<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Breviário Filosófico]]></title><description><![CDATA[Rigor escolástico, inquietações modernas. ]]></description><link>https://renam.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yDnD!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74c2514a-c08d-4dd3-af89-e0c83b7f2e67_372x372.png</url><title>Breviário Filosófico</title><link>https://renam.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 04 Nov 2026 08:34:53 GMT</lastBuildDate><atom:link href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2Ffeed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Renam Larentis]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[renam@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[renam@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Renam Larentis]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Renam Larentis]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[renam@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[renam@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Renam Larentis]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A ambivalência das ideias]]></title><description><![CDATA[As ideias verdadeiras s&#227;o as que nos possuem -- n&#227;o o inverso.]]></description><link>https://renam.substack.com/p/a-ambivalencia-das-ideias</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/a-ambivalencia-das-ideias</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sun, 27 Sep 2026 21:25:37 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3717c92a-ae16-4354-a238-dab58c52c025_764x401.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Por debaixo de qualquer formula&#231;&#227;o moral, subsiste a mole complexa do cora&#231;&#227;o humano. La Rochefoucauld gastou centenas de p&#225;ginas &#224; volta disso. &#8220;<em>Nos vertus ne sont, le plus souvent, que des vices d&#233;guis&#233;s&#8221;.  </em>No mais das vezes, as virtudes n&#227;o passam de v&#237;cios disfar&#231;ados. Essa &#233; a primeira senten&#231;a de seu livro de m&#225;ximas. Al&#233;m de primeira no sentido cronol&#243;gico, &#233; a primeira no sentido de ser o princ&#237;pio que explica a obra inteira. Machado de Assis fez disso o motivo fundamental da constru&#231;&#227;o de suas personagens, e, por essa raz&#227;o mesma, ganhou um lugar especial na literatura universal. Escreveu ele a vers&#227;o profana do Eclesiastes. Por ser profana, e brasileira, n&#227;o nos pareceu ser profunda o suficiente ainda &#8212; nem universal.</p><p>Voltando ao assunto. Ali&#225;s, anunciando o assunto: a ambival&#234;ncia das ideias. </p><p>Como nos &#233; dif&#237;cil evitar respostas prontas para assuntos dif&#237;ceis, &#233; algo como escapar &#224; fome pensando na comida, ao inv&#233;s de nos distrairmos com outras coisas. Criamos arremedos de ideias, que servem de tamp&#245;es ao esvaziamento da vida. Mesmo essas ideias primevas, lavradas pelo tempo, se mal interiorizadas, n&#227;o deixam de nos tentar &#224; dispensa dos &#225;rduos racioc&#237;nios, das tens&#245;es interiores que permitem viv&#234;-las. As ideias que custam cinco ou seis s&#233;culos de matura&#231;&#227;o, que consorciam as melhores mentes em sua melhor formula&#231;&#227;o, de repente, calham de fazer fama &#224; nossa boca, e, assim, quando tomadas de empr&#233;stimo, se tornam &#243;bvias &#8212; tanto quanto vazias. </p><p>De fato, &#233; mais tentador viver a vida como se tudo nela se explicasse por comandos, medidas certeiras e uma d&#250;zia de autoridades &#8212; como se tudo j&#225; estivesse explicado por n&#243;s &#8212; do que viv&#234;-la sob o fardo de compreend&#234;-la a cada trope&#231;o. Viver de acordo com as<em> ideias de empr&#233;stimo </em>&#233; mais tentador. N&#227;o que as ideias sejam deste ou daquele homem. Isto &#233; falso. S&#243; uma sociedade visceralmente burguesa revindica a propriedade de ideias. Se &#233; uma ideia, no sentido do termo, &#233; algo t&#227;o humano como ter cora&#231;&#227;o ou rins. Embora tamb&#233;m seja humano o ap&#234;ndice, assim como as aquelas ideias posti&#231;as, biograficamente in&#250;teis, mas socialmente disputadas, e que, por isso mesmo, seu descarte nos causa dor. </p><p>Assim como existe a puberdade no substrato biol&#243;gico, tamb&#233;m existe no com&#233;rcio de ideias. O menino cresce em meio a f&#243;rmulas antiquadas, a esquemas autorizados pelo tempo, at&#233; deparar-se com a mais nova opini&#227;o, e, muito mais, com a admira&#231;&#227;o com que aplaudem-na. L&#225; est&#225; ele, no dia seguinte, no m&#234;s seguinte, a vida inteira, &#224; cata da mais nova opini&#227;o futura. Essa &#233; a puberdade dos intelectuais. A recomenda&#231;&#227;o aristot&#233;lica nos indica um meio termo: toda ideia &#233; original, n&#227;o porque algu&#233;m a teve primeiro, mas porque qualquer um pode t&#234;-la, essas s&#227;o as ideias originais: as que t&#234;m <strong>origem </strong>no cora&#231;&#227;o humano. As demais, antigas ou novas, s&#227;o apenas c&#243;pia de outrem ou de si mesmo.  </p><p>Se nossa intelig&#234;ncia fosse Ang&#233;lica, at&#233; daria pra dizer que h&#225; uma linha infal&#237;vel que nos leva &#224;quilo que aspiramos &#8212; embora isso seja apenas uma caricatura mecanicista dos anjos. Em nossa cabe&#231;a ativista, os anjos s&#227;o superfluidades, adornos metafisicamente convenientes, que pouco tem que ver com nossa vida celestiamente terrena. A ladainha j&#225; vai muito longa, j&#225; disse que somos de carne. Quem n&#227;o o sabe? Permitam-me o espanto das obviedades, que &#233; quase sempre infantil e, por consequ&#234;ncia, filos&#243;fico. </p><p>Ter uma ideia &#233; conceber uma mesma realidade, por &#243;bvio. Nossa quota de m&#233;rito &#233; o sucesso na express&#227;o, no manejo das palavras adequadas, no tom adequado. No entanto, quantos homens h&#225; cujas palavras s&#227;o mais interesantes que a pr&#243;pria vida? At&#233; nisso as ideias parecem ambivalentes, dado que h&#225; tantas vidas mravilhosas mal contadas. De fato, a verdade mais nobre na boca do insensato se torna, tamb&#233;m, insensata. Uma mentira bem contada nos parecer&#225; edificante, veross&#237;mil, at&#233; mesmo ing&#234;nua. Uma verdade bem contada e bem vivida, aqui est&#225; o ponto arquim&#233;dico da exist&#234;ncia humana.</p><p>Essa nossa vida mortal e concreta, temporal e carnal, sempre se nos apresenta soB &#226;ngulos inauditos, por causa de alguma configura&#231;&#227;o c&#243;smica que nos escapa. A mat&#233;ria &#233; complexa, e nisso est&#225; seu encanto. A forma &#233; simples, e nisso est&#225; nossa satisfa&#231;&#227;o. Somos um e outro, e nisto consta a parcela de novidade e perenidade em nossas ideias. Tamb&#233;m nisso a ambival&#234;ncia. A belas artes s&#227;o o maior testemunho disso. At&#233; no belo h&#225; algo de ambivalente: quantos monumentos belos n&#227;o foram erguidos sobre sangue humano, sacrificado aos deuses de cima ou aos de baixo, do ventre.</p><p>Toda ideia, quando verdadeira, isto &#233;, fundada, ancoroda, enraizada na realidade inteira do mundo e do al&#233;m-mundo, &#233; uma ideia de todos os homens. Ao mesmo tempo, toda ideia verdadeira &#233; uma forma ind&#233;dita de testemunh&#225;-la.</p><p> Mas as ideias quando <em>tomadas</em>, e n&#227;o vividas, mesmo as mais profundas, se tornam um obst&#225;culo &#224; vida, sendo que deviam ser-lhe o mais fecundo convite. &#201; tentador a todos que, ao emitir a opini&#227;o de Arist&#243;teles, n&#227;o nos sintamos tamb&#233;m, qui&#231;a, um segundo Estagirita, na ambi&#231;&#227;o do <em>Novum Organum</em>. O suor de uma vida, que, em gemidos, buscas e afli&#231;&#245;es, p&#244;de dizer quantas coisas sobre tudo, se torna para n&#243;s umas quantas palavras belas, &#225;s vezes at&#233; indignantes. E as reproduzimos quase como se f&#244;ramos um aperfei&#231;oador, um novo est&#225;gio, um novo desdobramento seu, uma novo porta-voz desta pr&#237;stina tradi&#231;&#227;o que redunda em n&#243;s. </p><p>Falar em nome de alguma coisa &#233; a primeira nota de uma consci&#234;ncia imatura; falar em nome de algu&#233;m, o primeiro ind&#237;cio de soberba. Quanto mais se esse algu&#233;m for o Algu&#233;m. Toda autoridade traz consigo a tenta&#231;&#227;o de fazer-se autorit&#225;rio. Mas seu valor consta do inverso: a boa autoridade, peranrte um bom disc&#237;pulo, traz consigo a docilidade, a obedi&#234;ncia consciente, em suma: a postura consciente de si, que n&#227;o inverte da ordem das coisas &#8212; e que, por isso mesmo, &#233; tamb&#233;m capaz de si, de ver com os pr&#243;piros olhos e de assumir esse ato com responsabilidade.</p><p>Do contr&#225;rio, os s&#225;bios se tornam escudos de med&#237;ocres. E &#233; tamb&#233;m assim que os promissores, julgando os s&#225;bios pela imagem refletida nos med&#237;ocres que falam em seu nome, tornam-se tamb&#233;m med&#237;ocres; uns pela miragem do que defendem, outros pela ilus&#227;o do que atacam. No entanto, nunca conseguimos responder como &#233; que milhares de n&#243;s, pensando as mesmas coisas, n&#227;o alcan&#231;a pelo conjunto a unidade de vis&#227;o que um s&#243; desses homens teve outrora. Isso era o que significava ser magn&#226;nimo. Homens h&#225; cuja alma soube ser maior do que a soma dos esfor&#231;os humanos. E ningu&#233;m sabe como surgem, embora todos teorizem como desaparecem. </p><p>Quanto temor n&#227;o deve setir algu&#233;m que se diz plat&#244;nico, tomista, agostiniano? Muito mais: quanto temor n&#227;o tenho em me dizer crist&#227;o? Quanto temor n&#227;o tenho em manchar suas reputa&#231;&#245;es na medida em que a minha pr&#243;pria, pendurada em seus ombros, aparenta grandeza e recebe os louros por sobre suas cabe&#231;as. Quantas paternidades exemplares n&#227;o foram falsificadas por filia&#231;&#245;es posti&#231;as, rebeldes ou usurpadoras, ou puramente interesseiras? Talvez os homens de antes da era das ideologias sentissem melhor essa experi&#234;ncia. </p><p>E assim temos nova ambival&#234;ncia. Melhor seria se tiv&#233;ssmos um crit&#233;rio menos mundano: sobra o crit&#233;rio da morte, de que tudo, um dia, acabar&#225;: que ideia podemos conceber daquele momento que devora tudo quanto s&#243; foi ideia, ao inv&#233;s de ter sido vida. Diante da morte, qualquer ideia, por mais pronta, acabada, veneranda: &#233; s&#243; uma ideia. Disse Ortega que as ideias que valem s&#227;o aquelas dos n&#225;ufragos. Verdade. Mas e se essa ideia n&#227;o passar de mais um tronco arrastado pela correntesa do tempo, que nos arrasta a n&#243;s e a si conjuntamente, enquanto cremos apoiados? </p><p>Talvez melhor fosse n&#227;o ter qualquer apoio, pois o n&#225;ufrago desamparado &#233; o &#250;nico capaz de tecer uma prece sincera. Mas n&#227;o &#233; a religi&#227;o verdadeira uma prece desinteressada a Deus? Digo que n&#227;o: essa &#233; a religi&#227;o sup&#233;rflua &#8212; a religi&#227;o do aristocrata, do burgu&#234;s, cujo passatempo ser&#225;, por vezes, de modo desinteressado, profundamente desinteressado, rezar. A religi&#227;o desinteressada &#233; aquela que diz, no fundo: &#8220;<em>Deus, n&#227;o preciso de ti, e, mesmo assim, rezo-te&#8221;</em>. Prefiro a religi&#227;o profundamente interessada, que diz: &#8220;<em>Deus, s&#243; de ti &#233; que preciso, salva-me, perdoa minha ingratid&#227;o, meu esquecimento, minhas negociatas. Sou apenas um resumo de todos os homens, e tu &#233;s o resumo do que n&#227;o sou!&#8221;. </em>Qual dos dois tem ideia mais elevada de Deus?</p><p>Ali&#225;s, prefiro o desejo profundamnte interessado. Qual &#233; o problema do interesse? Inter-esse, o que est&#225; em meio ao ser, que importa que seja, que &#233; da inten&#231;&#227;o que o seja. Somente um homem disfar&#231;ado de Deus &#233; que pode querer de modo desinteressado. O homem disfar&#231;ado de Deus costuma ser chamado de anticristo. Mas e a sabedoria, a virtude, o belo, n&#227;o s&#227;o coisas que se devem querer de modo desinteressado? Do mesmo jeito que o interesse traz consigo a ambival&#234;ncia do descarte abusivo, interesseiro; o querer desinteressado traz consigo a tenta&#231;&#227;o da autossufici&#234;ncia, da indiferen&#231;a, da superfluidade. Melhor seria se admit&#237;ssemos que a vida &#233; absolutamente desinteressante sem a verdade, o bem, o belo; pelo mesmo motivo que a morte se torna fundamente interessante face ao bem, &#224; verdade, ao belo. N&#227;o &#233; assim que dizemos: &#8220;teve uma bela morte, uma boa morte&#8221;.</p><p>Algu&#233;m ainda poderia replicar: &#8220;mas devemos buscar estas coisas como algo que tem um fim em si mesmo. Isso que &#233; buscar de um jeito desinteressado.&#8221; Veja: <em>fim em si mesmo</em>. O que tem fim em si mesmo n&#227;o &#233; apenas aquilo que n&#227;o &#233; meio para outra coisa, &#233; aquilo que explica todos os meios. O que isso signfica? Que &#233; isto a &#250;nica coisa que interessa numa vida, o resto &#233; secund&#225;rio. E assim temos uma invers&#227;o feliz. O fim &#233; o que vem primeiro, o que mais interessa, e o resto &#233; o que vem depois. N&#227;o cronologicamente, por &#243;bvio. O fim n&#227;o &#233; a &#250;ltima coisa que sobrev&#233;m, mas a primeira coordenada pela qual nos orientamos. N&#227;o &#233; uma ideia, apenas, &#233; uma orienta&#231;&#227;o que nos atrai, apesar de todos os rumos que possamos tomamos na vida. </p><p>Isso nos retira a ilus&#227;o da autossufici&#234;ncia. Se voc&#234; quer o melhor m&#233;todo de chegar a qualquer lugar sem saber para onde est&#225; indo, ent&#227;o voc&#234; vai criar um formid&#225;vel m&#233;todo de ir a lugar nenhum com eleg&#226;ncia, exatid&#227;o e certeza. Mas quem sabe para onde  est&#225; indo, vai chegar l&#225; n&#227;o importa de onde parta, com que meio vai ou que itiner&#225;rio percorra. Isso vale pra a vida e vale pra tudo o mais. </p><p>Ainda assim, todas as coisas materiais acabam chegando ao seu fim de tal modo que o percurso se revele um caminho in&#233;dito &#8212; no universo inteiro &#233; assim. S&#243; que no homem existe o componente da escolha, o que torna sua possibilidades quase t&#227;o vastas quanto o pr&#243;prio universo. Se voc&#234; l&#234; l&#225; o Eclesiastes, voc&#234; j&#225; v&#234; essa experi&#234;ncia numa imagem arquet&#237;pica. Tudo &#233; vaidade. At&#233; a sabedoria &#233; enfado e desengano que aumenta a tristeza. O trabalho, o descanso, o conv&#237;vio, a solid&#227;o, tudo. </p><p>Supondo que a pessoa n&#227;o leu s&#243; a primeira p&#225;gina, teve uma crise existencial e n&#227;o foi at&#233; o fim. Ent&#227;o o que h&#225; de fazer-se?  O que diz no fim? Teme a Deus e obedece os mandamentos. SOMENTE ISSO para tornar todas as coisas que ele citou como vaidosas em atos plenos de significado, bondade e sentido. Quem ama a Deus com todas as for&#231;as, e o pr&#243;ximo, com esse norte b&#225;sico, faz de tudo mais um motivo de realiza&#231;&#227;o dessa orienta&#231;&#227;o. Sem ela, tudo &#233; vaidade, porque n&#227;o leva a lugar nenhum. Enfim, tudo &#233; ambivalente, ou seja: humano carente do divino.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Brasil das três melancolias]]></title><description><![CDATA[Apontamentos]]></description><link>https://renam.substack.com/p/o-brasil-das-tres-melancolias</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/o-brasil-das-tres-melancolias</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 29 Aug 2026 20:11:03 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f3200ab-59c0-4805-8c6d-b07817792364_646x475.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O destino brasileiro &#233; um produto &#8220;de tr&#234;s melancolias&#8221;, como diz Ronald de Carvalho.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></p><p>O portugu&#234;s &#8212; e, depois, tamb&#233;m os imigrantes &#8212; desenraizado de suas origens, de sua p&#225;tria e, por vezes, de sua pr&#243;pria fam&#237;lia, guardando consigo o outro extremo da saudade; o &#237;ndio, desbaratado para o interior da selva, num misto de rancor e perplexidade; o africano, desterrado biograficamente, reduzido a esse gent&#237;lico t&#227;o rasteiro e impessoal &#8212; &#8220;africano&#8221; &#8212;, sobrando-lhe apenas o choro cantado e a dan&#231;a noturna, como consolo de uma vida for&#231;ada que, ao raiar do dia, tornava-se novamente sombria.</p><p>Para o primeiro, esta  terra era vista como lugar tempor&#225;rio, lugar de miss&#227;o, de empreendimento. As duas &#250;nicas capitanias que tiveram sucesso, Pernambuco e S&#227;o Vicente, tiveram-no justamente pela dedica&#231;&#227;o em se enraizar; para o segundo, tornou-se um lugar estrangeiro; para o terceiro, era o lugar cujo destino era sin&#244;nimo de morte. </p><p>Esse &#233; o Brasil das tr&#234;s malancolias: nosso destino existencial &#233; a s&#237;ntese confusa de tr&#234;s desencontros biogr&#225;ficos. </p><p>E ainda n&#227;o resolvemos essa equa&#231;&#227;o.</p><p>A miscigena&#231;&#227;o fundiu esses destinos, mas n&#227;o os resolveu, porque ainda lhes falta uma solu&#231;&#227;o metaf&#237;sica, n&#227;o apenas &#233;tnica, ou f&#237;sica.</p><p>O desenraizamento lusitano sedimentou  sempre a tens&#227;o entre fazer daqui uma nova lusit&#226;nia e extrair daqui uma originalidade biogr&#225;fica inaudita. A segunda tend&#234;ncia venceu por ocasi&#227;o da independ&#234;ncia, que precisa se justificar n&#227;o apenas politicamente, como tamb&#233;m culturalmente, literariamente. </p><p>J&#225; dizia Joaquim Nabuco<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a> que as tentativas de criar um &#233;pico nacional sempre falharam, justamente porque tentavam partir de algo que separasse o Brasil de sua raiz lusa, redundando em caricatura da natureza, ou em indigenismo ing&#234;nuo. Por outro lado, a aceita&#231;&#227;o da tradi&#231;&#227;o lusa trazia consigo o remorso da escravid&#227;o.</p><p>De fato, se nos negarmos a qualquer unidade metaf&#237;sica (cuja raiz, a forma, precisa ser lusa), o que sobra de original no Brasil &#233; sua natureza virginal e a escradiv&#227;o. O primeiro aspecto nutria certo orgulho sem m&#233;rito, e o segundo a vergonha que exigia revis&#227;o hist&#243;rica. Em nenhum caso motivos de funda&#231;&#227;o de uma nacionalidade aut&#234;ntica. </p><p><span>O desenraizamento lusitano sedimentou sempre a tens&#227;o entre fazer daqui uma nova Lusit&#226;nia e extrair daqui uma originalidade biogr&#225;fica inaudita. A segunda tend&#234;ncia</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-3" target="_self">3</a><span> venceu por ocasi&#227;o da Independ&#234;ncia, que precisava justificar-se n&#227;o apenas politicamente, mas tamb&#233;m cultural e literariamente. </span></p><p><span>No caso do ind&#237;gena, sua fuga para o &#237;ntimo das matas sedimentou uma das mais sangrentas divis&#245;es do per&#237;odo colonial: a divis&#227;o espiritual, a diverg&#234;ncia quanto ao destino desta terra</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-4" target="_self">4</a><span>. De um lado, os jesu&#237;tas, empenhados na catequese e na forma&#231;&#227;o de comunidades ind&#237;genas protegidas, sobretudo nos aldeamentos; de outro, as bandeiras de explora&#231;&#227;o, que simbolizavam a expans&#227;o e a unifica&#231;&#227;o territorial da col&#244;nia e que possu&#237;am o seu pr&#243;prio claro-escuro: uma admir&#225;vel assimila&#231;&#227;o do modo de vida ind&#237;gena &#8212; que contribuiria para a forma&#231;&#227;o do caipira e de outras figuras do mundo sertanejo, bem como a a ruptura, tantas vezes violenta, com o mandato evangelizador que consagrara esta terra &#224; Santa Cruz.</span></p><p><span>E o africano?</span></p><p><span>N&#227;o eram um povo. N&#227;o falavam necessariamente a mesma l&#237;ngua. N&#227;o possu&#237;am a mesma religi&#227;o, a mesma organiza&#231;&#227;o pol&#237;tica, a mesma mem&#243;ria ou a mesma concep&#231;&#227;o do mundo. O que h&#225; de comum entre os fulani, hau&#231;&#225;s e mandingas, em grande parcela mu&#231;ulmanos, os iorub&#225;s e jejes, polite&#237;stas; e os ambundos e bakongos, n&#227;o raro crist&#227;s de longa data? O que os unificou no Brasil, antes de tudo, foi uma condi&#231;&#227;o hist&#243;rica que lhes foi imposta.E a resultante maior dessa colis&#227;o de mundos &#233; justamente o nosso legado sincr&#233;tico, sedimentado nas senzalas.</span></p><p><span>Enfim, o Brasil ainda &#233; um punhado de biografias soltas, dilu&#237;das numa esperan&#231;a de unidade hist&#243;rica que, no mais das vezes, constitui um ciclo m&#243;rbido de m&#250;tuo esquecimento, de m&#250;tua indiferen&#231;a e de m&#250;tua expectativa de desastre.</span></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Estudos Brasileiros</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Cf. seus escritos sobre Cam&#245;es. Ali&#225;s, para Joaquim Nabuco, o grande &#233;pico nacional s&#227;o Os Lus&#237;adas, justamente porque o Brasil &#233; a consuma&#231;&#227;o do que Afonso Albuquerque sonhou nas &#205;ndias e a materializa&#231;&#227;o da vis&#227;o de nosso primeiro Afonso, o Conquistador.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Cf. o ensaio de Machado de Assis, intitulado: Not&#237;cia da atual literatura brasileira</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Interpreta&#231;&#227;o do Brasil, Gilberto Freyre</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A melhor definição de filosofia ]]></title><description><![CDATA[Spoiler: &#233; a de Olavo de Carvalho]]></description><link>https://renam.substack.com/p/a-melhor-definicao-de-filosofia</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/a-melhor-definicao-de-filosofia</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Aug 2026 01:17:39 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F95e8a978-3519-4ead-b318-d3f542a186d5_679x451.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O ponto de partida da atividade filos&#243;fica &#233; sobretudo o esfor&#231;o por buscar um fundamento unificante para os nossos pr&#243;prios conhecimentos. &#201; claro que essa unifica&#231;&#227;o est&#225; sempre apta a ser melhorada, aperfei&#231;oada, depurada, dado que novas coisas percebidas exigem sua integra&#231;&#227;o no conjunto maior daquilo que j&#225; sabemos. Al&#233;m disso, porque consiste justamente na busca por uma correspond&#234;ncia com a unidade do real &#8212; sempre mais simples, profunda e abrangente. </p><p>N&#227;o &#233; apenas conhecer algo, mas saber situar aquele conhecimento perante a totalidade daquilo que j&#225; sabemos. S&#243; que isto tamb&#233;m inclui a abertura para a totalidade em que estamos inseridos, presente a n&#243;s e da qual somos um peda&#231;o que busca o arranjo do todo. Tudo na filosofia &#233; isso. A no&#231;&#227;o mesma de felicidade (<em>eudaimonia</em>) em Arist&#243;teles reflete isso: a conforma&#231;&#227;o com a ordem da totalidade do ser. </p><p>Por isso que ela n&#227;o &#233; um ac&#250;mulo de dados, pois a sabedoria n&#227;o cresce quantitativamente, mas intensivamente. Assim como um ser vivo n&#227;o &#233; a mera jun&#231;&#227;o de &#243;rg&#227;os, pele e membros. H&#225; algo ali que lhe enxerta unidade e que transcende as partes. E cada parte s&#243; pode estar viva se integrada na totalidade do organismo. O mesmo ocorre com a sabedoria. </p><p>Como Nietzsche<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a> diz, a express&#227;o &#8220;tudo &#233; &#225;gua&#8221; de Tales corresponde &#224; inten&#231;&#227;o em dar uma resposta cognitiva &#224; intui&#231;&#227;o de que &#8220;tudo &#233; um.&#8221; Todo fil&#243;sofo busca isso. Na verdade, no fundo isso corresponde &#224; aspira&#231;&#227;o mais fundamental do homem. Todo homem tem esse af&#227; por uma orienta&#231;&#227;o fundamental, em fun&#231;&#227;o da qual possa mapear, percorrer com o esp&#237;rito, tudo o mais. </p><p>Consequentemente, podemos definir a atividade filos&#243;fica como  &#8220;<em>a <strong>busca </strong>pela unidade do real na unidade do conhecimento&#8221;, ou: &#8220;<strong>a busca pela unidade do conhecimento, na unidade da consci&#234;ncia e vice-versa&#8221;</strong>, em termos mais fi&#233;is e simples. </em>Mais simples porque a defini&#231;&#227;o assim abrange do mais m&#237;nimo esfor&#231;o de ordena&#231;&#227;o dos pr&#243;prios saberes at&#233; aquele que resulta numa resposta pela unidade da totalidade do real, isto &#233;, da pot&#234;ncia ao ato filos&#243;fico  por excel&#234;ncia. Do mais insipiente mapa  da ignor&#226;ncia ao mais pleno horizonte de consci&#234;ncia.<em> </em> Se toda a obra de Olavo consistisse apenas nessa  defini&#231;&#227;o, j&#225; seria ela motivo para coloc&#225;-lo nos pr&#243;ximos manuais de hist&#243;ria dos fil&#243;sofos. </p><p><span>Filosofar consiste em integrar o m&#250;ltiplo numa inteligibilidade una. Se n&#227;o h&#225; essa inten&#231;&#227;o de unifica&#231;&#227;o, n&#227;o h&#225; propriamente filosofia, mas apenas descri&#231;&#227;o, t&#233;cnica, erudi&#231;&#227;o ou opini&#227;o. Todos os fil&#243;sofos, por mais diversos que sejam seus resultados, compartilham esse intento, ainda que muitas vezes de modo impl&#237;cito. </span><strong><span>A busca da unidade &#233; a condi&#231;&#227;o de possibilidade do pr&#243;prio filosofar.</span></strong></p><p><span>Da ideia de que a filosofia &#233; a arte de criar conceitos, em Deleuze, &#224; busca das ideias claras e distintas, em Descartes, passando pela contempla&#231;&#227;o do Sumo Bem, em Plat&#227;o, encontramos sempre o mesmo esfor&#231;o: unificar numa ordem intelig&#237;vel a multiplicidade das percep&#231;&#245;es e da experi&#234;ncia do real. </span>O Motor Im&#243;vel de Arist&#243;teles, o Uno de Plotino e o <em>actus essendi</em> de Tom&#225;s de Aquino s&#227;o express&#245;es paradigm&#225;ticas desse mesmo esfor&#231;o de unifica&#231;&#227;o, cada qual segundo sua pr&#243;pria compreens&#227;o da estrutura &#250;ltima do real. </p><p><span>Mesmo quem pretenda negar a possibilidade da filosofia n&#227;o escapa a essa exig&#234;ncia, pois sua pr&#243;pria nega&#231;&#227;o procura conferir unidade intelig&#237;vel &#224;quilo que percebe como a impossibilidade de toda unidade. Mais, mesmo se pretendesse negar a unidade do real, ou o pr&#243;prio real, teria de unificar esse esfor&#231;o numa reposta consciente a si pr&#243;prio. Desde Ludwig Wittgenstein, que termina admitindo a inefabilidade do real, ao  procurar uma vis&#227;o unificada dos jogos de linguagem capaz de decantar os problemas filos&#243;ficos; at&#233; Derrida, que tende a  negar que exista uma unidade metaf&#237;sica do ser, ao mesmo tempo que sua obra inteira &#233; um esfor&#231;o para tornar intelig&#237;vel essa nega&#231;&#227;o. N&#227;o h&#225; escapat&#243;ria. </span></p><p>Enfim, essa defini&#231;&#227;o est&#225; perfeitamente coerente com sua vis&#227;o de que,&#8220;<em>do mesmo jeito que existem estruturas a priori da percep&#231;&#227;o, existem estruturas a priori da exibi&#231;&#227;o do real&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a> &#8212; o qual se nos manifesta como uma presen&#231;a e que percebemos n&#227;o por um discurso racional, mas por intui&#231;&#227;o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-3" target="_self">3</a>. </p><p>E &#233; essa intui&#231;&#227;o, a da presen&#231;a, que se desdobra numa segunda intui&#231;&#227;o, que &#233; aquela pela qual percebemos que estamos, tamb&#233;m, presentes ao real, isto &#233;, por que percebemos que o percebemos. E essa segunda desencadeia os desdobramentos racionais que permitem novos conhecimentos, cujo sentido de coes&#227;o s&#243; pode ser alcan&#231;ado por uma terceira intui&#231;&#227;o, que percebe justamente a coer&#234;ncia entre o que percebemos e as conclus&#245;es que raciocinamos daquilo que percebemos. E daqui, de sua teoria do conhecimento, se desdobra sua teoria dos discursos, sua filosofia da ci&#234;ncia e toda sua filosofia pol&#237;tica. </p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>A Filosofia na &#233;poca tr&#225;gica dos gregos</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Conf. aula n.219 do Curso On-line de Filosofia</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>O termo <em>intui&#231;&#227;o</em> mereceria um tratamento &#224; parte. Conv&#233;m adiantar, contudo, que ele &#233; empregado aqui em um sentido propriamente olaviano, raz&#227;o pela qual n&#227;o deve ser confundido com seu uso corrente. Trata-se de uma no&#231;&#227;o que, em muitos aspectos, aproxima-se do conhecimento intelectual (<em>intus legere</em>, "ler por dentro"), isto &#233;, da apreens&#227;o imediata de um aspecto da realidade que precede sua elabora&#231;&#227;o discursiva e que sup&#245;e sua presen&#231;a no todo. E nisto vemos forte aproxima&#231;&#227;o com a perspectiva escol&#225;stica da simples apreens&#227;o. </p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por que a retórica se aprende antes da lógica?]]></title><description><![CDATA[Nota pedag&#243;gica]]></description><link>https://renam.substack.com/p/por-que-a-retorica-se-aprende-antes</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/por-que-a-retorica-se-aprende-antes</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Aug 2026 16:40:37 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F61076c94-6ed9-4e49-90be-968d21eddd8c_1182x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um aluno me perguntou por que a ret&#243;rica vem antes da l&#243;gica, e n&#227;o depois, como diz a maioria. A verdade &#233; que essa ideia &#233; bem recente. N&#227;o &#233; tradicional. Decorre da teoria de Dorothy Sayers sobre o Trivium e o que ela chamou de est&#225;gios de cogni&#231;&#227;o. Ela quem estruturou essa ordem cronol&#243;gica, em coer&#234;ncia com sua teoria &#8212; Poll-Parrot, Pert e Poetic Stages. Depois dela, todas as pessoas reconhecidas por divulgar ou aplicar o trivium fizeram o mesmo. Miriam Joseph faz desse jeito tamb&#233;m. </p><p>Isso aconteceu porque no s&#233;culo XVII houve uma mudan&#231;a sobre o ensino da ret&#243;rica, mediante, principalmente, Pedro de la Ram&#233;e. Depois deele, ela se tornou apenas a arte do adorno, do estilo, e ficou esvaziada do restante. Quem estuda e ensina ret&#243;rica, sabe que isso corresponde tradicionalmente apenas a uma de suas cinco partes. Com isso, Dorothy Sayers bolou sua ideia do trivium influenciada por essa ideia. Da&#237; ela diz: primeiro aprendemos a ler, depois a pensar e ent&#227;o a exprimir. &#201; uma explica&#231;&#227;o v&#225;lida, mas limitada. </p><p>A capacidade de pensar &#233; uma parte da ret&#243;rica tamb&#233;m, que &#233; a capacidade de inventar os argumentos apropriados a cada circunst&#226;ncia. S&#243; que, como disse, essa parte foi decepada da arte gradualmente, at&#233; j&#225; n&#227;o aparecer absolutamente no s&#233;culo XIX e XX. Foi Cha&#239;m Perelman quem restaurou esse dado -- de um jeito moderno.</p><p>A ret&#243;rica vem antes da l&#243;gica porque a l&#243;gica lida com outro tipo de argumenta&#231;&#227;o, que se debru&#231;a a temas de car&#225;ter universal, aos fundamentos da ci&#234;ncia e da demonstra&#231;&#227;o, etc. Se a ret&#243;rica ajuda a responder se os atos de S&#243;crates foram conformes &#224; virtude, a dial&#233;tica ajuda a respnder a &lt;&lt;o que &#233; a virtude?&gt;&gt; S&#227;o finalidades diferentes. E, por &#243;bvio, primeiro se aprende o que &#233; mais concreto, depois o que &#233; mais abstrato.</p><p>Em segundo lugar, porque, tradicionalmente, a ret&#243;rica lida com o discurso em prosa, o que chamar&#237;amos hoje em dia de n&#227;o fic&#231;&#227;o. Primeiro estudamos os poetas, que &#233; objeto tradicional da arte liter&#225;ria, depois se estudam os escritores (pol&#237;ticos, historiadores, cronistas, ensa&#237;stas, etc). </p><p>Em terceiro lugar, por motivos formativos. Primeiro se estudam os modelos liter&#225;rios daquela civiliza&#231;&#227;o, e depois os modelos de atua&#231;&#227;o pol&#237;tica mediante o discurso. S&#243; depois &#233; que se investigam temas de apelo menos comum, isto &#233;, temas cient&#237;ficos. Por uma simples raz&#227;o: todos precisam ser bons cidad&#227;os, no sentido de saberem defender seus pr&#243;prios valores perante a ordem social, mas nem todos precisam ser fil&#243;sofos, te&#243;logos ou cientistas.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nietzsche: a filosofia do wise fool]]></title><description><![CDATA[Este Ecce Homo, que traz impresso o destino da Europa....]]></description><link>https://renam.substack.com/p/nietzsche-a-filosofia-do-wise-fool</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/nietzsche-a-filosofia-do-wise-fool</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Jul 2026 21:57:05 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3046a8b-91c1-4330-9086-0aeac5ffb857_518x386.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>I. Nietzsche enquanto fil&#243;sofo do ser, da vida e dos valores</strong></p><p>Para Heidegger, Nietzsche foi, sobretudo, um fil&#243;sofo do ser; para Dilthey, um fil&#243;sofo da vida. A verdade &#233; que os fil&#243;sofos nem sempre s&#227;o os melhores int&#233;rpretes de outros fil&#243;sofos, e essas duas leituras parecem confirm&#225;-lo, na medida em que cada uma projeta sobre Nietzsche o n&#250;cleo da filosofia de seu int&#233;rprete: Dilthey, como fil&#243;sofo da vida, enfatiza a vida; Heidegger, como fil&#243;sofo do ser, destaca o ser.</p><p>Contudo, &#233; precisamente por serem fil&#243;sofos que ambos conseguem perceber algo que, em geral, escapa ao int&#233;rprete especializado, que costuma se restringir ao aparato externo da obra filos&#243;fica &#8212; os textos, os conceitos recorrentes, o estilo de composi&#231;&#227;o, a terminologia &#8212;, enquanto o fil&#243;sofo procura apreender a intui&#231;&#227;o fundamental que anima o pensamento do autor. E essa intui&#231;&#227;o sempre tem algo de el&#225;stica o suficiente para permitir aproxima&#231;&#245;es &#8212; e apropria&#231;&#245;es &#8212;  ante suas pr&#243;prias intui&#231;&#245;es.</p><p>Concordando, portanto, com ambos, pode-se dizer que Nietzsche &#233; o fil&#243;sofo que busca o ser na vida, compreendendo-o em seu devir. Sua reflex&#227;o filos&#243;fica toma a vida como o lugar privilegiado em que o ser se manifesta. Sob essa perspectiva, o &#237;mpeto de todas as coisas para afirmar-se, crescer e superar-se encontra sua express&#227;o mais adequada na vontade. &#201; por isso que a vontade de poder pode ser tomada como o eixo de sua filosofia.</p><p><em>Um ser vivo quer, antes de tudo, dar vaz&#227;o &#224; sua for&#231;a &#8212; a pr&#243;pria vida &#233; vontade de poder."</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></p><p>Com isso, chegamos &#224; terceira faceta de Nietzsche: o fil&#243;sofo da cultura. N&#227;o, por&#233;m, no sentido hegeliano. Nietzsche n&#227;o busca apreender a hist&#243;ria como um processo evolutivo regido por leis necess&#225;rias, como se fosse poss&#237;vel descobrir sua l&#243;gica com a mesma precis&#227;o com que Newton formulou as leis do movimento. Seu percurso &#233; o inverso: em vez de partir de uma filosofia da hist&#243;ria, empreende uma genealogia daquilo que torna o homem um ser hist&#243;rico, uma genealogia de seus valores. Desse encontro do homem com a vida emerge aquilo que chamamos de cultura, cuja express&#227;o mais elevada e fecunda Nietzsche reconhece na poesia, que &#233; a afirma&#231;&#227;o da vida humana por excel&#234;ncia.</p><p>Em Nietzsche, assistimos ao ressurgimento do que ele pr&#243;prio chamou, em <em>Assim Falou Zaratustra</em>, da poesia filos&#243;fica. Nesses mesmos termos compreende-se sua admira&#231;&#227;o pelos pr&#233;-socr&#225;ticos de verve po&#233;tica &#8212; sobretudo Emp&#233;docles &#8212;, cujo pensamento ainda se exprimia pela linguagem em que o s&#237;mbolo e o conceito, a poesia e a filosofia, permaneciam coalescidos, tal como as pot&#234;ncias humanas, todas elas fundidas numa s&#243; vida, numa s&#243; alma: onde a concretude e abstra&#231;&#227;o se consorciam num hilemorfismo estil&#237;stico. </p><p>Segundo Dilthey, Nietzsche possui parentesco com autores do estilo de Marco Aur&#233;lio, Montaigne ou Emerson. Podemos acrescentar Ortega y Gasset outr herdeir leg&#237;timo herdeiro dessa forma de filosofar. O <em>eu e minhas circunst&#226;ncias </em>de Gasset &#8212; que &#233; essa ideia de que toda filosofia &#233; uma filosofia desde onde nos inserimos biogaficamente &#8212; &#233; muito pr&#243;ximo do perspectivismo de Nietzsche, que n&#227;o se contenta ao olhar chapado e absolutizante perante a realidade, sen&#227;o que se prop&#245;e a interpret&#225;-la sob seus mais diversos &#226;ngulos. </p><p>Tamb&#233;m daqui &#233; que temos, sustentado por Gianni Vattimo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a>, o parentesco Heideggeriano, com sua ontologia hermen&#234;utica, como se a realidade fora uma tecitura a ser lida num desdobramento t&#227;o din&#226;mico quanto n&#243;s mesmos. No caso de Nietzsche, segundo Deleuze<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-3" target="_self">3</a>, &#233; inaugurada &#8220;<em>uma filosofia que pergunta n&#227;o apenas "o que &#233; verdadeiro?", mas <strong>&#8216;qual for&#231;a, qual tipo de vida produz este valor?