<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[descabendo.]]></title><description><![CDATA[Escritora, palestrante, educadora de percepções. Interessada pelo que não se explica e se perde quando tentamos entender demais. Sustento o espaço de transição entre o que não cabe mais e o que começa a se revelar.]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!D-ak!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe2ec84ec-3c94-4e71-96db-51956370955b_900x900.png</url><title>descabendo.</title><link>https://raminaelshadai.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 03 Nov 2026 21:16:14 GMT</lastBuildDate><atom:link href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Ffeed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[descabendo.]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[raminaelshadai@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[raminaelshadai@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ramina El Shadai]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ramina El Shadai]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[raminaelshadai@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[raminaelshadai@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ramina El Shadai]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Irrepetido]]></title><description><![CDATA[Hoje &#233; dia de poema]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/irrepetido</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/irrepetido</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 29 Oct 2026 03:17:32 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21rqb2%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">nem sempre
o que assusta
&#233; a noite

&#224;s vezes
&#233; a claridade
quando n&#227;o cai 
sobre territ&#243;rio domesticado

dessas coisas 
que afastam gente
da morte do medo
de seguir sem parapeito

o novo n&#227;o confirma caminho
n&#227;o repete paisagem
n&#227;o oferece o conforto
de um ch&#227;o j&#225; pisado

novo n&#227;o vem
- aparece
quando defesa antiga
por um segundo
deixa escapar

uma delicadeza intacta
um modo de tocar o mundo
que antecede a geometria do recuo
como forma de viver

o novo 
n&#227;o tem brilho de come&#231;o
nem voz de promessa
s&#243; o jeito mais simples
de uma janela aberta

um ar
e alguma coisa em n&#243;s
que pela primeira vez
n&#227;o se apressa em fechar

viver
- esse instante sem armadura
em que natureza
desata o f&#244;lego

muda o olhar que habita o mundo
e faz de cada pedra uma outra mat&#233;ria de nascer
quando algo em n&#243;s
desaprende a repetir

