meu Deus, como &#233; que a gente guarda um len&#231;o de papel? &#8212; murmurou, sentindo falta da velha bata cinzenta que, ao menos, tinha mangas para enxugar a testa.</p><p>O pr&#237;ncipe era gentil, bonito e quase in&#250;til para assuntos pr&#225;ticos. Quando ela pediu uma vassoura, mais por h&#225;bito do que por necessidade, ele chamou tr&#234;s camareiras, um arquiteto e um consultor de feng shui.</p><p>&#8212; Amor, eu s&#243; queria limpar um cantinho.</p><p>&#8212; Querida, isso &#233; trabalho para especialistas.</p><p>O castelo tinha regras. Muitas. N&#227;o podia descer &#224; cozinha, porque &#8220;rainha n&#227;o cheira a sopa&#8221;. N&#227;o podia rir alto, porque o m&#225;rmore devolvia tudo em eco. E, sobretudo, n&#227;o podia tirar os sapatos na frente de ningu&#233;m. O p&#233; dela, acostumado a andar descal&#231;o no jardim, inchava dentro daqueles saltos finos. &#192; noite, escondia os dedos debaixo da colcha como quem esconde um segredo de Estado.</p><p>A sogra, a rainha vi&#250;va, era o verdadeiro drag&#227;o da hist&#243;ria. Uma senhora de olhar afiado, capaz de medir a origem de algu&#233;m pelo modo como segurava uma x&#237;cara.</p><p>&#8212; Querida, voc&#234; ainda anda com um certo balan&#231;o de quem varreu muito. Tente flutuar.</p><p>Cinderela tentou. Flutuou tanto que, numa tarde, escorregou no m&#225;rmore encerado e caiu sentada no meio do corredor. Tr&#234;s duquesas viram. No dia seguinte, o reino inteiro comentava que a nova princesa tinha inaugurado &#8220;um estilo espont&#226;neo e refrescante&#8221;.</p><p>O pr&#237;ncipe vivia entre audi&#234;ncias, ca&#231;adas e discursos. Quando chegava, exausto, contava proezas que ela desconfiava serem trinta por cento verdade e o resto bras&#227;o. Ela sorria, concordava, e depois ia consertar sozinha a torneira do banheiro, que pingava desde o reinado do bisav&#244;.</p><p>&#8212; Aprendi com ratos falantes &#8212; dizia baixinho, girando a chave inglesa.</p><p>Certa noite, ela levou os dois para a cozinha. Ideia dela. O pr&#237;ncipe segurou a frigideira com a solenidade de quem segura um cetro, queimou o ovo at&#233; virar carv&#227;o e riu como crian&#231;a.</p><p>&#8212; Nunca fui feliz assim &#8212; disse ele, sem perceber direito o tamanho da frase.</p><p>Ela tamb&#233;m n&#227;o respondeu. Ficaram os dois ali, no meio da fuma&#231;a, sem m&#250;sica, sem plateia, sem ningu&#233;m anunciando nada.</p><p>Mais adiante, mandou fazer um vestido com bolso. Ensinou o pr&#237;ncipe a dan&#231;ar valsa sem testemunhas. Parou de flutuar.</p><p>Quando algu&#233;m pergunta como &#233; a vida no castelo, ela sorri, ajeita um grampo frouxo no cabelo e responde:</p><p>&#8212; &#201; um trabalho em andamento.</p><p>E vive feliz. N&#227;o &#8220;para sempre&#8221;. Apenas feliz, que j&#225; &#233; raro o bastante.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Cérebro da Conexão: Quando um Bom Dia Acende o Fogo da Empatia]]></title><description><![CDATA[Gera Teixeira]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/o-cerebro-da-conexao-quando-um-bom</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/o-cerebro-da-conexao-quando-um-bom</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Apr 2026 04:30:42 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p>Gera Teixeira </p><p>Naquela fra&#231;&#227;o de segundo em que Dr. Jo&#227;o parou e pronunciou o nome de Valdir, algo biol&#243;gico entrou em movimento. O c&#233;rebro dele ativou circuitos antigos, daqueles que n&#227;o aprendemos, mas herdamos. Mecanismos que existem para nos lembrar que somos feitos para o encontro.</p><p>Os neur&#244;nios espelho dispararam como se o pr&#243;prio Dr. Jo&#227;o sentisse o peso que Valdir carregava desde as cinco da manh&#227;. A &#237;nsula anterior e o c&#243;rtex cingulado anterior transformaram uma simples observa&#231;&#227;o em experi&#234;ncia. O que antes era apenas visto passou a ser sentido. A fadiga do outro deixou de ser invis&#237;vel. Tornou-se presen&#231;a no corpo.</p><p>Enquanto as palavras sa&#237;am com respeito verdadeiro, o hipot&#225;lamo liberava oxitocina, o horm&#244;nio do v&#237;nculo. Essa subst&#226;ncia ampliava a conex&#227;o, reduzia o medo e suavizava a tens&#227;o. O que come&#231;ou como compreens&#227;o, entender o outro, evoluiu para sentir junto e, logo depois, para agir com cuidado. Em poucos segundos, dois c&#233;rebros entraram em sintonia, criando uma ponte silenciosa entre mundos que, at&#233; ent&#227;o, seguiam separados.