&#8217;</strong>. A filosofia deve fazer uma "genealogia" dos valores, investigando sua origem e sua rela&#231;&#227;o com as for&#231;as vitais&#8221; queos afirmam.</em></p><p><strong>II. Wise fool como postura filos&#243;fica</strong></p><div class="pullquote"><p><em>"Este Ecce Homo, que traz impresso o destino da Europa, pode parecer um produto da megalomania caracter&#237;stica dos doentes mentais, mas tamb&#233;m de um saber prof&#233;tico, ditado ao mesmo tempo por um sentido delirante e profundo. Dentro dessa profundidade delirante, Nietzsche, o professor aposentado de filologia, converteu-se no deus Dioniso crucificado, levado ao sacrif&#237;cio para determinar espiritualmente o destino da Europa."</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-4" target="_self">4</a></p></div><p>Nietzsche nunca pretendeu ocupar o lugar tradicional do fil&#243;sofo. Sua posi&#231;&#227;o aproxima-se muito mais daquela do <em>wise fool</em> shakespeariano: algu&#233;m cuja autoridade nasce precisamente do fato de n&#227;o participar das formas ordin&#225;rias de autoridade. H&#225; os que procuram lev&#225;-lo a s&#233;rio como o fil&#243;sofo de uma proposta, reconstituindo em sua obra um projeto intelectual positivo &#8212; &#233; o que faz Deleuze, Foucault. H&#225; tamb&#233;m uma vers&#227;o negativa dessa mesma leitura, que o toma como um pensador cujas teses devem ser enfrentadas e refutadas. Prefiro a vers&#227;o do pr&#243;prio autor, dada em Crep&#250;sculo dos &#205;dolos: <em>de que os grandes s&#225;bios s&#227;o tipos da decad&#234;ncia. </em></p><p><em><strong>Talvez a sabedoria apare&#231;a na Terra como um corvo, que se entusiasma com um ligeiro odor de cad&#225;ver?..</strong></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-5" target="_self">5</a></p><p>O wise <em>fool</em> &#233; a &#250;nica personagem que v&#234; o que est&#225; acontecendo sem precisar ocult&#225;-lo por entre as conveni&#234;ncias da corte. Nietzsche assim se apresenta perante os s&#225;bios de sua &#233;poca, que prometiam a reden&#231;&#227;o pela raz&#227;o, e, a un. Suas palavras nutrem uma ambival&#234;ncia mordaz: parecem incr&#237;veis porque procedem de um louco, mas adquirem credibilidade justamente porque n&#227;o precisam apoiar-se em nada al&#233;m de seu pr&#243;prio esc&#225;rnio. Todos riem do bobo, e quem n&#227;o ri revela-se atingido por aquilo que denuncia. &#201; diferente da figura oracular de Tir&#233;sias, o cego &#8212;  que,enxerga as contig&#234;ncias humanas &#224; luz do que nenhum mortal consegue ver. O bobo shakesperiano enxerga o mesmo que todos, mas &#233; o &#250;nico que pode assumir o papel de diz&#234;-lo, porque est&#225; autorizado a ser l&#250;cido sob a m&#225;scara da loucura.</p><p>Segundo Frederick Warde, em The fools of Shakespeare, h&#225; neles o car&#225;ter solit&#225;rio, sapiencial, perform&#225;tico, buf&#227;o e insano. &#201; uma voz que fala no deserto das conven&#231;&#245;es, que performa num papel assim aceito, cujas palavras precisam ser ao mesmo tempo naturais e &#225;cidas, s&#225;bias em l&#237;ngua de louco. </p><p>"<em>A vida de um bobo da corte era uma vida solit&#225;ria: estava sujeito aos caprichos de seu senhor, era desprezado &#224; mesa dos grandes, odiado pelos de baixo e, no entanto, temido por todos." </em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-6" target="_self">6</a></p><p>Na com&#233;dia Noite de Reis, Shakespeare fornece o car&#225;ter geral do wise fool: "<em>Esse sujeito &#233; s&#225;bio o bastante para fazer o papel de bobo. Para desempenh&#225;-lo bem, requer-se um tipo especial de intelig&#234;ncia. Deve observar o humor daqueles de quem zomba, a condi&#231;&#227;o das pessoas e o momento oportuno. E, como o falc&#227;o treinado, lan&#231;ar-se sobre toda pena que lhe passe diante dos olhos. Trata-se de um of&#237;cio t&#227;o trabalhoso quanto a arte de um homem s&#225;bio; pois a loucura que ele exibe com sabedoria &#233; apropriada, ao passo que os s&#225;bios, quando caem na tolice, acabam por corromper a pr&#243;pria intelig&#234;ncia."</em></p><p>Algo semelhante ocorre com Nietzsche. Todos precisam lev&#225;-lo a s&#233;rio, mesmo quando o consideram extravagante ou excessivo, porque descart&#225;-lo como louco &#233; uma forma de se esquivar ao alcance de sua cr&#237;tica. Por outro lado, lev&#225;-lo inteiramente a s&#233;rio &#233; a forma de se colocar na posi&#231;&#227;o de martelo sem ter a grandeza de quem martela, que &#233; sempre mais c&#244;moda &#8212; para os nietzschianos.  Mas por que levar t&#227;o a s&#233;rio algu&#233;m que parece zombar de tudo? Por que n&#227;o orientar a ele pr&#243;prio o esc&#225;rnio que atira contra S&#243;crates? <em>S&#243;crates foi o palha&#231;o que se fez levar a s&#233;rio. </em></p><p><em>Depois disto tudo, precisarei talvez de dizer que sou perito em quest&#245;es de d&#233;cadence?</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-7" target="_self">7</a><em>&#8230; Eu sou um filho desse tempo, quer clizer, um decadent: mas eu comprccndi isso, e me defendi.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-8" target="_self">8</a></p><p>Por essa &#243;tica, mesmo a vis&#227;o de Nietzsche sobre o cristianismo tamb&#233;m n&#227;o nos poder&#225; escandalizar. Quando diz que o cristianismo n&#227;o foi capaz de espiritualizar o desejo, apenas revela a que ponto a pr&#225;tica crist&#227; estava invertida em sua &#233;poca. Como <em>fool, </em>reinvidica a espiritualiza&#231;&#227;o ao crist&#227;o e a sensualidade ao metaf&#237;sico. Nem o crist&#227;o soube espiritualizar o desejo nem o metaf&#237;sico sensualizar o esp&#237;rito. O fil&#243;sofo parece negar a carne, e o religioso nega a pr&#243;pria vida. </p><p>As palavras do bobo Touchstone em <em>As You Like It,</em> de que '&#8220;<em>o tolo pensa que &#233; s&#225;bio, mas o s&#225;bio sabe que &#233; tolo</em>&#8221;, pode caber a Nietzsche na f&#243;rmula: o louco &#233; s&#227;o na medida em que se sabe louco, mas o tolo se faz de s&#225;bio e, por isso, se torna louco. Os aspecto insano do estilo de Nietzsche &#233; uma extens&#227;o psicol&#243;gica de seu contexto cultural em desconstru&#231;&#227;o. Seu esfor&#231;o por uma filosofia afirmativa &#233; tamb&#233;m um esfor&#231;o por lidar com sua debilidade. E nisto ele se aproxima do que mais criticou no cristianismo: despejou na teologia crist&#227; todo o ressentimento perante a fraqueza que encontrava em si.</p><p><em>&#8220;Para quem &#233; tipicamente saud&#225;vel, estar doente pode, pelo contr&#225;rio, ser at&#233; um en&#233;rgico est&#237;mulo de vida, de mais vida. Assim me surge agora efectivamente aquele longo per&#237;odo de enfermidade: descobri, por assim dizer, de novo a vida, avaliei-me a mim pr&#243;prio, saboreei todas as coisas boas e at&#233; mesmo as coisas pequenas, como n&#227;o &#233; f&#225;cil que os outros as possam saborear &#8211; da minha vontade de sa&#250;de, de vida, fiz a minha filosofia...&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-9" target="_self">9</a></p><p> Em Shakespeare, o <strong>wise fool</strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-10" target="_self">10</a> ocupa uma posi&#231;&#227;o paradoxal: ele est&#225; <strong>dentro da ordem</strong>, mas n&#227;o precisa perform&#225;-la, participa da corte, mas n&#227;o precisa de comprometer com as aapr&#234;ncias, fala aos reis sem que sua fala precise ser aquilo que o o soberano quer ouvir. Sua autoridade nasce justamente de sua exclus&#227;o das estruturas normais de autoridade. Enquanto o rei precisa preservar a ordem, o bobo pode revelar suas contradi&#231;&#245;es. Ela representa, na imagina&#231;&#227;o moderna, um lugar outrora reservado ao profeta ou ao vidente das antigas tradi&#231;&#245;e, que falavam em nome de uma autoridade transcendente; o bobo, ao contr&#225;rio, n&#227;o reivindica nenhuma revela&#231;&#227;o divina. Sua palavra n&#227;o manifesta a voz dos deuses, mas desvela, por meio da ironia e do esc&#225;rnio, a fragilidade das pretens&#245;es humanas. </p><p>Se o profeta denuncia a infidelidade diante de Deus, o <em>wise fool</em> denuncia a com&#233;dia das vaidades que os homens encenam para ocultar sua pr&#243;pria decad&#234;ncia. Por isso, o <em>wise fool</em> n&#227;o &#233; um fil&#243;sofo no sentido cl&#225;ssico, nem um pol&#237;tico, nem um profeta. Ele &#233; uma esp&#233;cie de <strong>consci&#234;ncia negativa, geneal&#243;gica, da comunidade</strong>. Sua fun&#231;&#227;o consiste em expor as ilus&#245;es que sustentam a vida coletiva. Ele n&#227;o cria a verdade; apenas a torna vis&#237;vel por meio da ironia, do paradoxo e do riso. Como diz Henri de Lubac: <em>os fulgores de um tal esp&#237;rito levado peal loucura fizeram dele um profeta.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-11" target="_self">11</a> Quanto mais louco parece aos coet&#226;neos, tanto mais veross&#237;mil aos p&#243;steros. &#201; extempor&#226;neo aos presentes por falar desde o del&#237;rio atemporal das ideias de sua &#233;poca, extempor&#226;neo perante os p&#243;steros, porque se revelou a si mesmo como sintoma do pr&#243;prio tempo. Em ambos os casos, Nietzsche &#233; a mais segura ponte que nos reconduz ao abismo de nossa hist&#243;ria recente. </p><p><em><strong>III. O S&#243;crates invetido</strong></em></p><p>Nietzsche repete, transvalorado, o gesto socr&#225;tico. Seu anti-socratismo &#233;, em certo sentido, um socratismo adaptado &#224;s condi&#231;&#245;es de sua &#233;poca. Se S&#243;crates submeteu os mitos, os poetas e as tradi&#231;&#245;es ao tribunal da raz&#227;o, Nietzsche arrasta a pr&#243;pria raz&#227;o &#224; genealogia dos valores que a estabeleceram, no &#237;mpeto de voltar &#224; filosofia como s&#237;mbolo e poesia. O ateniense interrogava os fundamentos de uma p&#243;lis j&#225; desmoronada, como mostra Voegelin. O alem&#227;o escarnece das certezas da modernidade. Ambos aparecem quando uma forma de vida j&#225; come&#231;ou a perder sua evid&#234;ncia e ambos exercem, antes de tudo, uma fun&#231;&#227;o corrosiva. A diferen&#231;a &#233; que S&#243;crates ainda acreditava encontrar um fundamento ao final da investiga&#231;&#227;o, mas Nietzsche suspeita que o pr&#243;prio desejo de fundamento seja parte da doen&#231;a &#8212; moderna, ou sua, ou de ambos?</p><p><em>&#8220;Silenciosamente em toda parte: a velha Atenas caminhava para o fim. &#8212; E S&#243;crates entendeu que o mundo inteiro dele necessitava &#8212; de seu rem&#233;dio, seu tratamento, seu artif&#237;cio pessoal de autopreserva&#231;&#227;o... Em toda parte os instintos estavam em anarquia; em toda parte se estava a poucos passos do excesso.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-12" target="_self">12</a></p><p>Por isso que o <em>fool</em> &#233; a &#250;nica figura autorizada a dizer certas verdades sem a obriga&#231;&#227;o de transform&#225;-las imediatamente em doutrina. Ele n&#227;o precisa governar, reconciliar ou justificar suas palavras. Sua fun&#231;&#227;o &#233; revelar as fissuras que prometem o dil&#250;vio que todos pretendem represar com arremedos de metaf&#237;sica. O que ele n&#227;o pode abandonar &#233; o pr&#243;prio gesto de desmascaramento. E &#233; precisamente nesse ponto que Nietzsche se torna uma figura decisiva da modernidade: menos como fundador de um sistema do que como aquele que tornou imposs&#237;vel ignorar as ru&#237;nas sobre as quais esse sistema seria erguido.</p><p>A raz&#227;o havia sido levada a s&#233;rio por demasiado tempo e, por isso, tornava-se necess&#225;rio coloc&#225;-la sob o ju&#237;zo de Dion&#237;sio, isto &#233;, se S&#243;crates &#233; o s&#237;mblo do mito submetido ao exame do logos, Nietzsche representa a invers&#227;o pela qual o logos &#233; escavado at&#233; sueas ra&#237;zes instintivas, impulsivas e vitais: Nietzeche &#233; aquele que assume em si os efeitos colaterais do excesso de raz&#227;o e que, por essa mesma raz&#227;o, sente-se compelido a evocar as for&#231;as subterr&#226;neas da vida humana, j&#225; incapazes de encontrar express&#227;o nas abstra&#231;&#245;es morais e metaf&#237;sicas da modernidade. Esta, por sua vez, embriagada no racionalismo da gera&#231;&#227;o de Hegel, via-se inteiramente ausente de mitos. Esse moralismo esvaziado de religi&#227;o e esse racionalismo incapaz de s&#237;mbolos po&#233;ticos vitais, para al&#233;m de art&#237;sticos, foi o terreno de onde Nietzsche projetou sua genealogia rumo ao socratismo. Essa genealogia atinge igualmente a pr&#243;pria filosofia moderna, como erup&#231;&#227;o cr&#237;tica e saturada desse processo.</p><p><em>&#8220;Que outra coisa significa o enorme apetite do homem civilizado moderno pelo saber hist&#243;rico? Esse esfor&#231;o de reunir ao seu redor in&#250;meras civiliza&#231;&#245;es, essa necessidade de conhecer tudo, n&#227;o significa que perdemos o mito, o seio materno do mito?"</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-13" target="_self">13</a></p><p>Se isto &#233; verdade, se os sentidos enganam, ent&#227;o tamb&#233;m &#233; verdade que &#8220;<em>o que fazemos do seu testemunho &#233; que introduz a mentira; por exemplo, a mentira da unidade, a mentira da materialidade, da subst&#226;ncia, da dura&#231;&#227;o... A &#8220;raz&#227;o&#8221; &#233; a causa de falsificarmos o testemunho dos sentidos. Na medida em que mostram o vir-a-ser, o decorrer, a transforma&#231;&#227;o, os sentidos n&#227;o mentem... Mas Her&#225;clito sempre ter&#225; raz&#227;o em que o ser &#233; uma fic&#231;&#227;o vazia. O mundo &#8220;aparente&#8221; &#233; o &#250;nico: o &#8220;mundo verdadeiro&#8221; &#233; apenas acrescentado mendazmente.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-14" target="_self">14</a></p><p>Se o elo que re&#250;ne os fil&#243;sofos &#233; a necessidade de situar-se &#8212; quase sempre negativamente &#8212; perante a vida, a mente de nosso <em>jester</em> representa a implos&#227;o dessa atitude. &#8220;<em>Eu n&#227;o sou um homem, sou dinamite.&#8221;</em> Seu potencial destrutivo consiste apenas em revelar aquilo que j&#225; havia sido destru&#237;do. Seu aspecto construtivo reside precisamente na percep&#231;&#227;o de que as solu&#231;&#245;es modernas chegaram aos seus limites e que, por isso mesmo, anunciam a dissolu&#231;&#227;o dos valores que as sustentaram.</p><p><em>Como? O ser humano &#233; apenas um equ&#237;voco de Deus? Ou Deus apenas um equ&#237;voco do ser humano?</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-15" target="_self">15</a></p><p><em>Oh, a cren&#231;a em sua dignidade, singularidade, insubstituibilidade na hierarquia dos seres se foi - ele se tornou bicho, animal, sem met&#225;fora, restri&#231;&#227;o ou reserva, ele, que em sua f&#233; anterior era quase Deus (&#8221;filho de Deus&#8221;, &#8220;homem-Deus&#8221;)... Desde Cop&#233;rnico o homem parece ter ca&#237;do em um plano inclinado - ele rola, cada vez mais para longe do centro- para onde? rumo ao nada? ao &#8220;lancinante sentimento do seu nada&#8221;?</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-16" target="_self">16</a></p><p>Uma vez removidos esses fundamentos, emergem for&#231;as, impulsos e instintos at&#233; ent&#227;o contidos pela disciplina moral herdada do cristianismo e da metaf&#237;sica. Surge, assim, o niilismo: n&#227;o apenas como destrui&#231;&#227;o dos antigos valores, mas como a experi&#234;ncia de uma cultura que j&#225; n&#227;o consegue justificar aquilo em que acreditava. Diante desse vazio, imp&#245;e-se a tarefa da transvalora&#231;&#227;o, isto &#233;, a necessidade de revitalizar valores que, embora continuem a orientar a vida moderna, perderam o solo metaf&#237;sico que outrora lhes conferia sentido.</p><p>Nietzsche encarna, assim, a consci&#234;ncia dilacerada de uma civiliza&#231;&#227;o que j&#225; n&#227;o consegue acreditar em seus pr&#243;prios fundamentos, mas que ainda n&#227;o encontrou outros capazes de substitu&#237;-los. Entre a ru&#237;na dos antigos valores e a cria&#231;&#227;o de novos, resta a exig&#234;ncia de afirmar o devir, de tornar-se aquilo que se &#233;, diante da impossibilidade de regressar ao que j&#225; foi.</p><p><em>&#8220;A pr&#243;pria moralidade crist&#259;, o conceito de veracidade entendido de modo sempre mais rigoroso, a sutileza confessional da consci&#234;ncia crist&#257;, traduzida e sublimada em consci&#234;ncia cient&#237;fica, em asseio intelectual a qualquer pre&#231;o. Ver a natureza como prova da bondade e prote&#231;&#227;o de um Deus; interpretar a hist&#243;ria para a gl&#243;ria de uma raz&#227;o divina, como permanente testemunho de uma ordena&#231;&#227;o moral do mundo e de inten&#231;&#245;es morais &#250;ltimas; explicar as pr&#243;prias viv&#234;ncias como durante muito tempo fizeram os homens pios, como se fosse tudo previd&#234;ncia, tudo aviso, tudo concebido e disposto para a salva&#231;&#227;o da alma: <strong>isso agora acabou.&#8221;</strong></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-17" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-17" target="_self">17</a></p><p>N&#227;o &#233; precisamente essa a experi&#234;ncia caracter&#237;stica de nosso tempo? N&#227;o assistimos &#224; perman&#234;ncia de valores cuja autoridade j&#225; n&#227;o sabemos justificar, acompanhada da incapacidade de retornar aos fundamentos que outrora lhes conferiam sentido Segundo Eric Blondel, a &#8220;<em>cultura  para Nietzsche &#233; a totalidade de valores mais ou menos unifcada que uma sociedade,  &#233;poca ou civiliza&#231;&#227;o &#8211; enquanto totalidades tipol&#243;gicas vitais &#8211; se oferece a si mesma  em resposta &#224; quest&#227;o: porque vivemos?</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-18" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-18" target="_self">18</a><em>&#8221; </em> Nietzsche prenuncia o momento em que a Europa perder&#225; de vista essa resposta, isto &#233;, chegar&#225; ao esgotamento do esfor&#231;o unificador que sustentava a possibilidade de respond&#234;-la. <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-19" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-19" target="_self">19</a></p><p>&#201; por isso que, em Nietzsche, nem sempre &#233; f&#225;cil distinguir onde termina o diagn&#243;stico e come&#231;a a proposta; onde o genealogista da decad&#234;ncia cede lugar ao pensador da transvalora&#231;&#227;o; ou, ainda, onde o profeta dos rumos da modernidade se converte em um de seus protagonistas mais decisivos. Talvez nenhum outro fil&#243;sofo tenha ocupado de maneira t&#227;o intensa essa posi&#231;&#227;o liminar: simultaneamente int&#233;rprete privilegiado da crise do Ocidente e um de seus agentes mais influentes. </p><p>&#201; justamente essa ambiguidade que torna sua obra inesgot&#225;vel e faz com que permane&#231;a dif&#237;cil separar o Nietzsche que descreve seu tempo daquele que, em larga medida, contribui para coro&#225;-lo. Por exemplo, escreve nas Considera&#231;&#245;es Extempor&#226;neas que o santo, o fil&#243;sofo e o poeta s&#227;o as realiza&#231;&#245;es m&#225;ximas da natureza.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-20" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-20" target="_self">20</a></p><p><strong>IV. Apropria&#231;&#227;o herm&#234;nutica da figura do anticristo</strong></p><p>A concep&#231;&#227;o de cristianismo que Nietzsche combate aproxima-se, em muitos aspectos, daquela hoje difundida pelo imagin&#225;rio secularizado: Deus como proje&#231;&#227;o consoladora do homem; o c&#233;u como express&#227;o de um desejo ressentido de compensa&#231;&#227;o; a ascese como simples nega&#231;&#227;o do corpo; a Igreja como instrumento de controle social e conforma&#231;&#227;o pol&#237;tica. A diferen&#231;a &#233; que, em Nietzsche, essas intui&#231;&#245;es recebem uma elabora&#231;&#227;o filos&#243;fica de extraordin&#225;ria sofistica&#231;&#227;o. Ainda assim, sua genealogia do cristianismo permanece, segundo Max Scheler, historicamente insuficiente, pois toma como objeto n&#227;o o cristianismo em sua forma pr&#243;pria, mas o cristianismo humanitarista que predominava no s&#233;culo XIX.</p><p>Para Scheler,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-21" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-21" target="_self">21</a> Nietzsche incorre, por isso, em uma s&#233;rie de identifica&#231;&#245;es indevidas: confunde o amor crist&#227;o com o humanitarismo moderno, a igualdade perante Deus com o igualitarismo democr&#225;tico, o ascetismo com a mera nega&#231;&#227;o da vida e outras deforma&#231;&#245;es. Sua genealogia dos valores crist&#227;os &#233; menos uma cr&#237;tica ao Evangelho do que uma radiografia do pseudo-cristianismo de sua &#233;poca. Isso &#233; decisivo no esquema maior de sua proposta, pois o engano de dois mil anos que visa superar n&#227;o passa da deforma&#231;&#227;o dois s&#233;culos que deu o substrato para sua teoriza&#231;&#227;o do cristianismo como fator de decad&#234;ncia.</p><blockquote><p><strong>&#8220;A profunda diferen&#231;a interna entre os fatos e os conceitos do amor crist&#227;o e os do amor humanit&#225;rio parece ter escapado completamente a Nietzsche&#8230; "Sua cr&#237;tica, contudo, n&#227;o atinge o amor crist&#227;o ao pr&#243;ximo; atinge, isto sim, um componente essencial do moderno 'amor &#224; humanidade', que &#233;, na realidade, um fen&#244;meno sociopsicol&#243;gico de degenera&#231;&#227;o."&#8221;</strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-22" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-22" target="_self">22</a></p></blockquote><p>Max Scheler identifica corretamente um aspecto decisivo da cr&#237;tica de Nietzsche. No entanto, a distor&#231;&#227;o nietzschiana decorre do fato de que a compreens&#227;o do amor ao pr&#243;ximo predominante em sua &#233;poca j&#225; representava uma redu&#231;&#227;o do amor teologal &#224; mera filantropia. De fato, um amor ao pr&#243;ximo que n&#227;o esteja radicado no amor a Deus tende a converter-se num culto velado do pr&#243;prio homem, simpatizando abstratamente com a humanidade enquanto se mostra incapaz de responder concretamente &#224; verdade do outro. </p><p><em>O que uma &#233;poca percebe como mau &#233; geralmente uma resson&#226;ncia anacr&#244;nica daquilo que um dia foi considerado bom - o atavismo de um antigo ideal.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-23" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-23" target="_self">23</a></p><p>&#201; nesse contexto que Nietzsche observa<em>: &#8220;Amar o homem por amor a Deus - este foi, at&#233; o momento, o mais nobre e mais remoto sentimento alcan&#231;ado entre os homens. Que o amor ao pr&#243;ximo, sem uma oculta inten&#231;&#227;o santificadora, &#233; uma estupidez e animalidade mais&#8230;&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-24" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-24" target="_self">24</a>  Nietzsche reconhece que o <strong>amor ao pr&#243;ximo crist&#227;o possui uma coer&#234;ncia interna</strong> <strong>enquanto permanece vinculado ao amor de Deus.</strong> Sua cr&#237;tica dirige-se sobretudo &#224; modernidade, que pretende preservar a moral crist&#227; depois de rejeitar o Deus que a fundamentava. Essa &#233; uma das raz&#245;es pelas quais ele considera o humanitarismo moderno mais contradit&#243;rio do que o pr&#243;prio cristianismo. Em suma: Nietzsche foi um excelente int&#233;rprete da modernidade precisamente porque foi um int&#233;rprete insuficiente do cristianismo. &#201; neste condi&#231;&#227;o que ele pode enxergar verdades t&#227;o persp&#237;cuas sob a condi&#231;&#227; religiosa de seu tempo:</p><p><em> &#8220;A laboriosidade moderna, barulhenta, consumidora de tempo, orgulhosa de si, estupidamente orgulhosa, mais que qualquer coisa educa e prepara justamente para a &#8220;descren&#231;a&#8221;? Entre aqueles que na Alemanha de hoje vivem &#224; margem da religi&#227;o, por exemplo, encontro pessoas de livrepensar diverso na origem e na esp&#233;cie, mas sobretudo uma maioria cuja laboriosidade, de gera&#231;&#227;o em gera&#231;&#227;o, veio a dissolver os instintos religiosos: de modo que j&#225; n&#227;o sabem para que servem as religi&#245;es, e apenas com mudo assombro chegam a registrar a sua presen&#231;a no mundo. Elas j&#225; se sentem bastante requisitadas, essas &#243;timas pessoas, quer por seus neg&#243;cios, quer por seus prazeres, sem falar da &#8220;p&#225;tria&#8221; e dos jornais, e das &#8220;obriga&#231;&#245;es de fam&#237;lia&#8221;: parece que n&#227;o lhes sobra tempo para a religi&#227;o, ainda mais porque n&#227;o percebem muito bem do que se trata, se de um novo neg&#243;cio ou um novo prazer - pois n&#227;o se pode, dizem a si mesmas, ir &#224; igreja somente para estragar o bom humor.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-25" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-25" target="_self">25</a></p><p>Tamb&#233;m n&#227;o nos escandalizar&#225; que a doutrina crist&#227; seja um platonismo para as massas, que seus valores sejam valores dos fracos transfigurados em for&#231;a, ou que tudo isso n&#227;o passe de um engodo de Paulo de Tarso, que teria transformado o Jesus hist&#243;rico numa teoria de fuga apocal&#237;ptica diante de um mundo decadente. Quem, entre os esp&#237;ritos cultos de sua &#233;poca, n&#227;o pensava algo semelhante? Temos aqui a parcela mais previs&#237;vel de nosso <em>fool</em>. Aqui temos a tens&#227;o ambivalente que atravessa suas convic&#231;&#245;es. A civiliza&#231;&#227;o europeia teria sido constru&#237;da precisamente por aquilo que a enfraqueceu e a destituiu: os valores crist&#227;os da compaix&#227;o, da caridade e da humildade. Como ele pr&#243;prio bem diz, em Humano, Demasiado Humano:</p><p><em>Mas tudo o que o fil&#243;sofo declara sobre o homem, no fundo, n&#227;o passa de testemunho sobre o homem de um espa&#231;o de tempo bem limitado. Falta de sentido hist&#243;rico &#233; o defeito heredit&#225;rio de todos os fil&#243;sofos.</em></p><p>A tens&#227;o interna de Nietzsche consiste em denunciar como decadente precisamente a civiliza&#231;&#227;o que o produziu. Se a Europa foi constru&#237;da por aquilo que a enfraqueceu, ent&#227;o o pr&#243;prio Nietzsche &#233; fruto dessa contradi&#231;&#227;o. &#201; o rebento mais vigoroso de sua fraqueza ou apenas o galho prematuro de uma &#225;rvore j&#225; apodrecida? De todo modo, continua sendo parte da &#225;rvore. Os <em>court jesters</em> tamb&#233;m acertam errando. A Europa apodreceu ao reduzir Cristo a consolo terreno e, assim, declinou em sucessivas disputas pela melhor vers&#227;o do Reino de Deus na terra. Dessa decad&#234;ncia brotaram uma mir&#237;ade de novos Paulos, cada qual portador de sua nova vers&#227;o do Evangelho. Entre eles o pr&#243;prio Nietzsche, com o m&#233;rito singular de assumir conscientemente o papel de porta-voz daquilo que os demais apenas viviam sem perceber: a descristianiza&#231;&#227;o da Europa. Enquanto jester, sua fun&#231;&#227;o &#233; desmascarar uma civiliza&#231;&#227;o que ainda racionaliza suas cren&#231;as enquanto suprime os mitos, os &#237;dolos que as viabilizam.</p><p><em>Debemos estar preparados para una larga serie de demoliciones, de ruinas, de subversiones&#187;, &#171;habr&#225; guerras como no se conocieron jam&#225;s en el mundo&#187;. &#171;Europa se sumir&#225; en sombras muy pronto&#187;, &#171;asistimos a la ascensi&#243;n de una marea negra&#187; (143). &#171;Se prepara, gracias a m&#237;, una cat&#225;strofe cuyo nombre.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-26" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-26" target="_self">26</a></p><p><em><strong>V. &#220;bermensch: o al&#233;m-homem ausente do al&#233;m-mundo</strong></em></p><p>Se Kant foi o respons&#225;vel por represar as tens&#245;es filos&#243;ficas e morais da modernidade, conferindo-lhes uma fundamenta&#231;&#227;o aparentemente coesa, Friedrich Nietzsche (1844&#8211;1900) foi o profeta do dil&#250;vio que surgiria pelas fissuras deixadas nessa constru&#231;&#227;o. Enquanto a figura do homem esclarecido consolidava-se como o ideal de uma nova &#233;poca, Nietzsche colocou-se como arauto do crep&#250;sculo de um mundo que ainda vivia dos pressupostos de uma f&#233; j&#225; abandonada:</p><p><em>&#8220;Para onde foi Deus? Eu vo-lo direi! N&#243;s o matamos &#8212; v&#243;s e eu! Todos n&#243;s somos seus assassinos.&#8221;</em></p><p>Foi o primeiro a perceber, ao seu modo, que a moral moderna procurava conservar a vontade de sentido, a vontade de verdade e a pretens&#227;o universalista herdadas do cristianismo, depois de ter rejeitado sua raiz metaf&#237;sica e transcendente. Aquilo que os modernos julgavam ser produto aut&#244;nomo da raz&#227;o ainda carregava, segundo ele, a marca de uma longa heran&#231;a religiosa.</p><p><em>Que faz, no fundo, toda a filosofia moderna? Desde Descartes -e antes apesar dele do que a partir do seu precedente - todos os fil&#243;sofos t&#234;m feito um atentado contra o velho conceito de alma, sob a apar&#234;ncia de uma cr&#237;tica ao conceito de sujeito e predicado - ou seja: um atentado contra o pressuposto fundamental da doutrina crist&#259;. A filosofia moderna, sendo um ceticismo epistemol&#243;gico, &#233;, abertamente ou n&#227;o, anticrist&#257;: embora, diga-se para ouvidos mais sutis, de maneira nenhuma anti-religiosa.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-27" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-27" target="_self">27</a></p><p>Se Karl L&#246;with, Charles Taylor e Carl Schmitt se destacam como grandes int&#233;rpretes dos processos de seculariza&#231;&#227;o, e se Max Weber e Gabriel Marcel descreveram, cada um &#224; sua maneira, o desencantamento do mundo e a eros&#227;o do sentido do mist&#233;rio, Nietzsche ocupa uma posi&#231;&#227;o singular: enquanto aquele que a um s&#243; tempo prenuncia e mobiliza as ideias futuras. </p><p><em>Nietzsche viu-o bem quando disse que o n&#227;o crist&#227;o dos tempos modernos ainda n&#227;o tinha compreendido bem o que significa verdadeiramente o anti-cristianismo. As &#250;ltimas d&#233;cadas j&#225; o mostraram um pouco- e foram apenas um come&#231;o.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-28" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-28" target="_self">28</a></p><div class="pullquote"><p>&#8220;Uma &#233;poca &#233; um repert&#243;rio de tend&#234;ncias positivas e negativas; &#233; um sistema de agudezas e clarivid&#234;ncias unido a um sistema de torpezas e cegueiras. N&#227;o consiste apenas em querer certas coisas, mas tamb&#233;m em decidir n&#227;o querer outras. Quando um novo tempo se inicia, a primeira coisa que percebemos &#233; a presen&#231;a quase m&#225;gica dessas propens&#245;es negativas, que come&#231;am a eliminar a fauna e a flora da &#233;poca anterior.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-29" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-29" target="_self">29</a></p></div><p>A primeira tentativa sistem&#225;tica de converter a transvalora&#231;&#227;o nietzschiana em um programa pol&#237;tico e civilizacional foi, provavelmente, <em>Der Mythus des 20. Jahrhunderts</em>, de Alfred Rosenberg. Era quase inevit&#225;vel que uma &#233;poca absorvida pelas ideologias de massa, fascinada simultaneamente pelo progresso t&#233;cnico e pelo materialismo, reduzisse o <em>&#220;bermensch</em> a um ideal biol&#243;gico e convertesse a cultura destinada a engendr&#225;-lo em um projeto de purifica&#231;&#227;o racial. </p><p>A profecia de Nietzsche encontrou a&#237; sua realiza&#231;&#227;o mais paradoxal: a morte de Deus produziu, de fato, uma &#233;poca apta a acolher a exig&#234;ncia da transvalora&#231;&#227;o, mas justamente a aus&#234;ncia do fundamento transcendente tornou imposs&#237;vel que essa transvalora&#231;&#227;o se realizasse como cria&#231;&#227;o aut&#234;ntica de novos valores. Seu &#234;xito hist&#243;rico coincidiu, assim, com seu fracasso filos&#243;fico: triunfou como progn&#243;stico e fracassou como proposta. <em> </em></p><p><em><strong>&#8220;TAalvez o homem n&#227;o deixe de se elevar quando n&#227;o mais tiver um deus para escoar.&#8221;</strong></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-30" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-30" target="_self">30</a></p><p>O homem transvalorado s&#243; poderia tornar-se um anti-homem, pois negara precisamente aquilo que sustentava a emin&#234;ncia de sua humanidade. Como escreveu Berdiaev: <em>&#171;onde n&#227;o h&#225; Deus, tampouco pode haver homem&#187;</em>. Nesse sentido, o aspecto afirmativo da filosofia de Nietzsche foi invertido pela pr&#243;pria l&#243;gica hist&#243;rica desencadeada pela nega&#231;&#227;o de Deus. Seu &#220;bermesnch &#233; a figura de Jesus secularizada, isto &#233;, descristianizada, nietzschianizada. E por isso se transformou em algo demasiado desumano, totalmente aberto a toda forma de animalidade grosseira e egol&#225;tria: &#8220;<em>sob toda essa diversidade, encontra-se sempre o mesmo car&#225;ter fundamental, ou, melhor dizendo, comprova-se a mesma aus&#234;ncia. Esse homem est&#225; literalmente dissolvido. Na realidade, n&#227;o h&#225; homem, porque n&#227;o h&#225; nada que transcenda o homem.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-31" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-31" target="_self">31</a></p><p>A relativa facilidade com que Alfred Rosenberg, um dos principais ide&#243;logos do nacional-socialismo, p&#244;de apropriar-se da proposta nietzschiana de transvalora&#231;&#227;o, reinterpretando-a em chave biol&#243;gica e racial e colocando-a a servi&#231;o do projeto pol&#237;tico do Terceiro Reich:</p><p><em>Nietzsche encarnou o grito desesperado de milh&#245;es contra essa situa&#231;&#227;o. Seus brados selvagens sobre o &#220;bermensch (o "al&#233;m-do-homem") foram uma extens&#227;o violenta de sua vida pessoal subjugada, estrangulada pela press&#227;o material de seu tempo. Ent&#227;o, pelo menos um homem destruiu de repente todos os valores em uma rebeli&#227;o fan&#225;tica. Ele rugiu com f&#250;ria. Um sentimento de al&#237;vio percorreu as almas de todos os europeus em busca de um caminho. O fato de Nietzsche ter enlouquecido &#233; simb&#243;lico. Uma imensa vontade criadora represada abriu caminho como uma inunda&#231;&#227;o. Mas essa mesma vontade, interiormente quebrada muito antes, j&#225; n&#227;o podia adquirir forma. Uma &#233;poca escravizada por gera&#231;&#245;es compreendeu, em sua impot&#234;ncia, apenas o aspecto subjetivo da grande vontade e da experi&#234;ncia vital de Friedrich Nietzsche. Ela transformou a mais profunda luta pela personalidade em um clamor pela libera&#231;&#227;o de todos os instintos.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-32" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-32" target="_self">32</a></p><p>Esse prenchimento religioso secularizado e degradante, como rea&#231;&#227;o &#224; planifica&#231;&#227;o apol&#237;nea da vida pela demoli&#231;&#227;o de suas cren&#231;as fundamentais tamb&#233;m j&#225; havia sido antecipada por ele:</p><p><em>Por que ate&#237;smo hoje? O &#8220;pai&#8221; em Deus est&#225; inteiramente refutado; assim tamb&#233;m o &#8220;juiz&#8221;, o &#8220;recompensador&#8221;. Do mesmo modo o seu &#8220;livre arb&#237;trio&#8221;: ele n&#227;o ouve - e se ouvisse, n&#227;o saberia como ajudar. O pior de tudo &#233;: ele parece incapaz de se comunicar com clareza: ser&#225; obscuro? - Eis o que, atrav&#233;s de muitas conversas, inquirindo e escutando, encontrei como causas para o decl&#237;nio do te&#237;smo europeu; parece-me que o instinto religioso est&#225; em pleno crescimento- mas que a satisfa&#231;&#227;o te&#237;sta &#233; por ele rejeitada com profunda desconfian&#231;a.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-33" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-33" target="_self">33</a></p><p>O <em>&#220;bermensch</em> nietzschiano possui, ao mesmo tempo, um car&#225;ter afirmativo e um car&#225;ter progn&#243;stico. &#201; afirmativo porque se apresenta como o ideal de supera&#231;&#227;o de uma &#233;tica voltada para um al&#233;m-mundo, conclamando o homem a tornar-se criador de valores e a afirmar integralmente a exist&#234;ncia. Mas &#233; tamb&#233;m progn&#243;stico, pois a pr&#243;pria possibilidade do <em>&#220;bermensch</em> pressup&#245;e uma transforma&#231;&#227;o hist&#243;rica anterior: somente faz sentido falar de um "al&#233;m-do-homem" quando aquilo que antes se situava acima do homem &#8212; Deus, o fundamento transcendente da verdade e do valor &#8212; foi dele separado e perdeu sua for&#231;a normativa. &#201; precisamente essa condi&#231;&#227;o que Nietzsche anuncia na proclama&#231;&#227;o da morte de Deus. </p><p><em>&#8220;O que narro &#233; a hist&#243;ria dos dois s&#233;culos vindouros. Descrevo o advento do niilismo. Essa hist&#243;ria j&#225; pode ser contada, pois &#233; a obra da necessidade: seu futuro j&#225; se anuncia. O porvir j&#225; nos fala por meio de in&#250;meros sinais; tudo o que nossos olhos veem anuncia a decad&#234;ncia inevit&#225;vel. Nosso ouvido tornou-se suficientemente agu&#231;ado para perceber essa mensagem do futuro. Toda a evolu&#231;&#227;o da Europa encontra-se num estado de angustiosa expectativa: caminha, d&#233;cada ap&#243;s d&#233;cada, rumo &#224; cat&#225;strofe, com um movimento inquieto, irresist&#237;vel e cada vez mais acelerado.