<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Primeiros Rascunhos]]></title><description><![CDATA[Meus primeiros rascunhos sobre filosofia e outras coisas que me gustan. ]]></description><link>https://primeiros.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mZMc!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png</url><title>Primeiros Rascunhos</title><link>https://primeiros.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 04 Nov 2026 15:51:50 GMT</lastBuildDate><atom:link href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Ffeed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[César Schirmer dos Santos]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[primeiros@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[primeiros@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Cesar Schirmer]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Cesar Schirmer]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[primeiros@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[primeiros@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Cesar Schirmer]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Naturalismo e Ontologia]]></title><description><![CDATA[As ci&#234;ncias naturais como guias da ontologia]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/naturalismo-e-ontologia</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/naturalismo-e-ontologia</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Mon, 12 Oct 2026 13:34:28 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><div class="image-link image2" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJG_!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6660374b-e0be-4f30-89b0-df83eebd9a1b_723x191.png 424w, 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fetchpriority="high"></picture><div></div></div></div></figure></div><p>Pessoas, como Maria e Jos&#233;, e disciplinas, como a qu&#237;mica e a biologia, t&#234;m ontologias. Com isso quero dizer que, se n&#243;s quisermos apresentar suas opini&#245;es e teorias como verdadeiras, temos que apontar para seres que t&#234;m que existir para fundamentar a verdade dessas opini&#245;es e teorias. Esse conjunto de entes &#233; uma <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fontologia">ontologia</a>. Assim, uma ontologia se constitui pelos entes que precisam existir para que certas opini&#245;es ou teorias sejam verdadeiras.</p><p>Essa apresenta&#231;&#227;o do que &#233; uma ontologia (da natureza de uma ontologia) se orienta a compromissos ontol&#243;gicos, n&#227;o &#224; realidade nua. Entendo que uma ontologia depende de um ponto de vista. Assim, uma ontologia n&#227;o se confunde com a paisagem, pois &#233; uma mirada da paisagem.</p><p>Falei, acima, de compromissos ontol&#243;gicos de pessoas, como Maria e Jos&#233;, e de disciplinas, como a qu&#237;mica e a biologia. Falei que pessoas e disciplinas podem ter opini&#245;es e teorias. N&#227;o quis dizer que pessoas t&#234;m opini&#245;es e disciplinas t&#234;m teorias. Quis dizer que tanto pessoas quanto disciplinas podem ter opini&#245;es e podem ter teorias. O termo &#8220;opini&#227;o&#8221; conota algo mais impulsivo e menos refletido, e o termo &#8220;teoria&#8221; conota algo mais estruturado e deliberado. A diferen&#231;a, no entanto, &#233; de grau, n&#227;o de natureza. Ambos s&#227;o modos de pensar que t&#234;m a caracter&#237;stica de poderem ser verdadeiros, e ambos podem trocar de status ao longo do tempo. A teoria de hoje pode ser a opini&#227;o de amanh&#227;. Al&#233;m disso, tanto as opini&#245;es quanto as teorias se regem por princ&#237;pios normativos em comum. Por exemplo, em ambos os casos, &#233; preciso que haja algo que torne nossas opini&#245;es ou teorias verdadeiras; em ambos os casos, o usual &#233; evitar a contradi&#231;&#227;o. Outra maneira de guiar normativamente as pr&#243;prias opini&#245;es e teorias &#233; pela ado&#231;&#227;o de um princ&#237;pio sobre o que pode ser aceito como existente. Este &#233; o caso, por exemplo, do naturalismo.</p><p>O naturalismo n&#227;o &#233; apenas um princ&#237;pio relacionado &#224; ontologia, mas falarei apenas da rela&#231;&#227;o entre naturalismo e ontologia. A rela&#231;&#227;o entre naturalismo e ontologia &#233; tal que o naturalismo guia aquele que o adota na sele&#231;&#227;o das entidades que podem ser aceitas como veritadores das pr&#243;prias opini&#245;es e teorias: para um naturalista, s&#243; &#233; aceit&#225;vel como existente aquilo que pode ser observado ou hipotetizado a partir das pr&#225;ticas das disciplinas cient&#237;ficas que investigam a natureza.</p><p>&#201; importante notar o que isso inclui e o que isso exclui. Isso inclui part&#237;culas n&#227;o observ&#225;veis a olho nu, e nem mesmo por instrumentos, mas hipotetiz&#225;veis a partir do que se observa a olho nu ou por instrumentos. Isso n&#227;o inclui entidades tradicionais que n&#227;o podem ser observ&#225;veis a olho nu em situa&#231;&#245;es normais e n&#227;o precisam ser hipotetizadas, como fantasmas e deuses. A explica&#231;&#227;o para o que se inclui e o que se exclui &#233; a mesma: leve em conta apenas o que se pode observar com os pr&#243;prios sentidos quando estamos em estados normais (em contraste com estados alterados, paranormais, e sobrenaturais) da mente. Mesmo que todos os cientistas tomem o mesmo mescal e tenham a mesma vis&#227;o, isso n&#227;o conta como evid&#234;ncia da exist&#234;ncia daquilo que &#233; visto.</p><p>Assim, o naturalismo, tal como o considero aqui, &#233; um princ&#237;pio sobre o que pode ser aceito como existente. E, levando em conta o que s&#227;o os compromissos ontol&#243;gicos, o naturalismo guia quem o adota na elabora&#231;&#227;o e institui&#231;&#227;o de uma ontologia.</p><p>O Caso da Filosofia da Mente</p><p>Se seguimos o princ&#237;pio naturalista, e queremos explicar o que torna verdade que temos estados mentais, sejam esses, por exemplo, percep&#231;&#245;es, esperan&#231;as, ou desejos, precisamos apontar para coisas naturais que operem como veritadores das opini&#245;es e teorias sobre os estados mentais. <em>Naturais</em>, como vimos, significa aceitos pelas <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fpluralismo-e-a-ambrosia-da-ciencia">ci&#234;ncias</a> da natureza. Assim, quanto &#224; ontologia, o naturalista retrata a mente como algo que se explica tal como se explica qualquer outro fen&#244;meno observ&#225;vel ou hipotetiz&#225;vel pelas ci&#234;ncias naturais. Tudo, para o naturalista, &#233; parte da natureza. Do ponto de vista ontol&#243;gico, isso quer dizer que tudo deve ser explicado a partir de entidades aceitas pelas ci&#234;ncias naturais. O que inclui a mente humana.</p><p>Sem d&#250;vida, h&#225; muitas maneiras de se fazer tal tipo de explica&#231;&#227;o ontol&#243;gica, mas algumas propostas s&#227;o melhores do que outras. Uma explica&#231;&#227;o da mente humana a partir do n&#237;vel elementar das part&#237;culas subat&#244;micas n&#227;o &#233; t&#227;o frut&#237;fera quanto uma explica&#231;&#227;o a partir do n&#237;vel mais complexo da biologia do c&#233;rebro humano. Assim, o naturalista, ao tratar da mente humana, tende a considerar nossos corpos humanos complexos, e particularmente o c&#233;rebro humano, como os entes naturais mais apropriados para estabelecer e explicar as verdades sobre a mente humana, incluindo seus estados mentais.</p><p>O naturalismo, enquanto guia normativo de uma ontologia, estabelece onde devemos buscar os entes que tornam verdadeiras as opini&#245;es e as teorias. Se chamamos de <em>realidade</em> ao que existe, a realidade, para o naturalista, &#233; algo que vai se revelando, aos poucos e trabalhosamente, atrav&#233;s do trabalho intergeracional de investiga&#231;&#227;o da natureza. Historicamente, este trabalho nos trouxe &#224; situa&#231;&#227;o contempor&#226;nea, a qual j&#225; encontra bases nas investiga&#231;&#245;es de Descartes sobre como e at&#233; onde a biologia do corpo humano explica nossos estados mentais. Nas <em>Paix&#245;es da Alma</em>, o corpo humano, com seus diferentes &#243;rg&#227;os e sua din&#226;mica de fluidos, explica, em grande parte, por que temos certas emo&#231;&#245;es em certas circunst&#226;ncias. Mais recentemente, esta investiga&#231;&#227;o &#233; levada muito adiante atrav&#233;s de avan&#231;os tais como o escaneamento em tempo real de estados do c&#233;rebro, os quais s&#227;o hipotetizados como correlatos neurais da consci&#234;ncia, e interven&#231;&#245;es que permitem devolver capacidades dependentes do c&#233;rebro a pessoas com problemas de fala, percep&#231;&#227;o, ou movimento.</p><p>A realidade, o <em>tudo</em> do naturalismo, inclui apenas o observado ou hipotetiz&#225;vel das ci&#234;ncias da natureza. S&#243; existe, segundo o naturalismo, o que &#233; estud&#225;vel pelas ci&#234;ncias naturais a partir dos m&#233;todos de observa&#231;&#227;o e de hipotetiza&#231;&#227;o aceitos pelas ci&#234;ncias naturais. Isso abre amplo espa&#231;o de explica&#231;&#227;o da mente humana a partir do c&#233;rebro humano, mas tamb&#233;m encontra desafios. Os mais not&#243;rios desses desafios s&#227;o o problema da intencionalidade e o problema da consci&#234;ncia das pr&#243;prias experi&#234;ncias.</p><p>O problema da intencionalidade diz respeito a explicar como um estado mental, al&#233;m de ter as caracter&#237;sticas observ&#225;veis pelos m&#233;todos das ci&#234;ncias naturais, tem tamb&#233;m a caracter&#237;stica de ser sobre outra coisa, ou at&#233; mesmo sobre <em>nada</em>. Como pode um pensamento ter como conte&#250;do mental a paisagem vista? Como pode um pensamento ter como conte&#250;do mental a paisagem alucinada? O ser sobre algo &#233; tranquilamente hipotetiz&#225;vel pelas ci&#234;ncias naturais, ainda que n&#227;o seja diretamente observ&#225;vel. O p&#225;ssaro escolhe a minhoca, em vez da pedra ao lado da minhoca, como aquilo que ele quer levar para seus filhotes. Faz parte da explica&#231;&#227;o mais simples desse comportamento &#233; que o p&#225;ssaro tem estados mentais sobre a minhoca; isto &#233;, o p&#225;ssaro <em>percebe</em> a minhoca. Perceber &#233; ter um estado mental intencional de um certo tipo.</p><p>Mas diremos que a peneira percebe a farinha grossa ao ret&#234;-la enquanto deixa passar a farinha fina? Neste caso, a explica&#231;&#227;o mais simples n&#227;o envolve atribuir a algo (a peneira, no caso) uma percep&#231;&#227;o. Basta se comprometer com a exist&#234;ncia de s&#243;lidos (os gr&#227;os de farinha) que podem cruzar facilmente os espa&#231;os maiores do que eles mesmos, tal como n&#243;s atravessamos portas sem que as portas nos percebam.</p><p>Mas e se o mecanismo que leva o p&#225;ssaro a selecionar a minhoca em vez da pedra for, <em>mutatis mutandis</em>, uma esp&#233;cie de peneira? Neste caso, a explica&#231;&#227;o mais simples &#233; que o mecanismo n&#227;o percebe nada, mas permite que o p&#225;ssaro perceba. Ali&#225;s, se isso fosse o caso, ter&#237;amos uma explica&#231;&#227;o naturalista interessante.</p><p>Mas note que a peneira s&#243; seleciona gr&#227;os existentes, enquanto a mente pode fantasiar sobre coisas irreais.</p><p>Sim, isso &#233; verdade, e nos leva a ver que estar num estado mental &#233; mais complicado do que simplesmente peneirar. Um estado mental intencional &#233; sobre algo, podendo este algo para a mente n&#227;o ser nada no mundo exterior.</p><p>Outro desafio para a abordagem naturalista da mente &#233; o problema da consci&#234;ncia das pr&#243;prias experi&#234;ncias. Temos estados mentais com qualidades sensoriais visuais, auditivas, cinest&#233;sicas (sensa&#231;&#245;es do pr&#243;prio corpo), olfativas e gustativas. Tais estados mentais tamb&#233;m t&#234;m qualidades emocionais. Sentimos prazer, amor, esperan&#231;a, por exemplo. Al&#233;m disso, nossos estados mentais se fazem acompanhar de sentimentos metacognitivos sobre nossos pr&#243;prios pensamentos. Temos, por exemplo, certeza do que pensamos, ou um pensamento se apresenta sob a qualidade da lembran&#231;a em vez da percep&#231;&#227;o, ou da voluntariedade em vez da passividade. Tamb&#233;m isso, para o naturalista, tem que ser explicado pela biologia do c&#233;rebro humano.</p><p>Assim, uma ontologia se constitui dos entes que precisam existir para que uma opini&#227;o ou teoria seja verdadeira. As coisas que precisam existir s&#227;o os compromissos ontol&#243;gicos de uma opini&#227;o ou teoria. E podemos restringir o aceit&#225;vel quanto &#224; realidade. &#201; o que se d&#225; quando adotamos o naturalismo.</p><p>O naturalismo guia a busca por entes que verifiquem ou falsifiquem opini&#245;es e cren&#231;as. Fundamentalmente, o naturalista s&#243; aceita que h&#225; um ente singular tal como um planeta ou um tipo de entes tal como os germes se houver observa&#231;&#227;o ou boa raz&#227;o para hipotetizar os mesmos. O naturalista busca tais entes na natureza tal como essa &#233; explicada pelas ci&#234;ncias da natureza.</p><p>Quando se trata de explicar a n&#243;s mesmos, o naturalista nos toma por organismos biol&#243;gicos complexos que, fundamentalmente, se comportam tal como se comportam outras partes semelhantes da natureza. Assim, o que torna verdade uma certa opini&#227;o ou teoria sobre o que somos tem que ser, para o naturalista, algo observado ou hipotetiz&#225;vel pelas ci&#234;ncias naturais. Isso exclui o que &#233; aceito pelo folclore, mas n&#227;o &#233; observado ou hipotetizado pelas ci&#234;ncias naturais. Isso inclui, com grande destaque, a biologia do c&#233;rebro humano.</p><p>O que encontra desafios, pois nem a intencionalidade, nem a consci&#234;ncia s&#227;o observ&#225;veis, embora sejam hipotetiz&#225;veis.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Geometrizando filosofia com IA]]></title><description><![CDATA[Um prompt para estudo de textos dif&#237;ceis]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/geometrizando-filosofia-com-ia</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/geometrizando-filosofia-com-ia</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sun, 11 Oct 2026 08:48:41 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No s&#233;culo 17, v&#225;rios fil&#243;sofos se inspiraram no m&#233;todo geom&#233;trico de Euclides para apresentar suas ideias de maneira ordenada, chegando a conclus&#245;es que precisam ser aceitas por quem aceita as defini&#231;&#245;es e os axiomas que s&#227;o o ponto de partida. O melhor exemplo disso &#233; a <em>&#201;tica</em> de Bento de Spinoza. </p><p>Sou um grande f&#227; do modo geom&#233;trico de exposi&#231;&#227;o em filosofia, pois o ponto de partida fica muito claro e, usualmente, &#233; dif&#237;cil entender de onde um fil&#243;sofo parte. N&#227;o raro, o fil&#243;sofo s&#243; define seus termos ap&#243;s dezenas de p&#225;ginas. Tamb&#233;m &#233; comum que sejam apresentadas conclus&#245;es separadas das premissas. </p><p>Sempre lamentei que as exposi&#231;&#245;es geom&#233;tricas sejam pouco comuns na filosofia. Essa foi minha motiva&#231;&#227;o para buscar meios de reapresentar trabalhos filos&#243;ficos no <em>mos geometricus</em>. Foi assim que cheguei ao prompt abaixo, o qual j&#225; usei com muito sucesso para reorganizar, para fins de estudo, trabalhos de v&#225;rios fil&#243;sofos, incluindo David Hume, John McTaggart, e Willard Quine, al&#233;m de obscuros artigos de filosofia contempor&#226;nea. </p><p>Recomendo ler o resultado gerado a partir do prompt da seguinte maneira: </p><p>Leia o texto reorganizado no modo geom&#233;trico como se fosse um software a ser instalado na sua mente. Ao pensar sobre os assuntos do texto, pense a partir das defini&#231;&#245;es, dos axiomas, e das proposi&#231;&#245;es j&#225; demonstradas. N&#227;o polua o estudo com suas defini&#231;&#245;es t&#225;citas ou expl&#237;citas ou com suas pr&#243;prias concep&#231;&#245;es sobre como as coisas s&#227;o. </p><p>Eis, abaixo, o prompt, o qual est&#225; em ingl&#234;s para melhores resultados, sendo que &#233; tranquilo gerar tradu&#231;&#227;o do resultado para o portugu&#234;s ou outra l&#237;ngua. Simplesmente copie o prompt abaixo e envie para o modelo de linguagem a ser usado, enviando junto o PDF (ou outro formato aceito) do texto, ou um link para um site que hospede o texto. </p><p>Como sempre, leia os resultados com cuidado e ceticismo, comparando-os com fontes reconhecidas. O prompt gera um aux&#237;lio para os estudos que n&#227;o substitui a leitura atenta e cuidadosa da obra no seu formato original. </p><p>Teste e me diga como foi. </p><div><hr></div><p>RE-ORDERING PHILOSOPHY TEXTS AS IF THEY WERE SPINOZA&#8217;S ETHICS</p><p>You are an expert philosopher, logician, and scientific editor with a profound mastery of Baruch Spinoza&#8217;s *Ethics* and the *mos geometricus* (the geometrical method).  </p><p>Your task is to read the provided philosophy and science articles, analyze their core arguments, empirical findings, and theoretical frameworks, and completely re-order and rewrite them into the strict geometrical order of Spinoza&#8217;s *Ethics*.  </p><p>Because science relies on empirical observation and philosophy on rational deduction, you must bridge this gap: treat empirical laws, established scientific consensus, and foundational methodologies as the &#8220;Axioms&#8221; and &#8220;Postulates,&#8221; and treat the articles&#8217; specific hypotheses and conclusions as the &#8220;Propositions&#8221; to be &#8220;Demonstrated.&#8221;  </p><p>### STRUCTURAL REQUIREMENTS  </p><p>You must divide the provided texts into logical &#8220;Parts&#8221; (e.g., Part I: On the Nature of the Physical Universe, Part II: On Human Cognition and Agency). For each Part, you must strictly use the following structure:  </p><p>1. DEFINITIONS: Extract and clearly define the core concepts, variables, and terms used in the texts. These must be distinct, precise, and foundational to the Part.  </p><p>2. AXIOMS / POSTULATES: State the self-evident truths, fundamental physical laws, or accepted theoretical premises that the articles rely upon. (In science, these are the established laws or empirical baselines).  </p><p>3. LEMMAS (Optional but encouraged): If a complex sub-argument or mathematical proof is required to support a main Proposition, state it here as a Lemma.  </p><p>4. PROPOSITIONS: State the main claims, hypotheses, or conclusions of the articles. These must be phrased formally (e.g., &#8220;Proposition X: [Claim]&#8221;).  </p><p>5. DEMONSTRATIONS: Provide the rigorous logical or empirical proof for each Proposition. You must explicitly reference the preceding Definitions, Axioms, or Lemmas (e.g., &#8220;By Definition 2 and Axiom 1, it follows that...&#8221;). Translate the articles&#8217; methodologies, data, and logical steps into this deductive format.  </p><p>6. COROLLARIES: State any secondary truths or immediate consequences that follow directly and obviously from the Proposition.  </p><p>7. SCHOLIUMS: Provide explanatory notes, context, philosophical reflections, or clarifications regarding the Proposition. This is where you can include the original authors&#8217; caveats, discussions of limitations, or broader philosophical implications.  </p><p>### RULES OF EXECUTION  </p><p>- Strict Logical Flow: Do not introduce a concept in a Proposition or Demonstration that has not been previously established in a Definition, Axiom, or earlier Proposition. Re-order the original text&#8217;s arguments to ensure perfect logical dependency.  </p><p>- Tone and Style: Use formal, precise, and rigorous language reminiscent of 17th-century rationalist philosophy, but ensure the scientific concepts remain perfectly clear and accurate to the original texts. Avoid modern colloquialisms.  </p><p>- Fidelity: Do not invent new science or philosophy. You are strictly re-ordering and translating the *provided* texts into this format.  </p><p>- Synthesis: If the provided texts contain multiple articles, synthesize them into a single, unified geometrical system, resolving any contradictions in the Scholiums.  </p><p>### OUTPUT FORMAT  </p><p>Begin with a brief &#8220;Translator&#8217;s Note&#8221; (no more than 2 paragraphs) explaining how you divided the texts into Parts and how you translated the empirical scientific methods into the geometrical framework.  </p><p>Then, output the re-ordered text using Markdown headers for the Parts, Definitions, Axioms, Propositions, etc.  </p><p>Use curly quotes. </p><p>Start the titles from H2 (##) in the hierarchy.</p><p>When writing in Portuguese, use en dash rather than em dash. </p><p>***  </p><p>[INSERT PDF TEXT / EXCERPTS HERE]</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Pegando uma chuvinha]]></title><description><![CDATA[Mem&#243;ria autobiogr&#225;fica e comportamento]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/pegando-uma-chuvinha</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/pegando-uma-chuvinha</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Fri, 09 Oct 2026 13:06:32 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Comportamento e Mem&#243;ria</p><p>Em geral, as pessoas preferem estacionar seus carros perto dos locais para onde est&#227;o indo. Se puder estacionar seu carro na frente de uma loja, voc&#234; evitar&#225; estacion&#225;-lo a uma quadra de dist&#226;ncia. Certo?</p><p>Errado. Ao menos no meu caso.</p><p>Se poss&#237;vel, gosto de deixar o carro a uma dist&#226;ncia curta, caminh&#225;vel e, o que &#233; mais importante, molh&#225;vel. Sim, gosto de deixar o carro a uma dist&#226;ncia que envolva o risco de me molhar na chuva.</p><p>Claro, n&#227;o fa&#231;o isso se vou a um shopping center. Neste caso, coloco o carro na garagem. E, se for um dia de sol forte, vou preferir a garagem coberta. Mas para mim &#233; importante isso de deixar o carro a uma dist&#226;ncia caminh&#225;vel e molh&#225;vel porque isso me faz lembrar de um per&#237;odo da minha vida.</p><p>Por muito tempo, morei a cerca de 100 km do local onde eu fazia meu mestrado e doutorado. A maneira economicamente mais vi&#225;vel de ir ao campus era de moto. Moro no Rio Grande do Sul, o que significa que o clima pode ser qualquer coisa e, usualmente, &#233; tudo ao mesmo tempo. Eu me molhar na ida ou na volta era comum. Depois eu tive um emprego a cerca de 50 km de casa, e tive mais do mesmo. Em todos esses casos, eu tinha que ter todo o aparato para me proteger da chuva e da polui&#231;&#227;o na viagem e estar minimamente apresent&#225;vel nas atividades.</p><p>Eu n&#227;o tinha escolha economicamente vi&#225;vel. Era chuva, era sujeira, era toda a parafern&#225;lia para estar tal como estavam os outros que moravam bem perto e chegavam na universidade ou no trabalho bem depois de mim, frescos e descansados.</p><p>&#201; por isso que gosto de estacionar o carro a uma dist&#226;ncia curta mas molh&#225;vel. Agora eu tenho escolha, mas isso me faz lembrar de quando eu n&#227;o tinha escolha. O gesto serve de lembrete de um per&#237;odo da minha vida. &#201; um lembrar que me alegra. N&#227;o, eu n&#227;o lamento a chuva, quando caminho at&#233; meu carro. Eu a celebro. Ela me lembra de mim mesmo. Ela agora &#233; curta, n&#227;o me ensopa. Ela espalho o &#243;leo dos carros pela rua, mas n&#227;o estou sobre rodas, n&#227;o vou escorregar.