</pre></div><div><hr></div><p>Querido leitor, querida leitora,</p><p style="text-align: justify;">Estou fora do Brasil, em um tempo de peregrina&#231;&#227;o a caminho de Santiago de Compostela.</p><p style="text-align: justify;">Escrevi esse poema sobre nossos tr&#226;nsitos internos, sobre nossos espa&#231;os que se abrem quando o sentido de tudo &#233; simplesmente viver. Uma escolha que nasceu de um pulsar do meu corpo num desejo absoluto de conhecer um lugar que parecia j&#225; me conhecer.</p><p style="text-align: justify;">Faz um tempo, numa noite com minhas alunas, est&#225;vamos conversando sobre nossos pulsos internos e eu lancei um est&#237;mulo: &#8220;<strong>respire fundo, sinta seu cora&#231;&#227;o em luz e fa&#231;a uma pergunta sem buscar respostas, apenas observe a comunica&#231;&#227;o com o Universo: </strong><em><strong>Qual lugar nesse mundo est&#225; profundamente conectado com meu sentido de existir, aguardando reconhecimento</strong></em><strong>?</strong>&#8221; (essa turma j&#225; tinha uma comunica&#231;&#227;o consciente com as estruturas vibracionais). Eu senti em mim a express&#227;o &#8220;mar da espanha&#8221;. Conservei essa informa&#231;&#227;o em lat&#234;ncia, porque nem tudo &#233; resposta. Muitas informa&#231;&#245;es v&#227;o se encaixando &#224; medida que o tempo vai revelando seus cen&#225;rios. </p><p style="text-align: justify;">No ano passado, comecei a sentir essa viagem. Ainda sem consist&#234;ncia, apenas observando os fluxos, as sensa&#231;&#245;es, iniciei pesquisas sobre possibilidades. Existem 14 caminhos que nos levam para Santiago de Compostela. Apenas um me chamava aten&#231;&#227;o, e ele passaria pelo mar da Espanha. Fiquei atenta a esse gigantesco detalhe!</p><p style="text-align: justify;">Percebi que,  enquanto estudava os mapas, estava me interessando muito por uma cidade chamada Vigo. Um interesse fora do comum. De repente, ela se destacou aos meus olhos e naturalmente, comecei a me debru&#231;ar em tudo que pudesse me informar sobre essa cidade, na perspectiva de me conectar a uma real possibilidade do nosso roteiro por l&#225;. Bom! Mais um elemento dessa rede de conex&#245;es. Informa&#231;&#245;es acrescidas conservadas em lat&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">A vida seguiu e numa tarde qualquer de trabalho, decidi fazer uma pausa. Sentei-me na poltrona onde realizo minhas conex&#245;es conscientes e naturalmente eu disse internamente:  &#8220;O que a vida, em meu cora&#231;&#227;o, tem a me dizer sobre mim agora?&#8221; Eu estava de olhos fechados, estiquei meu bra&#231;o direito at&#233; a prateleira de livros, peguei um &#8220;livro qualquer&#8221;, trouxe ao cora&#231;&#227;o, respirei fundo e abri aleatoriamente, ainda de olhos fechados. Poderia ser qualquer dos muitos livros que tenho aqui, inclusive perguntas como essa s&#227;o acostumadas com sinais, simbolos, com informa&#231;&#245;es que sozinhas n&#227;o dizem nada, pois precisam de uma percep&#231;&#227;o atenta que revele, usando o corpo todo, o que aquele sinal est&#225; realmente dizendo. Mas era um livro sobre as viagens realizadas por uma jornalista, rec&#233;m adquirido, que eu ainda n&#227;o tinha lido. E pasme: eu abri o livro na p&#225;gina cujo cap&#237;tulo de chamava Vigo. Fiquei alguns minutos sentindo o impacto daquela experi&#234;ncia em mim. </p><p style="text-align: justify;">Fui consultar o pre&#231;o da passagem a&#233;rea e o fluxo estava <em>animadamente </em>me guiando. Daquele momento em diante, me preparar para essa viagem passou a fazer parte da rotina. Preparar o corpo para caminhadas de longa dist&#226;ncia com uma mochila nas costas, preparar a mochila e todos os apetrechos de uma peregrina de primeira viagem, literalmente. E, o mais importante, exercitar minhas aberturas para experi&#234;ncias n&#227;o imaginadas e para perceber profundamente esse Mar da Espanha, permitindo que nossos sil&#234;ncios fossem habitados.</p><p style="text-align: justify;">Aqui estou. Tr&#234;s anos depois que essa hist&#243;ria come&#231;ou a mover-me por dentro, at&#233; ganhar corpo do lado de fora. </p><p style="text-align: justify;">S&#227;o experi&#234;ncias e sensa&#231;&#245;es novas a cada segundo dos meus dias. Nada &#233; terreno pisado, mas tudo j&#225; germinava nessa terra f&#233;rtil. Cora&#231;&#227;o feliz e em paz por tantos movimentos e tanta certeza de que <strong>vida &#233; o exerc&#237;cio de viver</strong>. </p><p style="text-align: justify;">Falar de certezas numa cultura que nos ensina que n&#227;o temos certeza de nada &#233; mais do que ousadia, &#233; coisa de quem perdeu o restinho da necessidade de explicar qualquer coisa. </p><p style="text-align: justify;">Ah, meu querido leitor, minha querida leitora. Um poema e uma carta!</p><p style="text-align: justify;">Que hoje voc&#234; possa sentir o pulsar da vida que, do meu cora&#231;&#227;o, chega ao seu!</p><p style="text-align: justify;">Abra&#231;os inteiros, Ramina</p><h5 style="text-align: justify;">Na pr&#243;xima semana, farei uma pequena pausa por aqui.                                                                     A newsletter retorna no dia 12/11. At&#233; l&#225;. Abra&#231;os inteiros!</h5><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21rqb2%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21rqb2%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg" width="376" height="470" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1350,&quot;width&quot;:1080,&quot;resizeWidth&quot;:376,&quot;bytes&quot;:143245,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/220250620?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rqb2!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5f0712ff-044c-496e-81bd-843116bd040b_1080x1350.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A teoria das coisas que fazemos quando ninguém está olhando]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica sobre os pequenos delitos contra a l&#243;gica, cometidos na intimidade do cotidiano.]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/a-teoria-das-coisas-que-fazemos-quando</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/a-teoria-das-coisas-que-fazemos-quando</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 22 Oct 2026 07:10:39 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21uhtN%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu sei que existe uma pessoa que s&#243; aparece quando ningu&#233;m est&#225; olhando. Ela abre a geladeira sem fome. Fica ali, de porta aberta, examinando os alimentos como se esperasse encontrar uma solu&#231;&#227;o para alguma coisa.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o encontra solu&#231;&#227;o alguma. Fecha. Passados alguns minutos, abre de novo. &#201; uma pessoa insistente, me parece.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m entra num c&#244;modo sem saber exatamente o porqu&#234;. Para no meio, olha ao redor. N&#227;o encontra a raz&#227;o de estar ali.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Eu s&#243; vim pegar uma coisa&#8221;.<br>Que coisa? N&#227;o sabe.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Eis uma das atividades mais subestimadas da vida adulta: fazer coisas sem uma justificativa aceit&#225;vel.</strong> E posso afirmar que &#233; maravilhoso n&#227;o precisar explicar ou justificar nossas escolhas.</p><p style="text-align: justify;">Existe uma quantidade absurda de pequenas coisas que fazemos sozinhos e que desapareceriam imediatamente se algu&#233;m entrasse na sala.</p><p style="text-align: justify;">Dan&#231;ar enquanto a &#225;gua ferve. N&#227;o uma dan&#231;a especificamente, mas uma sequ&#234;ncia de movimentos de pernas, bra&#231;os, express&#245;es faciais, que n&#227;o sobreviveria a nenhuma testemunha, principalmente quando acompanhada daquele som democr&#225;tico que mistura ritmos e g&#234;neros numa respira&#231;&#227;o s&#243;.</p><p style="text-align: justify;">Cantar uma m&#250;sica errando deliberadamente a letra porque a letra correta, naquele momento, n&#227;o serve. Quem nunca cantou alto &#8220;trocando de biquini&#8230;&#8221; ao inv&#233;s de &#8220;tocando B.B King&#8230;&#8221;. E tem aquela &#8220;entrei de caiaque no navio&#8221;, enquanto era &#8220;entrei de gaiato no navio&#8221;. </p><p style="text-align: justify;">Conversar com algu&#233;m que n&#227;o est&#225; presente. N&#227;o apenas conversar, mas refazer a conversa inteira. Dar uma resposta excelente. Depois outra, ainda melhor. Estabelecer di&#225;logos capazes de serem esquecidos minutos depois.</p><p style="text-align: justify;">Fazer a palestra mais linda do mundo para o azulejo da cozinha enquanto o almo&#231;o fica pronto. Contar hist&#243;rias do come&#231;o ao fim, defender teses e criar o programa mais sofisticado enquanto a massa do p&#227;o &#233; modelada.</p><p style="text-align: justify;">No banheiro, somos particularmente brilhantes. Ali encontramos as frases que deveriam ter sido ditas, a estrutura brilhante de um e-mail importante. A pessoa do banho &#233; r&#225;pida, articulada, espirituosa. J&#225; a pessoa que sai do banho e encontra a vida real costuma responder: &#8220;Ah, deixa pra l&#225;&#8221;. &#201; impressionante a quantidade de grandes argumentos que a &#225;gua leva embora.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; tamb&#233;m a leitura clandestina. Voc&#234; pega um livro, l&#234; duas p&#225;ginas, percebe que est&#225; pensando em outra coisa. Volta. L&#234; novamente. Na terceira tentativa, percebe que est&#225; pensando em uma terceira coisa. Fecha o livro.</p><p style="text-align: justify;">Abre o celular. Procura uma informa&#231;&#227;o que n&#227;o precisava saber. Depois outra. E quando percebe, est&#225; olhando para a fotografia de uma mulher que mora numa cidade que voc&#234; n&#227;o pretende visitar, casada com um homem que n&#227;o conhece, ao lado de um cachorro cujo nome jamais saber&#225;. </p><p style="text-align: justify;">Vinte e sete minutos desapareceram, nenhuma utilidade foi produzida. Com certeza, um &#243;timo intervalo.</p><p style="text-align: justify;">Tem um detalhe que considero especialmente interessante nos comportamentos que n&#227;o apresentamos publicamente. Eles n&#227;o precisam formar uma personalidade coerente. </p><p style="text-align: justify;">A pessoa que passa o dia defendendo disciplina pode passar vinte minutos procurando uma caneta que est&#225; atr&#225;s da pr&#243;pria orelha.</p><p style="text-align: justify;">A pessoa sofisticada pode comer diretamente da panela ou da vasilha de alum&#237;nio. O dia que eu soube que minha amiga querida, uma chefe de cozinha conceituad&#237;ssima gosta de comer no prato de alum&#237;nio, na sua simplicidade interiorana, eu s&#243; consegui arregalar os olhos e admirar com muito entusiasmo.</p><p style="text-align: justify;">A pessoa organizada pode ter uma cadeira onde vivem, h&#225; dias, roupas que ainda n&#227;o est&#227;o suficientemente sujas para lavar nem suficientemente limpas para guardar. E eu tenho certeza de que essa cadeira existe em muitas casas. &#201; uma institui&#231;&#227;o. Ningu&#233;m fala dela. Ela sustenta uma parcela consider&#225;vel da civiliza&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o poderia me esquecer que tamb&#233;m existe uma gaveta. Ou mais de uma, inclusive. A gaveta come&#231;a com boas inten&#231;&#245;es: organizar documentos, separar os cabos, esconder umas coisas. Algum tempo depois, encontramos uma fotografia antiga, sentamos no ch&#227;o e passamos meia hora lembrando de algu&#233;m que n&#227;o vemos h&#225; anos. Encontramos o documento que estava perdido, umas moedas j&#225; nem lembradas, coisinhas &#250;teis que estavam abandonadas por uma quest&#227;o de pilha nova.</p><p style="text-align: justify;">Gavetas n&#227;o fracassam, e ainda sempre oferecem uma lembran&#231;a, penso que seja esse o segredo!</p><p style="text-align: justify;">A vida privada tem dessas pequenas deser&#231;&#245;es. Durante o dia, administramos hor&#225;rios, compromissos, dinheiro, palavras, apar&#234;ncia, prazos, mensagens. Se bem que at&#233; o descanso ganhou m&#233;todo.</p><p style="text-align: justify;">Estranho demais a quantidade de t&#233;cnicas, dicas, estrat&#233;gias para que possamos dormir melhor, comer melhor, respirar melhor, caminhar, alongar, meditar, ler, desacelerar. Como se at&#233; uma pausa precisasse de resultados. Credo!</p><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o chega a noite e algu&#233;m abre a geladeira pela terceira vez sem fome. E n&#227;o tem nada a ver com presen&#231;a, nem com autocuidado. &#201; uma pessoa diante de um pote de azeitonas, sem a menor ideia do que est&#225; fazendo. Vejo dignidade nisso.</p><p style="text-align: justify;">Gosto particularmente das coisas que fazemos e n&#227;o contamos pra ningu&#233;m. N&#227;o chego a pensar em alguma possibilidade de segredo, mas penso que s&#227;o pequenas a&#231;&#245;es sem valor narrativo. Isso &#233; fabuloso.</p><p style="text-align: justify;">Ningu&#233;m chega a uma mesa e diz: &#8220;Voc&#234; sabe o que fiz ontem? Fiquei um temp&#227;o contemplando os c&#237;rculos do quadro pregado na parede da sala. Nessa &#233;poca do ano ele est&#225; emoldurado com a sombra da &#225;rvore l&#225; de fora, uma que d&#225; pra ver da janela, e eu fico ali, s&#243; viajando nas bolinhas, nas sombras, no movimento da luz do sol. Perco o tempo de vista.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o h&#225; um conte&#250;do suficiente capaz de gerar uma postagem. Se bem que at&#233; d&#225;. Mas s&#227;o a&#231;&#245;es que realmente n&#227;o rendem um conselho, uma identifica&#231;&#227;o, uma classe.</p><p style="text-align: justify;">A vida &#233; cheia dessas coisas. Uma pessoa pode passar quarenta anos ao lado de outra e nunca saber que ela cheira livros. Ou que ela coloca uma m&#250;sica e fica parada no meio da cozinha, at&#233; descobrir o que est&#225; querendo cozinhar. Ou ainda que ela, quando est&#225; sozinha, fala em voz alta.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Existe uma parte de n&#243;s que n&#227;o foi feita para ser conhecida. Que n&#227;o foi feita pra ser analisada, condicionada, comparada.</strong></p><p style="text-align: justify;">Que al&#237;vio.</p><p style="text-align: justify;">Talvez o excesso de exposi&#231;&#227;o tenha produzido uma consequ&#234;ncia curiosa: come&#231;amos a acreditar que tudo o que fazemos precisa ser traduz&#237;vel ou, pelo menos, interpret&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">Se voc&#234; corre, precisa haver uma raz&#227;o que justifique ou, pelo menos, um ato de reflex&#227;o sobre isso.</p><p style="text-align: justify;">Se viaja, a experi&#234;ncia tem como condi&#231;&#227;o, ser compartilh&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">Se l&#234;, precisa haver uma ideia que, juntando com a ideia de algu&#233;m vai potencializar a vida de quem estiver diante de voc&#234;s.</p><p style="text-align: justify;">Se descansa, precisa ter sido restaurador.</p><p style="text-align: justify;">Se sofre, precisa ter ensinado alguma coisa.</p><p style="text-align: justify;">Se cozinha, precisa ser a receita que vai te colocar no patamar de melhor pessoa para a companhia de s&#225;bado &#224; noite.</p><p style="text-align: justify;">Se pensa, precisa virar texto.</p><p style="text-align: justify;">A vida privada, essa pobre coitada, vai ficando sem espa&#231;o para simplesmente acontecer. Desconfio seriamente de pessoas que conseguem explicar perfeitamente a si mesmas. Uma pessoa completamente explicada deve ser minimamente exausta.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#201; particularmente &#237;ntimo n&#227;o ter testemunha. &#201; poder fazer alguma coisa que n&#227;o precisa ser incorporada &#224; hist&#243;ria que contamos sobre n&#243;s mesmos.</strong></p><p style="text-align: justify;">Quer coisa mais gostosa do que rir sozinho? Eu falo alto enquanto escrevo, dou boas gargalhadas no meu escrit&#243;rio, pauso textos para me dedicar a uma m&#250;sica inteira que me leve pra longe, ou pra dentro, depende.</p><p style="text-align: justify;">Esquecer o que estava procurando. Sentar no ch&#227;o porque sim. N&#227;o querer transformar nada, n&#227;o melhorar, n&#227;o registrar, n&#227;o compartilhar. Apenas passar alguns minutos fora do personagem. E depois voltar.</p><p style="text-align: justify;">Afinal, amanh&#227; tem reuni&#227;o, e a cadeira continua cheia de roupas.</p><p style="text-align: justify;"></p><h5 style="text-align: center;">                                   </h5><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/a-teoria-das-coisas-que-fazemos-quando?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Agrade&#231;o por voc&#234; estar aqui. Voc&#234; pode me ajudar a fazer esse texto circular? Se conhece algu&#233;m que tamb&#233;m existe antes do personagem, partilhe!</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/a-teoria-das-coisas-que-fazemos-quando?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fa-teoria-das-coisas-que-fazemos-quando%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21uhtN%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21uhtN%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg" width="362" height="678.5637860082304" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:911,&quot;width&quot;:486,&quot;resizeWidth&quot;:362,&quot;bytes&quot;:76407,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/219022566?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff66f3d87-4006-4bb8-8680-db02a2fc35f0_900x1600.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uhtN!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9b62ed8-8bcd-4650-b179-161840b8aaf9_486x911.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p><h5 style="text-align: justify;"></h5>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Desautorização]]></title><description><![CDATA[Um ensaio sobre silenciamento, lideran&#231;a e democracia]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/a-surdez-que-nos-governa</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/a-surdez-que-nos-governa</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 15 Oct 2026 03:01:32 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21Kium%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Aprendemos muito cedo a n&#227;o ouvir.</p><p style="text-align: justify;">Em algumas fam&#237;lias, crian&#231;as crescem sem serem verdadeiramente vistas. Falam e n&#227;o s&#227;o escutadas. Sentem e n&#227;o encontram quem as ajude a compreender o que sentem. Precisam se esfor&#231;ar para conquistar aten&#231;&#227;o, desenvolver estrat&#233;gias para despertar interesse, oferecer alguma coisa em troca daquilo que deveriam receber sem negocia&#231;&#227;o, que &#233; a pr&#243;pria experi&#234;ncia de existir diante de algu&#233;m. Existir diante de algu&#233;m! Parece obvio, mas nem tanto.</p><p style="text-align: justify;">Algumas aprendem a agradar. Outras, a ter um desempenho excepcional. As crian&#231;as boazinhas, que nunca incomodam para n&#227;o terem que pagar o pre&#231;o do inc&#244;modo alheio. As que se tornam engra&#231;adas, as que n&#227;o d&#227;o trabalho, as que antecipam as necessidades dos adultos, as que fazem de tudo para serem necess&#225;rias. Cada uma encontra um caminho para tentar assegurar seu lugar no afeto do outro. Sem perceber, come&#231;am a associar amor a esfor&#231;o, aten&#231;&#227;o a merecimento, e pertencimento a desempenho.</p><p style="text-align: justify;">Uma crian&#231;a que n&#227;o &#233; ouvida n&#227;o deixa necessariamente de falar. Pode falar cada vez mais alto, inclusive. Pode se tornar excessivamente dispon&#237;vel, pode desenvolver uma necessidade permanente de aprova&#231;&#227;o ou pode ainda aprender a esconder dentro dela tudo aquilo que n&#227;o encontra acolhimento. O que ela nem sempre consegue compreender &#233; que a indisponibilidade do outro n&#227;o deveria determinar o valor daquilo que ela tem a dizer.</p><p style="text-align: justify;">Mas &#233; poss&#237;vel viver a vida sem descobrir isso. &#201; poss&#237;vel chegar &#224; idade adulta ainda tentando proteger as pr&#243;prias feridas, ainda confundindo discord&#226;ncia com rejei&#231;&#227;o, confundindo desconforto com amea&#231;a, ou at&#233; mesmo diferen&#231;a com abandono. Existem formas variadas de algu&#233;m ter se sentido de certa forma abandonado na inf&#226;ncia, e isso &#233; facilmente levado para a vida adulta. Inclusive, &#233; nesse ponto que uma experi&#234;ncia &#237;ntima come&#231;a a adquirir dimens&#227;o coletiva.</p><p style="text-align: justify;">Chamo de <em><strong>cultura do exterm&#237;nio</strong></em> esse movimento, cada vez mais naturalizado, de eliminar da nossa experi&#234;ncia tudo aquilo que nos provoca algum inc&#244;modo. Exterminar, aqui, n&#227;o significa apenas destruir fisicamente. Significa tamb&#233;m apagar, excluir, silenciar, desqualificar, deletar, negar a exist&#234;ncia daquilo que amea&#231;a a imagem que constru&#237;mos de n&#243;s mesmos. Afinal, quando aprendemos a ser apagados, a nos escondermos do incomodo de algu&#233;m, aprendemos a apagarmos quem estaria, de alguma forma, amea&#231;ando nossos inc&#244;modos. N&#227;o seria perfeitamente compreens&#237;vel? O tal existir diante de algu&#233;m que n&#227;o nos deveria custar nada!</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o precisamos mais compreender o que nos contraria, j&#225; que podemos deletar. Nem precisamos sustentar uma conversa dif&#237;cil, j&#225; que podemos bloquear. Da mesma forma n&#227;o precisamos investigar o porque de determinada ideia nos incomodar tanto, j&#225; que podemos desautorizar quem a pronuncia. N&#227;o precisamos rever uma convic&#231;&#227;o, seria muita flexibilidade para quem cresceu sob camadas r&#237;gidas desse tipo de prote&#231;&#227;o. Podemos afastar tudo o que coloca nossas r&#237;gidas convic&#231;&#245;es em quest&#227;o. Um perigo isso!</p><p style="text-align: justify;">A tecnologia oferece ferramentas para esse gesto, mas n&#227;o o inventou. Antes de excluir algu&#233;m de uma rede social, j&#225; exclu&#237;amos pessoas das conversas, das decis&#245;es, das fotografias de fam&#237;lia que escolh&#237;amos o momento exato que aquela pessoa ia ao banheiro para que a foto acontecesse. Antes de bloquear uma voz, j&#225; aprend&#237;amos a fazer de conta que n&#227;o a ouv&#237;amos.</p><p style="text-align: justify;">O que muda &#233; a velocidade, o rito de agressividade e a exposi&#231;&#227;o com que tudo isso tem sido feito. <strong>Mas permanece a dificuldade de suportar a exist&#234;ncia do outro quando ela exige alguma revis&#227;o de n&#243;s mesmos. </strong>Novamente, o tal existir diante de algu&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">Toda <strong>cultura de exterm&#237;nio</strong> precisa de mecanismos de controle. &#201; preciso estabelecer o que pode ser dito, quais sentimentos s&#227;o aceit&#225;veis, quais perguntas amea&#231;am a ordem e quais vozes devem ser contidas. O controle se apresenta, muitas vezes, como cuidado, harmonia, respeito, prote&#231;&#227;o. E pode, de fato, haver cuidado, respeito e limites leg&#237;timos nessas rela&#231;&#245;es. O problema come&#231;a quando essas palavras passam a servir de justificativa para impedir qualquer manifesta&#231;&#227;o capaz de revelar uma contradi&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Falas, ambientes, o outro: tudo controlado. Uma fala &#233; controlada para n&#227;o revelar o que pede um olhar mais profundo, atento, reflexivo. J&#225; os ambientes s&#227;o controlados para n&#227;o terem suas certezas desorganizadas. E, o mais grave e o violento penso que seja o controle de uma pessoa, simplesmente para que n&#227;o seja preciso enfrentar a pr&#243;pria inconsist&#234;ncia. O controle &#233; uma ferramenta da inconsist&#234;ncia, do esvaziamento. Qualquer controle! O sil&#234;ncio, ent&#227;o, deixa de ser uma escolha e se transforma numa exig&#234;ncia de conviv&#234;ncia. Isso &#233; uma viol&#234;ncia!</p><p style="text-align: justify;">Tenho pensado muito nas fam&#237;lias em que algu&#233;m determina que n&#227;o se fale de pol&#237;tica nos grupos, sob o argumento de que &#233; preciso preservar a fam&#237;lia. A inten&#231;&#227;o declarada &#233; manter a paz, mas vale perguntar &#8220;o que, exatamente, precisa ser preservado?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Uma fam&#237;lia n&#227;o deixa de existir porque seus integrantes discordam, ou porque percebem a vida de formas t&#227;o distintas. N&#227;o perde necessariamente seus v&#237;nculos porque algu&#233;m apresenta uma vis&#227;o de mundo diferente. Rela&#231;&#245;es maduras n&#227;o dependem da aus&#234;ncia de conflito, mas da capacidade de viver os conflitos, sem transformar o outro em inimigo. Sem entregar defesa o tempo todo, na ideia de que est&#225; sendo atacado.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Quando a &#250;nica maneira de preservar a harmonia &#233; impedir que determinados assuntos sejam discutidos, &#233; bem poss&#237;vel que n&#227;o estejamos protegendo a fam&#237;lia. Estamos protegendo as dores, as certezas e as inconsist&#234;ncias que n&#227;o conseguimos colocar em quest&#227;o. Estamos preservando uma apar&#234;ncia de unidade que s&#243; se mant&#233;m enquanto ningu&#233;m toca naquilo que a sustenta.</strong></p><p style="text-align: justify;">Existe uma diferen&#231;a profunda entre n&#227;o querer discutir um assunto naquele momento e decretar que ele n&#227;o pode ser discutido. &#201; diferente quem reconhece seu pr&#243;prio limite de algu&#233;m que pretende estabelecer o limite da realidade compartilhada. E a pol&#237;tica &#233; um dos lugares em que essa pretens&#227;o se torna mais evidente.</p><p style="text-align: justify;">Constru&#237;mos opini&#245;es sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre a sociedade. Mas nem sempre nos perguntamos de onde elas vieram, quais experi&#234;ncias as sustentam, que informa&#231;&#245;es as contradizem ou que interesses nos levam a defend&#234;-las. Confundimos o que pensamos com o que somos. Tomamos nossas convic&#231;&#245;es como extens&#245;es da nossa identidade e, por isso, qualquer questionamento pode parecer uma tentativa de nos destruir.</p><p style="text-align: justify;">Sem tempo para observar, investigar e elaborar, passamos a chamar de opini&#227;o aquilo que, muitas vezes, &#233; apenas uma rea&#231;&#227;o. Uma rea&#231;&#227;o produzida por experi&#234;ncias particulares, medos antigos, ressentimentos, informa&#231;&#245;es fragmentadas e interpreta&#231;&#245;es que nunca foram submetidas a um mergulho mais profundo.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Ter uma opini&#227;o n&#227;o significa ter compreendido um assunto. Sentir-se convicto n&#227;o &#233; o mesmo que estar bem-informado. E a intensidade com que defendemos uma ideia n&#227;o constitui evid&#234;ncia de sua consist&#234;ncia.</strong></p><p style="text-align: justify;">Pensar exige alguma disponibilidade para a d&#250;vida, para os tr&#226;nsitos, para as possibilidades. Exige tempo para distinguir o que sabemos do que supomos, distinguir aquilo que vivemos daquilo que simplesmente projetamos. &#201; muito importante saber distinguir o que observamos do que aprendemos a repetir e, pior, n&#227;o estamos vendo que estamos repetindo. Faz-se urgente a disposi&#231;&#227;o para reconhecer que a nossa experi&#234;ncia, por mais leg&#237;tima que seja, n&#227;o cont&#233;m a totalidade da experi&#234;ncia humana.</p><p style="text-align: justify;">Sem isso, a opini&#227;o se transforma em territ&#243;rio de defesa. N&#227;o pensamos para compreender, pensamos para confirmar. Uma escuta que n&#227;o se conecta ao conhecer, mas &#224; busca daquele ponto em que poderemos discordar. &#201; n&#237;tido que n&#227;o estamos mergulhados nos argumentos do outro, estamos apenas procurando aquilo que nos autorizaria a descartar tais argumentos.</p><p style="text-align: justify;">&#201; assim que deixamos de perceber pessoas e passamos a lidar apenas com as imagens que constru&#237;mos delas. E, quando chega o momento de escolher quem governar&#225; uma sociedade, levamos conosco esse repert&#243;rio de imaturidades.</p><p style="text-align: justify;"><strong>N&#227;o estou falando de partidos. Estou falando de pol&#237;tica porque a vida &#233; pol&#237;tica, a cultura &#233; pol&#237;tica, as rela&#231;&#245;es s&#227;o pol&#237;ticas, a maneira como distribu&#237;mos aten&#231;&#227;o, reconhecemos direitos, estabelecemos limites, organizamos a conviv&#234;ncia e decidimos quem merece ser ouvido &#233; pol&#237;tica. A complexidade humana &#233; pol&#237;tica porque nenhuma escolha coletiva existe fora das rela&#231;&#245;es de poder, das condi&#231;&#245;es de vida e das consequ&#234;ncias que nossas decis&#245;es produzem sobre os outros.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>E quando um governante faz da </strong><em><strong>cultura do exterm&#237;nio</strong></em><strong> um m&#233;todo para eliminar, excluir ou desconsiderar tudo aquilo que amea&#231;a suas r&#237;gidas convic&#231;&#245;es, colocando em risco a exist&#234;ncia de vidas e de institui&#231;&#245;es que sustentam a diversidade de uma sociedade, come&#231;o a questionar, inclusive, tudo o que aprendemos sobre gest&#227;o e lideran&#231;a at&#233; aqui. Uma lideran&#231;a que precisa destruir o que n&#227;o compreende tem muito a nos ensinar sobre o poder, mas pouco sobre a arte de conduzir pessoas.</strong></p><p style="text-align: justify;">Escolher um governante n&#227;o deveria ser a extens&#227;o autom&#225;tica das nossas simpatias, dos nossos ressentimentos ou da nossa necessidade de encontrar algu&#233;m que confirme aquilo em que j&#225; acreditamos. &#201; uma responsabilidade que exige ampliar o campo de percep&#231;&#227;o para al&#233;m da experi&#234;ncia individual.</p><p style="text-align: justify;">Precisamos observar o presente, compreender os cen&#225;rios, examinar propostas, reconhecer interesses, avaliar consequ&#234;ncias e confrontar discursos com fatos. Precisamos perguntar quem ser&#225; afetado por determinada decis&#227;o, quais direitos est&#227;o em jogo, que sociedade se pretende construir e quais s&#227;o os custos de cada escolha. Precisamos estar atentos &#224;s prioridades, ao que &#233; silenciado, exclu&#237;do, eliminado e ao que &#233; colocado &#224; frente de tudo.</p><p style="text-align: justify;">Isso n&#227;o significa alcan&#231;ar uma neutralidade imposs&#237;vel, como se pud&#233;ssemos pensar sem hist&#243;ria, valores ou experi&#234;ncias pessoais. Significa reconhecer que somos atingidos por tudo isso e, justamente por essa raz&#227;o, precisamos submeter nossas percep&#231;&#245;es a um trabalho consciente de reflex&#227;o, com maturidade.</p><p style="text-align: justify;">A maturidade pol&#237;tica come&#231;a quando deixamos de tomar nossas dores como medida do mundo; quando compreendemos que aquilo que nos feriu n&#227;o pode, sozinho, determinar o que consideramos justo; quando somos capazes de reconhecer a humanidade de algu&#233;m, sem precisar concordar com suas ideias; e quando n&#227;o precisamos negar a exist&#234;ncia de absolutamente ningu&#233;m.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Uma sociedade que n&#227;o se disp&#245;e a ouvir, conhecer, aprofundar, conectar informa&#231;&#245;es, al&#233;m de se tornar menos tolerante, torna-se menos capaz de perceber a realidade.</strong> Perde acesso a informa&#231;&#245;es que a contrariam, a experi&#234;ncias que poderiam ampliar sua compreens&#227;o, a alertas que poderiam evitar danos. Ao eliminar as vozes inc&#244;modas, elimina tamb&#233;m parte das possibilidades de corrigir os pr&#243;prios equ&#237;vocos.</p><p style="text-align: justify;">O sil&#234;ncio pode produzir a sensa&#231;&#227;o de ordem. Mas uma ordem que depende da exclus&#227;o de tudo o que a questiona n&#227;o &#233; necessariamente sinal de equil&#237;brio. Temos a apar&#234;ncia de uma estrutura r&#237;gida que n&#227;o suporta ser examinada.