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-34" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-34" target="_self">34</a></p><p>O <em>&#220;bermensch</em> n&#227;o surge, portanto, apenas como um ideal filos&#243;fico, mas como a figura antropol&#243;gica correspondente a uma &#233;poca em que o horizonte transcendente foi definitivamente desencantado. </p><p><em>&#8220;A verdade foi entronizada como Ser, como Deus, como inst&#226;ncia suprema, porque a verdade n&#227;o podia em absoluto ser um problema. Compreende-se este "podia"? - A partir do momento em que a f&#233; no Deus do ideal asc&#233;tico &#233; negada, passa a existir um novo problema: <strong>o problema do valorda verdade</strong>. -A vontade de verdade requer uma cr&#237;tica - com isso determinamos nossa tarefa -, o valor da verdade ser&#225; experimentalmente posto em quest&#227;o...&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-35" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-35" target="_self">35</a></p><p>Em certa medida, o que Henri de Lubac denominou &#8220;humanismo ateu&#8221; nasce justamente da tentativa de preencher o vazio deixado pelo colapso da metaf&#237;sica crist&#227;. Trata-se de um humanismo dram&#225;tico porque procura conservar a dignidade do homem sem poder recorrer ao fundamento transcendente que historicamente a sustentava, permanecendo dividido entre a nostalgia de um sentido perdido e o esfor&#231;o de instituir novos valores.</p><p><em>&#8220;O facto de o ter feito foi de certo modo not&#225;vel se tivermos em conta as circunst&#226;ncias hist&#243;ricas em que escreveu a sua obra. Os ex&#233;rcitos prussianos tinham imposto a supremacia germ&#226;nica na Europa. A Gr&#227;- Breta-nha estava consciente da sua supremacia no mar. No dom&#237;nio da ci&#234;ncia e da tecnologia, come&#231;aram a fazer-se progressos espec-taculares e at&#233; ent&#227;o totalmente impens&#225;veis. Imperavam o esp&#237;-rito de reforma e o optimismo. Contudo, para Nietzsche, a estabi-lidade pol&#237;tica e o desenvolvimento da &#233;poca n&#227;o valiam nada, comparados com o &#250;nico facto que para ele contava, mas que os seus contempor&#226;neos se recusavam a aceitar: Deus tinha morrido.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-36" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-36" target="_self">36</a></p><p>Por ironia dos fados, a transvalora&#231;&#227;o dos valores anunciada por Nietzsche efetivamente ocorreu, mas n&#227;o da maneira por ele imaginada. Em vez de produzir uma cria&#231;&#227;o inteiramente nova, ela assumiu a forma de uma invers&#227;o que preservou, sob categorias secularizadas, a estrutura moral que pretendia superar. Se Nietzsche identificava no ressentimento a incapacidade de criar valores verdadeiramente novos, n&#227;o deixa de ser sugestivo perguntar se boa parte da modernidade posterior n&#227;o realizou precisamente esse movimento: negou a teologia crist&#227;, mas conservou, sob novas roupagens, sua gram&#225;tica moral. </p><p><em>O maior acontecimento recente-o fato de que &#8220;Deus est&#225; morto, de que a cren&#231;&#1072; no Deus crist&#227;o perdeu o cr&#233;dito-j&#225; come&#231;a a lan&#231;ar suas primeiras sombras sobre a Europa. Ao menos para aqueles poucos cujo olhar, cuja suspeitano olhar &#233; forte e refinada o bastante para esse espet&#225;culo, algum sol parece ter se posto, alguma velha e profunda confian&#231;a parece ter se transformado em d&#250;vida: para eles o nosso velho mundo deve parecer cada dia mais crepuscular, mais desconfiado, mais estranho&#8230; agora que esta cren&#231;a foi minada, porque estava sobre ela constru&#237;do, nela apoiado, nela arraigado: toda a nossa moral europ&#233;ia.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-37" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-37" target="_self">37</a></p><p>A transvalora&#231;&#227;o teria ocorrido, assim, menos como cria&#231;&#227;o do que como recalque. N&#227;o fracassa apenas porque elimina Deus; ela fracassa porque permanece psicologicamente dependente daquilo que pretende negar. &#201; nesse contexto que Julius Evola oferece uma cr&#237;tica singular de Nietzsche. Reconhecendo nele um dos maiores advers&#225;rios da decad&#234;ncia moderna, Evola sustenta, entretanto, que seu dionisismo permanece prisioneiro de um horizonte ainda demasiado humano. Ao rejeitar o transcendente crist&#227;o sem reencontrar um princ&#237;pio verdadeiramente suprapessoal, o <em>&#220;bermensch</em> correria o risco de converter-se em um ideal heroico destitu&#237;do de fundamento metaf&#237;sico: mera afirma&#231;&#227;o dion&#237;siaca de si perante uma raz&#227;o publ&#237;ca massivamente apol&#237;nea. Desse modo, a pr&#243;pria tentativa de superar o niilismo permaneceria inscrita no interior do processo hist&#243;rico que o produziu. </p><p><em>Houve tempo em que se sacrificava ao deus seres humanos&#8230; Depois, na &#233;poca moral da humanidade, sacrificava-se ao deus os instintos mais fortes que se possu&#237;a&#8230; Por fim: que restava ainda a sacrificar? N&#227;o era preciso, finalmente, sacrificar tudo o que h&#225; de consolador, sagrado, salvador, toda esperan&#231;a, toda f&#233; numa harmonia oculta, em bem-aventuran&#231;as e justi&#231;as futuras? N&#227;o era preciso sacrificar o pr&#243;prio deus, e, por crueldade a si mesmo, adorar a pedra, a imbecilidade, a gravidade, o destino, o nada? Sacrificar Deus ao nada - esse paradoxal mist&#233;rio da crueldade derradeira ficou reservado para a gera&#231;&#227;o que surge agora: todos n&#243;s j&#225; sabemos alguma coisa disso.</em></p><p>Como diz, o mundo verdadeiro come&#231;a com Plat&#227;o, como caminho do s&#225;bio, e se torna acess&#237;vel, enquanto promessa, pelo cristianismo. Torna-se, ent&#227;o, uma realiza&#231;&#227;o virtual cuja plenitude &#233; prometida. Depois, perde sua promessa e seu alcance, restando, enquanto possibilidade, um imperativo desejoso. Contudo, se n&#227;o &#233; mais alcanc&#225;vel, tampouco pode ser cr&#237;vel, eis a modernidade em seu estado maduro, ou p&#243;stumo:</p><p><em>&#8220;O mundo verdadeiro &#8212; alcan&#231;&#225;vel? De todo modo, inalcan&#231;ado. E, enquanto n&#227;o alcan&#231;ado, tamb&#233;m desconhecido. Logo, tampouco salvador, consolador, obrigat&#243;rio: a que poderia nos obrigar algo desconhecido?... (Manh&#227; cinzenta. Primeiro bocejo da raz&#227;o. Canto de galo do positivismo.)&#8230;. O &#8220;mundo verdadeiro&#8221; &#8212; uma ideia que para nada mais serve, n&#227;o mais obriga a nada &#8212;, id&#233;ia tornada in&#250;til, logo refutada: vamos elimin&#225;-la! (Dia claro; caf&#233;-da-manh&#227;; retorno do bon sens [bom senso] e da jovialidade; rubor de Plat&#227;o; algazarra infernal de todos os esp&#237;ritos livres.)&#8221;</em></p><p><em>O mundo verdadeiro, inalcan&#231;&#225;vel, indemonstr&#225;vel, imposs&#237;vel de ser prometido, mas, j&#225; enquanto pensamento, um consolo, uma obriga&#231;&#227;o, um imperativo. (O velho sol, no fundo, mas atrav&#233;s de neblina e ceticismo; a id&#233;ia tornada sublime, p&#225;lida, n&#243;rdica, k&#246;nigsberguiana.)</em></p><p><em><strong>NOTA</strong>: Em virtude da construa&#231;&#227;o gradual do ensaio junto &#224;s cita&#231;&#245;es, percebi depois que a numera&#231;&#227;o das refer&#234;ncias ficou modificada, redundando numa confus&#227;o. Como n&#227;o altera em nada a subst&#226;ncia do ensaio, deixarei esse retoque para outra hora, pois precisarei consultar novamente todos os textos utilizados. </em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Al&#233;m do Bem e do Mal, 13</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p><em>Introducci&#243;n a Nietzsche</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Nietzche e a Filosofia, Ed. Rio</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p><em>Cf. Karl L&#246;with, &#8220;Nietzsche considerado como fil&#243;sofo&#8221;, in: De Hegel a Nietzsche.<br>Fim dos Tempos Modernos, Morais Editora</em></p></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Introduction</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p>Ecce Homo, 1</p></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p>O Caso Wagner, pr&#243;logo</p></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Ecce Homo, 2</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p><em>Conf. Campbell e Goldsmith, Wise Fools in Shakespeare.</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p>El drama del humanismo ateo, p. 68</p></div><p><br>Ressentiment, C.IV</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>Ressentiment, C.IV</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>O Nascimento da trag&#233;dia, 23.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Crep&#250;sculo dos &#205;dolos</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p>??<br>Crep&#250;sculo dos &#205;dolos, II-9</p></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>Gaia Ci&#234;ncia, 154</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-17" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-17" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">17</a><div class="footnote-content"><p>Al&#233;m do bem e do Mal, 54</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-18" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-18" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">18</a><div class="footnote-content"><p>Crep&#250;sculo dos &#205;dolos, 7</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-19" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-19" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">19</a><div class="footnote-content"><p>Al&#233;m do Bem e do Mal</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-20" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-20" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">20</a><div class="footnote-content"><p>Nietzsche: The Body and Culture (Apud Introdu&#231;&#227;o a Nietzsche, org. Pietro Gori)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-21" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-21" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">21</a><div class="footnote-content"><p>Gaia Ci&#234;ncia, 357</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-22" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-22" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">22</a><div class="footnote-content"><p>Crep&#250;sculos dos &#205;dolos, II-11</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-23" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-23" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">23</a><div class="footnote-content"><p>Al&#233;m do Bem e do Mal, 101</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-24" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-24" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">24</a><div class="footnote-content"><p>Al&#233;m do Bem e do Mal, 58</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-25" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-25" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">25</a><div class="footnote-content"><p> Sabemos que se trata ainda do Nietzsche shcopenhauriano, admirador do ideal asc&#233;tico, fascinado pela filosofia em seu estado vital na imin&#234;ncia do socratismo, e, por isso, toda comprometida ainda com a poesia. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-26" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-26" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">26</a><div class="footnote-content"><p>The Myth of the 20th Century, p. 372</p><p>Segundo James Whisker, que escreveu a introdu&#231;&#227;o &#224; edi&#231;&#227;o inglesa, &#8220;<em>Rosenberg seria a culmina&#231;&#227;o l&#243;gica de grande parte do pensamento alem&#227;o e, ao mesmo tempo, um dos principais formadores dessa mentalidade durante o per&#237;odo de 1933 a 1945.&#8221;</em></p><p><em>(&#8230;) Os mitos s&#227;o formados, antes de tudo, por indiv&#237;duos criadores de tipos. Para compreender o que Rosenberg quer dizer aqui, devemos voltar-nos por um momento para Friedrich Nietzsche. Nietzsche ensinou a doutrina do al&#233;m-do-homem (&#220;bermensch), ou super-homem, capaz de criar, por si mesmo, um padr&#227;o inteiramente novo de exist&#234;ncia.</em></p><p><em>Para Nietzsche, o mundo era eterno e a hist&#243;ria repetia-se indefinidamente, sem qualquer sentido. A hist&#243;ria, por&#233;m, era limitada quanto ao n&#250;mero e &#224; variedade de suas formas de express&#227;o. Poder-se-ia alcan&#231;ar uma esp&#233;cie de imortalidade secular &#8212; uma salva&#231;&#227;o sem religi&#227;o &#8212; caso algu&#233;m fosse capaz de criar um tipo inteiramente novo de homem, uma nova forma de express&#227;o humana. Todos os valores deveriam estar subordinados a esse &#250;nico valor supremo. A &#233;tica crist&#227; da mansid&#227;o, da caridade, da humildade, do amor e de todas as demais virtudes deveria ser subordinada aos valores postos a servi&#231;o do ego, do al&#233;m-do-homem.&#8221; (&#8230;)</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-27" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-27" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">27</a><div class="footnote-content"><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p>El drama del humanismo ateo, p. 71</p></div><p><br>Vontade de Poder</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-28" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-28" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">28</a><div class="footnote-content"><p>A Gaia Ci&#234;ncia</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-29" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-29" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">29</a><div class="footnote-content"><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p>Al&#233;m do Bem e do Mal, 152</p></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-30" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-30" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">30</a><div class="footnote-content"><p>Crep&#250;sculo dos &#205;dolos, III-2</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-31" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-31" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">31</a><div class="footnote-content"><p>Ibid</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-32" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-32" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">32</a><div class="footnote-content"><p>Al&#233;m do Bem e do Mal, 46</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-33" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-33" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">33</a><div class="footnote-content"><p>Ibid</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-34" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-34" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">34</a><div class="footnote-content"><p>Ibid, 53</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-35" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-35" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">35</a><div class="footnote-content"><p>Ibid, 55</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-36" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-36" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">36</a><div class="footnote-content"><p>Hist&#243;ria do Ate&#237;smo Ocidental, p. 151. Edi&#231;&#245;es 70</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-37" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-37" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">37</a><div class="footnote-content"><p>Ibid, 76</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que é conversar com alguém?]]></title><description><![CDATA[A natureza do di&#225;logo em tempos de aniquila&#231;&#227;o do humano]]></description><link>https://renam.substack.com/p/o-que-e-conversar-com-alguem</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/o-que-e-conversar-com-alguem</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Thu, 04 Jun 2026 20:03:27 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F04d69317-cfb5-420c-b17f-309e794a8abf_492x240.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esse tema, e essas distin&#231;&#245;es, j&#225; n&#227;o s&#227;o mais claras. S&#243; se tornam claras em sociedades onde a palavra &#233; mais do que exteri&#243;tipo, mais do que gritaria ou princ&#237;pio de manipula&#231;&#227;o. Existem certos princ&#237;pios de organi&#231;&#227;o que abrangem todas as coisas numa sociedade. Para um espartano, quase todas as coisas s&#227;o medidas pela austeridade devida ao bem comum, para um ateniense, pela valor que possuem diante de algu&#233;m livre. </p><p>No nosso caso, esse princ&#237;pio comum &#233; o poder ser comprado ou vendido. As rela&#231;&#245;es de consumo s&#227;o o que nos une. Ningu&#233;m conhece as leis, os vizinhos s&#227;o estranhos m&#250;tuos, mesmo o conjunto de fi&#233;is numa par&#243;quia n&#227;o passa de individualidades reunidas, mas o que nos mant&#233;m unidos &#233; o pressuposto de que cada um deve respeitar a vida e os bens alheios. O &#250;nico princ&#237;pio suficientemente universal para unir indiv&#237;duos radicalmente diferentes &#233; o respeito rec&#237;proco &#224; esfera privada. </p><p>A interioridade n&#227;o p&#244;de escapar disso. Tornou-se um produto, que pode ser explorado por estranhos, comprado ou vendido. J&#225; dizia Gustavo Cor&#231;&#227;o, o homem moderno considera sua opini&#227;o uma esp&#233;cie de propriedade tamb&#233;m. Tal como se diz, no auge duma discuss&#227;o: &#8220;esta &#233; a <strong>minha </strong>opini&#227;o.&#8221; Express&#227;o esta que espantaria Aristoteles, j&#225; que em sua &#233;poca ter uma opini&#227;o era, em primeiro lugar, assumir sua uma ideia comum, socialmente aceita. E a nossa mais forte opini&#227;o comum, socialmente defendida, &#233; a de que cada um tem sua opini&#227;o.</p><p>Numa situa&#231;&#227;o assim, como &#233; poss&#237;vel cultivar o di&#225;logo, a conversa&#231;&#227;o? </p><p>C&#237;cero chega a dizer que o cultiva da palavra &#233; o princ&#237;pio mais humano de sociedade. Uma sociedade humana surge em torno do esfor&#231;o de compreender e manter-se fiel a uma palavra transmitida. Com efeito, n&#227;o &#233; qualquer di&#225;logo ou qualquer conversa&#231;&#227;o que se origina dessa ideia. N&#227;o se trata, aqui, da conversa fiada, isto &#233;, daquelas palavras trocadas quase como num ritual de m&#250;tua indiferen&#231;a. Nem, muito menos, de uma situa&#231;&#227;o puramente laboratorial e simulada, como no do caso da terapia. </p><p>Conversar significa <em>viver com, assumir uma mesma vida. A conversa&#231;&#227;o &#233;, ent&#227;o, uma transfus&#227;o de ideias que sup&#245;e uma vida que transcende a individualide e des&#225;gua no outro rumo a algo mais que ambos. </em>Conversar &#233; sin&#244;nimo de conviver. N&#227;o no mero sentido de viver junto, mas no pleno sentido humano da coisa. Conviver, para o homem, &#233; mover-se por uma mesma palavra. N&#227;o &#233; isto que Cristo diz: <em>&#8220;permanecei na minha palavra.</em>&#8221; Dificilmente nos sacrificamos por algu&#233;m que n&#227;o conhecemos, e a conversa&#231;&#227;o &#233; o princ&#237;pio desse sacrif&#237;cio, dentro do sentido que adotamos aqui.</p><p>Sem isto, corremos o risco contr&#225;rio: tornarmo-nos grosseiros e insens&#237;veis ao ponto dos animais. Se todo mundo precisa ter a pr&#243;pria opini&#227;o, isso significa que a opini&#227;o n&#227;o &#233; um fator de coes&#227;o, mas de cis&#227;o social. Restando a gritaria, a coer&#231;&#227;o e a manipula&#231;&#227;o. &#201; por isso que a conversa&#231;&#227;o sup&#245;e uma m&#250;tua interioridade fecunda. E tamb&#233;m um m&#250;tuo respeito por ela. Diz Goethe: </p><p><em>&#8220;De modo geral, o estilo de um escritor &#233; uma c&#243;pia fiel de sua vida interior&#8221;</em> <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></p><p>Se trocarmos aquele que escreve por aquele que fala, d&#225; no mesmo. E a ideia de fundo ao culto da opini&#227;o pr&#243;pria, por outro lado, &#233; o culto ao exteri&#243;tipo e o desprezo do outro, porque sup&#245;e a surdez ao que o outro tem a nos ensinar, e a &#226;nsia a fazer do outro um pros&#233;lito manipul&#225;vel. Mesmo no caso da escrita: perdemos de vista que os grandes escritores costumam surgir de ambientes profundamente conversativos. &#201; pelo cultivo din&#226;mico da fala que a escrita ganha vida. N&#227;o s&#243; da fala, como tamb&#233;m do ouvido.</p><p><em>&#8220;&#201; interessante, disse Goethe, como o ouvido e a faculdade de compreens&#227;o em geral se antecipam &#224; capacidade de falar, e uma pessoa pode em pouco tempo compreender tudo sem conseguir exprimir tudo&#8221;</em></p><p>O tema da conversa&#231;&#227;o aparece at&#233; mesmo no contexto religioso. Para S&#227;o Bento, <em>conversatio </em>significa a mudan&#231;a de vida que abra&#231;amos ao conviver com outras pessoas que nos servem de exemplo. N&#227;o &#233; apenas emula&#231;&#227;o, pois tamb&#233;m n&#243;s servimos de exemplo a outros, num com&#233;rcio t&#225;cito de bens espirituais &#8212; &#233; uma experi&#234;ncia comunit&#225;ria, conjunta e desinteressada. Na cultura palaciana da alta idade m&#233;dia, a conversa&#231;&#227;o consistia no saber falar e portar-se corretamente em cada circunst&#226;ncia, quase como a contraface expressiva da sabedoria pr&#225;tica. </p><p>N&#227;o apenas palaciana, Hugo de S&#227;o Vitor enxerga a conversa&#231;&#227;o desse mesmo modo. Isto nos soa estranho porque nascemos de uma cosmovis&#227;o burguesa, em que a espontaneidade pura &#233; uma esp&#233;cie de manifesto de desprezo aos modos refletidos de um aristocrata, cujos gestos e palavras, segundo nossa mitologia, sempre nos parecem afetados, artificiosos e interesseiros. Coisa esta muito curiosa, pois essa mentalidade avessa a toda conforma&#231;&#227;o social nos levou justamente &#224; massifica&#231;&#227;o dos gestos, dos gostos e das escolhas, num processo an&#225;logo ao adolescente que, na &#226;nsia de ser original, se prostitui ao primeiro grupo que o acolhe.</p><p>Encontramos registro an&#225;logo dessa vis&#227;o sobre a conversa&#231;&#227;o no relato sobre a conviv&#234;ncia com Goethe, por Peter Eckermann. O di&#225;rio de Eckermann &#233; um mosaico das coisas que aprende indo &#224; casa de Goethe. N&#227;o s&#243; coisas abstratas, como tamb&#233;m conselhos, observa&#231;&#245;es inesperadas, gestos marcantes, corre&#231;&#245;es, elogios, e, o mais importante: a absor&#231;&#227;o do jeito de viver.</p><p><em>&#8220;Sua pessoa, sua simples proximidade parece-me ser formadora, mesmo quando ele n&#227;o diz nenhuma palavra.&#8221;</em></p><p><em>&#8220;Al&#233;m disso, sempre senti a necessidade de instru&#231;&#227;o, tanto da primeira vez em que me encontrei com aquele homem extraordin&#225;rio quanto depois de j&#225; ter convivido com ele ao longo de v&#225;rios anos, e era com prazer que recolhia o teor de suas palavras e o anotava a fim de guard&#225;-lo para o resto de minha vida.&#8221;</em></p><p>Enfim, o mosaico das coisas aprendidas por Eckermann &#233;, tamb&#233;m, uma reconstitui&#231;&#227;o da experi&#234;ncia total pela qual formamos nossa personalidade diante de quem admiramos. Coisa imposs&#237;vel por livros ou pela aprendizagem, apenas concentrados em assuntos, objetos, coisas &#8212; assuntos, objetos e coisas podem ser dissecadas, manuseadas, reviradas. Quando lemos um livro ou assistiamos &#224; aula, nossa rela&#231;&#227;o &#233; primeiramente orientada ao objeto de estudo. Na conversa&#231;&#227;o, na conviv&#234;ncia, o objeto de estudo &#233; parte de um cenr&#225;rio maior: a vida em sua totalidade.</p><p><em>&#8220;De modo geral, continuou Goethe, s&#243; aprendemos com quem amamos.&#8221;</em></p><p>Esse tema da conforma&#231;&#227;o ao bem que amamos e sua manifesta&#231;&#227;o em algu&#233;m que o manifesta claramente tamb&#233;m &#233; tratado no Banquete, de Plat&#227;o. &#201; o que vemos noutro trecho:</p><p><em>&#8220;As palavras de Goethe fizeram-me sentir alguns anos mais s&#225;bio e adiantado, e reconhecer no fundo de minha o que significa um verdadeiro mestre.&#8221;</em></p><p>Existem, sim, alguns expedientes pr&#225;ticos que beneficiam a boa conversa&#231;&#227;o, e que s&#227;o mencionados por manuais de ret&#243;rica. Fala-se da claridade, que &#233; o tom de voz bem aud&#237;vel e vigoroso; fala-se da fac&#250;ndia, que &#233; capacidade de ter a express&#227;o conveniente de modo natural. Tudo isso travestido num gesto e semblante harm&#244;nicos com o teor das coisas ditas. Tamb&#233;m existem componentes de sociabilidade, a exemplo do interesse pelo outro, a disposi&#231;&#227;o em ouvir, a despretens&#227;o em ser o palco das aten&#231;&#245;es, a abertura em cofindenciar tantos os sucessos quanto fracassos. </p><p>Contudo, o valor de tudo isso radica na profundidade interior. As &#225;guas profundas costumam ser as mas puras, pois est&#227;o menos sujeitas &#224; contamina&#231;&#227;o. E, tamb&#233;m por isso, purificam. Isso tamb&#233;m ocorre com as palavras, mas noutro sentido. As que v&#234;m mais de dentro s&#227;o as que mais t&#234;m vida, e por isso vivificam. </p><p><em>Se algu&#233;m quer ter um estilo claro, diz Goethe a Eckermann, que tenha antes clareza de alma, e se quiser escrever em um estilo grandioso, que tenha um car&#225;ter grandioso.</em></p><p>J&#225; dizia Josef Pieper, em <em>Leisure: The Basis of Culture, </em>que o homem atual n&#227;o alcan&#231;a mais a experi&#234;ncia de coisas como o sili&#234;ncio, o rito, o repouso e a festa. Para ele, o sil&#234;ncio &#233;, em si mesmo, uma convoca&#231;&#227;o &#224; vida interior; o rito &#233; a experi&#234;ncia pela qual reatualizamos e reafirmamos o sentido &#250;ltimo de nossa exist&#234;ncia; o repouso &#233; a pausa dos trabalhos corporais que cede espa&#231;o ao cultivo do esp&#237;rito; enquanto a festa representa a evoca&#231;&#227;o conjunta dos momentos marcantes de uma comunidade. Diz ele: </p><blockquote><p>O lazer &#233; a disposi&#231;&#227;o de um entendimento receptivo, de uma contempla&#231;&#227;o atenta, e de uma imers&#227;o no real.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a> Continua, noutro lugar:</p></blockquote><blockquote><p><em> &#211;cio &#233; exatamente "n&#227;o-atividade". Ele &#233; uma forma do sil&#234;ncio. &#211;cio &#233; exatamente aquela forma do sil&#234;ncio que disp&#245;e para ouvir algo. Somente o silencioso &#233; capaz de ouvir. O &#243;cio &#233; a atitude da mera submers&#227;o receptiva na realidade.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-3" target="_self">3</a></p></blockquote><p>E h&#225; nessas posturas certo arranjo de depend&#234;ncia. Sem sil&#234;ncio, n&#227;o h&#225; vida interior, de tal modo que a ritualidade se esvazia num culto &#224; exterioriza&#231;&#227;o e &#224; vulgaridade. Sem o rito, a vida se reduz &#224; luta pela sobreviv&#234;ncia, recusando espa&#231;o ao &#243;cio, que &#233; condi&#231;&#227;o para express&#245;es festivas aut&#234;nticas, ao inv&#233;s de mero escape &#224;s puls&#245;es baixas da alma.  </p><blockquote><p><em>A cultura depende, para a sua pr&#243;pria exist&#234;ncia, do lazer; e o lazer, por sua vez, n&#227;o &#233; poss&#237;vel a n&#227;o ser que possua um v&#237;nculo duradouro &#8212; e, portanto, vivo &#8212; com o culto, isto &#233;, com a adora&#231;&#227;o divina.</em></p></blockquote><p>Essa tem&#225;tica foi aprofundada em outro livro seu, <em>&#211;cio e Contenpla&#231;&#227;o, </em>em que aponta o sentido mais nobre do lazer, que consiste numa conc&#243;rdia entre o conhecimento e o amor &#224; verdade traduzida numa experi&#234;ncia gratuita de deleitamento espiritual perante as realidades percebidas. De tal modo que a intelig&#234;ncia n&#227;o &#233;, aqui, um meio de resolu&#231;&#227;o de problemas utilit&#225;rios, mas o <em>speculum </em>que reflete e gera em si a imagem admir&#225;vel daquilo que as coisas s&#227;o. Goethe tamb&#233;m fala sobre esse tema, embora n&#227;o como problema social, mas como conclus&#227;o perene:</p><blockquote><p><em>&#8220;O homem n&#227;o nasceu para solucionar os problemas do mundo, mas para buscar descobrir em que consistem os problemas e, ent&#227;o, manter-se dentro dos limites do compreens&#237;vel.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-4" target="_self">4</a></p></blockquote><p>Olavo tamb&#233;m trata nesses termos, acrescentando o aspecto ativo, que se revela nesse desejo de permanecer no ser tal como tudo &#233;:</p><blockquote><p><em>A contempla&#231;&#227;o &#233; o esplendor do objeto ante o olhar da humildade que o deseja como tal e que se recusa a alter&#225;-lo no que quer que seja&#8230;</em>Aceit&#225;-lo, receb&#234;-lo, &#233; respeitar sua integridade, nada projetar nele, nada acrescentar nem tirar. Implica, portanto, nada menos que o seguinte: <em>desejar que ele seja o que &#233;, n&#227;o desejar que seja outra coisa</em>. Esta plena aceita&#231;&#227;o respeitosa, por&#233;m, n&#227;o pode ser somente passiva, sob pena de deixar amortecer o permane&#231;a o que &#233;, exista de per si e persista existindo.<em> </em></p></blockquote><p>Creio que se Pieper vivesse hoje, teria acrescentado a capacidade de tra&#231;ar uma boa conversa no rol das perdas humanas. Porque, se a gente n&#227;o tem mais o que festejar &#8212; a n&#237;vel espiritual &#8212;, tamb&#233;m n&#227;o temos mais sobre que falar em comum. De fato, vivemos numa &#233;poca em que o outro n&#227;o nos interessa. N&#227;o s&#243; isso. N&#243;s mesmos n&#227;o nos interessamos, pois quase sempre pouco temos a dizer a n&#243;s mesmos. Num contexto em que o outro &#233; visto como meio e objeto, a permuta gratuita de interioridades parecer&#225; a mais angustiante perda de tempo &#8212; circunscrita &#224; indaga&#231;&#227;o mais reincidente: <em>o que vou ganhar com isso?  </em></p><p>Com efeito, formados num estilo de vida assim, visceralmente utilit&#225;rio, &#233; consequ&#234;ncia natural que enxerguemos o outro apenas como potencial fonte de problema,  ou de prazer ou enquanto meio para algum resultado social, profissional ou criminoso. Se nos tornamos incapazes de contemplar individual e gratuitamente as coisas belas da vida, tamb&#233;m perdemos a sensibilidade expressiva de comunic&#225;-las &#8212; e comunicar &#233; a outra face do amor, pois naturalmente desejamos fornecer aos outros aquilo que mais amamos. Se n&#227;o as sabemos comunicar, tampouco as sabemos existentes, e, com efeito, tamb&#233;m desejaremos recepecion&#225;-las de outrem, numa troca  honesta.</p><p>Por isso vemos cada vez mais frequente essas discuss&#245;es puramente artificias, for&#231;adas, em que duas pessoas que se desconhecem s&#227;o colocadas para debater, como se fossem galos de briga ou gladiadores. Discuss&#227;o vem de discuto, discutere, que significa separar, fender, rachar. A discuss&#227;o enfatiza o abismo entre os falantes, at&#233; pender &#224; alterca&#231;&#227;o ou redundar na agress&#227;o f&#237;sica,  que &#233; o maior s&#237;mbolo de afastamento, pois s&#243; agedimos quem nos oferece perigo &#224; vida. Muito diferente &#233; conversar, que significa <em>viver com, assumir uma mesma vida. A conversa&#231;&#227;o &#233;, ent&#227;o, uma transfus&#227;o de ideias que sup&#245;e uma vida que transcende a individualide.</em></p><h4></h4><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>Conversa&#231;&#245;es com Goethe nos &#250;ltimos anos de sua vida: 1823-1832</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p><em>Leisure, the basis of culture</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>&#211;cio e exist&#234;ncia humana, trad. de Michael J. Sch&#228;fer</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Contempla&#231;&#227;o Amorosa, Olavo de Carvalho</p><p></p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Critérios de investigação de um assunto]]></title><description><![CDATA[O manejo dos t&#243;picos de investiga&#231;&#227;o dial&#233;tica]]></description><link>https://renam.substack.com/p/criterios-de-investigacao-de-um-assunto</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/criterios-de-investigacao-de-um-assunto</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Fri, 29 May 2026 15:26:21 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fea27e1a1-c700-42b7-918c-63e8a43c80ea_685x565.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;O objectivo desta exposi&#231;&#227;o &#233; encontrar um <strong>m&#233;todo </strong>que permita raciocinar , sobre todo e qualquer problema proposto, a partir de proposi&#231;&#245;es<strong> geralmente aceites</strong>, e bem assim defender um argumento  sem nada dizermos de contradit&#243;rio.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></em></p><p>Porque, se um assunto admite muitas posi&#231;&#245;es, conv&#233;m ajustar o m&#233;todo de manej&#225;-las, porque assim se alcan&#231;a o que dentre elas de mais comum ou prov&#225;vel. E &#8220;<em>ao racioc&#237;nio obtido a partir de proposi&#231;&#245;es geralmente aceites chama-se silogismo dial&#233;ctico.&#8221; </em></p><p><em>Para o estudo das ci&#234;ncias filos&#243;ficas &#233; &#250;til porque a capacidade de suscitar dificuldades significativas sobre <strong>ambas as faces de um assunto </strong>nos permitir&#225; detectar mais facilmente a verdade e o erro nos diversos pontos e quest&#245;es que surgirem.</em></p><h5>I. Os problemas dial&#233;ticos</h5><blockquote><p>Se h&#225; dificuldades levadas de ambos os lados, tem-se um t&#243;pico dial&#233;tico, de que se pode derivar um <em>problema dial&#233;ctico: uma tomada de posi&#231;&#227;o que leva a decidir entre escolha e rejei&#231;&#227;o, ou entre verdade e conhecimento sobre algo. </em></p></blockquote><p>Da&#237;, conv&#233;m:</p><ol><li><p><strong>Determinar sobre qual aspecto do objeto h&#225; um problema a ser resolvido. E formu&#225;-lo numa proposi&#231;&#227;o que demarca a investiga&#231;&#227;o.</strong></p></li></ol><p>E a determina&#231;&#227;o dos problemas principia pelo rastreio das opini&#245;es acerca dele, donde temos outro ponto de paritida<strong> mais pr&#233;vio</strong>:</p><ol start="2"><li><p><strong>Rastrear as opini&#245;es comuns aceitas sobre o objeto investigado.</strong></p><p>a. Por todos.</p><p>b. Pelos entendidos do tema.</p><p>c. Pelos mais reputados entre os entendidos.</p></li></ol><p><strong>Observa&#231;&#227;o:</strong> como diz M&#225;rio Ferreira, as opini&#245;es dos cientistas, dos especialistas, de todas aqueles que tratam um tema particular, est&#227;o a servi&#231;o do metaf&#237;sico, tal como as ci&#234;ncias particulares est&#227;o a servi&#231;o da filosofia primeira. N&#227;o h&#225; qualquer incoveniente em principiar uma investiga&#231;&#227;o, cujo problema &#233; pr&#243;prio de certo ramo do saber, mediante o rastreio das opini&#245;es especializados. A diferen&#231;a &#233; que o fil&#243;sofo procurar&#225; enquadrar o problema segundo princ&#237;pios comuns, a fim de lhe dar uma resposta menos contingente e fragement&#225;ria.</p><h5>II. As teses</h5><p>Como foi dito, um <strong>problema </strong>consiste na indaga&#231;&#227;o a respeito de uma proposi&#231;&#227;o <strong>aceita </strong>por todos, ou pela maioria &#8212; que pode ser dos homens em geral, ou dos entendidos em dada mat&#233;ria, ou dos s&#225;bios entre os entendidos.</p><p>A <strong>tese</strong>, por sua vez, consiste numa indaga&#231;&#227;o ou proposi&#231;&#227;o que <strong>conflita </strong>com a opini&#227;o de todos ou da maioria. &#201; um tipo de problema, mas com a diferen&#231;a de que <strong>n&#227;o h&#225; consenso </strong>sobre o assunto. E, se n&#227;o h&#225; consenso, tamb&#233;m n&#227;o h&#225; possibilidade de formular uma proposi&#231;&#227;o admiss&#237;vel por todos. </p><blockquote><p><em>Do que ficou dito decorre necessariamente que, a prop&#243;sito de uma tese, ou a maioria est&#225; em com pleno desacordo com os conhecedores, ou h&#225; desacordo at&#233; dentro de cada grupo, dado que uma tese &#233; uma suposi&#231;&#227;o contr&#225;ria &#224; opini&#227;o comum.</em></p></blockquote><p>Tamb&#233;m <em>s&#227;o teses igualmente aquelas suposi&#231;&#245;es contr&#225;rias &#224;s opini&#245;es correntes que parecem possuir algum <strong>fundamento s&#233;rio</strong>.</em></p><p>Tanto nos problemas quanto nas teses, nosso interlocutor, ou n&#243;s mesmos, <em><strong>est&#225; em dificuldade para chegar a uma conclus&#227;o</strong>. </em>A diferen&#231;a &#233; que nas teses h&#225; dificuldade inclusive no ponto de partida, pois n&#227;o h&#225; consenso sequer nisso. </p><p>Com isso, se deve examinar se a dificuldade &#233; de ordem: </p><ol><li><p>Perceptiva: aus&#234;ncia do referencial sesn&#243;rio devido. </p></li><li><p>Cognitiva: m&#225; formula&#231;&#227;o do problema ou da tese.