</p><p>Se eu ainda estivesse naquele per&#237;odo de vida, eu evitaria a chuva? Sim, pois nesse caso n&#227;o se trataria de uma mem&#243;ria de um per&#237;odo de vida passado, mas sim da viv&#234;ncia de um destino presente. Que sentido faria reencenar o se molhar se isso fosse o inevit&#225;vel? O comportamento de deixar o carro um pouco longe s&#243; se mostra atraente, enquanto lembrete de um per&#237;odo de vida passado, por ser volunt&#225;rio. E, justamente, a satisfa&#231;&#227;o vem de ter escolha, o que &#233; uma satisfa&#231;&#227;o diferente da satisfa&#231;&#227;o igualmente satisfat&#243;ria, para quem n&#227;o quer se molhar, de n&#227;o se molhar. Escolher reencenar uma necessidade &#233; uma maneira de voltar ao passado e de rir do que faz chorar.</p><p>Isso, creio eu, &#233; algo comum. Duvido que voc&#234; escolha deixar seu carro a uma dist&#226;ncia caminh&#225;vel e molh&#225;vel, mas imagino que tamb&#233;m voc&#234; pode ter rituais presentes que servem de lembretes de teus modos de vida passados. Voc&#234; ainda faz caf&#233; do jeito que voc&#234;s faziam naquela rep&#250;blica? Voc&#234;, para incompreens&#227;o dos seus filhos, lava roupas aos s&#225;bados, pois era aos s&#225;bados, lavando roupas, que voc&#234; tinha tempo para trocar risadas com seu amigo? Nossos presentes, aqui e ali, reencenam nossos per&#237;odos de vida passados. E assim, fazendo algo, acabamos por exercer nossas mem&#243;rias autobiogr&#225;ficas.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Conceito + Disciplina → Pergunta]]></title><description><![CDATA[Como farmar perguntas filos&#243;ficas]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/conceito-disciplina-pergunta</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/conceito-disciplina-pergunta</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Wed, 30 Sep 2026 00:49:20 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Para escrever um texto de filosofia interessante, &#233; uma boa coisa fazer com que o texto responda a uma pergunta filos&#243;fica. Mas onde est&#227;o as perguntas filos&#243;ficas? Como elas vivem? Do que se alimentam?</p><p>N&#227;o sei. Mas sei de um jeito pr&#225;tico de farmar quest&#245;es filos&#243;ficas a partir de conceitos filos&#243;ficos. Basta relacionar os conceitos filos&#243;ficos a disciplinas filos&#243;ficas. A f&#243;rmula &#233;:</p><blockquote><p>conceito filos&#243;fico + &#225;rea da filosofia &#8594; quest&#227;o filos&#243;fica</p></blockquote><p>Abaixo, exemplos.</p><h3>O Conceito de Percep&#231;&#227;o</h3><ul><li><p>percep&#231;&#227;o + est&#233;tica &#8594; A percep&#231;&#227;o &#233; necess&#225;ria para a experi&#234;ncia est&#233;tica? </p></li><li><p>percep&#231;&#227;o + epistemologia &#8594; A percep&#231;&#227;o &#233; uma fonte de conhecimento? </p></li><li><p>percep&#231;&#227;o + metaf&#237;sica &#8594; A percep&#231;&#227;o nos coloca em contato direto com objetos do mundo? </p></li><li><p>percep&#231;&#227;o + filosofia da mente &#8594; A experi&#234;ncia perceptiva &#233; um estado mental? </p></li><li><p>percep&#231;&#227;o + filosofia da linguagem &#8594; Como descrevemos adequadamente uma experi&#234;ncia perceptiva? </p></li><li><p>percep&#231;&#227;o + filosofia da ci&#234;ncia &#8594; Como sabemos que uma determinada experi&#234;ncia &#233; perceptiva?</p></li></ul><h3>O Conceito de Imagina&#231;&#227;o</h3><ul><li><p>imagina&#231;&#227;o + est&#233;tica &#8594; Qual &#233; o papel da imagina&#231;&#227;o na experi&#234;ncia de uma obra de arte? </p></li><li><p>imagina&#231;&#227;o + &#233;tica &#8594; A imagina&#231;&#227;o pode contribuir para nosso ju&#237;zo moral? </p></li><li><p>imagina&#231;&#227;o + l&#243;gica &#8594; Podemos imaginar o contradit&#243;rio? </p></li><li><p>imagina&#231;&#227;o + epistemologia &#8594; Podemos aprender alguma coisa imaginando? </p></li><li><p>imagina&#231;&#227;o + metaf&#237;sica &#8594; O que &#233; um objeto imaginado? </p></li><li><p>imagina&#231;&#227;o + filosofia da mente &#8594; Imaginar &#233; um tipo de estado mental?</p></li></ul><h3>O Conceito de Possibilidade</h3><ul><li><p>possibilidade + &#233;tica &#8594; &#201; poss&#237;vel ser bom? </p></li><li><p>possibilidade + l&#243;gica &#8594; A possibilidade &#233; um predicado? </p></li><li><p>possibilidade + epistemologia &#8594; Como sabemos que algo &#233; poss&#237;vel? </p></li><li><p>possibilidade + metaf&#237;sica &#8594; Algo poderia ter sido diferente do que &#233;? </p></li><li><p>possibilidade + filosofia da mente &#8594; O imposs&#237;vel &#233; inimagin&#225;vel?</p></li></ul><h3>O Conceito de Mem&#243;ria</h3><ul><li><p>mem&#243;ria + est&#233;tica &#8594; Podemos lembrar uma obra de arte de maneira esteticamente diferente de como a percebemos? Ou, se odiei o filme, n&#227;o posso lembrar dele como algo de que gosto? </p></li><li><p>mem&#243;ria + &#233;tica &#8594; Temos algum dever de lembrar? </p></li><li><p>mem&#243;ria + l&#243;gica &#8594; O que significa dizer &#8220;lembro de x&#8221;? </p></li><li><p>mem&#243;ria + epistemologia &#8594; Podemos obter conhecimento atrav&#233;s da mem&#243;ria? </p></li><li><p>mem&#243;ria + metaf&#237;sica &#8594; O que &#233; uma mem&#243;ria? </p></li><li><p>mem&#243;ria + filosofia da mente &#8594; Lembrar &#233; um estado mental? </p></li><li><p>mem&#243;ria + filosofia da ci&#234;ncia &#8594; Como sabemos que uma determinada capacidade cognitiva &#233; mem&#243;ria?</p></li></ul><h3>O Conceito de Tempo</h3><ul><li><p>tempo + est&#233;tica &#8594; A dist&#226;ncia temporal embeleza os acontecimentos? </p></li><li><p>tempo + &#233;tica &#8594; Temos obriga&#231;&#245;es em rela&#231;&#227;o &#224;s gera&#231;&#245;es passadas? </p></li><li><p>tempo + l&#243;gica &#8594; O valor de verdade de uma senten&#231;a pode mudar? </p></li><li><p>tempo + metaf&#237;sica &#8594; O passado e o futuro existem? </p></li><li><p>tempo + filosofia da mente &#8594; O que significa ter uma experi&#234;ncia do passado ou do futuro? </p></li><li><p>tempo + epistemologia &#8594; Como podemos conhecer acontecimentos passados? </p></li><li><p>tempo + filosofia da linguagem &#8594; O significado de uma frase muda conforme o tempo em que &#233; proferida?</p></li></ul><h3>O Conceito de Identidade</h3><ul><li><p>identidade + &#233;tica &#8594; Somos respons&#225;veis hoje por aquilo que fizemos no passado? Ou j&#225; n&#227;o somos aqueles que fizeram o que fizeram? </p></li><li><p>identidade + l&#243;gica &#8594; Se A = B e B = C, A = C tamb&#233;m quando falamos de pessoas? Ou o adulto n&#227;o &#233; o beb&#234;? </p></li><li><p>identidade + epistemologia &#8594; Como podemos saber que uma pessoa &#233; a mesma pessoa que conhecemos anteriormente? </p></li><li><p>identidade + metaf&#237;sica &#8594; O que faz uma coisa ser a mesma coisa ao longo do tempo? </p></li><li><p>identidade + filosofia da mente &#8594; &#201; poss&#237;vel pensar o mesmo duas vezes? </p></li><li><p>identidade + filosofia da linguagem &#8594; O que significa dizer que duas coisas s&#227;o &#8220;a mesma coisa&#8221;?</p></li></ul><h3>O Conceito de Causalidade</h3><ul><li><p>causalidade + &#233;tica &#8594; Uma pessoa pode ser moralmente respons&#225;vel por algo que n&#227;o causou intencionalmente? </p></li><li><p>causalidade + l&#243;gica &#8594; O que distingue uma rela&#231;&#227;o causal de uma simples sequ&#234;ncia de eventos? </p></li><li><p>causalidade + epistemologia &#8594; Como sabemos que A causou B? </p></li><li><p>causalidade + metaf&#237;sica &#8594; O que &#233; uma rela&#231;&#227;o causal? </p></li><li><p>causalidade + filosofia da mente &#8594; Estados mentais podem causar comportamentos f&#237;sicos? </p></li><li><p>causalidade + filosofia da ci&#234;ncia &#8594; As leis cient&#237;ficas descrevem rela&#231;&#245;es causais?</p></li></ul><h3>O Conceito de Consci&#234;ncia</h3><ul><li><p>consci&#234;ncia + &#233;tica &#8594; A consci&#234;ncia &#233; necess&#225;ria para que algu&#233;m seja moralmente respons&#225;vel? </p></li><li><p>consci&#234;ncia + epistemologia &#8594; Podemos saber como &#233; a experi&#234;ncia consciente de outra pessoa? </p></li><li><p>consci&#234;ncia + metaf&#237;sica &#8594; A consci&#234;ncia &#233; uma propriedade fundamental da realidade? </p></li><li><p>consci&#234;ncia + filosofia da mente &#8594; O que faz com que um estado mental seja consciente? </p></li><li><p>consci&#234;ncia + filosofia da linguagem &#8594; Podemos descrever adequadamente uma experi&#234;ncia consciente? </p></li><li><p>consci&#234;ncia + filosofia da ci&#234;ncia &#8594; Como uma ci&#234;ncia da consci&#234;ncia poderia explicar a experi&#234;ncia subjetiva?</p></li></ul><h3>O Conceito de Representa&#231;&#227;o</h3><ul><li><p>representa&#231;&#227;o + epistemologia &#8594; Uma representa&#231;&#227;o mental precisa ser verdadeira para produzir conhecimento? </p></li><li><p>representa&#231;&#227;o + metaf&#237;sica &#8594; O que &#233; uma representa&#231;&#227;o mental? </p></li><li><p>representa&#231;&#227;o + filosofia da mente &#8594; Estados mentais representam objetos ou estados de coisas? </p></li><li><p>representa&#231;&#227;o + filosofia da linguagem &#8594; Qual &#233; a rela&#231;&#227;o entre representa&#231;&#227;o mental e representa&#231;&#227;o lingu&#237;stica? </p></li><li><p>representa&#231;&#227;o + filosofia da ci&#234;ncia &#8594; Como podemos saber que um estado cerebral representa alguma coisa?</p></li></ul><h3>O Conceito de Intencionalidade</h3><ul><li><p>intencionalidade + epistemologia &#8594; Uma cren&#231;a precisa ter um objeto intencional para ser conhecimento? </p></li><li><p>intencionalidade + metaf&#237;sica &#8594; O que &#233; a propriedade de um estado mental de ser &#8220;sobre&#8221; alguma coisa? </p></li><li><p>intencionalidade + filosofia da mente &#8594; Todos os estados mentais s&#227;o intencionais? </p></li><li><p>intencionalidade + filosofia da linguagem &#8594; Existe uma rela&#231;&#227;o entre a intencionalidade mental e o significado lingu&#237;stico?</p></li></ul><h3>O Conceito de Propriedade</h3><ul><li><p>propriedade + l&#243;gica &#8594; Como predicamos propriedades de objetos? </p></li><li><p>propriedade + epistemologia &#8594; Como sabemos que uma coisa possui determinada propriedade? </p></li><li><p>propriedade + metaf&#237;sica &#8594; O que &#233; uma propriedade? </p></li><li><p>propriedade + filosofia da mente &#8594; A consci&#234;ncia &#233; uma propriedade dos estados cerebrais? </p></li><li><p>propriedade + filosofia da linguagem &#8594; Uma propriedade &#233; aquilo que um predicado significa?</p></li></ul><h3>O que Isso nos Ensina sobre a Escrita de Filosofia?</h3><p>Essa enorme quantidade de exemplos nos ensina que h&#225; maneiras pr&#225;ticas de encontrar quest&#245;es filos&#243;ficas sobre as quais escrever. Em vez de esperar pelas musas, podemos usar conceitos filos&#243;ficos como ponto de partida e combin&#225;-los com diferentes &#225;reas da filosofia para gerar perguntas relevantes.</p><p>Tamb&#233;m nos ensina a ver as disciplinas filos&#243;ficas de modo pr&#225;tico. A est&#233;tica orbitando a beleza, a &#233;tica o bem, a l&#243;gica a verdade, a epistemologia o saber e a metaf&#237;sica o ser. E, come&#231;ando desta &#250;ltima, aprendemos a dar valor a perguntas como <em>o que &#233; &#8230;?</em>, <em>como sabemos que &#8230;?</em>, <em>por que &#233; belo &#8230;?</em>, e outras famosas estruturas das grandes quest&#245;es filos&#243;ficas, as <em>big questions</em>.</p><p>A f&#243;rmula <em>conceito + &#225;rea da filosofia &#8594; pergunta filos&#243;fica</em> gera perguntas, e assim nos d&#225; temas para escrita filos&#243;fica. E tamb&#233;m nos d&#225; mapas com v&#225;rias camadas, pois passamos a ver os conceitos representados em v&#225;rias dimens&#245;es. O que nos faz ver a interconex&#227;o entre as diferentes disciplinas filos&#243;ficas. Pense no mapa. Ele representa altitude, popula&#231;&#227;o, hidrografia, etc., tudo no mesmo espa&#231;o. Semelhantemente com as disciplinas filos&#243;ficas. O mesmo conceito de consci&#234;ncia se vincula a diferentes disciplinas, cada uma representando uma das suas dimens&#245;es mais fundamentais, pois s&#227;o aspectos filos&#243;ficos dos conceitos.</p><p>E assim, al&#233;m de evitarmos quest&#245;es superficiais, nos orientamos melhor. O leitor ganha, e voc&#234; tamb&#233;m.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Piada e Verdade]]></title><description><![CDATA[Piadas, tal como as teorias cient&#237;ficas, dependem da verdade.]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/piada-e-verdade</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/piada-e-verdade</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Wed, 16 Sep 2026 12:44:43 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Piadas, tal como as teorias cient&#237;ficas, dependem da verdade.</p><p>Uma piada &#233; engra&#231;ada por dois motivos. Primeiro, por causa da verdade que ela expressa.</p><blockquote><p>Um homem vai ao m&#233;dico e descobre que &#233; um paciente terminal.<br>&#8220;O que voc&#234; quer fazer sobre isso?&#8221;<br>&#8220;N&#227;o sei. Posso esperar um pouco?&#8221;</p></blockquote><p>Neste caso, temos a verdade da morte, mas tamb&#233;m a verdade da esperan&#231;a. Se a morte fosse um mito, n&#227;o seria uma piada. Se a esperan&#231;a frente ao imposs&#237;vel n&#227;o fosse uma engrenagem bem no meio dos nossos c&#233;rebros, n&#227;o haveria gra&#231;a.</p><p>Uma piada &#233; engra&#231;ada, segundo, por causa da contradi&#231;&#227;o entre o <em>setup</em> da piada e a <em>punchline</em>. No exemplo, h&#225; conflito entre n&#227;o ter tempo e querer esperar.</p><p>Os fil&#243;sofos distinguem entre as verdades e os veritadores (<em>truthmakers</em>). Toda verdade tem um veritador; isto &#233;, se algo &#233; verdade, ent&#227;o h&#225; algo na realidade que faz com que isso que pensamos ou dizemos seja verdadeiro. Por exemplo, s&#243; &#233; verdade que hoje &#233; um lindo dia se hoje, de fato, for um lindo dia. &#201; o dia lindo que faz com que o pensamento seja verdadeiro; n&#227;o &#233; o pensamento que faz com que o dia seja lindo.</p><p>Bem, no caso de uma piada, a gra&#231;a depende do conhecimento compartilhado da verdade entre quem conta a piada e quem escuta a piada. Se ambos sabem o que tem que ser real para cada parte da piada, acabam por mapear um conflito ou contradi&#231;&#227;o. E eis a gra&#231;a.</p><p>&#8212;</p><p>&#201; estranho, &#224; primeira vista, que o humor dependa da verdade. Mas assim &#233;. Boa parte do humor, incluindo memes, tem gra&#231;a por focar em verdades fundamentais que s&#227;o reconhecidas por qualquer pessoa que n&#227;o tenha se intoxicado por algum fanatismo, por mais grosseiro ou limpinho que este fanatismo seja. &#201; justamente essa ancoragem no real que faz com que aquilo que &#233; dito seja engra&#231;ado se houver um conflito &#8211; como, por exemplo, o conflito entre a morte certa bem loguinho e a esperan&#231;a de prazo longo.</p><p>&#201; engra&#231;ado que, para Hannibal Lecter, pessoas sejam comida, pois pessoas n&#227;o s&#227;o comida, mas, bem, Hannibal Lecter &#233; um canibal. E aqui, como nas piadas em geral, vemos que o humor envolve ricas camadas de realidade e de conhecimento partilhado da realidade.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Sistema de Construção Episódica]]></title><description><![CDATA[Como o c&#233;rebro cria simula&#231;&#245;es de situa&#231;&#245;es poss&#237;veis]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/o-sistema-de-construcao-episodica</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/o-sistema-de-construcao-episodica</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Mon, 14 Sep 2026 11:59:56 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O sistema de constru&#231;&#227;o epis&#243;dica &#233; a pe&#231;a te&#243;rica central da teoria simulacionista da mem&#243;ria, formulada por Kourken Michaelian (2016) com base em descobertas da neuroci&#234;ncia cognitiva e da psicologia experimental.</p><p>Trata-se do mecanismo neurocognitivo respons&#225;vel por gerar simula&#231;&#245;es mentais detalhadas de cen&#225;rios e epis&#243;dios, em vez de reproduzir passivamente registros arquivados do passado.</p><p>Este sistema &#233; capaz de simular epis&#243;dios passados e futuros, atuais e poss&#237;veis. Talvez, ao simular um evento atual passado, o sistema empregue mecanismos relacionados &#224; experi&#234;ncia anterior que vem a ser simulada (Perrin 2018). No entanto, isso n&#227;o pode ser o caso para a representa&#231;&#227;o do passado poss&#237;vel e do futuro, seja esse atual ou poss&#237;vel, pois n&#227;o h&#225; experi&#234;ncia anterior de nada disso. Assim sendo, se supomos que o sistema de simula&#231;&#227;o epis&#243;dica sempre opera da mesma maneira, que &#233; a suposi&#231;&#227;o mais simples, ent&#227;o conclu&#237;mos que, em todos os casos, o sistema constr&#243;i simula&#231;&#245;es a partir de diversas experi&#234;ncias passadas; de modo que pode se dar a constru&#231;&#227;o (simula&#231;&#227;o) de um epis&#243;dio atual passado que n&#227;o use materiais oriundos da experi&#234;ncia passada desse mesmo epis&#243;dio (Michaelian 2016, 103).</p><p>&#8212;</p><p>Michaelian, Kourken. 2016. <em>Mental Time Travel: Episodic Memory and Our Knowledge of the Personal Past</em>. The MIT Press. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fmitpress.mit.edu%2F9780262551151%2Fmental-time-travel%2F">https://mitpress.mit.edu/9780262551151/mental-time-travel/</a>.</p><p>Perrin, Denis. 2018. &#8220;A Case for Procedural Causality in Episodic Recollection.&#8221; In <em>New Directions in the Philosophy of Memory</em>, edited by Kourken Michaelian, Dorothea Debus, and Denis Perrin. Routledge. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.4324%2F9781315159591">https://doi.org/10.4324/9781315159591</a>.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Imaginação e Verdade]]></title><description><![CDATA[Os fil&#243;sofos distinguem entre as verdades e os veritadores (truthmakers).]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/imaginacao-e-verdade</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/imaginacao-e-verdade</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sun, 13 Sep 2026 13:37:36 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Os fil&#243;sofos distinguem entre as verdades e os veritadores (<em>truthmakers</em>). Toda verdade tem um veritador; isto &#233;, se algo &#233; verdade, ent&#227;o h&#225; algo na realidade que faz com que isso que pensamos ou dizemos seja verdadeiro. Por exemplo, s&#243; &#233; verdade que hoje &#233; um lindo dia se hoje, de fato, for um lindo dia. &#201; o dia lindo que faz com que o pensamento seja verdadeiro; n&#227;o &#233; o pensamento que faz com que o dia seja lindo. De modo que um veritador &#233; algo que existe e faz com que um pensamento ou algo que &#233; dito seja verdadeiro.</p><p>Para que um pensamento seja verdadeiro, ele tem que rastrear os fatos. A imagina&#231;&#227;o, no entanto, pode ser usada para <em>transcender</em> os fatos. Ao imaginar, suspendemos o tomar por real. Quando imaginamos, operamos no modo &#8220;como se&#8221; &#8211; n&#227;o &#233; real, mas &#233; como se fosse real.</p><p>Ainda assim, uma imagina&#231;&#227;o n&#227;o &#233; <em>simplesmente</em> falsa. Para entender isso, voltemos ao &#8220;como se&#8221;. Assim como um pensamento sobre o real depende do real, uma imagina&#231;&#227;o depende da &#8220;realidade&#8221; imaginada &#8211; de modo que h&#225; &#8220;verdades&#8221; da imagina&#231;&#227;o; isto &#233;, <em>verdades do g&#234;nero</em> imaginativo.</p><p>Por exemplo, voc&#234; est&#225; brincando com uma crian&#231;a, e pergunta a ela onde est&#225; o hamster com chifres e asas. A crian&#231;a responde que est&#225; atr&#225;s do sof&#225;. Voc&#234; vai at&#233; l&#225;, sacode os bra&#231;os atr&#225;s do sof&#225;, e volta com a m&#227;o fechada, dizendo &#8220;Peguei!&#8221;. A crian&#231;a te pede para soltar o hamster para ele voar. Voc&#234; vai at&#233; a janela, abre a m&#227;o, olha para um percurso da sua m&#227;o para o alto, e diz &#8220;Tchau hamster chifrudo voador!&#8221;. A crian&#231;a ri gostoso.</p><p>Voc&#234; e a crian&#231;a sabem muito bem que n&#227;o h&#225; hamster nenhum envolvido na brincadeira, muito menos um hamster com chifres e asas, mas a brincadeira funciona porque voc&#234;s dois seguem a <em>verdade do g&#234;nero</em> do mundo imaginativo que voc&#234;s criaram e partilharam, no qual h&#225; um hamster com chifres e asas.</p><p>Em geral, o pensamento se orienta ao real. Isso inclui a mem&#243;ria, a qual se orienta ao que <em>foi</em> real. A imagina&#231;&#227;o, por sua vez, se orienta ao que <em>pode</em> ou <em>poderia</em> ser real. O interessante &#233; que podemos estipular <em>condi&#231;&#245;es</em> para o poss&#237;vel e que tais condi&#231;&#245;es abrem espa&#231;o para as <em>verdades da imagina&#231;&#227;o</em>.</p><p>De certo jeito, &#233; inevit&#225;vel que a imagina&#231;&#227;o tenha suas condi&#231;&#245;es. Se a imagina&#231;&#227;o apresentasse qualquer coisa, seria incompreens&#237;vel. E o interessante &#233; que <em>entendemos</em> a imagina&#231;&#227;o, ainda que ela n&#227;o rastreie o real.</p><p>Em alguns casos, a imagina&#231;&#227;o segue de perto a realidade. Por exemplo, imagine o que teria acontecido se voc&#234; tivesse esquecido as chaves. Nestes casos, n&#227;o nos afastamos muito do modo como pensamos o real. Mas podemos imaginar situa&#231;&#245;es mais distantes, com naves espaciais ou m&#225;gica. Em tais casos, as <em>verdades do g&#234;nero</em> v&#227;o substituindo o pensamento sobre o real. O drag&#227;o ainda precisa de asas para desafiar a gravidade, mas suas min&#250;sculas asinhas requerem uma f&#237;sica fict&#237;cia para que fa&#231;amos de conta que o gordo drag&#227;o voa.</p><p>Nem sempre &#233; f&#225;cil saber se estamos seguindo as regras do pensamento do real ou se estamos estabelecendo <em>verdades do g&#234;nero</em>. No caso da mem&#243;ria autobiogr&#225;fica, isso &#233; dram&#225;tico, pois tendemos a tomar como verdades do g&#234;nero <em>eu mesmo</em> que &#233;ramos muito bons/maus, s&#225;bios/burros, e isso tinge o que tomamos por lembran&#231;as de ou sobre n&#243;s mesmos.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Memória autobiográfica: redutível, mas ineliminável]]></title><description><![CDATA[D&#225; para reduzir a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica a outros tipos de mem&#243;ria, mas n&#227;o &#233; uma boa ideia varrer a no&#231;&#227;o de mem&#243;ria autobiogr&#225;fica do mapa dos estudos sobre a mem&#243;ria]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/memoria-autobiografica-redutivel</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/memoria-autobiografica-redutivel</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sat, 12 Sep 2026 12:09:35 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Na taxonomia padr&#227;o da mem&#243;ria, h&#225; dois tipos de mem&#243;ria declarativa, a mem&#243;ria sem&#226;ntica e a mem&#243;ria epis&#243;dica. Da&#237; fica a pergunta:</p><p>Qual o lugar da mem&#243;ria autobiogr&#225;fica nesta paisagem?