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Ent&#227;o, o que, em n&#243;s, precisa permanecer intocado para que n&#227;o consigamos ouvir determinadas pessoas? </strong>N&#227;o me refiro a ouvir tudo passivamente, ou a aceitar qualquer discurso, muito menos a renunciar ao direito de estabelecer limites. Mas existe uma dist&#226;ncia consider&#225;vel entre estabelecer um limite diante de um dano real e eliminar uma voz simplesmente porque ela amea&#231;a nossas certezas. &#201; nessa dist&#226;ncia que se revela a nossa capacidade de discernimento.</p><p style="text-align: justify;">Sinto que a transforma&#231;&#227;o que esperamos da sociedade dependa menos da capacidade de silenciar quem pensa diferente e mais da disposi&#231;&#227;o de examinar o porque de precisarmos silenci&#225;-lo. Transitar dessa urg&#234;ncia rasa de defender opini&#245;es, para a responsabilidade de construir percep&#231;&#245;es. Transitar da necessidade de preservar uma paz aparente, para uma disposi&#231;&#227;o para sustentar rela&#231;&#245;es em que verdades possam ser, de fato, investigadas coletivamente.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Escolher exige ouvir. Exige perceber. Exige permanecer diante de uma quest&#227;o pelo tempo necess&#225;rio para que ela deixe de ser apenas um inc&#244;modo e possa se tornar objeto de compreens&#227;o. </strong>E, se n&#227;o conseguimos fazer isso nas nossas casas, nas nossas rela&#231;&#245;es e nos espa&#231;os mais cotidianos de conviv&#234;ncia, com que maturidade pretendemos faz&#234;-lo diante das escolhas que determinam o destino de uma sociedade inteira?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o podemos continuar ensinando &#224;s crian&#231;as que precisam comprar aten&#231;&#227;o, aos adultos que precisam esconder suas dores e &#224;s fam&#237;lias que precisam apagar suas diferen&#231;as para permanecerem unidas, para depois esperar que todos se tornem cidad&#227;os capazes de pensar com autonomia, reconhecer a complexidade humana e escolher com discernimento.</p><p style="text-align: justify;"><strong>A sociedade que n&#227;o ouve n&#227;o come&#231;a nas urnas. Come&#231;a muito antes, em cada lugar onde algu&#233;m aprende que sua voz n&#227;o importa. Come&#231;a em cada rela&#231;&#227;o onde a discord&#226;ncia &#233; tratada como amea&#231;a, em cada sil&#234;ncio imposto para que ningu&#233;m precise rever a si mesmo.</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; fundamental reconhecer o outro como algu&#233;m que existe para al&#233;m do que desperta em n&#243;s. Algu&#233;m que n&#227;o deveria precisar desaparecer para que pud&#233;ssemos continuar em paz.</p><p style="text-align: justify;">Afinal, governar uma na&#231;&#227;o precisa ser o ato de olhar, considerar e ouvir todos que sustentam a na&#231;&#227;o. Ou, pelo menos, n&#227;o silenciar a voz, nem a vida de ningu&#233;m.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21Kium%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21Kium%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg" width="392" height="490" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1350,&quot;width&quot;:1080,&quot;resizeWidth&quot;:392,&quot;bytes&quot;:443487,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/220077469?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kium!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7398d75-8e15-4a2d-9e78-6195042a9a24_1080x1350.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O departamento de constrangimentos retroativos]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica sobre as pequenas ocorr&#234;ncias que a mem&#243;ria se recusa arquivar]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/o-departamento-de-constrangimentos</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/o-departamento-de-constrangimentos</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 08 Oct 2026 03:02:48 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yAse%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tenho um departamento. N&#227;o sei exatamente onde fica, nem quem o dirige, mas ele funciona com uma efici&#234;ncia que chega a ser ofensiva. &#201; o Departamento de Constrangimentos Retroativos.</p><p style="text-align: justify;">Seu expediente &#233; irregular. Pode permanecer fechado durante meses e, de repente, abrir &#224;s duas da manh&#227;, justamente quando voc&#234; finalmente conseguiu dormir.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o se ocupa de grandes fracassos, dores, medos. Para esses existem a mem&#243;ria, o tempo, alguma maturidade e, em certos casos, uma boa dose de esquecimento. Embora eu esteja sempre atenta para que eles consigam surgir em tempos de consci&#234;ncia para serem, de certa forma, abra&#231;ados.</p><p style="text-align: justify;">O departamento trabalha com outra mat&#233;ria. S&#227;o pequenas ocorr&#234;ncias. Uma frase, um gesto, uma roupa, uma tentativa de fazer gra&#231;a, uma pessoa que voc&#234; cumprimentou achando que estava cumprimentando voc&#234;, uma hist&#243;ria contada com entusiasmo para uma plateia que, naquele momento, s&#243; queria ir embora, e um equ&#237;voco diante de uma amiga, s&#243; tentando ser gentil.</p><p style="text-align: justify;">Coisas assim. Que n&#227;o justificariam sequer um minuto de sofrimento, mas que o departamento considera suficientemente relevantes para serem reconstitu&#237;das em alta defini&#231;&#227;o vinte e dois anos depois. Ou mesmo dias, ele n&#227;o tem no&#231;&#227;o do tempo.</p><p style="text-align: justify;">Voc&#234; est&#225; no meio do trabalho e ele come&#231;a: Voc&#234; s&#243; queria fazer um elogio. Por que falou daquele jeito? Tem no&#231;&#227;o de que por uma brincadeira, mais parecia uma pessoa desagrad&#225;vel?</p><p style="text-align: justify;">Pronto. O expediente come&#231;ou. N&#227;o adianta argumentar que ningu&#233;m mais se lembra. O departamento n&#227;o trabalha com fatos, mas trabalha com a possibilidade remota de que algu&#233;m tenha percebido.</p><p style="text-align: justify;">Como pode certos constrangimentos envelhecerem de maneira t&#227;o curiosa? Na &#233;poca, pareciam acontecimentos. Tempos depois, tornam-se pequenas pe&#231;as arqueol&#243;gicas de uma pessoa que j&#225; n&#227;o existe.</p><p style="text-align: justify;">Voc&#234; olha para aquilo e pensa: eu era essa criatura? Era. Claro que era! Mas tamb&#233;m n&#227;o era. Talvez um dos aspectos mais estranhos desse departamento seja o fato de ele conseguir nos devolver uma perspectiva antiga de n&#243;s com a autoridade de quem apresenta uma testemunha.</p><p style="text-align: justify;">Aos vinte e cinco, voc&#234; pode ter dito uma coisa completamente banal numa mesa de jantar. Aos quarenta e tantos, aquilo retorna. E aquilo n&#227;o era importante. Mas foi justamente por n&#227;o ser importante que chegou aqui agora.</p><p style="text-align: justify;">Os grandes acontecimentos encontram lugar nas nossas narrativas. A gente fica tentando descobrir onde coloc&#225;-los. Existe uma certa l&#243;gica, ou pelo menos alguma sequencia cronol&#243;gica. </p><p style="text-align: justify;">Mas o pequeno constrangimento n&#227;o encontra lugar nenhum porque ele n&#227;o pertence &#224; categoria dos traumas. Fica s&#243; ali. Uma ocorr&#234;ncia sem classifica&#231;&#227;o. E, de tempos em tempos, algu&#233;m d&#225; uma carimbada no processo.</p><p style="text-align: justify;">Existe tamb&#233;m a se&#231;&#227;o de respostas tardias. Essa &#233; uma das mais movimentadas. Voc&#234; se lembra de uma conversa antiga e, subitamente, encontra a resposta perfeita para uma coisa que aconteceu quinze anos atr&#225;s. A resposta inteligente, espirituosa. A resposta que teria deixado a outra pessoa em sil&#234;ncio por tr&#234;s segundos, olhando para voc&#234; com aquela express&#227;o que, na imagina&#231;&#227;o, significa: como nunca pensei nisso antes?</p><p style="text-align: justify;">A resposta real foi: &#8220;&#201;. Pois &#233;.&#8221; </p><p style="text-align: justify;">Mas o departamento at&#233; te permite recursos de edi&#231;&#227;o. Vinte anos depois, voc&#234; finalmente vence uma discuss&#227;o que nunca existiu. Eu vejo uma certa generosidade nisso. O passado, ao menos na nossa cabe&#231;a, aceita revis&#227;o, mesmo que a revis&#227;o nunca melhore o passado. E &#224;s vezes, consegue o tornar ainda mais constrangedor.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; ainda o arquivo das roupas. Esse &#233; desesperador. Uma fotografia antiga &#233; suficiente. O departamento convoca uma reuni&#227;o extraordin&#225;ria. A cal&#231;a, a franja, aquele colar, a combina&#231;&#227;o de estampas, os tecidos. Aquela ideia de que determinada pe&#231;a era sofisticada. &#201; divertido pensar em j&#225; ter usado, e mais divertido pensar que voc&#234; estava feliz ali, posando para foto. Poxa vida! Pra que eu fui me lembrar daquela foto de xuxinha no meio da cabe&#231;a, com uma bota cano longo de couro branca franzida dando impress&#227;o de cano m&#233;dio. Eu tinha apenas 10 anos. Nem sei se isso torna tudo mais perdo&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">Algumas das coisas que hoje nos parecem absurdas foram, em algum momento, motivo de orgulho. &#201; uma maneira bastante eficiente de desconfiar desse tempo presente. Talvez daqui a quinze anos algu&#233;m esteja olhando para uma fotografia nossa e pensando, com genu&#237;na perplexidade: Meu Deus. Ela realmente acreditava que estava &#243;tima.</p><p style="text-align: justify;">Mas ainda existe uma categoria de constrangimento retroativo que me instiga. Aquela que n&#227;o nasce exatamente de algo que fizemos, mas da percep&#231;&#227;o tardia de quanto esfor&#231;o havia naquela pessoa que parec&#237;amos ser.</p><p style="text-align: justify;">A vontade de parecer interessante, de parecer mais segura do que est&#225;vamos. Ou de parecer mais indiferente, ou mais culta, mais desej&#225;vel, mais misteriosa. S&#227;o tantos &#8220;mais&#8221;! Eu gabaritei tudo isso dos quinze aos vinte e poucos. </p><p style="text-align: justify;">Aquela figura que sabia exatamente como entrar numa sala, o que dizer diante de uma provoca&#231;&#227;o, quando rir, quando ironizar silenciosamente, como parecer que n&#227;o se importava. Hoje, olhando para ela, d&#225; uma certa ternura. Ela estava sempre ocupad&#237;ssima.</p><p style="text-align: justify;">Penso seriamente que alguns dos nossos maiores constrangimentos sejam encontros tardios com a nossa pr&#243;pria artificialidade. E essa descoberta &#233; menos confort&#225;vel. &#201; f&#225;cil rir da roupa, mas &#233; mais dif&#237;cil reconhecer a imagem. Novamente, penso em 2046!</p><p style="text-align: justify;">Mas o Departamento de Constrangimentos Retroativos gosta mesmo &#233; de nos lembrar daquele dia em que trope&#231;amos na frente de todo mundo. Que batemos o rosto na porta de vidro. Constrangimento &#233; pouco!</p><p style="text-align: justify;">Lembra daquela mensagem que mandou para a pessoa errada? Do dia que falou &#8220;igualmente&#8221; quando o gar&#231;om disse &#8220;bom apetite&#8221;? Do dia que mandou um beijo para o pai do aluno que apenas acenava as m&#227;os?</p><p style="text-align: justify;">Isso, sim, parece inadi&#225;vel. Talvez a vaidade tenha uma rela&#231;&#227;o bastante particular com a mem&#243;ria. Ela consegue conviver com erros de car&#225;ter de uma maneira relativamente sofisticada, mas uma pequena gafe social? Imposs&#237;vel aceitar.</p><p style="text-align: justify;">Penso que seja injusto exigir de uma pessoa do passado a eleg&#226;ncia que s&#243; conseguimos adquirir depois de experiment&#225;-la. E mesmo assim, o departamento continuar&#225; funcionando.</p><p style="text-align: justify;">Ele tem estabilidade, conhece todos os nossos endere&#231;os e n&#227;o parece interessado em aposentadoria. De vez em quando, portanto, ele vai abrir uma gaveta e tirar de l&#225; uma cena de 2003. Vai restaur&#225;-la cuidadosamente e vai coloc&#225;-la sobre a mesa como se tivesse acabado de acontecer.</p><p style="text-align: justify;">E n&#243;s vamos olhar para aquilo, horrorizados. Talvez, com alguma sorte, consigamos fazer uma coisa que n&#227;o sab&#237;amos fazer naquela &#233;poca: rir.</p><p style="text-align: justify;">E nem &#233; rir exatamente da pessoa que fomos, mas rir <strong>ao lado dela</strong>. Porque chega uma hora que a gente, realmente, para de condenar o passado e come&#231;a a deix&#225;-lo em paz. Pelo menos at&#233; o pr&#243;ximo expediente.</p><p style="text-align: justify;">E, se tudo der certo, daqui a vinte anos, no meio da noite, haver&#225; outra estrutura de n&#243;s olhando para as ocorr&#234;ncias de agora, carimbando sem provid&#234;ncias e voltando a dormir.</p><p style="text-align: justify;">Espero que, a essa altura, o departamento j&#225; tenha aprendido a n&#227;o desviar mais a minha aten&#231;&#227;o. Tudo bem que algumas coisas merecem ser lembradas. Mas vamos combinar que outras coisas s&#243; precisam, finalmente, prescrever.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/o-departamento-de-constrangimentos?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fo-departamento-de-constrangimentos%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yAse%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yAse%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg" width="428" height="760.8888888888889" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1600,&quot;width&quot;:900,&quot;resizeWidth&quot;:428,&quot;bytes&quot;:50203,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/219002910?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yAse!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d75bd61-eaa9-4dd2-a1c9-f05227af5f9c_900x1600.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A educação invisível]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica-ensaio sobre aquilo que aprendemos antes de saber que est&#225;vamos aprendendo]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/a-educacao-invisivel</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/a-educacao-invisivel</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 01 Oct 2026 03:03:10 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21EaSL%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A gente sabe que existem umas coisas que aprendemos antes de saber que aquilo era um aprendizado.</p><p>Uma crian&#231;a observa a m&#227;e dobrar cuidadosamente uma blusa antes de guard&#225;-la e talvez n&#227;o saiba que aquilo &#233; uma forma de amor. Observa o pai chegar em casa e, antes mesmo de olhar para ele, escuta o modo como a chave entra na fechadura. Aprende, pelo ru&#237;do, se aquela noite pede conversa ou sil&#234;ncio. Ouve da m&#227;e que crian&#231;a n&#227;o d&#225; palpite nas escolhas da casa, ou que &#233; melhor ir para o quarto para n&#227;o incomodar quem est&#225; precisando descansar, entendendo que para pertencer &#233; preciso se retirar, n&#227;o incomodar ou at&#233; mesmo deixar as pr&#243;prias necessidades para depois.</p><p>Uma porta fechada com mais for&#231;a do que o necess&#225;rio, ou at&#233; mesmo um prato retirado da mesa antes da sobremesa. Uma refei&#231;&#227;o totalmente silenciada, o telefone que fica tocando sem ningu&#233;m atender, os n&#227;os que chegam antes que se possa pedir alguma coisa.</p><p>Ningu&#233;m explica. S&#227;o os conhecimentos que chegam pelos desvios. <strong>Ouso chamar de pedagogia do ambiente. </strong>Ela n&#227;o usa palavras para estabelecer a regra de forma clara, mas permanece ganhando seu pr&#243;prio corpo.</p><p><strong>Suspeito que uma parte consider&#225;vel daquilo que chamamos personalidade tenha sido formada por essas pequenas observa&#231;&#245;es feitas quando ainda n&#227;o possu&#237;amos vocabul&#225;rio para aquilo que observ&#225;vamos</strong>.</p><p>Uma crian&#231;a aprende que dinheiro &#233; medo antes de aprender a som&#225;-lo. Aprende que amor pode ter a delicadeza de um caf&#233; deixado sobre a mesa, ou a geometria de uma cobran&#231;a. Aprende que algumas pessoas podem errar sem consequ&#234;ncias e outras precisam pedir desculpas at&#233; pelo modo como respiram. <strong>Uma crian&#231;a sempre aprende o tamanho que ela precisa ocupar para que algu&#233;m possa se sentir grande</strong>.</p><p>Crian&#231;as aprendem com o corpo quando precisam falar mais baixo, pedir desculpas quando pedem algo, hesitar antes de escolher, sentir culpa por precisar de alguma coisa, observar primeiro o que os outros querem. Crian&#231;as aprendem com o corpo quando sentem desconforto por receberem aten&#231;&#227;o, quando sentem dificuldade de dizer &#8220;eu quero&#8221;, por sentirem que est&#227;o &#8220;ocupando espa&#231;o demais&#8221;, por retirarem-se espontaneamente quando percebem algu&#233;m cansado, irritado ou indispon&#237;vel.</p><p>Crian&#231;as que se tornam muito boas em <strong>n&#227;o dar trabalho</strong>. Que crescem monitorando mais do que o perigo, elas crescem monitorando <strong>o direito que tem de existir naquele ambiente</strong>.</p><p>Elas aprendem a observar o rosto da m&#227;e, o tom de voz, o cansa&#231;o, a disponibilidade, para calcular se podem aparecer, se podem falar, se podem querer, se podem ocupar espa&#231;os.</p><p>Muitas casas ainda educam para o sil&#234;ncio, ou para a vigil&#226;ncia. Crian&#231;as que crescem em estado de alerta. N&#227;o estou falando de uma inf&#226;ncia que ficou distante ou que pertence a apenas um nicho espec&#237;fico. Estou falando dos adultos com quem convivo que vieram de fam&#237;lias que formam excelentes leitores de atmosfera: adultos capazes de perceber uma altera&#231;&#227;o de temperatura numa conversa, antes que qualquer palavra a denuncie.</p><p>Conhe&#231;o adultos atentos. E atentos at&#233; demais. <strong>O que um dia foi neglig&#234;ncia, muitos anos depois, costuma se tornar cansa&#231;o.</strong></p><p>Tamb&#233;m existe uma educa&#231;&#227;o que acontece fora da casa. Um professor que faz da ignor&#226;ncia um constrangimento p&#250;blico. Um m&#233;dico que fala apenas com a m&#227;e e n&#227;o se prop&#245;e a ouvir a crian&#231;a.</p><p>S&#227;o muitas pessoas que nos ensinaram sem jamais terem pretendido ensinar. E s&#227;o muitas as pessoas que continuam nos ensinando muito depois de terem desaparecido. Basta uma frase antiga para mexer num espa&#231;o inteiro da mem&#243;ria.</p><p>&#201; curioso o que sobrevive. Esquecemos datas, f&#243;rmulas, capitais, nomes de reis. E lembramos o tom de uma professora dizendo nosso nome (lembramos e at&#233; arrepiamos algumas vezes). Lembramos de quem riu quando erramos, lembramos de quem nos esperou, de quem nos devolveu uma pergunta em vez de nos oferecer uma resposta. Lembramos de quem nos deixou de fora porque sab&#237;amos mais, ou porque sab&#237;amos menos, ou porque nossos cabelos, nossos cromossomos, nossa melanina, nossos amores, nossas c&#233;lulas adiposas, nossas escolhas, nossa hist&#243;ria, porque aquilo que &#233; nosso n&#227;o cabia na caixinha que eles chamaram de mundo.</p><p><strong>Sinto que a educa&#231;&#227;o seja menos aquilo que algu&#233;m coloca dentro de n&#243;s e mais aquilo que passa a parecer poss&#237;vel depois que algu&#233;m nos olha de determinado modo</strong>. A educa&#231;&#227;o acontece quando nos sentimos vistos, isso &#233; verdade. Independente do modo como est&#227;o olhando para n&#243;s. &#201; assim que aprendemos a nos olhar tamb&#233;m.</p><p>Depender de discurso &#233; caminho de fal&#234;ncia. Por um tempo, somos repetidores de refer&#234;ncias.</p><p>Penso nisso tudo porque, houve uma fase em que eu costumava encontrar em mim alguma coisa que n&#227;o reconhecia como minha. Uma raiva antiga. Uma sensa&#231;&#227;o de que eu n&#227;o valia a pena.</p><p>Quantas vezes, j&#225; senti necessidade de explicar demais uma decis&#227;o simples. E qu&#227;o grande foram os desconfortos diante de quem me desaprovou.</p><p>Vivi tamb&#233;m a impress&#227;o, inexplic&#225;vel, de que precisaria ter feito algo para merecer aquilo que estava recebendo sem ter pedido. Como se tivesse que esperar o pre&#231;o que uma experi&#234;ncia boa iria me apresentar em algum instante.</p><p>Por v&#225;rios momentos, me ocorreu que talvez ainda tivesse permanecido alguns educadores dentro de mim. Carreguei m&#227;e e professores de inf&#226;ncia, repetindo a mesma li&#231;&#227;o para uma sala de aula vazia.</p><p>Senti que amadurecer passou por um processo de descobrir quais ensinamentos j&#225; tinham cumprido sua fun&#231;&#227;o, e j&#225; n&#227;o cabiam mais em mim, j&#225; n&#227;o ressoavam com o que vinha se revelando em lugares profundos da minha exist&#234;ncia.</p><p>A gente precisa perceber que muitas coisas que chamamos de prote&#231;&#227;o um dia acabaram nos governando. Que algumas prud&#234;ncias envelheceram mal e ficaram apodrecidas dentro de n&#243;s.</p><p>&#201; potente perceber essa esp&#233;cie de educa&#231;&#227;o ao contr&#225;rio, tardia e delicada, que come&#231;a quando finalmente enxergamos o que aprendemos, mas que n&#227;o necessariamente diz sobre n&#243;s.</p><p>Nossas vidas mudam drasticamente de dire&#231;&#227;o quando conseguimos dizer, para n&#243;s mesmos, essa simples e pequena frase: <strong>foi isso que eu aprendi, mas essa hist&#243;ria n&#227;o &#233; a minha</strong>.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/a-educacao-invisivel?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fa-educacao-invisivel%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21EaSL%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21EaSL%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png" width="436" height="774.6992561105208" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1672,&quot;width&quot;:941,&quot;resizeWidth&quot;:436,&quot;bytes&quot;:2253304,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/218039108?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EaSL!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe80124ba-dc34-4ab4-91ab-704c8be58681_941x1672.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ninguém mais precisava de mim]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica sobre cegueira, abandono e a descoberta de uma companhia inesperada]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/ninguem-mais-precisava-de-mim</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/ninguem-mais-precisava-de-mim</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 24 Sep 2026 03:02:14 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%211xFU%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O m&#233;dico pediu que diminu&#237;ssem as visitas.</p><p>Eu ficava euf&#243;rica quando chegava gente. Meu cora&#231;&#227;o acelerava, meu corpo se agitava, as dores aumentavam. Naquele momento, at&#233; receber carinho exigia esfor&#231;o.</p><p>Era preciso descansar. Foi assim que, aos poucos, as pessoas foram parando de ir. Depois foram parando de telefonar. Eu n&#227;o senti falta de ningu&#233;m. Essa &#233; uma parte da hist&#243;ria que quase sempre fica dif&#237;cil de contar.</p><p>As pessoas gostam mais das hist&#243;rias em que algu&#233;m sofre pela aus&#234;ncia dos outros. Existe uma certa eleg&#226;ncia no abandono. A gente pode escrever sobre a cadeira vazia, o telefone que n&#227;o toca, o amigo que desaparece, o pai que... Pode fazer da falta uma esp&#233;cie de personagem. Eu n&#227;o tive esse personagem. Mas eu tinha outras coisas.</p><p>Tinha um quarto de hospital, um corpo que j&#225; n&#227;o obedecia. Tinha perdido a vis&#227;o dos dois olhos, usava fralda, precisava de ajuda para tomar banho, para quase tudo aquilo que uma pessoa aprende a fazer sozinha t&#227;o pequena, que depois nem considera um feito.</p><p>Eu, que nunca havia pedido nada a ningu&#233;m, precisava de algu&#233;m at&#233; para fazer xixi. E n&#227;o achei humilhante. Eu estava cansada demais para sustentar a mulher que havia constru&#237;do de mim mesma.</p><p>Passei uma parte consider&#225;vel da vida tentando ser forte. A gente sabe bem que n&#227;o era exatamente for&#231;a. Era outra coisa.</p><p>Eu precisava ser vista. Admirada. Precisava ocupar um lugar especial na percep&#231;&#227;o das pessoas. Fui criada em estado de alerta, carregando &#225;gua na peneira para n&#227;o ser rejeitada, abandonada, menosprezada. E mesmo assim...</p><p>Era preciso entregar, resolver, ser melhor, dar conta. Ser alguma coisa que justificasse minha perman&#234;ncia. Obviamente, fui ficando r&#237;gida. Mas eu pensava que era for&#231;a. Todo mundo pensa.</p><p>At&#233; que um dia a vida me derrubou. N&#227;o sei se foi uma doen&#231;a ou uma interrup&#231;&#227;o, mas <strong>foi a primeira vez em que meu corpo conseguiu fazer por mim aquilo que eu n&#227;o havia conseguido fazer sozinha: parar.</strong></p><p>No come&#231;o, minha vis&#227;o ficou dupla. Depois, turva. At&#233; que certa manh&#227; acordei e n&#227;o entendi o porque do quarto estar escuro. A janela estava aberta, e tem aquela coisa horrorosa de quarto de hospital que as luzes brancas sempre est&#227;o acesas.</p><p>Eu n&#227;o sabia que estava cega. Foi um susto sem medo.</p><p>Naquele instante, enquanto o mundo desaparecia diante dos meus olhos, alguma coisa dentro de mim descansou. Eu n&#227;o precisava mais enxergar tudo. Que al&#237;vio!</p><p>A vida vinha muito depressa, e eu tamb&#233;m. Naquela escurid&#227;o, pela primeira vez, n&#227;o tinha que acompanhar nada. E ent&#227;o come&#231;aram a acontecer coisas que eu n&#227;o saberia explicar para um m&#233;dico, talvez nem para mim.</p><p>Cenas do meu passado apareciam. Uma confus&#227;o de imagens, sons, cheiros. N&#227;o era nada organizado. Eram peda&#231;os, sensa&#231;&#245;es, alguma coisa aquecia meu peito e, junto com o calor, vinha uma esp&#233;cie de acolhimento. Era um abra&#231;o, porque eu me sentia protegida.</p><p>Depois vinha a dor. Uma dor insuport&#225;vel. &#192;s vezes eu pensava que estava morrendo. Eu ficava ali, olhando para aquilo com uma tranquilidade que n&#227;o combinava com o tamanho da dor. Observava. Esperava. Depois, a dor pausava. Eu relaxava. Suava absurdamente, e vinha uma esp&#233;cie de luto. Depois, paz. N&#227;o exatamente paz. Alguma coisa sem nome, mas o nome mais parecido era paz.</p><p>Isso se repetiu tantas vezes que comecei a perceber que alguma coisa estava sendo liberada em mim. Foi quando comecei a me interessar pela doen&#231;a. N&#227;o pela doen&#231;a, no sentido da inimiga, como aprendemos a consider&#225;-la. Comecei a me interessar por tudo que uma doen&#231;a sabia sobre mim, ou sobre n&#243;s. Passei a conversar com aquilo que estava acontecendo comigo como quem escuta algu&#233;m muito antigo.</p><p>Enquanto meu corpo perdia fun&#231;&#245;es, alguma outra coisa ganhava linguagem. Eu, que n&#227;o enxergava, come&#231;ava a enxergar uma vida inteira. E descobri uma coisa perturbadora: eu gostava da minha companhia. Como gostava!</p><p>Quando ningu&#233;m estava olhando, o que sentia eram dores. Abra&#231;ava essas dores, enxergava de onde elas vinham, deixava que elas sa&#237;ssem pelos meus poros. Depois, vinha aquele luto estranho e, com ele, a paz que eu n&#227;o sabia nomear.</p><p>Eu era uma companheira maravilhosa. N&#227;o me cobrava nada, n&#227;o me acelerava, n&#227;o esperava nada de mim, n&#227;o tinha medo do que sentia. Eu podia chorar sem ficar dizendo pra mim mesma: &#8220;n&#227;o chora n&#227;o&#8221;. Eu n&#227;o fazia promessas de que tudo ficaria bem. Eu estava me sentindo bem a cada m&#237;nimo movimento.</p><p>Foi quando comecei a desconfiar dos vazios que passei tantos anos tentando preencher com pessoas. Onde estavam? N&#227;o estavam. Nunca tinham estado. Eu que confundi necessidade com v&#237;nculo. E desta vez eu n&#227;o estava sozinha, estava comigo.</p><p><strong>N&#243;s aprendemos desde muito cedo a escolher pessoas como quem escolhe objetos para uma casa: esta acrescenta, aquela protege, aquela reconhece, aquela confirma. Sacos vazios procurando em outros sacos alguma coisa que deveria ter nascido dentro.</strong></p><p>Havia em mim uma for&#231;a que n&#227;o dependia da minha capacidade de produzir, agradar, resolver, impressionar ou permanecer dispon&#237;vel. Eu apenas observava. A consci&#234;ncia j&#225; estava cuidando de tudo. Eu n&#227;o precisava fazer for&#231;a para existir. E o mais estranho: eu gostei! Gostei muito. N&#227;o sofri como seria esperado.</p><p>Havia em mim uma certeza silenciosa de que aquilo n&#227;o duraria para sempre. Ent&#227;o, eu pude permanecer ali, ouvir, perceber, sem brigar.</p><p><strong>Eu me entrego &#224;s coisas. N&#227;o espero que as coisas sejam f&#225;ceis, mas n&#227;o tenho voca&#231;&#227;o para disputar com as rotas da vida. Se eu n&#227;o sabia parar sozinha, a vida parou por mim. O fato &#233; que eu andava derrubando a vida de tanto tentar sustent&#225;-la. Foi justo. A vida me derrubou. Justo, s&#225;bio e certeiro.</strong></p><p>Dois anos depois, minha filha nasceu. E eu enxerguei. N&#227;o sei se existe maneira menos grandiosa de contar isso: Eu estava cega. Ela nasceu. E a luz voltou. No exato momento que ela nasceu, voltei a enxergar o mundo. Eu dei &#224; luz e ela me devolveu a luz.</p><p>Ela nasceu de uma mulher que j&#225; havia descoberto que, quando deixamos de ser necess&#225;rias, pode acontecer uma coisa terr&#237;vel e bonita: descobrimos quem somos quando ningu&#233;m est&#225; precisando de nada.</p><p>Esse &#233; o grande medo!</p><p>Passamos tanto tempo acreditando que precisamos ser fortes para sobreviver, que esquecemos de perguntar o que existe quando a for&#231;a deixa de ser necess&#225;ria.</p><p>Eu sei agora. Existe uma mulher que sente, que d&#243;i, que descansa. Que n&#227;o impressiona ningu&#233;m. Que n&#227;o entrega nada esperando nada em troca, que n&#227;o corre atr&#225;s de nada. E ainda assim, permanece.</p><p>At&#233; aos 29 anos eu fui r&#237;gida, alerta, tensa, necess&#225;ria. Hoje, aos quase 50, j&#225; tenho outra preocupa&#231;&#227;o: ser flex&#237;vel e consistente o bastante para n&#227;o precisar provar que sobrevivi.</p><p><strong>Eu sempre penso naquela mulher que acordou cega numa manh&#227; qualquer, em sequela de um AVC. Ela n&#227;o perdeu a vis&#227;o. Ela apenas ficou por um tempo, sem precisar olhar para fora antes de ter sustentado o pr&#243;prio olhar por dentro primeiro.</strong></p><p>Daquela escurid&#227;o nasceu uma companhia. Aquela mulher que antes ningu&#233;m via. Nem eu.</p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/ninguem-mais-precisava-de-mim?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong><span data-color="#0d475a" style="color: rgb(13, 71, 90);">Compartilhe! H&#225; sempre algu&#233;m escondido por tr&#225;s da necessidade de ser visto por algu&#233;m.</span></strong></p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/ninguem-mais-precisava-de-mim?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fninguem-mais-precisava-de-mim%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%211xFU%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%211xFU%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png" width="468" height="702" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1536,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:468,&quot;bytes&quot;:1947254,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/216832877?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1xFU!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92bcf66c-4fc1-4af7-a417-1dc526f63eb7_1024x1536.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Antes que alguém explique ]]></title><description><![CDATA[Um ensaio sobre a perda silenciosa da percep&#231;&#227;o]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/antes-que-alguem-explique</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/antes-que-alguem-explique</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 17 Sep 2026 03:01:43 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21x0hq%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Outro dia, algu&#233;m me contou que estava diante de uma decis&#227;o. N&#227;o era uma cirurgia, uma mudan&#231;a de pa&#237;s, o fim de um casamento, a escolha de uma profiss&#227;o. Era uma coisa relativamente pequena, considerando a estrutura de vida.</p><p style="text-align: justify;">- Eu n&#227;o sei o que fazer.