</p></li><li><p>Metodol&#243;gica: aus&#234;ncia do devido m&#233;todo para a resolu&#231;&#227;o. Por exemplo, se pela indu&#231;&#227;o, ou pela dedu&#231;&#227;o.</p></li></ol><h5>III. Elementos pr&#233;vios do exame dial&#233;tico</h5><p>Suposta una proposi&#231;&#227;o, e se ela levanta problemas, isto &#233;, indaga&#231;&#245;es, resta investigar seus elementos implicados:</p><ol><li><p><strong> </strong>Se a defini&#231;&#227;o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a> (espeficia&#231;&#227;o) proposta como ponto de partida &#233; a mais conveniente. Se n&#227;o &#233; conveniente:</p></li><li><p>Se o g&#234;nero<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-3" target="_self">3</a>, a natureza do objeto abrange-o convenientemete.</p></li></ol><ol start="4"><li><p>Se o aspecto que o dertermina especificamente alcan&#231;a &#234;xito ou n&#227;o.</p></li></ol><ol start="4"><li><p>Se h&#225; alguma propriedade<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-4" target="_self">4</a> que n&#227;o &#233; explicada por essa defini&#231;&#227;o.</p></li><li><p>Se o tratamento &#233; de algo acidental ou inerente &#224; natureza do objeto.</p></li></ol><p><strong>Observa&#231;&#227;o</strong>: uma investiga&#231;&#227;o cujos termos definit&#243;rios do objeto tratado n&#227;o est&#227;o claros, ou n&#227;o s&#227;o admitidos, se torna uma investiga&#231;&#227;o regressiva, de assentamento de bases. Exemplo: <em>A felicidade &#233; o repuso no bem perfeito. </em></p><p>Aqui, o que &#233; predicado de bem perfeito ou &#233; admitido, ou gera outras linhas investigativas: o que &#233; repouso? o que &#233; bem? o que &#233; repouso no bem? o que &#233; perfeito? o que &#233; bem perfeito?</p><p><em>Aqui, n&#227;o se trata de um problema, portanto, mas de uma tese que exige prova, de tal modo a tornar-se opin&#225;vel.</em></p><p>Da&#237; a conveni&#234;ncia de partir de premissas geralmentes aceitas. N&#227;o porque s&#227;o definitivas, mas porque d&#227;o um ponto de partida progressivo para a investiga&#231;&#227;o. Pode ser que que, ao fim, sejam descartadas, ou melhoradas, ou absorvidas num princ&#237;pio mais abrangentes, etc. &#201; assim que Arist&#243;teles faz com a investiga&#231;&#227;o das quatro causas, at&#233; concluir que elas s&#227;o coprinc&#237;pios do ser. Neste caso, partiu-se de premissas prov&#225;veis, at&#233; uma formula&#231;&#227;o demonstr&#225;vel, dado que as causas se reduzem a um primeiro irredut&#237;vel: s&#227;o princ&#237;pios do ente.</p><ol start="6"><li><p>Distinguir o grau de identidade da coisa tratada:</p></li></ol><p>a. Algo pode ser id&#234;ntico numericamente, que &#233; o sentido mais forte. E nisto pode haver erro de aplica&#231;a&#245;, como quando tomamos por uma coisa o que na verdade &#233; outra, muito comum entre termos que snignificam coisas muito pr&#243;ximas.</p><p>b. Algo pode ser id&#234;ntico por raz&#227;o de uma determina&#231;&#227;o comum. E assim todos os homens s&#227;o id&#234;nticos segundo sua natureza comum.</p><p>c. Algo pode ser id&#234;ntico segundo uma natureza comum. E assim homens e gatos s&#227;o id&#234;nticos segundo a natureza animal.</p><ol start="7"><li><p><strong> </strong>Disnti&#231;&#227;o categorial, que refina a defini&#231;&#227;o completa do objeto<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-5" target="_self">5</a></p></li></ol><p>Assim, conv&#233;m investigar:</p><p>Se o tratamento tem car&#225;ter substancial, ou se se trata da investiga&#231;&#227;o de um aspecto quantitativo, ou qualitativo, ou relativo, ou segundo o lugar, o tempo, a disposi&#231;&#227;o da coisa, o que traz consigo, ou segundo o que padece ou segundo seu modo de agir.</p><ol start="8"><li><p><strong> </strong>Distin&#231;&#227;o de conveni&#234;ncia</p></li></ol><p>a. Uma investiga&#231;&#227;o pode ser conveniente por sua utilidade &#224; vida. Como saber discernir se dado prazer &#233; conveniente ou n&#227;o &#224; natureza humana, ou em que medida, ou em que ocasi&#227;o, ou que tempo, etc.</p><p>b. Pelo mero desejo de conhecer. </p><p>c. Por ser condi&#231;&#227;o para outra investiga&#231;&#245;es.</p><h5>IV. Conclus&#227;o</h5><p>&#201; por isso que &#8220;a<em> maioria das discuss&#245;es travadas acerca das defini&#231;&#245;es est&#225; em saber se estamos a falar da mesma coisa ou de coisas diferentes.&#8221;</em></p><p>A defini&#231;&#227;o, portanto, &#233; o devido ponto de partida dial&#233;tico, porque, definido o assunto, podem-se extrair novas conclus&#245;es a seu respeito. Da&#237; que foi necess&#225;rio examinar os elementos pr&#233;vios de sua formula&#231;&#227;<em>o. </em></p><p>Depois, convir&#225; investigar os instrumentos dial&#233;ticos, supostos seus elementos.</p><div data-component-name="FragmentNodeToDOM"><p></p></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Trechos em it&#225;lico extra&#237;dos dos T&#243;picos, de Arist&#243;teles.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p><em>Defini&#231;&#227;o&#187; &#233; um enunciado 30 que explicita o que cada coisa &#233;</em></p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p><em>&#171;G&#233;nero&#187; &#233; uma predica&#231;&#227;o feita quanto &#224; categoria da subst&#226;ncia (ou do acidente a modo de subt&#226;ncia) a prop&#243;sito de um grande n&#250;mero de coisas que diferem entre si pela respectiva esp&#233;cie. Diremos que se faz uma predica&#231;&#227;o quanto &#224; categoria da ess&#234;ncia quando se enuncia algo que conv&#233;m ao objecto sobre o qual perguntamos: &#171;O que &#233; isto?&#187; Por exemplo, se perguntarmos &#171;O que &#233; o homem?&#187;  ser&#225; adequado responder que &#233; um &#171;animal&#187; . Tamb&#233;m &#233; de natureza gen&#233;rica a quest&#227;o de saber se duas ou mais coisas pertencem ao mesmo g&#233;nero ou a g&#233;neros diferentes, j&#225; que responder a esta quest&#227;o implica o recurso ao mesmo m&#233;todo que usamos para investigar o que &#233; o g&#233;nero.</em></p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p><em>Propriedade&#187; &#233; um predic&#225;vel que n&#227;o explicita a ess&#234;ncia de uma coisa, mas que lhe pertence em exclusivo e pode ser predicado convertivelmente acerca da coisa</em></p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Coment&#225;rio de Alexandre de Afrod&#237;sias: <em>&#8220;Os problemas e as proposi&#231;&#245;es se distribuem pelos quatro tipos de predic&#225;veis acima mencionados. Mas como estes predic&#225;veis, embora sendo g&#233;neros, n&#227;o s&#227;o os g&#233;neros mais elevados, mas est&#227;o eles mesmos contidos em outros g&#233;neros (pois eles contam-se entre as coisas que existem em si mesmas, das quais h&#225; dez g&#233;neros, os mais elevados de todos, que &#233; habitual designar por um nome que lhes &#233; particular, ou seja, &#171;categorias.&#8221;</em></p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Fenomenologia da heresia]]></title><description><![CDATA[A explica&#231;&#227;o de S&#227;o Greg&#243;rio]]></description><link>https://renam.substack.com/p/fenomenologia-da-heresia</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/fenomenologia-da-heresia</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 16 May 2026 19:59:47 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F14f82d07-6865-47ff-8fe4-c402aa3ccd67_408x352.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Dentre tantas coisas que me chamaram aten&#231;&#227;o nos<em> Moralia in Job, </em>consta isso que chamei de fenomenolgia da heresia. J&#225; vou falar sobre ela. Antes, faz bem lembrar que essa obra de S&#227;o Greg&#243;rio &#233; uma escava&#231;&#227;o da <em>psique</em>. Talvez daquele tipo pelo qual se procure uma fonte jorrante &#8212; neste caso: a gra&#231;a &#8212; por que se sacie e se limpe. </p><p>Era o grande livro medieval de introdu&#231;&#227;o &#224; interpreta&#231;&#227;o das Escrituras. S&#227;o Greg&#243;rio, beneditino, &#233; o tronco latino daquilo que depois foi denominada de espiritualidade dos padres do deserto: os primeiros, e &#250;nicos, psic&#243;logos. Junto de Santo Agostinho, S&#227;o Jer&#244;nimo e Santo Ambr&#243;sio, &#233; um dos quatro doutores da tradi&#231;&#227;o latina.</p><p>Tamb&#233;m &#233; bom lembrar o sentido corrente, e correto, da palavra heresia (&#945;&#7989;&#961;&#949;&#963;&#953;&#962;), que consiste em escolher uma parte e secion&#225;-la do todo. Podemos dizer que o termo atual mais pr&#243;ximo fornecido por nosso secularismo &#233; <em>partido. </em>Quem assume um partido, uma parte, sem levar em conta o todo, torna-se um partid&#225;rio (ou ide&#243;logo, heresiarca), isto &#233;, algu&#233;m que defende renhidamente uma parte da verdade como se fora a verdade total e absoluta &#8212; como se fora seu porta-voz. </p><p>Com isso, preciso fazer uma retifica&#231;&#227;o. A heresia n&#227;o tem mais sentido corrente. Talvez, o sentido mais corrente de heresia<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a> seja justamente o seu contr&#225;rio: buscar a totalidade da verdade, em sua inteireza pura. Quem faz isso, n&#227;o caber&#225; em nenhum partido, n&#227;o ser&#225; bem-recebido em nenhum grupo, n&#227;o ter&#225; amigos &#8212; a muitos, nem cat&#243;lico parecer&#225;, em suma: precisar&#225; se refugiar no deserto da solid&#227;o, que talvez seja o pr&#234;mio libertador das vozes aut&#234;nticas. Falando em deserto, recordo-me dos Padres e do tema proposto.</p><p> S&#243; acrescento que o contexto do coment&#225;rio de S&#227;o Greg&#243;rio &#233; o momento em que os tr&#234;s amigos de J&#243; (Elifaz, Bildad e Sofar) visitam-no em sua miser&#225;vel condi&#231;&#227;o. Num primeiro momento, manifestam boa inten&#231;&#227;o. Depois, despejam no justo insinua&#231;&#245;es e acusa&#231;&#245;es, face &#224; sua ru&#237;na aparente. &#201; por isso que Greg&#243;rio enxerga neles o paralelo dos hereges, que, vendo a igreja toda lacerada de v&#237;cios e pecados, se fazem incapazes de enxergar ali a prote&#231;&#227;o de Deus, ocultada por sua soberba.</p><p><em>&#8220;Representam os hereges, porque, com sua fala indiscreta, deslizam-se at&#233; o pecado.&#8221; </em>&#201; claro, quem fala demais, teima demais, e quem muito teima, se torna obstinado no que tem de falso misturado ao que defende por verdadeiro. At&#233; fazer do erro pr&#243;prio uma doutrina justific&#225;vel. E assim nasce um herege.</p><p>Eis a fenomenolgia, isto &#233;, o desnudamento da experi&#234;ncia her&#233;tica em seus aspectos ps&#237;quicos.</p><ol><li><p>A heresia come&#231;a com a soberba. Mesmo que algu&#233;m seja um perfeito penitente, s&#243; poder&#225; ser justo se se faz humilde, se se cola no seu lugar: &#8220;<em>o que &#233; humildade que lacrimeja, sen&#227;o o purificante dos pecados?&#8221; </em></p></li><li><p>Concretamente: a heresia come&#231;a com o<strong> desejo imoderado de saber</strong>.</p><p><em>&#8220;Desejam receber o calor da sabedoria mais do que lhes &#233; devido.&#8221; </em>Desejam completar com sua mente limitada e pouco orante, o que s&#243; pode ser compreendido por um cora&#231;&#227;o purificado. E por isso interpretam coisas divinas de um jeito canal, por gula de saber.</p></li><li><p><em>Mas, em suas entranhas n&#227;o arde a caridade&#8230;. seu ardor por uma vida honesta deriva mais da &#226;nsia em falar, do que de viver.</em></p></li><li><p>Essa loquacidade orgulhosa lhes oculta a<em> fealdade de vida</em>. E a <em>hipocrisia os faz parecer elogi&#225;veis</em>. </p></li><li><p>Enfim, para sustentar o vazio de suas escolhas, enchem-se de uma doutrina que os justifique, de tal modo a poderem refugiar-se no valor das disputas, mais do que na ora&#231;&#227;o.</p><p><em>&#8220;Tomam decis&#245;es conjuntas quando se p&#245;em de acordo em opini&#245;es err&#244;neas sobre a Igreja.&#8221;</em></p></li><li><p>A isto acrescenta-se o cume da soberba: o &#237;mpeto por falar em nome da Igreja, e, enfim, por ensinar a pr&#243;pria Igreja a respeito das verdades sagradas.</p><p></p><p><em>&#8220;Desejam instuir a pr&#243;pria igreja transmitindo-lhe suas pr&#243;prias opini&#245;es.&#8221;</em></p></li><li><p>Porque se aproveitam de quando a igreja sofre. Com efeito, ao inv&#233;s de fazer penit&#234;ncia e humilhar-se perante sua Cabe&#231;a, ousam fustigar o corpo, agravando-lhe a doen&#231;a, ao ponto de desprezar-se o Esp&#237;rito que lhe preserva a vida.</p></li></ol><p>&#8220;<em>Os hereges, quando consideram as a&#231;&#245;es da Santa Igreja, elevam os olhos, e n&#227;o se d&#227;o conta de que est&#227;o na mesm&#237;ssima condi&#231;&#227;o que ela e, com isso, n&#227;o se permitem sofrer a dor do corpo todo</em>.&#8221; (par&#225;frase.) Dor esta por que pode ser purificada;</p><p><em>&#8220;Os hereges se veem surpresas com o fato de que a Igreja progride justamente nas adversidades, porque n&#227;o conhecem por experi&#234;ncia o que veem.&#8221;</em></p><ol start="8"><li><p>A soberba de um cora&#231;&#227;o elevado, leva-o gradualmente &#224; queda. At&#233; o ponto em que se faz dono da verdade, isto &#233;, perde n&#227;o s&#243; o que recusara crer, como tamb&#233;m aquilo que afirmara crer.</p><p><em>&#8220;Os hereges t&#234;m como caracter&#237;stica comum a incapacidade de permancer durante largo tempo no mesmo n&#237;vel de doutrina em que se encontravam ao sair da Igreja, sen&#227;o que se precipitam mais e mais a graus menores, piorando suas opini&#245;es, e, muitas vezes, se dividindo entre si por raz&#227;o da confus&#227;o m&#250;tua de sua verborragia.&#8221; </em></p></li><li><p>Enfim, terminam reduzindo as palavras celestes, uma por uma, ao sentido terreno de suas mentes.</p></li></ol><p><em>&#8220;Passam a t&#227;o s&#243; discutir as palavras divinas, mais do que compreend&#234;-las.&#8221;</em></p><ol start="10"><li><p>&#201; por isso que arregimentam seguidores:</p></li></ol><p><em>&#8220;Quando os hereges se aproximam dos fieis cujo cora&#231;&#227;o anda morto pelo rotina, infundem-lhe a semente do erro.&#8221;</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Para aqueles que ainda acreditam no sentido correto, mesmo que n&#227;o corrente, deixo essa notinha extra&#237;da de um dicion&#225;rio de teologia: &#8220;<em>formalmente, a heresia consiste na consciente e livre nega&#231;&#227;o, por parte de um batizado, de uma verdade de f&#233; ensinada pela Igreja. Por isso, segundo o C&#243;digo de Direito Can&#244;nico, herege &#233; aquele &#8216;batizado que conservando o nome de ctist&#227;o, nega obstinadamente alguma das verdades que devem ser cridas como divina e cat&#243;lica ou a p&#245;e em d&#250;vida.&#8221;</em></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A graça de vivermos os dias atuais]]></title><description><![CDATA[O t&#237;tulo n&#227;o &#233; ir&#244;nico.]]></description><link>https://renam.substack.com/p/a-graca-de-vivermos-os-dias-atuais</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/a-graca-de-vivermos-os-dias-atuais</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 09 May 2026 22:32:28 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3730e5f1-5ab6-4dd5-953b-cfa3a1395877_236x433.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O t&#237;tulo n&#227;o &#233; ir&#244;nico. Poderia s&#234;-lo, mas n&#227;o &#233;. Copiei de um conjunto hom&#244;nimo de confer&#234;ncias de Fabrice Hadjadj (<em>L&#8217;aubaine d&#8217;&#234;tre n&#233; en ce temps), </em>de cuja leitura me restou apenas a impress&#227;o latejante de que h&#225; no t&#237;tulo uma verdade dif&#237;cil de aceitar. </p><p>Quando temos de resolver um problema espinhoso, n&#227;o nos achamos afortunados, n&#227;o levantamos as m&#227;os para o c&#233;u e agradecemos. Depois de resolv&#234;-lo, n&#227;o lhe nutrimos saudade. Na verdade, a&#237; sim &#233; que damos gra&#231;as por vermos nosso caminho livre. Mesmo entre os her&#243;is, observamos esse primeiro impulso por dar no p&#233;. Ulisses se fingiu de louco, Aquiles se fez traveco, Pedro mentiu tr&#234;s vezes, S&#243;crates, como sempre ir&#244;nico, sugeriu viver dos proventos da cidade ao inv&#233;s de morrer por ela. </p><p>E se sua sugest&#227;o tivesse sido acatada? Certamente n&#227;o mais lhe reconhecer&#237;amos aquele tipo rar&#237;ssimo de personalidade, que passa pelo mundo como se o mundo &#233; que fosse para ela um momento passageiro. </p><p>Al&#233;m disso, diante de um problema espinhoso, a &#226;nsia por praguej&#225;-lo encobre, na verdade, uma li&#231;&#227;o mais funda: n&#227;o estamos &#224; sua altura. Somos imaturos. Praguej&#225;-lo &#233; a forma refinada de nos eximir de sua responsabilidade, de amdmitir que h&#225; uma parte de culpa nossa &#8212; enfim, que o merecemos, ou que n&#227;o nos cabe julgar se o merecemos ou n&#227;o. </p><p>Tamb&#233;m poderia usar aquela express&#227;o clich&#234;, a de que tempos dif&#237;ceis formam homens fortes. Prefiro a de Santo Agostinho: <strong>os tempos s&#227;o a s&#237;ntese de n&#243;s mesmos. </strong>Parece-me ser o meio termo entre o utopismo, que se revolta contra o presente ante a fantasia on&#237;rica e covarde do futuro e a nostalgia por um passado que nunca poder&#225; ser vivido. Nos dois casos, vemo-nos com a justificativa da mediocridade. O progressismo e o reacionarismo s&#227;o, a meu ver, contrafaces dial&#233;ticas de um mesmo &#237;mpeto de encerrar o divino na hist&#243;ria. S&#227;o religi&#245;es pol&#237;ticas, e, como tal, olham apenas para baixo e se recusam &#224; interven&#231;&#227;o que vem do alto. </p><p>Antes de alcan&#231;armos aquela cheirosa aura de transcend&#234;ncia hist&#243;rica, que nos faz ju&#237;zes dos tempos, aceitemos essa realidade: tudo o que censuramos de nossa &#233;poca &#233; uma censura meton&#237;mica de tudo o que somos no fundo, mas que nos recusamos a aceit&#225;-lo. Censurar o que est&#225; l&#225; fora &#233; uma forma de justificarmos o que nos revolve a consci&#234;ncia l&#225; no fundo. &#201; um anest&#233;sico que impede a verdadeira convers&#227;o.</p><p>Talvez, assumindo a nossa parte de culpa, em toda a sua inteireza de merda, talvez assim Deus extraia dessa argila um princ&#237;pio de gra&#231;a. N&#227;o foi assim com J&#243;, que bendisse a Deus por sua desgra&#231;a? Bendisse porque tudo o que lhe fora tirado lhe permitiu entender que s&#243; uma coisa n&#227;o lhe podia ser tirada, desde que a preferisse mesmo sem nada mais. Somos assim?</p><p><em>&#8220;Tendo cumprido tudo o que manda a vitude, s&#243; uma coisa lhe faltava: saber dar gra&#231;as em meio &#224;s desgra&#231;as.&#8221; <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></em></p><p>Aceitar isso &#233; metade do caminho. N&#243;s &#233; que somos o c&#226;ncer presente, porque h&#225; em n&#243;s uma manifesta&#231;&#227;o consistente e generalizada daquela doen&#231;a perp&#233;tua que se chama pecado original. Recusar-lhe exist&#234;ncia &#233; nosso dogma. Ali&#225;s, mesmo aos que se convertem. Converter-se &#233;, muitas vezes, o meio pelo qual nos mascaramos ainda mais. </p><p>Porque, aqui, a convers&#227;o n&#227;o representa para n&#243;s o chamado &#224; penit&#234;ncia, mas o mero convite ao proselitismo, cujas palavras de convencimento nunca foram tingidas pelo sangue do arrependimento. Defender uma causa, portanto, &#233; a melhor forma de nos desculparmos de que somos, em verdade, a causa daquilo que censuramos.</p><p>Al&#233;m disso, se nos resta alguma religi&#227;o, n&#227;o nos ser&#225; dif&#237;cil perceber que o momento mais cr&#237;tico de nossa hist&#243;ria aconteceu h&#225; dois mil&#234;nios numa sexta-feira: </p><p><em>&#8220;Desde a hora sexta at&#233; a nona houve trevas sobre toda a terra.&#8221; </em></p><p>Nada do que aconteceu depois nem do que aconteceu antes pode se comparar &#224; crise desse per&#237;odo que antecede o assass&#237;nio de Deus. N&#227;o &#233; isso que significa crise em grego? Abismo. Que abismo houve maior do que esse? S&#243; que n&#227;o apenas algo que toca a Cristo. Se somos Cat&#243;licos, temos de conhecer na cruz o corpo sofrido de toda a igreja. Assim diz S&#227;o Greg&#243;rio:</p><p><em>&#8220;Havendo conhecido a partir da cabe&#231;a o que temos de crer, consideremos, a partir do corpo, o que temos de viver.&#8221;</em></p><p>Aceitemos nossa condi&#231;&#227;o: e aceitaremos nossos tempos. N&#227;o no sentido de aprov&#225;-los, mas no sentido de nos reconhecermos produto seu, pois s&#243; assim &#233; que extrairemos de nossa carne o ant&#237;doto devido, pr&#243;prio de nossa &#233;poca. N&#227;o somos anjos. Somos o tecido carnal do tempo em que somos gerados. </p><p>Se n&#227;o aceitamos esse fardo, s&#243; veremos desgra&#231;a e mal&#237;cia, mesmo onde prexiste e subsiste bondade e verdade. </p><p><em>A l&#226;mpada do corpo &#233; o olho. Se teu olho for simples, todo o teu corpo ser&#225; luminoso. Mas se teu olho for mau, todo o teu corpo estar&#225; em trevas.</em></p><p>J&#225; me disse uma pessoa s&#225;bia: aquilo que enxergamos de um problema revela mais sobre nossa condi&#231;&#227;o perante ele, do que sua condi&#231;&#227;o perante n&#243;s. Uma alma impaciente s&#243; enxerga motivos de impaci&#234;ncia e irrita&#231;&#227;o; uma alma luxurienta s&#243; enxerga pretextos de lasc&#237;via e prazer; uma alma covarde s&#243; enxerga motivos de fuga. Enfim, o soberbo s&#243; enxergar&#225; situa&#231;&#245;es que lhe confirmam sua superioridade.</p><p><strong>Tal como enxergamos, assim o somos.</strong></p><p><em>&#8220;Somente o que comparte do sofrimento pode compreender a mente do que sofre.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>Moralia in Job</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p><em>Ibid</em></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A contemplação como antídoto à educação tecnológica]]></title><description><![CDATA[Ensaio de Sean Steel]]></description><link>https://renam.substack.com/p/a-contemplacao-como-antidoto-a-educacao</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/a-contemplacao-como-antidoto-a-educacao</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 02 May 2026 16:01:28 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5d3a7705-014f-4969-b26b-9143a0e68e37_479x378.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nota minha: </strong></p><p>Estava com interesse por escrever sobre o assunto, pois, recentemente, j&#225; havia explicado a um grupo de amigos sobre o que entendo ser a principal doen&#231;a do sistema educacional atual: a destrui&#231;&#227;o da capacidade admirativa com o conhecimento &#8212; agravada pelo contraste do apelo dopam&#237;nico quase hipn&#243;tico que as novas tecnologias carregam, e a chatice tem&#225;tica e burocr&#225;tica dos curr&#237;culos pedag&#243;gicos.</p><p>No entanto, ao me deparar com esse artigo de Sean Steel, da University of Calgary, conclu&#237; que o essencial j&#225; estava dito. E bem explicado. </p><p>Digamos que minha vis&#227;o mais se concentrava na enfermidade; o texto de Steel, por outro lado, aborda o ant&#237;doto. Por isso, me comprometi em registrar uma tradu&#231;&#227;o do ensaio, originalmente intitulado: <em><a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Ffiles.eric.ed.gov%2Ffulltext%2FEJ1057980.pdf">Contemplation as a Corrective to Technological Education,</a></em> aqui no meu <em>Substack</em>.</p><p>Por &#250;ltimo, penso que o ensaio de Sean Steel n&#227;o tem o prop&#243;sito de apresentar a tecnologia como inimiga da educa&#231;&#227;o verdadeira. A quest&#227;o &#233; outra. A quest&#227;o &#233; sobre a tecnologia como algo que determina os horizontes de compreens&#227;o, e, neste caso, torna-se o substituto artificial de um processo que deveria ser interior e org&#226;nico. &#201; neste quadro que a contempla&#231;&#227;o se apresenta como resposta.</p><p>Em  <em>Technopoly</em>, Neil Postman  j&#225; explicou que as culturas pr&#233;-modernas permitiam que suas convic&#231;&#245;es metaf&#237;sicas e teol&#243;gicas orientassem o modo como usavam suas ferramentas. Enquanto que nossa cultura, visceralmente materialista &#8212; a ponto de enxergar a pr&#243;pria imortalidade nessa &#243;tica, transformou a t&#233;cnica no seu pr&#243;prio horizonte metaf&#237;sico. </p><p>&#201; o caso em que os meios assumem tal poder sobre n&#243;s, que se transformam em nossa pr&#243;pria raz&#227;o de existir, a ponto de nos esquecermos de seus fins reais. Portanto, somente a reabilita&#231;&#227;o da orienta&#231;&#227;o contemplativa ser&#225; capaz de reenquadrar a t&#233;cnica, o pr&#243;prio homem e sua educa&#231;&#227;o rumo a horizontes metaf&#237;sicos mais transcendentes.</p><h3><strong>I. Introdu&#231;&#227;o: Uma recorda&#231;&#227;o dos modos de conhecer pr&#233;-tecnol&#243;gicos</strong></h3><p>Hoje, frequentemente usamos a palavra contempla&#231;&#227;o para designar qualquer tipo de pensamento profundo. No entanto, as ra&#237;zes antigas dessa palavra s&#227;o ricas de um significado espec&#237;fico que foi em grande parte esquecido e que merece ser recuperado. &#201; correto supor que contempla&#231;&#227;o (lat. <em>contemplatio</em>; gr. <em>theoria</em>) designa um tipo de atividade cognitiva; contudo, o sentido antigo dessa palavra deve ser distinguido do racioc&#237;nio cr&#237;tico-anal&#237;tico (<em>ratio</em>), que constitui a base de nossos esfor&#231;os educacionais modernos.</p><p>Em vez de descrever a atividade cognitiva laboriosa de um sujeito pensante que se coloca diante de seu objeto (lat. <em>ob-iectum</em>, &#8220;lan&#231;ado diante&#8221;) e se move de ponto a ponto numa linha de racioc&#237;nio, o sentido antigo de contempla&#231;&#227;o refere-se a um conhecimento direto, n&#227;o linear; envolve n&#227;o a separa&#231;&#227;o, mas a uni&#227;o do conhecedor com o conhecido no ato de ver (<em>theoria</em>). N&#227;o &#233; por meio da discursividade da <em>ratio</em>, mas na apreens&#227;o imediata do <em>intellectus</em>, que o olhar amoroso da contempla&#231;&#227;o unifica o que v&#234; com o que &#233; visto.</p><p>Com efeito, enquanto o pensamento discursivo da <em>ratio</em> &#233; de fato uma forma de trabalho, o olhar passivo e receptivo do <em>intellectus</em> n&#227;o o &#233;. Trata-se, antes, de uma apreens&#227;o imediata e sem esfor&#231;o (ou talvez de um ser apreendido) daquilo que &#233; visto. <strong>O conhecimento contemplativo est&#225;, portanto, sempre associado n&#227;o ao labor, mas ao lazer.</strong></p><p>Nossa linguagem ainda presta um tributo superficial a essa importante rela&#231;&#227;o entre contempla&#231;&#227;o, lazer e educa&#231;&#227;o, na medida em que a palavra &#8220;escola&#8221; deriva do termo grego para lazer (<em>schole</em>). Na compreens&#227;o antiga, o <em>intellectus</em> era sempre estimado mais altamente do que a <em>ratio</em> como o modo de nossa perfei&#231;&#227;o na felicidade genu&#237;na (gr. <em>eudaimonia</em>; lat. <em>beatitudo</em>).</p><p>Arist&#243;teles usa a palavra &#8220;imortaliza&#231;&#227;o&#8221; (<em>to athanatizein</em>, <em>&#201;tica a Nic&#244;maco</em>, X.vii.8) para descrever a atividade do <em>intellectus</em> em rela&#231;&#227;o ao que &#233; perfeito ou melhor (<em>to ariston</em>). Hoje, por&#233;m, a import&#226;ncia do <em>intellectus</em> e de sua atividade contemplativa foi drasticamente diminu&#237;da (sen&#227;o totalmente esquecida) em favor de uma aten&#231;&#227;o exclusiva &#224;s habilidades discursivas da <em>ratio</em> &#8212; fato n&#227;o ignorado por escritores contempor&#226;neos da educa&#231;&#227;o contemplativa, como Laurence Freeman. E, como resposta a essa necessidade, educadores como Charles e Patricia Posnett defendem a incorpora&#231;&#227;o de simples atividades contemplativas no cotidiano escolar das crian&#231;as do ensino fundamental.</p><p>Enquanto autores latinos usavam os termos <em>ratio</em> e <em>intellectus</em> para distinguir a pot&#234;ncia discursiva do pensamento perante a cogni&#231;&#227;o contemplativa, autores gregos falavam em termos de <em>dianoia</em> (pensamento) e <em>noesis</em> (intelecto). O pensamento diano&#233;tico inclui o uso dedutivo, indutivo e avaliativo dos fundamentos ou princ&#237;pios (<em>archai</em>) descobertos pela mente, quer estejam na base da matem&#225;tica, da ci&#234;ncia, das artes ou constituam as pressuposi&#231;&#245;es culturais b&#225;sicas ou &#8220;primeiras coisas&#8221; de uma cultura ou comunidade.</p><p>De qualquer modo, a <em>dianoia</em> aplica esses <em>archai</em> para baixo, no &#226;mbito da atividade humana; a <em>noesis</em>, ao contr&#225;rio, eleva (<em>anairesis</em>) todos esses princ&#237;pios em dire&#231;&#227;o ao seu verdadeiro in&#237;cio ou fundamento (<em>arche</em>). Nesse sentido, <em>noesis</em> designa o desejo do <em>intellectus</em> n&#227;o apenas de ver (<em>theorein</em>), mas de ver o que &#233; em sua totalidade e de apreender, por meio de seu olhar, o pr&#243;prio fundamento de tudo o que existe.</p><p>Tradicionalmente, a busca da sabedoria, ou filosofia (gr. <em>philia-sophia</em>, literalmente &#8220;amor da sabedoria&#8221;), foi chamada de &#8220;ci&#234;ncia do ser enquanto ser&#8221; (<em>Metaf&#237;sica</em> IV.ii; 1005a.5), ou das coisas que s&#227;o (<em>ta onta</em>), devido ao seu car&#225;ter como atividade no&#233;tica, em oposi&#231;&#227;o a uma atividade cient&#237;fica ou diano&#233;tica. Contudo, a busca no&#233;tica da sabedoria n&#227;o &#233; privil&#233;gio exclusivo dos fil&#243;sofos. A medita&#231;&#227;o <em>vipassana</em> do budista, a medita&#231;&#227;o <em>samatha</em> do yogin e a ora&#231;&#227;o contemplativa do praticante crist&#227;o ou mu&#231;ulmano encarnam o movimento ascendente (<em>anairesis</em>) da mente em dire&#231;&#227;o ao seu fundamento.</p><p>Al&#233;m disso, a atividade do <em>intellectus</em> n&#227;o deve ser concebida como uma atividade de elite. Plat&#227;o observa, no <em>Fedro</em>, que os amantes da beleza (<em>philokalos</em>) se deleitam no movimento no&#233;tico do <em>intellectus</em>, assim como as almas musicais (<em>mousikou tinos</em>) ou, ali&#225;s, as almas de natureza amorosa ou er&#243;tica (<em>erotikou</em>). Em suma, sempre que chegamos a conhecer o que &#233; por meio do amor &#8212; isto &#233;, quando experimentamos o conhecer como alegria na aprecia&#231;&#227;o de nossa uni&#227;o, enquanto videntes, com o que &#233; visto &#8212; participamos da <em>theoria</em>.</p><p>H&#225;, de fato, muitos modos de buscar a sabedoria e de envolver nossos alunos em atividades contemplativas na sala de aula atual. Se quisermos compreender corretamente o sentido antigo de contempla&#231;&#227;o, &#233; importante reconhecer que a atividade no&#233;tica e a diano&#233;tica nunca podem ser completamente separadas. Ao contr&#225;rio, os antigos sustentavam que o conhecer &#233; uma integra&#231;&#227;o de <em>ratio</em> e <em>intellectus</em> &#8212; um funcionamento simult&#226;neo de ambos.</p><p>Nas escolas de hoje, onde predominam estruturas de testes e responsabiliza&#231;&#227;o, as aplica&#231;&#245;es diano&#233;ticas da raz&#227;o s&#227;o cultivadas com exclus&#227;o da <em>noesis</em>. Contudo, segundo a compreens&#227;o antiga, as maquina&#231;&#245;es exclusivamente diano&#233;ticas da <em>ratio</em> n&#227;o podem produzir o conhecimento do Sumo Bem (<em>Summum Bonum</em>), que nos permitiria conhecer a verdadeira medida (<em>metron</em>) de todos os outros bens que desfrutamos; mesmo os movimentos mais h&#225;beis da <em>ratio</em> n&#227;o podem dizer quais inova&#231;&#245;es s&#227;o boas e quais n&#227;o s&#227;o, nem para que fim devemos inovar.</p><p>Em outras palavras, o tipo de aprendizado que predomina hoje nas escolas &#233; insuficiente para cultivar a sabedoria. Sem tamb&#233;m atender e cultivar o componente no&#233;tico de nossa racionalidade, ficamos apenas com nossas diversas paix&#245;es e apetites como meios para tomar decis&#245;es sobre tais quest&#245;es. Reavivar a consci&#234;ncia do <em>intellectus</em> em nossa pedagogia e incorporar o pensamento no&#233;tico na sala de aula n&#227;o precisa ser considerado uma tarefa onerosa ou imposs&#237;vel. Tal atividade pode ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento. Por exemplo, investiga&#231;&#245;es cient&#237;ficas podem, quando se cultiva uma abertura de esp&#237;rito, dar origem a quest&#245;es filos&#243;ficas; o mesmo com os estudos matem&#225;ticos, a investiga&#231;&#227;o da literatura e da mitologia, bem como a reflex&#227;o sobre nossas pr&#243;prias experi&#234;ncias de amor e sofrimento.</p><p>De fato, qualquer tipo de compreens&#227;o b&#225;sica (<em>intellectus</em>) que tenhamos adquirido j&#225; pressup&#245;e as opera&#231;&#245;es do <em>intellectus</em>, que v&#234; ou apreende a verdade. O <em>intellectus</em> est&#225; ativo na apreens&#227;o imediata, por parte do aluno, dos axiomas (<em>axiomata</em>) e dos princ&#237;pios (<em>archai</em>) da matem&#225;tica e das diversas ci&#234;ncias. Ele est&#225;, portanto, no in&#237;cio (<em>arche</em>) de todo o nosso pensamento, mas tamb&#233;m aparece no fim de uma linha de racioc&#237;nio, quando a <em>ratio</em> nos conduz a uma nova vis&#227;o de uma verdade.</p><p>O <em>intellectus</em> tamb&#233;m est&#225; ativo no testemunho do aluno diante da beleza, seja ela f&#237;sica ou n&#227;o; al&#233;m disso, a alegria do <em>intellectus</em> ao unir-se ao que ama &#233; especialmente buscada pelos estudantes em rela&#231;&#227;o a seus amigos, &#224; m&#250;sica, &#224; arte, &#224; dan&#231;a ou a qualquer outra atividade que amem pela beleza que nela encontram. Uma vez que a opera&#231;&#227;o do <em>intellectus</em> &#233; onipresente no pensamento, <strong>o desafio da </strong><em><strong>schole</strong></em><strong> n&#227;o &#233; simplesmente ver (</strong><em><strong>theorein</strong></em><strong>), mas elevar (</strong><em><strong>anairein</strong></em><strong>) aquilo que se v&#234; em dire&#231;&#227;o &#224; sua fonte, de modo no&#233;tico</strong>. Em outras palavras, o desafio da <em>schole</em> &#233; oferecer ao <em>intellectus</em> vis&#245;es cada vez mais belas e experi&#234;ncias alegres de contempla&#231;&#227;o do am&#225;vel.</p><p>O perigo para os estudantes n&#227;o &#233; tanto que eles n&#227;o vejam, mas que suponham j&#225; ter visto tudo o que h&#225; para ver, que se fechem &#224; investiga&#231;&#227;o do que &#233;, que se recusem a cultivar a forma mais ampla e aberta de escuta, supondo que sua pr&#243;pria cogni&#231;&#227;o da beleza j&#225; lhes revelou o que &#233; verdadeiramente belo. Em suma, o perigo no pensamento &#233; supor que se sabe aquilo que n&#227;o se sabe, devido &#224; ignor&#226;ncia ou &#224; falta de familiaridade com vis&#245;es mais elevadas e melhores, dignas de serem vistas.</p><p>Nossa atual &#234;nfase nas escolas em prestar contas aos objetivos e resultados predeterminados do sistema educacional &#233; bem conhecida por todos os que ensinaram nas &#250;ltimas duas d&#233;cadas. Nosso estresse desproporcional com testes de alto impacto e avalia&#231;&#245;es, tanto no Canad&#225; quanto nos Estados Unidos, com sua exig&#234;ncia de que os alunos demonstrem conhecimento das respostas corretas e forne&#231;am evid&#234;ncias do que sabem, certamente pouco contribui para promover abertura ao maravilhamento, disposi&#231;&#227;o para questionar ou desejo de conhecer a extens&#227;o da pr&#243;pria ignor&#226;ncia.</p><p>De fato, nosso sistema educacional &#233; possivelmente bastante prejudicial do ponto de vista no&#233;tico, na medida em que incentiva os alunos a evitarem demonstrar que n&#227;o sabem &#8212;  ao mesmo tempo que nunca se deleitam com tal descoberta! Contudo, o deleite na descoberta que conduz ao &#8220;conhece-te a ti mesmo&#8221; (<em>gnothi seauton</em>) &#233; precisamente o prazer associado ao movimento no&#233;tico em dire&#231;&#227;o &#224;s vis&#245;es mais elevadas.</p><p>A escassez de atividade contemplativa (com suas alegrias associadas) nas escolas atuais est&#225; bem documentada em grandes estudos realizados por grupos como o Garrison Institute, que se empenharam em mapear o estado atual da educa&#231;&#227;o contemplativa nas escolas. Em particular, o instituto aponta a necessidade de incorporar atividades contemplativas &#224; educa&#231;&#227;o como contrapeso &#224;s preocupa&#231;&#245;es dominantes com resultados, avalia&#231;&#227;o e responsabiliza&#231;&#227;o.</p><p>Como &#233; poss&#237;vel, ent&#227;o, que o exerc&#237;cio do <em>intellectus</em> seja t&#227;o ub&#237;quo, mas t&#227;o pouco considerado e amplamente ignorado na educa&#231;&#227;o moderna? Como &#233; que nossa aten&#231;&#227;o nas escolas se deslocou quase completamente para o cultivo da <em>ratio</em>? Por que nossas escolas se entregam ao trabalho discursivo e laborioso da raz&#227;o sem convidar os alunos a desfrutar do lazer da intelec&#231;&#227;o?</p><p>Mais problem&#225;tico ainda &#233; o efeito desse desequil&#237;brio sobre a consci&#234;ncia coletiva da realidade. Quando todo o nosso conhecimento se torna uma quest&#227;o de nos colocarmos diante de objetos em posi&#231;&#227;o de controle, uso e dom&#237;nio, deixamos de ver o aspecto contemplativo ou relacional do conhecimento enquanto atividade prenhe de amor.