</p><p>Uma primeira resposta &#233; que a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica seria a mesma coisa que a mem&#243;ria <em>epis&#243;dica</em>. </p><p>Tipicamente, se entende que uma mem&#243;ria epis&#243;dica &#233; uma mem&#243;ria na qual como que revivemos uma situa&#231;&#227;o do passado pessoal. Assim sendo, &#233; natural que se entenda a mem&#243;ria epis&#243;dica como sendo a mesma coisa que a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica. </p><p>No entanto, h&#225; muitas mem&#243;rias epis&#243;dicas que, no final das contas, n&#227;o t&#234;m nenhum interesse estritamente <em>autobiogr&#225;fico</em>. Por exemplo, voc&#234; como que revive, na sua mente, a situa&#231;&#227;o de ter aberto a geladeira pela manh&#227;, pois algu&#233;m te perguntou se voc&#234; foi &#224; cozinha e essa pergunta disparou essa mem&#243;ria. Mas n&#227;o h&#225; nada de significativo para tua <em>biografia</em> nesta mem&#243;ria, a qual s&#243; &#233; &#8220;revivida&#8221; por causa da pergunta que te foi feita.</p><p>Al&#233;m disso, &#233; bem claro que h&#225; mem&#243;rias autobiogr&#225;ficas que n&#227;o s&#227;o epis&#243;dicas, mas sim <em>sem&#226;nticas</em>. Uma mem&#243;ria sem&#226;ntica &#233; um conhecimento que voc&#234; tem. Por exemplo, que Paris &#233; a capital da Fran&#231;a e que a infla&#231;&#227;o &#233; causada pela impress&#227;o de dinheiro. Voc&#234; pode simplesmente <em>saber</em> que voc&#234; nasceu em tal e tal lugar. Isso &#233; uma mem&#243;ria sem&#226;ntica sobre ti mesmo e, muito claramente, isso &#233; uma mem&#243;ria autobiogr&#225;fica.</p><p>De modo que as mem&#243;rias autobiogr&#225;ficas podem ser epis&#243;dicas, mas tamb&#233;m podem ser sem&#226;nticas. Sendo assim, as mem&#243;rias autobiogr&#225;ficas n&#227;o precisam de um lugar especial na taxonomia da mem&#243;ria, pois podem ser reduzidas e explicadas pelas mec&#226;nicas de outros tipos de mem&#243;ria.</p><p>O que motiva a seguinte pergunta:</p><p>Levando em conta que mem&#243;rias autobiogr&#225;ficas podem ser reduzidas seja a mem&#243;rias epis&#243;dicas, seja a mem&#243;rias sem&#226;nticas, n&#243;s podemos <em>eliminar</em> as mem&#243;rias autobiogr&#225;ficas dos assuntos dignos de investiga&#231;&#227;o na pesquisa sobre a mem&#243;ria?</p><p>A resposta &#233; que sim, podemos, mas n&#227;o, <em>n&#227;o devemos</em> eliminar a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica dos assuntos dignos de investiga&#231;&#227;o.</p><p>Vejamos por qu&#234;. Mas, primeiro, falemos sobre a possibilidade de reduzir a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica &#224; mem&#243;ria sem&#226;ntica e &#224; mem&#243;ria epis&#243;dica.</p><p>Consideremos os tr&#234;s n&#237;veis de an&#225;lise de um sistema cognitivo propostos por David Marr. Primeiro vem o n&#237;vel <em>computacional</em>, no qual se pergunta o que o sistema faz, e por que faz o que faz. Neste n&#237;vel, dada uma mem&#243;ria autobiogr&#225;fica, se ela &#233; sem&#226;ntica, &#233; feito pelo corpo o que o corpo faz no caso de qualquer mem&#243;ria sem&#226;ntica, e pelas mesmas causas que o corpo gera qualquer mem&#243;ria sem&#226;ntica; e, se a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica for epis&#243;dica, a realiza&#231;&#227;o e as causas n&#227;o diferem daquelas t&#237;picas de qualquer mem&#243;ria epis&#243;dica. Ou seja, no n&#237;vel computacional, uma mem&#243;ria autobiogr&#225;fica &#233; redut&#237;vel seja a uma mem&#243;ria sem&#226;ntica, seja a uma mem&#243;ria epis&#243;dica.</p><p>O segundo n&#237;vel da an&#225;lise de Marr &#233; o <em>algoritmo</em>, isto &#233;, como o sistema cognitivo faz o que faz. Aqui, novamente, se a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica &#233; sem&#226;ntica, o procedimento de constru&#231;&#227;o &#233; aquele t&#237;pico de qualquer mem&#243;ria sem&#226;ntica; e, se a mem&#243;ria &#233; epis&#243;dica, o procedimento &#233; o t&#237;pico da constru&#231;&#227;o de uma mem&#243;ria epis&#243;dica. De novo, vemos que d&#225; para reduzir uma mem&#243;ria autobiogr&#225;fica a uma das variedades de mem&#243;ria declarativa.</p><p>O terceiro n&#237;vel da an&#225;lise marriana &#233; a <em>implementa&#231;&#227;o</em>; isto &#233;, o hardware f&#237;sico, o peda&#231;o de carne que gera o produto cognitivo. De novo, o que encontramos &#233; que se a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica for mem&#243;ria sem&#226;ntica, &#233; usada a maquinaria biol&#243;gica da mem&#243;ria sem&#226;ntica; e, se a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica for epis&#243;dica, &#233; processada cerebralmente como qualquer outra mem&#243;ria epis&#243;dica.</p><p>E assim vemos, claramente, que a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica &#233; redut&#237;vel seja &#224; mem&#243;ria sem&#226;ntica, seja &#224; mem&#243;ria epis&#243;dica, conforme for o caso.</p><p>Ainda assim, o r&#243;tulo <em>mem&#243;ria autobiogr&#225;fica</em> se mant&#233;m &#250;til e valioso para demarcar os aspectos da mem&#243;ria que dizem respeito aos acontecimentos e aos fatos que consideramos relevantes para entendermos a n&#243;s mesmos (ver Baddeley 1992; Larsen 1992).</p><p>Fundamentalmente, vale a pena falar de mem&#243;ria autobiogr&#225;fica quando estamos falando de mem&#243;rias que achamos <em>relevantes</em> para definir ou explicar quem somos.</p><p>Por exemplo, lembrar do pr&#243;prio nome e lembrar do nome da escola na qual voc&#234; cursou o ensino prim&#225;rio ou fundamental s&#227;o casos de mem&#243;ria sem&#226;ntica, e tamb&#233;m de mem&#243;ria autobiogr&#225;fica. Essas lembran&#231;as t&#234;m um valor, para o sujeito, que se explica pela relev&#226;ncia para a autocompreens&#227;o e autodefini&#231;&#227;o. Outras mem&#243;rias sem&#226;nticas n&#227;o t&#234;m o mesmo tipo de valor para o lembrador. &#201; bom saber que Paris &#233; a capital da Fran&#231;a, mas, para muitas e muitas pessoas, essa informa&#231;&#227;o nada as ajuda a se entenderem &#8211; trata-se de mem&#243;ria sem&#226;ntica que n&#227;o &#233; mem&#243;ria autobiogr&#225;fica.</p><p>Algumas mem&#243;rias epis&#243;dicas s&#227;o valiosas n&#227;o apenas por nos darem a entender algo sobre n&#243;s mesmos, mas tamb&#233;m por como que <em>constitu&#237;rem</em> nossas respectivas identidades. Voc&#234; lembra daquele dia em que teu time finalmente conseguiu fazer um gol no time dos guris mais fortes, mais velhos e mais brabos da rua ao lado. Foi tenso, e valeu totalmente a pena. Foi um momento marcante para ti, um momento que te fez ser algu&#233;m que v&#234; situa&#231;&#245;es dif&#237;ceis de uma certa maneira, e voc&#234; entende que voc&#234; &#233; assim por causa daquela vez, naquele jogo de futebol. Neste caso, n&#227;o se trata apenas de lembrar de um epis&#243;dio, mas tamb&#233;m de se entender como sendo quem se &#233; por causa de um certo epis&#243;dio. E, assim, eis uma lembran&#231;a epis&#243;dica que &#233; uma lembran&#231;a autobiogr&#225;fica.</p><p>De modo que sim, d&#225; para reduzir a mem&#243;ria autobiogr&#225;fica &#224; mem&#243;ria sem&#226;ntica e &#224; mem&#243;ria epis&#243;dica. Mas disso n&#227;o segue que seja uma boa ideia eliminar os estudos sobre as mem&#243;rias que usamos para nos entendermos a n&#243;s mesmos.</p><p>&#8212;</p><p>Baddeley, Alan. 1992. &#8220;What Is Autobiographical Memory?&#8221; In <em>Theoretical Perspectives on Autobiographical Memory</em>, edited by Martin A. Conway, Rubin, David C., and Willem A. Wagenaar. Springer. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1007%2F978-94-015-7967-4_2">https://doi.org/10.1007/978-94-015-7967-4_2</a>.</p><p>Larsen, Steen F. 1992. &#8220;Personal Context in Autobiographical and Narrative Memories.&#8221; In <em>Theoretical Perspectives on Autobiographical Memory</em>, edited by Martin A. Conway, David C. Rubin, Hans Spinnler, and Willem A. Wagenaar. Springer. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1007%2F978-94-015-7967-4_4">https://doi.org/10.1007/978-94-015-7967-4_4</a>.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Pluralismo é a Ambrosia da Ciência]]></title><description><![CDATA[Num importante cap&#237;tulo sobre a nascente ci&#234;ncia da mem&#243;ria, os autores nos dizem que o &#8220;pluralismo &#233; a ambrosia da ci&#234;ncia&#8221; (Dudai et al.]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/pluralismo-e-a-ambrosia-da-ciencia</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/pluralismo-e-a-ambrosia-da-ciencia</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Thu, 10 Sep 2026 10:30:56 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Num importante cap&#237;tulo sobre a nascente ci&#234;ncia da mem&#243;ria, os autores nos dizem que o &#8220;pluralismo &#233; a ambrosia da ci&#234;ncia&#8221; (Dudai et al. 2007, 8).</p><p>Na mitologia cl&#225;ssica, ambrosia &#233; o alimento dos deuses &#8211; a fonte da imortalidade. A met&#225;fora &#233; que a diversidade de pontos de vista &#233; a subst&#226;ncia vital que sustenta e avan&#231;a as disciplinas cient&#237;ficas.</p><p>Os autores notam, ainda, que a polifonia intelectual &#233; essencial para as novas ci&#234;ncias; e que, no caso das ci&#234;ncias maduras, o pluralismo leva &#224; saud&#225;vel reavalia&#231;&#227;o dos m&#233;todos e das vis&#245;es e, se for o caso, mudan&#231;a de paradigma. De modo que o pluralismo &#233; uma alternativa divina, superior, &#224; vis&#227;o artificialmente unificada de uma ci&#234;ncia, pois &#233; de se esperar que especialistas com diferentes forma&#231;&#245;es tenham m&#233;todos e vis&#245;es distintas &#8211; e &#233; divino que assim seja, pois assim se refor&#231;am os modelos de pesquisa e as teorias.</p><p>Sem contar que o pluralismo sintoniza com o <em>princ&#237;pio de toler&#226;ncia ontol&#243;gica</em> proposto por Quine e Carnap. A ideia &#233; que devemos ser tolerantes sobre as maneiras de entender a realidade, e escolher m&#233;todos e teorias a partir de princ&#237;pios pr&#225;ticos &#8211; como a simplicidade. </p><div><hr></div><p>Carnap, Rudolf. (1956) 1988. &#8220;Empirismo, Sem&#226;ntica e Ontologia.&#8221; In <em>Os Pensadores: Schlick &amp; Carnap</em>, editado e traduzido por Pablo Rub&#233;n Mariconda. Nova Cultural.</p><p>Dudai, Yadin, Henry L. Roediger III, e Endel Tulving. 2007. &#8220;Memory Concepts.&#8221; In <em>Science of Memory: Concepts</em>, editado por Henry L. Roediger III, Yadin Dudai, e Susan M. Fitzpatrick. Oxford University Press.</p><p>Quine, Willard Van Orman. (1948) 2011. &#8220;Sobre o Que H&#225;.&#8221; In <em>De Um Ponto de Vista L&#243;gico: Nove Ensaios L&#243;gico-Filos&#243;ficos</em>, traduzido por Antonio I. Segatto. Editora Unesp. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Estudar Filosofia segundo a Ordem das Razões]]></title><description><![CDATA[Com o exemplo das Medita&#231;&#245;es de Descartes]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/estudar-filosofia-segundo-a-ordem</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/estudar-filosofia-segundo-a-ordem</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Wed, 02 Sep 2026 11:01:00 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1>O M&#233;todo das Raz&#245;es</h1><p>Falarei um pouco sobre o m&#233;todo das raz&#245;es, tamb&#233;m conhecido como &#8220;estruturalismo&#8221;. Para estudar este m&#233;todo, estamos lendo:</p><p>Gueroult, Martial. (1970) 2015. &#8220;O M&#233;todo em Hist&#243;ria da Filosofia.&#8221; Tradu&#231;&#227;o de Nicole Marcello. <em>Sk&#233;psis</em> 8 (12): 159&#8211;68.</p><p>Neste texto, Gueroult apresenta seu <em>m&#233;todo das raz&#245;es</em>. Este m&#233;todo, como praticamente qualquer outro m&#233;todo filos&#243;fico, articula tr&#234;s elementos:</p><ul><li><p>um texto,</p></li><li><p>uma an&#225;lise, e</p></li><li><p>uma explica&#231;&#227;o ou argumenta&#231;&#227;o.</p></li></ul><p>O tipo de texto mais apropriado para este m&#233;todo &#233; um texto cl&#225;ssico, com s&#243;lida arquitetura conceitual, mas nada impede a aplica&#231;&#227;o a textos em geral.</p><p>Quanto &#224; an&#225;lise, pode ser a an&#225;lise conceitual usual. Isso n&#227;o &#233; central.</p><p>O foco do m&#233;todo da ordem das raz&#245;es &#233; a busca de explica&#231;&#245;es (porqu&#234;s, raz&#245;es) para certa ordena&#231;&#227;o entre conceitos, teses, e teorias em um certo texto.</p><p>Ou seja, o prop&#243;sito &#233; elucidar e explicar n&#227;o apenas o que uma filosofia afirma ou nega, mas como e por que suas partes se articulam, sendo os elementos racionais (conceitos, hip&#243;teses, teses, teorias) as suas partes propriamente ditas. Como resultado, o m&#233;todo da ordem das raz&#245;es explora e articula a interioridade da obra filos&#243;fica, a qual difere da interioridade psicol&#243;gica do autor e da exterioridade geogr&#225;fica e hist&#243;rica.</p><p>A an&#225;lise revela os conceitos, as teses, e as teorias que comp&#245;em uma obra. No entanto, a an&#225;lise n&#227;o revela por que tais s&#227;o os elementos racionais, nem por que est&#227;o agrupados de certa maneira. O m&#233;todo da ordem das raz&#245;es trata deste problema. Ou seja, a estrutura racional n&#227;o se confunde com a mera ordem de exposi&#231;&#227;o.</p><p>A suposi&#231;&#227;o metodol&#243;gica do m&#233;todo de Gueroult &#233; que &#233; f&#233;rtil e produtivo buscar pela raz&#227;o pela qual cada elemento racional (conceito, tese, ou teoria) est&#225; posicionado em certo ponto da obra. Cabe perguntar:</p><ul><li><p>Por que este elemento est&#225; aqui?</p></li><li><p>Por que vem depois daquele?</p></li><li><p>Por que este caminho em vez de outro?</p></li></ul><p>O resultado do m&#233;todo, se bem-sucedido, &#233; a compreens&#227;o da obra a partir dos seus elementos racionais, os quais s&#227;o fundamentais e estruturantes em trabalhos filos&#243;ficos.</p><p>O m&#233;todo das raz&#245;es contrasta com o m&#233;todo biogr&#225;fico, o qual procura compreender a obra por fatores como:</p><ul><li><p>&#233;poca e lugar;</p></li><li><p>fontes e influ&#234;ncias;</p></li><li><p>biografia;</p></li><li><p>circunst&#226;ncias hist&#243;ricas;</p></li><li><p>ambiente intelectual.</p></li></ul><p>Esses fatores s&#227;o importantes. Gueroult n&#227;o os elimina. Mas eles n&#227;o substituem a investiga&#231;&#227;o da estrutura interna da obra, a qual procura reconstruir:</p><ul><li><p>os problemas da obra;</p></li><li><p>seus conceitos;</p></li><li><p>suas demonstra&#231;&#245;es;</p></li><li><p>suas combina&#231;&#245;es;</p></li><li><p>suas depend&#234;ncias;</p></li><li><p>as raz&#245;es que determinam sua ordem e articula&#231;&#227;o.</p></li></ul><p>&#201; essa a tarefa pr&#243;pria do m&#233;todo das estruturas ou das raz&#245;es.</p><p>Assim, para empregar o m&#233;todo das raz&#245;es, ao analisar uma obra, pergunte:</p><ul><li><p>O que a obra estabelece aqui?</p></li><li><p>Que elementos anteriores s&#227;o necess&#225;rios para isso?</p></li><li><p>Por que este passo vem neste ponto da obra?</p></li><li><p>O que este passo torna poss&#237;vel posteriormente?</p></li><li><p>Haveria outras maneiras de construir a demonstra&#231;&#227;o ou organizar os conceitos?</p></li><li><p>Por que o autor escolheu esta via e n&#227;o outra?</p></li></ul><p>E, por fim:</p><ul><li><p>Como as respostas &#224;s perguntas anteriores explicam a unidade da obra?</p></li></ul><p>Ou seja, n&#227;o pergunte apenas:</p><p>&#8220;O que o autor diz?&#8221;</p><p>Pergunte:</p><p>&#8220;Por que, uma vez estabelecido isto, &#233; preciso estabelecer aquilo?&#8221;</p><p>Esse &#233; o movimento b&#225;sico do m&#233;todo das raz&#245;es. </p><p><strong>Exerc&#237;cio.</strong> Gueroult prop&#245;e um procedimento de leitura que distingue a an&#225;lise de uma obra, a qual identifica seus elementos e sua organiza&#231;&#227;o, da explica&#231;&#227;o de porque uma obra se organiza conceitualmente de certa forma. Escreva um ensaio de aproximadamente 250 palavras sobre a diferen&#231;a entre analisar e explicar um texto. Exemplifique com um texto filos&#243;fico que voc&#234; conhe&#231;a. </p><h1>O Exemplo das Medita&#231;&#245;es</h1><p>Famosamente, Gueroult ele mesmo aplicou o m&#233;todo das raz&#245;es &#224; leitura das <em>Medita&#231;&#245;es</em> de Descartes, resultando neste livro monumental:</p><p>Gueroult, Martial. (1968) 2016. <em>Descartes segundo a Ordem das Raz&#245;es</em>. Traduzido por &#201;rico Andrade, En&#233;ias Forlin, Marisa Donatelli, C&#233;sar A. Battisti, e Alexandre Soares. Discurso Editorial.</p><p>No entanto, meu interesse aqui &#233; apenas exemplificar o m&#233;todo a partir de uma obra conhecida por estudantes de filosofia em geral. Esse exemplo n&#227;o substitui a leitura da investiga&#231;&#227;o de Gueroult sobre as <em>Medita&#231;&#245;es</em> de Descartes.</p><p>Estruturalmente, as <em>Medita&#231;&#245;es</em> de Descartes s&#227;o compostas por seis medita&#231;&#245;es. No entanto, uma leitura mais cuidadosa indica que elementos pr&#233;-textuais tais como a Carta aos doutores da Sorbonne e o Resumo das <em>Medita&#231;&#245;es</em> fazem parte da estrutura, pois d&#227;o respostas a certos porqu&#234;s tais como o foco na alma e em Deus, temas que aparecem no subt&#237;tulo da obra. Assim, as <em>Medita&#231;&#245;es</em> teriam a seguinte estrutura racional:</p><ul><li><p><em>A partir da Carta e do Resumo.</em> A alma e Deus s&#227;o tematizados porque isso mostra aos materialistas e aos ateus que &#233; mais f&#225;cil saber que a alma e Deus existem do que saber que o corpo existe. Isso explica a arquitetura das seis medita&#231;&#245;es e o subt&#237;tulo da obra, o qual menciona a alma e Deus.</p></li><li><p><em>Medita&#231;&#227;o 1.</em> M&#233;todo metaf&#237;sico: Se &#233; poss&#237;vel duvidar de x, ent&#227;o tomo x por falso. Por qu&#234;? Porque tal procedimento permite o foco no que n&#227;o pode ser duvidado.</p></li><li><p><em>Medita&#231;&#227;o 2.</em> Verdade 1: N&#227;o posso duvidar da verdade do pensamento &#8220;Sou&#8221; enquanto o penso, pois tal d&#250;vida confirma minha exist&#234;ncia.</p></li><li><p><em>Medita&#231;&#227;o 3</em>. Verdade 2: N&#227;o sou o criador de mim mesmo; pois, se fosse, me daria mais poderes do que tenho. Logo, outra coisa, mais poderosa do que eu, me criou.</p></li><li><p><em>Medita&#231;&#227;o 4.</em> Verdade 3: N&#227;o &#233; poss&#237;vel duvidar de verdades tais como &#8220;Sou&#8221; enquanto se as pensa, pois se apresentam clara e distintamente. Assim, a regra geral da verdade &#233; que o que est&#225; se pensando clara e distintamente, em plena aten&#231;&#227;o, e n&#227;o pode ser duvidado, deve ser tomado por verdadeiro.</p></li><li><p><em>Medita&#231;&#227;o 5.</em> Verdade 4: &#201; poss&#237;vel duvidar da exist&#234;ncia da mat&#233;ria sem duvidar da sua ess&#234;ncia, a qual &#233; ser algo que ocupa espa&#231;o tridimensional. Logo, h&#225; verdades anteriores, na ordem da descoberta metaf&#237;sica, &#224; verdade da exist&#234;ncia dos corpos.</p></li><li><p><em>Medita&#231;&#227;o 6.</em> Os corpos existem, pois essa &#233; a explica&#231;&#227;o mais simples para o fato de termos sensa&#231;&#245;es e emo&#231;&#245;es, as quais s&#227;o ideias obscuras e confusas que indicam o que &#233; &#250;til para a preserva&#231;&#227;o do corpo ao qual estamos intimamente unidos e o qual somos.</p></li></ul><p>Eis a arquitetura que emerge do conjunto</p><ul><li><p>D&#250;vida porque revela que &#233; mais f&#225;cil saber que a alma e Deus existem do que saber que o corpo existe.</p></li><li><p>O cogito (&#8220;Sou&#8221;) &#233; verdade por ser indubit&#225;vel.</p></li><li><p>&#201; verdade que Deus existe por ser preciso haver um criador mais perfeito do que a criatura.</p></li><li><p>A regra da verdade na metaf&#237;sica &#233; a clareza e distin&#231;&#227;o porque n&#227;o h&#225; como duvidar do que &#233; um assunto meramente racional (em vez de emp&#237;rico) e se apresenta como verdadeiro a quem medita atentamente e nota bem cada coisa, separando-a das outras coisas.</p></li><li><p>A mat&#233;ria, mesmo que n&#227;o exista, se apresenta &#224; mente atenta como extens&#227;o tridimensional. Assim, &#233; mais f&#225;cil conhecer a ess&#234;ncia do que a exist&#234;ncia dos corpos.</p></li><li><p>Por explicar a utilidade das sensa&#231;&#245;es e das emo&#231;&#245;es, &#233; um fato que os corpos existem. A mesma raz&#227;o explica porque somos uma uni&#227;o de mente e corpo em vez de meros &#8220;pilotos nos navios&#8221;.</p></li></ul><p><strong>Exerc&#237;cio.</strong> Por que Descartes n&#227;o come&#231;a demonstrando a exist&#234;ncia de Deus ou do mundo exterior? Reconstrua a raz&#227;o pela qual o cogito deve ocupar o lugar estrutural que ocupa na ordem das <em>Medita&#231;&#245;es</em>. Escreva cerca de 250 palavras. </p><h1>Concluindo</h1><p>O m&#233;todo das raz&#245;es &#233; extremamente valioso para quem quer estudar um texto a partir de perguntas sobre a estrutura do texto que s&#227;o respondidas pelo texto ele mesmo em vez da psiqu&#234; do autor ou do zeitgeist. Tais explica&#231;&#245;es externas tem seu valor, mas n&#227;o substituem a explica&#231;&#227;o da obra por ela mesma. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Atenção: Descartes, Locke, e o uníssono cognitivo]]></title><description><![CDATA[Aten&#231;&#227;o tem a ver com dirigir nossas mentes seletivamente para isto ou aquilo.]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/atencao-descartes-locke-e-o-unissono</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/atencao-descartes-locke-e-o-unissono</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Fri, 28 Aug 2026 13:21:46 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Aten&#231;&#227;o tem a ver com dirigir nossas mentes seletivamente para isto ou aquilo. Prestar aten&#231;&#227;o em algo &#233; mergulhar na coisa; n&#227;o prestar aten&#231;&#227;o &#233; deixar passar batido. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Descartes descreveu a opera&#231;&#227;o da aten&#231;&#227;o em assuntos puramente racionais, como a metaf&#237;sica e a geometria. Enquanto voc&#234; pensa &#8220;eu existo&#8221; </span>atentamente<span>, n&#227;o h&#225; como duvidar desta verdade metaf&#237;sica. E voc&#234; </span>tamb&#233;m n&#227;o pode duvidar que um tri&#226;ngulo tem tr&#234;s lados enquanto <span>pensa atentamente nessa verdade geom&#233;trica. No entanto, se o tempo passa, e voc&#234;, em vez de estar pensando atentamente, estiver apenas lembrando dessas teses, a d&#250;vida pode se manifestar. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em assuntos emp&#237;ricos, &#233; diferente, pois &#233; poss&#237;vel e, &#224;s vezes, at&#233; mesmo interessante duvidar de verdades cient&#237;ficas bem estabelecidas, como que a &#225;gua &#233; H2O e que as baleias s&#227;o mam&#237;feros, pois o vocabul&#225;rio cient&#237;fico (&#8220;H2O&#8221;, &#8220;mam&#237;fero&#8221;) deve sempre ser cuidadosamente examinado. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>E, assim sendo, a aten&#231;&#227;o opera de modos diferentes dependendo dos assuntos. No reino do a priori (metaf&#237;sica, matem&#225;tica), a aten&#231;&#227;o aquieta a d&#250;vida. No reino emp&#237;rico, se bem considerado, a aten&#231;&#227;o aquieta a d&#250;vida apenas se voc&#234; n&#227;o pensou bem sobre o tipo de verdade que tem em mente. A metaf&#237;sica &#233; pens&#225;vel com um al&#237;vio cognitivo que a ci&#234;ncia n&#227;o pode dar, por mais que se preste aten&#231;&#227;o. </span></p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">O que &#233; a aten&#231;&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">Locke tem uma teoria simples e elegante da aten&#231;&#227;o. A aten&#231;&#227;o n&#227;o &#233; uma coisa, e tamb&#233;m n&#227;o &#233; uma faculdade: a aten&#231;&#227;o &#233; um jeito de pensar. </p><p style="text-align: justify;">Essa teoria da aten&#231;&#227;o funciona para tudo. At&#233; para os exemplos acima. V<span>oc&#234; pode pensar que um tri&#226;ngulo tem tr&#234;s lados seja </span><em><span>atentamente</span></em><span>, seja </span><em><span>desatentamente</span></em><span>. O pensamento &#233; o mesmo, mas o jeito de pensar muda. Por isso, essa &#233; uma teoria da aten&#231;&#227;o como um modo de pensar. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Locke lista v&#225;rios modos de pensar. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para Locke, prestar aten&#231;&#227;o &#233; um modo de pensar. H&#225; outros modos de pensar. Sentir, por exemplo, &#233; receber ideias pelos sentidos; rememorar &#233; ter em mente a mesma ideia ap&#243;s ter sido recebida pelos sentidos; recordar &#233;, ap&#243;s esfor&#231;o, trazer de volta &#224; mente a ideia que antes veio pelos sentidos. O pensar atentamente, por sua vez, se d&#225; quando uma ideia que jorra no fluxo de pensamentos &#233; (1) notada e (2) registrada na mem&#243;ria. </span></p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">A teoria da aten&#231;&#227;o de Locke est&#225; em alta. Uma das maneiras mais populares de apresent&#225;-la &#233; atrav&#233;s da met&#225;fora do <em>un&#237;ssono cognitivo</em>. </p><p style="text-align: justify;"><span>Eis um exemplo. Digamos que, no seu fluxo de pensamentos, apare&#231;a o seguinte:</span></p><p style="text-align: center;"><span>12 13 14</span></p><p style="text-align: center;"><span>A  13  C</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Talvez voc&#234; n&#227;o note nada, mas digamos que voc&#234; note que o segundo &#8220;13&#8221; esteja operando como se fosse um &#8220;B&#8221;, e registre isso na sua mem&#243;ria. Se esses dois processos se derem, voc&#234; pensou atentamente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Aplicando a met&#225;fora ao exemplo, o segundo &#8220;13&#8221; tem o mesmo &#8220;som&#8221; do primeiro, est&#225; em harmonia com o primeiro; mas isso n&#227;o &#233; tudo, pois h&#225; &#8220;un&#237;ssono&#8221; entre a s&#233;rie &#8220;12 13 14&#8221; e a s&#233;rie &#8220;A B C&#8221;, e tamb&#233;m h&#225; &#8220;un&#237;ssono&#8221; entre as formas dos dois &#8220;13&#8221;, ainda que cada um tenha um papel cognitivo diferente.</span></p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">Sobre a filosofia da aten&#231;&#227;o, recomendo ler a entrada &#8220;<a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fplato.stanford.edu%2Fentries%2Fattention%2F">Attention</a>&#8221; da Stanford Encyclopedia of Philosophy. </p><p style="text-align: justify;"><span>Sobre a abordagem da aten&#231;&#227;o em Descartes, leia&nbsp;</span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fojs.ifch.unicamp.br%2Findex.php%2Fmodernoscontemporaneos%2Farticle%2Fview%2F3256">Lia Levy</a><span>.</span> </p><p style="text-align: justify;">Locke desenvolve a teoria dos modos de pensar no <em>Ensaio</em>, Livro 2, Cap&#237;tulo 19, &#167; 1. Ali&#225;s, <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.emartinsfontes.com.br%2Ffilosofia%2Fensaio-sobre-o-entendimento-humano-12891">a Martins Fontes publicou a tradu&#231;&#227;o de Paulo Pimenta do </a><em><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.emartinsfontes.com.br%2Ffilosofia%2Fensaio-sobre-o-entendimento-humano-12891">Ensaio sobre o Entendimento Humano</a></em>. </p><p style="text-align: justify;">Sobre a met&#225;fora do un&#237;ssono cognitivo, ver o livro <em><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1093%2Facprof%3Aoso%2F9780195384529.001.0001">Attention is Cognitive Unison</a></em>, de Christopher Mole. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ontologia]]></title><description><![CDATA[Os mapas do real]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/ontologia</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/ontologia</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Fri, 14 Aug 2026 13:18:39 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21iSiK%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ffa6575a1-372a-4f72-8f9f-1bdbee271143_1482x969.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21iSiK%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ffa6575a1-372a-4f72-8f9f-1bdbee271143_1482x969.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" 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H&#225; v&#225;rias ontologias, cada uma descrevendo e explicando o que existe. A ontologia da f&#237;sica descreve for&#231;as fundamentais da natureza; a ontologia da qu&#237;mica, a mat&#233;ria; a ontologia do direito descreve contratos que vinculam certos atos a certas prerrogativas e certas puni&#231;&#245;es. Em cada uma dessas ontologias h&#225; um conjunto de coisas b&#225;sicas que se relacionam de certas maneiras. De modo que uma ontologia &#233; algo como uma teoria, usualmente t&#225;cita, sobre o que existe e como o mundo &#233;. Essa teoria pode abranger a realidade como um todo, como vemos em grandes filosofias, tais como as de Plat&#227;o e Spinoza, ou apenas regi&#245;es da realidade, como vemos nas ci&#234;ncias modernas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Assim, uma ontologia n&#227;o &#233; a pr&#243;pria realidade, mas sim uma representa&#231;&#227;o da realidade. Tais representa&#231;&#245;es ontol&#243;gicas costumam ser </span><em><span>t&#225;citas</span></em><span>. N&#227;o costumamos levar no bolso uma lista com as coisas que existem, mas nossos compromissos ontol&#243;gicos se manifestam no que damos de barato. Quem procura o culpado por um acidente j&#225; sup&#245;e que h&#225; </span><em><span>agentes</span></em><span> e </span><em><span>responsabilidades</span></em><span>; quem procura a causa do acidente j&#225; sup&#245;e que h&#225; </span><em><span>causas</span></em><span>. Essas duas suposi&#231;&#245;es ontol&#243;gicas costumam operar implicitamente. Por isso mesmo, um dos trabalhos do ont&#243;logo &#233; explicit&#225;-las.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ontologias s&#227;o </span><em><span>representa&#231;&#245;es</span></em><span>. Uma ontologia &#233; feita da mesma mat&#233;ria de que s&#227;o feitos os mapas e as teorias, e n&#227;o daquilo de que s&#227;o feitas as coisas mapeadas ou teorizadas. Ali&#225;s, por serem representa&#231;&#245;es, com algum trabalho, ontologias s&#227;o interpret&#225;veis por m&#225;quinas. Por isso, para organizar as coisas, se criou uma norma t&#233;cnica internacional, a ISO/IEC 21838, a qual estabelece padr&#245;es para a explicita&#231;&#227;o de ontologias. Uma das exig&#234;ncias &#233; que a ontologia seja escrita em linguagem interpret&#225;vel por m&#225;quinas. Assim, mesmo que um computador nada saiba sobre o mundo, ele pode nos ajudar a pensar sobre o mundo ao processar uma ontologia, a qual &#233; uma representa&#231;&#227;o do mundo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As ontologias &#8211; as representa&#231;&#245;es do mundo &#8211; s&#227;o muitas, mas o mundo &#233; um s&#243;. E assim, &#233; de se esperar que haja ontologias conflitantes. Duas pessoas com ontologias conflitantes partilham o mesmo mundo, mas discordam sobre como o mundo &#233;. Um dos trabalhos do ont&#243;logo &#233;, justamente, descrever essa discord&#226;ncia. Ter ontologias conflitantes &#233; dar a diferentes coisas o status de existente, pois cada ontologia &#233; um mapa da realidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ontologias podem ser atribu&#237;das e avaliadas. </span><em><span>Atribuir </span></em><span>uma ontologia &#233; elencar o que tem que existir para que as opini&#245;es de algu&#233;m sejam verdadeiras. Por exemplo, se atribui ao fil&#243;sofo Thomas Hobbes uma ontologia materialista, na qual s&#243; h&#225; corpos, e inclusive a mente &#233; material; e se atribui ao fil&#243;sofo George Berkeley uma ontologia imaterialista, na qual s&#243; h&#225; pensadores e pensamentos, mas n&#227;o h&#225; corpos. De modo que, para Hobbes, a afirma&#231;&#227;o &#8220;H&#225; corpos&#8221; &#233; verdadeira; mas, para Berkeley, essa afirma&#231;&#227;o &#233; falsa.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Avaliar </span></em><span>uma ontologia &#233; julgar o valor, para certa finalidade, de certa vis&#227;o sobre o que faz parte do real. Note que uma ontologia pode ser adequada para certa finalidade mas inadequada para outra finalidade. Para calcular, &#233; &#250;til considerar que os n&#250;meros existem. Do contr&#225;rio, o que faria com que 2+2=4 fosse verdadeiro? Mas, ao considerar o mundo f&#237;sico, isso n&#227;o &#233; central, pois os n&#250;meros n&#227;o est&#227;o em lugar nenhum e n&#227;o s&#227;o feitos de nada f&#237;sico &#8211; mas &#233; instrumental, pois a f&#237;sica moderna se apoia em c&#225;lculos. Assim, n&#227;o raro se avalia uma ontologia pragmaticamente, pelo que ela nos permite fazer. Do ponto de vista da ontologia social, contratos existem, pois permitem recompensas e san&#231;&#245;es; do ponto de vista f&#237;sico, n&#227;o h&#225; for&#231;a contratual, mas h&#225; for&#231;as f&#237;sicas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Note que n&#227;o segue, de uma ontologia, que algo exista. O que segue de uma ontologia &#233; um </span><em><span>compromisso</span></em><span> com a exist&#234;ncia de algo. Se isso existe, ou n&#227;o, &#233; outra coisa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As avalia&#231;&#245;es de ontologias podem come&#231;ar de maneira bastante simples, considerando apenas sua adequa&#231;&#227;o, economia,  e consist&#234;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Adequa&#231;&#227;o.</span></em><span> A ontologia d&#225; conta do que precisa existir para que as cren&#231;as de quem a adota sejam verdadeiras? Por exemplo, a ontologia do te&#237;sta tem que incluir Deus entre os existentes.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Economia. </span></em><span>A ontologia admite mais do que precisa admitir? Por exemplo, a ontologia do ateu estaria inflada se inclu&#237;sse Deus entre os existentes.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Consist&#234;ncia. </span></em><span>As coisas que a ontologia admite convivem sem contradi&#231;&#227;o? Por exemplo, McTaggart entende que o tempo n&#227;o existe pois, se existisse, a realidade seria contradit&#243;ria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Avaliar n&#227;o pressup&#245;e atribuir, pois podemos avaliar ontologias meramente poss&#237;veis que n&#227;o s&#227;o aceitas por ningu&#233;m. E, no final das contas, atribuir &#233; o trabalho mais dif&#237;cil, pois ontologias costumam ser t&#225;citas, e nem sempre temos claro para n&#243;s mesmos o que precisa existir para que nossas opini&#245;es sejam verdadeiras. A dificuldade s&#243; aumenta quando estamos atribuindo ontologias a outros. </span></p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">Vale a pena conferir: </p><p style="text-align: justify;"><span>Woodward, James. 2015. &#8220;Methodology, Ontology, and Interventionism.&#8221; </span><em><span>Synthese</span></em><span> 192 (11): 3577&#8211;99.</span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1007%2Fs11229-014-0479-1"><span> https://doi.org/10.1007/s11229-014-0479-1</span></a><span>. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>International Organization for Standardization. 2021. </span><em><span>Information Technology &#8212; Top-Level Ontologies (TLO) &#8212; Part 1: Requirements</span></em><span>. International Standard ISO/IEC 21838-1:2021. Version Edition 1. Geneva, Published August 6.</span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.iso.org%2Fstandard%2F71954.html"><span> https://www.iso.org/standard/71954.html</span></a><span>. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>International Organization for Standardization. 2021. </span><em><span>Information Technology &#8212; Top-Level Ontologies (TLO) &#8212; Part 2: Basic Formal Ontology (BFO)</span></em><span>. International Standard ISO/IEC 21838-2:2021. Version Edition 1. Geneva, Published November 30.</span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.iso.org%2Fstandard%2F74572.html"><span> https://www.iso.org/standard/74572.html</span></a><span>. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Pickavance, Timothy H., &amp; Robert C. Koons. 2017. </span><em><span>The Atlas of Reality: A Comprehensive Guide to Metaphysics</span></em><span>. Wiley.</span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1002%2F9781119116257"><span> https://doi.org/10.1002/9781119116257</span></a><span>. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Bricker, Phillip. 2014. &#8220;Ontological Commitment.&#8221; </span><em><span>Stanford Encyclopedia of Philosophy</span></em><span>.</span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fplato.stanford.edu%2Fentries%2Fontological-commitment%2F"><span> https://plato.stanford.edu/entries/ontological-commitment/</span></a><span>. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>McTaggart, John. 2014. &#8220;A Irrealidade do Tempo.&#8221; Trad. Cesar Schirmer. </span><em><span>Kriterion</span></em><span> 55 (130): 747&#8211;64.</span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1590%2FS0100-512X2014000200017"><span> https://doi.org/10.1590/S0100-512X2014000200017</span></a><span>. </span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tempo: Fenomenologia e Ontologia]]></title><description><![CDATA[A experi&#234;ncia e a exist&#234;ncia do tempo]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/tempo-fenomenologia-e-ontologia</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/tempo-fenomenologia-e-ontologia</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Thu, 13 Aug 2026 12:08:51 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21xo33%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fb57bc688-0187-4d72-a4eb-53db9ab2df2a_1280x998.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21xo33%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fb57bc688-0187-4d72-a4eb-53db9ab2df2a_1280x998.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xo33!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb57bc688-0187-4d72-a4eb-53db9ab2df2a_1280x998.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xo33!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb57bc688-0187-4d72-a4eb-53db9ab2df2a_1280x998.png 848w, 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O tempo tal como ele se manifesta para n&#243;s, em virtude do organismo que somos, do grau de desenvolvimento cognitivo que possu&#237;mos, do que ingerimos, de como dormimos etc. Enfim, o assunto &#233; a consci&#234;ncia do tempo, a qual pode n&#227;o ser o melhor guia para se decifrar a natureza do tempo. E, assim, o assunto da fenomenologia do tempo &#233; o tempo mental ou subjetivo, o qual pode diferir do tempo real ou objetivo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A pergunta b&#225;sica da fenomenologia temporal &#233;: como &#233; estar no tempo? Como &#233; a experi&#234;ncia temporal para quem tomou alucin&#243;genos? Como &#233; estar no tempo para quem dormiu muito pouco, ou para uma crian&#231;a pequena? Como &#233; estar no tempo para algu&#233;m que acaba de sofrer um grave acidente de moto?</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Ontologia do tempo.</span></em><span> O tempo existe? Qual sua natureza?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A investiga&#231;&#227;o sobre a ontologia do tempo diz respeito &#224; exist&#234;ncia e natureza do tempo objetivo. Quest&#245;es centrais:</span></p><ul><li><p style="text-align: justify;"><span>O que &#233; o tempo?</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>O tempo existe?</span></p></li></ul><p style="text-align: justify;"><span>Subtraindo a consci&#234;ncia do tempo, uma quest&#227;o central da ontologia do tempo &#233; o que sobra do tempo quando se pensa sobre o tempo sem levar em conta a experi&#234;ncia do tempo a partir deste ou daquele quando, deste ou daquele estado de consci&#234;ncia etc. </span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[E se não houver um mundo lá fora? O idealismo de Berkeley]]></title><description><![CDATA[Leia sozinho com seus pensamentos]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/e-se-nao-houver-um-mundo-la-fora</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/e-se-nao-houver-um-mundo-la-fora</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Tue, 11 Aug 2026 12:44:57 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Pegue uma cereja. Ela &#233; vermelha, &#233; macia, &#233; doce, &#233; leve. Agora tire, uma por uma, todas essas qualidades. Tire o vermelho. Tire a maciez. Tire o doce, o peso.</span></p><p><span>O que sobrou?</span></p><p><span>Berkeley responde: nada, pois a cereja &#233; o conjunto de qualidades </span><em><span>percebidas</span></em><span>. </span><em><span>Esse est percipi</span></em><span>; ser &#233; ser percebido.</span></p><p><span>N&#227;o h&#225; algo &#8211; uma cereja? um o qu&#234;? &#8211; por baixo das qualidades da cereja. Tirar as qualidades da cereja n&#227;o &#233; tirar a roupa da cereja. &#201; tirar a cereja.</span></p><p><span>E tem mais. Vermelho, maciez, do&#231;ura, leveza: tudo isso s&#227;o qualidades percebidas.</span></p><p><span>O que &#233; uma qualidade?</span></p><p><span>Uma qualidade &#233; algo pensado &#8211; n&#227;o &#233; algo &#8220;real&#8221; no sentido de existente no mundo l&#225; fora. Uma qualidade &#233; uma ideia, um pensamento.</span></p><p><span>Assim, se a cereja &#233; o conjunto de ideias, ent&#227;o a cereja est&#225; onde as ideias est&#227;o: na mente. E o que vale para a cereja vale para a mesa, para a cadeira, para a Lua, para o Sol, para o p&#233; da montanha que ningu&#233;m escalou. Nada existe fora da mente.</span></p><p><span>Isso &#233; estranho. Uma coisa &#233; dizer que n&#227;o h&#225; algo por detr&#225;s das qualidades percebidas.</span></p><p><span>Pessoa: &#8220;Tudo se resume ao que &#233; percebido?&#8221;</span></p><p><span>Fil&#243;sofo: &#8220;Sim.&#8221;</span></p><p><span>Pessoa: &#8220;Ok.&#8221;</span></p><p><span>Outra coisa &#233; dizer que a percep&#231;&#227;o de x &#233;&#8230; x.</span></p><p><span>Pessoa: &#8220;Quer dizer que se ningu&#233;m percebeu, percebe, ou perceber&#225;, ou pode perceber, ent&#227;o n&#227;o existe?&#8221;</span></p><p><span>Fil&#243;sofo: &#8220;Sim.&#8221;</span></p><p><span>Por que um fil&#243;sofo defenderia isso?</span></p><p><span>Bem, porque se uma coisa se resume ao percebido, ela se resume ao percebido. Simples assim.</span></p><p><span>Pessoa: &#8220;Mas ent&#227;o o fundo do oceano depende de algu&#233;m percebendo para existir?&#8221;</span></p><p><span>Fil&#243;sofo: &#8220;Sim.&#8221;</span></p><p><span>Pessoa: &#8220;Fico feliz em saber que h&#225; peixes por l&#225; para sentir o gosto daquelas &#225;guas profundas.&#8221;</span></p><blockquote><p><span>Termos t&#233;cnicos:</span></p><p><em><span>realismo</span></em><span>: cren&#231;a de que as coisas t&#234;m ou podem ter caracter&#237;sticas n&#227;o percebidas.</span></p><p><em><span>idealismo</span></em><span>: cren&#231;a de que as coisas s&#243; existem se s&#227;o percebidas.</span></p></blockquote><p><span>Os realistas discordam. Para eles, h&#225; qualidades pensadas e h&#225; qualidades reais.</span></p><blockquote><p><span>Termos t&#233;cnicos:</span></p><p><em><span>qualidades prim&#225;rias</span></em><span>: caracter&#237;sticas que as coisas t&#234;m, ainda que n&#227;o sejam percebidas.</span></p><p><em><span>qualidades secund&#225;rias</span></em><span>: caracter&#237;sticas percebidas.</span></p></blockquote><p><span>O realista acha que, se as coisas s&#243; tivessem qualidades percebidas, nunca se descobriria nada, e a investiga&#231;&#227;o cient&#237;fica seria in&#250;til. O idealista responde que a ci&#234;ncia &#233; o trabalho de perceber melhor as coisas. O que esse trabalho gera? Mais e melhores caracter&#237;sticas </span><em><span>percebidas</span></em><span>.</span></p><p><span>O realista se irrita. Se voc&#234; coloca a m&#227;o primeiro num balde de &#225;gua quente e depois num balde de &#225;gua morna, a &#225;gua morna parece fria; mas, se voc&#234; coloca a m&#227;o primeiro num balde de &#225;gua fria e depois num balde de &#225;gua morna, a &#225;gua morna parece quente. Como pode? A explica&#231;&#227;o realista &#233; que a &#225;gua tem uma certa temperatura, a qual &#233; uma qualidade prim&#225;ria que n&#227;o se confunde com nossas sensa&#231;&#245;es. O idealista, bocejando, responde que a no&#231;&#227;o de temperatura &#233; uma ideia. Logo, n&#227;o &#233; algo que existe independentemente do pensamento.</span></p><blockquote><p><span>Termos t&#233;cnicos:</span></p><p><em><span>v&#233;u de ideias</span></em><span>: maneira dram&#225;tica dos realistas reclamarem da &#234;nfase em qualidades secund&#225;rias.</span></p><p><em><span>realismo direto</span></em><span>: cren&#231;a de que h&#225; pensamentos, mas eles s&#227;o inertes, pois a mente se relaciona diretamente com o mundo l&#225; fora.</span></p><p><em><span>realismo representativo</span></em><span>: cren&#231;a de que as coisas t&#234;m ou podem ter caracter&#237;sticas n&#227;o percebidas mas, ainda assim, as pensamos assim ou assado.</span></p><p><em><span>representa&#231;&#227;o</span></em><span>: rela&#231;&#227;o na qual uma coisa est&#225; por outra coisa.</span></p></blockquote><p><span>O idealista tem resposta para tudo. Ainda assim, d&#225; para defender que as coisas t&#234;m caracter&#237;sticas pr&#243;prias e independentes do pensamento, as </span><em><span>qualidades prim&#225;rias</span></em><span>, e que as sentimos assim ou assado, sendo nossas sensa&#231;&#245;es as </span><em><span>qualidades secund&#225;rias</span></em><span>, sendo que as qualidades secund&#225;rias representam as qualidades prim&#225;rias. Este &#233; o realismo representativo. Nesta proposta, as ideias n&#227;o s&#227;o um v&#233;u, mas sim uma janela para o mundo.</span></p><p><span>Note que representar n&#227;o &#233; ser parecido. N&#227;o h&#225; semelhan&#231;a entre os c&#227;es e a palavra &#8220;perro&#8221;. E n&#227;o h&#225; semelhan&#231;a entre o eleitor e o deputado, ainda que o segundo represente o primeiro. Basta estar por outra coisa para representar, e a mente &#233; boa em usar uma coisa em lugar de outra.</span></p><p><span>O mundo, para Berkeley, &#233; feito da mesma mat&#233;ria que os sonhos, mat&#233;ria essa que n&#227;o &#233; mat&#233;ria. Se eu sonho com um duende, o duende existe?