</p><p style="text-align: justify;">Eu fiz uma simples pergunta:</p><p style="text-align: justify;">- Mas o que voc&#234; quer?</p><p style="text-align: justify;">Ela pensou. N&#227;o sabia. Ent&#227;o come&#231;ou a explicar. Disse que precisava entender se aquilo era medo ou intui&#231;&#227;o. Se era uma repeti&#231;&#227;o de algum padr&#227;o, se tinha rela&#231;&#227;o com a inf&#226;ncia, se poderia estar reproduzindo alguma din&#226;mica familiar. Ela j&#225; tinha feito um teste, assistido a um v&#237;deo e estava em busca de opini&#245;es e posicionamentos sobre sua escolha. Ela n&#227;o queria me ouvir como uma profissional da comunica&#231;&#227;o vibracional, mas como uma amiga que pudesse nutrir ainda mais esse padr&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Quando percebeu, a decis&#227;o que n&#227;o sabia tomar j&#225; tinha virado uma pequena tese sobre si mesma. E ainda n&#227;o sabia se queria ou n&#227;o queria.</p><p style="text-align: justify;">Assunto bom pra observar: Como conseguimos complicar uma coisa que diz apenas sobre nossa percep&#231;&#227;o sobre n&#243;s.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o estou falando de abandonar a reflex&#227;o, o acolhimento, a consci&#234;ncia. Nem de voltar a uma esp&#233;cie de espontaneidade ing&#234;nua, como se toda sensa&#231;&#227;o fosse um caminho a ser seguido, e n&#227;o uma potente comunica&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">O problema come&#231;a quando a interpreta&#231;&#227;o passa a ocupar o lugar da experi&#234;ncia. &#201; quando j&#225; n&#227;o basta sentir alguma coisa, que &#233; preciso saber o que significa sentir aquilo. Considerando que essas descobertas estariam vindo do acesso a informa&#231;&#245;es generalizadas em meios externo a quem sente. A vida, que j&#225; anda dif&#237;cil por si s&#243;, ganhando uma camada adicional de burocracia, como se at&#233; para fazer uma escolha fosse preciso, literalmente, preencher um formul&#225;rio de justificativas.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o sei se voc&#234; j&#225; reparou quanta gente tem se nomeado consciente de si e, ao mesmo tempo, t&#227;o distante de si. Porque essa rela&#231;&#227;o de &#8220;ligue os pontos&#8221; entre o que se vive e suas infind&#225;veis justificativas n&#227;o se refere a estados elevados de consci&#234;ncia. N&#227;o mesmo!</p><p style="text-align: justify;">Trata-se de saber justificar o pr&#243;prio comportamento, sem conhecer sua estrutura e processo de forma&#231;&#227;o, portanto, sem condi&#231;&#245;es de mudar o que sustenta, de fato, esse comportamento.</p><p style="text-align: justify;">Conhecer o nome do mecanismo, identificar o gatilho, identificar o padr&#227;o, conhecer a linguagem do trauma, falar sobre limites, sistema nervoso, sombra, ancestralidade, autossabotagem, crian&#231;a interior. Mas n&#227;o conseguir ouvir um n&#227;o, respeitar os tempos, se relacionar com os sentidos, silenciar-se diante de algu&#233;m que pensa de uma outra forma, suportar a pequena frustra&#231;&#227;o de n&#227;o ser compreendido.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; uma estranha falta de conex&#227;o nisso.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Passamos tanto tempo aprendendo a nos conhecer que talvez tenhamos esquecido de simplesmente nos perceber</strong>. E perceber &#233; uma coisa muito menos sofisticada, mas muito mais perigosa, uma vez que exige presen&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Quando voc&#234; percebe que voc&#234; n&#227;o quer, &#233; preciso assumir isso, mesmo que sua escolha deixe algu&#233;m insatisfeito.</p><p style="text-align: justify;">Quando voc&#234; percebe que algo te faz mal, &#233; preciso decidir n&#227;o usar, n&#227;o ingerir, n&#227;o adquirir, n&#227;o se ocupar com isso.</p><p style="text-align: justify;">Quando voc&#234; percebe que seu corpo incha ou d&#243;i, quando voc&#234; come algum alimento, &#233; preciso escolher n&#227;o sentir mais dor, evitando esse alimento, sem precisar que um exame transforme uma decis&#227;o em urg&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">E quando voc&#234; percebe que um caminho n&#227;o &#233; seu? Isso pode ser simples. Basta observar onde voc&#234; tem precisado investir muito esfor&#231;o para dar conta. Mas perceber isso exige um movimento mais s&#233;rio: observar tamb&#233;m seus pr&#243;prios fluxos e se permitir transitar pela fragilidade das possibilidades novas.</p><p style="text-align: justify;">Entendo que a consci&#234;ncia ou a presen&#231;a nos proporcionam exatamente isso: n&#227;o precisar adoecer, perder ou chegar ao limite para finalmente assumir o que j&#225; percebemos. Assumir, sem transformar o caminho equivocado em mecanismo, o cansa&#231;o em sintoma e o n&#227;o saber em um problema que precisa ser resolvido.</p><p style="text-align: justify;">Vejo que existe uma esp&#233;cie de infantiliza&#231;&#227;o emocional acontecendo justamente no lugar onde imagin&#225;vamos estar amadurecendo. Ainda usamos nossas dores para nos proteger, enquanto o amadurecimento consiste no ato de desarmar a dor, de n&#227;o precisar dela.</p><p style="text-align: justify;">Adultos que precisam de muitas consultas, antes de confiar numa decis&#227;o pequena. Consultam o tarot, o signo lunar, o teste de personalidade, o algoritmo, o amigo, o influenciador, o ChatGPT e, se sobrar alguma d&#250;vida, perguntam novamente ao pr&#243;prio algoritmo o que significa ter perguntado aquilo. A consulta n&#227;o &#233; uma quest&#227;o, mas o lugar que ela ocupa, sim. E colocar todas as consultas na mesma bandeja, diz ainda mais sobre a rela&#231;&#227;o com o sentido dessas refer&#234;ncias. Entendo consultas como ferramentas de conex&#227;o com o que voc&#234; j&#225; percebeu em voc&#234;. Conex&#227;o &#233; diferente de substitui&#231;&#227;o da sua percep&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Eu gosto bem de umas cartas. Tamb&#233;m sou radiestesista. E crio jogos incr&#237;veis. Tudo para ser usado como ferramenta de conex&#227;o. Informa&#231;&#245;es diferentes que despertam mais da minha percep&#231;&#227;o para contarem uma hist&#243;ria que estou dedicada a ouvir sobre mim. Percebe a diferen&#231;a? </p><p style="text-align: justify;">A consulta como substitui&#231;&#227;o &#224; percep&#231;&#227;o &#233;, naturalmente, uma falta de confian&#231;a na pr&#243;pria percep&#231;&#227;o. Como n&#227;o podemos confiar no que n&#227;o temos intimidade e n&#227;o temos intimidade com n&#243;s mesmos,  nossas percep&#231;&#245;es sobre n&#243;s andam inconsistentes. Quanto menos confiamos nela, mais precisamos de algu&#233;m que nos diga o que estamos sentindo.</p><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o, acontece uma coisa curiosa: come&#231;amos a terceirizar n&#227;o apenas as respostas, mas as pr&#243;prias perguntas. &#8220;O que eu sinto?&#8221;, &#8220;O que isso significa?&#8221;, &#8220;Isso &#233; saud&#225;vel?&#8221;, &#8220;Isso &#233; medo?&#8221;, &#8220;Isso &#233; intui&#231;&#227;o?&#8221;, &#8220;Isso &#233; trauma?&#8221;, &#8220;Isso &#233; meu?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">E, de tanto perguntar, chega uma hora em que a pessoa j&#225; n&#227;o sabe mais distinguir a pr&#243;pria voz do repert&#243;rio que acumulou para interpret&#225;-la. Um tempo em que estamos perdendo a autonomia. Basta que algu&#233;m nos explique e d&#234; os direcionamentos.</p><p style="text-align: justify;">O algoritmo sabe o que dever&#237;amos desejar. O especialista sabe o que dever&#237;amos perceber. O teste sabe quem somos. O conte&#250;do sabe o que estamos sentindo. O laborat&#243;rio sabe o peso ideal para nosso corpo. O aplicativo sabe o que dever&#237;amos ler. A plataforma sabe o que dever&#237;amos ouvir. O mercado sabe o que dever&#237;amos comer, o que dever&#237;amos passar na pele, o que dever&#237;amos vestir, onde dever&#237;amos ir, como dever&#237;amos morar. H&#225; sempre algu&#233;m nos ensinando o que consumir para sermos mais saud&#225;veis, mais bonitos, mais interessantes, mais conscientes. At&#233; nossos relacionamentos come&#231;am a receber recomenda&#231;&#245;es: quem combina conosco, quem devemos evitar, quais sinais observar, quais comportamentos s&#227;o red flags, quais s&#227;o green flags.</p><p style="text-align: justify;">Fomos transformando a vida numa sucess&#227;o de recomenda&#231;&#245;es (j&#225; falei sobre isso aqui no post <em>O livro mais recomendado do ano)</em>. E o mais estranho &#233; que todas elas chegam como um cuidado. Mas &#233; isso: come&#231;am como aux&#237;lio e terminam como autoridade. <strong>A linguagem pronta nos oferece uma interpreta&#231;&#227;o antes mesmo que a experi&#234;ncia tenha terminado de acontecer.</strong></p><p style="text-align: justify;">E o pior. N&#243;s aceitamos. Estamos dando a isso o nome de consci&#234;ncia. N&#227;o &#233;! &#201; vigil&#226;ncia. Controle!</p><p style="text-align: justify;">Basta colocar as pernas para cima e, imediatamente, aparece um v&#237;deo para explicar se aquilo &#233; descanso, se &#233; uma pausa, se voc&#234; deveria sentir culpa diante de um mundo de tarefas na lista de espera para serem conclu&#237;das. At&#233; para parar, algu&#233;m parece precisar nos dizer se podemos.</p><p style="text-align: justify;">O trabalho excessivo tamb&#233;m pode gerar uma inquieta&#231;&#227;o sobre a necessidade desse excesso, sobre uma poss&#237;vel fuga de si e sobre as consequ&#234;ncias do abandono dos filhos.</p><p style="text-align: justify;">Um tempo sozinho e, imediatamente, surgem os conflitos entre isolamento e recolhimento. O isolamento &#233; uma necessidade de se manter afastado. O recolhimento &#233; um movimento leg&#237;timo de contra&#231;&#227;o e expans&#227;o, pr&#243;prio de todo processo consciente. Um, nasce da fuga. O outro da presen&#231;a. Por isso, &#233; importante distinguir o que nasce de uma pot&#234;ncia presente, daquilo que nasce da percep&#231;&#227;o de que falta alguma coisa para que uma situa&#231;&#227;o esteja resolvida.</p><p style="text-align: justify;">A pr&#243;pria vida vira uma reuni&#227;o permanente de avalia&#231;&#227;o de desempenho onde nada simplesmente acontece, mas tudo significa. Sem nenhuma conex&#227;o com o sentido de nada. Sempre tentando encaixar em refer&#234;ncias que j&#225; chegam prontas para an&#225;lise.</p><p style="text-align: justify;">E quer saber onde alguma coisa se perde? Antes da experi&#234;ncia existe o instante em que ainda n&#227;o sabemos explicar. Uma percep&#231;&#227;o que acontece no corpo e que n&#227;o precisa virar conceito. O corpo sabe antes da pr&#243;pria hist&#243;ria. Existe um sil&#234;ncio profundo antes de qualquer interpreta&#231;&#227;o. Existe um ineditismo na experi&#234;ncia mesmo que ela perten&#231;a a um velho ciclo de condicionamentos. Existe a magia de viver e permanecer vivo a cada experi&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">&#201; imposs&#237;vel compreender tudo, principalmente sem experimentar tudo com a entrega da pr&#243;pria exist&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">Amadurecer n&#227;o &#233; chegar ao ponto em que conseguimos explicar tudo sobre n&#243;s. <strong>Tenho suspeitado que amadurecer seja justamente permanecer em n&#243;s, quando n&#227;o conseguimos explicar. Isso &#233; t&#227;o amoroso! T&#227;o leve!</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; muito adulto dizer &#8220;n&#227;o quero&#8221; sem precisar construir uma defesa sobre isso. Ouvir um &#8220;n&#227;o&#8221; sem transformar o outro imediatamente em agressor. Descobrir que algu&#233;m n&#227;o gosta da gente e sobreviver. Reconhecer que erramos sem transformar o erro em identidade. Perceber que n&#227;o somos t&#227;o especiais assim.</p><p style="text-align: justify;">E que, &#224;s vezes, a pessoa foi embora simplesmente porque quis ir. N&#227;o porque ativamos alguma ferida ancestral. N&#227;o porque o universo est&#225; nos ensinando uma li&#231;&#227;o. At&#233; porque o Universo n&#227;o est&#225; preocupado em ensinar nada. Universo &#233; comunica&#231;&#227;o, como tudo que h&#225;. Mas isso tamb&#233;m n&#227;o se explica, muito menos se tenta entender antes de experimentar.</p><p style="text-align: justify;">A vida continua.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Precisamos recuperar a percep&#231;&#227;o e voltar a ocupar o intervalo entre aquilo que acontece e aquilo que pensamos sobre o que aconteceu.</strong> Antes do diagn&#243;stico, da explica&#231;&#227;o, do conceito, do algoritmo. Antes de ouvir de algu&#233;m o que dever&#237;amos sentir.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o tenho o costume de muitas perguntas, porque realmente eu n&#227;o busco respostas, eu prefiro observar. Mas tenho exercitado a deixar perguntas como elementos de impactos, de provoca&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O que, em mim, ainda consegue saber, sem precisar de uma explica&#231;&#227;o?</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; bom a gente lan&#231;ar essas indaga&#231;&#245;es e viver observando o que a vida ou a nossa forma de viver teria a nos dizer sobre isso. Afinal, a &#250;nica pergunta que eu sempre considero importante &#233;: <strong>de onde tudo isso nasce dentro de mim?</strong> Porque, com o tempo, a gente percebe que n&#227;o existe nada do lado de fora que n&#227;o tenha nascido em algum lugar do lado de dentro. E isso n&#227;o pede an&#225;lise, pede apenas percep&#231;&#227;o.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21x0hq%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21x0hq%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png" width="492" height="638.0625" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1328,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:492,&quot;bytes&quot;:2555147,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/216060388?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb767e772-c37a-4d75-aae6-927d50f3e042_1024x1536.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x0hq!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba069b9-3cb8-49b7-91da-9ab9ba3bceae_1024x1328.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/antes-que-alguem-explique?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fantes-que-alguem-explique%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O sentido do que se consome]]></title><description><![CDATA[Um ensaio sobre linguagens, impactos, percep&#231;&#245;es e a concep&#231;&#227;o de ser humano que uma sociedade decide legitimar.]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/o-sentido-do-que-se-consome</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/o-sentido-do-que-se-consome</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 10 Sep 2026 03:00:46 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21vYgW%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Antes de come&#231;ar a escrever esse texto, quero te dizer algo fundamental. N&#227;o sou cr&#237;tica cultural, n&#227;o tenho nenhuma forma&#231;&#227;o art&#237;stica. Sou conectada ao sentido das nossas experi&#234;ncias e, nesse caso, ao sentido da arte na constru&#231;&#227;o da percep&#231;&#227;o humana. Sou comprometida com as artes como uma das grandes ferramentas de despertar da natureza humana. Minha aten&#231;&#227;o est&#225; na estrutura vibracional das nossas percep&#231;&#245;es sobre n&#243;s, sobre a vida e sobre o mundo. </p><p>Sendo assim, conectar linguagens a partir dos impactos em minhas percep&#231;&#245;es &#233; o que posso oferecer a voc&#234;. A exposi&#231;&#227;o de arte foi s&#243; por onde essa hist&#243;ria come&#231;ou. Minha proposta &#233; refletir sobre <strong>como uma sociedade ensina que o ser humano deve ser pensado, percebido, considerado, enquanto decide o que lhe &#233; oferecido e como tudo deve ser consumido.</strong></p><p>Ah! Tamb&#233;m n&#227;o me interessaria o simpl&#243;rio conceito de que <em>existem v&#225;rios tipos de p&#250;blicos</em>, pois penso que permanecer&#237;amos, nesse caso, tentando transformar o mar em po&#231;as d&#8217;&#225;gua para quem decide n&#227;o aprender a nadar. </p><p></p><p>Fui visitar a exposi&#231;&#227;o de Mir&#243; em S&#227;o Paulo.</p><p>Uma exposi&#231;&#227;o com uma curadoria cuidada, um sentido claro. Obras atemporais de diferentes fases de sua trajet&#243;ria, vindas de importantes acervos internacionais, cole&#231;&#245;es particulares e tamb&#233;m de pe&#231;as pertencentes aos herdeiros do artista, com hist&#243;rias inusitadas.</p><p>Um roteiro bem sinalizado, com explica&#231;&#245;es, imers&#245;es e uma constru&#231;&#227;o crescente de envolvimento. Tudo parece pensado para que voc&#234; caminhe pela exposi&#231;&#227;o e saia de l&#225; tendo vivido experi&#234;ncias relevantes sobre Mir&#243;.</p><p>Voc&#234; acompanha a cria&#231;&#227;o de seus tra&#231;os, sua maneira de perceber o mundo, suas escolhas, suas descobertas. E h&#225;, o tempo todo, uma tentativa bonita de envolver o p&#250;blico na constru&#231;&#227;o dessa percep&#231;&#227;o: "conectar a magia da arte &#224; compreens&#227;o de quem est&#225; diante dela.</p><p>Em um determinado momento, no meio da exposi&#231;&#227;o, ou&#231;o um casal com suas crian&#231;as comentar com um casal amigo: &#8220;Tem uma outra exposi&#231;&#227;o que parece melhor para levar as crian&#231;as. A da Tarsila do Amaral. Se voc&#234;s toparem, podemos ir&#8221;.</p><p>Ah. Esta eu tinha visitado no dia anterior.</p><p>E me chamou a aten&#231;&#227;o que duas exposi&#231;&#245;es de artistas consagrados estivessem, naquele momento, em jogo para decidir qual seria a melhor para as crian&#231;as.</p><p>&#201; algo a se pensar. Porque, antes de definirmos uma programa&#231;&#227;o melhor para uma crian&#231;a, talvez precisemos ter mais claro o que pensamos sobre a inf&#226;ncia. <strong>Muito mais do que perguntar qual crian&#231;a queremos formar, precisamos perguntar o que consideramos ser uma crian&#231;a.</strong></p><p>Se isso n&#227;o estiver claro, corremos o risco de tratar a inf&#226;ncia como um dep&#243;sito de informa&#231;&#245;es que conduzimos em dire&#231;&#227;o &#224; imagem daquilo que queremos formar. Quanto mais definimos os resultados que queremos alcan&#231;ar, menos nos interessamos pelos processos e mais esvaziamos a percep&#231;&#227;o da crian&#231;a sobre si mesma, que passa a ser constru&#237;da a partir daquilo que ainda lhe falta para se tornar. Percebo que o movimento contr&#225;rio &#233; justamente o que amplia: quando mergulhamos nas condi&#231;&#245;es naturais de cada exist&#234;ncia, em sua curiosidade, percep&#231;&#227;o e modo singular de estar no mundo, abrimos possibilidades reais de expans&#227;o, n&#227;o pelo ac&#250;mulo de experi&#234;ncias, mas pela consist&#234;ncia de uma estrutura interna capaz de sustentar novos mundos.</p><p>Estou chamando de <strong>experi&#234;ncias de contato</strong> aquelas que se assemelham a um livro de colorir com a imagem de um artista, acompanhado de um estojo de canetinhas com 360 cores e uma frase bonita: &#8220;Minha filha tem um livro com as figuras da Tarcila do Amaral.&#8221;</p><p>A crian&#231;a tem contato com a arte, sem conex&#227;o, sem um respiro, ou um suspiro, sem a percep&#231;&#227;o de um impacto que poderia acontecer a partir de um contato. O contato como um fim em si mesmo, e n&#227;o o in&#237;cio de uma rela&#231;&#227;o capaz de despertar percep&#231;&#245;es.</p><p>Foi assim que me senti na exposi&#231;&#227;o de Tarsila, indicada como uma melhor programa&#231;&#227;o para as crian&#231;as. Como se estivesse em um programa de contato. Sem conex&#227;o. Sem o sil&#234;ncio digno de uma exposi&#231;&#227;o. Pelo contr&#225;rio: superlota&#231;&#227;o dos espa&#231;os, crian&#231;as correndo desgovernadamente, filas para tirar foto com os cen&#225;rios 3D, atravessando as instala&#231;&#245;es como quem atravessa um shopping.</p><p>Uma exposi&#231;&#227;o linda. Superproduzida. Potente. Investida. Cheia de est&#237;mulos, mas sem uma conex&#227;o que os fizesse permanecer juntos.</p><p>E nada disso diminui o fato de que as obras de Tarsila s&#227;o capazes, por si mesmas, de sustentar uma experi&#234;ncia radical de encontro com a nossa cultura. Tarsila &#233; uma dessas artistas que n&#227;o podem ser reduzidas &#224; biografia, &#224; reprodu&#231;&#227;o de algumas imagens c&#233;lebres ou &#224; conta&#231;&#227;o de hist&#243;rias fragmentadas.</p><p>Existe ali a uma compreens&#227;o muito particular sobre o que somos, sobre como olhamos para o Brasil, como inventamos uma imagem de n&#243;s mesmos, como assimilamos o estrangeiro, como deformamos, recriamos, devoramos e devolvemos aquilo que recebemos.</p><p>Tarsila pertence &#224; nossa hist&#243;ria cultural porque participou de uma transforma&#231;&#227;o profunda do modo como o Brasil podia se imaginar. Come&#231;ar por a&#237; j&#225; exigiria de uma exposi&#231;&#227;o sobre Tarsila muito mais do que uma sucess&#227;o de est&#237;mulos, com uma sensa&#231;&#227;o recorrente de interrup&#231;&#227;o, como se o espa&#231;o n&#227;o conseguisse construir uma continuidade de pensamento.</p><p>Obras conduzem, naturalmente. Mas aqui senti falta de algo que sustentasse o percurso por dentro. N&#227;o havia uma ess&#234;ncia sustentando todos aqueles acontecimentos. E n&#227;o me refiro aos textos. Refiro-me &#224;quela corrente subterr&#226;nea que faz com que uma exposi&#231;&#227;o seja mais do que a soma de suas partes.</p><p>Tenho pensado muito sobre essa esp&#233;cie de condi&#231;&#227;o contempor&#226;nea de brincar de transforma&#231;&#227;o. Tudo precisa se mover, se animar. A imagem precisa ganhar movimento, a obra precisa reagir, o espa&#231;o precisa produzir alguma coisa, a intelig&#234;ncia artificial precisa entrar em cena a todo momento, a experi&#234;ncia precisa ser fotograf&#225;vel, a gente precisa se ver, de forma literal, dentro da imagem, numa esp&#233;cie de invas&#227;o de espa&#231;o. Estamos invadindo espa&#231;os, em nome de uma divers&#227;o que, sequer, considera o sentido daquilo existir. </p><p><strong>Transformamos porque podemos transformar. Mas que ideia de transforma&#231;&#227;o &#233; essa? E que ideia rasa de exist&#234;ncia estamos construindo quando passamos a confundir movimento com evolu&#231;&#227;o?</strong></p><p><strong>Toda evolu&#231;&#227;o pressup&#245;e movimento. Mas nem todo movimento &#233; evolu&#231;&#227;o. H&#225; movimentos que aprofundam, e h&#225; movimentos que apenas disfar&#231;am. O movimento manipulado, quando nasce da necessidade de controlar a experi&#234;ncia, pode n&#227;o estar nos conduzindo a lugar algum. Pode estar apenas camuflando aquilo que j&#225; n&#227;o sabemos sustentar.</strong></p><p><strong>E insistimos em chamar de evolu&#231;&#227;o o ato de nos distanciarmos das estruturas mais profundas da exist&#234;ncia, controlando e manipulando as transforma&#231;&#245;es. Fomos acreditando que &#233; mais f&#225;cil transformar a superf&#237;cie do que permanecer diante do que nos constitui. Vejo isso nos ambientes pensados para o registro, nos cen&#225;rios instagram&#225;veis que parecem responder mais &#224; l&#243;gica da circula&#231;&#227;o da imagem do que &#224; necessidade interna da obra.</strong></p><p>&#201; muito perigoso esse est&#225;gio em que a arte come&#231;a a ser tratada como coisa. Uma coisa para ver, uma coisa para experimentar, uma coisa para fotografar, uma coisa para dizer que se esteve l&#225;, uma coisa melhor para as crian&#231;as. Como se a experi&#234;ncia est&#233;tica pudesse ser medida pela quantidade de est&#237;mulos que recebemos. Como se precis&#225;ssemos ser entretidos para permanecer diante de uma obra. Como diz um influencer que divulgava a exposi&#231;&#227;o: &#8220;&#8230;ela rende fotos e v&#237;deos surreais!&#8221;</p><p>N&#227;o acredito que o problema esteja somente nas exposi&#231;&#245;es. Com certeza, &#233; uma quest&#227;o que est&#225; em n&#243;s.</p><p><strong>N&#227;o aprendemos a reconhecer a qualidade daquilo que consumimos. E, quando uma sociedade deixa de desenvolver crit&#233;rios para perceber as diferen&#231;as e as pot&#234;ncias, abre-se um espa&#231;o enorme para que produ&#231;&#245;es rasas sejam oferecidas e amplamente consumidas por aliena&#231;&#227;o (ou passividade).</strong></p><p>Ent&#227;o, eu volto a perguntar: O que estamos ensinando a uma crian&#231;a quando dizemos que ela teve contato com a arte? Quem &#233; essa crian&#231;a? A nossa educa&#231;&#227;o j&#225; consegue ensinar uma crian&#231;a a perceber? A se perceber? A se perceber no mundo, se perceber diante de uma manifesta&#231;&#227;o art&#237;stica, e perceber o mundo em si? Estamos despertando uma percep&#231;&#227;o ou apenas acumulando refer&#234;ncias? Estamos oferecendo uma experi&#234;ncia ou apenas cumprindo um item de uma forma&#231;&#227;o que imaginamos completa? <strong>Estamos abrindo um espa&#231;o de rela&#231;&#227;o ou ensinando que cultura &#233; mais uma coisa que se assiste enquanto dorme? Ou enquanto registra v&#237;deos surreais?</strong></p><p>A quest&#227;o n&#227;o &#233; se eu gostei ou n&#227;o da exposi&#231;&#227;o. Eu gosto de sair. Gosto de conhecer. Gosto de experimentar. Gosto de ser surpreendida. Gosto quando uma obra me impacta, me inquieta, me contradiz, me obriga a rever alguma coisa. Gosto, inclusive, de sair de uma exposi&#231;&#227;o sem saber exatamente o que aconteceu comigo. Gosto muito de n&#227;o saber explicar. E tudo bem se o que uma exposi&#231;&#227;o provoca em mim &#233; o desejo de falar sobre como temos percebido o mundo. N&#227;o &#233; que existe um jeito certo, mas se estamos vivos e em conex&#227;o, as pot&#234;ncias sempre nos colocam diante de n&#243;s. </p><p>Que diachos estavamos fazendo aqui, fazendo escolhas, indo a lugares sem nos considerarmos importantes onde estamos? Passamos pelos espa&#231;os, sem sermos presen&#231;a, tanto na nossa vida quanto na vida de quem est&#225; ao nosso lado. Embora n&#227;o tenhamos aprendido a pensar assim, &#233; essencialmente cat&#225;str&#243;fico assistirmos a vida ao inv&#233;s de viv&#234;-la. Creio que n&#227;o seja necess&#225;rio falar sobre isso, basta olharmos para nossos lados e para nossas emo&#231;&#245;es.</p><p><strong>Uma exposi&#231;&#227;o de arte, para mim, deveria partir de um pressuposto muito simples e muito exigente: respeito &#224; intelig&#234;ncia de quem respira ali dentro. Respeito &#224; intelig&#234;ncia da pr&#243;pria arte. </strong></p><p>Isso diz sobre o lugar que a arte ocupa na percep&#231;&#227;o de uma sociedade sobre si mesma. E n&#227;o significa tornar a experi&#234;ncia herm&#233;tica, acad&#234;mica ou inacess&#237;vel. Significa n&#227;o substituir a experi&#234;ncia por efeitos. N&#227;o imaginar que o p&#250;blico precisa ser conduzido pela m&#227;o porque n&#227;o saber&#225; encontrar sozinho uma rela&#231;&#227;o com aquilo que v&#234;.</p><p><strong>A cultura pode ser acess&#237;vel sem ser simplificada, pode ser popular sem ser infantilizada, pode ser tecnol&#243;gica sem ser fascinada pela tecnologia, pode ser, inclusive, contempor&#226;nea sem romper com aquilo que nos constitui.</strong></p><p>Depois de duas exposi&#231;&#245;es, volto a questionar: Que lugar a arte ocupa na percep&#231;&#227;o de uma sociedade sobre si mesma, sobre a vida, sobre o mundo?</p><p>Porque podemos produzir experi&#234;ncias cada vez mais sofisticadas e, ao mesmo tempo, formar pessoas cada vez menos capazes de perceber profundidade. Pessoas com acesso a tudo e rela&#231;&#227;o verdadeira com quase nada. Pessoas que assistem e n&#227;o percebem conex&#227;o alguma. Podemos oferecer &#224;s crian&#231;as experi&#234;ncias cada vez mais coloridas e, ainda assim, n&#227;o ensin&#225;-las a olhar.</p><p>E acrescento: Respeitar o ambiente que estamos &#233; algo aprendido desde sempre. Respeito pela import&#226;ncia de um espa&#231;o n&#227;o tem idade. Todo ambiente coletivo &#233; constru&#237;do por todos que o habitam.<strong> Uma crian&#231;a n&#227;o corre pelo espa&#231;o de exposi&#231;&#227;o de arte porque &#233; crian&#231;a, ela corre porque aprendeu que h&#225; permiss&#227;o para isso.</strong></p><p><strong>E seguimos chamando de evolu&#231;&#227;o o movimento incessante que nos mant&#233;m nas copas das &#225;rvores, enquanto esquecemos que uma &#225;rvore s&#243; permanece de p&#233; porque existe uma parte dela que n&#227;o vemos. E que, sim, &#233; poss&#237;vel e fundamental perceber esse mundo subterr&#226;neo que sustenta todas as nossas experi&#234;ncias, comportamentos, rela&#231;&#245;es e escolhas. </strong></p><p><strong>Que as linguagens sejam muito mais instrumentos de despertar das nossas verdades do que de produzir imagens daquilo que ainda n&#227;o demos conta de ser. </strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar descabendo.&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2F%3Futm_source%3Dsubstack%26amp%3Butm_medium%3Demail%26amp%3Butm_content%3Dshare%26amp%3Baction%3Dshare"><span>Partilhar descabendo.</span></a></p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21vYgW%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21vYgW%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg" width="486" height="864" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1920,&quot;width&quot;:1080,&quot;resizeWidth&quot;:486,&quot;bytes&quot;:341860,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/214816577?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vYgW!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8327f5-a90c-4cc6-bfb8-188048a06b40_1080x1920.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mundo em estado de Pele]]></title><description><![CDATA[Um poema de Em volta da mesa - poemando sem lugar marcado]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/mundo-em-estado-de-pele</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/mundo-em-estado-de-pele</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 03 Sep 2026 03:01:57 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%218-ru%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um poema escrito exatamente num dia em que minha pele ardeu.</p><p>Era o sol do meio-dia.</p><p>Fiquei olhando para a pele. N&#227;o para a queimadura, mas para a pele. Essa coisa t&#227;o pr&#243;xima e t&#227;o esquecida: O lugar onde o dentro termina e o fora come&#231;a. Ou onde dentro e fora se encontram. Onde somos tocados, protegidos, expostos.</p><p>Passei anos investigando a comunica&#231;&#227;o vibracional das doen&#231;as e do corpo. Nesse tempo, percebi que o corpo raramente fala em linha reta. Ele repete, interrompe, insiste. &#192;s vezes, fala muito antes de conhecermos alguma palavra sobre aquilo.</p><p>A pele sempre me interessou muito. Ela &#233; limite, mas tamb&#233;m &#233; tr&#226;nsito. &#201; mesmo onde o mundo nos alcan&#231;a, e como alcan&#231;amos esse mundo. </p><p>Acho fascinante perceber o quanto a pele revela.</p><p>A pele que se arrepia, a que cora. A que sua, a que resseca. Desidrata. <br>A que co&#231;a. A que inflama diante de alguma coisa.<br>A que cria casca. Hum... criar cascas &#233; um processo cheio de sabedorias!<br>A que abre, a que queima. A que pede dist&#226;ncia, e a que deseja toque.                            A que se esconde, a que mancha, a que despigmenta&#8230;</p><p>E prefiro considerar que n&#227;o existe uma tradu&#231;&#227;o pronta para cada uma dessas manifesta&#231;&#245;es. O corpo &#233; muito mais misterioso do que uma mesma resposta para tantos processos. E aprendi a desconfiar daquilo que chamamos de acaso, principalmente quando ele insiste em se repetir.</p><p>Uma pele que arde pode ser apenas uma pele que arde. Mas, quando prestamos aten&#231;&#227;o, alguma coisa pulsa vibrante ali dentro.</p><p>Naquele dia, n&#227;o tentei interpretar nada. S&#243; fiquei olhando e deixando que tantas outras experi&#234;ncias, tantas outras peles, tantos outros momentos de contato entre dentro e fora surgissem para ganhar linguagem.</p><p>Fechei os olhos. Abri a tela. Ent&#227;o, escrevi:</p><p></p><p><strong>Mundo em estado de pele</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">N&#227;o &#233; s&#243; o sol do meio-dia 
que arde a pele.