</p><p>A consci&#234;ncia de nossa capacidade inata de contemplar (<em>theoria</em>) o que &#233; e de experimentar a uni&#227;o amorosa com o que &#233;, por meio dos movimentos contemplativos do <em>intellectus</em>, enfraqueceu, mas nosso desejo por esse tipo de conhecimento permanece. O resultado dessa confus&#227;o moderna &#233; que buscamos satisfazer esse desejo pelos &#250;nicos meios de conhecer com os quais estamos profundamente familiarizados: o conhecimento calculador sujeito-objeto da <em>ratio</em>.</p><p>Assim, nossos desejos mais profundos pelo conhecimento assumem sua forma tipicamente moderna de dom&#237;nio tecnol&#243;gico, por meio do uso habilidoso e da integra&#231;&#227;o das tecnologias da informa&#231;&#227;o. O que se segue neste artigo &#233; a abordagem dessa confus&#227;o tecnol&#243;gica moderna. Defendo que a solu&#231;&#227;o para nossas confus&#245;es contempor&#226;neas sobre tecnologia n&#227;o &#233; mais tecnologia educacional, mas a incorpora&#231;&#227;o de estudos contemplativos que, com o relaxamento do foco em avalia&#231;&#227;o e responsabiliza&#231;&#227;o, possam cultivar a <em>noesis</em> ao longo do dia escolar.</p><h4><strong>II. Sobre as deforma&#231;&#245;es da contempla&#231;&#227;o<br>no fasc&#237;nio da homogeneidade tecnol&#243;gica</strong></h4><p>&#201; incorreto supor que a <em>theoria</em>, ou o ver imediato do <em>intellectus</em>, n&#227;o seja atualmente um componente de nossos esfor&#231;os educacionais. Na verdade, sempre que a compreens&#227;o (<em>intellectus</em>) &#233; adquirida, a capacidade de ver do <em>intellectus</em> est&#225; envolvida. O estudioso budista Robert Thurman (2006) faz observa&#231;&#227;o semelhante ao afirmar que a mente contemplativa existe em todas as culturas, e que pode ser bastante enganoso dizer que nossa pr&#243;pria cultura carece de mentes contemplativas. </p><p>Ele explica: <em>&#8220;Quando fazemos essa afirma&#231;&#227;o, estamos antes lamentando os deplor&#225;veis estados contemplativos nos quais a mente comum est&#225; absorvida&#8221; (p. 1766). Thurman oferece a televis&#227;o como exemplo do tipo de transe contemplativo no qual milh&#245;es de pessoas se imergem &#8220;por horas a fio, dia ap&#243;s dia, ano ap&#243;s ano&#8221; (p. 1766). Infelizmente, explica ele, trata-se de um transe &#8220;no qual a insatisfa&#231;&#227;o sensorial &#233; constantemente refor&#231;ada, a raiva e a viol&#234;ncia s&#227;o impressas, e a confus&#227;o e a ilus&#227;o do materialismo s&#227;o constru&#237;das e mantidas&#8221; (p. 1766). Assim, &#8220;quando falamos em buscar aumentar e intensificar a mente contemplativa em nossa cultura, estamos, na verdade, falando de m&#233;todos de transferir energias contemplativas de um foco para outro&#8221; (p. 1766).</em></p><p>As observa&#231;&#245;es perspicazes de Thurman sobre a televis&#227;o tamb&#233;m se aplicam &#224; nossa atual fascina&#231;&#227;o por computadores e pela Internet &#8212; especialmente em ambientes educacionais onde o cumprimento de metas de TIC &#233; exigido e rigorosamente imposto tanto em documentos curriculares quanto como parte de planos de desenvolvimento profissional docente. Os professores est&#227;o sob press&#227;o constante e crescente para aplicar as mais recentes tecnologias &#224; sua pedagogia. O fervor dessa press&#227;o torna-se ainda mais estranho quando reconhecemos que dificilmente os professores, em qualquer &#233;poca, sofreram press&#245;es semelhantes para usar televis&#227;o ou r&#225;dio (sem falar em livros, papel, canetas e l&#225;pis) com seus alunos.</p><p>De fato, parece haver um tipo especial de vis&#227;o que se acredita ser proporcionado pela Tecnologia da Informa&#231;&#227;o (TI), de tal modo que seu uso adquiriu um poder estranho em nossa compreens&#227;o (<em>intellectus</em>) de n&#243;s mesmos e do que significa conhecer. O fasc&#237;nio peculiar da TI surge por duas raz&#245;es. <strong>Por um lado, ela nos oferece a falsa promessa de conhecer tudo, ou pelo menos de ter acesso a uma quantidade aparentemente infinita de informa&#231;&#245;es sobre o mundo enquanto objeto; por outro, pretende disponibilizar uma transcend&#234;ncia substituta (</strong><em><strong>ersatz</strong></em><strong>), uma esp&#233;cie de suced&#226;neo da alegria experimentada relacionalmente numa verdadeira comunidade de ser com os outros, com o mundo e com o divino.</strong></p><p>Dito de modo mais simples, nos termos desenvolvidos por Martin Buber, as tecnologias computacionais prometem uma forma de onisci&#234;ncia no &#226;mbito da experi&#234;ncia Eu-Isso (<em>I-It</em>), ao mesmo tempo que nos asseguram nossa conex&#227;o com todos os outros usu&#225;rios numa rede mundial de ser do tipo Eu-Tu (<em>I-Thou</em>). Nesse sentido, a TI tornou-se um substituto amplamente aceito para o genu&#237;no exerc&#237;cio espiritual de buscar a sabedoria, isto &#233;, de &#8220;imortalizar-se&#8221;.</p><p>Com not&#225;vel antecipa&#231;&#227;o no in&#237;cio da era dos computadores pessoais, o vener&#225;vel mestre budista Chan Hsuan Hua referiu-se aos computadores, assim como antes &#224; televis&#227;o e ao r&#225;dio, como &#8220;comedores de pessoas&#8221; e &#8220;dem&#244;nios devoradores de homens:&#8221; na medida em que seu uso leva normalmente os seres humanos a &#8220;esquecer tudo o mais&#8221; (Hua, 1985).  Por ironia, a promessa dos computadores &#8212;&#8220;c&#233;rebros el&#233;tricos,&#8221; num chin&#234;s literal &#8212; de aumentar o engajamento dos alunos e a acessibilidade educacional pode, na verdade, servir para minar nossa aten&#231;&#227;o ao que as coisas s&#227;o em si mesmas, a esse &#8220;todo o resto&#8221; de que fala Hsuan Hua.</p><p>Tamb&#233;m escrevendo no in&#237;cio da era dos computadores, o fil&#243;sofo canadense George Grant contestou a no&#231;&#227;o de que os computadores s&#227;o instrumentos neutros em nossas m&#227;os:</p><p><em>&#8220;A frase &#8216;o computador n&#227;o imp&#245;e&#8217; &#233; enganosa, porque abstrai o computador do destino que foi necess&#225;rio para sua produ&#231;&#227;o. O senso comum pode nos dizer que o computador &#233; um instrumento, mas ele &#233; um instrumento proveniente de um destino que de fato se imp&#245;e a n&#243;s, e portanto o computador imp&#245;e.&#8221; (1986, p. 23)</em></p><p>O &#8220;destino&#8221; de que fala Grant &#233; aquela forma dominante de conhecimento que trata o mundo estritamente como objeto de dom&#237;nio por parte do intelecto cr&#237;tico-anal&#237;tico, que compreende tudo apenas em termos de seu uso. Seguindo as intui&#231;&#245;es de Grant, podemos dizer que nossa tend&#234;ncia educacional moderna em favor da TI foi formada dentro desse destino, no qual <em>&#8220;a informa&#231;&#227;o diz respeito a objetos e surge como parte daquela ci&#234;ncia que convoca os objetos a fornecerem suas raz&#245;es&#8221; (p. 24</em>).</p><p>Al&#233;m disso, Grant chama de &#8220;homogeneizante&#8221; esse destino tecnol&#243;gico que deu origem ao computador; quando a &#250;nica forma leg&#237;tima de conhecer o mundo &#233; trat&#225;-lo como objeto, ent&#227;o aquilo que &#233; conhecido deve sempre ser &#8220;lan&#231;ado  diante&#8221; (<em>ob-iectum</em>) do sujeito. Num ambiente assim, o conhecido n&#227;o &#233; apreendido por uma rela&#231;&#227;o de amor &#8212; como Romeu conhece Julieta, como o fil&#243;sofo ama a sabedoria, ou como na <em>theoria</em>, onde o que v&#234; e o que &#233; visto se unem. Pelo contr&#225;rio, na sociedade tecnol&#243;gica, o verdadeiro conhecimento de qualquer objeto pressup&#245;e a suspens&#227;o do amor em favor da objetividade.</p><p>Como &#8220;ontologia da &#233;poca&#8221;, o conhecimento tecnol&#243;gico, aquele no qual o computador tem sua origem, funda-se na nega&#231;&#227;o do amor como modo leg&#237;timo de conhecer. Em termos de Buber, trata-se de um conhecimento totalizante do tipo Eu-Isso que domina com exclus&#227;o do Eu-Tu. Mais importante ainda &#233; a percep&#231;&#227;o de Grant de que, no cora&#231;&#227;o dessa ontologia tecnol&#243;gica, encontra-se a rejei&#231;&#227;o tanto da filosofia quanto da contempla&#231;&#227;o, isto &#233;, aquilo que Arthur Zajonc chamou de &#8220;epistemologia do amor&#8221;.</p><p>H&#225; uma verdadeira mentira (<em>alethos pseudos</em>) no centro de nosso fervor e de nossa f&#233; na tecnologia, que resultou numa deforma&#231;&#227;o massiva da consci&#234;ncia: uma mentira acerca das coisas que s&#227;o (<em>ta onta</em>), ou aquilo que S&#243;crates, na <em>Rep&#250;blica</em>, chama de uma mentira sobre as coisas mais soberanas (<em>ta kyriotata</em>) em rela&#231;&#227;o ao que h&#225; de mais soberano em n&#243;s.</p><p>Certamente, um n&#250;mero infinito de coisas pode ser conhecido como objeto, assim como um n&#250;mero infinito pode ser usado. O tipo de conhecimento infinito que a TI nos oferece depende de nos tornarmos usu&#225;rios. A mentira, por&#233;m, n&#227;o est&#225; no fato de que muitas coisas podem ser conhecidas como objetos de uso, nem no fato de que a TI pode nos dar acesso a isso. A mentira est&#225; em supor que adotar a posi&#231;&#227;o de usu&#225;rio &#233; o &#250;nico modo de conhecer o mundo, que estar desconectado da rede equivale a estar desconectado de todo conhecimento, e que todo conhecimento e toda frui&#231;&#227;o nos s&#227;o mediados exclusivamente por nossa condi&#231;&#227;o de usu&#225;rios &#8212; em especial pelo uso de tecnologias computacionais.</p><p>Para compreender essa deforma&#231;&#227;o da consci&#234;ncia, &#233; &#250;til examinar a famosa distin&#231;&#227;o de Santo Agostinho entre uso (<em>uti</em>) e frui&#231;&#227;o (<em>frui</em>). Em sua obra <em>Doutrina Crist&#227;</em>, ele escreve:</p><p><em>&#8220;H&#225; coisas que devem ser fru&#237;das, outras que devem ser usadas, e outras ainda que usamos e fru&#237;mos. As que s&#227;o objeto de frui&#231;&#227;o nos fazem felizes. As que s&#227;o objeto de uso nos auxiliam e, por assim dizer, nos sustentam em nossos esfor&#231;os para alcan&#231;ar a felicidade, para que possamos atingir aquilo que nos faz felizes e nele repousar. N&#243;s mesmos, que usamos e fru&#237;mos dessas coisas, estando colocados entre ambos os tipos, se nos dispusermos a fruir aquilo que dever&#237;amos usar, somos impedidos em nosso caminho e &#224;s vezes at&#233; desviados dele; assim, enredados no amor de prazeres inferiores, ficamos para tr&#225;s ou mesmo nos afastamos da busca dos verdadeiros objetos de frui&#231;&#227;o.&#8221;</em></p><p>Fruir algo significa aceit&#225;-lo por si mesmo e encontrar nele alegria. Usar algo, ao contr&#225;rio, &#233; faz&#234;-lo meio para obter aquilo de que se frui. Segundo Agostinho, o mundo das coisas deve ser usado, n&#227;o fru&#237;do; somente Deus pode ser fru&#237;do. Nossa fascina&#231;&#227;o pela tecnologia confundiu uso e frui&#231;&#227;o. O perigo espec&#237;fico da tecnologia reside em sua semelhan&#231;a com a magia: supor que podemos fruir por meio do uso aquilo que n&#227;o pode ser usado. Assim, ao buscarmos uma comunidade verdadeira por meio do dom&#237;nio tecnol&#243;gico, agimos como antigos feiticeiros que tentavam compelir os deuses.</p><p>O fasc&#237;nio da TI nos confunde de dois modos. <strong>Primeiro</strong>, promete conhecimento total das coisas (<em>ta onta</em>). A Internet parece oferecer acesso instant&#226;neo a um conhecimento quase infinito &#8212; simbolizado, por exemplo, pelo Google, cujo nome deriva de &#8220;googol&#8221;, n&#250;mero imenso. Esse conhecimento &#233; oferecido apenas a usu&#225;rios, como se conhecer fosse usar. Contudo, ao condicionar a onisci&#234;ncia ao perfil de usu&#225;rio, a tecnologia obscurece o verdadeiro caminho da imortaliza&#231;&#227;o: a busca da sabedoria. Existe um conhecimento mais profundo, n&#227;o baseado no uso, que se manifesta na rela&#231;&#227;o amorosa Eu-Tu, pr&#243;pria da contempla&#231;&#227;o (<em>theoria</em>).</p><p>Assim, a tecnologia parece oferecer tudo, s&#243; que, na verdade. nos leva a pensar que sabemos o que n&#227;o sabemos. Isso gera o que Gareth Matthews chamou de &#8220;aprendizado pretensioso&#8221;. </p><p><strong>Segundo</strong>, a TI tamb&#233;m promete uma pseudo-<em>theoria</em>: uma falsa sensa&#231;&#227;o de comunh&#227;o. Jovens, em particular, sentem-se conectados por meio da tecnologia, como se vivessem rela&#231;&#245;es Eu-Tu. No entanto, essas rela&#231;&#245;es s&#227;o mediadas pelo uso (<em>uti</em>), e n&#227;o pela frui&#231;&#227;o (<em>frui</em>). Essa ilus&#227;o, j&#225; associada a uso compulsivo da internet, depress&#227;o e solid&#227;o, &#233; bem descrita por Josef Pieper, q<strong>ue observa como surgem imita&#231;&#245;es falsas das experi&#234;ncias espirituais quando tudo &#233; reduzido &#224; utilidade.</strong></p><p>Onde as considera&#231;&#245;es de pura &#8220;utilidade&#8221; reinam supremas, aparecer&#227;o, quase inevitavelmente, certos simulacros, imita&#231;&#245;es falsificadas do aut&#234;ntico esfor&#231;o religioso, art&#237;stico e filos&#243;fico. O perigo reside na dificuldade de reconhecer o engano &#8212; ou melhor, o autoengano. Parece que, uma vez que todas as &#225;reas est&#227;o &#8220;cobertas&#8221;, nada falta. O lugar da ora&#231;&#227;o genu&#237;na, por exemplo, pode ser ocupado por alguma pr&#225;tica &#8220;m&#225;gica&#8221;, pela tentativa de p&#244;r poderes sobrenaturais &#224; nossa disposi&#231;&#227;o, chegando mesmo a fazer de Deus uma mera pot&#234;ncia funcional, integrada aos prop&#243;sitos utilit&#225;rios dos c&#225;lculos mundanos. (p. 35)</p><p>&#201; importante lembrar que a theoria genu&#237;na jamais pode ser cultivada por meio do uso. Como observa Pieper: &#8220;<em>S&#243; podemos ser te&#243;ricos no sentido pleno da palavra&#8230; enquanto o mundo for algo outro (e algo mais) do que um campo para a atividade humana, seu material ou mesmo sua mat&#233;ria-prima</em>&#8221; (1981, p. 116&#8211;117). A theoria &#233;, antes, destru&#237;da por meio do uso: na medida em que somos simplesmente usu&#225;rios, n&#227;o somos te&#243;ricos em nossa disposi&#231;&#227;o diante da realidade. Enquanto nos concebemos apenas como usu&#225;rios, e mesmo que ansiemos pela transcend&#234;ncia, como tantos jovens, mas sejamos iludidos a acreditar que a transcend&#234;ncia &#233; quest&#227;o de uso, estamos necessariamente incapacitados para a busca da sabedoria. </p><p>Nesse sentido, nosso fasc&#237;nio pelos resultados das TIC pode constituir talvez um dos maiores impedimentos &#224; forma&#231;&#227;o da sabedoria nas escolas. Como afirma Pieper: <em>&#8220;o suic&#237;dio da filosofia &#233; isto &#8212; quando o mundo come&#231;a a ser visto meramente como mat&#233;ria-prima da atividade humana, falta apenas um passo para a aboli&#231;&#227;o do car&#225;ter te&#243;rico da filosofia&#8221; </em>(1981, p. 117). Quando oferecida como uma fun&#231;&#227;o dispon&#237;vel apenas aos usu&#225;rios, a promessa de transcend&#234;ncia te&#243;rica torna-se uma deforma&#231;&#227;o da consci&#234;ncia e assinala a destrui&#231;&#227;o da theoria. Ela distorce nosso senso do que significa engajar-se na vida contemplativa, iludindo-nos a acreditar que nossa experi&#234;ncia<em> eu-isso</em> do uso do computador pode substituir genuinamente o gozo da rela&#231;&#227;o Eu-Tu, que s&#243; surge onde n&#227;o h&#225; uso. Ao nos desviar da verdadeira atividade te&#243;rica, que n&#227;o nasce no &#226;mbito do uso (uti), mas no &#243;cio (schol&#233;) do simples fruir (frui), nossa f&#233; na tecnologia nos afasta da atividade mais elevada da melhor parte de n&#243;s mesmos em rela&#231;&#227;o ao seu objeto mais perfeito. Arist&#243;teles chama essa atividade de &#8220;felicidade&#8221; (eudaimonia, &#201;tica a Nic&#244;maco X, vi, 2), e essa felicidade &#233; id&#234;ntica &#224; theoria como o verdadeiro modo de nossa imortaliza&#231;&#227;o.</p><p>Acad&#234;micos como R. W. Burniske sugeriram que esses perigos tecnol&#243;gicos podem ser evitados simplesmente limitando o uso de computadores nas escolas, expondo os alunos com maior frequ&#234;ncia ao mundo n&#227;o cibern&#233;tico da natureza, utilizando computadores para acessar informa&#231;&#245;es sobre o mundo real natural e empregando f&#243;runs de discuss&#227;o online para tratar da rela&#231;&#227;o entre tecnologia e natureza (2005, p. 50&#8211;52). Contudo, sustento que pr&#225;ticas filos&#243;ficas, meditativas ou contemplativas, tanto entre alunos quanto entre professores, s&#227;o, de fato, o melhor rem&#233;dio para nossas ilus&#245;es tecnol&#243;gicas; tais pr&#225;ticas implicam o reconhecimento de tudo aquilo que &#233; recusado pela ontologia tecnol&#243;gica homogeneizante. Simplesmente ao ver a verdade que &#233; contemplada, somos libertados de todas as ilus&#245;es tecnol&#243;gicas que podem acometer alunos e professores na escola moderna. O Vener&#225;vel Hsuan Hua comenta:</p><p><em>&#8220;N&#227;o se assustem ao me ouvir chamar televis&#227;o, r&#225;dios e computadores de dem&#244;nios devoradores de gente. N&#227;o h&#225; motivo para medo. Minha esperan&#231;a &#233; que voc&#234;s reconhe&#231;am claramente essas coisas pelo que s&#227;o. Uma vez que as reconhe&#231;am, os aparelhos el&#233;tricos perdem o poder de confundi-los. Isso basta saber. Mas, se voc&#234;s se deixam confundir por eles, ent&#227;o podem devor&#225;-los.</em></p><p><em>O mesmo princ&#237;pio se aplica &#224; beleza. Se a vis&#227;o de uma figura bonita tem o poder de confundi-lo, ent&#227;o voc&#234; foi engolido por um devorador. Se o dinheiro o confunde, voc&#234; acaba de ser devorado por ele. Se seu prop&#243;sito &#233; estabelecer uma grande reputa&#231;&#227;o e a fama o confunde, ent&#227;o voc&#234; foi engolido pelo dem&#244;nio da fama. Se a boa comida o confunde, embora voc&#234; sinta que desfrutou de um prato saboroso, na verdade a comida &#233; que o devorou. A comida devorou sua alma espiritual, seu corpo de Dharma. Devorou sua sabedoria e o deixou o mais tolo poss&#237;vel.&#8221;</em> (1985)</p><h4><strong>III. Contempla&#231;&#227;o e o perigo de ver apenas o que fizemos</strong></h4><p>Um segundo problema que surge quando aceitamos a ontologia tecnol&#243;gica &#233; que, se supomos que todo o nosso conhecimento depende de nos tornarmos usu&#225;rios, passamos a aceitar que s&#243; conhecemos realmente aquilo que n&#243;s mesmos fizemos. Como produtores e usu&#225;rios do que fazemos, nosso olhar se estreita e se fixa nos produtos de nosso pr&#243;prio poder criativo.  Com efeito, desvia-se daquilo que n&#227;o fizemos &#8220;todo o resto&#8221; de que fala Hsuan Hua. Nosso olhar tecnol&#243;gico carece, portanto, da abertura do olhar filos&#243;fico que busca conhecer a realidade enquanto tal. </p><p>S&#243; que a pr&#243;pria possibilidade da theoria depende de nossa capacidade de sermos receptivos ao que est&#225; fora de nossa fabrica&#231;&#227;o e controle. Aquilo que Pieper chama de condi&#231;&#227;o pr&#233;via para a busca da sabedoria &#8212; a saber, o reconhecimento de que a realidade &#233; &#8220;boa em si mesma&#8221; (1981, p. 120), mesmo independentemente de ser dominada, produzida ou transformada pelo esfor&#231;o humano &#8212; est&#225; ausente quando a bondade do que &#233; depende de ter sido feito por n&#243;s conforme nossas especifica&#231;&#245;es e prefer&#234;ncias pessoais. James Schall escreve:</p><p><em>&#8220;Professores e alunos est&#227;o na mesma condi&#231;&#227;o quanto &#224; verdade &#8212; ambos se encontram diante de algo que nenhum dos dois fez. A ideia moderna de que a &#250;nica verdade &#233; a &#8216;verdade&#8217; que n&#243;s mesmos fazemos &#233; uma vis&#227;o estreita que rapidamente nos corta do que &#233;.&#8221; (2001, p. 65)</em></p><p>Devemos, portanto, ser muito mais cautelosos quanto &#224; maneira difusa com que a tecnologia vem sendo incorporada ao aprendizado em sala de aula para nossos jovens impression&#225;veis; o estreitamento do olhar que decorre de sua imers&#227;o cont&#237;nua no paradigma tecnol&#243;gico do conhecer-como-fazer afeta n&#227;o apenas o modo como veem o mundo, mas tamb&#233;m como veem e interagem uns com os outros. Em particular, algumas evid&#234;ncias sugerem que, em vez de abrir os alunos para o conhecimento relacional como amor, cultivado em estudos contemplativos ou no&#233;ticos, a tecnologia os incentiva a focar no controle das intera&#231;&#245;es interpessoais.</p><p>Por exemplo, as tecnologias com que os alunos est&#227;o mais familiarizados e que utilizam para suas rela&#231;&#245;es mais &#237;ntimas s&#227;o projetadas para capacit&#225;-los como usu&#225;rios, de modo que possam exercer alto grau de controle sobre suas intera&#231;&#245;es sociais. De fato, o atrativo e o sucesso comercial dessas tecnologias residem, em parte, em suas capacidades ergon&#244;micas, isto &#233;, na facilidade com que todas as suas fun&#231;&#245;es podem ser personalizadas ou moldadas conforme as prefer&#234;ncias individuais do usu&#225;rio. Os alunos se habituam facilmente a esse alto grau de controle, e &#233; precisamente a partir desse ambiente que aspiram, como usu&#225;rios, a comunicar-se e a estabelecer comunh&#227;o em uma rede mundial de ser. </p><p>Contudo, uma verdadeira rela&#231;&#227;o Eu-Tu n&#227;o &#233; poss&#237;vel onde permanece primordial a necessidade de controlar e moldar tudo segundo as pr&#243;prias prefer&#234;ncias, ao adaptar tudo &#224; pr&#243;pria identidade &#8220;psicomental&#8221;. De fato, a atmosfera personalizada da media&#231;&#227;o tecnol&#243;gica entre usu&#225;rios apenas refor&#231;a o que as tradi&#231;&#245;es contemplativas chamam de &#8220;ilus&#227;o do eu&#8221;. Em contraste, a imers&#227;o numa verdadeira rela&#231;&#227;o Eu-Tu implica necessariamente n&#227;o o refor&#231;o do &#8220;eu&#8221; psicomental &#8212; o &#8220;i&#8221; comercializado no iPhone, iMac, iPad e iPod &#8212;, mas o afrouxamento de nossos apegos a n&#243;s mesmos e &#224;s nossas prefer&#234;ncias. Assim como a verdadeira educa&#231;&#227;o (como o di&#225;logo genu&#237;no) nunca pode ser centrada na crian&#231;a ou no professor, mas deve ser centrada na verdade, tamb&#233;m devemos desconfiar do movimento de reformas educacionais que manifesta excessivo entusiasmo pela individualiza&#231;&#227;o da educa&#231;&#227;o segundo prefer&#234;ncias psicomentais por meio da fabrica&#231;&#227;o e dom&#237;nio tecnol&#243;gicos.</p><p>James Schall escreve: &#8220;<em>Tornamo-nos luminosos para n&#243;s mesmos apenas quando conhecemos o que n&#227;o somos n&#243;s mesmos</em>&#8221; (2006, p. 11). Ele nos convida a buscar para al&#233;m de n&#243;s mesmos a medida de n&#243;s mesmos. Em vez de permanecer na tradi&#231;&#227;o educacional de 2500 anos derivada da afirma&#231;&#227;o sof&#237;stica de Prot&#225;goras &#8212; &#8220;<em>o homem &#233; a medida de todas as coisas&#8221; </em>&#8212;, e em vez de nos deixarmos fascinar por reformas educacionais modernas que aparentemente transformam a educa&#231;&#227;o, mas na verdade apenas oferecem novas formas de medir tudo segundo nossos pr&#243;prios estados psicomentais, quem busca genuinamente a sabedoria deve procurar uma verdadeira Medida (Metron) de todas as coisas. </p><p>Por isso, Plat&#227;o escreve contra Prot&#225;goras nas Leis que <em>&#8220;Deus &#233;, no mais alto grau, a medida de todas as coisas&#8221;</em> (716c). Prot&#225;goras admitia que o homem, como esp&#233;cie, fosse essa medida; e nem as reformas educacionais modernas nem as tecnologias que as sustentam podem ser consideradas uma revolu&#231;&#227;o nesse sentido: s&#227;o apenas mais do mesmo, talvez uma hiperatualiza&#231;&#227;o do princ&#237;pio protag&#243;rico, em que n&#227;o o homem em geral, mas o indiv&#237;duo atomizado, ou mesmo seus estados psicomentais flutuantes, se torna a medida de todas as coisas.</p><p>James Conroy expressa preocupa&#231;&#245;es semelhantes quanto &#224; busca da medida correta na educa&#231;&#227;o ao criticar os &#8220;crescentes apelos por um curr&#237;culo individualizado e negociado&#8221;, no qual &#8220;n&#227;o o homem, mas o indiv&#237;duo &#233; a medida de todas as coisas&#8221; (2008, p. 148). A solu&#231;&#227;o de Burniske para a sof&#237;stica da educa&#231;&#227;o tecnol&#243;gica moderna &#233; dizer que nem o Homem nem o indiv&#237;duo, mas sim a Natureza &#233; o verdadeiro <em>Metron</em>. Contudo, seguindo os fil&#243;sofos antigos e as tradi&#231;&#245;es sapienciais do mundo, nem mesmo a Natureza pode ser sua pr&#243;pria medida. A vis&#227;o contemplativa, esse ver ilimitado que busca o verdadeiro <em>Metron </em>e conhecer a realidade como tal, &#233; o meio mais poderoso e mais eficaz de superar os perigos da atitude tecnol&#243;gica que v&#234; apenas aquilo que ela mesma produziu.</p><h4><strong>IV. Contempla&#231;&#227;o (contemplatio) em oposi&#231;&#227;o &#224; concupisc&#234;ncia dos olhos (concupiscentia oculorum)</strong></h4><p>Nosso fasc&#237;nio pela tecnologia da informa&#231;&#227;o, assim como nossa inclina&#231;&#227;o a olhar fixamente para a televis&#227;o, &#233; problem&#225;tico por uma terceira raz&#227;o. Como vimos, Thurman observa que, quando falamos em aumentar e intensificar a mente contemplativa em nossa cultura, <em>&#8220;na verdade estamos falando de m&#233;todos de transferir energias contemplativas de um foco para outro&#8221;</em> (2006, p. 1766). Estudantes que fixam o olhar nas telas de seus laptops, iPhones, iPads e outros dispositivos de comunica&#231;&#227;o est&#227;o certamente envolvidos em uma forma de ver; no entanto, sua navega&#231;&#227;o nesses dispositivos &#233;, em grande parte, um olhar distra&#237;do e desatento, &#8220;<em>no qual a insatisfa&#231;&#227;o sensorial &#233; constantemente refor&#231;ada, a raiva e a viol&#234;ncia s&#227;o impressas, e a confus&#227;o e a ilus&#227;o do materialismo s&#227;o constru&#237;das e mantidas&#8221;</em> (Thurman, 2006, p. 1766). </p><p>De fato, o pr&#243;prio termo &#8220;navegar&#8221; implica deslizar pela superf&#237;cie das coisas em busca do est&#237;mulo que elas proporcionam, sem jamais descer (katabasis) &#224; sua profundidade nem obter qualquer insight sobre as coisas que s&#227;o (ta onta). N<strong>ossa propens&#227;o a esse tipo de navega&#231;&#227;o tecnol&#243;gica surge do fato de n&#227;o sabermos o que fazer conosco em nosso tempo livre</strong>, isto &#233;, com esse tempo precioso da vida no qual os estudantes n&#227;o s&#227;o obrigados a trabalhar para viver e os professores recebem o mais maravilhoso dos dons ao exercer uma profiss&#227;o que lhes permite compartilhar com seus alunos o desejo de buscar a sabedoria e convid&#225;-los ao estudo e &#224; investiga&#231;&#227;o do que &#233; cada coisa.</p><p>Os alunos na escola geralmente n&#227;o sabem o que realmente significa estar na escola. Frequentemente sorrio quando vou buscar meu filho mais novo no segundo ano. Ao som do sinal que marca o fim do dia, um grupo de meninos muitas vezes irrompe pelas portas da escola (mal parando para abri-las!) com gritos e entusiasmo, como se estivessem sendo libertados de uma pris&#227;o. <strong>As escolas, nossos &#250;nicos espa&#231;os institucionalizados n&#227;o religiosos de lazer ou </strong><em><strong>schol&#233;</strong></em><strong>, n&#227;o cultivam a experi&#234;ncia do lazer (lat. </strong><em><strong>otium</strong></em><strong>), com o resultado de que a possibilidade de </strong><em><strong>otium</strong></em><strong> &#233; substitu&#237;da por experi&#234;ncias de hostilidade ou avers&#227;o (lat. </strong><em><strong>odium</strong></em><strong>)</strong>. De fato, tanto professores quanto alunos est&#227;o t&#227;o pouco familiarizados com o que significa engajar-se no lazer ou na <em>schol&#233;</em> que a liberdade desse espa&#231;o socialmente prescrito, no qual a verdadeira educa&#231;&#227;o poderia ocorrer, torna-se um problema &#8212; um problema que geralmente tentamos resolver com tarefas mec&#226;nicas, com formas cada vez mais variadas de est&#237;mulo tecnol&#243;gico e com in&#250;meras distra&#231;&#245;es que se fazem passar por aprendizagem engajada. </p><p>No entanto, o que &#233; necess&#225;rio nessa situa&#231;&#227;o n&#227;o &#233; mais est&#237;mulo para engajar os alunos, mas menos est&#237;mulo, a fim de desenvolver uma aten&#231;&#227;o mais cuidadosa, de modo que se possa gerar consci&#234;ncia do significado da <em>schol&#233;</em> e come&#231;ar a cultivar sua experi&#234;ncia e pr&#225;tica na sala de aula. O que se necessita &#233; algo semelhante ao sil&#234;ncio mencionado na introdu&#231;&#227;o deste artigo, que nos permite escutar, estar abertos e receptivos.</p><p>Marilyn Nelson comentou como o ru&#237;do da tecnologia pode, na verdade, impedir esse tipo de escuta:</p><p><em>&#8220;Como podemos ensinar jovens americanos a escutar o sil&#234;ncio? O ru&#237;do de nossas vidas &#233; &#8212; &#224;s vezes literalmente &#8212; ensurdecedor. A tecnologia nos deu uma trilha sonora de 24 horas, nossa pr&#243;pria m&#250;sica de fundo, nossa &#8216;partitura&#8217;... Quando os jovens americanos experimentam o sil&#234;ncio? Talvez apenas quando encaram seus pais com olhar de reprova&#231;&#227;o, de bra&#231;os cruzados.&#8221; (2006, p. 1734)</em></p><p>Como muitos acad&#234;micos observaram, em nosso ambiente escolar atual, <em>&#8220;as exig&#234;ncias de atividade constante, o h&#225;bito da estimula&#231;&#227;o eletr&#244;nica e a orienta&#231;&#227;o produtivista da sociedade moderna tornam muito dif&#237;cil manter vivo o contemplativo&#8221; (Hart, 2004, p. 43)</em>. Em uma <em>&#8220;era de fragmenta&#231;&#227;o, velocidade crescente, multitarefa e aten&#231;&#227;o continuamente interrompida&#8221; </em>(Haynes, 2005, p. 8), o que &#233; necess&#225;rio, como sugere Thurman, &#233; o redirecionamento de nosso desejo natural de ver. Essencialmente, o que se necessita &#233; a introdu&#231;&#227;o de alguma forma de pr&#225;tica contemplativa na sala de aula.</p><p>Em minha experi&#234;ncia com a investiga&#231;&#227;o dos alunos em sala de aula, muito do que passa por aprendizagem &#233; melhor descrito pelo termo latino <em>curiositas</em> em oposi&#231;&#227;o a <em>studiositas</em>. Os significados psicol&#243;gicos contrastantes dessas palavras s&#227;o, respectivamente, &#8220;curiosidade intemperante&#8221; (<em>curiositas</em>) e &#8220;desejo moderado de conhecimento&#8221; (<em>studiositas</em>). Tanto <em>studiositas</em> quanto <em>curiositas</em> nascem do desejo natural de ver. Contudo, <em>studiositas</em> distingue-se como uma aten&#231;&#227;o zelosa no desejo de conhecer o que &#233;; permanece fiel ao seu objetivo de ver o que &#233; e, por essa raz&#227;o, nossa palavra &#8220;estudo&#8221; j&#225; foi chamada de &#8220;uma ora&#231;&#227;o &#224; verdade&#8221; (Sertillanges, 1998, p. 69). </p><p>Em contraste, <em>curiositas</em> est&#225; associada &#224; intromiss&#227;o &#8212; a <em>polypragmosyne</em> ou &#8220;fazer muitas coisas&#8221; que os gregos tomavam como defini&#231;&#227;o de injusti&#231;a. Trata-se de um &#8220;saber m&#250;ltiplo&#8221; que busca a experi&#234;ncia e o est&#237;mulo do ver, e n&#227;o aquilo que &#233; visto. A <em>curiositas</em> corre solta na sala de aula tecnol&#243;gica contempor&#226;nea, onde pol&#237;ticas de um computador por aluno tornam direito de cada crian&#231;a ter um dispositivo conectado o tempo todo. Em vez de serem estudiosos, os alunos se envolvem em todo tipo de distra&#231;&#245;es e multitarefas, como jogar jogos eletr&#244;nicos, usar redes sociais, assistir a espet&#225;culos vazios no YouTube ou at&#233; fazer compras online.</p><p><strong>Essencialmente, a </strong><em><strong>curiositas</strong></em><strong> surge sempre que o desejo de ver n&#227;o est&#225; enraizado no desejo de elevar o que &#233; visto ao mais belo dos objetos (kallistos). </strong>O fasc&#237;nio da tecnologia para muitos jovens n&#227;o est&#225; em engaj&#225;-los no conhecimento do que &#233;, mas em fornecer-lhes um meio de fuga de si mesmos e do vazio de uma exist&#234;ncia desenraizada na escola, que antes das tecnologias digitais encontrava sa&#237;da por outros caminhos. De fato, as observa&#231;&#245;es de Pieper sobre a natureza da <em>curiositas</em> descrevem com grande precis&#227;o muitas salas de aula:</p><p><em>&#8220;A degenera&#231;&#227;o do desejo natural de ver em curiositas pode ser muito mais do que uma confus&#227;o superficial e inofensiva no ser humano. Pode ser o sinal de um desenraizamento completo. Pode significar que o homem perdeu a capacidade de viver consigo mesmo; que, fugindo de si, nauseado e entediado pelo vazio de uma vida interior devastada pelo desespero, ele busca com ansiedade ego&#237;sta e por mil caminhos in&#250;teis aquilo que &#233; dado apenas &#224; nobre quietude de um cora&#231;&#227;o pronto para o sacrif&#237;cio e, assim, em posse de si mesmo: a plenitude do ser.&#8221; (1981, p. 86)</em></p><p>Citando os <em>Journals</em> de Andr&#233; Gide, Pieper (1981) observa que, sem uma exposi&#231;&#227;o cultivada &#224; experi&#234;ncia e &#224; pr&#225;tica do lazer, tendemos a experimentar o tempo n&#227;o preenchido pelo trabalho como &#8220;um vazio mortal&#8221; e &#8220;um t&#233;dio sem fim&#8221; (p. 122). A escola, e tamb&#233;m a vida fora dela,  torna-se para n&#243;s uma esp&#233;cie de deserto espiritual como resultado da &#8220;destrui&#231;&#227;o da vida contemplativa&#8221; (p. 122). Tornamo-nos inclinados, em nossa liberdade (agora experimentada como desconforto espiritual), a buscar fuga &#8212; ou &#8220;e-scape&#8221; &#8212; nos movimentos distra&#237;dos do olhar interessado que salta de um objeto a outro em busca de novidade e excita&#231;&#227;o. Esse desejo de ver se assemelha &#224; contempla&#231;&#227;o, pois &#233; tamb&#233;m uma forma de olhar. Contudo, enquanto o olhar contemplativo busca conhecer a realidade, o olhar desprovido de lazer busca o prazer de ver, e n&#227;o o ver daquilo que &#233; por si mesmo.</p><p>Esse tipo de olhar &#233; precisamente o que a filosofia crist&#227; chama de &#8220;concupisc&#234;ncia dos olhos&#8221; (<em>concupiscentia oculorum</em>). Pieper escreve:</p><p><em>&#8220;H&#225; uma satisfa&#231;&#227;o no ver que inverte o sentido original da vis&#227;o [isto &#233;, da contempla&#231;&#227;o] e introduz desordem no homem. O verdadeiro sentido de ver &#233; a percep&#231;&#227;o da realidade. Mas a &#8216;concupisc&#234;ncia dos olhos&#8217; n&#227;o visa perceber a realidade, e sim desfrutar o ato de &#8216;ver&#8217;.&#8221; (1981, p. 86)</em></p><p>Agostinho desenvolveu uma extensa psicologia da <em>concupiscentia oculorum</em> em suas <em>Confiss&#245;es</em>. Ele sustenta que todos os pecados derivam, seja isoladamente, seja de alguma combina&#231;&#227;o entre &#8220;a concupisc&#234;ncia da carne&#8221; (<em>concupiscentia carnis</em>), &#8220;a concupisc&#234;ncia dos olhos&#8221; (<em>concupiscentia oculorum</em>) e &#8220;a soberba da vida&#8221; (<em>ambitione saeculi</em>, 1961, 10.30.41; cf. 3.8.6). Enumerada entre essas tr&#234;s categorias fundamentais do pecado, a <em>concupiscentia oculorum</em> &#233; uma curiosidade &#8220;v&#227;&#8221; ou &#8220;doentia&#8221; (<em>curiosa cupiditas</em>) que n&#227;o busca aquilo que &#233; verdadeiramente desej&#225;vel, mas antes a satisfa&#231;&#227;o da pr&#243;pria curiosidade (1961, 10.35.54&#8211;55). Agostinho v&#234; esse tipo de curiosidade no cora&#231;&#227;o das investiga&#231;&#245;es cient&#237;ficas quando estas s&#227;o desprovidas de qualquer preocupa&#231;&#227;o com o Bem Supremo (<em>Summum Bonum</em>), e ele compara tais buscas a uma esp&#233;cie de feiti&#231;aria ou magia (<em>artes magicas</em>), que procura obter conhecimento para fins pervertidos: &#8220;n&#227;o na esperan&#231;a da salva&#231;&#227;o, mas simplesmente por amor &#224; experi&#234;ncia&#8221; (1961, 10.35.55).</p><p>A an&#225;lise psicol&#243;gica de Agostinho localiza a raiz da <em>concupiscentia oculorum</em> no amor desordenado &#224;s coisas do mundo: no erro de julgar a natureza das coisas por n&#227;o buscar a verdadeira Medida (<em>Metron</em>) de todos esses bens no Bem Supremo (<em>Summum Bonum</em>). Sua psicologia est&#225;, portanto, profundamente enraizada na tradi&#231;&#227;o da pr&#225;tica contemplativa crist&#227;, que n&#227;o consiste em intensificar nosso senso de autoimport&#226;ncia, autoestima ou amor-pr&#243;prio (<em>amor sui</em>), mas, antes, como descreve S&#243;crates na <em>Rep&#250;blica</em> de Plat&#227;o, em uma convers&#227;o da alma (<em>periagoge</em>, 1961, 518d ss.) afastando-se de todos esses bens finitos em dire&#231;&#227;o ao &#250;nico bem verdadeiro que se encontra no amor &#224; sabedoria. Na estimativa de Agostinho, esse amor &#224; sabedoria &#233; id&#234;ntico ao amor de Deus (<em>amor Dei</em>, 1972, VIII.1, 298). Como recomenda o autor da primeira ep&#237;stola de Jo&#227;o:</p><p><em>&#8220;N&#227;o ameis o mundo nem as coisas que h&#225; no mundo. Se algu&#233;m ama o mundo, o amor do Pai n&#227;o est&#225; nele; pois tudo o que h&#225; no mundo , a concupisc&#234;ncia da carne, a concupisc&#234;ncia dos olhos e a soberba da vida, n&#227;o vem do Pai, mas do mundo. Ora, o mundo passa, e tamb&#233;m a sua concupisc&#234;ncia; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.