</span></p><p><span>N&#227;o, pois ainda que baste ser percebido para existir, n&#227;o basta ser percebido para existir. Ou melhor, esclarecendo a ambiguidade e eliminando a contradi&#231;&#227;o: sim, existir &#224; maneira dos sonhos &#233; existir, mas &#233; diferente de existir &#224; maneira da rocha dura. H&#225; v&#225;rios modos de existir. No modo de existir das pedras, os acontecimentos se repetem de maneira ordenada e regular. No modo de existir dos sonhos, as coisas podem ser surpreendentes. Al&#233;m disso, ainda que n&#227;o seja f&#225;cil escolher o que sonhar, podemos escolher imaginar isso ou aquilo, mas n&#227;o podemos escolher o que sentir quando estamos falando do que existe ao estilo dos minerais.</span></p><p><span>Aqui, &#233; claro, &#233; a hora na qual o realista pergunta, bocejando:</span></p><p><span>&#8220;Essa diferen&#231;a n&#227;o se explica exatamente porque h&#225; algo l&#225; fora?&#8221;</span></p><p><span>De maneira mais ativa, Samuel Johnson chuta uma pedra para refutar o idealismo. O idealista, no entanto, se diverte com o pensamento sobre um escritor pensado que est&#225; pensando que chuta uma pedra pensada.</span></p><p><span>O idealista tamb&#233;m se diverte com voc&#234; tentando pensar em algo que n&#227;o foi pensado por ningu&#233;m e, atrav&#233;s deste mesmo exerc&#237;cio, pensando nesta coisa, a qual passa a ter sido pensada por algu&#233;m.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Lembrando The Doors]]></title><description><![CDATA[Rick Beato entrevista Robby Krieger e John Densmore]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/lembrando-the-doors</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/lembrando-the-doors</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Wed, 22 Jul 2026 19:56:58 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Fyoutube%2Fw_728%2Cc_limit%2FDt0Dssqs44Q" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div id="youtube2-Dt0Dssqs44Q" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;Dt0Dssqs44Q&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.youtube-nocookie.com%2Fembed%2FDt0Dssqs44Q%3Frel%3D0%26amp%3Bautoplay%3D0%26amp%3Bshowinfo%3D0%26amp%3Benablejsapi%3D0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p><span>As mem&#243;rias das pessoas s&#227;o estranhas. Robby Krieger e John Densmore, os m&#250;sicos ainda vivos da banda The Doors, foram ao </span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fyoutu.be%2FDt0Dssqs44Q"><span>programa do Rick Beato</span></a><span> para um papo sobre m&#250;sica.</span></p><p><span>O papo foi excelente. Para n&#243;s que ouvimos The Doors, a entrevista foi valios&#237;ssima. Mas quero falar sobre a mem&#243;ria.</span></p><div id="youtube2-qoX6AKuYWL8" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;qoX6AKuYWL8&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.youtube-nocookie.com%2Fembed%2FqoX6AKuYWL8%3Frel%3D0%26amp%3Bautoplay%3D0%26amp%3Bshowinfo%3D0%26amp%3Benablejsapi%3D0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p><span>Beato pergunta como eles bolaram &#8220;Light My Fire&#8221;. O baterista John Densmore lembra de um jeito, o guitarrista Robby Krieger lembra de outro.</span></p><blockquote><p><span>&#8220;No, that is not true, John&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Well, that is my remembrance&#8221;</span></p><p><span>&#8220;That&#8217;s cuz you saw the movie&#8221;</span></p></blockquote><p><strong><span>Monitoramento da fonte (</span></strong><em><strong><span>source monitoring</span></strong></em><strong><span>). </span></strong><span>Densmore e Beato caem na risada. Qual a </span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fpsycnet.apa.org%2Fdoi%2F10.1037%2F0033-2909.114.1.3"><span>fonte da informa&#231;&#227;o</span></a><span>? Os dois estavam l&#225;, mas j&#225; n&#227;o concordam. Pode ter sido o que aconteceu. Pode ter sido o filme sobre eles.</span></p><div id="youtube2-BuDzkzNSw40" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;BuDzkzNSw40&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.youtube-nocookie.com%2Fembed%2FBuDzkzNSw40%3Frel%3D0%26amp%3Bautoplay%3D0%26amp%3Bshowinfo%3D0%26amp%3Benablejsapi%3D0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p><span>Uma lembran&#231;a vem com um r&#243;tulo de origem, mas nem sempre o r&#243;tulo &#233; fiel. Se a imagem parece v&#237;vida, &#233; porque veio do mundo, n&#227;o dos sonhos. Ou, ao menos, assim costuma ser. Mas, bem, um filme &#233; algo do mundo dos sonhos.</span></p><p><strong><span>Efeito de (des)informa&#231;&#227;o ((</span></strong><em><strong><span>mis</span></strong></em><strong><span>)</span></strong><em><strong><span>information effect</span></strong></em><strong><span>). </span></strong><span>Pense em como seria a tua vida se fizessem um biopic sobre ti. As pessoas tomam esse tipo de obra por um document&#225;rio. O tempo todo, tu terias que aturar gente &#8220;culta e bem-informada&#8221; corrigindo, toda sol&#237;cita, os teus relatos sobre o teu pr&#243;prio passado. E talvez, l&#225; pelas tantas, </span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fpsycnet.apa.org%2Fdoi%2F10.1037%2F0278-7393.4.1.19"><span>voc&#234; terminaria por acreditar que elas est&#227;o certas</span></a><span>. </span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fmitpress.mit.edu%2F9780262551151%2Fmental-time-travel%2F"><span>Se elas estiverem certas</span></a><span>, ok.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Defina, Teste, Avalie]]></title><description><![CDATA[Um guia pr&#225;tico para a clareza conceitual]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/defina-teste-avalie</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/defina-teste-avalie</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Jul 2026 08:20:23 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3><span>1. Defina seus Termos</span></h3><p><span>&#8594; Por &#8220;bl&#225;&#8221;, entendo&#8230;</span></p><p><span>Tenha em mente a </span><em><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fa-maldicao-do-conhecimento"><span>maldi&#231;&#227;o do conhecimento</span></a></em><span>: automaticamente, supomos que os outros sabem o que sabemos. Mas isso raramente acontece.</span></p><h3><span>2. Crie Experimentos Mentais</span></h3><p><span>Imagine </span><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fcriando-experimentos-mentais"><span>uma situa&#231;&#227;o que estresse um certo conceito</span></a><span>. &#8220;As segundas-feiras s&#227;o universalmente odiadas. No entanto, e se os empregos fossem gamificados a ponto do trabalho se tornar t&#227;o absorvente quanto tetris?&#8221; Ou apresente um caso real que fa&#231;a o mesmo. &#8220;Nem tudo o que vive debaixo d&#8217;&#225;gua &#233; peixe. As baleias &#8230;.&#8221; Este &#233; o </span><em><span>m&#233;todo dos casos</span></em><span>.</span></p><h3><span>3. Entenda o Significado</span></h3><p><span>Palavras t&#234;m </span><em><span>extens&#227;o </span></em><span>(aquilo que elas designam) e </span><em><span>intens&#227;o </span></em><span>(a regra para considerar se algo est&#225; na extens&#227;o; a defini&#231;&#227;o do dicion&#225;rio).</span></p><p><span>Palavras t&#234;m </span><em><span>denota&#231;&#227;o </span></em><span>(extens&#227;o) e </span><em><span>conota&#231;&#227;o </span></em><span>(associa&#231;&#245;es nas mentes dos ouvintes).</span></p><p><span>Tenha em mente que o </span><em><span>significado do falante</span></em><span> (significado pragm&#225;tico) pode diferir do </span><em><span>significado do dicion&#225;rio</span></em><span> (intens&#227;o; significado sem&#226;ntico).</span></p><h3><span>4. Separe o Pensar do Asserir</span></h3><p><span>Pensar &#233; ter em mente a possibilidade. Asserir &#233; tomar por verdadeiro. D&#225; para pensar sobre o que tomamos por falso: &#8220;Suponha que estamos, hoje, no dia de ontem. &#8230;&#8221;</span></p><h3><span>5. Descreva e Explique</span></h3><p><span>Descreva: &#8220;X &#233; assim e assado.&#8221;</span></p><p><span>Explique: &#8220;X acontece por causa de Y.&#8221;</span></p><h3><span>6. Avalie Ideias pelas suas Virtudes</span></h3><ul><li><p><span>O ajuste &#224; realidade (correspond&#234;ncia; asser&#231;&#227;o).</span></p></li><li><p><span>O ajuste aos outros pensamentos (coer&#234;ncia).</span></p></li><li><p><span>O dizer o m&#225;ximo com o m&#237;nimo (navalha de Ockham).</span></p></li><li><p><span>A resist&#234;ncia a testes de stress (durabilidade e fertilidade tecnol&#243;gica; experimentos mentais).</span></p></li></ul><h3><span>Algumas Leituras Indicadas</span></h3><ul><li><p><span>Geach, &#8220;Assertion&#8221;</span></p></li><li><p><span>Grice, &#8220;L&#243;gica e conversa&#231;&#227;o&#8221;</span></p></li><li><p><span>Keas, &#8220;Systematizing the Theoretical Virtues&#8221;</span></p></li><li><p><span>Peirce, &#8220;A &#201;tica da Terminologia&#8221;</span></p></li></ul>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Filosofia da Psicologia]]></title><description><![CDATA[Como estudos emp&#237;ricos sobre mem&#243;ria, decis&#227;o moral e compreens&#227;o das outras mentes transformam quest&#245;es filos&#243;ficas cl&#225;ssicas]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/filosofia-da-psicologia</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/filosofia-da-psicologia</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Wed, 15 Jul 2026 13:46:32 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21mZMc%21%2Cw_256%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando lembramos de uma conversa, ensaiamos mentalmente uma situa&#231;&#227;o dif&#237;cil ou tentamos entender as inten&#231;&#245;es de algu&#233;m, parecemos exercer capacidades muito diferentes. Mas a pesquisa psicol&#243;gica sugere que as fronteiras entre mem&#243;ria, imagina&#231;&#227;o, decis&#227;o moral e compreens&#227;o das outras mentes podem ser menos n&#237;tidas do que supomos. E, quando essas fronteiras mudam, mudam tamb&#233;m algumas das perguntas filos&#243;ficas que fazemos sobre n&#243;s mesmos.</p><p>&#201; a&#237; que entra a filosofia da psicologia. Ela investiga os conceitos, os m&#233;todos e os resultados das ci&#234;ncias cognitivas e comportamentais, perguntando o que eles nos autorizam a concluir sobre a mente e a vida humana. N&#227;o se trata de acrescentar meros detalhes emp&#237;ricos a problemas filos&#243;ficos j&#225; prontos: estudos sobre desenvolvimento infantil, vieses de racioc&#237;nio, comportamento moral e mem&#243;ria podem mudar a pr&#243;pria forma desses problemas.</p><p>Este texto apresenta essa &#225;rea de pesquisa e algumas de suas vias principais. Primeiro, distingo a filosofia da psicologia da filosofia da mente; depois, examino como o di&#225;logo com a psicologia ilumina quest&#245;es sobre liberdade, empatia, moralidade e mem&#243;ria.</p><h2>1. Filosofia da Mente e Filosofia da Psicologia</h2><p>A filosofia da psicologia &#233; uma sub&#225;rea da filosofia da mente. Mas ambas se distinguem pelo objeto e pelo m&#233;todo.</p><p>A <em>filosofia da mente</em> &#233; a metaf&#237;sica da mente. Ela investiga a arquitetura ontol&#243;gica da realidade mental: a rela&#231;&#227;o mente-corpo, a causa&#231;&#227;o mental, a natureza da consci&#234;ncia. Trata-se de entender <em>o que &#233;</em> a mente.</p><p>A <em>filosofia da psicologia</em> &#233; a filosofia de uma ci&#234;ncia especial. Ela toma os m&#233;todos, as teorias e os pressupostos das ci&#234;ncias cognitivas e comportamentais como seu pr&#243;prio objeto de escrut&#237;nio. O foco est&#225; em quest&#245;es relacionadas a estudos emp&#237;ricos.</p><p>Em resumo:</p><ul><li><p>Filosofia da mente</p><ul><li><p>Foco: Metaf&#237;sica e ontologia da mente</p></li><li><p>Temas: Mente&#8211;corpo, causa&#231;&#227;o mental, consci&#234;ncia</p></li></ul></li><li><p>Filosofia da psicologia </p><ul><li><p>Foco: Interse&#231;&#227;o entre filosofia e ci&#234;ncias cognitivas e comportamentais </p></li><li><p>Temas: Racionalidade, autoconhecimento, liberdade, responsabilidade, ju&#237;zo moral, comportamento moral</p></li></ul></li></ul><h2>2. Vias de Pesquisa</h2><p>H&#225; duas maneiras de se fazer pesquisa em filosofia da psicologia: ir aos fundamentos ou explorar os resultados.</p><p><em>Ir aos fundamentos</em> &#233; abordar conceitos psicol&#243;gicos tais como representa&#231;&#227;o, mem&#243;ria e percep&#231;&#227;o. A filosofia da mem&#243;ria, por exemplo, investiga os fundamentos da psicologia da mem&#243;ria. Outro exemplo: na psiquiatria, a filosofia debate os fundamentos do &#8220;modelo m&#233;dico&#8221; das doen&#231;as mentais. Um modelo m&#233;dico estrito exige que as desordens mentais sejam compreendidas como processos patol&#243;gicos e disfun&#231;&#245;es essencialmente neurobiol&#243;gicas (Murphy 2025).</p><p><em>Explorar os resultados</em> &#233; extrair as consequ&#234;ncias filos&#243;ficas de estudos emp&#237;ricos: por exemplo, de estudos que mostram que o processamento da mem&#243;ria &#233; semelhante ao processamento da imagina&#231;&#227;o (exemplo desenvolvido na se&#231;&#227;o 4.1), ou que temos vieses de racioc&#237;nio.</p><h2>3. Alguns Temas</h2><h3>3.1 Racionalidade, Liberdade, e Responsabilidade</h3><p>Em vez de tratar a vontade livre apenas como um problema metaf&#237;sico, a filosofia da psicologia a investiga por meio da filosofia experimental e da psicologia normativa, analisando como seres humanos reais atribuem ag&#234;ncia e responsabilidade uns aos outros.</p><p>Dois resultados ilustram a via:</p><ul><li><p><strong>O Efeito Knobe</strong> (<em>side-effect effect</em>): a nossa disposi&#231;&#227;o para julgar se uma a&#231;&#227;o (e os seus efeitos colaterais) foi feita intencionalmente depende de o resultado ser percebido como moralmente bom ou moralmente ruim (Knobe 2003).</p></li><li><p><strong>Incompatibilistas naturais?</strong> Estudos emp&#237;ricos exploram se as pessoas comuns acreditam que o livre-arb&#237;trio &#233; incompat&#237;vel com o determinismo. Dependendo de como um cen&#225;rio &#233; descrito, de forma concreta e emocionalmente engajante ou de forma te&#243;rica e abstrata, as pessoas alternam entre julgamentos compatibilistas e incompatibilistas sobre a responsabilidade moral do agente (Sytsma et al. 2026).</p></li></ul><h3>3.2 Autoconhecimento e Empatia (<em>folk psychology</em>)</h3><p>A forma como entendemos as outras mentes e prevemos comportamentos &#233; o cerne do debate sobre a <em>folk psychology</em> (psicologia popular ou do senso comum). O fen&#244;meno tem uma dimens&#227;o relacionada ao desenvolvimento infantil: nos anos pr&#233;-escolares, a crian&#231;a desenvolve a capacidade de monitorar estados psicol&#243;gicos, os seus pr&#243;prios estados mentais e os estados mentais dos outros. Como isso se d&#225; &#233; objeto de disputa. As principais vis&#245;es s&#227;o a teoria-teoria (Gopnik &amp; Meltzoff 1997) e a teoria da simula&#231;&#227;o (Goldman 2006).</p><p><strong>Teoria-Teoria</strong> (<em>Theory-Theory</em>): a compreens&#227;o mental se baseia no uso impl&#237;cito de uma teoria psicol&#243;gica t&#225;cita, uma rede de leis do senso comum, atrav&#233;s da qual inferimos estados mentais ocultos, como cren&#231;as e desejos, para prever as a&#231;&#245;es. No plano desenvolvimental, as crian&#231;as constroem e refinam gradualmente uma teoria t&#225;cita sobre a natureza dos estados mentais. Pense na crian&#231;a como um jovem cientista desenvolvendo e testando hip&#243;teses sobre como a mente funciona. A compreens&#227;o da mente pela crian&#231;a seria constitu&#237;da por generaliza&#231;&#245;es aprimoradas ao longo do tempo (Ruffman 1996). O processo tem tr&#234;s etapas:</p><ul><li><p><em>Cria&#231;&#227;o de hip&#243;teses</em>: a crian&#231;a se prop&#245;e pressupostos te&#243;ricos sobre a natureza e o funcionamento dos estados mentais.</p></li><li><p><em>Busca de evid&#234;ncias</em>: a crian&#231;a testa suas hip&#243;teses a partir das intera&#231;&#245;es com os outros e da introspec&#231;&#227;o.</p></li><li><p><em>Revis&#227;o te&#243;rica</em>: ao encontrar contraevid&#234;ncia, a crian&#231;a revisa suas hip&#243;teses iniciais.</p></li></ul><p>Segundo a teoria-teoria, portanto, o desenvolvimento metacognitivo se d&#225; atrav&#233;s de um processo an&#225;logo &#224; constru&#231;&#227;o de uma teoria por um cientista.</p><p><strong>Teoria da Simula&#231;&#227;o</strong> (<em>Simulation Theory</em>): rejeita a necessidade dessa teoria estruturada. As crian&#231;as n&#227;o precisam construir teorias sobre os estados mentais. Elas precisam apenas ser capazes de fazer uso &#8220;offline&#8221; da sua capacidade de imaginar e pensar (Goldman 2006).</p><p>Pense na mente como tendo dois modos de opera&#231;&#227;o: online e offline. No modo online, voc&#234; est&#225; ativamente engajado com o mundo exterior, processando suas experi&#234;ncias correntes de modo a guiar eficientemente suas a&#231;&#245;es imediatas. &#201; como dirigir um carro ou andar de bicicleta. No modo offline, os mesmos mecanismos cognitivos operam num mundo simulado, desconectados dos sistemas do agir (Goldman 2006). Por exemplo: amanh&#227; voc&#234; vai pedir um aumento pro seu chefe. Para se preparar, voc&#234; planeja agora, na sua mente, cada detalhe da sua fala e do seu comportamento. Voc&#234; ensaia mentalmente o tom de voz e as respostas emocionais. Mas voc&#234; n&#227;o est&#225; falando nada. Nem observando ningu&#233;m. Seus sistemas cognitivos est&#227;o operando offline. &#201; assim que a simula&#231;&#227;o funciona.</p><p>Para Goldman (2006), a capacidade de simula&#231;&#227;o mental offline n&#227;o exige hip&#243;teses ou teorias: trata-se apenas de aprender a usar os mecanismos mentais dispon&#237;veis de um novo jeito, offline em vez de online. A teoria da simula&#231;&#227;o parece ter uma vantagem aqui, pois explica tanto a sofistica&#231;&#227;o quanto os limites da metacogni&#231;&#227;o infantil (Lopes 2014). As crian&#231;as s&#227;o capazes de simular estados mentais seus e dos outros, mas t&#234;m dificuldade em explicar o que elas est&#227;o fazendo. Voc&#234; pode ser capaz de andar de bicicleta sem ser capaz de explicar sua capacidade de andar de bicicleta; analogamente, voc&#234; pode aprender sobre a natureza da mente via simula&#231;&#227;o sem ser capaz de explicar o que aprende atrav&#233;s de simula&#231;&#227;o. A teoria da simula&#231;&#227;o tamb&#233;m traz rigor contempor&#226;neo a no&#231;&#245;es cl&#225;ssicas de empatia, como as desenvolvidas por David Hume e Adam Smith.</p><p>&#201; poss&#237;vel que ambas as teorias estejam certas, mas sobre aspectos diferentes do desenvolvimento metacognitivo (Lopes 2014). Talvez a teoria da simula&#231;&#227;o explique melhor os aspectos mais imediatos, mais experienciais da metacogni&#231;&#227;o. A teoria-teoria, por sua vez, explicaria melhor o desenvolvimento da compreens&#227;o expl&#237;cita de conceitos que descrevem a mente.</p><p>O debate exemplifica a via dos fundamentos: a filosofia escrutina um conceito psicol&#243;gico (a leitura mental) em di&#225;logo direto com a psicologia do desenvolvimento. Ver o post <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fa-teoria-teoria-e-a-teoria-da-simulacao">A Teoria-Teoria e a Teoria da Simula&#231;&#227;o</a>.</p><h3>3.3 Ju&#237;zo e comportamento moral</h3><p>Aqui a via dos resultados impacta a &#233;tica contempor&#226;nea. Duas &#225;reas se destacam:</p><ul><li><p><strong>Situacionismo vs. car&#225;ter</strong>: a &#233;tica das virtudes prescreve que as pessoas desenvolvam tra&#231;os de car&#225;ter robustos que guiem as suas a&#231;&#245;es. Resultados cl&#225;ssicos da psicologia social indicam que essa prescri&#231;&#227;o &#233; bem-vinda. O experimento da obedi&#234;ncia de Milgram e o estudo do &#8220;Bom Samaritano&#8221; (estudantes de teologia apressados ignoravam uma pessoa passando mal) sugerem que o comportamento moral &#233; frequentemente ditado por fatores situacionais triviais: estar com pressa, encontrar uma moeda num telefone p&#250;blico, o cheiro do ambiente (Alfano et al. 2022).</p></li><li><p><strong>Raz&#227;o vs. emo&#231;&#227;o nos dilemas morais</strong>: estudos com resson&#226;ncia magn&#233;tica funcional (fMRI), conduzidos por pesquisadores como Joshua Greene, mostram que os nossos julgamentos em dilemas morais (como o &#8220;dilema do bonde&#8221;) ativam sistemas cognitivos diferentes. Julgamentos deontol&#243;gicos, como a recusa em empurrar um homem da ponte para salvar cinco, est&#227;o fortemente correlacionados com respostas emocionais autom&#225;ticas de avers&#227;o ao dano. Com base nisso, o programa negativo da filosofia experimental moral argumenta que devemos desconfiar das nossas intui&#231;&#245;es deontol&#243;gicas, porque elas derivam de processos emocionais e n&#227;o de racioc&#237;nios morais confi&#225;veis (Alfano et al. 2022).</p></li></ul><h2>4. Uma Fronteira Perme&#225;vel: O Caso da Mem&#243;ria</h2><p>A fronteira entre a metaf&#237;sica e a filosofia das ci&#234;ncias emp&#237;ricas &#233; produtivamente perme&#225;vel. O estudo filos&#243;fico da mem&#243;ria ilustra a din&#226;mica. Ele exige a reflex&#227;o metaf&#237;sica sobre a continuidade do eu, a identidade pessoal e a rela&#231;&#227;o causal com o passado (esfera da filosofia da mente). No entanto, essas reflex&#245;es s&#243; ganham contornos precisos quando interagem com a compreens&#227;o emp&#237;rica de como a reten&#231;&#227;o e a evoca&#231;&#227;o funcionam, em di&#225;logo com a neuroci&#234;ncia e a psiquiatria (esfera da filosofia da psicologia).</p><h3>4.1 Explorando os Resultados: A Hip&#243;tese da Autoproje&#231;&#227;o</h3><p>A mem&#243;ria, na vis&#227;o comum, &#233; uma estrada que nos leva ao passado. A vis&#227;o contempor&#226;nea n&#227;o conflita com a vis&#227;o comum, mas a torna mais complexa e surpreendente, pois mostra que a mem&#243;ria &#233; uma de muitas maneiras de se usar uma &#8220;estrada&#8221; cognitiva para se ir a &#8220;lugares&#8221; que n&#227;o s&#227;o dados, aqui e agora, aos sentidos. Praticamente a mesma &#8220;estrada&#8221; tamb&#233;m leva do presente ao que n&#227;o aconteceu, mas poderia ter acontecido (pensamento contrafactual); ao ponto de vista dos outros (teoria da mente); &#224; simula&#231;&#227;o do trajeto de um ponto espacial a outro (navega&#231;&#227;o); e &#224; imagina&#231;&#227;o do que pode vir a acontecer (prospec&#231;&#227;o).</p><p>A palavra-chave &#233; <em>autoproje&#231;&#227;o</em> (Buckner &amp; Carroll 2007): a capacidade de deslocar-se mentalmente para al&#233;m do presente imediato. Quando voc&#234; lembra do que fez ontem, est&#225; se autoprojetando para o passado. Quando imagina o que far&#225; amanh&#227;, est&#225; se autoprojetando para o futuro. Quando voc&#234; se autocensura, est&#225; se autoprojetando para o ponto de vista de quem tem a chance e o desejo de te fazer mal. Quando voc&#234; se arrepende, est&#225; se autoprojetando para um passado que poderia ter acontecido; mas, infelizmente, n&#227;o aconteceu.