&#201; o frio cravado nos ossos
latejando por baixo
- sem tr&#233;gua.

S&#227;o nervos expostos
raspados por m&#227;os que n&#227;o ouvem
que pegam
- desconhecem limite.

&#201; o creme em excesso
- uma camada densa
lan&#231;ada sem medida.
Sufoca
n&#227;o sabe tocar.

&#201; o tecido &#225;spero do dia
costura que arranha
repuxa
- horas que esfregam
at&#233; sangrar.

&#201; o banco duro.
A espera que se arrasta.
O nome errado
a voz seca
- que chega a cortar.

&#201; o olhar que pesa
que marca
que percorre a pele inteira
com a frieza de quem ausculta
- ou disseca.

&#201; o toque predat&#243;rio
&#233; a raiva contida
fermentando sob a epiderme.
Um calor sem sa&#237;da
que a gente pensa que explode
- corr&#243;i.

&#201; a vergonha acesa
vermelho que n&#227;o se v&#234;
- ferrugem fina
comendo por dentro.

&#201; a &#225;gua gelada no corpo tenso
- rigidez sobre exaust&#227;o.

&#201; a febre 
em vig&#237;lia ao estranho
que se instala no corpo
- por dentro.

&#201; o pre&#231;o extorquido
o prazo esmagando
o sim entalado na garganta.

N&#227;o &#233; s&#243; o sol do meio-dia.
Pele em brasa
queimando 
crua
fundo
seca
densa
- lentamente.

&#201; o ac&#250;mulo
do que marca
sem perceber.

Pele
- onde o mundo come&#231;a na gente.