&#8221; (1 Jo 2,15&#8211;17)</em></p><p>Para Agostinho, como para todos os que buscam a sabedoria, uma educa&#231;&#227;o genu&#237;na deve ser imortalizante. Arist&#243;teles escreve que a imortaliza&#231;&#227;o (<em>to athanatizein</em>) produzida pela pr&#225;tica contemplativa &#233; precisamente a atividade de nossa mais alta felicidade (<em>eudaimonia</em>). Segundo Anax&#225;goras, a pr&#225;tica contemplativa (<em>theoria</em>) &#233; aquilo para o qual fomos feitos (Arist&#243;teles, 2001, <em>&#201;tica Eud&#234;mia</em> I,5 1216a11). No <em>Banquete</em> de Plat&#227;o, Diotima afirma que &#8220;&#233; contemplando (<em>theomenoi</em>) o Belo em si (<em>auto to kalon</em>)&#8221; que &#8220;a vida humana deve ser vivida&#8221; (1961, 211d), pois &#233; somente &#8220;quando um homem olha (<em>blepontos</em>) para l&#225; e contempla (<em>theomenou</em>) com aquilo com que se deve contemplar, e permanece com isso&#8221; que a verdadeira virtude &#233; gerada nele, tornando-o &#8220;caro a Deus&#8221; (<em>theophilei</em>) e, &#8220;se algum outro entre os homens &#233; imortal (<em>athanatos</em>), ele tamb&#233;m o &#233;&#8221; (1961, 212a).</p><p><strong>Conclus&#227;o</strong></p><p>A contempla&#231;&#227;o, ou <em>theoria</em>, deveria ocupar um lugar mais central na educa&#231;&#227;o do que atualmente ocupa. Mais especificamente, devemos incentivar uma eleva&#231;&#227;o no&#233;tica (<em>anairesis</em>) de tudo o que &#233; visto em dire&#231;&#227;o ao seu fundamento naquilo que &#233; o mais alto ou o melhor (<em>ariston</em>) dos objetos de vis&#227;o. Nosso foco moderno e nosso fasc&#237;nio pela tecnologia da informa&#231;&#227;o servem, em muitos aspectos, para impedir e desencorajar o cultivo dos estudos no&#233;ticos e a busca da sabedoria nas escolas. Se a import&#226;ncia do <em>intellectus</em> e dos movimentos cognitivos da <em>noesis</em> pudesse ser apresentada de modo claro e convincente aos formuladores de pol&#237;ticas educacionais, &#233; prov&#225;vel que a adequa&#231;&#227;o do lazer ou <em>schol&#233;</em> fosse reconhecida e sua pr&#225;tica se tornasse mais frequente.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Níveis discursivos, símbolo, intelecção e ciência]]></title><description><![CDATA[Um panorama introdut&#243;rio]]></description><link>https://renam.substack.com/p/niveis-discursivos-simbolo-inteleccao</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/niveis-discursivos-simbolo-inteleccao</guid><pubDate>Thu, 30 Apr 2026 18:28:02 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5a192268-24b5-4faf-8725-9ec64509cb6c_210x240.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h4>I. Introdu&#231;&#227;o</h4><p>Desde pelo menos Zen&#227;o de C&#237;tio, temos a divis&#227;o did&#225;tica da filosofia em racional, &#233;tica e f&#237;sica. Di&#243;genes La&#233;rcio o relata em sua obra:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></p><blockquote><p><em>Os est&#243;icos comparam a filosofia a um ser vivo, onde os ossos e os nervos correspondem &#224; l&#243;gica, as partes carnosas &#224; &#233;tica e a alma &#224; f&#237;sica. Ou ent&#227;o comparam-na a um ovo: a casca &#224; l&#243;gica, a parte seguinte (a clara) &#224; &#233;tica, e a parte central (a gema) &#224; f&#237;sica. Ou a comparam ainda a um campo f&#233;rtil: a cerca externa e a l&#243;gica, os frutos s&#227;o a &#233;tica, e o solo ou as &#225;rvores s&#227;o a f&#237;sica. Ou comparam-na a uma cidade bem amuralhada e racionalmente administrada. E nenhuma parte &#233; separada das outras, como dizem alguns est&#243;icos, mas ao contr&#225;rio todas est&#227;o estreitamente unidas entre si.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a></p></blockquote><p>Com isso, alguns se dedicaram a investigar, tamb&#233;m, as partes das partes. No caso da filosofia racional, costumava-se distribuir os graus discursivos apenas entre o ret&#243;rico, o dial&#233;tico e o anal&#237;tico. Assim o faz Alexandre de Afrod&#237;sias, em seus coment&#225;rios. Mas o grade momento de inflex&#227;o foram Avicena e Averr&#243;is, seguidos por Santo Tom&#225;s, ao inclu&#237;rem a po&#233;tica nos n&#237;veis discursivos. A tradi&#231;&#227;o dos comentadores costumava excluir a po&#233;tica, por enxergar nela mais o aspecto criativo do que o aspecto discurso. Dado que a po&#233;tica n&#227;o tem o fim de persuadir, sen&#227;o apenas de sugerir, n&#227;o parece incluir-se nos n&#237;veis discursivos. E tamb&#233;m porque Arist&#243;teles n&#227;o inclui expressamente nos n&#237;veis discursivos. Embora chegue a dar um ind&#237;cio favor&#225;vel: </p><p><em>&#8220;O ato de mimetizar &#233; inato aos homens desde a mais tenra inf&#226;ncia e nisso diferem dos outros animais, porque &#233; o mais mim&#233;tico e por meio da m&#237;mesis adquire tamb&#233;m os primeiros conhecimentos&#8230; e por isso alegram-se vendo as imagens, porque acontece que os que contemplam e concluem o que &#233; cada coisa (simbolizada por elas).&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-3" target="_self">3</a> </p><p>Charles E. Butterworth, na introdu&#231;&#227;o de sua tradu&#231;&#227;o aos coment&#225;rios de Averr&#243;is, diz que </p><blockquote><p>&#8220;Isso significava que o <em>Coment&#225;rio Breve</em> de Averr&#243;is aos Anal&#237;ticos Posteriores era uma explica&#231;&#227;o de como um tipo de assentimento, o mais nobre, a demonstra&#231;&#227;o, operava. Do mesmo modo, os tratados sobre sof&#237;stica, dial&#233;tica, ret&#243;rica e po&#233;tica eram simplesmente outras tantas ilustra&#231;&#245;es de como os demais tipos de assentimento funcionavam.&#8220;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-4" target="_self">4</a></p></blockquote><p>Esse crit&#233;rio do assentimento foi introduzido por Avicena na se&#231;&#227;o sobre l&#243;gica da <strong>Kitab al-Shifa, </strong>quando estrutura os n&#237;veis discursivos pelo tipo de assentimento que provocam na alma. No primeiro, o po&#233;tico, temos um assentimento imaginativo, por estimativa; e no &#250;ltimo, o l&#243;gico, temos o assentimento de certeza. A concaten&#231;&#227;o da trama po&#233;tica nos conduz a certo assentimento, nos fornece mat&#233;ria para ju&#237;zos e reflex&#245;es, embora ainda apenas sob o primado da sugest&#227;o que prova inclina&#231;&#227;o. </p><p>&#201; por isso que n&#227;o faz sentido julgar os atos de uma personsagem, o que faz sentido &#233; julgar os nossos pr&#243;prios atos &#224; luz do que foi representado pela personagem. Do contr&#225;rio, transformar&#237;amos a po&#233;tica em mero instrumento pol&#237;tico, em ret&#243;rica. E &#233; tamb&#233;m por isso que os melhores poetas s&#227;o os mais sinceros, pois a capacidade de bem sugerir s&#243; pode ser feita por algu&#233;m que se permite expressar as coisas tal como v&#234;.</p><p>A n&#237;vel filos&#243;fico, a &#250;ltima ponta dessa tradi&#231;&#227;o &#233; Olavo de Carvalho, com sua obra <em>&#8220;Arist&#243;teles em nova perspectiva: introdu&#231;&#227;o &#224; teoria dos quatro discursos&#8221;, </em>que reputo como uma das mais marcantes descobertas filos&#243;ficas feitas no s&#233;culo XX, pois ningu&#233;m mais havia dado esse grau de aten&#231;&#227;o &#224; inflex&#227;o realizada na &#233;poca escol&#225;stica.  </p><h4>II. O enquadramento de Santo Tom&#225;s</h4><p>Depois de Averr&#243;is, o que Santo Tom&#225;s faz, &#233; precisar o fim desses discursos por analogia com o fim da pr&#243;pria pot&#234;ncia discursiva &#8212; a raz&#227;o. Porque, desse modo, se temos bem estabelicido para que a raz&#227;o tende ultimamente, poderemos estruturar os n&#237;veis discursos em ordem a esse fim. Se o pr&#243;prio da raz&#227;o &#233; o discorrer do conhecido ao desconhecido, e se aquilo que &#233; propriamente conhecido se identifica com o ser, o fim da raz&#227;o &#233; inteligir a verdade do ser. </p><p>Assim, tomemos a no&#231;&#227;o de coragem como exemplo:</p><ol><li><p>Primeiro, nos vem a estimativa do que &#233; um ato corajoso. Compomos um punhado de imagens que evocam a coragem, e disso temos uma estima do que &#233; ser corajoso. Resta claro, portanto, que, quanto mais rico for o repert&#243;rio de evoca&#231;&#245;es imaginativas, tanto melhor ser&#225; a estima do que &#233; a realidade estimada. Uma pessoa que porventura s&#243; tenha por representa&#231;&#227;o de coragem um s&#243; aspecto da coragem (n&#227;o ter medo do perigo, por exemplo), te&#225; uma estima reducionista e, com efeito, muito imprecisa do que &#233; a coragem.</p></li><li><p>Segundo, j&#225; &#233; diferente do primeiro caso o movimento discursivo pelo qual indagamos se o ato de certa pessoa foi corajoso; ou se persuadimos algu&#233;m a ser corajoso em tal circunst&#226;ncia. Existe, aqui, n&#227;o apenas a sugest&#227;o imaginativa, mas tamb&#233;m a capacidade de convencer-se a si mesmo a outros de que &#233; conveniente ser corajoso em certa circunst&#226;ncia.</p></li><li><p>Um terceiro ato discursivo, &#233; indagar n&#227;o sobre a conveni&#234;ncia da coragem neste ou naquele momento, para esta ou aquela pessoa, mas sobre o que &#233; em si mesma a coragem, seja qual for a circunst&#226;ncia.</p></li><li><p>Um quarto ato &#233; ser capaz de demonstrar a raz&#227;o pela qual a coragem &#233; coragem e n&#227;o outra coisa.</p></li></ol><h4>III. O fil&#243;sofo racional em Santo Tom&#225;s</h4><p>Com esse enquadramento, entendemos o que Santo Tom&#225;s diz nesse trecho:</p><blockquote><p><em>Omnia autem haec ad rationalem philosophiam pertinent: inducere enim ex uno in aliud rationis est. </em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-5" target="_self">5</a></p><p><em>Todas estas coisas (</em>po&#233;tica, ret&#243;rica, dial&#233;tica e anal&#237;tica<em>), pertencem &#224; filosofia racional: pois conduzir-se de um a outro &#233; pr&#243;prio da raz&#227;o.</em></p></blockquote><p>Ou seja, a po&#233;tica conduz a certa estimativa de bem ou de mal mediante representa&#231;&#227;o; a ret&#243;rica conduz a certa suspeita mediante persuas&#227;o; a ret&#243;rica conduz a certa opini&#227;o mediante prova; e a anal&#237;tica conduz &#224; ci&#234;ncia mediante demonstra&#231;&#227;o. Todas, enfim, s&#227;o englobadas pelo que &#233; pr&#243;prio da raz&#227;o: proceder de um a outro. Da representa&#231;&#227;o de algo desej&#225;vel a algo repugnante; da verossimilhan&#231;a do que conv&#233;m em cada caso e do que n&#227;o conv&#233;m;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-6" target="_self">6</a> Da suspeita de verdade para a opini&#227;o mais prov&#225;vel; da opini&#227;o &#224; certeza.</p><p>E todas estas coisas pertencem &#224; filosofia racional. Ent&#227;o, ao fil&#243;sofo racional, cabe o saber manej&#225;-las. Neste sentido, o l&#243;gico, para Santo Tom&#225;s, que aqui &#233; sin&#244;nimo de fil&#243;sofo racional, &#233; aquele capaz de discorrer em todos os n&#237;veis expressivos. Do mais concreto ao mais abstrato, do mais imag&#233;tico ao mais formal, do mais potencial ao mais certo.</p><p>E, conforme a mat&#233;ria e o fim, tem-se o ato pr&#243;prio da raz&#227;o: o fil&#243;sofo demonstra rigorosamente quando alcan&#231;a a necessidade, discute quando alcan&#231;a probabilidade, persuade quanto ao particular e contingente e representa quando move pela imagina&#231;&#227;o. Todas essas formas pertencem &#224; raz&#227;o enquanto discursiva, mas se ordenam potencialmente segundo o grau de evid&#234;ncia e verdade que podem alcan&#231;ar em ato.</p><p>A raz&#227;o discursiva se torna plena filosofia racional, para Tom&#225;s, quando &#233; capaz de transitar por todos os dom&#237;nios expressivos, da po&#233;tica &#224; ci&#234;ncia e da ci&#234;ncia &#224; po&#233;tica. E, &#233; claro, n&#227;o apenas por via de meio, mas tamb&#233;m por via de fim, isto &#233;, segundo a finalidade pr&#243;pria de cada um desses n&#237;veis e da raz&#227;o em sua integridade.</p><p>Todo conhecimento verdadeiro &#233; conhecimento intensivo. &#201; algo que cresce em intensidade, que se manifesta mais e mais. N&#227;o se torna maior ou  menor; torna-se mais o que j&#225; &#233;, torna-se mais perfeito. </p><p>Segundo o modo de experimentar, tamb&#233;m o realismo dos conceitos se percebe na medida que se est&#225; habituado a meditar cada palavra ao modo de um ruminante, extraindo-lhe toda sua subst&#226;ncia. </p><p>Perdida essa pr&#225;tica, as palavras j&#225; n&#227;o nos dirigem a subst&#226;ncias, reduzindo-se a meras evoca&#231;&#245;es. Tornam-se meros nomes que passam apressadamente pela boca, mas n&#227;o s&#227;o retidos no cora&#231;&#227;o. </p><p>J&#225; que, do mesmo modo que a realidade de um h&#225;bito moral s&#243; se percebe ap&#243;s sua reiterada pr&#225;tica; tamb&#233;m os conceitos somente s&#227;o percebidos ap&#243;s o h&#225;bito de considerar os sinais segundo o que representam realmente - como imagens geradas das coisas, n&#227;o apenas substitutos convencionais. </p><p>E isto exige que a aten&#231;&#227;o da alma os considere ininterruptamente at&#233; o ponto em que a forma mesma da coisa seja concebida, como uma presen&#231;a real, n&#227;o apenas como sinal.</p><h4>IV. Intelec&#231;&#227;o e s&#237;mbolo</h4><p>&#201; nesse sentido que a ci&#234;ncia (o h&#225;bito do intelecto) pode ser dita mais abrangente que o s&#237;mbolo, tal como a alma &#233; mais abrangente que o corpo. Tanto &#233; assim, que o s&#237;mbolo, a imagem sens&#243;ria que evoca certo conhecimento, s&#243; nos &#233; capaz de fornecer um an&#225;logo remoto da coisa representada, pois a inteireza ou a perfei&#231;&#227;o dessa realidade s&#243; pode dar-se na sua contempla&#231;&#227;o da parte da intelig&#234;ncia, que n&#227;o possui materialidade. </p><p>O grande valor da imagem evocada pelos mitos, pela literatura, pelas artes, &#233; que n&#227;o se esgota. A nossa sensibilidade imaginativa, por mais fecunda que o seja, tende &#224; limita&#231;&#227;o. S&#243; que alguns homens encontraram um jeito de dizer as coisas de tal como que parecessem sempre frescas e f&#233;rteis para a mente<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-7" target="_self">7</a>. E n&#227;o qualquer, mas aquelas coisas que sabedoria geracional de um povo intuiu como as mais relevantes para todos os homens. &#201; o que Northrop Frye diz: <em>n&#227;o &#233; a fun&#231;&#227;o do poeta informar-nos o que aconteceu, mas o que acontece. Ele n&#227;o nos conta aquilo que se deu, mas aquilo que se d&#225; sempre.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-8" target="_self">8</a></p><p>A fun&#231;&#227;o do s&#237;mbolo &#233; manter uma coordenada imag&#233;tica que preserva na mem&#243;ria um princ&#237;pio sens&#237;vel que possa ser mat&#233;ria para essa intelec&#231;&#227;o. Ele coordena um apanhado de percep&#231;&#245;es sob alguma imagem evocativa comum, e, ao apreendermos a semelhan&#231;a que explica a comunidade ontol&#243;gica dessas percep&#231;&#245;es, nesse apanhado, captamos a mensagem fundamental do s&#237;mbolo, isto &#233;, temos um ato intelectual: a intelig&#234;ncia apreende uma realidade imut&#225;vel, que, no entanto, pode travestir-se em v&#225;rias modalidades mut&#225;veis de express&#227;o. </p><p> O ato intelectual, ent&#227;o, &#233; mais abrangente por raz&#227;o de imutabilidade, enquanto o s&#237;mbolo &#233; mais complexo, justamente por reunir uma rede de percep&#231;&#245;es sens&#237;veis. Do mesmo modo que a forma &#233; mais abrangente por raz&#227;o de simplicidade, enquanto a mat&#233;ria s&#243; &#233; mais abrangente por raz&#227;o de pluralidade. De modo que, em si mesma, a intelec&#231;&#227;o &#233; mais abrangente do que aquilo que a representa, do que o s&#237;mbolo.</p><p>No estrito rigor filos&#243;fico, ent&#227;o, podemos dizer que a ret&#243;rica &#233; mais abrangente que a po&#233;tica, pois agir<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-9" target="_self">9</a> &#233; um ato mais acabado do que imaginar; e que a dial&#233;tica &#233; mais abrangente do que a ret&#243;rica, pois refletir sobre os princ&#237;pios comuns do agir &#233; mais abrangente do que o pr&#243;prio agir em particular. E a anal&#237;tica, por sua vez, conduz a algo mais abrangete do que a dial&#233;tica, pois leva &#224; apreens&#227;o da causa comum &#250;ltima, necess&#225;ria e perene do agir.</p><p>Mesmo com respeito ao pr&#243;prio ato de filosofar, n&#227;o se utiliza uma imagem, uma evoca&#231;&#227;o, ao dizer que come&#231;a pelo espanto? Mas &#233; necess&#225;rio entender que &#233; princ&#237;pio n&#227;o no sentido de uma etapa que depois &#233; superada pelo esclarecimento. &#201; no sentido de que toda a contempla&#231;&#227;o filos&#243;fica est&#225; virtualmente contida nesse princ&#237;pio. Se acaba o espanto, a filosofia se torna a busca por uma sistema que tenha coer&#234;ncia pr&#243;pria e independente. E essa postura leva, depois, a uma tens&#227;o: ou voc&#234; fica com seu sistema fechadinho ou com a inesgotabilidade do real. Voc&#234; ter&#225; de escolher o sistema do real que sua mente inventou, ou o real. E muitos fil&#243;sofos optaram pelo pr&#243;prio sistema.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>Vida e Doutrina dos Fil&#243;sofos Ilustres, p. 191</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>E, para arematar ao modo peripat&#233;tico, podemos dizer que a alma dessas partes &#233; a filosofia primeira, ou metaf&#237;sica, pois as re&#250;ne naquilo que t&#234;m de maximamente comum. </p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Po&#233;tica, p. 39 na edi&#231;&#227;o da Aut&#234;ntica</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p><em>Averroe&#8217;s Short Commentaries on Aristotle&#8217;s&#8221; Topics</em>&#8221; <em>&#8220;Rhetoric</em>&#8221; <em>and Poetics&#8221;</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p><em>Expositio libri Posteriorum Analyticorum</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Arist&#243;teles define a Ret&#243;rica como <em>a capacidade de descobrir o que &#233; conveniente em cada caso com o fim de persuadir.</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Por exemplo: Carpeaux diz que Homero se destaca entre todos os poetas pela capacidade solene de narrar a tens&#227;o entre inimigos de um tal modo que dela se desvendam virtudes e defeitos m&#250;tuos.</p><p>O Poeta d&#225; espa&#231;o para o elogio - &#224;s vezes at&#233; maior - do advers&#225;rio. Dando-nos um prisma da tens&#227;o humana mais abrangente do que o mero relato das gl&#243;rias de um povo.</p><p>N&#227;o nos estranha, ent&#227;o, que Homero seja encarado - nesse sentido - como o primeiro fil&#243;sofo, e que a dial&#233;tica tenha sido t&#227;o bem cultivada entre os que se valeram de seus cantos. Porque ser capaz de enxergar com precis&#227;o o outro lado de uma controv&#233;risa &#233; um dos pontos de parida para o rigor dial&#233;tico.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Toda obra de arte possui um c&#237;rculo de verossimilhan&#231;a intr&#237;nseco, digamos, que consiste nas verdades universais que evoca; e um c&#237;rculo extr&#237;nseco, que s&#227;o as pr&#243;prias representa&#231;&#245;es usadas para simbolizar essas verdades. </p><p>Ent&#227;o, nem sempre entramos em conson&#226;ncia com esse segundo c&#237;rculo, pois a for&#231;a dessas representa&#231;&#245;es, desses s&#237;mbolos, depende de que tenham algum lastro analogante com nossas inquieta&#231;&#245;es, ang&#250;stias e experi&#234;ncias reais. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Northrop Frye, na <strong>Imagina&#231;&#227;o Educada,</strong> diz: &#8220;<em>Assim, por mais &#250;ltil qie seja a literatura para o enriquecimento da imagina&#231;&#227;o e do vocabul&#225;rio, seria de um pedantismo atroz utilizar-se dela diretamente como guia para a vida.&#8221;</em></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A tragédia triunfante do Evangelho - Nota breve]]></title><description><![CDATA[A trag&#233;dia &#233; o drama em que o her&#243;i sofre na carne um desastre que transcende sua culpabilidade.]]></description><link>https://renam.substack.com/p/a-tragedia-triunfante-do-evangelho</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/a-tragedia-triunfante-do-evangelho</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Fri, 03 Apr 2026 15:59:51 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%215RZS%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p>A trag&#233;dia &#233; o drama em que o her&#243;i sofre na carne um desastre que transcende sua culpabilidade. Purgando, em si, um erro que o ultrapassa. </p><p>O evangelho &#233; uma trag&#233;dia. S&#243; que diferente. Nele, n&#227;o se trata de um homem que sofre a purga&#231;&#227;o sorteada pelos deuses. &#201; Deus que sofre a purga&#231;&#227;o da fortuna humana. </p><p>Mais do que isso. N&#227;o h&#225; aqui um sofrimento resignado, meramente her&#243;ico. Jesus n&#227;o &#233; apenas um <em>&#252;bermensch</em>. H&#225; uma vit&#243;ria. O Evangelho &#233; uma trag&#233;dia em que o her&#243;i triunfa gloriosamente.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%215RZS%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%215RZS%21%2Cw_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg" width="338" height="600" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:&quot;normal&quot;,&quot;height&quot;:600,&quot;width&quot;:338,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:0,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5RZS!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe003e358-ecab-47ea-9c50-d40ba118e064_338x600.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2 icon-noB79L"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p>S&#243; que esse triunfo tamb&#233;m n&#227;o &#233; apenas um triunfo moral. Segundo Romano Guardini, &#233; isso que distingue Cristo de S&#243;crates, Buda, Conf&#250;cio, Zoroastro, etc. Cristo venceu a realidade da morte. N&#227;o a venceu moralmente, n&#227;o a venceu por uma antecipa&#231;&#227;o meditativa. <strong>Venceu-a ontologicamente. Em si mesma.</strong> E isso s&#243; pode ser realizado por algu&#233;m que tem poder sobre a vida e sobre a morte, por um Deus. </p><p>N&#227;o o deus ambivalente que negocia sacrif&#237;cios, mas o que se sacrifica, que &#233; pura bondade, pois n&#227;o h&#225; maior prova de maior do que dar aquilo de mais precioso por quem se ama: a pr&#243;pria vida. E n&#227;o h&#225; maior prova de f&#233; do que vencer o dado mais inexor&#225;vel de nossos destinos: a pr&#243;pria morte.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A educação em suas últimas consequências]]></title><description><![CDATA[Esbo&#231;o de minha perspectiva filos&#243;fica sobre a educa&#231;&#227;o]]></description><link>https://renam.substack.com/p/a-educacao-em-suas-ultimas-consequencias</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/a-educacao-em-suas-ultimas-consequencias</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 14 Feb 2026 20:40:27 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc7ad76dc-f8e3-4d21-8f11-b333257294f9_500x369.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h2>1. Exorta&#231;&#227;o</h2><p>&#201; comum, quando a vida se torna corrida, dizer a si mesmo:</p><p>&#8212; Estudar Latim, metaf&#237;sica, literatura? Farei isso depois. Depois da promo&#231;&#227;o, depois de passar naquele exame. </p><p>Ent&#227;o, quando se casa, pensa-se: </p><p>&#8212;Quando as coisas se acalmarem, terei tempo. </p><p>Por outro lado, ao se aposentar, parece natural dizer:</p><p>&#8212; Agora? Na minha idade, mere&#231;o descansar. J&#225; n&#227;o tenho paci&#234;ncia para interesses juvenis. </p><p>E isso tudo soa razo&#225;vel. Apenas soa, mas n&#227;o &#233;.</p><p>Outros, mais disciplinados, talvez digam: &#8212; Primeiro os deveres do pr&#243;prio estado!</p><p>Mas n&#227;o existe um &#250;nico dever na vida que coloque o estudo em primeiro lugar. O dever principal &#233; sustentar a fam&#237;lia, ministrar os sacramentos ou rezar o of&#237;cio divino. E todos esses deveres  orbitam o primeiro dever da religi&#227;o. </p><p>Peguemos alguns exemplos. C&#237;cero, um estadista, dizia que n&#227;o h&#225; uso mais feliz do tempo do que o &#243;cio filos&#243;fico. S&#227;o Bernardo, um monge, escreveu seus livros durante os momentos de descanso em suas viagens. Santo Tom&#225;s, sacerdote, jamais deixou de ensinar, mesmo quando celebrava tr&#234;s missas por dia. </p><p>Eis o segredo: o estudo &#8212; <em>studium</em> &#8212; nasce de uma escolha livre. Ele n&#227;o exclui as outras dimens&#245;es da vida. N&#227;o foge delas: integra-as, como elementos organicamente articulados. Para quem tem o h&#225;bito do estudo, qualquer situa&#231;&#227;o da vida, qualquer circunst&#226;ncia prosaica, qualquer coisa que se ou&#231;a ou se veja, torna-se mat&#233;ria de medita&#231;&#227;o e reflex&#227;o. N&#227;o por inten&#231;&#227;o de em tudo ter a pr&#243;pria opini&#227;o, mas com o desejo de, pouco a pouco, enxergar a totalidade da pr&#243;pria experi&#234;ncia, dos pr&#243;prios atos, sob aquela unidade mais e mais abrangente. </p><p>Essa op&#231;&#227;o livre &#233; a op&#231;&#227;o daqueles que perceberam, tamb&#233;m, a finitude da vida e, com efeito, da necessidade de algo que nos oriente ao que resiste &#224; morte. </p><p>Di&#243;genes La&#233;rcio relata que S&#243;crates, j&#225; idoso, come&#231;ou a aprender lira; e, quando lhe perguntaram por qu&#234;, respondeu: &#8220;Para aprender alguma coisa a mais antes de morrer.&#8221; Com efeito, a ningu&#233;m &#233; permitido dizer que um amor bem ordenado enfraquece com o tempo &#8212; ele se fortalece. Do contr&#225;rio n&#227;o havia amor. E ningu&#233;m em s&#227; consci&#234;ncia diz que um desejo ordenado destr&#243;i os outros; ao contr&#225;rio, corrige-os, fortalece-os e eleva-os: ressignifica-os.</p><p>Se essa harmonia falta, ent&#227;o &#233; leg&#237;timo perguntar se <strong>&#233; </strong>verdadeiro amor &#8212; ou verdadeira capacidade para ele: isto &#233;, se <strong>h&#225; </strong>verdadeiro amor. <strong>Pois um cora&#231;&#227;o dividido entre bens honestos, mas concorrentes, &#233; informe demais para conservar qualquer deles. Perder&#225; a todos. </strong></p><h3>2. A metanoia: perspectiva &#233;tica</h3><p>H&#225; muito tempo, desde quase sempre, homens s&#225;bios perceberam que a condi&#231;&#227;o humana possui uma nota distintiva muito clara perante os demais animais. Cada homem sempre precisa reaprender o que &#233; ser homem. Para isso surgiram as institui&#231;&#245;es educativas: porque a tecnologia mais fundamental que podemos dominar &#233; aquela pela qual possamos nos tornar aquilo que devemos ser: homens plenos. Tal plenitde foi um dia chamada de beatitude, de felicidade. At&#233; mesmo o povo de Israel, o povo eleito, por debaixo dos escombros do Templo, teve de se lembrar novamente dos preceitos divinos.</p><p>Do ponto de vista da perfei&#231;&#227;o completa da natureza, nenhum homem a pode alcan&#231;ar individualmente, j&#225; que a natureza (esp&#233;cie) est&#225; fissurada por esse desajuste ontol&#243;gico a que n&#243;s, crist&#227;os, chamamos de pecado, e que atravessa toda a esp&#233;cie, n&#227;o sendo apenas uma imperfei&#231;&#227;o individual. A trag&#233;dia grega nos d&#225; largo testemunho desse fato: todo homem erra, mesmo involuntariamente. E se todo homem erra, esse erro, essa falha &#233; estrutural, ontol&#243;gica e irremedi&#225;vel por si mesma. </p><p>Foi diante disso que os fil&#243;sofos indagaram o que (na esp&#233;cie), quando em ato, poderia receber essa qualifica&#231;&#227;o, que noutros termos, mais bem postos, designa a felicidade. Perceberam que algu&#233;m pode ser &#243;timo linguista, mas ignaro na higiene bucal; outro pode ser um primor de virtudes morais, mas facilmente sujeito a enfermidades; outro pode ser um genial matem&#225;tico, mas um est&#250;pido quanto &#224;s a&#231;&#245;es. </p><p>A filosofia, se formos atentos ao sentido fundante da palavra, n&#227;o pode ser um ramo espec&#237;fico do conhecimento nem o ramo comum, nem as condi&#231;&#245;es pr&#233;vias para o conhecimento. Em seu sentido fundamental, penso que seja a consci&#234;ncia de uma aus&#234;ncia na alma. N&#227;o de qualquer aus&#234;ncia, mas daquilo mais necess&#225;rio &#224; pr&#243;pria alma. &#201; por isso que a discuss&#227;o mais presente &#224; filosofia, mais do que qualquer uma, &#233; acerca da <strong>felicidade</strong>.</p><p>E da&#237; veio a subsequente conclus&#227;o: a &#250;nica parte da alma que poderia receber essa qualifica&#231;&#227;o de perfei&#231;&#227;o potencial &#233; o que nela conduz &#224;quela bem-aventuran&#231;a que perfaz essas tr&#234;s condi&#231;&#245;es: <strong>ser maximamente desej&#225;vel, ser imperec&#237;vel, ser por si completa. </strong></p><p>Ora, o bem que n&#227;o &#233; maximamente desej&#225;vel, &#233; saci&#225;vel, e o que &#233; saci&#225;vel &#233; tamb&#233;m descart&#225;vel; o bem que n&#227;o &#233; imperec&#237;vel &#233; suscet&#237;vel de corrup&#231;&#227;o, de mudan&#231;a, e portanto tempor&#225;rio; ao que temos a terceira condi&#231;&#227;o: sua completude intr&#237;nsenca, pois um bem incompleto &#233; um bem finito, e, com efeito, saci&#225;vel&#8230; Como diz Santo Efr&#233;m num serm&#227;o: a fonte perfeita deve vencer nossa sede, n&#227;o o contr&#225;rio.</p><p>E o tipo de vida que denominaram para alcan&#231;&#225;-lo foi designada de contemplativa. Embora o fil&#243;sofo, ou algu&#233;m desejoso de santidade, amante dessa vida e de seu bem, n&#227;o alcance a perfei&#231;&#227;o da natureza: por se inclinar ao seu bem mais perfeito, ele &#233; o que tamb&#233;m est&#225;, consequentemente, mais pr&#243;ximo de alcan&#231;ar qualquer desses bens menos perfeitos. <strong>J&#225; que o que procura o mais, tamb&#233;m pode alcan&#231;ar o menos. Quem vai &#224; fonte, bebe de tudo o que pode fluir da fonte.</strong></p><h2>3. A vis&#227;o cosmol&#243;gica do aprendizado</h2><p>A filosofia come&#231;ou com um olhar voltado para o c&#233;u, em busca das causas. O c&#233;u nos obriga a procurar causas porque seus fen&#244;menos n&#227;o s&#227;o acess&#237;veis diretamente aos sentidos. Ele exige abstra&#231;&#227;o : a vis&#227;o do intelecto (<em>noesis</em>). Sua beleza, ao contr&#225;rio da beleza das coisas imediatamente percebidas pelos sentidos, &#233; a beleza da ab&#243;bada inteira e, enfim, da ordem completa que se estende sobre n&#243;s e que avan&#231;a conforme os limites da esfera se expandem &#8212; por isso a esfera &#233; tomada como modelo de perfei&#231;&#227;o invari&#225;vel. </p><p>Da&#237; nasce a no&#231;&#227;o mais profunda de contempla&#231;&#227;o: ver o todo. Compreender a partir do pr&#243;prio mundo &#233; compreender no assombro diante do todo &#8212; sempre com uma mistura de admira&#231;&#227;o inef&#225;vel e descoberta jubilosa.</p><p>Compreender &#224; margem do mundo, a partir de um cub&#237;culo de concreto ou de uma resma de papel, &#233; sempre correr o risco de reduzir a totalidade vital do real a coisas mortas e manej&#225;veis &#8212; ou a troc&#225;-la por meras palavras. </p><p>Arrisco dizer que a intelec&#231;&#227;o &#233; quase inalcan&#231;&#225;vel sem uma exposi&#231;&#227;o pr&#233;via &#224; riqueza m&#250;ltipla do mundo. Pois s&#243; compreendemos as formas reais quando elas se manifestam a n&#243;s &#8212; n&#227;o apenas por meio de palavras que apenas aludem remotamente a elas. Mesmo a medita&#231;&#227;o, nesse caso, torna-se medita&#231;&#227;o sobre o nada &#8212; ou melhor, palavras sobre palavras. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstackcdn.com%2Fimage%2Ffetch%2F%24s_%21TqWR%21%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep%2Fhttps%253A%252F%252Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%252Fpublic%252Fimages%252F7a2a602d-122e-422c-9bdb-702dc4b32e82_201x251.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!TqWR!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7a2a602d-122e-422c-9bdb-702dc4b32e82_201x251.jpeg 424w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image buttonBase-GK1x3M"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" class="icon-noB79L"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image buttonBase-GK1x3M"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" 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A perspectiva psicol&#243;gica: </h2><p>Por isso, o estudo n&#227;o come&#231;a com a leitura, mas com o assombro diante da realidade. E o Estagirita nos ensina que o primeiro ato contemplativo do entendimento &#233; o assombro diante da totalidade do cosmo. </p><p>Esse assombro n&#227;o &#233; uma palavra no sentido corrente, n&#227;o &#233; um sinal, nem mera impress&#227;o. &#201;, sim, a manifesta&#231;&#227;o emp&#237;rica do logos total, da palavra por que tudo &#233; posto &#224; luz do ser. Na experi&#234;ncia do espanto, o logos, o ethos e a physis se apresentam harmoniosos. Aqui, a alma inteira contempla: a sensa&#231;&#227;o, a imagina&#231;&#227;o, a intelig&#234;ncia e os afetos s&#227;o absorvidos por aquela luz que desvela tudo o que &#233;. E assim nova vida toda &#233; investida na explicita&#231;&#227;o dessa experi&#234;ncia que envolve nosso ser inteiro. Filosofamos.</p><p>Como diz Hugo de S&#227;o V&#237;tor, do assombro nascem as perguntas, e das perguntas surge a investiga&#231;&#227;o.Esses tr&#234;s atos podem ocorrer sem qualquer leitura &#8212; mas nenhuma leitura &#233; aut&#234;ntica sem eles. </p><p>Segundo Santo Tom&#225;s e Hugo de S&#227;o V&#237;tor, podemos dizer que a alma avan&#231;a em sua busca da verdade por tr&#234;s movimentos graduais.</p><p>H&#225; a <strong>Admira&#231;&#227;o</strong> &#8212; quando voltamos nossa aten&#231;&#227;o &#224;s coisas, percebemos sua ordem e nos intrigamos com sua natureza e origem.</p><p>H&#225; o <strong>Louvor</strong> &#8212; quando conhecemos algo e, ao express&#225;-lo, nos alegramos com o que viemos a conhecer.</p><p>E h&#225; a <strong>Jubila&#231;&#227;o</strong> &#8212; quando percebemos que s&#243; expressamos parcialmente aquilo que, em sua plenitude, &#233; inef&#225;vel.</p><p>Al&#233;m disso, parece n&#227;o haver alegria sens&#237;vel ou emocional mais intensa e duradoura do que a contempla&#231;&#227;o da verdade. O exerc&#237;cio do intelecto n&#227;o sufoca o prazer nem a alegria; ao contr&#225;rio, o prazer e a alegria encontram seu lugar pr&#243;prio por meio da atividade intelectual. Quando a raz&#227;o &#233; negligenciada, o prazer busca substitutos para sua alegria &#8212; substitutos que embotam o esp&#237;rito, pois invertem a hierarquia das faculdades humanas.</p><p>Um leitor desatento de Hugo pode achar que o estudo come&#231;a com a leitura, mas o &#250;nico estudo que come&#231;a efetivamente com a <em>lectio </em>&#233; o estudo da Sagrada Escritura, porque &#233; a palavra pela qual Deus se revela aos homens pessoalmente, n&#227;o sob o v&#233;u da cria&#231;&#227;o. A Sagrada Escritura come&#231;a com a <em>lectio </em>porque &#233; algu&#233;m falando conosco, donde brota um di&#225;logo real, o que Santo Agostinho chamava de Verbo interior. </p><p>Para precisar o lugar insubstitu&#237;vel da Escritura, bastam essas palavras de Santo Tom&#225;s comentando a Ep&#237;stola aos Cor&#237;ntios:</p><p><em>&#8220;Aqui &#233; preciso saber que Deus Pai &#233; a fonte de toda a luz. De tal luz abundante deriva a imagem dessa mesma luz, isto &#233;, o Filho, Verbo de Deus. Esse esplendor da gl&#243;ria, imagem da luz abundante, assumiu a nossa carne e realizou neste mundo muitas obras gloriosas e divinas. A manifesta&#231;&#227;o dessa luz &#233;, portanto, o Evangelho, raz&#227;o pela qual o <strong>Evangelho &#233; chamado o conhecimento da claridade de Cristo, conhecimento esse que possui uma virtude iluminadora.</strong>&#8221;</em></p><h2>5. A perspectiva pol&#237;tica: educa&#231;&#227;o &#233; formar uma genealogia</h2><p>Sobre esse tema, se o examinarmos mais profundamente, veremos que n&#227;o existe propriamente uma profiss&#227;o pol&#237;tica, nem uma estritamente ligada &#224; administra&#231;&#227;o da justi&#231;a. O pol&#237;tico &#8212; o homem que move os outros, que p&#245;e a <em>p&#243;lis</em> em movimento &#8212; nada mais &#233; do que o homem prudente, capaz de conduzir e atrair os demais para a virtude. O pol&#237;tico, no sentido concreto, real, &#233; quem move um p&#243;lis, mesmo que diminuta.</p><p>Em outras palavras, em pot&#234;ncia, todos os seres humanos s&#227;o pol&#237;ticos por natureza. Mas uma comunidade saud&#225;vel &#233; guiada por aqueles que o s&#227;o de modo heroico e exemplar. </p><p>&#201; assim que C&#237;cero compreendia o orador, o pol&#237;tico: como o fil&#243;sofo eloquente. Em contraste com os fil&#243;sofos da Academia &#8212; que se confinavam a sutilezas e inicia&#231;&#245;es esot&#233;ricas &#8212; ele acreditava que a sabedoria deveria ser difusiva, que deveria falar.</p><p>Esse &#233; o ideal do orador: um homem s&#225;bio, suficientemente eloquente para refinar a linguagem e comunicar a sabedoria a todos.