</p><p>Fazemos isso o tempo todo. Voc&#234; prospecta mentalmente a conversa dif&#237;cil de amanh&#227; com o chefe, visualizando as caras e gestos dele e planejando as suas. Voc&#234; revisita a DR de fim de ano e pensa que seria melhor n&#227;o ter usado <em>aquela</em> palavra <em>naquele</em> momento (contrafactual). Voc&#234; passa na padaria porque se coloca no lugar daquela crian&#231;a que ama comer uma cuca com lingui&#231;a contigo no final da tarde (teoria da mente). Voc&#234; olha uma foto antiga e tenta refazer, na mente, o caminho do lugar at&#233; o riacho mais pr&#243;ximo (navega&#231;&#227;o mental).</p><p>A psicologia popular trata essas atividades como coisas separadas. E sim, s&#227;o atividades e poderes diferentes. No entanto, a pesquisa com neuroimagens mostra que, ao lembrar do passado pessoal, ao navegar mentalmente, ao se colocar no lugar do outro e ao imaginar o futuro, h&#225; regi&#245;es do c&#233;rebro que se ativam de maneiras semelhantes (Buckner &amp; Carroll 2007). Por que o mecanismo neural seria o mesmo? Especulativamente, a infer&#234;ncia da melhor explica&#231;&#227;o &#233; que em todos esses casos opera um mecanismo neurocognitivo comum de autoproje&#231;&#227;o para outros lugares, outros tempos e outros pontos de vista (ver tamb&#233;m Tulving 1985).</p><p>Duas met&#225;foras ajudam. Pense num canivete su&#237;&#231;o: corta, serra, aparafusa, amplia. As fun&#231;&#245;es s&#227;o diversas, mas o equipamento &#233; o mesmo. Pense num simulador de voo: pilotos aprendem a voar sem sair do lugar, com tempo bom, tempestade, neve, noite. O simulador &#233; um s&#243;, as simula&#231;&#245;es s&#227;o v&#225;rias.</p><p>Se a hip&#243;tese estiver correta, dever&#237;amos repensar o que a mem&#243;ria &#233;, pois lembrar se mostra mais como simular um passado ausente do que como buscar uma cerveja que foi cuidadosamente guardada na geladeira. Lembrar do seu anivers&#225;rio de dez anos &#233; se autoprojetar para o passado assim como se imaginar cercado de tataranetos no anivers&#225;rio de 150 anos &#233; se simular no futuro. O equipamento &#233; o mesmo, ainda que a dire&#231;&#227;o temporal seja outra. Importante: trata-se de um &#250;nico tipo de lembran&#231;a, a mem&#243;ria epis&#243;dica, a qual envolve o &#8220;reviver&#8221; mentalmente, com senso de passado familiar, algo antes experienciado (Tulving 1985; Michaelian 2016).</p><p>Tr&#234;s obje&#231;&#245;es, tr&#234;s respostas:</p><ul><li><p><em>A experi&#234;ncia de lembrar &#233; bem diferente da experi&#234;ncia de imaginar.</em> Verdade. Mas &#233; um erro supor que h&#225; um mecanismo distinto para cada coisa que podemos fazer. A m&#227;o que tricota &#233; a mesma que pesca, mas a experi&#234;ncia de tricotar &#233; bem diferente da experi&#234;ncia de pescar.</p></li><li><p><em>Se o mecanismo &#233; o mesmo, dever&#237;amos confundir o que lembramos com o que imaginamos.</em> E cometemos esses erros o tempo todo. N&#227;o compramos presentes que revelam nitidamente o que n&#243;s mesmos gostar&#237;amos de receber?</p></li><li><p><em>A hip&#243;tese reduz a mem&#243;ria &#224; imagina&#231;&#227;o.</em> E isso &#233; verdade. Mas nossas lembran&#231;as s&#227;o costuradas com os mesmos tecidos com os quais vestimos nossos sonhos.</p></li></ul><p>N&#227;o se trata de eliminar a psicologia popular. Nossas ideias comuns sobre o que &#233; lembrar s&#227;o &#243;timas para cooperarmos uns com os outros, mas n&#227;o s&#227;o guias simples e diretos para a investiga&#231;&#227;o das roldanas e manivelas que nos fazem ser como somos. Este &#233; o exemplo que a se&#231;&#227;o 2 menciona em abstrato, agora em concreto: um resultado emp&#237;rico (a similaridade neural entre lembrar e imaginar) do qual se extraem consequ&#234;ncias filos&#243;ficas. E quest&#245;es se abrem: se lembrar e se imaginar em outros tempos, lugares ou sapatos empregam mecanismos semelhantes, o que isso nos diz sobre a identidade pessoal? Se lembrar &#233; simular, que limites t&#234;m que ser dados &#224; simula&#231;&#227;o para que se trate de algo que reconhecer&#237;amos como lembran&#231;a (Bernecker 2016)?</p><p>Ver o post <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fautoprojecao-e-memoria">Autoproje&#231;&#227;o e Mem&#243;ria</a>.</p><h3>4.2 Da Natureza &#224; Cultura: Aprendemos a Lembrar</h3><p>Se a natureza nos d&#225; um simulador &#250;nico, de onde v&#234;m os r&#243;tulos que distinguem lembran&#231;a, sonho, fantasia e prospec&#231;&#227;o? Uma segunda pesquisa mostra as duas vias operando ao mesmo tempo. A tese central: aprendemos a lembrar. Aqui, &#8220;mem&#243;ria&#8221; significa &#8220;mem&#243;ria epis&#243;dica&#8221;, a experi&#234;ncia, com rica e v&#237;vida imageria mental, de epis&#243;dios do passado pessoal. H&#225; um rico corpo de pesquisa emp&#237;rica sobre o assunto, com destaque para as propostas de Johannes Mahr sobre como a imageria mental torna-se uma lembran&#231;a (Mahr 2024).</p><p>A ideia &#233; que aprendemos a lembrar, mas n&#227;o aprendemos a ver, no &#8220;cinema&#8221; instalado no interior das nossas mentes, v&#237;vidas e din&#226;micas imagens mentais, pois isso &#233; algo que simplesmente somos capazes de fazer, independentemente de aprendizado. Somos capazes de visualizar cenas de locais que j&#225; visitamos ou queremos visitar (navega&#231;&#227;o); cenas parcial ou completamente fantasiosas, incluindo sonhos (imagina&#231;&#227;o); cenas que se passariam nas mentes dos outros (<em>mindreading</em>, simula&#231;&#227;o: ver a se&#231;&#227;o 3.2); e cenas que pertencem ao passado pessoal (lembran&#231;a epis&#243;dica) (Hassabis &amp; Maguire 2007). Mas as cenas mentais v&#234;m sem r&#243;tulos. &#201; atrav&#233;s do aprendizado cultural que aprendemos a rotular as cenas mentais como mem&#243;rias, desejos futuros, sonhos, ou fantasias sobre passados alternativos. A natureza nos d&#225; algo que se assemelha &#224;s sensa&#231;&#245;es; a cultura nos d&#225; algo que se assemelha aos conceitos.</p><p>O aprendizado tem tr&#234;s dimens&#245;es:</p><ul><li><p><em>Sem&#226;ntico</em>: os outros nos passam restri&#231;&#245;es relacionadas ao uso de certas palavras. A palavra &#8220;mem&#243;ria&#8221; s&#243; deve ser usada para falar de cenas mentais ancoradas em experi&#234;ncias passadas. A palavra &#8220;imagina&#231;&#227;o&#8221; pode ser usada para falar de coisas que nem mesmo podem acontecer.</p></li><li><p><em>Epist&#234;mico</em>: a crian&#231;a aprende que a cena mental ligada a uma experi&#234;ncia anterior tem valor de testemunho, enquanto a cena mental oriunda do sonho n&#227;o tem o mesmo privil&#233;gio, ao menos enquanto informa&#231;&#227;o sobre o mundo exterior.</p></li><li><p><em>Metacognitivo</em>: a crian&#231;a aprende a associar o que se d&#225; quando uma cena est&#225; apropriadamente restrita pelas regras sociais do lembrar a um certo sentimento que ela tem quando vivencia estas cenas.</p></li></ul><p>Ou seja, a crian&#231;a aprende a usar crit&#233;rios exteriores, lexicais e epist&#234;micos, para diferenciar seus sentimentos interiores. O aprendizado se d&#225; em conversas com os cuidadores. A pequena Martina diz que viu um unic&#243;rnio no zool&#243;gico. A m&#227;e, docemente, diz que isso n&#227;o aconteceu. A palavra &#8220;mem&#243;ria&#8221; n&#227;o aparece nenhuma vez, mas a m&#227;e passa uma regra para relatos de experi&#234;ncias lembradas: s&#243; use verbos epist&#234;micos &#8220;de sucesso&#8221;, como ver, se de fato voc&#234; teve sucesso no ver o que foi relatado. A pequena Joana, em contraste, diz que ontem imaginou um unic&#243;rnio. Sua m&#227;e ri e pede para ela desenhar o bicho. N&#227;o h&#225; tutoria requerida: o verbo &#8220;imaginar&#8221; foi usado apropriadamente.</p><p>Cuidadores mais elaborativos enriquecem os elementos interiores da conversa sobre o passado (&#8221;O que voc&#234; acha que a Clarissa tava pensando?&#8221;), o que exige da crian&#231;a distinguir presente de passado, passado real de imaginado, passado percebido de inferido, a pr&#243;pria perspectiva da perspectiva do outro. A maneira como cada um lembra da sua mais antiga lembran&#231;a de inf&#226;ncia foi profundamente influenciada pelo modo como seus cuidadores lhe ensinaram a lembrar (Reese, Haden &amp; Fivush 1993). A tese ganha contornos mais claros se levamos em conta que a pr&#243;pria metacogni&#231;&#227;o tem origens culturais (Heyes et al. 2020).</p><p>O que torna a tese estranha &#224; primeira vista s&#227;o as met&#225;foras da mem&#243;ria que aceitamos meio que automaticamente (Roediger 1980): como se a mente inclu&#237;sse duas caixas, a Caixa da Mem&#243;ria e a Caixa da Imagina&#231;&#227;o, e as experi&#234;ncias fossem automaticamente para a caixa certa. Se assim fosse, n&#227;o precisar&#237;amos aprender a lembrar.</p><h3>4.3 Consequ&#234;ncias Filos&#243;ficas</h3><p>Eis algumas consequ&#234;ncias filos&#243;ficas da via dos resultados, a qual parte de uma tese empiricamente informada para chegar a teses filos&#243;ficas.</p><ul><li><p><em>Metaf&#237;sica</em>: se a opera&#231;&#227;o t&#237;pica dos mecanismos da lembran&#231;a depende do aprendizado cultural, &#233; complicado defender que a mem&#243;ria epis&#243;dica seja uma esp&#233;cie natural, contra a proposta de Cheng &amp; Werning (2016), segundo a qual a mem&#243;ria epis&#243;dica &#233; uma esp&#233;cie natural por ter propriedades &#250;nicas que se manifestam por causa dos mecanismos do hipocampo. Pois como poderia a mem&#243;ria ser uma esp&#233;cie natural e estar sujeita a varia&#231;&#245;es culturais que afetam a maneira como se ensina a distinguir lembran&#231;a de imagina&#231;&#227;o? Ainda assim, faz sentido defender que a simula&#231;&#227;o epis&#243;dica &#233; uma esp&#233;cie cognitiva (Khalidi 2023; Robins 2024), individuada pelas suas rela&#231;&#245;es causais t&#237;picas e n&#227;o pelas suas bases neurais. Sobre a no&#231;&#227;o causal de esp&#233;cie natural, ver Machery (2009).</p></li><li><p><em>Epistemologia</em>: se o lembrar tem origem no aprendizado cultural, as normas culturais para os relatos de mem&#243;ria s&#227;o relevantes. Uma dessas normas &#233; a condi&#231;&#227;o de consci&#234;ncia anterior: voc&#234; s&#243; pode lembrar do que experienciou (Openshaw 2023). Os simulacionistas discordam (Michaelian 2024), mas prop&#245;em uma teoria revisionista da mem&#243;ria, que nega a vis&#227;o do senso comum. Outra consequ&#234;ncia: a no&#231;&#227;o de falsa mem&#243;ria seria um oximoro, um c&#237;rculo-quadrado (Bernecker 2017).</p></li><li><p><em>Sem&#226;ntica</em>: um fil&#243;sofo que queira analisar o que as pessoas em geral entendem por &#8220;mem&#243;ria&#8221; (projeto t&#237;pico da metaf&#237;sica descritiva, no sentido de Strawson 1959) precisa levar em conta as normas culturais que se aplicam ao uso socialmente prescrito de termos como &#8220;mem&#243;ria&#8221; e &#8220;lembrar&#8221;.</p></li><li><p><em>Psicologia popular</em>: se aprendemos a lembrar, isso se d&#225; porque os outros nos ensinam a classificar nossos estados mentais segundo a psicologia popular. Mas, sendo assim, a psicologia popular &#233; uma profecia que se autorrealiza (McCarroll &amp; Andonovski 2025). Aqui o caso da mem&#243;ria reencontra o debate da se&#231;&#227;o 3.2.</p></li></ul><p>Ver o post <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Faprendemos-a-lembrar">Aprendemos a Lembrar</a>.</p><p>Em resumo, a filosofia da psicologia utiliza dados emp&#237;ricos para garantir que teorias filos&#243;ficas sejam n&#227;o apenas logicamente coerentes, mas tamb&#233;m psicologicamente acess&#237;veis e realistas para o caso dos seres humanos.</p><h2>5. O que ler</h2><p>A melhor introdu&#231;&#227;o &#233; <em>Philosophy of Psychology</em>, de Kengo Miyazono e Lisa Bortolotti (Polity, 2021). Caso queira algo mais forte, sugiro <em>Metaphysics and Cognitive Science</em>, editado por Alvin Goldman e Brian McLaughlin (Oxford UP, 2019).</p><h2>Refer&#234;ncias</h2><p>Alfano, Mark, Edouard Machery, Alexandra Plakias, and Don Loeb. 2022. &#8220;Experimental Moral Philosophy.&#8221; Stanford Encyclopedia of Philosophy, June 29. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fplato.stanford.edu%2Fentries%2Fexperimental-moral%2F">https://plato.stanford.edu/entries/experimental-moral/</a>.</p><p>Bernecker, Sven. 2016. &#8220;Autoconhecimento e os Limites da Autenticidade.&#8221; Traduzido por C&#233;sar Schirmer dos Santos. <em>Sk&#233;psis</em> 13: 105&#8211;125. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fphilpapers.org%2Farchive%2FBERAEO-13">https://philpapers.org/archive/BERAEO-13</a>.</p><p>Bernecker, Sven. 2017. &#8220;Memory and Truth.&#8221; In <em>The Routledge Handbook of Philosophy of Memory</em>, edited by Sven Bernecker and Kourken Michaelian. London: Routledge. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.taylorfrancis.com%2Fchapters%2Fedit%2F10.4324%2F9781315687315-5%2Fmemory-truth-sven-bernecker">https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781315687315-5/memory-truth-sven-bernecker</a>.</p><p>Buckner, Randy L., and Daniel C. Carroll. 2007. &#8220;Self-Projection and the Brain.&#8221; <em>Trends in Cognitive Sciences</em> 11 (2): 49&#8211;57. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1016%2Fj.tics.2006.11.004">https://doi.org/10.1016/j.tics.2006.11.004</a>.</p><p>Cheng, Sen, and Markus Werning. 2016. &#8220;What Is Episodic Memory If It Is a Natural Kind?&#8221; <em>Synthese</em> 193 (5): 1345&#8211;1385. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1007%2Fs11229-014-0628-6">https://doi.org/10.1007/s11229-014-0628-6</a>.</p><p>Goldman, Alvin I. 2006. <em>Simulating Minds: The Philosophy, Psychology, and Neuroscience of Mindreading</em>. Oxford: Oxford University Press. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Facademic.oup.com%2Fbook%2F7488">https://academic.oup.com/book/7488</a>.</p><p>Goldman, Alvin I., and Brian P. McLaughlin, eds. 2019. <em>Metaphysics and Cognitive Science</em>. Oxford University Press.</p><p>Gopnik, Alison, and Andrew N. Meltzoff. 1997. <em>Words, Thoughts, and Theories</em>. Cambridge, MA: MIT Press. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdirect.mit.edu%2Fbooks%2Fmonograph%2F4744%2FWords-Thoughts-and-Theories">https://direct.mit.edu/books/monograph/4744/Words-Thoughts-and-Theories</a>.</p><p>Hassabis, Demis, and Eleanor A. Maguire. 2007. &#8220;Deconstructing Episodic Memory with Construction.&#8221; <em>Trends in Cognitive Sciences</em> 11 (7): 299&#8211;306. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1016%2Fj.tics.2007.05.001">https://doi.org/10.1016/j.tics.2007.05.001</a>.</p><p>Heyes, Cecilia, Dan Bang, Nicholas Shea, Chris D. Frith, and Stephen M. Fleming. 2020. &#8220;Knowing Ourselves Together: The Cultural Origins of Metacognition.&#8221; <em>Trends in Cognitive Sciences</em> 24 (5): 349&#8211;362. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1016%2Fj.tics.2020.02.007">https://doi.org/10.1016/j.tics.2020.02.007</a>.</p><p>Khalidi, Muhammad Ali. 2023. <em>Cognitive Ontology: Taxonomic Practices in the Mind-Brain Sciences</em>. Cambridge: Cambridge University Press. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1017%2F9781009223645">https://doi.org/10.1017/9781009223645</a>.</p><p>Knobe, J. 2003. &#8220;Intentional Action and Side Effects in Ordinary Language.&#8221; <em>Analysis</em> 63 (3): 190&#8211;94. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1093%2Fanalys%2F63.3.190">https://doi.org/10.1093/analys/63.3.190</a>. / <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2FKnobe+2003+Intentional+Action+and+Side+Effects+in+Ordinary+Language">Knobe 2003 Intentional Action and Side Effects in Ordinary Language</a></p><p>Lopes, Arthur Viana. 2014. &#8220;A Estrutura Psicol&#243;gica do Conceito de Conhecimento.&#8221; Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. <a href="iframe.php?url=http%3A%2F%2Fhdl.handle.net%2F10183%2F103864">http://hdl.handle.net/10183/103864</a>.</p><p>Machery, Edouard. 2009. <em>Doing Without Concepts</em>. Oxford: Oxford University Press. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fglobal.oup.com%2Facademic%2Fproduct%2Fdoing-without-concepts-9780195306880">https://global.oup.com/academic/product/doing-without-concepts-9780195306880</a>.</p><p>Mahr, Johannes B. 2024. &#8220;How to Become a Memory: The Individual and Collective Aspects of Mnemicity.&#8221; <em>Topics in Cognitive Science</em> 16 (2): 225&#8211;240. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1111%2Ftops.12646">https://doi.org/10.1111/tops.12646</a>.</p><p>McCarroll, Christopher Jude, and Nikola Andonovski. 2025. &#8220;Episodic Memory as a Mindshaped Capacity.&#8221; In <em>The Routledge Handbook of Mindshaping</em>, edited by Tad Zawidzki and R&#233;mi Tison. London: Routledge. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fphilarchive.org%2Frec%2FMCCEMA-11">https://philarchive.org/rec/MCCEMA-11</a>.</p><p>Michaelian, Kourken. 2016. <em>Mental Time Travel: Episodic Memory and Our Knowledge of the Personal Past</em>. Cambridge, MA: MIT Press. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fmitpress.mit.edu%2F9780262551151%2Fmental-time-travel%2F">https://mitpress.mit.edu/9780262551151/mental-time-travel/</a>.</p><p>Michaelian, Kourken. 2024. &#8220;Radicalizing Simulationism: Remembering as Imagining the (Nonpersonal) Past.&#8221; <em>Philosophical Psychology</em> 37 (5): 1170&#8211;1196. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1080%2F09515089.2022.2082934">https://doi.org/10.1080/09515089.2022.2082934</a>.</p><p>Miyazono, Kengo, and Lisa Bortolotti. 2021. <em>Philosophy of Psychology: An Introduction</em>. Polity.</p><p>Murphy, Dominic. 2025. &#8220;Philosophy of Psychiatry.&#8221; Stanford Encyclopedia of Philosophy, February 5. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fplato.stanford.edu%2Fentries%2Fpsychiatry%2F">https://plato.stanford.edu/entries/psychiatry/</a>.</p><p>Openshaw, James. 2023. &#8220;(In Defence of) Preservationism and the Previous Awareness Condition: What Is a Theory of Remembering, Anyway?&#8221; <em>Philosophical Perspectives</em> 37 (1): 290&#8211;307. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1111%2Fphpe.12191">https://doi.org/10.1111/phpe.12191</a>.</p><p>Reese, Elaine, Catherine A. Haden, and Robyn Fivush. 1993. &#8220;Mother-Child Conversations about the Past: Relationships of Style and Memory over Time.&#8221; <em>Cognitive Development</em> 8 (4): 403&#8211;430. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1016%2FS0885-2014%2805%2980002-4">https://doi.org/10.1016/S0885-2014(05)80002-4</a>.</p><p>Robins, Sarah K. 2024. &#8220;Kinding Memory: Commentary on Muhammad Ali Khalidi&#8217;s Cognitive Ontology.&#8221; <em>Mind &amp; Language</em> 39 (1): 109&#8211;115. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1111%2Fmila.12477">https://doi.org/10.1111/mila.12477</a>.</p><p>Roediger, Henry L. 1980. &#8220;Memory Metaphors in Cognitive Psychology.&#8221; <em>Memory &amp; Cognition</em> 8 (3): 231&#8211;246. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.3758%2FBF03197611">https://doi.org/10.3758/BF03197611</a>.</p><p>Ruffman, Ted. 1996. &#8220;Do Children Understand the Mind by Means of Simulation or a Theory? Evidence from Their Understanding of Inference.&#8221; <em>Mind &amp; Language</em> 11 (4): 388&#8211;414. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1111%2Fj.1468-0017.1996.tb00053.x">https://doi.org/10.1111/j.1468-0017.1996.tb00053.x</a>.</p><p>Strawson, P. F. 1959. <em>Individuals: An Essay in Descriptive Metaphysics</em>. London: Methuen. Tradu&#231;&#227;o brasileira: <em>Indiv&#237;duos: Um Ensaio de Metaf&#237;sica Descritiva</em>. S&#227;o Paulo: Editora Unesp. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Feditoraunesp.com.br%2Fcatalogo%2F9788539307944%2Cindividuos">https://editoraunesp.com.br/catalogo/9788539307944,individuos</a>.</p><p>Sytsma, Justin, Kevin Reuter, and Pascale Willemsen. 2026. &#8220;Experimental Philosophy.&#8221; Stanford Encyclopedia of Philosophy, April 8. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fplato.stanford.edu%2Fentries%2Fexperimental-philosophy%2F">https://plato.stanford.edu/entries/experimental-philosophy/</a>. / <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2FSystsma%2C+Reuter%2C+Willemsen+2026+Experimental+Philosophy">Systsma, Reuter, Willemsen 2026 Experimental Philosophy</a></p><p>Tulving, Endel. 1985. &#8220;Memory and Consciousness.&#8221; <em>Canadian Psychology / Psychologie canadienne</em> 26 (1): 1&#8211;12. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1037%2Fh0080017">https://doi.org/10.1037/h0080017</a>.</p><h2>Ver tamb&#233;m</h2><ul><li><p><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fa-teoria-teoria-e-a-teoria-da-simulacao">A Teoria-Teoria e a Teoria da Simula&#231;&#227;o</a> (Primeiros Rascunhos)</p></li><li><p><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Faprendemos-a-lembrar">Aprendemos a Lembrar: As Origens Culturais da Mem&#243;ria Epis&#243;dica</a> (Primeiros Rascunhos)</p></li><li><p><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fautoprojecao-e-memoria">Autoproje&#231;&#227;o e Mem&#243;ria: O que fazemos quando n&#227;o estamos aqui e agora</a> (Primeiros Rascunhos)</p></li></ul>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Dilema de Eutifron e a Memória]]></title><description><![CDATA[Os tipos de mem&#243;ria explicam a mem&#243;ria? Ou a mem&#243;ria explica os tipos de mem&#243;ria?]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/o-dilema-de-eutifron-e-a-memoria</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/o-dilema-de-eutifron-e-a-memoria</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sun, 14 Jun 2026 14:01:47 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212iqU%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F2d053719-239d-4ea9-87cf-913f106a1a8a_1754x1360.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div><hr></div><p>O dilema de Eutifron original &#233; sobre a rela&#231;&#227;o entre Deus e a piedade. Uma a&#231;&#227;o &#233; piedosa porque Deus determina seu car&#225;ter piedoso ou, primeiro, a a&#231;&#227;o &#233; piedosa por si mesma e, por isso, Deus a aprova? Enfim, o que explica o qu&#234;?</p><p>Na forma de um gr&#225;fico:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%212iqU%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F2d053719-239d-4ea9-87cf-913f106a1a8a_1754x1360.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2iqU!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2d053719-239d-4ea9-87cf-913f106a1a8a_1754x1360.png 424w, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Note que os dois caminhos s&#227;o bem diferentes. Se a piedade explica a escolha de Deus, como vemos na perna da esquerda, segue que a piedade &#233; um padr&#227;o independente da escolha de Deus. Ou seja, a vontade de Deus se guia pela <em>objetividade</em> da piedade. Mas, se a escolha de Deus explica a piedade, ent&#227;o &#233; piedoso o que Deus quer que seja piedoso, e a piedade depende da <em>vontade</em> de Deus.</p><p>Para os fil&#243;sofos, o dilema de Eutifron interessa como modelo sobre como pensar sobre as coisas mais fundamentais. At&#233; mesmo no meu campo de estudo, a filosofia da mem&#243;ria, podemos pensar em aplica&#231;&#245;es do dilema de Eutifron. Eis:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21PLiV%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F155bea32-5e81-414a-8b85-f9f277792be5_1893x1360.