</pre></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/mundo-em-estado-de-pele?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fmundo-em-estado-de-pele%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p>Esse poema comp&#245;e meu novo livro<strong> EM VOLTA DA MESA - poemando sem lugar marcado </strong>que come&#231;a a ser lan&#231;ado pela Editora Patu&#225;.</p><p><strong>- Para quem &#233; de S&#227;o Paulo. </strong>Estarei autografando na bienal do livro em S&#227;o Paulo, no dia 07/09 &#224;s 11h, no Estande K45, da Editora Patu&#225;</p><p><strong>- Para quem &#233; de Belo Horizonte &#8211; </strong>aguarde a data do evento de lan&#231;amento</p><p><strong>- Para quem &#233; de todo canto do mundo &#8211; </strong>O livro j&#225; est&#225; em pr&#233;-venda. Clique no link: <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.editorapatua.com.br%2Fem-volta-da-mesa-poemando-sem-lugar-marcado-poemas-de-ramina-el-shadai%2Fp">Pr&#233; venda</a></p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%218-ru%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%218-ru%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png" width="1024" height="1536" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1536,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2897765,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/213932073?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8-ru!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F232cd44f-74b2-47c2-98ff-fa9c40df7a1f_1024x1536.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Saiu ao ar, perdeu o lugar]]></title><description><![CDATA[Um ensaio sobre perder lugares, desocupar certezas e voltar a respirar]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/saiu-ao-ar-perdeu-o-lugar</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/saiu-ao-ar-perdeu-o-lugar</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 27 Aug 2026 03:03:12 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yEEx%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Cren&#231;a &#233; coisa que, &#224;s vezes, parece apenas frase.<span> </span>&#8220;Quem saiu ao ar perdeu o lugar.&#8221;</p><p>A gente repete sem perguntar de onde veio. E, de tanto repetir, a frase vai se tornando uma esp&#233;cie de lei natural. Uma regra do mundo. Um aviso transmitido de boca em boca para que ningu&#233;m se distraia demais, se ausente demais, respire longe demais. Porque, afinal, enquanto voc&#234; estiver fora, algu&#233;m pode ocupar o seu lugar.</p><p>&#201; uma pr&#225;tica, no m&#237;nimo, estranha. Invasiva, r&#237;gida, uma pedagogia silenciosa do medo.</p><p>Voc&#234; precisa permanecer. Precisa marcar presen&#231;a. Precisa n&#227;o dar espa&#231;o. Precisa n&#227;o desaparecer. Precisa estar sempre &#224; vista, porque o mundo, supostamente, n&#227;o saber&#225; distinguir entre aus&#234;ncia, pausa ou desist&#234;ncia.</p><p>Ent&#227;o, uma cren&#231;a aparentemente banal come&#231;a a revelar a sua dimens&#227;o mais profunda: <strong>a ideia de que precisamos permanecer im&#243;veis para n&#227;o perder aquilo que acreditamos ser nosso. </strong>Seja o lugar, uma pessoa, uma fun&#231;&#227;o, um projeto, um trabalho, um reconhecimento, um v&#237;nculo, uma import&#226;ncia, uma identidade, ou at&#233; mesmo o pertencimento.</p><p>Pensa-se o existir como uma esp&#233;cie de ocupa&#231;&#227;o territorial. Sendo assim, o vazio se torna uma amea&#231;a, pressupondo que toda aus&#234;ncia precisa ser preenchida. E o mais duro: <strong>algu&#233;m s&#243; pode continuar sendo quem &#233;, enquanto estiver sentado exatamente na cadeira que lhe foi atribu&#237;da</strong>.</p><p>Pura percep&#231;&#227;o de escassez. E percep&#231;&#227;o vibra. Vibra&#231;&#227;o &#233; o que entregamos ao mundo, em constru&#231;&#227;o dos ciclos que escolhemos viver.</p><p>Se eu sair daqui algu&#233;m entra no meu lugar. Se eu soltar, algu&#233;m pega. Se eu me afastar, algu&#233;m ocupa. Se eu mudar, talvez n&#227;o me reconhe&#231;am mais. Se eu deixar de sustentar aquilo que sustento, talvez descubram que eu n&#227;o era indispens&#225;vel. Se eu n&#227;o aparecer por um tempo, as pessoas v&#227;o me esquecer.</p><p>E ent&#227;o permanecemos. N&#227;o necessariamente porque queremos ficar. <strong>Permanecemos porque temos medo do que pode acontecer na percep&#231;&#227;o de quem fica, se formos embora.</strong></p><p>Muitos territ&#243;rios se tornam pris&#245;es, enquanto apego se disfar&#231;a de perman&#234;ncia, enquanto compromisso &#233; roupa nova do medo. Enquanto a incapacidade de partir ou a necessidade de reconhecimento se fantasiam de pertencimento. Enquanto o pavor de novos movimentos ganha nome de estabilidade.</p><p>O que acontece &#233; que aquilo que j&#225; deixou de ser continua sendo chamado de &#8220;meu lugar&#8221;. E &#233; sempre bom lembrar que <strong>&#8220;meu lugar&#8221; n&#227;o &#233; onde ocupamos, mas onde conseguimos existir.</strong> Isso estrutura muitas coisas dentro de n&#243;s. Quem nunca permaneceu anos em um lugar sem se sentir pertencente? Quem nunca experimentou aquela sensa&#231;&#227;o persistente de inadequa&#231;&#227;o, como se o corpo estivesse ali, mas alguma coisa essencial continuasse do lado de fora?</p><p>&#201; importante sair ao ar justamente para descobrir que o lugar que tem&#237;amos perder nunca esteve de fato em nossa vida.</p><p>&#201; curioso como constru&#237;mos nossos territ&#243;rios a partir de uma l&#243;gica de ocupa&#231;&#227;o. &#201; meu porque estou aqui. &#201; meu porque fui o primeiro. &#201; meu porque ningu&#233;m pode fazer igual. &#201; meu porque sempre fiz. &#201; meu porque me reconheceram. &#201; meu porque lutei por isso. &#201; meu porque dediquei meu suor e minha vida pra construir tudo isso. &#201; meu porque ningu&#233;m mais pode ocupar. E, de repente, confundimos hist&#243;ria com propriedade. Confundimos perman&#234;ncia, exclusividade, esfor&#231;o, apego, confundimos um tanto de coisa com exist&#234;ncia.</p><p>Aprendemos muito cedo que o mundo &#233; uma disputa por lugares, onde algu&#233;m sempre vai ficar de fora. Nessa l&#243;gica, aprendemos a n&#227;o nos levantar, n&#227;o ceder, muito menos desaparecer. Um constante estado de alerta, de vigia, de defesa, e, obviamente, de territ&#243;rio marcado. <strong>Que esp&#233;cie de vida nasce de algu&#233;m que passa a vida vigiando a pr&#243;pria cadeira?</strong></p><p>Uma viol&#234;ncia muito particular aos que usam aquela cola vagabunda para marcar territ&#243;rio. Como etiquetar tudo para garantir que tudo continue pertencente a eles. Cola vagabunda al&#233;m de n&#227;o colar nada, ainda deixa tanto res&#237;duo, impedindo que certos lugares possam respirar. Gente demais dizendo quem somos, onde devemos estar, o que devemos ocupar, a quem devemos pertencer, como, quanto e quando devemos aparecer.</p><p>&#201; preciso sair. &#201; preciso descobrir se realmente havia algum lugar ali.</p><p>&#201; bom que se esvazie de si. &#201; muito bom que se perca. &#201; bom que uma identidade se descole, ou que uma fun&#231;&#227;o caia. &#201; maravilhoso quando uma porta se fecha, ou quando uma cadeira fica vazia. <strong>Porque &#233; libertador descobrir que n&#227;o somos tudo aquilo que ocup&#225;vamos. A perda de um lugar pode ser a perda de uma pris&#227;o. Vazio &#233; sempre passagem! E aus&#234;ncia de rigidez &#233; exatamente o que devolve movimento ao corpo.</strong></p><p>E tem uma coisinha tamb&#233;m delicada nisso tudo, que &#233; essa necessidade boa de nos arejarmos de n&#243;s mesmos, das mesmas pessoas, das mesmas explica&#231;&#245;es, dos mesmos olhos nos olhando sempre do mesmo jeito. Desses ambientes que nos conhecem tanto que j&#225; n&#227;o nos enxergam. Isso &#233; duro! Mas esses mesmos lugares veem apenas o personagem que aprenderam a identificar. Ent&#227;o, por medo, continuamos representando, enquanto a nossa vida deixa de arejar, de fluir, de seguir, de experimentar. Alguma coisa ali, com certeza j&#225; perdeu o sentido.</p><p><strong>Novos ares s&#227;o importantes. O verdadeiramente novo &#233; o que interrompe a repeti&#231;&#227;o perigosa que passou a ser a verdade acreditada e segura. </strong>Retirar da vida algumas das etiquetas que j&#225; n&#227;o correspondem ao corpo que temos.</p><p>Uma transi&#231;&#227;o importante entre o medo de desaparecer e deixar de existir para os outros, e a clareza de que h&#225; uma sabedoria sempre nos convidando a existir para n&#243;s. Amadurecer tamb&#233;m &#233; a possibilidade de n&#227;o sermos indispens&#225;veis. Aceitar que podemos ser substitu&#237;dos quando deixarmos um espa&#231;o vazio.</p><p><strong>Em algum momento a gente percebe a diferen&#231;a entre</strong> <strong>perder um lugar e deixar de precisar daquele lugar para existir. </strong>Definitivamente, n&#227;o fomos feitos para permanecer im&#243;veis sobre territ&#243;rios que precisam ser defendidos, supridos e carregados o tempo inteiro.</p><p>Nossos lugares s&#227;o constru&#237;dos. Existe uma for&#231;a vital em cada um de n&#243;s que sabe qual o momento de sair. Poder escolher onde nossa vida consegue respirar. Isso &#233; revelado no nosso corpo.</p><p><strong>Suspeito que sair ao ar n&#227;o seja perder o lugar, mas finalmente encontr&#225;-lo.</strong></p><p><strong>Ent&#227;o, conseguimos existir por nos sentirmos vivos.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/saiu-ao-ar-perdeu-o-lugar/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fsaiu-ao-ar-perdeu-o-lugar%2Fcomments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yEEx%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yEEx%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png" width="1456" height="799" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:799,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2098432,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/212772506?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yEEx!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e0f6745-38d8-4854-a46d-7e0296844240_1693x929.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/saiu-ao-ar-perdeu-o-lugar?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fsaiu-ao-ar-perdeu-o-lugar%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O livro mais recomendado do ano]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica sobre o desaparecimento das escolhas]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/o-livro-mais-recomendado-do-ano</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/o-livro-mais-recomendado-do-ano</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 20 Aug 2026 03:02:35 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21kAWt%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong><br></strong>Quando descobriram que escolher cansava, ningu&#233;m protestou. Pelo contr&#225;rio. As pessoas receberam essa not&#237;cia com o al&#237;vio de quem finalmente poderia baixar a guarda e desobrigar-se de si, eu diria. Realmente, escolher &#233; uma tarefa desgastante.</p><p style="text-align: justify;">Os primeiros servi&#231;os limitavam-se a pequenas gentilezas, como selecionar um restaurante, um filme para a noite, uma m&#250;sica para o caminho do trabalho. Gentilezas discretas. Dessas que parecem um cuidado, como toda boa domina&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Mas pouco depois, as escolhas maiores come&#231;aram a desaparecer. Costumo dizer que tudo come&#231;a pequeno. E tem umas coisas que crescem igual mofo, exatamente naquele momento que ningu&#233;m olha, e que quando percebemos, j&#225; tomaram a parede inteira.</p><p style="text-align: justify;">Os livros passaram a trazer uma faixa invis&#237;vel na capa, dizendo:</p><p><strong><mark data-color="#ffff00" style="background-color: rgb(255, 255, 0); color: rgb(0, 0, 0);">O LIVRO MAIS RECOMENDADO DO ANO</mark></strong><mark data-color="#ffff00" style="background-color: rgb(255, 255, 0); color: rgb(0, 0, 0);">.</mark></p><p style="text-align: justify;">Um enorme progresso. As livrarias deixaram de desperdi&#231;ar espa&#231;o com t&#237;tulos improv&#225;veis. Possibilidades ocupam muito lugar. Sinal de boa organiza&#231;&#227;o operacional.</p><p style="text-align: justify;">As mesas de destaque se classificaram. E, naturalmente, os leitores curiosos diminu&#237;ram. J&#225; n&#227;o entravam procurando alguma coisa, al&#233;m de confirma&#231;&#227;o. Uma esp&#233;cie de consulta ao espelho s&#243; para verificar exist&#234;ncia, se &#233; que me entende.</p><p style="text-align: justify;">Nas conversas entre amigos, come&#231;aram a preferir express&#245;es mais objetivas: &#8220;Voc&#234; ainda n&#227;o viu?&#8221;, &#8220;Todo mundo est&#225; lendo&#8221;, &#8220;Est&#225; na lista dos mais vendidos.&#8221;, &#8220;O livro do ano chegou para mim.&#8221;, &#8220;Se voc&#234; digitar o meu cupom, o livro que est&#225; na lista dos mais vendidos ser&#225; seu, com o meu desconto.&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">Ali&#225;s, eu vivi uma hist&#243;ria bem parecida.</p><p style="text-align: justify;">-</p><p style="text-align: justify;">Num evento entre conhecidos, sentei-me &#224; mesa junto a um grande cr&#237;tico liter&#225;rio. Fomos apresentados naquela ocasi&#227;o. Em um dado momento, ele inclinou seu corpo sobre a mesa e me lan&#231;ou uma pergunta.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Ciro me disse que voc&#234; &#233; escritora. N&#227;o quero saber o que escreve, quero saber o que l&#234;. Quais foram seus &#250;ltimos livros? E quando os leu?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">A pergunta me pegou desprevenida, obviamente. Demorei um instante. Estranhei bastante a abordagem, e respondi aleatoriamente:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Mente aberta Mente Integral, do Bob Simple.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o devolvi a pergunta, expressando real curiosidade: &#8220;Mas me diga porque se interessa pela minha lista de &#250;ltimas leituras?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ele, sem hesitar, e com um tom de superioridade - N&#227;o &#233; minha inten&#231;&#227;o julg&#225;-lo, mas sou macaca velha pra essas coisas de tons de superioridade pra cima de mim - :</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Porque dependendo da resposta, eu nem continuo a conversa. Mas voc&#234; tem jeito de quem tem um bom repert&#243;rio. Ent&#227;o, me interessa.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Sorri com um pouquinho de ironia. Confesso que &#8220;dei corda&#8221;. O restante da mesa em outras prosas e ele insistindo numa investiga&#231;&#227;o particular que parecia encomenda. Ou fixa&#231;&#227;o mesmo.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;E se eu dissesse que n&#227;o sou leitora voraz? A conversa que nem come&#231;ou acabaria?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ele ficou me olhando sem responder. Ent&#227;o falei mais um tanto.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Pois &#233;. O senhor me fez pensar... se eu estivesse diante de algu&#233;m que confessasse n&#227;o ter a leitura como h&#225;bito, a&#237; que eu teria ainda mais vontade de conversar. Inquietante uma conversa com algu&#233;m que n&#227;o precisa sustentar a pr&#243;pria intelig&#234;ncia pelo n&#250;mero de livros lidos. Eu ia querer descobrir como essa pessoa pensa, como articula as ideias, sem recorrer &#224; estante para justificar quem &#233;. Mas n&#227;o &#233; o caso. Eu sou leitora.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ele me cortou:</p><p style="text-align: justify;">&#8220; Quero saber o que l&#234;. Diga-me o que l&#234; e te direi quem tu &#233;s.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Me ajeitando na cadeira, dei um sorriso de canto, olhando nos olhos dele, e perguntei de volta:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Quais foram as &#250;ltimas pe&#231;as de teatro que o senhor assistiu?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ele demonstrou uma certa irrita&#231;&#227;o - aquela pr&#243;pria de quem n&#227;o est&#225; acostumado a ser questionado.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Faz muitos anos que n&#227;o vou ao teatro. Nem me lembro.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o, senti-me &#224; vontade para apimentar nossa conversa:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;J&#225; pensou se eu medisse as pessoas pelas &#250;ltimas pe&#231;as que assistiram? At&#233; poderia. Seria um crit&#233;rio interessante. Considerando que livros podem morar durante anos numa prateleira, sem que uma &#250;nica p&#225;gina tenha sido aberta. Um espet&#225;culo n&#227;o. Voc&#234; n&#227;o fotografa sua estante com as pe&#231;as de teatro que adquiriu. O &#250;nico lugar que um espet&#225;culo pode morar &#233; no corpo. Ele fica na mem&#243;ria. Vira experi&#234;ncia. E tudo isso tamb&#233;m &#233; linguagem. </p><p style="text-align: justify;">Eu tive uma aluna que, um dia, olhou nos meus olhos e me disse que havia descoberto ser uma grande mentira. Comprava livros para pertencer a n&#227;o sabia exatamente o qu&#234;. Contou-me que n&#227;o lia nada al&#233;m das sinopses, apenas para garantir algumas m&#237;seras conversas. Naquele dia, ela se percebeu como uma embalagem completa - foi assim que ela mesma se nomeou. E, se estivesse aqui, provavelmente saberia dizer o nome de todos os livros mais recomendados. O senhor talvez continuasse sem saber que, por tr&#225;s de tudo aquilo, havia uma grande mentira - a pr&#243;pria mentira que ela acabara de descobrir em si.</p><p style="text-align: justify;">Desconfio que nossos crit&#233;rios que predefinem uma boa prosa sejam meramente reducionistas. Eu estou diante de algu&#233;m que n&#227;o assiste a pe&#231;as de teatro e o senhor est&#225; diante de uma pessoa que n&#227;o leu os livros em destaque nas listas dos mais recomendados, e mesmo assim avalio nossa conversa como, no m&#237;nimo, destransformadora. Sou apaixonada por destransforma&#231;&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">E, diferente do que te disse no in&#237;cio dessa conversa, acabei de ler um livro chamado PENSE NISSO, do Chuck Palahniuk. E gostei demais. Conhece? <em>Mente aberta, mente integral</em> eu li aos 16 anos quando estava come&#231;ando a viver a necessidade de ler para ser reconhecida e vista pelas pessoas. Era minha forma de esconder minhas car&#234;ncias, ent&#227;o o excesso da leitura era uma esp&#233;cie de fuga. Louco isso, n&#233;?</p><p style="text-align: justify;">Ai, ai&#8230; a leitura foi ocupando lugares muito diferentes na minha percep&#231;&#227;o sobre mim, ao longo da minha vida!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ele sorriu para n&#227;o parecer que estava desapontado. Ou pelo menos desconstru&#237;do em sua rigidez. E me disse, condensando a voz, erguendo o corpo e dando uma batida na mesa anunciando um ponto final:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Quero ler seu pr&#243;ximo livro. Deve ser, no m&#237;nimo, inquietante. Anote o telefone da minha mulher e nos convide para o lan&#231;amento&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">-</p><p style="text-align: justify;"><strong>O mundo vai ficando silencioso quando todas as pessoas est&#227;o pronunciando exatamente as mesmas frases. Uma aus&#234;ncia de risco. Uma coisa morta.</strong></p><p style="text-align: justify;">Os dez melhores, os sete indispens&#225;veis, os cinco erros que impedem seu livro de estar na prateleira dos melhores. Nem me dou ao trabalho de tentar entender o que se quer dizer com &#8220;melhores&#8221;. Prefiro n&#227;o me arriscar a uma dor de cabe&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Existem listas at&#233; para ensinar um escritor a escrever. Escrever sem algum m&#233;todo indicado tem sido apontado como uma forma de desperd&#237;cio.</p><p style="text-align: justify;">Tudo tem chegado previamente pronto, etiquetado, resumido, avaliado, embalado para transporte. <strong>O pensamento passou a ser servido em por&#231;&#245;es individuais, pronto para consumo.</strong></p><p style="text-align: justify;">Os artistas est&#227;o come&#231;ando a perceber que o p&#250;blico j&#225; n&#227;o quer obras, mas consenso. Antes mesmo de escrever um livro, &#233; preciso calcular sua capacidade de recomenda&#231;&#227;o. Antes de desenvolver um prato, verifica-se se ficar&#225; bem na fotografia. Antes de viver uma experi&#234;ncia, &#233; necess&#225;rio saber se ela renderia indica&#231;&#227;o. <strong>A linguagem deixou de transitar entre o mundo e tantas percep&#231;&#245;es e passou a perguntar o que &#233; compartilh&#225;vel. Adapta&#231;&#227;o sobre adapta&#231;&#227;o.</strong></p><p style="text-align: justify;">At&#233; que numa manh&#227; qualquer, um garoto entrou na biblioteca da cidade e pegou um livro que jamais fora premiado. N&#227;o trazia resenhas na contracapa e nem aparecia em listas re livros recomendados. Ningu&#233;m lhe dissera que aquele era um livro obrigat&#243;rio.</p><p style="text-align: justify;">Sentou-se no ch&#227;o e leu, durante ininterruptas quatro horas.</p><p style="text-align: justify;">Quando devolveu o livro, a bibliotec&#225;ria perguntou curiosa:</p><p style="text-align: justify;">- E ent&#227;o, recomenda?</p><p style="text-align: justify;">O menino permaneceu em sil&#234;ncio. Parecia ignorar que uma experi&#234;ncia, para existir plenamente, precisava antes ser transferida a outra pessoa.</p><p style="text-align: justify;">A bibliotec&#225;ria fez uma anota&#231;&#227;o cuidadosa na ficha: <strong>Livro sem potencial de indica&#231;&#227;o.</strong></p><p style="text-align: justify;">Na semana seguinte, ele foi retirado do acervo.</p><p style="text-align: justify;"><strong>A curiosidade que j&#225; havia sido proibida um dia, em algum momento deixou de ser necess&#225;ria.</strong></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21kAWt%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21kAWt%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png" width="1456" height="728" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:728,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2390514,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/211762661?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kAWt!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd87e450c-a7d0-4693-bbfd-929ba4baf4dd_1774x887.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Radiografia da solidão]]></title><description><![CDATA[Fen&#244;menos invis&#237;veis da vida contempor&#226;nea]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/radiografia-da-solidao</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/radiografia-da-solidao</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 13 Aug 2026 03:00:24 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%210VoD%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tenho pensado muito na solid&#227;o. Ou nas solid&#245;es.</p><p>Mas n&#227;o naquela solid&#227;o mais padr&#227;o, de quem vive sozinho, n&#227;o tem com quem conversar, passa dias sem receber uma visita. Mas sente a falta de pessoas. Essa a gente conhece e julga com facilidade, por acreditar que sabe onde est&#225;.</p><p>Tenho pensado numa outra. Na solid&#227;o de quem acorda e j&#225; encontra dezenas de mensagens no celular. De quem passa o dia em reuni&#227;o, de quem almo&#231;a com algu&#233;m, mas responde mensagens enquanto conversa. Chega em casa e continua acompanhando a vida de outras pessoas por uma tela.</p><p>Na solid&#227;o de quem tem muita gente por perto. &#201; uma solid&#227;o mais dif&#237;cil de perceber porque, por fora, a vida parece cheia.</p><p>Outro dia pensei nisso observando uma coisa banal: quantas vezes perguntamos &#8220;como voc&#234; est&#225;?&#8221; sem realmente esperar a resposta? A pergunta virou quase uma sauda&#231;&#227;o.</p><p>&#8220;Tudo bem?&#8221;</p><p>&#8220;Tudo. E voc&#234;?&#8221;</p><p>&#8220;Tudo.&#8221;</p><p>E seguimos.</p><p>&#201; inquietante ter que aceitar que ningu&#233;m tem tempo para o que vem depois do &#8220;tudo bem&#8221;. J&#225; pensou se algu&#233;m responde de verdade? A conversa pode mudar de rumo.</p><p>&#8220;N&#227;o, n&#227;o estou bem.&#8221;</p><p>&#8220;Estou cansada.&#8221;</p><p>&#8220;Estou com medo.&#8221;</p><p>&#8220;N&#227;o consigo mais ver sentido em nada que acontece na minha vida.&#8221;</p><p>&#8220;Estou me sentindo sozinho.&#8221;</p><p>&#8220;A rotina est&#225; acabando comigo. Percebi que a gente est&#225; sempre desistindo de alguma coisa. Ou a gente desiste dessa forma de viver ou &#233; n&#237;tido o quanto estamos desistindo da gente.&#8221;</p><p>O que fazemos quando a resposta deixa de ser socialmente confort&#225;vel? Essa me parece uma pergunta importante para come&#231;ar a pensar a solid&#227;o de hoje.</p><p>N&#227;o &#233; apenas que estamos menos juntos. &#201; que, muitas vezes, <strong>n&#227;o sabemos mais o que fazer quando o encontro exige presen&#231;a de verdade</strong>. O tempo de permanecer, a habilidade de permanecer, o desejo de permanecer... Vejo encontros com tantas pessoas e nenhuma presen&#231;a. N&#227;o estou exagerando. Fico observando.</p><p>A vida contempor&#226;nea criou uma quantidade impressionante de maneiras de nos manter em contato. Podemos falar com algu&#233;m a qualquer hora, mandar uma fotografia, compartilhar uma not&#237;cia, acompanhar uma rotina inteira sem nunca encontrar aquela pessoa.</p><p>Sabemos quem est&#225; viajando, quem terminou um relacionamento, quem mudou o corte de cabelo, o formato do rosto, quem est&#225; gr&#225;vida, quem mudou de emprego, quem foi conhecer um novo restaurante, quem parece feliz.</p><p>Estamos informados sobre a vida uns dos outros, mas isso n&#227;o significa que estejamos pr&#243;ximos. <strong>Saber da vida de algu&#233;m n&#227;o &#233; necessariamente participar da vida de algu&#233;m.</strong></p><p>&#201; poss&#237;vel que uma pessoa conhe&#231;a tudo sobre n&#243;s e n&#227;o conhe&#231;a aquilo que nos acontece, para que tudo seja exatamente como &#233;. E, convenhamos, conhecer pede presen&#231;a. Presen&#231;a &#233; palavra da moda, mas vou te dizer que quando conectada ao seu sentido, &#233; um estado de consci&#234;ncia onde o &#8220;agora&#8221; importa. E o agora &#233; absurdamente rico de informa&#231;&#245;es. Ser presen&#231;a, ou estar presente, &#233; estar inteiro ou inteira na conex&#227;o com o sentido do agora. <em>&#201; prosa pra mais de metro</em>.</p><p>Companhia e presen&#231;a s&#227;o coisas completamente diferentes. &#192;s vezes a casa est&#225; com a fam&#237;lia toda reunida para almo&#231;ar e as pessoas se juntam em pequenos grupos, desde que os assuntos n&#227;o exijam desdobramentos.</p><p>Pense numa pessoa que passa o dia trabalhando, fala com colegas, participa de reuni&#245;es online, troca mensagens, resolve problemas. No fim do dia, pode dizer que conversou com vinte pessoas. Mas com quem ela esteve? Como no almo&#231;o de fam&#237;lia.</p><p>H&#225; casais assim tamb&#233;m. Que dormem na mesma cama, dividem contas, criam filhos, fazem planos, organizam viagens, resolvem problemas dom&#233;sticos. A vida funciona. Mas quando foi a &#250;ltima vez em que um realmente perguntou ao outro alguma coisa cuja resposta n&#227;o coubesse na rotina?</p><p>Tenho pensado nas formas silenciosas da solid&#227;o. Quando a rela&#231;&#227;o continua funcionando, mas o encontro, a conex&#227;o, deixou de acontecer.</p><p>Com certeza, estamos falando de escolhas individuais, mas falamos principalmente na forma de percebermos a vida. Estamos sempre ocupados, sempre atrasados, com alguma coisa para fazer. At&#233; o descanso precisar caber na agenda. Ainda nos sentimos culpados quando n&#227;o estamos fazendo nada. Ainda n&#227;o conseguimos sustentar rela&#231;&#245;es profundas.</p><p><strong>N&#243;s ainda sabemos estar com algu&#233;m?</strong></p><p>Suspeito que uma parte da solid&#227;o contempor&#226;nea venha da dificuldade de construir rela&#231;&#245;es em que seja poss&#237;vel aparecer sem tanta edi&#231;&#227;o. E arrisco dizer algo que pode abrir uma fenda em suas percep&#231;&#245;es, mas n&#227;o podemos deixar de considerar que a nossa rela&#231;&#227;o com o outro &#233;, de alguma forma, uma expans&#227;o da nossa rela&#231;&#227;o com n&#243;s mesmos.</p><p>A vida moderna nos afastou da nossa natureza, ao nos fazer anular, pouco a pouco, a sabedoria, em nome de tudo aquilo que aprendemos que precisamos adquirir, conquistar, incorporar, receber. Funcionamos antes de nos ouvirmos.</p><p>Nossa rela&#231;&#227;o conosco passou a funcionar como um projeto. H&#225; um projeto para o corpo, para a carreira, para a personalidade, para a sa&#250;de, para a espiritualidade, para a produtividade. E, num projeto, tudo &#233; permanentemente avaliado, administrado, corrigido. <strong>Estamos sempre olhando para o que falta, para aquilo que ainda precisa ser melhorado</strong>. At&#233; a rela&#231;&#227;o consigo parece ter se tornado uma tarefa.</p><p>O excesso de est&#237;mulo produz outro movimento: mant&#233;m-nos informados, entretidos e, de algum modo, suspensos. Temos confundido conex&#227;o com acesso. Conex&#227;o pressup&#245;e reconhecimento de pot&#234;ncias, presen&#231;a. Acesso &#233; contato, alcance, aproxima&#231;&#227;o. Posso ter acesso a milhares de pessoas sem estar verdadeiramente conectada a nenhuma delas.</p><p>E temos a compara&#231;&#227;o que transforma o outro em medida dos nossos desejos, e a rela&#231;&#227;o conosco em uma sucess&#227;o de avalia&#231;&#245;es. <strong>Passamos a nos perceber pelo que somos diante do que o outro parece ser.</strong></p><p>O espa&#231;o do sil&#234;ncio tamb&#233;m foi se estreitando. E sem sil&#234;ncio, <strong>sem intervalo, n&#227;o percebemos a pr&#243;pria vida</strong>. &#201; no intervalo que alguma coisa em n&#243;s pode se revelar antes de ser imediatamente nomeada, corrigida ou compartilhada. Se n&#227;o suportamos ficar sozinhos, qualquer encontro pode ser usado como fuga de n&#243;s mesmos.</p><p>Nossa vida est&#225;, em muitos sentidos, terceirizada. S&#227;o os algoritmos que dizem o que assistir, comprar, ouvir, aprender. S&#227;o os especialistas que dizem como comer, dormir, educar, amar, envelhecer. Aos poucos, perdemos o contato com a experi&#234;ncia direta de descobrir o que nos acontece. <strong>Recebemos tantas instru&#231;&#245;es sobre como viver que vamos perdendo a experi&#234;ncia de perceber a pr&#243;pria vida</strong>. Definitivamente, n&#227;o estamos sendo autores da nossa hist&#243;ria.</p><p>O tempo das rela&#231;&#245;es tamb&#233;m foi absurdamente acelerado. Conhecer algu&#233;m, construir uma m&#237;nima confian&#231;a, passar por um conflito, tolerar uma diferen&#231;a, aprender a acolher o que no outro n&#227;o corresponde &#224;s nossas expectativas: tudo isso exige dura&#231;&#227;o. Rela&#231;&#245;es precisam de tempo para se tornar v&#237;nculo.</p><p>Mas a modernidade tem investido no descarte. Diante do desconforto, substitui-se. Diante da diferen&#231;a, afasta-se. Diante do inc&#244;modo, interrompe-se. <strong>Queremos rela&#231;&#245;es sem o tempo necess&#225;rio para que uma rela&#231;&#227;o aconte&#231;a.</strong></p><p>O fato &#233; que n&#227;o sabemos mais dizer exatamente de onde vem a solid&#227;o. Se vem da dificuldade de nos conectarmos com o outro, ou da perda da capacidade de estarmos conosco, porque a rela&#231;&#227;o com o outro come&#231;a no modo como algu&#233;m ocupa e assume a pr&#243;pria presen&#231;a.</p><p>&#201; fundamental come&#231;armos a observar <strong>o que acontece com uma sociedade que perdeu a intimidade consigo mesma e, ao mesmo tempo, exige cada vez mais do outro aquilo que n&#227;o consegue oferecer a si</strong>. Esperamos acolhimento de pessoas que tamb&#233;m est&#227;o cada vez menos capazes de acolher a si mesmas; esperamos presen&#231;a de quem vive permanentemente distra&#237;do de si; esperamos profundidade de quem quase n&#227;o encontra espa&#231;o para sustentar-se na pr&#243;pria experi&#234;ncia.</p><p><strong>Solid&#227;o &#233; n&#227;o ter onde colocar aquilo que nos acontece</strong>. &#201; n&#227;o encontrar testemunha para uma parte da pr&#243;pria vida. &#201; ter uma not&#237;cia enorme e n&#227;o saber para quem contar. &#201; voltar para casa depois de um dia dif&#237;cil e perceber que voc&#234; n&#227;o quer conversar com qualquer pessoa. Voc&#234; quer conversar com <strong>algu&#233;m espec&#237;fico</strong>. Algu&#233;m diante de quem n&#227;o precise explicar tanto. Algu&#233;m que reconhe&#231;a a sua voz quando voc&#234; diz &#8220;estou bem&#8221; e perceba que n&#227;o est&#225;. Isso &#233; raro. O reconhecimento, a escuta, o interesse, o encontro.</p><p>E isso me faz pensar que <strong>a solid&#227;o contempor&#226;nea precisa ser olhada tamb&#233;m como um fen&#244;meno social, porque n&#227;o &#233; razo&#225;vel colocar toda a responsabilidade sobre indiv&#237;duos que vivem em estruturas que os mant&#234;m permanentemente ocupados, acelerados, dispon&#237;veis, produtivos e expostos</strong>. Q<strong>ue tipo de vida estamos construindo para que seja t&#227;o dif&#237;cil estar verdadeiramente com algu&#233;m?</strong></p><p>Sentar. Olhar. Escutar. Sentir. Perceber.. Ficar um pouco mais quando a conversa come&#231;ar a ficar dif&#237;cil. Ter tempo para descobrir algu&#233;m. Ter disposi&#231;&#227;o para ser descoberto.</p><p><strong><span data-color="#0d475a" style="color: rgb(13, 71, 90);">A solid&#227;o mais profunda do nosso tempo definitivamente n&#227;o &#233; estar sozinho. &#201; estar cercado de gente e continuar sem encontrar lugar para existir por inteiro. A come&#231;ar por um lugar em si mesmo.</span></strong></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%210VoD%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%210VoD%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png" width="1456" height="819" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:819,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2821831,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/210972248?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0VoD!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9c06ebc-d5d2-4fd5-9076-cc47136b91ad_1672x941.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/radiografia-da-solidao?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fradiografia-da-solidao%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Assunto]]></title><description><![CDATA[Poema - sobre aquilo que j&#225; n&#227;o cabe em pauta]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/assunto</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/assunto</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Aug 2026 16:06:11 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21KsOd%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Hoje fiz uma pequena desobedi&#234;ncia. N&#227;o &#233; quinta-feira. E tamb&#233;m n&#227;o &#233; um ensaio, nem uma cr&#244;nica. Pela primeira vez, meu Substack recebe um poema.</p><p>Ele chegou, chegando. Do jeito que eu gosto. E eu aprendi, h&#225; algum tempo, que certas palavras n&#227;o gostam de esperar pelo calend&#225;rio. Isso &#233; &#243;timo, por sinal!</p><p>Nasceu depois de ouvir uma mulher, minha aluna, quando decidiu pedir demiss&#227;o. Ela fez isso simplesmente porque j&#225; n&#227;o havia espa&#231;o para continuar oferecendo a pr&#243;pria vida em troca da promessa de sucesso.</p><p>Desde ent&#227;o, esse poema n&#227;o &#8220;me deixou em paz&#8221;. &#201; bem poss&#237;vel que ele lhe fa&#231;a companhia por alguns minutos.</p><p>Hoje, isso me parece suficiente.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>Assunto</strong></p><h6><em>Ramina El Shadai</em></h6><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">
Venho por meio desta
formalizar meu agradecimento
pela confian&#231;a depositada
e pela oportunidade de performar
acima das expectativas iniciais.</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Alta disponibilidade
cumpri hor&#225;rios estendidos
demonstrei proatividade
em cen&#225;rios de demanda cont&#237;nua</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">- aprendi a estar sempre dispon&#237;vel.</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Respondi com agilidade,
mesmo quando algo em mim
solicitava alinhamento interno
e um prazo mais humano.</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Gerenciei o corpo</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">- recurso secund&#225;rio
com foco em efici&#234;ncia operacional.
Exaust&#227;o
- indicador de comprometimento.
Ansiedade:
- leitura estrat&#233;gica de futuro.</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Entreguei resultados
assumindo ajustes pessoais recorrentes,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">&#224;s custas de pequenas desist&#234;ncias di&#225;rias
previamente normalizadas
- todas justific&#225;veis.</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Utilizei o presente
de forma objetiva