</p><p>Essa &#233; a base da empatia. N&#227;o uma abstra&#231;&#227;o bonita, mas um mecanismo preciso, moldado pela evolu&#231;&#227;o para manter a esp&#233;cie conectada. Quando esse sistema &#233; bloqueado pela pressa, pela hierarquia ou pela distra&#231;&#227;o, o que surge &#233; a desumaniza&#231;&#227;o. Quando &#233; ativado, como aconteceu ali, produz uma sensa&#231;&#227;o de bem estar que se expande al&#233;m do momento.</p><p>No ambiente corporativo, esse mesmo fen&#244;meno acontece todos os dias, ainda que passe despercebido. Lideran&#231;as que operam apenas por metas e n&#250;meros ignoram uma parte essencial do funcionamento humano. J&#225; aquelas que param, olham e reconhecem o outro ativam esse circuito em toda a equipe. O c&#233;rebro responde. A confian&#231;a cresce. O estresse diminui. O trabalho ganha fluidez.</p><p>N&#227;o &#233; suavidade. &#201; funcionamento.</p><p>Quando algu&#233;m se sente visto, algo interno se reorganiza. A defesa relaxa. A criatividade aparece. A colabora&#231;&#227;o deixa de ser esfor&#231;o e passa a ser consequ&#234;ncia. Equipes conectadas n&#227;o apenas produzem mais. Produzem com mais qualidade, mais intelig&#234;ncia e menos desgaste.</p><p>A pr&#225;tica da escuta espelhada, simples e direta, tem esse efeito. Repetir o que foi ouvido para confirmar compreens&#227;o ativa o mesmo sistema neural que gera v&#237;nculo. O outro percebe que existe ali. Que n&#227;o est&#225; falando para o vazio. E isso muda tudo.</p><p>O oposto tamb&#233;m &#233; verdadeiro. Ambientes onde pessoas s&#227;o tratadas como fun&#231;&#227;o mant&#234;m esse sistema desligado. O resultado aparece de forma inevit&#225;vel. Rotatividade alta, baixo engajamento, criatividade retra&#237;da. Um desgaste que n&#227;o se anuncia, mas se acumula.</p><p>Em um mundo cada vez mais pressionado por tecnologia e desempenho, a empatia se torna um diferencial que n&#227;o pode ser replicado por m&#225;quinas. &#201; ela que sustenta rela&#231;&#245;es reais. &#201; ela que d&#225; sentido ao esfor&#231;o.</p><p>Dr. Jo&#227;o n&#227;o mudou o mundo. N&#227;o fez nada extraordin&#225;rio. Apenas parou, olhou e nomeou.</p><p>Mas nesse gesto m&#237;nimo, acionou o que h&#225; de mais antigo em n&#243;s. Um sistema que n&#227;o precisa ser aprendido, apenas lembrado.</p><p>No fim, n&#227;o s&#227;o apenas estrat&#233;gias ou resultados que movem a vida. S&#227;o conex&#245;es. Pequenas, silenciosas, quase impercept&#237;veis.</p><p>E basta um olhar sincero para que tudo se reorganize. N&#227;o s&#243; no outro. Dentro de n&#243;s tamb&#233;m.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Pingando Letras]]></title><description><![CDATA[Escrever nunca foi, para mim, um ato de exposi&#231;&#227;o.]]></description><link>https://gerateixeira.substack.com/p/pingando-letras</link><guid isPermaLink="false">https://gerateixeira.substack.com/p/pingando-letras</guid><dc:creator><![CDATA[GERA TEIXEIRA]]></dc:creator><pubDate>Tue, 17 Feb 2026 19:01:00 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212baw%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F1d57502a-ed35-428b-a76e-08170d50b539_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Escrever nunca foi, para mim, um ato de exposi&#231;&#227;o. Sempre foi um ato de preserva&#231;&#227;o.</p><p>H&#225; coisas que o tempo leva. Outras, apenas esconde. Escrever &#233; uma forma de ir busc&#225;-las.</p><p>Durante muitos anos, as palavras permaneceram em sil&#234;ncio. N&#227;o por aus&#234;ncia, mas por respeito. Nem tudo precisa ser dito imediatamente. Algumas verdades amadurecem na sombra.</p><p>Pingando Letras nasce desse tempo.</p><p>N&#227;o pretende acompanhar o mundo. Pretende escut&#225;-lo.</p><p>N&#227;o pretende explicar. Pretende reconhecer.</p><p>Cada texto aqui publicado &#233; uma tentativa de tornar vis&#237;vel aquilo que, embora invis&#237;vel, continua existindo.</p><p>Se permanecerem em algu&#233;m, ter&#227;o cumprido seu destino.</p><p>Gera Teixeira</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>