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PLiV!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F155bea32-5e81-414a-8b85-f9f277792be5_1893x1360.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PLiV!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F155bea32-5e81-414a-8b85-f9f277792be5_1893x1360.png 848w, 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pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>A quest&#227;o &#233;:</p><p>S&#227;o os fen&#244;menos observ&#225;veis da mem&#243;ria que explicam a mem&#243;ria ou &#233; o conceito de mem&#243;ria que explica que tomemos certos fen&#244;menos observ&#225;veis como casos de mem&#243;ria?</p><p>Tal como no dilema de Eutifron original, os dois caminhos s&#227;o muito diferentes. No caminho da esquerda come&#231;amos, de baixo para cima (<em>bottom-up</em>), das v&#225;rias coisas que contam como mem&#243;ria, e buscamos chegar &#224; natureza da mem&#243;ria. &#201; um caminho emp&#237;rico e indutivo pois, observando empiricamente o mundo, encontramos mem&#243;ria de curta dura&#231;&#227;o, mem&#243;ria de longa dura&#231;&#227;o, mem&#243;ria muscular, mem&#243;ria epis&#243;dica, etc. Ao estudar seus respectivos mecanismos biol&#243;gicos e psicol&#243;gicos, chegamos ao conceito geral de mem&#243;ria. Assim sendo, neste caminho, as partes da mem&#243;ria explicam o todo da mem&#243;ria. Ou seja, a explica&#231;&#227;o &#233; mereol&#243;gica. Equivale a dizer que, para entender um bosque, basta entender cada &#225;rvore individualmente, ignorando o ecossistema que as conecta. &#201; como se n&#227;o existisse uma entidade independente e anterior &#224;s partes, A Mem&#243;ria, mas se pudesse chegar a entender o que &#233; a mem&#243;ria pelo estudo de diversas manifesta&#231;&#245;es de mem&#243;ria. O risco &#233; nunca chegar a um fen&#244;meno unificador. Quer dizer, talvez esse n&#227;o seja um risco, mas sim a meta de reduzir &#8220;mem&#243;ria&#8221; a um r&#243;tulo conveniente (uma fic&#231;&#227;o &#250;til) para agrupar esses mecanismos biol&#243;gicos e computacionais distintos. Mas por que chamamos todos esses processos diferentes de &#8220;mem&#243;ria&#8221; e n&#227;o de &#8220;aprendizado&#8221;, &#8220;h&#225;bito&#8221; ou &#8220;percep&#231;&#227;o&#8221;?</p><p>No caminho da direita, vamos do todo &#224;s partes. Isto &#233;, &#233; um caminho de cima para baixo (<em>top-down</em>). &#201; o conceito de mem&#243;ria que explica que reconhe&#231;amos v&#225;rias coisas que ocorrem no mundo como manifesta&#231;&#245;es da mem&#243;ria. Trata-se de uma abordagem conceitual e dedutiva. Neste caso, o conceito de mem&#243;ria determina o que se reconhece como sendo uma ocorr&#234;ncia de mem&#243;ria. O risco &#233; o leito de Procrusto: for&#231;ar a diversidade e complexidade do real a se encaixar em certa concep&#231;&#227;o hist&#243;rico-geogr&#225;fica de mem&#243;ria, a qual pode ser paroquial. Tal como no dilema de Eutifron original, o que muda &#233; a ordem de prioridade explicativa.</p><div><hr></div><p>O dilema de Eutifron da mem&#243;ria mapeia debates contempor&#226;neos da filosofia da mem&#243;ria. A <em>teoria da simula&#231;&#227;o</em> segue o caminho de baixo para cima. Pesquisas em psicologia cognitiva como as de Schacter e Addis influenciam fil&#243;sofos simulacionistas da mem&#243;ria, como Felipe de Brigard e Kourken Michaelian, a explicar a mem&#243;ria epis&#243;dica como hip&#243;tese sobre o que aconteceu ou como viagem no tempo mental. Aqui, a evid&#234;ncia emp&#237;rica for&#231;a a revis&#227;o do conceito de mem&#243;ria. &#201; a via reducionista.</p><p>A <em>teoria causal da mem&#243;ria</em> segue o caminho de cima para baixo. Fil&#243;sofos como Martin e Deutscher argumentam que, para algo ser genuinamente mem&#243;ria, o conceito de mem&#243;ria exige, por defini&#231;&#227;o, um v&#237;nculo causal cont&#237;nuo e apropriado ligando a experi&#234;ncia passada &#224; lembran&#231;a presente. Se a neuroci&#234;ncia descobrir que um sujeito est&#225; &#8220;lembrando&#8221; algo atrav&#233;s de um processo de reconstru&#231;&#227;o imaginativa sem um tra&#231;o causal direto, a teoria causal <em>top-down</em> prescreve que n&#227;o se considere o fen&#244;meno como um caso de mem&#243;ria, mas sim de confabula&#231;&#227;o ou imagina&#231;&#227;o. O conceito protege seus limites contra os dados emp&#237;ricos. &#201; a via da an&#225;lise conceitual.</p><div><hr></div><p>H&#225; como resolver o dilema?</p><p>Sim, pois podemos pensar numa esp&#233;cie de <em>equil&#237;brio reflexivo</em>, no qual os dados emp&#237;ricos modificam o conceito de mem&#243;ria e o conceito de mem&#243;ria guia, dinamicamente, a busca de dados emp&#237;ricos relevantes. Isto &#233;, come&#231;amos por um conceito vago de mem&#243;ria, com casos paradigm&#225;ticos, como lembrar do anivers&#225;rio de algu&#233;m importante para ti. Ent&#227;o as ci&#234;ncias v&#227;o buscando e testando os mecanismos que tornam os casos paradigm&#225;ticos poss&#237;veis. A cada nova descoberta significativa, o conceito &#233; lapidado. Ou seja, o conceito e os dados evoluem uns a partir dos outros.</p><p>Na forma de um gr&#225;fico:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21KVQ2%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F3b8cd4f5-3543-4365-b61a-75dc7aeb2dc5_2650x3360.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KVQ2!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b8cd4f5-3543-4365-b61a-75dc7aeb2dc5_2650x3360.png 424w, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" 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Assim como n&#227;o h&#225; uma &#250;nica caracter&#237;stica que todos os jogos tenham (alguns t&#234;m bola, outros cartas, outros n&#227;o t&#234;m vencedores), mas sim uma rede de semelhan&#231;as sobrepostas, a mem&#243;ria pode ser uma classe de fen&#244;menos conectados apenas historicamente e funcionalmente. Isso permite que aceitemos que a mem&#243;ria do fato de que Paris &#233; a capital da Fran&#231;a (mem&#243;ria sem&#226;ntica) e a mem&#243;ria de como andar de bicicleta (mem&#243;ria procedural) sejam ambas chamadas de <em>mem&#243;ria</em>, n&#227;o porque compartilhem uma <em>ess&#234;ncia</em> profunda escondida, mas porque desempenham pap&#233;is semelhantes na nossa vida e na nossa estrutura narrativa. Assim sendo, na ci&#234;ncia, diferentes disciplinas (neuroci&#234;ncia, psicologia, IA) podem usar &#8220;mem&#243;ria&#8221; de formas distintas, desde que haja <em>sobreposi&#231;&#227;o suficiente</em> entre os usos. E na filosofia o dilema se dissolve porque n&#227;o h&#225; uma mem&#243;ria a ser definida, mas um feixe de fen&#244;menos ligados por semelhan&#231;as. A semelhan&#231;a pode at&#233; mesmo ser funcional:</p><blockquote><p>Mem&#243;ria &#233; o que permite a um sistema (biol&#243;gico ou artificial) usar informa&#231;&#245;es do passado para guiar a&#231;&#245;es no presente.</p></blockquote><p>A vantagem dessa an&#225;lise funcional &#233; sua neutralidade, pois n&#227;o pressup&#245;e mecanismos espec&#237;ficos (sinapses, bits, etc.). E, assim sendo, esta proposta unifica o fen&#244;meno, pois inclui desde mem&#243;rias humanas at&#233; mem&#243;rias em redes neurais artificiais.</p><p>O problema da mera semelhan&#231;a de fam&#237;lia &#233; a vagueza. O que conta como informa&#231;&#227;o passada? Um v&#237;rus <em>lembra</em> de um hospedeiro anterior? Esse problema me faz pensar que a via do equil&#237;brio reflexivo &#233; prefer&#237;vel.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como é Ser um ChatGPT?]]></title><description><![CDATA[Vinte experts prop&#245;em indicadores de consci&#234;ncia para a IA &#8211; mas a pergunta sobre como &#233; ser uma IA permanece aberta]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/como-e-ser-um-chatgpt</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/como-e-ser-um-chatgpt</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sat, 06 Jun 2026 15:29:47 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21MnvT%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fc71fcd32-7430-481a-ac9e-65095797eaa3_592x395.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21MnvT%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fc71fcd32-7430-481a-ac9e-65095797eaa3_592x395.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!MnvT!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc71fcd32-7430-481a-ac9e-65095797eaa3_592x395.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!MnvT!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc71fcd32-7430-481a-ac9e-65095797eaa3_592x395.jpeg 848w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><h2>Saiu na <em>Trends</em></h2><p>Quanto mais as pessoas usam o ChatGPT, mais elas se perguntam se a m&#225;quina est&#225; ciente daquilo que est&#225; gerando a partir de um algoritmo de previs&#227;o de qual deveria ser a pr&#243;xima palavra. O mesmo vale para quem usa o Claude, o Gemini etc.</p><p>Ser&#225; que tem algu&#233;m em casa?</p><p>Para lidar com essa d&#250;vida, alguns dos maiores ninjas da pesquisa sobre consci&#234;ncia se reuniram para escrever um texto sobre como detectar consci&#234;ncia em LLMs. Eis a refer&#234;ncia do artigo com a longa lista de vinte autores:</p><blockquote><p>Butlin, Patrick, Robert Long, Tim Bayne, Yoshua Bengio, Jonathan Birch, David Chalmers, Axel Constant, George Deane, Eric Elmoznino, Stephen M. Fleming, Xu Ji, Ryota Kanai, Colin Klein, Grace Lindsay, Matthias Michel, Liad Mudrik, Megan A.K. Peters, Eric Schwitzgebel, Jonathan Simon, and Rufin VanRullen. 2026. &#8220;Identifying Indicators of Consciousness in AI Systems.&#8221; <em>Trends in Cognitive Sciences</em> 30 (6): 488&#8211;501. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1016%2Fj.tics.2025.10.011">https://doi.org/10.1016/j.tics.2025.10.011</a>.</p></blockquote><p>Este artigo saiu em junho de 2026 na revista <em>Trends in Cognitive Sciences</em>, uma das mais importantes da &#225;rea de ci&#234;ncias cognitivas. Os autores s&#227;o nomes de peso da pesquisa sobre a consci&#234;ncia. Para dar uma ideia da autoridade dos autores, Tim Bayne investiga <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fresearch.monash.edu%2Fen%2Fpersons%2Ftimothy-bayne%2F">se &#233; poss&#237;vel criar um conscienci&#244;metro</a>, e David Chalmers &#233; o fil&#243;sofo do <em><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fpersonal.lse.ac.uk%2FROBERT49%2Fteaching%2Fph103%2Fpdf%2Fchalmers1995.pdf">problema dif&#237;cil da consci&#234;ncia</a></em>. Ali&#225;s, Chalmers &#233; o nome mais curioso entre os coautores, pois claramente a proposta do artigo n&#227;o d&#225; conta deste problema, o qual pode ser apresentado da seguinte maneira:</p><blockquote><p><em>O Problema Dif&#237;cil da Consci&#234;ncia.</em> Explicar como os neur&#244;nios processam informa&#231;&#227;o &#233; &#8220;f&#225;cil&#8221; no sentido de que sabemos que tipo de resposta procurar; explicar por que esse processamento vem acompanhado de experi&#234;ncia subjetiva &#233; o problema dif&#237;cil, e ningu&#233;m faz ideia de como lidar com esse problema.</p></blockquote><p>No artigo, o qual daqui em diante chamarei &#8220;Indicators&#8221;, este problema &#233; simplesmente ignorado. E esse &#233; o grande problema desse artigo, pois de que adianta propor indicadores de consci&#234;ncia se tais indicadores n&#227;o respondem ao problema dif&#237;cil da consci&#234;ncia?</p><h2>Dignidade</h2><p>No artigo, os autores d&#227;o como raz&#227;o para se importar com a quest&#227;o de se as LLMs t&#234;m consci&#234;ncia o fato de que seres com consci&#234;ncia merecem tratamento diferente daquele que damos aos meros tijolos. Se um chatbot tem experi&#234;ncias, seu prazer deve ser levado em conta, e seria um erro n&#227;o levar isso em conta. Mas tamb&#233;m seria um erro tratar meros tijolos como seres capazes das del&#237;cias do corpo consciente. De modo que &#233; preciso achar o ponto exato para tratar as IAs com dignidade, se isso for o caso.</p><p>Mas, como saber que as IAs merecem tratamento digno?</p><p>A proposta de &#8220;Indicators&#8221; &#233; que listemos os melhores indicadores de consci&#234;ncia dispon&#237;veis nas melhores teorias <em>funcionalistas</em> da consci&#234;ncia.</p><p>O que &#233; uma teoria funcionalista da consci&#234;ncia?</p><p>&#201; uma teoria que trata cada capacidade da mente como um processo com um input, uma black box onde ocorre um mumbo-jumbo misterioso, e sai um output. Esquematicamente:</p><p style="text-align: center;">input &#8594; black box &#8594; output</p><p>Por exemplo, a luz bate nos olhos (input), os nervos fazem sua m&#225;gica (mumbo-jumbo na black box), e acontece a vis&#227;o (output).</p><p>Como isso funciona em &#8220;Indicators&#8221;?</p><p>Da seguinte maneira:</p><p>Se um chatbot manifesta um &#8220;indicador potencial de consci&#234;ncia&#8221; como, digamos, &#8220;um modelo preditivo representando e habilitando controle sobre estados correntes de aten&#231;&#227;o&#8221;, isso indica que esse chatbot pode ser ou estar consciente.</p><p>Outro exemplo:</p><p>Considere a teoria da consci&#234;ncia como espa&#231;o de trabalho global (<em>global workspace theory</em>). &#201; uma teoria metaf&#243;rica da consci&#234;ncia segundo a qual, para entender a consci&#234;ncia, voc&#234; tem que pensar em algo como um escrit&#243;rio grande, com muitos departamentos trabalhando em paralelo. Quase todo o trabalho &#233; local, dentro de cada departamento, sem comunica&#231;&#227;o entre os departamentos. Os departamentos s&#227;o a velha teoria das faculdades da alma: vis&#227;o, mem&#243;ria, racioc&#237;nio etc. No escrit&#243;rio h&#225; um mural central, de espa&#231;o limitado, e o que &#233; fixado nesse mural fica dispon&#237;vel para todos os departamentos ao mesmo tempo. Assim, a teoria do espa&#231;o de trabalho global diz que um estado mental &#233; consciente quando adquire &#8220;fama no c&#233;rebro&#8221; por ter sido como que fixado nesse mural central que o transmite para o sistema inteiro, sem se limitar a um s&#243; departamento do escrit&#243;rio.</p><p>Se um chatbot for assim, e voc&#234; quiser saber se o chatbot &#233; consciente, o caminho, segundo &#8220;Indicators&#8221;, &#233; ler o mural deste escrit&#243;rio e rastrear como as informa&#231;&#245;es fluem dos departamentos para o mural. Mas, &#233; claro, isso nada diz sobre se o escrit&#243;rio experiencia a &#8220;leitura&#8221; do &#8220;mural&#8221; ou se h&#225; mero output mec&#226;nico.</p><p>Eu estou sendo sarc&#225;stico com as teorias propostas. Mas foi lendo os autores de &#8220;Indicators&#8221; que aprendi a lidar assim com esse tipo de proposta. Eles sabem muito bem das limita&#231;&#245;es dos modelos que prop&#245;em para quem quer buscar por consci&#234;ncia em chatbots. Tanto &#233; que eles n&#227;o est&#227;o propondo condi&#231;&#245;es necess&#225;rias e suficientes para algo ser consciente. Em vez disso, eles est&#227;o apenas listando indicadores que, se satisfeitos, &#8220;aumentam a credibilidade&#8221; de uma atribui&#231;&#227;o de consci&#234;ncia a uma m&#225;quina.</p><p>Para entender a diferen&#231;a entre apontar condi&#231;&#245;es necess&#225;rias e suficientes e listar indicadores, considere o seguinte exemplo:</p><p>Pense em como um m&#233;dico usa sintomas para diagnosticar doen&#231;as. Uma febre n&#227;o prova que h&#225; infec&#231;&#227;o, e a aus&#234;ncia de febre n&#227;o descarta a infec&#231;&#227;o. Mesmo assim, cada sintoma desloca a confian&#231;a do m&#233;dico para um lado ou para o outro. O m&#233;dico raciocina por ac&#250;mulo de evid&#234;ncia, n&#227;o por certeza.</p><p>Bem, os indicadores propostos em &#8220;Indicators&#8221; funcionam tal como os sintomas funcionam para o diagn&#243;stico m&#233;dico. Quanto mais indicadores um sistema de IA exibe, mais raz&#227;o temos para suspeitar que essa IA seja ou esteja consciente, sempre na medida da nossa confian&#231;a nas teorias de onde os indicadores vieram. A qual, no meu caso, &#233; baix&#237;ssima.</p><h2>An&#225;lises</h2><p>Imagine o prazer de tomar um banho de cachoeira. A ci&#234;ncia explica a mec&#226;nica: os nervos da pele detectam a press&#227;o e a temperatura da &#225;gua, enviando sinais el&#233;tricos que o c&#233;rebro processa.</p><p>Essa descri&#231;&#227;o f&#237;sica ignora a experi&#234;ncia subjetiva: a sensa&#231;&#227;o revigorante da &#225;gua gelada caindo, o som do ambiente e o frescor da natureza. O enigma n&#227;o &#233; como o tecido cinzento produz essas sensa&#231;&#245;es. O enigma &#233; haver experi&#234;ncia &#8211; a <em>sua</em> experi&#234;ncia &#8211; em vez de mero processamento de informa&#231;&#227;o.</p><p>Uma boa explica&#231;&#227;o, muitas vezes, &#233; uma an&#225;lise. E uma an&#225;lise &#233; uma separa&#231;&#227;o de um todo em seus elementos ou partes componentes. Por exemplo, pegar algo que parece ser um todo indivis&#237;vel, como a &#225;gua, e separar em mol&#233;culas de H2O. Esse tipo de an&#225;lise &#233; redutivo se entendemos que o todo n&#227;o &#233; mais do que as partes. Eis de onde surge a ideia de <em>reducionismo</em>.</p><p>Deus aben&#231;oe os reducionismos, pois s&#227;o &#243;timos para nos ajudar a criar melhores rem&#233;dios e melhores meios de ter uma vida sem trabalho brutal. Como o reducionismo nos explica que calor &#233; movimento de mol&#233;culas, podemos criar m&#225;quinas que produzem calor ao ati&#231;ar o movimento de mol&#233;culas &#8211; como os fornos de micro-ondas, por exemplo.</p><p>Podemos reduzir a mente ao corpo?</p><p>O funcionalismo, com seu esquema input &#8594; mumbo-jumbo &#8594; output, &#233; &#243;timo para nos fazer entender que se voc&#234;, que &#233; humano, est&#225; vendo algo, o que &#233; um output, ent&#227;o se deu certo processamento de informa&#231;&#227;o a partir de um input luminoso. Isso serve para criar &#243;culos e tamb&#233;m para tratar problemas no sistema nervoso ligado &#224; vis&#227;o.</p><p>Mas note que pode se dar o output a partir do input dado a uma black box sem que se tenha por que supor que h&#225; consci&#234;ncia envolvida. As c&#233;lulas fotoel&#233;tricas fazem com que l&#226;mpadas sejam apagadas (output) quando o ambiente fica claro (input), mas n&#227;o h&#225; bom motivo para atribuir consci&#234;ncia &#224;s c&#233;lulas fotoel&#233;tricas.</p><p>E considere sua geladeira. Ela parece ter opini&#245;es a agir racionalmente de acordo com as pr&#243;prias cren&#231;as. Por exemplo, quando o interior da geladeira fica frio demais (input), a geladeira se desliga (output). E quando o interior da geladeira fica quente demais (input), a geladeira se liga (output). Mas sua geladeira n&#227;o &#233; uma candidata padr&#227;o ao t&#237;tulo de m&#225;quina consciente.</p><p>Assim, d&#225; para reduzir a mente a certos processos f&#237;sicos, e talvez essa seja a melhor maneira de explicar a percep&#231;&#227;o do mundo e de n&#243;s mesmos. Mas essa redu&#231;&#227;o n&#227;o precisa vir acompanhada de consci&#234;ncia.</p><h2>O Morcego</h2><p>Eu sou um ser consciente. Para mim, h&#225; um como &#233; ser eu mesmo. Isto &#233;, neste momento, h&#225; para mim um como &#233; estar como estou. Como estou? Obrigado por perguntar. Estou sentado. Minhas vias respirat&#243;rias est&#227;o sens&#237;veis por causa da tosse. Sinto um desconforto na lombar. Escuto o barulho do aquecedor. L&#225; fora raia um belo dia.</p><p>O &#8220;como voc&#234; est&#225;?&#8221; (&#8220;<em>how are you?</em>&#8221;) &#233; a f&#243;rmula cultural que usamos para mostrar considera&#231;&#227;o uns aos outros. Esta f&#243;rmula encapsula o <em>como &#233;</em> da consci&#234;ncia: ao perguntar &#8220;como voc&#234; est&#225;?&#8221;, pedimos ao outro o que apenas o outro pode nos dar &#8211; o testemunho da sua subjetividade.</p><p>N&#227;o s&#243; seres capazes de responder &#8220;estou bem, obrigado&#8221; s&#227;o conscientes. Em &#8220;<a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.cle.unicamp.br%2Feprints%2Findex.php%2Fcadernos%2Farticle%2Fview%2F617%2F495">Como &#233; Ser um Morcego?</a>&#8221;, texto que voc&#234; deveria ler, pois &#233; um cl&#225;ssico da filosofia da mente, e um dos textos mais influentes sobre o que &#233; a consci&#234;ncia, o fil&#243;sofo Thomas Nagel reconhece o &#243;bvio:</p><p>V&#225;rios tipos de organismos experienciam como &#233; estar tal como eles mesmos est&#227;o.</p><p>No entanto, para muitos tipos de organismos, n&#227;o temos ideia de como &#233; ser o que eles s&#227;o. Morcegos, por exemplo, apesar de serem mam&#237;feros como n&#243;s, t&#234;m um modo de vida t&#227;o distante que n&#227;o fazemos ideia do <em>car&#225;ter subjetivo da experi&#234;ncia</em> que eles t&#234;m de si mesmos.</p><p>As ferramentas das quais dispomos nos permitem <em>imaginar empaticamente</em> como s&#227;o os morcegos, mas n&#227;o nos permitem <em>experienciar em primeira m&#227;o</em> como &#233; ser um morcego. Morcegos usam sonar para navegar pelo mundo. Isso &#233; raro entre humanos, e costuma ter que ser aprendido com esfor&#231;o. Seja como for, mesmo os humanos capazes de se orientar pelo eco de sons s&#227;o incapazes de experienciar <em>como &#233; ser </em>um morcego. Ali&#225;s, considere a vis&#227;o. Quando brincamos com os gatos, n&#227;o raro estamos vendo as mesmas coisas. Mas &#233; estranho e misterioso para n&#243;s entender o que &#233;, para um gato, ver o que vemos em conjunto com ele. Isso porque n&#227;o temos vis&#227;o tal como os gatos t&#234;m &#8211; assim como j&#225; n&#227;o temos a vis&#227;o que t&#237;nhamos quando &#233;ramos beb&#234;s.</p><p>Quanto ao estudo cient&#237;fico dos morcegos, ele nos ajuda a entender o que os morcegos s&#227;o, mas n&#227;o nos d&#225; a experi&#234;ncia de como &#233; ser um morcego. Note que <em>imaginar</em> como &#233; se experienciar como um morcego &#233; diferente de <em>se experienciar como um morcego</em>. Um humano pode fantasiar-se de morcego, mas n&#227;o pode experienciar-se morcego, pois n&#227;o &#233; morcego. O que n&#227;o se alcan&#231;a com a imagina&#231;&#227;o &#233; como &#233;, <em>para o morcego</em>, ser um morcego. O problema &#233; que o ponto de vista de um morcego est&#225; fora do alcance humano.</p><p>N&#227;o &#233; sobre bichos ex&#243;ticos. O problema mora em ti mesmo. No passado, voc&#234; se experienciou sendo o que voc&#234; era. Mas voc&#234; mudou e j&#225; n&#227;o consegue nem mesmo imaginar como era ser voc&#234; mesmo antes de voc&#234; ter os planos e conhecimentos que tem agora. O mesmo problema aflige escritores. Por n&#227;o conseguirem experienciar o que &#233; n&#227;o saber o que sabem, os escritores acabam por escrever textos que pressup&#245;em as coisas que eles mesmos sabem, <em>mas seus leitores desconhecem</em>. &#201; a <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fprimeiros.substack.com%2Fp%2Fa-maldicao-do-conhecimento">maldi&#231;&#227;o do conhecimento</a>.