- o restante foi devidamente postergado.</pre></div><p>Desenvolvi resili&#234;ncia<br>flexibilidade<br>capacidade de adapta&#231;&#227;o<br>a ambientes que exigem sil&#234;ncio interno.</p><p>Sustentei postura adequada em reuni&#245;es<br>alinhei discurso<br>expectativa<br>e linguagem corporal,<br>mesmo quando havia desalinhamentos<br>em inst&#226;ncias menos mensur&#225;veis.</p><p>Revisitei limites<br>com mentalidade de crescimento<br>- s&#243; mais um projeto<br>s&#243; mais um ciclo<br>s&#243; at&#233; consolidar.</p><p>Com o tempo,<br>o que do&#237;a passou a atrapalhar.<br>Estar inteiro deixou de ser prioridade<br>- o tempo precisava render.</p><p>Em contrapartida, obtive</p><p>reconhecimento compat&#237;vel<br>aprendizado relevante<br>- a percep&#231;&#227;o cont&#237;nua<br>de que ainda havia espa&#231;o para evoluir.</p><p>Levo comigo<br>os aprendizados adquiridos<br>e uma quantidade m&#237;nima<br>do que n&#227;o foi poss&#237;vel sentir<br>durante o per&#237;odo vigente,<br>a ser endere&#231;ado oportunamente.</p><p>Reitero que esta decis&#227;o<br>n&#227;o possui car&#225;ter pessoal.</p><p>Trata-se apenas<br>do encerramento de um v&#237;nculo<br>que cumpriu seu ciclo natural.</p><p>Permane&#231;o &#224; disposi&#231;&#227;o<br>para transi&#231;&#227;o de responsabilidades.</p><p>Atenciosamente,</p><p>algu&#233;m que deu certo<br>em nome do sucesso</p><p>- mas que n&#227;o dorme sem acordar.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/assunto?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fassunto%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21KsOd%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21KsOd%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png" width="1456" height="971" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:971,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2175972,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/210238627?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KsOd!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad62299-f083-48b0-8d93-12c63b45dc74_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando acreditar se torna necessário]]></title><description><![CDATA[O que acontece com a percep&#231;&#227;o quando ela perde intimidade com a realidade &#8211; a cren&#231;a como sintoma]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/quando-acreditar-se-torna-necessario</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/quando-acreditar-se-torna-necessario</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Aug 2026 03:00:55 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%2118QS%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p>Numa aula de observa&#231;&#227;o sobre cren&#231;as, uma aluna me fez uma pergunta. Ela n&#227;o queria saber em que as pessoas acreditam. Queria saber por que precisam acreditar.</p><p>A diferen&#231;a entre essas duas perguntas parece pequena. N&#227;o &#233;. Ela muda completamente o lugar de onde observamos a experi&#234;ncia humana.</p><p>Vivemos tentando compreender as cren&#231;as. Classificamos as cren&#231;as em positivas e negativas, fortalecedoras e limitantes. Aprendemos a substitu&#237;-las, reprogram&#225;-las, afirm&#225;-las, combat&#234;-las, alimin&#225;-las. Criamos m&#233;todos para escolher cren&#231;as melhores, como se o problema estivesse no conte&#250;do delas.</p><p>E o problema nunca esteve no conte&#250;do da cren&#231;a. Sinto que nossa aten&#231;&#227;o n&#227;o precisaria estar na cren&#231;a, mas na necessidade dela. Falando de uma outra forma: no lugar que ela ocupa em nossas percep&#231;&#245;es sobre n&#243;s. Por&#233;m, essa necessidade raramente &#233; questionada. Pelo contr&#225;rio. Tornou-se uma virtude.</p><p>Dizemos que &#233; preciso acreditar na vida, acreditar nas pessoas, acreditar em si mesmo, acreditar no futuro, acreditar que tudo vai dar certo, acreditar que algo seria mesmo o indicado para voc&#234;. Quanto mais observo a experi&#234;ncia e as condi&#231;&#245;es humanas, mais essa l&#243;gica me parece estranha.</p><p>Por que a vida precisaria ser sustentada por uma ideia? O que deixou de acontecer para que acreditar se tornasse uma necessidade? O que faz milhares de pessoas acordarem e viverem todos os seus dias justamente porque acreditam em alguma coisa?</p><p>A cren&#231;a me parece uma resposta produzida quando a percep&#231;&#227;o perde intimidade com a realidade. <strong>A partir desse rompimento, deixamos de nos relacionar com o que acontece, para nos relacionarmos com aquilo que aprendemos a acreditar que deveria acontecer</strong>. Passamos a olhar a realidade procurando o que falta para que um cen&#225;rio pare&#231;a completo, aceit&#225;vel, desej&#225;vel.</p><p>Em algum momento da vida percebi que tudo tem um sentido. N&#227;o o sentido que atribu&#237;mos &#224;s coisas, mas o sentido que as faz existir. Ao inv&#233;s de olhar a vida pelo resultado que eu poderia desejar alcan&#231;ar, passei a observar pelo in&#237;cio do movimento que estaria acontecendo. De onde um movimento nasce.</p><p>Toda experi&#234;ncia nasce de um lugar da percep&#231;&#227;o que a torna poss&#237;vel. &#201; esse lugar que cria conex&#245;es, sustenta processos, orienta escolhas e coloca uma realidade em movimento. Eu chamo esse lugar de sentido.</p><p>Na maior parte das vezes ele permanece invis&#237;vel, porque n&#227;o &#233; revelado pelo pensamento, mas pela necessidade da repeti&#231;&#227;o das pr&#243;prias experi&#234;ncias ou do mesmo impacto que diferentes experi&#234;ncias podem causar em n&#243;s. &#201; por isso que nenhuma experi&#234;ncia est&#225; sozinha. Diferentes experi&#234;ncias podem pertencer a um mesmo ciclo. Quando reconhecemos o sentido que sustenta esse ciclo, algo pode finalmente se encerrar.</p><p>Uma escolha, uma rela&#231;&#227;o, um comportamento ou uma dor nunca come&#231;am onde imaginamos. Todos nascem desse lugar silencioso que sustenta a nossa maneira de existir antes mesmo de percebermos.</p><p>Quando essa conex&#227;o com o sentido da realidade se rompe, alguma coisa precisa ocupar o seu lugar. Ent&#227;o surgem as cren&#231;as.</p><p>Por isso uma cren&#231;a raramente parece uma cren&#231;a para quem a segura. Ela n&#227;o funciona como opini&#227;o. Funciona como estrutura de percep&#231;&#227;o. N&#227;o apenas apoia o que pensamos. Ela define o que conseguimos perceber. Ela deixa de ser uma ideia e passa a ser um modo de existir.</p><p><strong>Se deixamos de nos comunicar com o sentido do que acontece, passamos a nos comunicar apenas com aquilo que pensamos sobre o que acontece. Olhamos para a realidade atrav&#233;s daquilo que precisou substitui-la.</strong></p><p>Uma crian&#231;a que cresce aprendendo a se perceber rejeitada, diminu&#237;da ou menos importante dificilmente leva apenas essa lembran&#231;a para a vida adulta. Ela leva uma estrutura de percep&#231;&#227;o. E estruturas n&#227;o desaparecem com o tempo. Elas procuram continuidade, repeti&#231;&#227;o, conex&#245;es, o que sustentar. &#201; assim que nasce um ciclo.</p><p>A crian&#231;a que um dia precisou conquistar um lugar para existir pode se tornar o adulto que trabalha al&#233;m do necess&#225;rio, cuida al&#233;m do saud&#225;vel, entrega al&#233;m do poss&#237;vel. Um adulto que aprendeu que existir depende do quanto ele faz.</p><p>Sua vida passa a acontecer pela expectativa do olhar do outro. Cada reconhecimento oferece um breve al&#237;vio, e nunca uma sensa&#231;&#227;o de pertencimento. E o mais grave: a fome permanece.</p><p>Ent&#227;o surgem novas estrat&#233;gias, novos desempenhos, novas tentativas de compensa&#231;&#227;o. A exaust&#227;o deixa de ser um efeito colateral e passa a fazer parte da identidade. Sem perceber, essa pessoa continua escolhendo rela&#231;&#245;es, ambientes e experi&#234;ncias capazes de tocar exatamente o mesmo lugar onde tudo come&#231;ou (por isso se chama ciclo). Certamente, passar&#225; a acreditar que uma vida sem esfor&#231;o seria uma vida SEM IMPORT&#194;NCIA. O ciclo n&#227;o se repete porque a vida insiste. Repete-se porque a percep&#231;&#227;o continua procurando aquilo que ainda n&#227;o conseguiu compreender. Repete-se porque tudo que acontece est&#225; sem comunica&#231;&#227;o com o sentido do que est&#225; acontecendo.</p><p>N&#227;o considero que a repeti&#231;&#227;o seja um castigo. Repeti&#231;&#227;o, como tudo, tamb&#233;m &#233; comunica&#231;&#227;o. A vida n&#227;o cria experi&#234;ncias iguais, ela cria oportunidades para que uma mesma estrutura finalmente possa ser vista. Costumo dizer que tudo &#233; ferramenta para que possamos olhar pra n&#243;s, justamente porque tudo pode nos impactar. E impacta sempre no lugar onde tudo come&#231;ou.</p><p>&#201; por isso que me interessa cada vez menos o acontecimento e cada vez mais o lugar da percep&#231;&#227;o que o torna recorrente. At&#233; o corpo participa dessa conversa.</p><p>N&#227;o penso o corpo como um inimigo que adoece de repente, nem como uma m&#225;quina que falha. Penso o corpo um territ&#243;rio da mesma intelig&#234;ncia que produz, conecta e manifesta as nossas experi&#234;ncias. Quando uma percep&#231;&#227;o permanece r&#237;gida durante muito tempo, quando um ciclo insiste em n&#227;o encontrar reconhecimento, o corpo pode passar a comunicar aquilo que a consci&#234;ncia ainda n&#227;o conseguiu escutar.</p><p>N&#227;o significa que exista uma doen&#231;a para cada emo&#231;&#227;o ou uma causa &#250;nica para cada sofrimento. A experi&#234;ncia humana &#233; muito mais complexa do que qualquer mapa simb&#243;lico. Mas talvez exista uma pergunta que fazemos pouco: <strong>A que ciclo de percep&#231;&#227;o pertence esta dor? </strong>Enquanto buscamos apenas eliminar o sintoma, interrompemos a comunica&#231;&#227;o antes de conhecer seu sentido. O que justifica o fato de tantas dores retornarem por novos caminhos.</p><p><strong>&#201; por isso que discutir cren&#231;as quase nunca produz transforma&#231;&#227;o. Uma cren&#231;a decide antecipadamente o que ser&#225; reconhecido como verdade, e, se existe cren&#231;a, existe um sistema de escassez vibrante comandando tudo isso.</strong></p><p>&#201; nesse ponto que o sofrimento come&#231;a, porque deixamos de nos relacionar diretamente com a experi&#234;ncia e passamos a nos relacionar com a interpreta&#231;&#227;o da experi&#234;ncia. Rela&#231;&#245;es, perdas, escolhas e acontecimentos deixam de ser comunica&#231;&#227;o porque precisam ser a confirma&#231;&#227;o daquilo que j&#225; esper&#225;vamos encontrar.</p><p>Ou&#231;o dizer que a dor nos torna mais fortes. Hoje suspeito do contr&#225;rio. A necessidade de acreditar talvez seja a forma como uma dor continua tentando sobreviver. Toda dor que n&#227;o encontra reconhecimento na sua origem precisa criar uma estrutura capaz de proteg&#234;-la. Essa estrutura &#233; r&#237;gida. Parece for&#231;a, mas n&#227;o &#233;. &#201; defesa. A dor defendida nos torna mais escondidos, portanto, mais r&#237;gidos.</p><p><strong>Percebo que chamamos de cren&#231;a exatamente uma for&#231;a constru&#237;da para sustentar aquilo que ainda n&#227;o encontrou consist&#234;ncia em n&#243;s.</strong> <strong>Uma cren&#231;a nunca nasce daquilo que j&#225; est&#225; vivo em n&#243;s, reconhecido, revelado. Ela nasce da tentativa de sustentar aquilo que sentimos n&#227;o possuir, ela compensa uma percep&#231;&#227;o de aus&#234;ncia.</strong></p><p>Precisamos acreditar naquilo que ainda tentamos sustentar. Talvez a <strong>cren&#231;a</strong> seja exatamente esse esfor&#231;o: <strong>manter de p&#233; uma estrutura que, intimamente, ainda n&#227;o encontrou ch&#227;o</strong>. Isso se revela com frequ&#234;ncia quando algu&#233;m diz: &#8220;Eu preciso acreditar que vou conseguir.&#8221;</p><p>Volto &#224; pergunta: por que seria necess&#225;rio acreditar? Quando uma condi&#231;&#227;o j&#225; foi reconhecida, ela n&#227;o exige cren&#231;a. Exige pr&#225;tica, tempo, amadurecimento e disponibilidade para viver o processo. Uma condi&#231;&#227;o exige observa&#231;&#227;o de sua exist&#234;ncia.</p><p>Eu, por exemplo, n&#227;o preciso acreditar que sou capaz de viver processos de cura. Um dia eu percebi que sabia viver processos de cura. Eles fazem parte da minha experi&#234;ncia. Tamb&#233;m n&#227;o preciso acreditar que um dia estarei completamente curada. Porque a cura, para mim, n&#227;o &#233; um lugar onde se chega. &#201; uma forma de assumir a vida. E que n&#227;o existe apenas uma cura espec&#237;fica para uma determinada experi&#234;ncia, mas um retorno para um lugar inteiro de percep&#231;&#227;o que enfraquece a necessidade de fortalecimento de hist&#243;rias de dores.</p><p>Quando deixamos de transformar o resultado em destino, a necessidade de acreditar perde for&#231;a. E, curiosamente, &#233; nesse momento que os processos encontram mais espa&#231;o para acontecer.</p><p>Observe o quanto nossos discursos revelam muito mais aquilo que buscamos do que aquilo que j&#225; somos capazes de viver. Ent&#227;o, acreditamos.</p><p>N&#227;o me interessa, portanto, encontrar cren&#231;as positivas. Como tamb&#233;m n&#227;o me interessa eliminar cren&#231;as. N&#227;o me interessa definir uma situa&#231;&#227;o ideal e trabalhar no controle de sua arquitetura.</p><p>Essas duas propostas continuam girando em torno da mesma l&#243;gica: a de que precisamos delas. E j&#225; abandonei essa certeza. Tudo na vida apresenta uma l&#243;gica, um ciclo natural, uma sabedoria pr&#243;pria, um sentido. Tudo!</p><p>Existe uma diferen&#231;a profunda entre uma vida sustentada por cren&#231;as e uma vida sustentada pela pr&#243;pria natureza. Nossa natureza n&#227;o pede cren&#231;as. A natureza n&#227;o pede cren&#231;as. Nenhuma natureza. Pede presen&#231;a suficiente para que a realidade n&#227;o precise ser substitu&#237;da por interpreta&#231;&#245;es antecipadas.</p><p>Posso te dizer uma coisa que, para mim, mudou tudo. N&#227;o escrevo isso para que voc&#234; passe a questionar suas cren&#231;as, nem para que transforme este texto em mais uma meta de desenvolvimento. Tamb&#233;m n&#227;o escrevo para que tente acreditar menos ou se cobre algum novo tipo de comportamento. Escrevo apenas para contar o que aconteceu comigo e com tantos alunos que acompanhei os processos de transi&#231;&#227;o de estrutura de percep&#231;&#227;o. N&#227;o falo de uma teoria, falo a partir da observa&#231;&#227;o de um processo real e poss&#237;vel.</p><p>Houve um tempo em que eu estabelecia metas para me tornar algu&#233;m. Acreditava que precisava alcan&#231;ar determinados lugares, conquistar determinadas percep&#231;&#245;es sobre mim, provar determinadas capacidades. Passei anos sustentando a ideia de que ainda faltava alguma coisa para que eu pudesse, enfim, descansar em mim.</p><p>At&#233; que alguns processos foram mudando silenciosamente a minha percep&#231;&#227;o. Hoje, olhando para tr&#225;s, percebo algo que nunca planejei viver. Eu n&#227;o abandonei minhas cren&#231;as, n&#227;o briguei com elas, n&#227;o as substitu&#237; por cren&#231;as melhores. Simplesmente deixei de precisar delas. E isso n&#227;o aconteceu porque aprendi uma teoria nova, mas porque elas perderam a fun&#231;&#227;o que exerciam na minha vida.</p><p>Durante muito tempo, serviram para sustentar aquilo que eu ainda n&#227;o conseguia reconhecer em mim. Quando essa percep&#231;&#227;o foi ganhando consist&#234;ncia, elas come&#231;aram a cair sozinhas, quase sem que eu percebesse.</p><p>Uma cren&#231;a n&#227;o termina quando decidimos abandon&#225;-la, ela apenas termina quando deixa de ser necess&#225;ria, como todo ciclo.</p><p>Enquanto vivemos a partir das aus&#234;ncias, dos medos e da necessidade de prote&#231;&#227;o, produzimos cren&#231;as e, com elas, produzimos sofrimento. Ou vice versa.</p><p>&#192; medida que nos tornamos mais inteiros, passamos a precisar menos delas. N&#227;o porque aprendemos novas ideias, mas porque come&#231;amos a confiar nos sentidos dos processos.</p><p>A cren&#231;a nos conecta ao resultado. A vida nos conecta ao agora e ao sentido do processo. A cren&#231;a expande a vibra&#231;&#227;o da escassez, enquanto a confian&#231;a expande a vibra&#231;&#227;o da abund&#226;ncia pelo reconhecimento do presente internamente. Se estamos falando de ciclo, o que est&#225; em expans&#227;o &#233; o que nos impacta em seus mesmos lugares de origem. Escassez produz vida em escassez.</p><p>Talvez nenhuma aus&#234;ncia seja mais silenciosa do que aquela que nos faz acreditar que s&#243; conseguimos viver, apoiados naquilo que pensamos sobre a vida. Enquanto essa necessidade permanecer invis&#237;vel, continuaremos discutindo cren&#231;as.</p><p>Olhando com soltura, &#233; poss&#237;vel perceber que nossa quest&#227;o nunca foi acreditar. Eu sinto que a verdadeira quest&#227;o &#233; voltar a saber viver tudo aquilo que n&#227;o precisa ser sustentado por cren&#231;a.</p><p><strong>Quando a percep&#231;&#227;o recupera intimidade com a realidade, n&#243;s deixamos de nos apoiar naquilo que acreditamos sobre a vida e voltamos a confiar naquilo que a pr&#243;pria experi&#234;ncia &#233; capaz de revelar.</strong></p><p><strong>E, nesse momento, as cren&#231;as n&#227;o precisam ser abandonadas. Repito: elas apenas deixam de ter fun&#231;&#227;o.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/quando-acreditar-se-torna-necessario?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fquando-acreditar-se-torna-necessario%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%2118QS%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%2118QS%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png" width="1456" height="831" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:831,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:1879601,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/209859895?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!18QS!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4aa00ad-cc53-4217-bc7a-8c2119db4514_1660x947.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A plateia roubou a cena]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica sobre teatro, celulares e adultos.]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/a-plateia-roubou-a-cena</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/a-plateia-roubou-a-cena</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Jul 2026 03:00:32 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21QK--%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>As luzes se apagaram. Ou quase.</p><p>Cinco minutos depois do in&#237;cio do espet&#225;culo, ainda havia gente entrando. Caminhavam lentamente entre as fileiras com a lanterna do celular apontada para o ch&#227;o, convencidas de que uma pequena luz particular, na escurid&#227;o de um teatro, passaria despercebida.</p><p>Curiosa essa f&#237;sica contempor&#226;nea: basta que a luz seja nossa para acreditarmos que ela n&#227;o ilumina ningu&#233;m al&#233;m do caminho que pretendemos seguir.</p><p>Tr&#234;s filas &#224; minha frente, a mulher da ponta diagonal recebeu uma mensagem, suponho ser um comunicado sobre a chegada da amiga, porque imediatamente acendeu a tela na intensidade m&#225;xima e levantou o bra&#231;o para sinalizar onde estava. Pessoas gritaram: desliga o celular! </p><p>Encontrou. A amiga sentou. A mulher da ponta permaneceu ali, conversando pelo WhatsApp por mais um tempo, enquanto a pe&#231;a acontecia. Um novo assunto, segundo minhas conjecturas. O palco disputava aten&#231;&#227;o com uma conversa que, acredito, poderia esperar.</p><p>Primeiro, algu&#233;m logo atr&#225;s pediu delicadamente que apagasse a luz. Depois, outra pessoa. Por fim, um rapaz atravessou v&#225;rias fileiras para repetir o pedido. <strong>Foram necess&#225;rias tr&#234;s pessoas para lembrar uma &#250;nica adulta de que havia outras centenas compartilhando aquele instante.</strong></p><p>Mas a noite ainda reservava atra&#231;&#245;es paralelas.</p><p>Durante o espet&#225;culo, comentaristas oficiais da pr&#243;pria emo&#231;&#227;o anunciaram em voz alta cada surpresa, cada gra&#231;a, cada conclus&#227;o. N&#227;o falo daquela gargalhada espont&#226;nea ou do espanto inevit&#225;vel, como toda rea&#231;&#227;o natural. Refiro-me &#224; necessidade quase jornal&#237;stica de narrar a pr&#243;pria experi&#234;ncia, como se o restante da plateia tivesse comprado ingresso para assistir tamb&#233;m aos seus pensamentos.</p><p>Quando o sil&#234;ncio finalmente parecia recuperar algum espa&#231;o, outra luz surgiu no palco. N&#227;o vinha do cen&#225;rio, nem da dire&#231;&#227;o de arte. Era a mo&#231;a atr&#225;s de mim fotografando o espet&#225;culo com flash, talvez para registrar um momento que s&#243; existia porque deixara de viv&#234;-lo. O mais assustador &#233; que, para registr&#225;-lo, precisou interromp&#234;-lo para todos ao redor. Mais um grito coletivo: desliga o celular!</p><p>Sa&#237; do teatro pensando que talvez o maior espet&#225;culo daquela noite n&#227;o estivesse sobre o palco. Estava mesmo na plateia.</p><p>H&#225; algum tempo elegemos os jovens como os grandes r&#233;us da depend&#234;ncia do celular. Repetimos, quase que diariamente, que eles j&#225; n&#227;o sabem ouvir, conviver, esperar, silenciar, contemplar. Mas basta frequentar um teatro, um cinema, uma palestra ou um concerto para perceber que a distra&#231;&#227;o n&#227;o tem idade.</p><p>Ali&#225;s, quando a produ&#231;&#227;o informa que &#233; proibido fotografar ou filmar, ainda precisa destacar um profissional, exclusivamente para vigiar as sofisticadas estrat&#233;gias criadas por adultos que decidiram descumprir justamente a primeira regra da conviv&#234;ncia: respeitar o combinado.</p><p>Os adultos tamb&#233;m esqueceram que viver em sociedade exige pequenas ren&#250;ncias. Planejar-se para chegar no hor&#225;rio, permanecer algumas horas sem consultar mensagens, conter o impulso de fotografar tudo, descobrir que nem toda emo&#231;&#227;o precisa ser narrada no instante em que acontece.</p><p><strong>Para mim, educa&#231;&#227;o nunca foi um discurso dirigido &#224;s crian&#231;as. Sempre foi um comportamento observado por elas. Os jovens aprendem muito menos com aquilo que lhes dizemos do que com aquilo que nos veem fazer.</strong></p><p>Arrisco dizer que &#233; bem poss&#237;vel que a quest&#227;o mais urgente j&#225; n&#227;o seja mais como educar uma gera&#231;&#227;o que nasceu com o celular nas m&#227;os, mas algo bem mais desconfort&#225;vel: <strong>quem est&#225; educando os adultos?</strong></p><p>Enquanto essa resposta n&#227;o chega, deixo uma pequena contribui&#231;&#227;o.</p><p><strong>Manual b&#225;sico para ir ao teatro</strong></p><blockquote><p><span>1. </span>Chegue antes da terceira chamada. O espet&#225;culo come&#231;a no hor&#225;rio marcado. O atraso costuma vir carregado de excelentes argumentos, mas a cortina desconhece as justificativas individuais. E, aceite: <strong>nem tudo foi criado para seguir a nossa agenda.</strong></p><p><span>2. </span>A lanterna do celular ilumina o seu caminho e o campo de vis&#227;o de mais algumas centenas de pessoas. Portanto, repito: <strong>descubra a tecnologia revolucion&#225;ria de chegar cedo.</strong></p><p><span>3. </span>Se precisar usar o celular, diminua a luminosidade. <strong>Quase tudo na vida pode ser feito sem holofotes.</strong></p><p><span>4. </span><strong>O WhatsApp e o Instagram sobreviver&#227;o sem voc&#234; por duas horas</strong>. Se n&#227;o sobreviverem, talvez o problema n&#227;o seja o teatro.</p><p><span>5. </span>O ator n&#227;o precisa disputar aten&#231;&#227;o com a sua conversa, com a sua percep&#231;&#227;o explicada ou com a sua previs&#227;o do que acontecer&#225; na pr&#243;xima cena. O texto j&#225; foi escrito.</p><p><span>6. </span>Fotografar o palco produz uma imagem. Estar presente produz uma mem&#243;ria, um impacto nas suas emo&#231;&#245;es. As duas coisas raramente acontecem ao mesmo tempo. E se precisar fotografar, <strong>NUNCA utilize flash.</strong></p><p><span>7. </span>O ingresso compra uma poltrona. <strong>O ingresso n&#227;o compra o direito de transformar uma experi&#234;ncia coletiva em um evento particular.</strong></p><p><span>8. </span>Se uma atitude sua faz outra pessoa deixar de assistir plenamente ao espet&#225;culo, n&#227;o &#233; falta de etiqueta, &#233; falta de compreens&#227;o de como funciona um ambiente coletivo. <strong>&#201; preciso a aprender estar onde voc&#234; se prop&#245;e a estar.</strong></p><p><span>9. </span><strong>O teatro come&#231;a quando as luzes se apagam</strong>. A partir da&#237;, o &#250;nico acontecimento precisa ser o espet&#225;culo que acontece no palco.</p><p><span>10. </span>Ao final, aplauda de p&#233;, se desejar. Mas, <strong>durante a apresenta&#231;&#227;o, ofere&#231;a ao elenco o maior elogio que um p&#250;blico pode dar: o sil&#234;ncio atento.</strong></p></blockquote><p></p><p>Todos os epis&#243;dios narrados nesta cr&#244;nica aconteceram numa &#250;nica pe&#231;a de teatro a que assisti. J&#225; venho percebendo esses comportamentos com muita frequ&#234;ncia, mas dessa vez, foi mesmo um combo, com direito a todos os equ&#237;vocos. Sa&#237; do teatro convencida de que ainda falamos pouco sobre os processos de forma&#231;&#227;o de p&#250;blico.</p><p>Investimos tempo, estudo e recursos para que a arte aconte&#231;a com excel&#234;ncia. Mas esquecemos que a experi&#234;ncia art&#237;stica tamb&#233;m depende de quem est&#225; sentado do outro lado. O p&#250;blico tamb&#233;m precisa ser educado.</p><p>Assistir a um espet&#225;culo &#233; mais do que ocupar uma cadeira. &#201; compreender que, quando as luzes se apagam, o palco deixa de ser apenas dos artistas. Ele passa a ser um pacto silencioso entre quem oferece a obra e quem aceitou receb&#234;-la.</p><p>Respeitar esse pacto tamb&#233;m &#233; cultura. E, sinceramente, j&#225; passou da hora de ensinarmos isso.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21QK--%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21QK--%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png" width="1456" height="767" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:767,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2027112,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/208757535?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QK--!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff681df38-1b83-4758-8474-1e841c713733_1728x910.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/a-plateia-roubou-a-cena?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fa-plateia-roubou-a-cena%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Chegar à própria vida]]></title><description><![CDATA[Uma carta para o cora&#231;&#227;o]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/chegar-a-propria-vida</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/chegar-a-propria-vida</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Jul 2026 03:00:04 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21sG1Y%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Passei um tempo convivendo com uma constata&#231;&#227;o inc&#244;moda: algumas pessoas vivem com a sensa&#231;&#227;o de que chegaram tarde para a pr&#243;pria vida. Simplesmente porque, em algum momento, deixaram de caminhar juntas. </p><p>Eu tamb&#233;m conhe&#231;o essa sensa&#231;&#227;o. Ela aparece quando olhamos para tr&#225;s e nos perguntamos como fomos parar em lugares que, embora tenham sido escolhidos por n&#243;s, nunca chegaram a ser habitados de verdade.</p><p>Essa concep&#231;&#227;o de velocidade que usamos para seguir a vida acabou nos roubando o tempo de chegar a n&#243;s mesmos, de nos adaptarmos a cada mudan&#231;a, a cada escolha, a cada nova roupagem de tudo, mesmo sem termos nos dado conta.</p><p>Durante muito tempo, fomos levados a acreditar que isso seria realmente um atraso. Hoje, quando volto a essas passagens com um pouco mais de delicadeza, o que percebo &#233; mesmo um desencontro.</p><p>Muitas vezes, seguimos em frente enquanto uma parte de n&#243;s permanecia em outro lugar, tentando acompanhar decis&#245;es que j&#225; tinham sido tomadas. (O fato de termos nos dividido em partes produziu experi&#234;ncias imposs&#237;veis de serem administradas, embora tenhamos cultivado a ilus&#227;o de ter dado conta.) <strong>Raz&#227;o e emo&#231;&#227;o, transformadas em advers&#225;rias, fizeram caber a vida apenas onde fosse poss&#237;vel explicar, comprovar ou garantir alguma coisa.</strong></p><p><strong>Continuar caminhando, depois que os pensamentos aprenderam a andar sozinhos, &#233; uma das experi&#234;ncias mais silenciosas da vida adulta. Para n&#227;o dizer uma das mais violentas.</strong></p><p>Um dia desses resolvi escrever uma carta.</p><p>Diferente de nosso costume, n&#227;o seria uma carta para a jovem que fui, muito menos para a mulher que me tornei ou para a que ainda pretendo ser. <strong>Escrevi uma carta para o cora&#231;&#227;o que permaneceu esperando que eu voltasse a consult&#225;-lo</strong>. N&#227;o escrevi o que eu queria viver, mas o que eu estava profundamente vivendo.</p><p>Escrevi assim:</p><p>-
Amado cora&#231;&#227;o,</p><p>Pronto! N&#227;o precisa mais tentar acompanhar as escolhas que fiz, enquanto meus pensamentos caminhavam sem voc&#234;. Quando o pensamento se desconecta da unidade, ele se ilude com a pr&#243;pria soberania. Passa a acreditar que pode ocupar todos os espa&#231;os, explicar todos os sil&#234;ncios, decidir todos os caminhos. Esquece que nasceu para iluminar roteiros, n&#227;o para substituir quem conhece o sentido, a origem, o destino.</p><p>Hoje compreendo o quanto voc&#234; precisou suportar essa aus&#234;ncia. Enquanto a cabe&#231;a corria para controlar a vida, era voc&#234; quem permanecia, esperando apenas o instante em que eu voltasse a honr&#225;-lo.</p><p>N&#227;o precisa tentar acompanhar um ritmo que n&#227;o &#233; o seu, s&#243; porque eu aprendi a acreditar que teria que ser assim. Voc&#234;, em sua sabedoria, n&#227;o tem pressa. Sempre soube que o tempo da vida n&#227;o &#233; o tempo do que andam chamando de vida. Eu acabei confundindo alguns movimentos com exist&#234;ncia e foi isso que descompassou voc&#234;.</p><p>Experimente dizer palavras, &#224; vontade, at&#233; se acostumar com a ideia de que pode ser ouvido, novamente. Eu me sinto pronta para ouvir, sem tentar completar e, muito menos, sem tentar interpretar o que diz. Voc&#234; fala atrav&#233;s da pele que arrepia antes de qualquer ponto final. Eu sinto quando a respira&#231;&#227;o muda, j&#225; expandindo meu peito diante do que diz sobre mim. J&#225; brilho os olhos e confio no sentido de qualquer processo. </p><p>J&#225; n&#227;o tento mais interromper sua linguagem tentando traduzi-la depressa. N&#227;o vou preencher seus sil&#234;ncios com interpreta&#231;&#245;es, nem obrigar seus sinais a caberem nas palavras que j&#225; conhe&#231;o. Ah! Os seus sinais! Quanta for&#231;a e delicadeza, ao mesmo tempo! </p><p>Fico com uns trechos de m&#250;sica cantando dentro de mim at&#233; eu perceber o que eles est&#227;o tentando me dizer. Os livros que abro intuitivamente e sempre encontro aquela &#250;nica linha conectada ao meu momento. As horas repetidas que aparecem confirmando minhas conjecturas. As pessoas que surgem no exato momento em que elas j&#225; haviam surgido pulsando em voc&#234;. Depoimentos de pessoas desconhecidas que chegam no exato momento em que pensava deixar algumas coisas pra l&#225;. Como eu amo essa linguagem de sinais!</p><p>Pode falar do seu jeito. J&#225; ou&#231;o com o corpo inteiro. Assuma seu pr&#243;prio ritmo, seu pr&#243;prio compasso. Seu pr&#243;prio jeito de me dizer sobre mim, sobre a vida, sobre tudo. N&#227;o tenho mais pressa. Estou reconhecendo suas orienta&#231;&#245;es, informa&#231;&#245;es, direcionamentos vindos de um &#250;nico lugar de percep&#231;&#227;o em mim, que n&#227;o deixa d&#250;vidas.</p><p>Cora&#231;&#227;o, agora eu posso te sentir. E se posso te sentir, voc&#234; est&#225; livre para ser, cora&#231;&#227;o. Quero dizer: agora, posso me sentir.</p><p><strong>&#201; libertador perceber que sou meu pr&#243;prio cora&#231;&#227;o, e que n&#227;o passa por mim a cren&#231;a de que isso seja menos do que qualquer outra forma de maturidade.</strong></p><p>&#201; dif&#237;cil aceitar que fomos ensinados a admirar quem suporta tudo, quem controla tudo, quem explica tudo. Mas quase nunca quem escuta a si mesmo, quem respeita seus tempos, quem segue seus pulsos internos. Quem &#233; capaz de curar o que foi capaz de adoecer um dia. </p><p>Confian&#231;a no pr&#243;prio cora&#231;&#227;o, ao inv&#233;s de uma das express&#245;es da consci&#234;ncia, foi tratada como um sinal de risco. &#201; preciso muita presen&#231;a para seguir essa nossa natureza que pulsa, quando o mundo inteiro aplaude o que endurece.</p><p>Pulse. No nosso pr&#243;prio tempo. Pulse!</p><p>Ent&#227;o, sinto o cora&#231;&#227;o da Terra em mim.</p><p>-</p><p>Quando terminei de escrever, permaneci alguns minutos olhando para aquelas palavras. N&#227;o senti emo&#231;&#227;o suficiente para chorar, nem qualquer sensa&#231;&#227;o extraordin&#225;ria que justificasse ter escrito uma carta para o pr&#243;prio cora&#231;&#227;o. O que aconteceu foi bem mais discreto. Eu senti que alguma coisa em mim deixou de correr.</p><p>Pela primeira vez, tive a impress&#227;o de que n&#227;o havia mais ningu&#233;m tentando alcan&#231;ar ningu&#233;m. Nem eu tentando alcan&#231;ar a vida, nem o cora&#231;&#227;o tentando alcan&#231;ar meus pensamentos. Mas, para que isso acontecesse, precisei admitir uma possibilidade que nunca havia ocupado esse lugar em mim: eu sou a pr&#243;pria vida.</p><p>Est&#225;vamos, enfim, no mesmo lugar. <strong>Em algum momento, o cora&#231;&#227;o deixou de ser algu&#233;m a quem eu me dirigia e passou a ser a &#250;nica forma de dizer &#8220;eu&#8221;.</strong></p><p>Desde ent&#227;o, vez ou outra, volto a essa carta. Acabei descobrindo que existem encontros que n&#227;o acontecem uma &#250;nica vez. Eles v&#227;o acontecendo &#224; medida que aprendemos a viver. E, cada vez que esse mesmo lugar &#233; tocado, a presen&#231;a deixa de parecer uma experi&#234;ncia rara, e volta a ser aquilo que sempre foi, cada vez com mais intensidade, por&#233;m, como se fosse a primeira vez.</p><p>Foi por isso que chamei, naquela pen&#250;ltima linha, de sentir o cora&#231;&#227;o da Terra em mim. N&#227;o &#233; uma met&#225;fora. &#201; uma experiencia quase imposs&#237;vel de reduzir em palavras.</p><p>&#201; a estranha simplicidade de perceber que, quando deixamos de viver separados de n&#243;s mesmos, alguma coisa maior tamb&#233;m encontra espa&#231;o para respirar atrav&#233;s da gente.</p><p>H&#225; apenas vida pulsando.</p><p>E, por alguns instantes, torna-se imposs&#237;vel n&#227;o reconhecer aquilo que tantas tradi&#231;&#245;es tentaram dizer de maneiras diferentes, e que eu consegui escrever como a minha assinatura, na &#250;ltima linha da carta:</p><p><strong>- </strong></p><p><strong>Somos Um.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21sG1Y%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21sG1Y%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png" width="1456" height="819" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/aa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:819,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2189539,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/208115565?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sG1Y!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa0b5c18-85da-4e49-81af-93ced3638e76_1672x941.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/chegar-a-propria-vida?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fchegar-a-propria-vida%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A hierarquia social das dores. ]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica sobre prest&#237;gio, invisibilidade e as dores que passam anos tentando ser ouvidas.]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/a-hierarquia-social-das-dores</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/a-hierarquia-social-das-dores</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Jul 2026 03:01:23 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yhgo%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Existe uma hierarquia social das dores. N&#227;o me refiro &#224; intensidade. Intensidade &#233; outro assunto. Falo do prest&#237;gio. Porque algumas dores s&#227;o levadas a s&#233;rio e outras passam a vida reunindo as tantas evid&#234;ncias de que existem.</p><p>Uma crise renal, por exemplo, entra em qualquer ambiente carregada de autoridade. Ela chega e interrompe a programa&#231;&#227;o. N&#227;o quer nem saber se a pauta era urgente. As pessoas se levantam, e o assunto muda. Algu&#233;m sugere um hospital, uma outra pessoa oferece &#225;gua, j&#225; dizendo: &#8220;Tem que beber muita &#225;gua&#8221;. Um terceiro faz aquela express&#227;o de quem acaba de ouvir seu nome na sala de espera de um bloco cir&#250;rgico.</p><p>Conhecemos bem as dores que entram passando crach&#225; de diretoria. E tamb&#233;m as que precisam passar pela recep&#231;&#227;o e pegar senha. A crise renal &#233; uma dor executiva, com poder de decis&#227;o.</p><p>J&#225; a dor nas costas &#233; uma estagi&#225;ria antiga, sem prest&#237;gio nenhum. Pode estar trabalhando h&#225; quinze anos sem f&#233;rias, mas ningu&#233;m a promove. Voc&#234; diz: &#8220;Estou com uma dor nas costas&#8221; e imediatamente surgem especialistas.</p><p>&#8211; &#8220;&#201; postura.&#8221;</p><p>&#8211; &#8220;&#201; o colch&#227;o. Foi s&#243; eu trocar o meu, e nunca mais senti a dor que eu sentia.&#8221;</p><p>&#8211; &#8220;&#201; falta de alongamento. Voc&#234; faz academia?&#8221;</p><p>&#8211; &#8220;&#201; excesso de alongamento. Voc&#234; agora s&#243; pensa em treinar.