</p><p>Por isso que <strong>o elemento pol&#237;tico essencial da educa&#231;&#227;o &#233; o encontro entre aquele que sabe e deseja ardentemente ensinar e aqueles que desejam ardentemente aprender. </strong>Com o tempo, essas mesmas pessoas adquirir&#227;o o justo senso do que &#233; necess&#225;rio para formar outro, assim como elas pr&#243;prias foram formadas. &#201; assim que a institui&#231;&#227;o educativa, como toda sociedade, come&#231;a numa monarquia &#8212; <strong>de um para muitos, n&#227;o de muitos para um.</strong></p><p>Ent&#227;o, em certo momento, ap&#243;s gera&#231;&#245;es ligadas nessa cadeia virtuosa, surge algu&#233;m que, de algum modo, se torna a imagem completa e sint&#233;tica desse mosaico. <strong>&#201; a isso que chamo de genealogia da sabedoria.</strong></p><p>A soma de institutos, escolas, curr&#237;culos, m&#233;todos, investimentos, edif&#237;cios e incentivos n&#227;o pode produzir um homem s&#225;bio. Mas todas essas coisas podem nascer de algu&#233;m que dedicou sua vida &#224; verdade. Isso tampouco pode ocorrer por meios institucionais, pois as institui&#231;&#245;es n&#227;o podem preceder aqueles que as instituem. Portanto, ou j&#225; n&#227;o existem s&#225;bios capazes de tal obra, ou nossas sociedades s&#227;o incapazes de reconhec&#234;-los.</p><p>Um s&#243; homem s&#225;bio basta &#8212; e, portanto, um verdadeiro disc&#237;pulo basta. Por isso digo: a miss&#227;o de um professor est&#225; rezalida se, como de todo artista, formar um &#250;nico disc&#237;pulo. </p><h2>6. Uma vis&#227;o m&#237;stica da educa&#231;&#227;o</h2><p>O estudo tamb&#233;m pode ser uma forma de devo&#231;&#227;o, uma continua&#231;&#227;o da ora&#231;&#227;o. Na verdade, torna-se mais fecundo quando o &#233;. Contudo, seus frutos s&#227;o ainda mais fortes quando o estudo se torna tamb&#233;m uma forma de ascese.</p><p>Ascese em que sentido? Estudar mesmo quando n&#227;o temos vontade? N&#227;o. Refiro-me ao conhecimento de seu verdadeiro fim e, por causa disso, &#224; disposi&#231;&#227;o em renunciar a certas ocupa&#231;&#245;es e h&#225;bitos que impedem sua realiza&#231;&#227;o &#8212; ainda que apenas por um tempo. Quando amamos dessa maneira, os frutos s&#227;o profundos e duradouros. Mas ainda limitados. H&#225; mais. At&#233; aqui, nosso amor visou ao nosso pr&#243;prio bem &#8212; por mais nobre que seja &#8212; investido em um objeto, em um tema de estudo.</p><p>No entanto, somente quando estudamos por amor ao pr&#243;ximo a alma alcan&#231;a o grau mais alto de devo&#231;&#227;o &#224; verdade. Pois ent&#227;o nosso amor &#233; movido, antes de tudo, por pessoas. E o amor pessoal &#233; a maior fonte de sacrif&#237;cio &#8212; e, portanto, de dedica&#231;&#227;o.</p><p>Ainda mais se essa Pessoa for Jesus Cristo. Creio que, ent&#227;o, o intelecto adquire um poder ilimitado. Pois a verdade e o amor que o movem s&#227;o uma s&#243; e mesma coisa. Estudar, nesse caso, &#233; amar a pr&#243;pria Verdade. E, como diz S&#227;o Tom&#225;s, <strong>o amor &#233; causa de semelhan&#231;a.</strong></p><p>Ora, o desejo mais profundo de Jesus Cristo era que todos conhecessem o Pai como o Filho O conhece. Foi por isso que Ele Se entregou completamente na Cruz &#8212; pois a maior prova de amor &#233; dar a vida pelos amigos. No Seu caso, ao morrer, deu-nos a pr&#243;pria Vida: a bem-aventuran&#231;a eterna.</p><p>Vista sob essa luz, quando conformamos nossa inten&#231;&#227;o &#224; de Cristo, j&#225; que o amor causa semelhan&#231;a, e j&#225; que o amor a Cristo &#233; a causa suprema da sabedoria, chegamos a esta conclus&#227;o: dar Cristo aos outros &#233; o maior motivo para o estudo.</p><p>E se a for&#231;a do motor determina o alcance daquilo que &#233; move &#8212; e se esse motivo &#233; onipotente &#8212; ent&#227;o o estudo torna-se inesgot&#225;vel e sem fim. Pois &#233; pura caridade. Sempre h&#225; mais a dar, porque sempre h&#225; mais a amar, porque houve muito mais de recebido.</p><p>Assim compreendido, torna-se f&#225;cil perceber at&#233; onde pode chegar uma cultura inspirada por tais ideais pedag&#243;gicos. Ela alcan&#231;a o c&#233;u. E, como efeito colateral tempor&#225;rio, traz um pouco do c&#233;u &#224; terra.</p><h2>7. Como come&#231;ar? Conselhos a um aluno</h2><p><strong>Investiga aquilo que admiras.</strong><br>Su&#225;rez, comentando Arist&#243;teles, diz que a filosofia come&#231;a com o assombro seguido de inquieta&#231;&#227;o. Em outras palavras, uma admira&#231;&#227;o que n&#227;o leva a questionar &#233; curiosidade, inveja ou mero eco de algo j&#225; conhecido. Por outro lado, a d&#250;vida sem assombro diante da realidade &#233; mero esp&#237;rito cr&#237;tico. Olha, pois, para aquilo que verdadeiramente desperta teu interesse e investiga as raz&#245;es desse interesse.</p><p><strong>Busca a ordem.</strong><br>No que nos interessa, certa ordem se imp&#245;e, pois &#233; irrazo&#225;vel n&#227;o come&#231;ar pelo come&#231;o &#8212; perguntando sobre aquilo que ainda est&#225; al&#233;m do nosso alcance. A ordem &#233; a justa propor&#231;&#227;o das partes em rela&#231;&#227;o ao todo.</p><p><strong>Pratica a prud&#234;ncia.</strong><br>Somente pela prud&#234;ncia podemos ordenar os bens segundo os meios adequados &#224;s nossas circunst&#226;ncias. Praticar a prud&#234;ncia nada mais &#233; do que ordenar os bens das faculdades inferiores em dire&#231;&#227;o ao bem superior da alma.</p><p><strong>S&#234; constante.</strong></p><p>A const&#226;ncia no estudo &#8212; e em qualquer atividade &#8212; n&#227;o &#233; exigida apenas para suportar dificuldades na busca do conhecimento, da arte ou da virtude.</p><p>A quest&#227;o &#233; mais profunda. Ela diz respeito &#224; vitalidade da alma.</p><p>O estudo constante confere &#224; mem&#243;ria uma certa unidade de afei&#231;&#227;o ligada &#224; vontade. A vontade, por sua vez, inclina o intelecto de modo mais livre e cont&#237;nuo aos seus atos de compreens&#227;o.</p><p>Na const&#226;ncia, n&#227;o apenas aquela atividade ou prop&#243;sito ganha firmeza, mas a alma inteira cresce em integridade.</p><p>Esse crescimento afeta tanto a a&#231;&#227;o quanto a capacidade de ligar cada coisa conhecida a todas as outras, por meio da vivacidade da mem&#243;ria, da for&#231;a est&#225;vel da vontade e da penetra&#231;&#227;o mais cont&#237;nua do intelecto. A const&#226;ncia, portanto, &#233; a const&#226;ncia do ato vital da alma.</p><p>&#201; tornar-se mais vivo.</p><p>Por fim&#8230;</p><p>Lembra-te de que, quando desejamos apenas ensinar, o limite do nosso conhecimento &#233; aquilo que j&#225; sabemos. Mas quando estamos dispostos a aprender com todos, o horizonte do nosso aprendizado torna-se ilimitado.</p><p>Aprendemos sempre de quatro modos diferentes:</p><ul><li><p>Observando a natureza</p></li><li><p>Pelo exame de si mesmo</p></li><li><p>Pela conversa</p></li><li><p>Pela leitura</p></li></ul><p>Em muitas cidades bo&#234;mias, h&#225; muita conversa e pouca disciplina na leitura. Em outras, mais empreendedoras, h&#225; disciplina, mas pouca observa&#231;&#227;o do mundo. Em outras ainda, mais introspectivas, h&#225; muita leitura e pouca conversa.</p><p>O exame de si mesmo, por&#233;m, &#233; necess&#225;rio em toda parte. Se desenvolvermos os quatro, damos saltos muito maiores no aprendizado.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Biografia da filosofia no Brasil]]></title><description><![CDATA[O panorama de Lu&#237;s Washington Vita]]></description><link>https://renam.substack.com/p/epitome-da-filosofia-no-brasil</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/epitome-da-filosofia-no-brasil</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 07 Feb 2026 17:38:00 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90336e3d-ed05-43a7-b6ad-cf60ccfd9124_1200x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nota</strong>: Esse texto &#233; a transcri&#231;&#227;o do ensaio sobre a <em>Filosofia no Brasil,</em> de <strong>Lu&#237;s Washington Vita</strong>, presente em seu &#8220;<strong>O Mito de Hefestos</strong>&#8221;, colet&#226;nea de ensaios, de 1959. Curiosamente, o exemplar que tenho em m&#227;os foi encontrado por mim num sebo aleat&#243;rio de Curitiba, e traz consigo uma dedicat&#243;ria manuscrita do pr&#243;prio autor.</p><p></p><h4><strong>Antecedentes coloniais</strong></h4><p>Cada fil&#243;sofo depende, de certo modo, de seus precursores. A regra &#233; geral, variando apenas a medida desta depend&#234;ncia, mas de ningu&#233;m podemos afirmar que seja absolutamente independente. Portanto, todo sistema filos&#243;fico representa um membro num contexto supra-individual. Da&#237; Bruno Bauch considerar fundamental o fato de que &#8220;todo trabalho sistem&#225;tico concreto s&#243; pode lograr a pr&#243;pria fecundidade sistem&#225;tica atrav&#233;s da continuidade das rela&#231;&#245;es sistem&#225;ticas em que o mesmo sistema adquiriu vida hist&#243;rica. Mas, se se quisesse desprender da vida hist&#243;rica e espiritual que agora se converteu em realidade, isolar-se d&#234;le e come&#231;ar do nada, condenar-se-ia a si mesmo a uma &#244;ca vaidade destitu&#237;da de sentido&#8221;.</p><p>Como consequ&#234;ncia do supradito, h&#225; filosofia num pa&#237;s, quando existem nele fil&#243;sofos. E no Brasil sempre houve alguns esp&#237;ritos preocupados com os altos problemas da filosofia, desde o nosso primeiro s&#233;culo. Com os colonizadores, certamente, para aqui vieram homens embebidos do esp&#237;rito do Renascimento, sem d&#250;vida de mentalidade antag&#244;nica aos valores medievais. A subitaneidade e expans&#227;o dos grandes acontecimentos produzidos nos dom&#237;nios da geografia, da hist&#243;ria natural, da astronomia, da erudi&#231;&#227;o, da t&#233;cnica e das mundivid&#234;ncias, cuja correla&#231;&#227;o constitui um dos mais sutis problemas da sociologia da ci&#234;ncia, n&#227;o se verificaram, &#233; &#243;bvio, apenas em Portugal metropolitano, mas se apresentaram no mundo lusiada, com caracter&#237;sticas peculiares.</p><p>Com efeito, tanto quanto &#233; poss&#237;vel reduzir a esquema t&#227;o complexo e impetuoso movimento &#8212; o das Descobertas dos gale&#245;es lusitanos &#8212; pode dizer-se que os grandes acontecimentos renascentistas foram consequ&#234;ncia dos fatos propostos &#224; considera&#231;&#227;o intelectual pela revivesc&#234;ncia da literatura greco-romana e pelo alargamento do espa&#231;o terrestre e celeste, resultante dos descobrimentos, os quais, no dizer de Humboldt, como que duplicaram a obra da cria&#231;&#227;o, al&#233;m da muta&#231;&#227;o, que implicou a nova ordem de problemas sobre o homem. O resultado mais fecundo foi o passo imenso que representou a substitui&#231;&#227;o de autoridades livrescas da Idade M&#233;dia pelas da Antiguidade, na forma&#231;&#227;o do esp&#237;rito de objetividade e da mentalidade cient&#237;fica. Isto &#233;, a miss&#227;o primordial da modernidade cient&#237;fica consistiu em expurgar o saber da crosta de erros e equivocadas interpreta&#231;&#245;es que a Idade M&#233;dia tolerava, regenerando-o nas fontes puras e sempre vivas da ci&#234;ncia hel&#234;nica. </p><p>Por isso se designa, comumente, de Renascen&#231;a o s&#233;culo XVI, e a designa&#231;&#227;o, embora orgulhosa e at&#233; pedante, &#233; apropriada para sugerir a sensa&#231;&#227;o que o homem de Quinhentos teve de renascer com alentados modos de vida espiritual que, de certo modo, se haviam interrompido ou atrofiado durante s&#233;culos. Pelo imperativo das circunst&#226;ncias, o saber encerrado nos livros da Antiguidade cl&#225;ssica tornou-se, assim, o saber dominante e privilegiado, ditando, consequentemente, o rumo inicial do novo ideal cient&#237;fico. Este ideal cient&#237;fico chama Joaquim de Carvalho de restitui&#231;&#227;o, pelo sentimento retrospectivo que o animava.</p><p>Enquanto, pois, os estudos human&#237;sticos renovam as ci&#234;ncias, na &#8220;ocidental praia lusitana&#8221; armam-se gale&#245;es que singram os sete mares. As descobertas coadjuvavam os crit&#233;rios da observa&#231;&#227;o e da experi&#234;ncia, contribui&#231;&#227;o esta das mais importantes da intelig&#234;ncia extremo-ocidental ao pensamento moderno. &#201; curioso observar, aqui, que a aten&#231;&#227;o estudiosa dos portugueses dos Descobrimentos se tenha voltado, sempre e sempre, para a n&#225;utica. Sagres &#233; o grande s&#237;mbolo. Portugal convertera-se numa esp&#233;cie de celeiro e cantina de marinheiros, e a pr&#243;pria aristocracia &#8212; chefes de quilhas &#8212; tinha na literatura um entretenimento para distrair-se das fadigas e preocupa&#231;&#245;es de uma vida cheia de epopeia. De fundo eminentemente utilitarista, a cultura metropolitana distra&#237;a a maruja com seus autos, recolhendo da oficialidade os apontamentos dos grandes cruzeiros. Criada e desenvolvida pela navega&#231;&#227;o, a ci&#234;ncia matem&#225;tica em Portugal teve seu ponto culminante em Pedro Nunes, que, por sua vez, teve em Martim Afonso de Sousa, um marinheiro rec&#233;m-chegado do Brasil, uma fonte de sugest&#245;es e, principalmente, de problemas n&#225;uticos ligados &#224; cosmografia.</p><p>Este fato demonstra o profundo v&#237;nculo existente entre as navega&#231;&#245;es e a cultura, no Renascimento. Ali&#225;s, o concurso dos Descobrimentos foi enorme e incalcul&#225;vel para o desenvolvimento do esp&#237;rito europeu moderno, para o desenvolvimento do humanismo, para a forma&#231;&#227;o do sentido cr&#237;tico, para a supress&#227;o do crit&#233;rio de autoridade em ci&#234;ncia e em filosofia, e para os lentos progressos do <em>homo sapiens</em> diante da tirania do <em>homo credulus</em>.</p><p>Contudo, a evolu&#231;&#227;o, que parecia iniciar-se, &#233; violentamente interrompida por um movimento de restaura&#231;&#227;o cat&#243;lica: a Contra-Reforma. Por alvar&#225; de 12 de setembro de 1564, Portugal adota a ortodoxia firmada pelo Conc&#237;lio de Trento, e os professores de filosofia s&#227;o obrigados a jurar, periodicamente, com toda a solenidade, sua obedi&#234;ncia &#224; f&#233; cat&#243;lica. A a&#231;&#227;o fiscalizadora do Santo Of&#237;cio, a catequese da Companhia de Jesus e a vigil&#226;ncia do Pa&#231;o fixaram balizas ao ambiente do pensamento. O Conc&#237;lio de Trento estipulou as invari&#226;ncias da doutrina, como sistema religioso, moral e metaf&#237;sico. Para al&#233;m delas n&#227;o se podia ir. Os livros eram inspecionados pelo Desembargo do Pa&#231;o, pela autoridade eclesi&#225;stica ordin&#225;ria e pelo Santo Of&#237;cio, para lograrem ser impressos. E conforme a inst&#226;ncia tinham uma chancela de aprova&#231;&#227;o: <em>nihil obstat</em>, <em>imprimatur</em>.</p><p>Gra&#231;as a essa cortina de incenso espargida entre hom&#237;lias pelos executores das decis&#245;es do Conc&#237;lio de Trento, o mundo lusiada entrou em colapso. A pol&#237;tica de intencional insularidade sofrida pelo pensamento portugu&#234;s, em consequ&#234;ncia da ressaca de intoler&#226;ncia provocada pelo alastramento da rebeli&#227;o protestante, atingira fundo. Entre o Portugal das Descobertas e o Portugal Santificado se interp&#244;s o obscurantismo propositado. Ou, segundo as palavras de Antero de Quental: &#8220;Sa&#237;mos duma sociedade de homens vivos, movendo-se ao ar livre: entramos num recinto acanhado e quase sepulcral, com uma atmosfera turva pelo p&#243; dos livros velhos, e habitado por espectros de doutores&#8221;.</p><p>Elemento essencial, dentre os fatores externos que inibiram o pensamento lusiada, foi a censura, ao mesmo tempo r&#233;gia e eclesi&#225;stica, zelote sem entranhas de Trono e do Altar. Claro est&#225; que erraria quem atribu&#237;sse ao Conc&#237;lio de Trento a iniciativa em tal mat&#233;ria, pois ele se limitara t&#227;o apenas a refor&#231;ar o cinto de ferro com que a Igreja, em nome da religi&#227;o, comprimiu o c&#233;rebro da catolicidade. Efetivamente, j&#225; em 1480, v&#225;rios bispos haviam ordenado que nenhum livro fosse publicado sem a revis&#227;o do delegado da autoridade eclesi&#225;stica. O papa Alexandre VI estendera a censura a todos os povos submetidos a Roma, proibindo, na bula de 1501, aos impressores, editarem qualquer escrito que n&#227;o houvesse sido visto ou examinado pelo arcebispo, dos seus vig&#225;rios ou dos oficiais, sob pena de excomunh&#227;o e multa fixada pelas autoridades eclesi&#225;sticas.</p><p>Em 1517, o conc&#237;lio laterano, na X sess&#227;o, inseriu um decreto proibindo que se imprimisse qualquer livro sem exame pr&#233;vio do bispo, na diocese onde se tivesse feito a impress&#227;o. De qualquer maneira, por&#233;m, os decretos formulados pelo Conc&#237;lio de Trento, ampliat&#243;rios dos de outros anteriores, do mesmo jaez, visavam &#224; edi&#231;&#227;o e &#224; impress&#227;o dos livros, que eram examinados meticulosamente e autorizados pelo Ordin&#225;rio (bispo ou arcebispo em sua diocese, na plena posse de sua jurisdi&#231;&#227;o).</p><p>Todos os esfor&#231;os foram mobilizados para o fiel cumprimento das recomenda&#231;&#245;es tridentinas, com agentes do Santo Of&#237;cio varejando pal&#225;cios ou simples vivendas, e indagando aos comandantes dos gale&#245;es que entrassem torre de Bel&#233;m adentro, se traziam livros suspeitos e prejudiciais &#224; religi&#227;o crist&#227;, fazendo ver aos respectivos capit&#227;es, qu&#227;o vantajoso seria para eles entreg&#225;-los, no caso afirmativo, para n&#227;o se proceder contra &#8220;nos culpados com todo rigor de justi&#231;a&#8221;, consoante o documento seiscentista.</p><p>Por outro lado, os censores tinham a al&#231;ada para emendar ou at&#233; mesmo mutilar os textos, o que explica que, a cada passo, nas censuras se leia: &#8220;vi este livro e alimpei-o de agudas cousas&#8221;. Por isso tudo p&#244;de escrever Silva Bastos, em sua <em>Hist&#243;ria da Censura Intelectual em Portugal</em>: &#8220;Suponha-se que algum pensador ou escritor sentisse em si asas para se transportar &#224;s regi&#245;es transcendentes: sabia o que esperava, se a sua obra, que para ser conhecida e divulgada tinha de ir &#224; f&#233;rula cens&#243;ria, resvalasse, na frase porventura a mais anodina, para o racionalismo, ultrapassasse o c&#237;rculo imposto aos c&#233;rebros peninsulares, pela mais rigorosa e meticulosa ortodoxia. Isto explica o fato de, no longo acervo dos livros censurados pela Inquisi&#231;&#227;o at&#233; a cria&#231;&#227;o da &#8216;Real Mesa Cens&#243;ria&#8217; (1776), se n&#227;o encontrassem, ao menos, tradu&#231;&#245;es de obras que em Fran&#231;a, em Inglaterra, na Alemanha, na Holanda, apaixonavam os esp&#237;ritos. O seu destino estava naturalmente tra&#231;ado: ou seriam queimados em p&#250;blicos cadafalsos, pelo executor da alta justi&#231;a, ou ficariam jazendo no segredo do Santo Of&#237;cio da Inquisi&#231;&#227;o ou da Real Mesa. Alguns desses livros c&#225; chegaram, &#233; certo &#8212; mas como? Por contrabando, ou no maior segredo, a despeito da m&#225;xima vigil&#226;ncia nas fronteiras. Mas desgra&#231;ado do seu possuidor, se uma den&#250;ncia lhe ca&#237;sse sobre a cabe&#231;a: ou iria apodrecer nas masmorras inquisitoriais, ou o fogo se encarregaria de lhe castigar a aud&#225;cia&#8230;&#8221;</p><p>Do mesmo parecer &#233; Lopes Pra&#231;a, usando por&#233;m de uma linguagem ao gosto rom&#226;ntico (sua interessante <em>Hist&#243;ria da Filosofia em Portugal data de 1868</em><strong>).</strong> Para &#234;le, &#8220;a Companhia de Jesus ensinava e precavia, a Inquisi&#231;&#227;o espionava e torturava&#8221;. E transcreve de um manuscrito do Col&#233;gio de Coimbra &#234;ste trecho do <em>Ritual Teol&#243;gico</em>: &#8220;N&#227;o se defender&#227;o opini&#245;es contra a L&#243;gica Conimbricense nas disputas; e quando muito se poder&#225; p&#244;r a quest&#227;o problem&#224;ticamente, mas poucas v&#234;zes&#8221;. Comenta o historiador da filosofia em Portugal que &#8220;fora dos coment&#225;rios pairava o &#234;rro. Era necess&#225;rio coartar os esp&#237;ritos dentro daqueles limites&#8221;. Como? Atrav&#233;s da censura da Inquisi&#231;&#227;o, cuja regra X dizia: &#8220;Por quanto neste reino, e particularmente em Lisboa h&#225; muito com&#233;rcio de estrangeiros setentrionais das partes entradas, ou infestadas de heresia, pro&#237;bem-se quaisquer livros em l&#237;ngua ingreza, framenga e judesca (ainda que n&#227;o estejam nomeados no cat&#225;logo), para efeito que nenhum se possa ter, nem ler, sem primeiro se apresentar ao Santo Of&#237;cio, e se examinar sua qualidade. E tamb&#233;m nos franceses se encomenda que se tenha muita advert&#234;ncia, como n&#227;o forem not&#242;riamente sem suspeita, e proibidos&#8221;.</p><p>Informa Lopes Pra&#231;a que &#8220;escusado &#233; dizer-se que os livros de hereges n&#227;o podiam ler-se&#8221;, e se encontravam no &#237;ndice os nomes de Lorenzo Valla, Pierre Ram&#233;e, Paracelso, Cardano, Erasmo, Vives, Giordano Bruno, Tel&#233;sio, Montaigne, Bacon, Hobbes, Espinosa, Malebranche e Locke. E o requinte da censura qualificava segundo o melhor g&#244;sto barroco as proposi&#231;&#245;es condenadas: blasfemat&#243;ria, her&#233;tica, cheirando a her&#233;tica, err&#244;nea, escandalosa, falsa, capciosa, temer&#225;ria, perigosa, mal soante, ofensivas d&#8217;ouvidos pios&#8230; Esclarece Lopes Pra&#231;a: &#8220;A proposi&#231;&#227;o &#233; blasfemat&#243;ria quando contraria &#224;s perfei&#231;&#245;es divinas, &#233; her&#233;tica se repugna &#224;s decis&#245;es formais da Igreja, &#233; quase her&#233;tica ou cheira a heresia a que revela no autor disposi&#231;&#245;es de negar um dogma reconhecido pela Igreja, &#233; err&#244;nea a proposi&#231;&#227;o que ataca a f&#233; e os bons costumes, &#233; escandalosa a que diminui ou tende a diminuir nos fi&#233;is o horror ao pecado ou o respeito &#224;s coisas santas, &#233; falsa a proposi&#231;&#227;o que, sem ofender nem a f&#233;, nem os bons costumes, &#233; todavia contr&#225;ria &#224; verdade; &#233; capciosa a que se pode tomar em mais de um sentido, dando azo &#224; insens&#237;vel danifica&#231;&#227;o das cren&#231;as; &#233; temer&#225;ria a contr&#225;ria &#224; opini&#227;o do maior n&#250;mero dos te&#243;logos e &#224; cren&#231;a geral dos fi&#233;is e ao mesmo tempo pouco fundamentais; &#233; perigosa aquela de que os hereges podem abusar para a defesa dos seus erros; &#233; mal soante a que exprime uma verdade incompleta ou em t&#234;rmos duros e &#225;speros, capazes de a tornar odiosa; uma proposi&#231;&#227;o ofende, finalmente, os ouvidos pios se, conquanto verdadeira, n&#227;o se harmonizar bem com a cren&#231;a geral, fazendo nascer a suspeita de que o autor trata com pouco respeito o que muito se deve respeitar&#8221;.</p><p>Esta &#233; a filosofia que os jesu&#237;tas difundem e ensinam nos seus col&#233;gios de al&#233;m-mar: o tomismo reconquistado pelos Conimbricenses. Ou de ac&#244;rdo com Lopes Pra&#231;a: &#8220;dentre os c&#243;dices que compulsamos desde o &#250;ltimo meado do s&#233;culo XVI at&#233; j&#225; quase o expirar do s&#233;culo XVIII, nem um sequer encontramos que n&#227;o representasse a Filosofia Escol&#225;stica, se exceptuarmos uma <em>Synopse Philosophica</em> escrita depois do reinado de D. Jo&#227;o V. At&#233; &#234;ste reinado nada encontramos, que pudesse considerar-se como inspira&#231;&#227;o da Filosofia Moderna&#8221;. O fundamento dessas doutrinas medievalizantes &#8212; de profunda resson&#226;ncia teol&#243;gica &#8212; estava no fato de sobrepor as inst&#226;ncias da revela&#231;&#227;o e de autoridade &#224; capacidade racional do homem e ao livre empr&#234;go de seus meios de conhecimento, pois concebia a ordem natural como fundada numa regularidade transcendente, origem de t&#244;da verdade &#244;ntica. Por isso seu principal objetivo era forjar uma consci&#234;ncia absolutista e teocr&#225;tica, condicionada essencialmente pela id&#233;ia de uma hierarquia social e pol&#237;tica.</p><p>As famosas <em>Constitutiones Societatis Jesu</em>, parte IV, cap&#237;tulo XIV, determinavam: &#8220;<em>In Theologia legetur vetus et Novum Testamentum et doctrina scholastica divi Thomae&#8230; In logica et philosophia naturali et morali, et metaphysica, doctrina Aristotelis sequenda est</em>&#8221;. Assim, com certa liberalidade na interpreta&#231;&#227;o dos textos e incorporando as conquistas do Humanismo, de ac&#244;rdo ali&#225;s com a imposi&#231;&#227;o das circunst&#226;ncias hist&#243;ricas, criaram os jesu&#237;tas nas suas escolas, do velho e do novo mundo, uma constante de pensamento, uma nova tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica a que j&#225; se deu o nome de <em>tomismo moderado</em>. Orienta&#231;&#227;o esta que encontrou nos problemas pol&#237;ticos e jur&#237;dicos o assunto em que &#234;les exerceram com maior originalidade, conforme reconhece o historiador da Segunda Escol&#225;stica, o jesu&#237;ta Carlo Giacon.</p><p>Os inacianos preferiram Arist&#243;teles a Plat&#227;o, porque a doutrina do estagirita, na sua opini&#227;o, atendia melhor &#224;s exig&#234;ncias de uma concep&#231;&#227;o cat&#243;lica do mundo e do homem. N&#227;o era, entretanto, apenas o Arist&#243;teles da tradi&#231;&#227;o escol&#225;stica, mas o Arist&#243;teles do Humanismo, renovado pelos comentadores que n&#227;o desprezavam sequer a li&#231;&#227;o de alexandristas e averro&#237;stas. Nesse sentido, informa Carlo Giacon que &#8220;&#224; Segunda Escol&#225;stica cabia o problema de conciliar o valor real do pensamento aristot&#233;lico com impelentes exig&#234;ncias da nova cultura human&#237;stica&#8221;. Estribando-se, desta forma, na autoridade dos textos aristot&#233;licos, que eram examinados em fun&#231;&#227;o dos inter&#234;sses da religi&#227;o cat&#243;lica, &#234;ste ensino, sem renovar-se em sua estrutura e processos, logo descambou para o aparato das disputas verbais. Os esfor&#231;os isolados, entre os quais o do jesu&#237;ta Borri, n&#227;o foram suficientemente eficazes para modificar a f&#244;r&#231;a dos h&#225;bitos pedag&#243;gicos ent&#227;o vigentes. Ali&#225;s, a formal&#237;stica do regime universit&#225;rio, com os seus atos e oposi&#231;&#245;es, favorecia muito mais as exig&#234;ncias de um saber verbal &#8212; pr&#243;prio de canonistas, te&#243;logos e legistas &#8212; do que as necessidades de um conhecimento apoiado na experi&#234;ncia e nas matem&#225;ticas.</p><p>Gra&#231;as a um manuscrito publicado por Fidelino de Figueiredo, em 1921, dispomos hoje de uma informa&#231;&#227;o segura s&#244;bre o tipo de estudos filos&#243;ficos ministrados pelos jesu&#237;tas. Depois de passar pelos cursos de Gram&#225;tica, Humanidades e Ret&#243;rica, os estudantes ingressavam nas aulas de Filosofia, das quais havia quatro na Universidade de &#201;vora: &#8220;Na primeira se faziam tristes e enfadonhas Postilas, nas quais se gastavam cada dia duas horas, uma de manh&#227;, e uma de tarde, e eram as Postilas d&#234;ste primeiro ano de <em>Universais</em> e <em>sinais</em> s&#242;mente, a que se ajuntavam algumas li&#231;&#245;es rudes e triviais dos t&#234;rmos l&#243;gicos, pelos conhecidos livros de Barreto, Soares, Teles, Aranha, Macedo, dos quais faziam comprar aos estudantes&#8221;. Na segunda, havia postilas iguais &#224;s do ano anterior, nas quais se continham assunto da f&#237;sica &#8220;reduzida &#224; pueril curiosidade de descobrir os princ&#237;pios dos corpos tanto <em>in fieri</em> [em processo de realiza&#231;&#227;o], como <em>in facto esse</em> [acabado], a sutilizar, e supor os apetites da mat&#233;ria prima; e tratar muito abstratamente da forma substancial, da uni&#227;o destas duas subst&#226;ncias e da prova&#231;&#227;o desta mesma uni&#227;o&#8221;. No terceiro ano de filosofia, &#8220;se n&#227;o postilava nada, porque as li&#231;&#245;es de Metaf&#237;sica indispens&#224;velmente eram pelo livro do padre Silvestre Aranha, e por outro do mesmo autor se ensinavam <em>Intelec&#231;&#245;es</em>, <em>T&#243;picos</em> e <em>Not&#237;cias</em> que eram as mat&#233;rias do ato de bacharel que necess&#224;riamente haviam neste ano fazer os estudantes com outras tr&#234;s, que lhe precedia, tiradas das li&#231;&#245;es do primeiro ano, que eram os <em>T&#234;rmos L&#243;gicos</em> ou como diziam <em>Dial&#233;ticos</em> e rematava &#234;ste ato com uma quest&#227;o de metaf&#237;sica, e muita metaf&#237;sica, defendida por uma parte e outra&#8221;.</p><p>Assim, com uma Metr&#243;pole t&#227;o let&#225;rgica e t&#227;o fechada em mat&#233;ria de pensamento puro, pr&#234;sa de corpo e alma ao chamado &#8220;tomismo moderado&#8221; (que concebia o universo como uma hierarquia de entes e ess&#234;ncias, na rela&#231;&#227;o de pot&#234;ncia para ato, de mat&#233;ria para forma, do mundo da natureza ascendente ao mundo da gra&#231;a, at&#233; chegar a Deus: &#250;ltima forma e &#250;nica ess&#234;ncia pura), evidentemente a filosofia que veio no b&#244;jo dos gale&#245;es para a Col&#244;nia estava compreendida na teologia. &#201; bem poss&#237;vel que, no s&#233;culo dos Descobrimentos, algum herege alcan&#231;asse nossas praias, atirado ao mar por suas id&#233;ias blasfemat&#243;rias ou ofensivas aos pios ouvidos. Sem d&#250;vida, por&#233;m, mais de um irm&#227;o inaciano era iniciado nas Artes, como naquela altura se chamava ao estudo da filosofia. Mas, nesse Brasil do s&#233;culo XVI, do descobrimento, das primeiras feitorias, de defesa contra piratas e gentio, da divis&#227;o em capitanias ou do estabelecimento do Gov&#234;rno Geral, n&#227;o havia espa&#231;o nem ocasi&#227;o sen&#227;o para certos escassos g&#234;neros liter&#225;rios. E j&#225; se v&#234; que a filosofia seria o &#250;ltimo d&#234;les.</p><p>Mesmo assim, o padre Manuel da N&#243;brega, Jesu&#237;ta Primaz do Brasil, entre uma convers&#227;o e uma provid&#234;ncia, encontra tempo para meditar, formado que era em filosofia e direito can&#244;nico pela Universidade de Coimbra, depois de ter feito o curso de humanidades na Universidade de Salamanca. Mal desembarca, em mar&#231;o de 1549, na Bahia, o inaciano brada aos seus ajudantes de campo: &#8220;Esta terra &#233; a nossa empr&#234;sa&#8221;, e pela terra e pela empr&#234;sa daria tudo, inclusive a pr&#243;pria vida. Em 1556 escreve o <em>Di&#225;logo s&#244;bre a convers&#227;o do gentio</em>, onde h&#225; doutrina, hist&#243;ria e experi&#234;ncia s&#244;bre a natureza humana colocada no duplo ponto de vista natural e crist&#227;o. Segundo Serafim Leite, &#8220;N&#243;brega, bom canonista e te&#243;logo, cita Santo Agostinho, doutor da gra&#231;a, que &#233; impl&#237;cita no <em>Di&#225;logo</em>, mas dissimula-a com arte suma, dentro do g&#234;nero liter&#225;rio que adotou, colocando-o no n&#237;vel dum int&#233;rprete e dum ferreiro&#8221;. N&#243;brega, assim, p&#245;e na b&#244;ca do Ferreiro de Cristo, segundo suas pr&#243;prias express&#245;es, estas palavras: &#8220;Isto &#233; tudo da parte de Deus mas da parte do gentio tamb&#233;m &#233; necess&#225;rio aparelho [aux&#237;lio], porque ouvi que diz Santo Agostinho: que Deus me fez sem mim, n&#227;o me salvar&#225; sem mim&#8221;. De ac&#244;rdo com a informa&#231;&#227;o de Serafim Leite, N&#243;brega lia e fazia ora&#231;&#227;o pelas <em>Medita&#231;&#245;es de Santo Agostinho</em>.</p><p>O padre N&#243;brega, por&#233;m, &#233; uma exce&#231;&#227;o. As manifesta&#231;&#245;es culturais do nosso primeiro s&#233;culo s&#227;o um quase nada, pois o que importava era a posse e a instala&#231;&#227;o, mas uma instala&#231;&#227;o como que provis&#243;ria, porque todos queriam volver. &#8220;N&#227;o querem bem &#224; terra, pois t&#234;m sua afei&#231;&#227;o a Portugal&#8221;, dizia o agostiniano N&#243;brega. Isto n&#227;o d&#225; letras, que s&#227;o suntu&#225;rias, de satisfa&#231;&#227;o ef&#234;mera, mas perdur&#225;vel. Portanto, a Metr&#243;pole, com o deslumbramento e o fausto das suas cidades civilizadas, ocupava constantemente o pensamento dos colonos mais que transterrados, exilados. A outra f&#244;r&#231;a negativa era a a&#231;&#227;o do deserto s&#244;bre os colonos, fazendo com que muitos sucumbissem ao meio, &#8220;ao ponto de furar l&#225;bios e orelhas, matar os prisioneiros segundo os ritos, e cevarem-se em sua carne&#8221;, como informa Capistrano de Abreu, fen&#244;meno &#234;ste caracterizado por Araripe J&#250;nior como obnubila&#231;&#227;o.</p><p>Conforme Araripe J&#250;nior esclarece, &#8220;consiste &#234;ste fen&#244;meno [obnubila&#231;&#227;o] na transforma&#231;&#227;o por que passavam os colonos atravessando o oceano Atl&#226;ntico, e na sua posterior adapta&#231;&#227;o ao meio f&#237;sico e ao ambiente primitivo. Basta percorrer as p&#225;ginas dos cronistas para reconhecer esta verdade. Portugueses, franceses, espanh&#243;is, apenas saltavam no Brasil e internavam-se, perdendo de vista as suas pinha&#231;as e caravelas, esqueciam as origens respectivas. Dominados pela rudez do meio, entontecidos pela natureza tropical, abra&#231;ados com a terra, todos &#234;les se transformavam quase em selvagens; e se um n&#250;cleo forte de colonos, renovado por cont&#237;nuas viagens, n&#227;o os sustinha na luta, raro era que n&#227;o acabassem pintando o corpo de jenipapo e urucu e adotando id&#233;ias, costumes e at&#233; as brutalidades dos ind&#237;genas. Os exemplos hist&#243;ricos surgem em penca: Hans Stade, Soares Moreno, Pae Pina (Amanaiara), Anhanguera, e os trugim&#245;es ou l&#237;nguas que deram tanto que fazer a Villegaignon&#8221;.</p><p>Por outro lado, comparada &#224; coloniza&#231;&#227;o espanhola, a obra dos portugu&#234;ses distingue-se principalmente pela predomin&#226;ncia de seu car&#225;ter de explora&#231;&#227;o comercial, repetindo assim o exemplo da coloniza&#231;&#227;o da Antiguidade, sobretudo da Fen&#237;cia. A fisionomia mercantil, quase semita, dessa coloniza&#231;&#227;o, exprime-se sens&#236;velmente no sistema de povoa&#231;&#227;o marginal: isto &#233;, mesmo em seus melhores momentos, a obra realizada no Brasil pelos portugu&#234;ses teve um car&#225;ter acentuado de feitoria, muito mais que de coloniza&#231;&#227;o. Isto vem acentuar ainda mais &#8220;a quase ininterrupta desola&#231;&#227;o filos&#243;fica do Brasil colonial&#8221;. O &#225;pice de uma cultura, seu fruto mais complexo e espl&#234;ndido, &#233; um sistema filos&#243;fico. Ora, como podia nascer em algum c&#233;rebro uma nova mundivid&#234;ncia, ou ao menos um coment&#225;rio progressivo das j&#225; existentes, onde o m&#225;ximo que se conseguiu foram esbo&#231;os de rudimentos de uma cultura pr&#243;pria, na luta cont&#237;nua e desigual do colonizador contra o meio ambiente?</p><p>Agrava essa situa&#231;&#227;o o corol&#225;rio inevit&#225;vel do estatuto jur&#237;dico que a Metr&#243;pole imp&#244;s &#224; sua Col&#244;nia, que durante muito tempo foi dividida em capitanias cujos donat&#225;rios podiam transmiti-las por heran&#231;a, usando e abusando delas conquanto pagassem &#224; Coroa os impostos estipulados. O desinter&#234;sse metropolitano pela feitoria de ultramar &#8212; &#8220;com a qual a p&#225;tria t&#227;o pouco se importa&#8221;, lamentava Mem de S&#225; &#8212; estava claro na provid&#234;ncia tomada pela Coroa de declarar o Brasil, como a &#193;frica Ocidental, lugar de deporta&#231;&#227;o, e pior ainda; pois enquanto para a &#193;frica iam os delinq&#252;entes prim&#225;rios ou reincidentes pela primeira vez, para o Brasil eram deportados os de segunda ou de ulteriores reincid&#234;ncias. Esta flor da criminalidade, em seu novo domic&#237;lio, n&#227;o recebia outro castigo, j&#225; que o dest&#234;rro era tido como suficiente expia&#231;&#227;o. Assim, de ac&#244;rdo com informa&#231;&#227;o de Handelmann, os deportados podiam, sem nenhum impedimento, apenas desembarcados, adquirir terras e participar de tudo como os demais colonos.</p><p>S&#243; nos fins do s&#233;culo, com as fortunas acumuladas nos engenhos nordestinos, em meio ao luxo dos vestu&#225;rios e suntuosidades das casas-grandes, foi permitido tamb&#233;m o brilho das lentejoulas do esp&#237;rito. Por volta de 1580 em diante, no Col&#233;gio de Olinda come&#231;ou-se a ensinar filosofia, segundo informa Fern&#227;o Cardim na sua <em>Narrativa Epistolar</em>. Assim, enquanto a totalidade dos colonos ou defendia, ou conquistava, ou penetrava em novas terras, preocupa&#231;&#245;es absolutas ent&#227;o, os jesu&#237;tas moldavam os colonins e mazoninhos, fazendo-os ler as nobilitantes <em>Vidas de Santos</em>. Outra esp&#233;cie de leitura n&#227;o era poss&#237;vel. Estando o ensino nas m&#227;os dos jesu&#237;tas, &#233; l&#243;gico que s&#243; &#234;les dispunham de livros. Mas a quantidade n&#227;o dava para o g&#244;sto, e na correspond&#234;ncia d&#234;sses magn&#237;ficos padres-mestres os pedidos de livros s&#227;o uma constante comovente. A raz&#227;o disso era, diz Manuel da N&#243;brega, &#8220;porque nos fazem muita m&#237;ngua para as d&#250;vidas que c&#225; h&#225;, que t&#244;das se perguntam a mim&#8221;.