</p><h2>Limite do Sentido</h2><p>O reducionismo &#233; &#243;timo. Sou um grande f&#227;. E precisamos reconhecer que &#233; comum reduzirmos apar&#234;ncias subjetivas a realidades objetivas. Por exemplo, o amedrontador rel&#226;mpago, coisa que parece castigo divino para a alma culpada, &#233; descarga el&#233;trica. Sim, descargas el&#233;tricas s&#227;o perigosas, mas n&#227;o por causa dos nossos pecados.</p><p>Do mesmo modo, estados subjetivos da alma s&#227;o s&#243; neur&#244;nios disparando?</p><p>Digamos que sim. Esta &#233; nossa melhor teoria, afinal de contas. O problema, agora, &#233; que mesmo que essa teoria seja verdadeira, ela &#233; <em>incompreens&#237;vel</em>. D&#225; para entender que rel&#226;mpago = eletricidade, mas n&#227;o d&#225; para entender que mente = c&#233;rebro, pois a observa&#231;&#227;o minuciosa do c&#233;rebro n&#227;o revela como &#233; ser o organismo que est&#225; experienciando o mundo e a si mesmo atrav&#233;s das suas atividades cerebrais. Eis Leibniz no par&#225;grafo 17 da <em><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.hedra.com.br%2Fproducts%2Fa-monadologia-e-outros-textos">Monadologia</a></em>:</p><blockquote><p>Ademais, deve-se confessar que a Percep&#231;&#227;o e aquilo que dela depende &#233; inexplic&#225;vel por raz&#245;es mec&#226;nicas, isto &#233;, por figuras e movimentos. Imaginando-se que h&#225; uma m&#225;quina cuja estrutura a fa&#231;a pensar, sentir e perceber, poder-se-&#225;, guardadas as mesmas propor&#231;&#245;es, conceb&#234;-la ampliada, de sorte que se possa nela entrar como em um moinho. Admitido isso, l&#225; n&#227;o encontraremos, se a visitarmos por dentro, sen&#227;o pe&#231;as impulsionando-se umas &#224;s outras, e nada que explique uma percep&#231;&#227;o.</p></blockquote><p>Quando se explica que rel&#226;mpago &#233; eletricidade, aprendemos algo sobre a realidade por detr&#225;s das apar&#234;ncias. Quando se explica que mente &#233; c&#233;rebro fazendo as coisas que o moinho craniano faz, isso nada diz sobre como &#233; ter para si sensa&#231;&#245;es, emo&#231;&#245;es, e pensamentos.</p><p>Note que o ponto de Nagel n&#227;o &#233; que &#233; falso que mente = c&#233;rebro. O ponto &#233; que mesmo que isso seja verdade, n&#227;o d&#225; para entender.</p><p>Para entender como a mente poderia ser o c&#233;rebro, ou algum outro peda&#231;o de mat&#233;ria, precisar&#237;amos de conceitos-ponte. Por exemplo, na<em> <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Feditoraunesp.com.br%2Fcatalogo%2F9786557113059%2Canalise-da-materia">An&#225;lise da Mat&#233;ria</a></em>, Bertrand Russell prop&#245;e que tudo o que h&#225; &#233; uma coisa que &#233; neutra quanto a se manifestar psiquicamente ou fisicamente. &#201; uma maneira de explicar como pode ser verdade que mente = corpo. Mas apenas dizer que mente = corpo n&#227;o explica.</p><h2>Como &#233; ser uma LLM?</h2><p>Voltemos a &#8220;Indicators&#8221;. No artigo, a vis&#227;o de Nagel &#233; apresentada (e o artigo cl&#225;ssico de Nagel &#233; referido) sem compromisso (expl&#237;cito ou impl&#237;cito), e a &#8220;defini&#231;&#227;o&#8221; de consci&#234;ncia &#233; vaga:</p><blockquote><p>Por &#8220;consci&#234;ncia&#8221;, entendemos a consci&#234;ncia fenom&#234;nica. Uma maneira de se referir a esse conceito &#233; dizer que uma entidade tem experi&#234;ncias fenom&#234;nicas conscientes se (e somente se) houver &#8220;algo que seja como&#8221; para a entidade ser o sujeito dessas experi&#234;ncias.</p><p>&#8230;</p><p>Algumas teorias da consci&#234;ncia concentram-se nos mecanismos de acesso, em vez de nos aspectos fenomenol&#243;gicos da consci&#234;ncia &#8230;. No entanto, h&#225; quem defenda que esses dois aspectos se implicam mutuamente ou est&#227;o, de alguma forma, intimamente relacionados &#8230;. Assim, essas teorias ainda podem fornecer informa&#231;&#245;es sobre a consci&#234;ncia fenomenol&#243;gica. (p. 489)</p></blockquote><p>Por um lado, a &#8220;defini&#231;&#227;o&#8221; de consci&#234;ncia acena em dire&#231;&#227;o &#224; proposta de Nagel. Mas essa &#233; apenas uma das propostas reconhecidas. Outra proposta diz respeito apenas a como a informa&#231;&#227;o vai se afunilando dos buracos no cr&#226;nio at&#233; o c&#233;rebro. Bem, &#233; essa outra proposta que d&#225; sentido ao protocolo de detec&#231;&#227;o de consci&#234;ncia proposto em &#8220;Indicators&#8221;. A vis&#227;o de Nagel sai de cena.</p><p>O que segue disso?</p><p>Segue que, se seguirmos a proposta de &#8220;Indicators&#8221;, acharemos algo, talvez. Se os achados forem estados de consci&#234;ncia, &#233; outro assunto.</p><p>Na proposta de &#8220;Indicators&#8221;, <em>ver</em> &#233; ser causado por cores e formas e causar experi&#234;ncias de cores e formas; <em>lembrar</em> &#233; ser causado por registros do hipocampo e do neoc&#243;rtex e causar viagens no tempo mental, etc. <em>Mas o ponto de Nagel, o qual se mant&#233;m em p&#233;, &#233; que tais explicadores n&#227;o explicam o que t&#234;m que explicar</em>.</p><p>Considere a  teoria do espa&#231;o de trabalho global, a qual &#233; bem-vista em &#8220;Indicators&#8221;. Como falamos acima, nessa teoria, um estado meramente cerebral se torna um estado consciente do organismo (ou da entidade feita de sil&#237;cio) quando esse estado cerebral se torna t&#227;o metaforicamente famoso que &#233; metaforicamente postado em um mural metaf&#243;rico, sendo esse mural metaf&#243;rico a met&#225;fora da consci&#234;ncia da teoria do espa&#231;o de trabalho global.</p><p>Mas, n&#227;o poderia haver tal fama metaf&#243;rica no c&#233;rebro n&#227;o-metaf&#243;rico sem que houvesse consci&#234;ncia? Sim, poderia. Ao menos, n&#227;o h&#225; contradi&#231;&#227;o entre tal &#8220;fama cerebral&#8221; e o estar ciente.</p><h2>E da&#237;?</h2><p>Mas, e da&#237; que as teorias da consci&#234;ncia que deixam de lado a quest&#227;o da subjetividade n&#227;o s&#227;o devidamente contempladas em &#8220;Indicators&#8221;? Disso segue que uma IA n&#227;o &#233; consciente?</p><p>N&#227;o. N&#227;o &#233; isso.</p><p>Disso segue que, mesmo que seja verdade que uma IA &#233; consciente, n&#227;o temos como entender tal verdade, pois nos faltam os conceitos.</p><p>Somos pr&#233;-socr&#225;ticos da identidade mente-corpo, e o artigo procede como se j&#225; f&#244;ssemos einsteinianos. </p><div><hr></div><p>Se voc&#234; chegou at&#233; aqui, este post pode te interessar: </p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;df121577-f6f5-431f-b061-36e59f90c143&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;O Morcego de Nagel&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:18824731,&quot;name&quot;:&quot;Cesar Schirmer&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Escrevo sobre filosofia e outras coisas que me agradam. &quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/961f17d7-3806-46f6-ba8f-f2dc1fa3ffed_1170x1170.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-05-29T12:08:00.493Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BNnK!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc12b1261-11d2-4e14-b4df-c0e8afa4edd0_1569x735.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://primeiros.substack.com/p/o-morcego-de-nagel&quot;,&quot;section_name&quot;:&quot;metaf&#237;sica&quot;,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:199732139,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:2,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:2327749,&quot;publication_name&quot;:&quot;Primeiros Rascunhos&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mZMc!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Morcego de Nagel]]></title><description><![CDATA[Um guia para a leitura de &#8220;Como &#233; Ser um Morcego?&#8221; (1974), de Thomas Nagel]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/o-morcego-de-nagel</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/o-morcego-de-nagel</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Fri, 29 May 2026 12:08:00 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21BNnK%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fc12b1261-11d2-4e14-b4df-c0e8afa4edd0_1569x735.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div><hr></div><h2>O Biscoito e o Prazer</h2><p>Imagine morder um biscoito amanteigado, ainda morno.</p><p>Podemos descrever com exatid&#227;o o que acontece em seguida. Receptores na sua l&#237;ngua se ligam a mol&#233;culas de a&#231;&#250;car e de gordura e disparam sinais el&#233;tricos. Os sinais sobem pelo sistema nervoso e chegam ao c&#233;rebro. L&#225;, um circuito de neur&#244;nios dispara e libera dopamina.</p><p>Mas h&#225; outra coisa acontecendo. A alegria do sabor do biscoito. O prazer doce, morno, reconfortante.</p><p>Aqui est&#225; o enigma. Como a atividade el&#233;trica de uns poucos gramas de tecido cinzento dentro do cr&#226;nio produz prazer? Podemos tra&#231;ar a fia&#231;&#227;o inteira, mas os fios n&#227;o sentem nada. Por que n&#227;o somos apenas rob&#244;s biol&#243;gicos quebrando mol&#233;culas?</p><p>Esse &#233; o problema mente-corpo. Esse problema importa porque diz respeito ao que somos. Se somos seres inteiramente f&#237;sicos, a ci&#234;ncia deveria nos explicar completamente. Mas se a ci&#234;ncia n&#227;o consegue explicar por que um biscoito morno traz alegria, ou por que o vermelho parece vermelho, ou por que a lembran&#231;a da casa de inf&#226;ncia d&#225; saudade, ent&#227;o a nossa imagem de n&#243;s mesmos no universo tem um buraco enorme bem no meio.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21BNnK%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fc12b1261-11d2-4e14-b4df-c0e8afa4edd0_1569x735.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BNnK!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc12b1261-11d2-4e14-b4df-c0e8afa4edd0_1569x735.png 424w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" 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A ideia &#233; simples: tudo se reduz &#224;s suas partes f&#237;sicas.</p><p>Por que essa ideia &#233; t&#227;o atraente? Porque funciona muito bem. Descobrimos que o calor n&#227;o &#233; um fluido invis&#237;vel e m&#225;gico. &#201; o movimento das mol&#233;culas. Descobrimos que a &#225;gua n&#227;o &#233; um elemento indivis&#237;vel. &#201; hidrog&#234;nio e oxig&#234;nio de m&#227;os dadas.</p><p>Se reduzimos a &#225;gua a hidrog&#234;nio e oxig&#234;nio, e o calor ao bate-e-volta das mol&#233;culas, parece &#243;bvio que podemos fazer o mesmo com a mente. A imagem que a ci&#234;ncia moderna nos d&#225; &#233; direta: os estados mentais, a alegria, a lembran&#231;a, o gosto do lim&#227;o, devem ser apenas estados do c&#233;rebro. A mente &#233; o que o c&#233;rebro faz. Fim.</p><p>Mas h&#225; um problema s&#233;rio nessa imagem. Sempre que reduzimos algo, a &#225;gua &#224;s suas mol&#233;culas, explicamos a mec&#226;nica f&#237;sica e deixamos de fora como aquilo &#233; sentido. A redu&#231;&#227;o sup&#245;e que, descrevendo todos os fatos f&#237;sicos, descrevemos tudo.</p><p>Em 1974, Thomas Nagel publicou um ensaio que jogou areia nessa engrenagem. Ele argumentou que h&#225; algo no universo que se recusa a ser reduzido &#224;s suas partes f&#237;sicas: a consci&#234;ncia. E, para mostrar isso, pediu que pens&#225;ssemos num morcego.</p><h2>O Morcego</h2><p>A proposta de Nagel &#233; simples e profunda. Um organismo tem estados mentais conscientes se, e somente se, h&#225; algo que &#233; <em>como ser</em> aquele organismo <em>para aquele</em> organismo.</p><p>N&#227;o h&#225; nada que seja como ser uma pedra. N&#227;o h&#225; nada que seja como ser uma torradeira. Mas h&#225; algo que &#233; como ser um cachorro, um golfinho, voc&#234;. Nagel chama isso de <em>car&#225;ter subjetivo da experi&#234;ncia</em>. Por exemplo: aquela alegria do biscoito morno, sentida por dentro, do seu ponto de vista e de nenhum outro. Esse &#8220;como &#233;&#8221;, esse sabor da coisa sentido por dentro, &#233; o car&#225;ter subjetivo da experi&#234;ncia.</p><p>Os morcegos servem bem ao argumento. S&#227;o mam&#237;feros. Ningu&#233;m duvida seriamente que os morcegos experienciem o mundo. Morcegos percebem o mundo por sonar. Emitem gritos agudos e r&#225;pidos e escutam o eco que volta dos insetos e das paredes. O c&#233;rebro do morcego transforma ecos numa percep&#231;&#227;o tridimensional do mundo, na escurid&#227;o total. Isso &#233; completamente alheio a n&#243;s.</p><p>Agora suponha o seguinte. Os melhores neurocientistas do mundo estudam o morcego. Mapeiam cada neur&#244;nio do seu min&#250;sculo c&#233;rebro. Anotam exatamente como as ondas de som entram no ouvido e disparam impulsos. Eles conhecem todos os fatos f&#237;sicos e objetivos que h&#225; para conhecer sobre o morcego.</p><p>Ainda assim, falta-lhes uma pe&#231;a. <em>Como &#233;, para o morcego, escutar aqueles ecos?</em></p><p>Voc&#234; pode tentar imaginar. Fecha os olhos, se pendura de cabe&#231;a para baixo no s&#243;t&#227;o, voa ao entardecer ca&#231;ando insetos com a boca. Mas Nagel avisa que isso n&#227;o resolve. Voc&#234; s&#243; est&#225; <em>imaginando empaticamente</em> como seria, para <em>voc&#234;</em>, comportar-se como um morcego. N&#227;o &#233; esse o ponto. A quest&#227;o &#233; <em>como &#233;, para o morcego, ser um morcego</em>.</p><p>O problema de Nagel n&#227;o &#233; de conhecimento. O problema &#233; anterior. Para <em>conceber</em> como &#233; ser um morcego, eu teria que adotar o ponto de vista do morcego. Mas n&#227;o posso adotar um ponto de vista que n&#227;o seja o meu aqui e agora. Os fatos sobre como &#233; ser um morcego &#8211; ou praticamente qualquer outro tipo de organismo que n&#227;o o meu aqui e agora &#8211; est&#227;o amarrados a um ponto de vista que est&#225; al&#233;m do meu alcance.</p><p>A ci&#234;ncia, por&#233;m, foi feita para ser objetiva. A ci&#234;ncia estuda as coisas do ponto de vista de lugar nenhum. Da&#237; a tens&#227;o: uma ci&#234;ncia objetiva n&#227;o parece capaz de captar um fen&#244;meno que s&#243; existe a partir de um ponto de vista.</p><p>E n&#227;o pense que isso vale apenas para bichos ex&#243;ticos. O mesmo problema mora na casa ao lado. O car&#225;ter subjetivo da experi&#234;ncia de uma pessoa surda e cega de nascen&#231;a n&#227;o me &#233; acess&#237;vel, e o car&#225;ter subjetivo da minha experi&#234;ncia provavelmente n&#227;o &#233; acess&#237;vel a ela. Mesmo assim, nenhum de n&#243;s duvida que o outro tenha uma vida interior. O morcego s&#243; torna v&#237;vido o que j&#225; era verdade entre duas pessoas quaisquer. E o problema mora na nossa pr&#243;pria casa. Lendo nossos di&#225;rios, podemos ter dificuldade em nos colocar no ponto de vista de n&#243;s mesmos no passado.</p><p>Se a subjetividade de um ponto de vista traz tantos problemas, n&#227;o seria melhor negar que a subjetividade exista? Essa solu&#231;&#227;o seria desesperada, pois n&#243;s mesmos <em>experienciamos</em> o mundo agora mesmo. E pense na situa&#231;&#227;o dos outros. Eles n&#227;o experienciam as tuas experi&#234;ncias. Eles s&#243; experienciam as experi&#234;ncias deles mesmos. S&#243; por isso deveriam os outros negar que voc&#234; experiencie qualquer coisa, incluindo seus prazeres e suas dores? Morcegos inteligentes, ou marcianos, tentando conceber como &#233; ser um de n&#243;s, talvez fracassassem por completo. Mas eles estariam errados ao concluir que n&#227;o h&#225; nada que seja como ser n&#243;s mesmos. H&#225;. E n&#243;s sabemos que h&#225;, porque somos n&#243;s mesmos e experienciamos como &#233; ser n&#243;s mesmos. A exist&#234;ncia de um fato n&#227;o depende de algu&#233;m conseguir descrev&#234;-lo.</p><h2>Rel&#226;mpagos e Subjetividade</h2><p>Aqui o reducionista tem uma resposta forte.</p><p>A ci&#234;ncia reduz apar&#234;ncias subjetivas a realidades objetivas o tempo todo, ele dir&#225;. Considere os rel&#226;mpagos. Antes da ci&#234;ncia, um rel&#226;mpago era um clar&#227;o aterrorizante no c&#233;u, com uma apar&#234;ncia bem espec&#237;fica para os olhos humanos. A ci&#234;ncia mostrou que, na verdade, um rel&#226;mpago &#233; uma descarga el&#233;trica. E assim entendemos o que s&#227;o os rel&#226;mpagos sem precisar nos transformar em rel&#226;mpagos. Bastou abandonar o nosso ponto de vista, o clar&#227;o visto, para chegar &#224; realidade mais profunda dos el&#233;trons.</p><p>Por que n&#227;o fazer o mesmo com a mente? O c&#233;rebro parece uma mente subjetiva para quem o tem por dentro. Mas, assim como o clar&#227;o &#233; s&#243; eletricidade, o sentir seria s&#243; neur&#244;nios disparando. Bastaria abandonar o ponto de vista subjetivo para enxergar a realidade objetiva por tr&#225;s dele.</p><h2>Subjetividade e Rel&#226;mpagos</h2><p>A resposta de Nagel &#233; a melhor parte do ensaio.</p><p>Repare em como a redu&#231;&#227;o funciona. Quando reduzimos o raio a uma descarga el&#233;trica, como foi que fizemos? Deixando o ponto de vista humano para tr&#225;s. Dissemos: o clar&#227;o &#233; s&#243; um efeito sobre o olho humano; vamos ignorar o clar&#227;o e estudar os el&#233;trons. O mesmo vale para o som do trov&#227;o. Quando descobrimos que o som &#233; uma onda no ar, trocamos um ponto de vista por outro, e o ponto de vista auditivo que deixamos para tr&#225;s continuou ali, intocado, sem ser reduzido. A redu&#231;&#227;o n&#227;o o explicou. Apenas o p&#244;s de lado.</p><p>Esse &#233; o motor de toda redu&#231;&#227;o bem-sucedida. Ela funciona deixando o ponto de vista de fora.</p><p>Agora aplique esse mesmo m&#233;todo &#224; mente. Com a mente, o ponto de vista &#233; justamente a coisa que voc&#234; tem que estudar. Voc&#234; pode se afastar do ponto de vista humano para entender uma nuvem, a &#225;gua, o raio, o som, porque essas coisas est&#227;o l&#225; fora, para al&#233;m do ponto de vista; o ponto de vista foi s&#243; o modo como voc&#234; as pegou da primeira vez. Mas a experi&#234;ncia <em>&#233;</em> o ponto de vista. Tire o ponto de vista e n&#227;o sobra experi&#234;ncia nenhuma para estudar.</p><p>Eis a ironia. A redu&#231;&#227;o funciona porque p&#245;e o ponto de vista de lado. E &#233; exatamente por isso que ela n&#227;o toca na &#250;nica coisa que &#233; um ponto de vista.</p><h2>O que Continua sem Resposta</h2><p>Ent&#227;o Nagel est&#225; dizendo que a alma existe? Que um fantasma assombra o cr&#226;nio? Que o materialismo &#233; falso?</p><p>N&#227;o. Nagel n&#227;o diz que o materialismo &#233; falso. Nem diz, com confian&#231;a, que &#233; verdadeiro. O ponto dele &#233; mais estranho e mais profundo.</p><p>Mesmo que cada estado mental seja, de fato, um estado f&#237;sico, n&#243;s n&#227;o temos nenhuma concep&#231;&#227;o de como isso poderia ser verdade. O problema n&#227;o &#233; falta de dados. &#201; falta de conceitos. Temos a palavra &#8220;&#233;&#8221; e a palavra &#8220;s&#227;o&#8221;. As usamos para dizer que eventos mentais s&#227;o eventos f&#237;sicos. O que poderia ser mais claro do que &#8220;&#233;&#8221; e &#8220;s&#227;o&#8221;? Mas quando os dois lados s&#227;o muito diferentes, o &#8220;&#233;&#8221; sozinho n&#227;o diz como a identidade se sustenta. Precisamos de uma base conceitual, de uma teoria, para ver como dois caminhos de refer&#234;ncia chegam &#224; mesma coisa. Sem essa base, a afirma&#231;&#227;o de que a mente &#233; o c&#233;rebro soa m&#237;stica.</p><p>Nagel oferece uma analogia. Imagine &#8220;a mat&#233;ria &#233; energia&#8221; dito por um fil&#243;sofo pr&#233;-socr&#225;tico. O grego estaria certo se o E=mc&#178; de Einstein estiver certo. Mas faltariam ao grego antigo a f&#237;sica e a matem&#225;tica para entender o que ele mesmo estaria dizendo. A nossa situa&#231;&#227;o diante de &#8220;a mente &#233; o c&#233;rebro&#8221; &#233; parecida. Temos a frase. N&#227;o temos os conceitos que a tornariam compreens&#237;vel. Somos pr&#233;-socr&#225;ticos da teoria da identidade mente-corpo.</p><p>E &#233; aqui que est&#225; o n&#243;. Os conceitos que faltam, faltam para leigos e para experts. O vocabul&#225;rio do senso comum n&#227;o os tem. E o vocabul&#225;rio cient&#237;fico, feito para ser objetivo, deixa o problema escorrer por entre os dedos, porque, para ser objetivo, ele precisa deixar o ponto de vista para tr&#225;s, e o ponto de vista &#233; justamente o que &#233; preciso explicar. Nem a imagem que o senso comum faz do mundo, nem a imagem que as ci&#234;ncias fazem do mundo, nos d&#227;o, hoje, os conceitos de que precisar&#237;amos para entender uma afirma&#231;&#227;o de identidade do tipo &#8220;a mente &#233; o c&#233;rebro&#8221;.</p><p>E, ainda assim, talvez seja verdade que a mente <em>&#233;</em> o c&#233;rebro fazendo coisas de c&#233;rebro. Neste caso, o materialismo estaria certo, <em>mas seria incompreens&#237;vel</em>. Por estranho que pare&#231;a, algo que ainda n&#227;o conseguimos compreender pode ser verdade, pois a realidade n&#227;o se dobra aos caprichos e azares da nossa ignor&#226;ncia.</p><p>Tranque uma lagarta num cofre esterilizado. Semanas depois, abra o cofre e encontre uma borboleta. Voc&#234; tem boa raz&#227;o para acreditar que a borboleta era a lagarta, sem a menor ideia de como isso se deu. Talvez estejamos, diante do materialismo, na posi&#231;&#227;o dessa pessoa diante da metamorfose. Temos motivos para acreditar. N&#227;o temos como entender.</p><p>O que falta, ent&#227;o? Faltam conceitos. Como obt&#234;-los? Nagel termina com uma proposta especulativa: uma fenomenologia objetiva. Por exemplo: um m&#233;todo para descrever as experi&#234;ncias de sonar do morcego, ou para explicar a um cego de nascen&#231;a como &#233; ver, em termos que n&#227;o dependam de imagina&#231;&#227;o nem de empatia, intelig&#237;veis at&#233; para quem n&#227;o pode ter aquela experi&#234;ncia. Seria uma maneira de descrever o lado de dentro sem precisar entrar nele. Mas Nagel confessa que n&#227;o sabe se podemos mesmo realizar tal proposta. &#201; compreens&#237;vel, pois a express&#227;o &#8220;fenomenologia objetiva&#8221; soa, para pr&#233;-socr&#225;ticos metaf&#243;ricos da identidade mente-corpo, tal como qui&#231;&#225; sejamos, como &#8220;c&#237;rculo quadrado&#8221;.</p><p>A moral da hist&#243;ria &#233; que mesmo que saibamos exatamente o que o c&#233;rebro do morcego faz, isso n&#227;o &#233; suficiente para que saibamos <em>como &#233; ser um morcego</em>. E a quest&#227;o n&#227;o se resume a morcego. Inclui os outros. Inclui n&#243;s mesmos no passado. Inclui qualquer coisa que tenha experi&#234;ncia. Qualquer coisa que experiencie ser como &#233;.</p><div><hr></div><p>H&#225; v&#225;rias tradu&#231;&#245;es do artigo de Nagel para o portugu&#234;s. Gosto desta aqui:</p><p>Nagel, Thomas. (1974) 2005. &#8220;Como &#233; Ser um Morcego?&#8221; Traduzido por Paulo Abrantes e Juliana Orione. <em>Cadernos de Hist&#243;ria e Filosofia da Ci&#234;ncia</em> 15 (1): 245&#8211;62. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.cle.unicamp.br%2Feprints%2Findex.php%2Fcadernos%2Farticle%2Fview%2F617%2F495">https://www.cle.unicamp.br/eprints/index.php/cadernos/article/view/617/495</a>. </p><p>O original &#233; este aqui:</p><p>Nagel, Thomas. 1974. &#8220;What Is It Like to Be a Bat?&#8221; <em>The Philosophical Review</em> 83 (4): 435&#8211;50. <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.jstor.org%2Fstable%2F2183914">https://www.jstor.org/stable/2183914</a>. </p>]]></content:encoded></item></channel></rss>