&#8221;</p><p>&#8211; &#8220;Voc&#234; precisa fortalecer.&#8221;</p><p>&#8211; &#8220;Tira uns dias pra descansar. Voc&#234; n&#227;o para.&#8221;</p><p>Em menos de dois minutos sua dor desapareceu e nasceu uma comiss&#227;o de investiga&#231;&#227;o.</p><p>De um lado, as dores que recebem diagn&#243;stico. De outro, as que recebem opini&#227;o.</p><p>A dor de cabe&#231;a tamb&#233;m ocupa uma posi&#231;&#227;o curiosa. Dependendo do contexto, ela sobe ou desce na escala social. Se ela nunca existiu antes naquela intensidade, inspira preocupa&#231;&#227;o. Se acontece toda semana h&#225; dez anos, vira defeito de fabrica&#231;&#227;o. </p><p>A sociedade tem enorme dificuldade de respeitar aquilo que persiste. Fico pensando, sem querer acreditar, mas aprendemos que o que permanece n&#227;o constrange, se torna elemento de identidade coletiva. Temos respeito apenas pelo que explode. Respeito, n&#227;o. Temos medo mesmo. E, aceitando ou n&#227;o, confundimos respeito com medo em quase todas as nossas rela&#231;&#245;es.</p><p>Uma dor antiga &#233; um lembrete inconveniente de que nem tudo pode ser resolvido com urg&#234;ncia, aplicativo ou boa vontade. Por isso criamos um mecanismo elegante: transformamos a dor em cen&#225;rio. No in&#237;cio ela &#233; not&#237;cia, depois acaba se tornando uma paisagem. A mesma coisa acontece com rachaduras nas paredes, buzinas na rua, certas tristezas e dores. <strong>A conviv&#234;ncia prolongada produz uma esp&#233;cie de cegueira. N&#227;o deixamos de ver, apenas paramos de registrar</strong>.</p><p>O mais impressionante &#233; que fazemos isso conosco. O corpo passa meses enviando comunicados. Primeiro, educadamente. Depois com alguma firmeza. Mais tarde em letras garrafais. E n&#243;s reagimos como s&#237;ndicos cansados diante de reclama&#231;&#245;es recorrentes. &#8220;Registramos sua manifesta&#231;&#227;o.&#8221;, &#8220;Seu protocolo foi encaminhado.&#8221;, &#8221;Agradecemos o contato.&#8221;</p><p>E nada acontece.</p><p><strong>O curioso &#233; que sabemos muito pouco sobre a linguagem do nosso corpo. Sabemos trocar pneus, atualizar aplicativos, declarar imposto de renda. Mas vivemos uma vida inteira analfabetos no &#250;nico lugar onde moramos desde o nascimento. Quando algo d&#243;i, perguntamos como fazer parar, o que tomar, qual rem&#233;dio resolve. Raramente perguntamos por que aquele peda&#231;o do corpo escolheu justamente aquela forma de chamar aten&#231;&#227;o.</strong></p><p>H&#225; pessoas que desenvolveram uma rela&#231;&#227;o t&#227;o &#237;ntima com determinadas dores que j&#225; n&#227;o sabem quem come&#231;ou primeiro. Elas e a dor envelheceram juntas. Compartilharam empregos, mudan&#231;as de casa, t&#233;rminos de relacionamento e elei&#231;&#245;es presidenciais. S&#227;o praticamente um casal. A diferen&#231;a &#233; que a dor continua prestando aten&#231;&#227;o. Ela sabe exatamente onde mora, quando come&#231;ou, a hist&#243;ria que ela viveu e tudo que ela est&#225; tentando dizer.</p><p>At&#233; por isso as dores mais desprezadas costumam ser as mais dif&#237;ceis de expulsar. Primeiro porque dor n&#227;o se expulsa. Depois, porque elas aprenderam um segredo que n&#243;s demoramos a entender: <strong>aquilo que n&#227;o &#233; escutado tende a permanecer</strong>.</p><p>O corpo fala, depois repete, depois insiste. Corpo sempre espera resposta. <strong>Dor n&#227;o &#233; uma briga tentando vencer algu&#233;m, &#233; apenas essa tentativa de manter uma conversa que foi interrompida. Dor, com sua hist&#243;ria ouvida, perde o sentido de crescer. A diferen&#231;a entre uma dor aguda e uma dor antiga n&#227;o est&#225; apenas no tempo que passaram juntas, mas no n&#250;mero de vezes que ela precisou bater &#224; mesma porta, sem ser atendida.</strong></p><p>E, como todo mundo sabe, nada exerce mais influ&#234;ncia numa casa do que aquilo que permanece nela por tempo suficiente para ser confundido com a pr&#243;pria estrutura.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/a-hierarquia-social-das-dores?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fa-hierarquia-social-das-dores%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yhgo%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21yhgo%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png" width="1456" height="971" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:971,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2573106,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/206945264?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yhgo!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4e9df3a-88a8-467d-921c-9d7cb8c1a265_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler descabendo.! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Onde a terra respira]]></title><description><![CDATA[O lugar onde as conversas deixam de servir &#224;s nossas defesas e come&#231;am a revelar a exist&#234;ncia.]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/onde-a-terra-respira</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/onde-a-terra-respira</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 09 Jul 2026 03:15:52 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21bSO1%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8220;Hoje &#233; dif&#237;cil encontrar conversas profundas.&#8221; Tenho lido essa frase com muita frequ&#234;ncia.<span> </span>E ando me perguntando se o &#8220;problema&#8221; est&#225;, de fato, nas conversas.</p><p style="text-align: justify;">Toda &#233;poca produz a linguagem de que &#233; capaz. N&#227;o conversamos apesar da cultura em que vivemos; conversamos a partir dela. Uma sociedade organizada pela velocidade produzir&#225; rela&#231;&#245;es velozes. Uma sociedade que transforma aten&#231;&#227;o em mercadoria produzir&#225; escassez de presen&#231;a. Uma sociedade que recompensa respostas r&#225;pidas dificilmente ensinar&#225; algu&#233;m a se conectar ao sentido de uma pergunta.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Percebo que a superficialidade transcende a falha individual e se revela como uma compet&#234;ncia cultural.</strong></p><p style="text-align: justify;">Aprendemos muito cedo a interpretar, opinar, justificar e explicar. Poucos aprendem a sustentar um encontro sem a ansiedade de concluir alguma coisa. Confundimos elabora&#231;&#227;o com ac&#250;mulo de argumentos, e pensamento com posicionamento. Mas pensar nunca foi apenas produzir respostas. Pensar &#233; permitir que uma ideia movimente internamente aquele que a pensa, em destransforma&#231;&#227;o e transforma&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#201; por isso que uma conversa profunda n&#227;o depende da complexidade do tema. &#201; poss&#237;vel discutir metaf&#237;sica durante horas permanecendo na superf&#237;cie, citando refer&#234;ncias, como a disputa de quem descarta mais cartas na mesa, assim como duas pessoas podem falar sobre o caf&#233; da manh&#227; e tocar regi&#245;es fundamentais da exist&#234;ncia. <strong>O que define a profundidade n&#227;o &#233; o assunto. &#201; a dire&#231;&#227;o. Ou, sendo uma pouco mais profunda, o que define o rumo da conversa &#233; o lugar de percep&#231;&#227;o de onde ela nasce.</strong></p><p style="text-align: justify;">A pr&#243;pria linguagem oferece uma pista. Aprofundar n&#227;o significa ampliar. Significa descer. <strong>E descer &#233; um passo natural de toda expans&#227;o</strong>. Esse &#233; o movimento da Unidade: contra&#231;&#227;o e expans&#227;o. Inclusive, vou te contar que a express&#227;o &#8220;Somos Um&#8221; diz sobre essa nossa condi&#231;&#227;o &#250;nica, de contra&#231;&#227;o e expans&#227;o, a partir da sabedoria de uma ess&#234;ncia que &#233; a &#250;nica coisa presente em todas as vidas, inclusive o planeta Terra. E que quando dizemos sobre comunica&#231;&#227;o vibracional, dizemos sobre nos reconhecermos vida, como qualquer vida que exista, a partir de tudo que essa ess&#234;ncia &#233; capaz de dizer sobre n&#243;s.</p><p style="text-align: justify;">Nossa cultura, entretanto, tornou-se especialista no movimento oposto. E, sem medirmos palavras, &#233; importante enxergarmos aqui o quanto negamos o sentido da nossa exist&#234;ncia, acreditando cegamente na ideia de que estamos seguindo nosso prop&#243;sito. Ampliamos informa&#231;&#245;es, multiplicamos opini&#245;es, acumulamos refer&#234;ncias, aceleramos interpreta&#231;&#245;es. Horizontalizamos tudo. Sabemos cada vez mais sobre cada vez mais coisas, mas isso n&#227;o significa que estejamos penetrando nelas. Quantidade nunca foi sin&#244;nimo de densidade.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Existe uma diferen&#231;a decisiva entre informa&#231;&#227;o e experi&#234;ncia</strong>. Embora a palavra experi&#234;ncia tenha sido reduzida a um r&#243;tulo conveniente para qualquer tr&#226;nsito embalado por uma est&#233;tica atraente e uma narrativa bem-acabada. E, convenhamos, experi&#234;ncia n&#227;o &#233; aquilo que se consome, nem o que impressiona, muito menos o que termina com uma sensa&#231;&#227;o agrad&#225;vel. Experi&#234;ncia &#233; aquilo que ocupa algum lugar em n&#243;s, a ponto de j&#225; n&#227;o ser poss&#237;vel permanecer exatamente quem &#233;ramos antes. <strong>A informa&#231;&#227;o acrescenta conte&#250;do. A experi&#234;ncia sustenta quem somos.</strong> E sustentar, &#233; dar uma consist&#234;ncia suficiente para transitarmos para novos lugares. Dentro de n&#243;s!</p><p style="text-align: justify;">Sendo assim, &#233; poss&#237;vel perceber o quanto tantas conversas terminam exaustas. Elas s&#227;o enrijecidas por uma compuls&#227;o explicativa. Tudo precisa ser traduzido, defendido, exemplificado, contextualizado, justificado. Como se explicar fosse sempre compreender. Nem sempre &#233;. Muitas vezes, explicar &#233; apenas uma maneira sofisticada de evitar o encontro com aquilo que ainda n&#227;o sabemos nomear.</p><p style="text-align: justify;">As grandes tradi&#231;&#245;es filos&#243;ficas nunca trataram o mist&#233;rio como um defeito da intelig&#234;ncia. Ao contr&#225;rio. Dos di&#225;logos gregos &#224;s tradi&#231;&#245;es contemplativas do Oriente, a maturidade intelectual sempre esteve menos associada &#224; rapidez das respostas do que &#224; qualidade da aten&#231;&#227;o. O problema do nosso tempo n&#227;o &#233; a falta de conhecimento. &#201; a incapacidade de permanecer um tempo livre diante de uma realidade para que ela revele mais do que nossas primeiras interpreta&#231;&#245;es. </p><p style="text-align: justify;">Vivemos numa &#233;poca curiosa. Nunca tivemos tanto acesso ao pensamento e, ao mesmo tempo, t&#227;o pouco tempo para pensar. Nunca produzimos tantas narrativas sobre n&#243;s mesmos e, paradoxalmente, t&#227;o poucas oportunidades de nos encontrar para al&#233;m delas.</p><p style="text-align: justify;">E &#233; fato o quanto a vida tem sido descrita como um campo minado. Caminha-se com receio porque qualquer palavra parece exigir defesa, qualquer diverg&#234;ncia parece convocar identidades inteiras, qualquer sil&#234;ncio parece constrangedor. N&#227;o h&#225; espa&#231;o para investiga&#231;&#227;o; h&#225; apenas gerenciamento permanente da pr&#243;pria imagem. <strong>Nesse ambiente, conversar deixa de ser uma pr&#225;tica de descoberta e torna-se uma estrat&#233;gia de administra&#231;&#227;o social. A profundidade desaparece porque ningu&#233;m mergulha carregando armaduras.</strong></p><p style="text-align: justify;">No entanto, toda transforma&#231;&#227;o humana continua obedecendo &#224; mesma l&#243;gica da natureza. Nada cresce apenas para fora. Nada! Antes da expans&#227;o existe aprofundamento. As ra&#237;zes n&#227;o s&#227;o um detalhe da &#225;rvore. S&#227;o sua condi&#231;&#227;o de possibilidade. Os rios n&#227;o encontram o mar evitando os vales. As sementes n&#227;o florescem porque escapam da terra, mas porque aceitam habit&#225;-la. <strong>&#201; bem poss&#237;vel n&#243;s sejamos a &#250;nica esp&#233;cie que acredita poder florescer evitando profundidade.</strong></p><p style="text-align: justify;">Vejo uma ironia discreta nisso tudo. Nunca falamos tanto sobre autenticidade e nunca investimos tanto na manuten&#231;&#227;o de personagens. Nunca defendemos tanto o di&#225;logo e nunca chegamos &#224;s conversas com opini&#245;es t&#227;o prontas. Nunca celebramos tanto a liberdade enquanto nos tornamos cada vez mais dependentes da confirma&#231;&#227;o imediata de que estamos certos.</p><p style="text-align: justify;">Falamos de vulnerabilidade, mas aperfei&#231;oamos a administra&#231;&#227;o da imagem. Falamos de conex&#227;o, enquanto nos acostumamos a rela&#231;&#245;es que mal suportam a presen&#231;a. Falamos de pertencimento, mas temos cada vez mais dificuldade de habitar a n&#243;s mesmos.</p><p style="text-align: justify;">Exaltamos produ&#231;&#245;es feitas com alma, embora estejamos cada vez mais distantes das condi&#231;&#245;es que permitem que uma alma se manifeste. Consumimos linguagem sobre ess&#234;ncia, enquanto produzimos a vida sobre a copa das &#225;rvores mais altas.</p><p style="text-align: justify;">Falamos de evolu&#231;&#227;o, mas seguimos negociando o presente com dores que nunca tiveram o espa&#231;o para serem reveladas. Falamos de transforma&#231;&#227;o, quando muitas vezes apenas acrescentamos novas camadas sobre antigos mecanismos de prote&#231;&#227;o. Mudamos o discurso, refinamos o vocabul&#225;rio, sofisticamos as justificativas, mas permanecemos escondidos no mesmo lugar.</p><p style="text-align: justify;">Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e, ainda assim, t&#227;o pouca intimidade conosco. Nunca produzimos tanta express&#227;o e, paradoxalmente, t&#227;o pouca revela&#231;&#227;o. Revelar-se exige soltar personagens. E quase tudo ao nosso redor recompensa exatamente o contr&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Profundidade n&#227;o &#233; um atributo de pessoas sofisticadas. &#201; uma disposi&#231;&#227;o &#233;tica</strong>. &#201; aceitar que a realidade &#233; maior do que nossas interpreta&#231;&#245;es sobre ela. &#201; compreender que <strong>uma conversa n&#227;o existe para confirmar quem somos, mas para dar novas possiblidades &#224;quilo que podemos realmente experimentar.</strong></p><p style="text-align: justify;">As conversas profundas nos parecem raras porque exigem uma forma de presen&#231;a que nossa cultura deixou de exercitar. <strong>Comece a observar: uma conversa profunda n&#227;o acontece quando duas pessoas precisam demonstrar o que sabem. Ela acontece quando ambas permitem que a realidade desperte nelas algo que nenhuma delas percebia antes de conversar.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21bSO1%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21bSO1%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png" width="1456" height="971" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:971,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2757573,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/204915981?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bSO1!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F447044aa-b4d4-45cf-9bfd-d75a77f5026e_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/onde-a-terra-respira?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fonde-a-terra-respira%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Disponibilidade do mundo]]></title><description><![CDATA[Um ensaio sobre a trag&#233;dia de lembrar o que importa]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/disponibilidade-do-mundo</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/disponibilidade-do-mundo</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 07:01:20 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%2125BS%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Hoje me peguei lembrando de uma coisa que, aparentemente, era normal. Mas que, analisada com a dist&#226;ncia de algumas d&#233;cadas, deveria ter provocado pelo menos umas duas reuni&#245;es do Conselho Tutelar.</p><p style="text-align: justify;">Eu tomava banho e voltava para a rua. N&#227;o estou falando de um evento especial. N&#227;o era festa junina, n&#227;o era anivers&#225;rio, n&#227;o era r&#233;veillon. Era uma ter&#231;a-feira comum das f&#233;rias.</p><p style="text-align: justify;">Eu passava o dia inteiro na rua. Voltava para casa ao entardecer carregando meio ecossistema local grudado no corpo. Poeira, barro, folhas, arranh&#245;es, picadas de mosquito, eu falei barro? E, em Rio Acima, uma quantidade de carrapatos que hoje provavelmente exigiria uma equipe especializada.</p><p style="text-align: justify;">Tomava banho, jantava, colocava uma roupinha daquelas que protegia um pouco mais da friagem de &#8220;mais logo&#8221;, cabelo molhado penteado partido de lado. E voltava pro mundo.</p><p style="text-align: justify;">Escrito assim, parece que a m&#227;e tinha desistido de me educar. Mas n&#227;o. Era exatamente o contr&#225;rio. Aquilo era considerado perfeitamente normal.</p><p style="text-align: justify;">O curioso &#233; que ningu&#233;m sa&#237;a para <em>enfrentar</em> a noite. &#201; que a vida ainda estava acontecendo. S&#243; n&#227;o podia correr, tinha que brincar quietinho. Foi a&#237; que desenvolvi minha paix&#227;o por gente reunida em volta da mesa para jogar jogos de tabuleiro que, gra&#231;as a Deus, foram evoluindo e ocupando novos espa&#231;os enquanto eu crescia.</p><p style="text-align: justify;">E as crian&#231;as iam de casa em casa. N&#227;o era rua. Era uma estrada. De um lado as casas de tr&#234;s tios e na frente as casas de mais quatro tios, uma ao lado da outra. A gente passava de uma casa para outra pulando cerca. Cerca mesmo, n&#227;o muro. Muro &#233; coisa de quem quer separar. Aquilo era s&#243; uma marca&#231;&#227;o educada de territ&#243;rio. Para n&#243;s, elas eram constru&#237;das dessa forma, justamente, para oferecer apoio ao salto. Parecia que esse peda&#231;o da estrada era uma propriedade privada.</p><p style="text-align: justify;">Se tinha gente na varanda, com certeza era pra exercer a fun&#231;&#227;o de vigil&#226;ncia afetiva do movimento local. Uma fun&#231;&#227;o que desapareceu junto com as listas telef&#244;nicas e os carn&#234;s de credi&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">Porque a maioria dos adultos, &#224; noite, ficava jogando <em>buraco</em> at&#233; n&#227;o sei que horas.</p><p style="text-align: justify;">Quando penso naquela &#233;poca, percebo que as crian&#231;as n&#227;o pertenciam apenas &#224;s fam&#237;lias. Crian&#231;a pertencia &#224; vizinhan&#231;a. Toda m&#227;e tinha autoriza&#231;&#227;o moral para chamar sua aten&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Todo mundo sabia seu nome, mas isso nem importava, porque o que valia mesmo era saber de quem voc&#234; era filho, embora ningu&#233;m perguntasse desse jeito. Parece que o &#8220;i&#8221; tinha acento. A pergunta era sempre: &#8220;C&#234; &#233; F&#237; de quem?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">O perigo disso &#233; que toda &#8220;levadi&#231;a&#8221; tinha uma velocidade impressionante de comunica&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Voc&#234; aprontava uma coisa &#224;s quatro da tarde. &#192;s quatro e quinze sua m&#227;e j&#225; sabia, e a brincadeira de depois do banho ficava gravemente comprometida.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; hoje ningu&#233;m conseguiu explicar tecnicamente aquele sistema. Era mais eficiente que internet de fibra &#243;tica.</p><p style="text-align: justify;">Teve um tempo em que minha m&#227;e dizia ao meu irm&#227;o que tinha um anjo da guarda que contava tudo que ele fazia. Eu passei anos com ran&#231;o daquele anjo. Ao mesmo tempo, eu vivia na cola dela tentando descobrir a que horas ele aparecia para fazer o relat&#243;rio do dia, principalmente quando meu irm&#227;o descia de skate ladeira abaixo.</p><p style="text-align: justify;">Ali&#225;s, a inf&#226;ncia dos anos 70, 80 e 90 possu&#237;a uma caracter&#237;stica fascinante. Ela acontecia em locais que simplesmente deixaram de existir, igual a descarga de cordinha. O terreno baldio, o campinho improvisado, o lote vazio, a cal&#231;ada, o port&#227;o, a varanda, a casa dos outros.</p><p style="text-align: justify;">Rio Acima era a ro&#231;a de fim de semana e de f&#233;rias. Eu morava na cidade. E tamb&#233;m tive minha vers&#227;o do famoso &#8220;fica logo ali na frente&#8221;. Mas, pra falar a verdade, eu gostava mesmo era do &#8220;Amarelinho&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">O Amarelinho era o corredor de entrada do meu pr&#233;dio. Na teoria, era uma &#225;rea comum. Na pr&#225;tica, era uma &#8220;expans&#227;o do nosso apartamento&#8221;. Al&#233;m das crian&#231;as do pr&#233;dio, vinham as crian&#231;as dos pr&#233;dios vizinhos, porque era muito animado.</p><p style="text-align: justify;">Ocup&#225;vamos aquilo tudo.</p><p style="text-align: justify;">As bonecas, os m&#243;veis das bonecas, o Pogobol, o Genius, o Aquaplay, os bambol&#234;s...</p><p style="text-align: justify;">E o <em>Meu primeiro Gradiente</em>. Ah, que del&#237;cia! Nosso sistema de som com microfone e tudo mais!</p><p style="text-align: justify;">Hoje percebo que pass&#225;vamos horas transformando espa&#231;os de passagem em lugares para existir. Parece algo assustador, mas as pessoas tinham que pedir licen&#231;a para transitarem por nossos brinquedos. E nenhum adulto achava ruim. Pelo contr&#225;rio, eles passavam sorrindo para nossas brincadeiras.</p><p style="text-align: justify;">Durante d&#233;cadas, brasileiros passaram a inf&#226;ncia inteira em lugares que n&#227;o pertenciam exatamente a ningu&#233;m, ou pertenciam a todos.</p><p style="text-align: justify;">Ningu&#233;m combinava. Algu&#233;m descia primeiro e, de repente, a bagun&#231;a organizad&#237;ssima estava montada.</p><p style="text-align: justify;">Ningu&#233;m perguntava qual o plano do dia. Nosso plano era brincar. S&#243; isso.</p><p style="text-align: justify;">Se dava certo, &#243;timo. Se n&#227;o dava, &#243;timo tamb&#233;m. Pensando melhor, nem sempre.</p><p style="text-align: justify;">Principalmente quando eu resolvia fazer escondido justamente aquilo que minha m&#227;e tinha acabado de proibir.</p><p style="text-align: justify;">Lembro-me perfeitamente de uma tarde em que ela disse que eu n&#227;o descesse para o Amarelinho. Pois eu n&#227;o apenas desci, como levei os patins. E n&#227;o apenas levei os patins, como achei uma excelente ideia descer a rampa da garagem com eles.</p><p style="text-align: justify;">Espatifei, numa aterrissagem pouco elegante, dois joelhos em carne viva e a dignidade em estado cr&#237;tico.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o sei por que fui me lembrar logo disso. O fato &#233; que os joelhos saravam em alguns dias, mas a lista de consequ&#234;ncias costumava durar um pouco mais.</p><p style="text-align: justify;">A gera&#231;&#227;o atual talvez nunca compreenda a complexidade daquela atividade chamada &#8220;ficar na rua&#8221;. Ningu&#233;m estava construindo marca pessoal aos nove anos de idade. N&#243;s ocup&#225;vamos o mundo.</p><p style="text-align: justify;">Eu sinto uma emo&#231;&#227;o quando penso naquela crian&#231;a atravessando a estrada &#224; noite! A facilidade com que pertenc&#237;amos. Poucas coisas eram nossas, mas n&#243;s &#233;ramos de muitos lugares.</p><p style="text-align: justify;">&#201; curioso isso.</p><p style="text-align: justify;">Passamos a vida adulta tentando construir algo que possamos chamar de nosso. Nossa casa, nosso carro, nosso escrit&#243;rio, nossa rotina, nosso espa&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">E, no entanto, quanto mais as coisas se tornam nossas, menos lugares parecem nos acolher e mais sensa&#231;&#227;o de inadequa&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Tem sim um cansa&#231;o dif&#237;cil de explicar. E n&#227;o &#233; cansa&#231;o de excesso de trabalho. &#201; tamb&#233;m, mas n&#227;o s&#243; isso. &#201; cansa&#231;o por habitar cada vez menos territ&#243;rios.</p><p style="text-align: justify;">Aguardamos convites, autoriza&#231;&#245;es, senhas, agendamentos, objetivos, estrat&#233;gias...</p><p style="text-align: justify;">Aquela crian&#231;a de roupa de malha e chinelo atravessava a estrada exatamente da mesma forma como ela atravessava um c&#244;modo da pr&#243;pria casa.</p><p style="text-align: justify;">Casa nenhuma terminava no port&#227;o. As casas continuavam espalhadas pela rua, pela varanda, pelas cozinhas, pelos quintais, pelos caminhos.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o sinto saudade da inf&#226;ncia. Sinto saudade daquela estranha sensa&#231;&#227;o de que havia mais mundo dispon&#237;vel para ser habitado.</p><p style="text-align: justify;">E que, sem percebermos exatamente quando, fomos entrando para dentro.</p><p style="text-align: justify;">Fomos fechamos os port&#245;es, aumentamos o muro. Depois, instalamos alarmes, criamos senhas, acendemos as luzes.</p><p style="text-align: justify;">E o banho precisou ocupar os minutos antes de deitar, deixando de ser um intervalo e passando a ser a &#250;ltima fronteira entre n&#243;s e o cansa&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">E uma pergunta n&#227;o silencia:</p><p style="text-align: justify;">Se sabemos que &#233; poss&#237;vel viver com mais honestidade diante da vida, por que continuamos insistindo em chamar de vida essa sucess&#227;o de excessos, urg&#234;ncias e aus&#234;ncias que, todos os dias, deixa morrer um pouco do que nos mant&#233;m vivos?</p><p style="text-align: justify;">O mais curioso &#233; que n&#227;o se trata de ignor&#226;ncia. Sabemos reconhecer uma vida quando ela passa diante de n&#243;s.</p><p style="text-align: justify;">Reconhecemos no brilho dos olhos de uma crian&#231;a que ainda n&#227;o transformou o mundo em obriga&#231;&#227;o. Reconhecemos numa conversa que nos devolve a presen&#231;a. Reconhecemos num instante de sil&#234;ncio em que, pela primeira vez no dia, n&#227;o estamos correndo para lugar algum. Reconhecemos nos textos que escrevemos que nasceram dentro de n&#243;s. Reconhecemos nos textos que lemos, nas m&#250;sicas, nos livros, nos filmes, nas artes que despertam pulsos em nossas emo&#231;&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">Reconhecemos.</p><p style="text-align: justify;">E &#233; isso que deixa essa quest&#227;o ainda mais desconfort&#225;vel. Porque aquilo que &#233; nosso mesmo n&#227;o est&#225; escondido. N&#227;o se trata de um segredo, ou de uma descoberta reservada a poucos.</p><p style="text-align: justify;">Aquilo que nos faz sentir vivos continua nos comovendo. Continua despertando em n&#243;s uma esp&#233;cie de saudade de algo que est&#225; aqui, e s&#243; pede pra ser visto.</p><p style="text-align: justify;">E, ainda assim, seguimos montando os dias em torno de tudo aquilo que nos afasta disso.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Ouso dizer que a trag&#233;dia do nosso tempo n&#227;o est&#225; em termos esquecido o que importa. &#201; algo muito mais grave.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>A trag&#233;dia do nosso tempo &#233; lembrarmos o que importa. E ainda assim, seguirmos adiante, como se n&#227;o fosse conosco.</strong></p><p style="text-align: justify;">Silencio! Escuta. O que importa est&#225; pulsando em voc&#234;.</p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%2125BS%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%2125BS%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png" width="1456" height="971" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:971,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2780014,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/204526436?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!25BS!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00bdf7d7-bec2-42e9-9749-2d0ea499defb_1536x1024.png 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler descabendo.! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O tamanho da sede moderna]]></title><description><![CDATA[Notas sobre objetos, desejos e tantos tipos de sede]]></description><link>https://raminaelshadai.substack.com/p/o-tamanho-da-sede-moderna</link><guid isPermaLink="false">https://raminaelshadai.substack.com/p/o-tamanho-da-sede-moderna</guid><dc:creator><![CDATA[Ramina El Shadai]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Jun 2026 07:01:29 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21HjTW%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Domingo passado, enquanto fazia uma caminhada, reparei numa mo&#231;a atravessando a rua com uma garrafa de &#225;gua que parecia ter sido desenhada para sobreviver a uma expedi&#231;&#227;o polar.</p><p style="text-align: justify;">A garrafa era enorme, elegante, fosca, com uma al&#231;a estrat&#233;gica e um canudo tecnol&#243;gico que provavelmente exigia tutorial. N&#227;o parecia um objeto para beber &#225;gua. Parecia um posicionamento de vida.</p><p style="text-align: justify;">Fiquei olhando aquilo com fasc&#237;nio antropol&#243;gico.</p><p style="text-align: justify;">Porque houve um tempo em que a humanidade bebia &#225;gua em qualquer copo dispon&#237;vel. O copo de requeij&#227;o, inclusive, era praticamente patrim&#244;nio afetivo de muitas fam&#237;lias brasileiras. As cozinhas eram museus involunt&#225;rios de marcas de geleia. Voc&#234; abria um arm&#225;rio na casa de algu&#233;m e descobria toda a cole&#231;&#227;o de geleias consumidas ao longo de tr&#234;s governos federais, sem que ningu&#233;m as chamasse de cole&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Eram apenas copos. Copos que chegavam sem cerim&#244;nia nenhuma e permaneciam por d&#233;cadas, como certos parentes que apareciam para passar um fim de semana e acabavam integrando a fam&#237;lia. Havia os Duralex coloridos, as canecas de alum&#237;nio, os copos de extrato de tomate e aqueles brindes de festas infantis de pl&#225;stico, que j&#225; vinham com o canudo embutido no copo, cuja origem ningu&#233;m mais lembrava. Em algum momento, todos eles deixavam de ser embalagens, promo&#231;&#245;es ou improvisos para conquistar um cargo definitivo na cozinha. N&#227;o existia curadoria, identidade visual ou preocupa&#231;&#227;o est&#233;tica. Existia uma confian&#231;a coletiva de que qualquer recipiente minimamente cil&#237;ndrico estava plenamente qualificado para participar da tarefa, desde que segurasse o l&#237;quido sem vazar.</p><p style="text-align: justify;">Ningu&#233;m pensava em experi&#234;ncia de hidrata&#231;&#227;o. A sede era resolvida e segu&#237;amos em frente.</p><p style="text-align: justify;">Depois vieram as garrafinhas pl&#225;sticas. Depois as squeezes. Depois as t&#233;rmicas. Junto com as squeezes vieram tamb&#233;m as dezenas de vers&#245;es promocionais distribu&#237;das por academias, eventos, lojas, corridas de rua e campanhas de todo tipo. Depois vieram as minimalistas. Depois as ecol&#243;gicas. Agora existem garrafas com personalidade.</p><p style="text-align: justify;">A &#225;gua continua sendo &#225;gua. Mas o recipiente virou narrativa.</p><p style="text-align: justify;">Voc&#234; percebe quem a pessoa acredita ser pela garrafa que ela carrega. Algumas pessoas parecem transportar &#225;gua. Outras parecem transportar uma identidade inteira.</p><p style="text-align: justify;">E n&#227;o tem nada de novo nisso.</p><p style="text-align: justify;">A humanidade sempre encontrou objetos para transformar em s&#237;mbolos de pertencimento. J&#225; foi a vez das carruagens, dos chap&#233;us, das bengalas, dos rel&#243;gios, das canetas, dos autom&#243;veis, dos aparelhos de celular. Hoje &#233; uma garrafa t&#233;rmica importada que mant&#233;m a &#225;gua gelada por doze horas, uma solu&#231;&#227;o impressionante para um problema que eu, pessoalmente, n&#227;o me lembro de ter em 1987.</p><p style="text-align: justify;">Ali&#225;s, pensando na minha experi&#234;ncia bastante limitada, se uma garrafa mantiver a &#225;gua fresca por umas duas horas, j&#225; ter&#225; cumprido seu papel com dignidade. A n&#227;o ser, &#233; claro, que eu esteja atravessando um tempo/espa&#231;o sem condi&#231;&#227;o de abastecimento ou participando de alguma miss&#227;o em uma regi&#227;o in&#243;spita. &#201; poss&#237;vel.</p><p style="text-align: justify;">A garrafa nem &#233; sobre &#225;gua. Quase nada &#233; apenas sobre aquilo que aparenta ser.</p><p style="text-align: justify;">A agenda n&#227;o &#233; s&#243; uma agenda. O caderno n&#227;o &#233; apenas um caderno. A estante n&#227;o guarda apenas livros. Alguns objetos que escolhemos costumam carregar uma pergunta silenciosa: <strong>quem estou tentando me tornar</strong>?</p><p style="text-align: justify;">Isso diz sobre dedicarmos tanta aten&#231;&#227;o a certas coisas aparentemente banais. &#201; profundamente humano acreditar que uma nova forma externa possa ajudar a acalmar alguma desordem interna. Embora seja exatamente o contr&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;"><strong>N&#227;o compramos apenas recipientes. Compramos inten&#231;&#245;es</strong>.</p><p style="text-align: justify;">A promessa de beber mais &#225;gua, de cuidar melhor da sa&#250;de, de sermos mais disciplinados, mais conscientes, mais equilibrados. Como se determinados objetos nos aproximassem daquela imagem de n&#243;s mesmos que gostar&#237;amos de habitar.</p><p style="text-align: justify;">Os objetos mudam, mas essa necessidade humana ainda permanece.</p><p style="text-align: justify;">No fundo, estamos sempre tentando fazer a mesma coisa: dar forma vis&#237;vel a desejos invis&#237;veis.</p><p style="text-align: justify;">Enquanto parte do mundo ainda procura &#225;gua, outra parte discute o design ideal para transport&#225;-la. A constata&#231;&#227;o poderia soar como cr&#237;tica, mas sinto que seja apenas um retrato das contradi&#231;&#245;es humanas. Somos capazes de enfrentar problemas gigantescos e, ao mesmo tempo, investir energia e emo&#231;&#227;o em detalhes m&#237;nimos. Fazemos as duas coisas desde n&#227;o sei quando.</p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; que a primeira pessoa que adornou um vaso de barro h&#225; milhares de anos tamb&#233;m n&#227;o estava realizando um gesto muito parecido com o nosso? Tamb&#233;m transformando aquele recipiente numa maneira de dizer algo sobre si mesma?</p><p style="text-align: justify;">No fundo, penso que tudo isso seja mais enternecedor do que absurdo.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Porque o ser humano &#233; uma criatura estranha. Sente faltas que n&#227;o sabe nomear e passa a vida tentando acomod&#225;-las em alguma forma concreta.</strong></p><p style="text-align: justify;">N&#227;o foi em v&#227;o que fiquei observando aquela mo&#231;a atravessar a rua. N&#227;o foi por causa da garrafa. Mas porque ela carregava, junto com a &#225;gua, algo que todos carregamos de uma maneira ou de outra: a ideia de que alguma coisa simples pode nos ajudar a viver melhor.</p><p style="text-align: justify;">E percebo uma ternura nisso. No fato de procurarmos fora de n&#243;s objetos capazes de proteger esses desconfortos que ainda n&#227;o sabemos nomear. Depositamos neles pequenas promessas de reconhecimento, pertencimento, seguran&#231;a ou at&#233; de transforma&#231;&#227;o. A esperan&#231;a de sustenta&#231;&#227;o de alguma coisa.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que, para alguns de n&#243;s, chega um momento diferente. Um momento em que as faltas come&#231;am a pedir menos solu&#231;&#245;es e mais escuta.</p><p style="text-align: justify;">Quando isso acontece, algo curioso muda de lugar. As coisas j&#225; n&#227;o precisam mais carregar tantos significados, e muitas necessidades v&#227;o perdendo peso. N&#227;o desaparecem de uma vez, mas v&#227;o deixando de exigir tantos recipientes.</p><p style="text-align: justify;">No fim, suspeito que aprendemos a transportar pesos muito mais dif&#237;ceis, disfar&#231;ados pela simplicidade da &#225;gua. A &#225;gua &#233; mesmo s&#243; a parte vis&#237;vel da carga. Basta dar uma vasculhada na vida, para confirmar.</p><p style="text-align: justify;">Ainda assim, talvez eu devesse confessar uma heresia contempor&#226;nea: gosto mesmo &#233; de beber &#225;gua na bica.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/p/o-tamanho-da-sede-moderna?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fp%2Fo-tamanho-da-sede-moderna%3Futm_source%3Dsubstack%26utm_medium%3Demail%26utm_content%3Dshare%26action%3Dshare"><span>Partilhar</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21HjTW%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21HjTW%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg" width="1456" height="819" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:819,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:209807,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/i/200460337?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HjTW!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff876016f-61ed-415b-8cdf-b9dcfa2fd532_1600x900.jpeg 1456w" sizes="auto, 100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://raminaelshadai.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Framinaelshadai.substack.com%2Fsubscribe%3F"><span>Subscreva agora</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>