</p><p>De ac&#244;rdo com Serafim Leite, tais livros n&#227;o primavam pela qualidade. Por exemplo, o irm&#227;o Pedro Correia, j&#225; em 1553, pedia v&#225;rias obras &#8220;em linguagem&#8221; (n&#227;o sabia latim), &#8220;de um chamado Doutor Constantino, de Sevilha&#8221;, intitulando-se &#8220;Confiss&#227;o de um pecador, Doutrina Crist&#227;, Exposi&#231;&#227;o do Primeiro Salmo de Davi, <em>Beatus vir</em>, Suma de doutrina crist&#227;, e o Catecismo para instruir os meninos&#8221;. Pero Correia tinha visto um d&#234;les, o que tratava da primeira parte dos Artigos da F&#233;, &#8220;coisa mui santa&#8221;. N&#227;o obstante a singeleza e santidade dos assuntos tratados, as caixas de livros vindas da Europa, sempre eram examinadas para o devido crivo. Havia, ainda, uma sele&#231;&#227;o de leituras. N&#227;o se davam a ler a todos, indistintamente, &#224; propor&#231;&#227;o que iam chegando. Estava determinado que se examinassem antes (e se corrigissem) no que tivessem contr&#225;rio &#224; &#8220;edifica&#231;&#227;o&#8221; e aos &#8220;bons costumes&#8221;. Isto j&#225; era em 1596, e a fiscaliza&#231;&#227;o n&#227;o ca&#237;a apenas s&#244;bre as obras her&#233;ticas, ou supostas tais, pois at&#233; os livros po&#233;ticos sofriam a censura da pedagogia colegial. Como havia distin&#231;&#227;o entre os livros escritos em latim e aqu&#234;les que apareciam &#8220;em romance&#8221;, a &#234;stes era imp&#244;sto todo o rigor da mesa cens&#243;ria. Essa medida era tomada, ao ver de Serafim Leite, &#8220;pelos devaneios que suscitam em cabe&#231;as juvenis&#8221;.</p><p>Desta forma, podia a Congrega&#231;&#227;o da Bahia, em 1583, propor, &#224; imita&#231;&#227;o da romana, e sob os aplausos gerais, &#8220;que se desse alguma emenda aos escritos de Humanidades de Plauto, Ter&#234;ncio, Hor&#225;cio, Marcial e Ov&#237;dio&#8221;.</p><p>Contudo, era na escola superior que os jesu&#237;tas haviam concentrado a grande ambi&#231;&#227;o de sua pol&#237;tica educativa, elaborando uma elite, culta e religiosa, para realizar os objetivos m&#237;sticos, sociais e pol&#237;ticos de Santo In&#225;cio. Humanistas por excel&#234;ncia, e os maiores de seu tempo, concentraram todo o esf&#244;r&#231;o, do ponto de vista intelectual, em desenvolver, nos disc&#237;pulos, as atividades liter&#225;rias e acad&#234;micas que correspondiam, de resto, aos ideais do &#8220;homem culto&#8221; em Portugal, onde, como em t&#244;da a pen&#237;nsula ib&#233;rica, se encastelara o esp&#237;rito da Idade M&#233;dia, e a educa&#231;&#227;o, dominada pelo clero, n&#227;o visava por essa &#233;poca sen&#227;o a formar letrados e eruditos. O ap&#234;go ao dogma e &#224; autoridade, a tradi&#231;&#227;o escol&#225;stica e liter&#225;ria e a repugn&#226;ncia pelas atividades t&#233;cnicas e art&#237;sticas, tinham for&#231;osamente de caracterizar, na Col&#244;nia, t&#244;da a educa&#231;&#227;o modelada pela da Metr&#243;pole, que se manteve fechada e irredut&#237;vel ao esp&#237;rito cr&#237;tico e de an&#225;lise, &#224; pesquisa e &#224; experimenta&#231;&#227;o. Portanto, para apreciar com justi&#231;a essa cultura padronizada, de tend&#234;ncia universalista, e de tipo cl&#225;ssico, transmitida pelo ensino jesu&#237;tico, &#233; preciso que n&#227;o se veja &#224; luz da civiliza&#231;&#227;o atual, mas, remontando aos s&#233;culos XVI e XVII, se examine e se me&#231;a pelos costumes e ideais de ent&#227;o, segundo os quais se pretendia manter o latim ainda erguido &#224; categoria de l&#237;ngua geral e sustentar nos homens o fasc&#237;nio pelas letras cl&#225;ssicas, at&#233; a c&#243;pia servil dos modelos antigos.</p><p>Conforme adverte Cruz Costa, &#8220;qualquer que possa ser a nossa posi&#231;&#227;o em face das id&#233;ias da Companhia de Jesus, &#233; ineg&#225;vel que muito contribu&#237;ram os jesu&#237;tas, com as suas escolas, com os seus col&#233;gios, para a nossa forma&#231;&#227;o intelectual&#8221;. Ali&#225;s, como j&#225; disse Capistrano de Abreu, a nossa hist&#243;ria <strong>colonial &#233;, em sua m&#225;xima parte, uma hist&#243;ria de frades</strong>, afirmando mesmo que antes de uma hist&#243;ria dos jesu&#237;tas, ser&#225; presun&#231;oso quem quiser escrever a do Brasil. Dif&#237;cil, portanto, estudar seriamente a hist&#243;ria do pensamento brasileiro sem atentar para a participa&#231;&#227;o dos inacianos, n&#227;o obstante ter sido ela acess&#243;ria divulga&#231;&#227;o das velhas li&#231;&#245;es da escol&#225;stica conimbricense, j&#225; que a tarefa essencial da Companhia de Jesus, no Brasil, tinha um largo alcance pol&#237;tico.</p><h4><strong>Muta&#231;&#245;es iluministas</strong></h4><p>Com o advento das id&#233;ias e ideais iluministas do s&#233;culo XVIII, entra em crise o quadro de valores defendido pela Companhia de Jesus, cuja &#237;ndole aristocr&#225;tica se chocava com a ascens&#227;o vitoriosa e definitiva da burguesia. E o primeiro baluarte a ruir &#233; a Inquisi&#231;&#227;o que n&#227;o passava, segundo Ant&#244;nio Jos&#233; Saraiva, &#8220;de um instrumento da pol&#237;tica geral do grupo que se consolidou em Portugal desde meados do s&#233;culo XVI e que permaneceu sob o regime filipino. Temos a contraprova disto ao verificarmos que, quando o contr&#244;le pol&#237;tico exercido por &#234;sse grupo esmorece e entra em crise, devido ao desenvolvimento das suas contradi&#231;&#245;es internas, a pr&#243;pria Inquisi&#231;&#227;o entra em decl&#237;nio &#8212; decl&#237;nio arrastado, com sobressaltos de viol&#234;ncia que a sua forte estrutura impunha&#8221;.</p><p>De fato, a fun&#231;&#227;o do tribunal do Santo Of&#237;cio n&#227;o era destruir os judaizantes, mas fabric&#225;-los, nem era assimilar os Crist&#227;os-Novos mas sim sequestr&#225;-los e multiplic&#225;-los. O nome de &#8220;crist&#227;o-novos&#8221; era o apelativo demag&#243;gico com que o grupo dominante em Portugal desde meados do s&#233;culo XVI procurou afastar a burguesia da dire&#231;&#227;o pol&#237;tica do Estado e da hegemonia econ&#244;mica. O desaparecimento da casta assim designada ao toque das leis de Pombal revela simplesmente que a burguesia se tornara, sob o seu governo, um grupo dominante e que a aristocracia senhorial perdera a partida.</p><p>A luta, por&#233;m, f&#244;ra longa e terr&#237;vel. Sebasti&#227;o Jos&#233; de Carvalho e Melo reuniu em dois pesados tomos tudo quanto dois s&#233;culos de queixas, de rivalidades e m&#225; f&#233; existia contra os jesu&#237;tas. A causa &#233; vencida pelo ministro portugu&#234;s com a extin&#231;&#227;o da Companhia de Jesus. A not&#237;cia da supress&#227;o publicou-se em Lisboa a 9 de setembro de 1773. Segundo informa J. L&#250;cio de Azevedo, cumprido o que f&#244;ra por tanto espa&#231;o o objeto de suas veementes aspira&#231;&#245;es, Pombal entendeu dar ao seu contentamento o m&#225;ximo rel&#234;vo. Houve manifesta&#231;&#245;es de regozijo no pa&#231;o, nas ruas e nos templos. Por ordem do governo, Lisboa p&#244;s lumin&#225;rias, sendo cominadas penas de multa e cadeia aos desobedientes; D. Jos&#233; escreveu ao Papa exprimindo o seu reconhecimento; e por todos os modos, e em todo o reino, a vit&#243;ria alcan&#231;ada a tanto custo se celebrou com estr&#233;pito. Diz o bi&#243;grafo do Marqu&#234;s que, &#8220;expelindo os jesu&#237;tas, sacudira do pa&#237;s, como julgava, a lepra que por duzentos anos o tinha gafado&#8221;.</p><p>Nas publica&#231;&#245;es pombalinas antijesu&#237;ticas figuram, com especial proje&#231;&#227;o, os atentados dos inacianos contra a intelig&#234;ncia portuguesa, como seja a introdu&#231;&#227;o dos <em>Index</em> romanos (que ser&#227;o objeto de graves e extensas increpa&#231;&#245;es), ou, ent&#227;o, crimes ainda mais graves como o exterm&#237;nio dos s&#225;bios e cultos. &#202;sse conjunto de eventos mal afortunados teria constitu&#237;do o &#8220;&#250;ltimo golpe mortal na literatura portuguesa&#8221;. Na acusa&#231;&#227;o dos jesu&#237;tas, sempre os acontecimentos intelectuais aparecem em primeira linha, misturando-se substancialmente a decad&#234;ncia da ilustra&#231;&#227;o com a decad&#234;ncia do trono. Todos &#234;sses males eram como que a prola&#231;&#227;o de um s&#243; &#8212; a decad&#234;ncia da cultura intelectual e o atraso das ci&#234;ncias &#8212; e a tend&#234;ncia a converter em m&#237;stica, e m&#237;stica religiosa, o sistema de meios engendrados pela raz&#227;o para os combater. Da&#237; terem os escritos pombalinos denunciado os &#8220;horrorosos estragos&#8221; que atingiram os estudos do reino, estabelecendo &#8220;um geral idiotismo, como &#233; manifesto&#8221;.</p><p>Contudo, se por um lado o pombalismo condenava a censura jesu&#237;tica por outro estabelecia nova censura. E, nessa pol&#237;tica de proibi&#231;&#227;o de livros e autores, se a influ&#234;ncia da Companhia de Jesus exerceu-se de modo a tornar bastante estreito o crit&#233;rio selecionador, no tempo de Pombal pouco ou nada abrandou-se tal crit&#233;rio, embora nem sempre possamos discernir-lhe o sentido com clareza. Assim, em 1746 o Col&#233;gio das Artes baixou edital condenat&#243;rio de Descartes por &#8220;conclus&#245;es opostas ao sistema de Arist&#243;teles, o qual nestas escolas se deve seguir&#8221;; por&#233;m, j&#225; em 1752 o frei qualificador do Santo Of&#237;cio cr&#234; vislumbrar no cartesianismo o &#8220;m&#233;todo &#250;til para abarcarmos sem horror os sistemas da f&#237;sica moderna, a que at&#233; aqui olh&#225;vamos com menos afei&#231;&#227;o&#8221;. Ora, vencidos os jesu&#237;tas, vemos a Mesa Cens&#243;ria de Pombal de novo condenar Descartes, &#8220;porquanto o povo portugu&#234;s ainda n&#227;o est&#225; acostumado a ler no seu pr&#243;prio idioma &#234;ste g&#234;nero de escritos&#8221;.</p><p>Desta forma, n&#227;o se pode falar de um Iluminismo portugu&#234;s no mesmo sentido em que s&#227;o caracterizadas as manifesta&#231;&#245;es &#8220;iluminadas&#8221; do pensamento ingl&#234;s, franc&#234;s e alem&#227;o. De ac&#244;rdo com Cabral de Moncada, o Iluminismo lusitano foi &#8220;essencialmente Reformismo e Pedagogismo. O seu esp&#237;rito era, n&#227;o revolucion&#225;rio, nem anti-hist&#243;rico, nem irreligioso como o franc&#234;s, mas essencialmente progressista, reformista, nacionalista e humanista. Era o Iluminismo italiano: um Iluminismo essencialmente crist&#227;o e cat&#243;lico&#8221;. Todavia, for&#231;oso &#233; reconhecer, o Iluminismo, em que pesem as peculiaridades que hist&#243;ricamente assumiu nos diversos pa&#237;ses, foi sempre um programa pedag&#243;gico, uma atitude cr&#237;tica de revis&#227;o de problemas do qual n&#227;o se podem dissociar, no fundo, as inten&#231;&#245;es de uma reforma, tanto das institui&#231;&#245;es quanto dos h&#225;bitos de pensamento. Seus prop&#243;sitos mais significativos se resumem no lema pelo qual Kant, num breve escrito, procurou vislumbrar, atrav&#233;s de uma variada gama de matizes doutrin&#225;rios, o sentido &#237;ntimo de uma aspira&#231;&#227;o geral: <em>sapere aude</em>.</p><p>Em Portugal &#8212; de ac&#244;rdo com Laerte Ramos de Carvalho &#8212; o eco d&#234;stes ideais europeus se manifestou, concreta e hist&#243;ricamente, como um programa pol&#237;tico de gov&#234;rno. Um dos tra&#231;os mais significativos do Iluminismo portugu&#234;s &#233; a sua express&#227;o de modernidade consciente de n&#227;o menos consciente rep&#250;dio &#224;s formas e h&#225;bitos de pensamento at&#233; ent&#227;o imperantes. &#201; mister esclarecer, todavia, que tanto esta modernidade quanto &#234;ste rep&#250;dio revestiram-se de um formalismo pedag&#243;gico bastante caracter&#237;stico. O h&#225;bito das disputas, t&#227;o fortemente enraizado na escola e na mentalidade portuguesas, pelo trabalho de v&#225;rios s&#233;culos de tradi&#231;&#227;o escol&#225;stica, n&#227;o permitiu que o programa de renova&#231;&#227;o cultural se processasse, livre de quaisquer fat&#244;res restritivos, no debate amplo dos reais inter&#234;sses ideol&#243;gicos da modernidade.</p><p>Por isso a m&#225;xima figura do s&#233;culo pombalino foi a do pedagogo Lu&#237;s Ant&#244;nio Verney. Com &#234;ste vulto singular p&#244;de o s&#233;culo XVIII devotar-se, inteiro, numa luta pela contemporaneidade. De resto, Verney foi maior que o pr&#243;prio Pombal, pois, de certa forma, n&#227;o passou o poderoso ministro de D. Jos&#233; de mero executor de seus esquemas. Com efeito, &#8220;O Barbadinho&#8221; lusitano, depois de se impregnar do Iluminismo italiano durante sua estada em Roma, recebera o encargo de &#8220;iluminar&#8221; uma na&#231;&#227;o inteira; e ambos, Pombal e Verney, topariam pela frente o mesmo obst&#225;culo: os jesu&#237;tas. Ali&#225;s, o amplo rep&#250;dio de Verney aos inacianos se dirigia mais contra seus m&#233;todos pedag&#243;gicos do que pr&#242;priamente contra sua filosofia. Da&#237; a inten&#231;&#227;o primeira de escrever um <em>Verdadeiro m&#233;todo de estudar</em>, pois chocava-o, at&#233; as entranhas, aquela <em>Gram&#225;tica latina</em> do padre Manuel &#193;lvares, pesada m&#225;quina de 247 regras s&#243; para a sintaxe dos nomes, formadas em arrevezados versos latinos, acrescidas de exce&#231;&#245;es, ap&#234;ndices e observa&#231;&#245;es. E mais do que isto, Portugal clamava urgentemente por um s&#244;pro cientificista, pois a filosofia do s&#233;culo XVIII j&#225; havia ultrapassado o humanismo ol&#237;mpico e se cingira, agora, ao pensamento matem&#225;tico, que tudo explicava atrav&#233;s de suas f&#243;rmulas e leis. Para atingir &#234;ste esc&#244;po, Newton, com seu c&#225;lculo de flux&#245;es, e Leibniz, com seu c&#225;lculo infinitesimal, criavam um instrumento universal para &#8220;explicar&#8221; a natureza, num sentido relativo e condicionado &#224;s f&#244;r&#231;as espec&#237;ficas da raz&#227;o.</p><p>Por isso a filosofia do s&#233;culo XVIII se atira por t&#244;da parte com &#234;ste exemplo &#250;nico, com o paradigma met&#243;dico da f&#237;sica newtoniana, e o aplica universalmente. N&#227;o se contenta em considerar a an&#225;lise como um grande instrumento intelectual do conhecimento f&#237;sico-matem&#225;tico, mas v&#234; nela a arma necess&#225;ria de todo o pensamento em geral. Nos meados do s&#233;culo a vit&#243;ria desta concep&#231;&#227;o &#233; definitiva. E por muito que os diversos pensadores e as diversas escolas difiram em seus resultados, coincidem nestas premissas epistemol&#243;gicas. Falam a mesma linguagem o <em>Trait&#233; de m&#233;taphysique</em>, de Voltaire, a &#8220;introdu&#231;&#227;o&#8221; &#224; <em>Enciclop&#233;dia</em>, de d&#8217;Alembert, e a investiga&#231;&#227;o s&#244;bre os princ&#237;pios da teologia natural e da moral, de Kant, como assinala Cassirer. E tamb&#233;m s&#227;o de Verney, ainda que em menor grau, essas mesmas premissas.</p><p>Realmente, foi Verney o ponto mais elevado da articula&#231;&#227;o de Portugal com a Europa culta na &#233;poca do Iluminismo. Foi &#234;le pr&#243;prio, na opini&#227;o de Cabral de Moncada, o mais insigne iluminista portugu&#234;s d&#234;sse s&#233;culo. E isto porque a obra verneyana nos d&#225;, numa s&#237;ntese, t&#244;da a complexa mentalidade ideol&#243;gica que se achava na base das express&#245;es culturais do regime sob o consulado pombalino. O seu pensamento marca a express&#227;o limite dessa mentalidade, na dire&#231;&#227;o da qual esta se movia e para que tendia. Verney &#233; como que a consci&#234;ncia filos&#243;fica, a &#8220;consci&#234;ncia objetiva&#8221; de todo o movimento reformador da sua &#233;poca em Portugal, de que Pombal procurou ser o executor. Se o primeiro foi a sensibilidade mais delicada e o c&#233;rebro d&#234;sse movimento de id&#233;ias, o segundo foi a sua vontade forte e como que o m&#250;sculo. N&#234;le encontramos, antes de mais nada, na mais elevada express&#227;o, tudo o que essa mentalidade continha de radicalismo reformista, de filos&#243;fico desd&#233;m pelo passado como fonte de sabedoria, do culto pela igualdade das classes perante o trono, de utopismo iluminista, de presun&#231;&#227;o doutrin&#225;ria, de otimismo e abstratismo pol&#237;ticos, de intelectualismo &#233;tico, de pedagogismo, de cientiomania e de todos os restantes tra&#231;os que caracterizam aquilo a que hoje se poderia chamar, sum&#224;riamente, a &#8220;pol&#237;tica do esp&#237;rito&#8221; do reinado de D. Jos&#233;.</p><p>Contudo, no pr&#243;prio mundo cultural lusitano viveu uma figura que sintetizou, ainda com maior emin&#234;ncia, todos os tra&#231;os iluministas: Matias Aires. Essa curiosa figura do Brasil colonial nasceu em S&#227;o Paulo no s&#233;culo XVIII, filho de um novo-rico, Jos&#233; Ramos da Silva, &#8220;paulista nascido no P&#244;rto&#8221;, primeiro criado de servir, depois vendeiro, depois contratador, depois familiar do Santo Of&#237;cio, depois provedor da Casa da Moeda (j&#225; na C&#244;rte, ap&#243;s regressar rico da Col&#244;nia), depois portador do h&#225;bito da Ordem de Cristo e, por fim possuidor de Carta de Braz&#227;o-d&#8217;Armas, todos &#234;sses t&#237;tulos adquiridos por compra. O pai de Matias Aires da Silva e E&#231;a (1705-1763) &#233; o s&#237;mbolo universal do s&#233;culo XVIII: o arrivista que tudo compra, porque tudo &#233; vend&#225;vel, consci&#234;ncias e braz&#245;es, castelos e gra&#231;as, num&#225;rias e merc&#234;s. Morando no Reino, manda o filho, futuro fil&#243;sofo e moralista, para o Col&#233;gio de Santo Ant&#227;o, para onde iam os filhos da mais alta nobreza. </p><p>Portanto, o velho Z&#233; Ramos acabou seus dias nobre, legando aos filhos uma fortuna colossal para a &#233;poca: al&#233;m do morgado que conseguira formar no seu sonho de fidalguia, &#234;lle, filho de lavradores paup&#233;rrimos, pobre diabo atirado &#224; vida menino ainda, chegou ao fim da jornada dono de pr&#233;dios urbanos, terras foreiras, grandes vinhas, campo de pousio e de pasto, pal&#225;cios, quintas e casas nobres, sem contar os bens no Brasil. S&#243; levava um remorso na alma: os cruzados gastos &#224; toa na educa&#231;&#227;o das filhas, como ali&#225;s fez quest&#227;o de frisar no seu testamento.</p><p>Matias Aires viveu em S&#227;o Paulo os primeiros onze anos de sua vida, tendo aqui aprendido com os jesu&#237;tas a ler e a amar a leitura, a escrever e a amar as letras cl&#225;ssicas. E tamb&#233;m aqui aprendeu os rudimentos das ci&#234;ncias humanas e divinas, que iriam ocupar t&#244;da a sua vida de misantropo e de meditativo. Depois de transitar por Coimbra, onde se licenciou em Artes, partiu para Paris, a fim de se dedicar, de modo particular, ao estudo das ci&#234;ncias naturais, da matem&#225;tica e do hebraico. Teve os mais famosos profess&#244;res do tempo, nessas mat&#233;rias, tais como Godin, Grosse e Phourmond, participando ao mesmo tempo da grande agita&#231;&#227;o das id&#233;ias que ent&#227;o se processava no mundo europeu. De sua lavra liter&#225;ria restam duas obras merit&#243;rias: <em>Reflex&#245;es s&#244;bre a vaidade dos homens</em> (1752) e <em>Problemas de arquitetura civil</em> (publicado postumamente, em 1770).</p><p>O que era a filosofia no Brasil, por essa &#233;poca, pode ser perfeitamente verific&#225;vel, gra&#231;as a Eduardo Frieiro que na sua plaquete <em>O diabo na livraria do c&#244;nego</em>, analisa o rol dos livros do padre inconfidente, Lu&#237;s Vieira da Silva, por sinal antigo professor de filosofia e, segundo Alberto Faria, &#8220;a maior ilustra&#231;&#227;o colonial da &#233;poca&#8221;. No auto de sequestro da livraria do ilustre c&#244;nego podem ser encontradas v&#225;rias obras de filosofia, metaf&#237;sica e l&#243;gica: <em>Summa theologica</em> de Santo Tom&#225;s de Aquino, a <em>Philosophia peripatetica</em> de Mayr, os <em>&#201;l&#233;ments de m&#233;taphysique</em> do jesu&#237;ta Du Phanjas, a <em>L&#243;gica</em> de Verney, as <em>Disputationes metaphysicae</em> do jesu&#237;ta Silvestre Aranha, a <em>Metaphysica</em> e a <em>L&#243;gica</em> de Musschenbroeck, os <em>Elementos metaf&#237;sicos</em> de Brescia, o <em>Compendium philosophicum theologicum</em> de Manuel In&#225;cio Coutinho e um manuscrito de &#8220;postilas de filosofia&#8221;. E tamb&#233;m obras afins &#224; filosofia, como os cl&#225;ssicos franceses, notadamente Voltaire, Bossuet, Montesquieu, Descartes (atrav&#233;s de sua <em>Geometria</em>), a tradu&#231;&#227;o francesa da hist&#243;ria da dinastia dos Tudors, de Hume, etc.</p><p>Sem d&#250;vida, a Col&#244;nia ent&#227;o vivia numa estupenda apatia espiritual. A educa&#231;&#227;o pouco progredira e pior estava com a expuls&#227;o dos jesu&#237;tas. Os conhecimentos dos eclesi&#225;sticos limitavam-se, geralmente, a um mau latim, e o indiv&#237;duo feliz que reunia o conhecimento d&#234;ste e do franc&#234;s, conforme afirma Armitage, era olhado como um g&#234;nio raro, digno de ser visto e ouvido. Ao contr&#225;rio da Am&#233;rica espanhola, que conheceu muito cedo, mal se firmara a Conquista, a imprensa e o ensino universit&#225;rio, n&#227;o havia em todo o Brasil uma s&#243; tipografia, e a nossa Universidade data de 20 anos&#8230;</p><p>O quadro geral era &#234;sse, numa vis&#227;o de conjunto. Mas havia, aqui ou ali, pequenos n&#250;cleos de homens instru&#237;dos ou &#225;vidos de instru&#231;&#227;o, mais ou menos contagiados de &#8220;furor de aprender&#8221; e da &#8220;febre de intelig&#234;ncia&#8221;, que caracterizam a &#250;ltima metade do s&#233;culo XVIII, por sinal, chamado &#8220;s&#233;culo educador&#8221;. Claro est&#225; que as diligentes autoridades coloniais opunham obst&#225;culos &#224; entrada de livros no Brasil, o que entretanto n&#227;o impedia que tais escritos f&#244;ssem lidos e at&#233; &#224;s v&#234;zes muito lidos, como comprovam as livrarias dos inconfidentes que atestam um &#237;ndice de ilustra&#231;&#227;o muito adiantado para o meio em que viviam.</p><p>Nesse sentido, referindo-se ao atraso intelectual dos brasileiros, em fins do s&#233;culo XVIII e princ&#237;pios do seguinte, disse o historiador Armitage que &#8220;as hist&#243;rias da Gr&#233;cia e Roma, o <em>Contrato social</em> de Rousseau e alguns volumes dos escritos de Voltaire e do abade Raynal, que haviam escapado &#224; vigil&#226;ncia das autoridades, formavam as &#250;nicas fontes de instru&#231;&#227;o&#8221;. Comentando &#234;sse passo, diz Eduardo Frieiro: &#8220;Lia-se Rousseau, Voltaire, Raynal&#8230; E o ingl&#234;s Armitage ainda achava pouco! Que mais queria &#234;le que se l&#234;sse? Rousseau, um dos raros fil&#243;sofos democratas de seu tempo, influiu nas id&#233;ias de Jefferson e Adams. O <em>Contrato social</em> chegou a ser a B&#237;blia dos homens do Terror e desencadeou mais tormentas e cat&#225;strofes s&#244;bre a Europa e todo o mundo civilizado que as mais apaixonantes m&#237;sticas a servi&#231;o dos apetites e do instinto agressivo do homem. Pois &#234;sse livrinho andava de m&#227;o em m&#227;o no Brasil, como em t&#244;da a Am&#233;rica. Voltaire f&#244;ra o bota-fogo n&#250;mero um, o incendi&#225;rio principal de uma &#233;poca que o absolutismo dos governantes, a corrup&#231;&#227;o dos aristocratas, a deprava&#231;&#227;o do clero e a licen&#231;a geral dos costumes j&#225; haviam corrompido. Enfim, Raynal era o autor da <em>Histoire philosophique et politique des &#233;tablissements et du commerce des europ&#233;ens dans les deux Indes</em>, um dos livros mais not&#225;veis do s&#233;culo XVIII e o que alcan&#231;ou mais retumbante &#234;xito, especialmente na Am&#233;rica. Leu-se muito &#234;sse livro, que verberava as crueldades dos colonizadores cat&#243;licos nas duas &#205;ndias e apresentava originalmente a hist&#243;ria, n&#227;o como uma sucess&#227;o de batalhas e reinados, mas como determinada pelas preocupa&#231;&#245;es econ&#244;micas dominantes nas na&#231;&#245;es&#8221;.</p><p>Certamente Matias Aires se orgulharia se f&#244;sse lido o cat&#225;logo de sua biblioteca, como ora&#231;&#227;o f&#250;nebre, nas cerim&#244;nias de suas ex&#233;quias. Foi um dos homens mais cultos de seu tempo, sintonizado com a &#233;poca e integrado no Iluminismo que aparece ostensivamente no <em>Problema de arquitetura civil</em>, onde informa, profunda e inteligentemente, o ambiente cient&#237;fico da Metr&#243;pole. De fato, &#234;ste livro &#233; quase exclusivamente a exposi&#231;&#227;o das teorias f&#237;sico-qu&#237;micas em voga na Fran&#231;a, por onde seu autor estanciara de 1728 a 1733. As quest&#245;es relativas &#224; constru&#231;&#227;o dos edif&#237;cios foram simplesmente pretexto de que se aproveitou Matias Aires para divulgar ao p&#250;blico lus&#237;ada tudo que chegara ao seu conhecimento e as conclus&#245;es dos seus estudos e das suas experi&#234;ncias s&#244;bre fen&#244;menos naturais. De certa forma, o iluminista brasileiro lembra um famoso iluminista franc&#234;s, seu contempor&#226;neo, Voltaire, pois ambos foram divulgadores de ci&#234;ncias aprendidas no ex&#237;lio.</p><p>Mas, a obra que mant&#233;m pervivente a figura de Matias Aires s&#227;o as <em>Reflex&#245;es s&#244;bre a vaidade dos homens</em>, cuja filosofia moralista se resume em tr&#234;s t&#234;rmos essenciais: a corrup&#231;&#227;o irremedi&#225;vel e completa da natureza humana, a vaidade da vida social em t&#244;das as suas manifesta&#231;&#245;es e poder inapel&#225;vel da Provid&#234;ncia e de sua manifesta&#231;&#227;o temporal: a Natureza. Portanto, a Provid&#234;ncia, a Natureza e o Homem s&#227;o os tr&#234;s t&#234;rmos do universo de Matias Aires. Sua concep&#231;&#227;o do homem &#233; a concep&#231;&#227;o do pessimismo calvinista. Para Matias Aires a vaidade n&#227;o &#233; apenas uma f&#244;r&#231;a negativa. Sendo a vaidade um efeito da corrup&#231;&#227;o completa da natureza humana, encontramo-la misturada a todos os nossos movimentos, tanto para o bem como para o mal. E nesse sentido &#233; que verificamos ser a &#8220;vaidade&#8221;, na filosofia de Matias Aires, n&#227;o como habitualmente se considera uma paix&#227;o entre as demais, e sim uma paix&#227;o &#8220;s&#244;bre&#8221; ou &#8220;sob&#8221; as demais, ou antes, uma condi&#231;&#227;o geral da natureza corrompida, radicalmente corrompida.</p><p>A fonte hist&#243;rica mais remota do pensamento de Matias Aires &#233; o estoicismo haurido nas letras cl&#225;ssicas e que se caracteriza pela aceita&#231;&#227;o resignada e pl&#225;cida da natureza humana, que n&#227;o exclui o esf&#244;r&#231;o por superar suas mis&#233;rias, um esf&#244;r&#231;o, por&#233;m, consciente de suas limita&#231;&#245;es. A fonte mais imediata &#233; sem d&#250;vida La Rochefoucauld, a quem toma, inclusive, como mod&#234;lo. Como as m&#225;ximas do moralista franc&#234;s, as <em>Reflex&#245;es</em> de Matias Aires s&#227;o tamb&#233;m uma antropologia, &#8220;um portrait du coeur de l&#8217;homme&#8221;, articulado em t&#244;rno de um eixo ou centro de gravita&#231;&#227;o: a vaidade no moralista brasileiro, o <em>amour-propre</em> em La Rochefoucauld.</p><p>Um outro fil&#243;sofo brasileiro do s&#233;culo XVIII, desta vez n&#227;o iluminista, &#233; frei Gaspar da Madre de Deus (1715-1800), mais conhecido como cronista dos fatos coloniais. Por uma Provis&#227;o R&#233;gia de 16 de junho de 1675, foi concedido aos que cursassem filosofia no col&#233;gio dos jesu&#237;tas da Bahia, o privil&#233;gio da equipara&#231;&#227;o universit&#225;ria. Quase cem anos depois, em 1759, com a expuls&#227;o dos inacianos das possess&#245;es ultramarinas de Portugal, o poderoso ministro de D. Jos&#233; autoriza aos franciscanos o estabelecimento, no Rio de Janeiro, de um curso de filosofia equiparado ao de Coimbra. Essa primeira tentativa do gov&#234;rno metropolitano para fundar na Col&#244;nia um instituto de educa&#231;&#227;o universit&#225;ria &#233; franqueada aos estudantes em 1776. Precisamente nesse tempo e nessa escola ensina filosofia o frade paulista.</p><p>Como fil&#243;sofo, frei Gaspar da Madre de Deus deixou um tratado de filosofia, resumo das li&#231;&#245;es professadas no convento beneditino do Rio de Janeiro, em 1748, em dois volumes manuscritos existentes no arquivo do Mosteiro de S&#227;o Bento, em S&#227;o Paulo, e que foi identificado por D. Wolfgang Kretz, o primeiro tomo, e por D. Bonif&#225;cio Jansen, o segundo. O tratado filos&#243;fico de frei Gaspar est&#225; encimado pelo seguinte t&#237;tulo: <em>Philosophia platonica seu rationalem, naturalem et transnaturalem philosophiam sive logicam, physicam et metaphysicam complectens per F. Gaspar a Madre Dei in hoc benedictino monasterio Fluvii Januariensis die 7 Martii Anno Domini 1748.</em> D&#234;sse tratado s&#243; foi dado a lume, at&#233; agora, o t&#237;tulo, o pro&#234;mio e o &#237;ndice. O t&#237;tulo fala de Plat&#227;o; o pro&#234;mio &#233; curto e nada elucida s&#244;bre a orienta&#231;&#227;o filos&#243;fica do autor; e no &#237;ndice parece sobressair Arist&#243;teles em vez de Plat&#227;o, sobretudo no segundo tomo, onde frei Gaspar estuda a mat&#233;ria e as causas, consoante a concep&#231;&#227;o aristot&#233;lica do saber.</p><p>O problema da defini&#231;&#227;o do Romantismo &#233;, ao mesmo tempo, apaixonante e controvertido. J&#225; na sua origem, em 1801, afirmava S&#233;bastien Mercier que &#8220;o Romantismo n&#227;o se define: sente-se&#8221;. Para alguns, o Romantismo &#233; uma constante espiritual do homem, contraposta ao Classicismo: &#233; a tend&#234;ncia a acentuar a primazia do sentimento s&#244;bre o pensamento, da intui&#231;&#227;o s&#244;bre o conceito, do din&#226;mico s&#244;bre o est&#225;tico, do org&#226;nico s&#244;bre o mec&#226;nico, do alusivo s&#244;bre o presente, do expressivo s&#244;bre o pl&#225;stico. Isto &#233;, o Romantismo descobre, pat&#232;ticamente, o singular, o t&#237;pico e mesmo o pitoresco, e esta descoberta o leva a reconhecer que cada corpo hist&#243;rico tem sua hist&#243;ria pr&#243;pria (ainda quando &#233; levado, com a propens&#227;o desmedida &#8212; e err&#244;nea &#8212; a remet&#234;-la &#224; Idade M&#233;dia), colocando diante da raz&#227;o, pouco antes densa, os fat&#244;res emocionais, os afetos do &#226;nimo, as paix&#245;es, a inspira&#231;&#227;o e, finalmente, decreta para todas as esferas da cultura a fal&#234;ncia das formas, normas e princ&#237;pios, proclamando os foros soberanos da espontaneidade, da livre cria&#231;&#227;o, das f&#244;r&#231;as que trabalham na obscuridade, como germina a semente na entranha da terra. Assim, <em>rom&#226;ntico</em> seria o dionis&#237;aco, enquanto <em>cl&#225;ssico</em> seria o apol&#237;neo, e acompanha a humanidade desde sua g&#234;nese. A esta concep&#231;&#227;o se op&#245;e a teoria historicista, que afirma ser o Romantismo uma forma da vida humana e, por isso, constitui uma etapa da hist&#243;ria, isto &#233;, um dos modos de ser do homem, num dado momento de sua evolu&#231;&#227;o.</p><p>Portanto, se por um lado temos o Romantismo entendido como uma forma liter&#225;ria, como uma &#8220;escola&#8221; oposta &#224; cl&#225;ssica, ou um &#8220;estilo&#8221; que preexiste &#224; &#233;poca rom&#226;ntica e que n&#227;o morre com ela, pois se pode ser rom&#226;ntico em qualquer tempo, ou seja, o Romantismo &#233; um princ&#237;pio ou tipo supra-hist&#243;rico do ser humano, por outro lado temos o Romantismo definido n&#227;o s&#243;, nem prim&#224;riamente, como um fen&#244;meno liter&#225;rio, pois fora de sua &#233;poca estrita s&#243; existe de um modo anal&#243;gico e parcial, ou seja, antes e depois, sem d&#250;vida se encontram &#8220;tra&#231;os&#8221; que constituir&#227;o ou constitu&#237;ram a forma de vida, o estilo vital que se chama Romantismo e que n&#227;o ocorre antes de 1800 nem depois de 1850. Assim, a impossibilidade de se determinar com um &#250;nico car&#225;ter ou com um grupo de caracteres est&#233;ticos ou vitais a ess&#234;ncia do Romantismo, como se &#234;le f&#244;sse uma entidade ideal, planando acima da hist&#243;ria, levou aos estudiosos do problema a se orientarem para aquelas reconstru&#231;&#245;es que partem do pressuposto da historicidade do movimento rom&#226;ntico e que, da&#237;, se esfor&#231;am para individualiz&#225;-lo no seu devir.</p><p>Com efeito, admite Roger Picard, ainda que com algumas restri&#231;&#245;es, que o Romantismo foi uma &#8220;&#233;poca hist&#243;rica&#8221;, o que explica sua integra&#231;&#227;o com t&#244;da a vida de seu tempo, especialmente com o movimento de id&#233;ias, das reivindica&#231;&#245;es e das lutas sociais. Quer isto dizer que mais que um momento da filosofia &#8212; ou da arte &#8212; foi o Romantismo um momento da cultura europ&#233;ia, que vai precisamente dos fins do s&#233;culo XVIII at&#233; &#224; metade do s&#233;culo XIX, e que explica os seus motivos mais caracter&#237;sticos na sua rea&#231;&#227;o ao Iluminismo, que o precede. Ao imp&#233;rio da raz&#227;o e das suas regras op&#245;e a exalta&#231;&#227;o da genialidade e espontaneidade do esp&#237;rito nos seus aspectos a-racionais, intuitivos, sentimentais, fide&#237;stas. E &#224; filosofia coube interpretar &#234;sse momento espiritual nos grandes sistemas de Fichte, Schelling e Hegel, nos quais &#233; feita a tentativa grandiosa de mostrar a fecundidade de um princ&#237;pio espiritual (respectivamente: <em>Eu, Absoluto e Id&#233;ia</em>), no qual se integra, numa unidade, todo o sistema do universo. Identificando os contr&#225;rios, fundindo todos os aspectos da realidade e da cultura num princ&#237;pio &#250;nico, e defendendo a tese da igualdade essencial da filosofia, da ci&#234;ncia, da arte e da religi&#227;o, encontrou o Romantismo seu fil&#243;sofo m&#225;ximo em Schelling, que lhe imprimiu o tom peculiar de sua <em>forma mentis</em>.</p><p>A partir de ent&#227;o, o homem passou a ser encarado em sua vida total. Mais que o entendimento e a vontade, impulsaram-se o sentimento e a fantasia. Com isso, o Romantismo instalou sua p&#225;tria, predominantemente, na regi&#227;o art&#237;stica, de maneira especial na regi&#227;o da poesia. Da&#237; ter se encaminhado para uma dire&#231;&#227;o irracional, em busca de um <em>viver-com-tudo</em>, que, ao mesmo tempo, aparece tamb&#233;m como intui&#231;&#227;o intelectual que repele todo conceito definitivamente perfilhado e acompanha a vida em seu progresso incessante ou em seu devir que segue para o Infinito e desfaz, reiteradamente, toda forma. Excluindo e incluindo o irracional e o racional, isto &#233;, a espontaneidade, a novidade imprevis&#237;vel e a f&#244;r&#231;a coordenadora e unificadora que tende a fazer de um <em>caos</em> um <em>cosmos</em>, o Romantismo deixa de ser um fato principalmente liter&#225;rio &#8212; e filos&#243;fico s&#243; por acess&#227;o &#8212; para se transformar num fato principalmente filos&#243;fico, onde n&#227;o s&#243; a literatura, mas tamb&#233;m a ci&#234;ncia, a religi&#227;o, a hist&#243;ria se encontram conjugados por um mesmo esf&#244;r&#231;o, para conquistar uma vis&#227;o total da vida.</p><p>Processo, devir espiritual que emerge dial&#232;ticamente do impulso origin&#225;rio do <em>Sturm und Drang</em>, atrav&#233;s do limite e da media&#231;&#227;o neo-cl&#225;ssica, encontrou o Romantismo sua melhor caracteriza&#231;&#227;o neste passo de Oskar Walzel: &#8220;Solid&#227;o e magia de bosque, o sussurro de riacho que vai para um moinho; o sil&#234;ncio noturno da vila alem&#227;, vozes de sentinelas &#224; noite e murm&#250;rio de fontes; um pal&#225;cio em ru&#237;na com um jardim abandonado, no qual est&#225;tuas de m&#225;rmore se desfazem lentamente e caem aos peda&#231;os; as ru&#237;nas de um castelo destru&#237;do: tudo isso que desperta o desejo de evitar a monotonia de todos os dias &#8212; &#233; rom&#226;ntico&#8221;. Acentuando a unidade das f&#244;r&#231;as espirituais e vendo a sua fonte comum num obscuro e vital sentimento que, aos poucos, se clarifica &#224; luz da consci&#234;ncia, assim o entendeu e o estudou Albert B&#233;guin, com o intuito de acordar a alma do Romantismo, cuja ambi&#231;&#227;o po&#233;tica era chegar, por meio do ato da cria&#231;&#227;o, a uma contempla&#231;&#227;o sem objeto, a uma pura presen&#231;a inef&#225;vel para a qual se orienta o m&#237;stico. Confiando-se &#224;s imagens, procurou o Romantismo &#8212; ao ver de B&#233;guin &#8212; encontrar a fecundidade da imagina&#231;&#227;o m&#237;tica, e alguma coisa mais que a fecundidade: a verdade do conhecimento m&#237;tico e sua saud&#225;vel influ&#234;ncia. &#8220;As imagens fazem bem &#224; alma&#8221;, j&#225; se havia dito nos come&#231;os do Romantismo; &#8220;a poesia &#233; a realidade absoluta&#8221;, acrescentar-se-&#225; depois. Isto esclarece porque a experi&#234;ncia po&#233;tica dos rom&#226;nticos levou &#224;s &#250;ltimas conseq&#252;&#234;ncias o predom&#237;nio entitativo da &#8220;noite&#8221;. </p><p>Ao irromper em seu mist&#233;rio, os poetas buscavam a total harmonia com a natureza, impulsionados, com intensidade, pelas representa&#231;&#245;es do inconsciente. Para isso aniquilaram as apar&#234;ncias temporais, apreenderam a exist&#234;ncia imediata como uma vida para &#226;mbitos noturnos e on&#237;ricos, aplicaram novos significados &#224; revela&#231;&#227;o das sensa&#231;&#245;es, e assim a poesia se converteu numa forma de conhecimento &#8220;m&#225;gico&#8221; que relacionava estreitamente o circundante com a vida obscura do poeta. Com isto, os rom&#226;nticos encaminharam sua inspira&#231;&#227;o por uma busca do Ser s&#243; compar&#225;vel &#224; empreendida pelo m&#237;stico. Haviam descoberto que uma mesma lei impera no mundo exterior e no interior da consci&#234;ncia, e ela lhes ofereceu a seguran&#231;a de atingir essa prevista comunica&#231;&#227;o que os fazia dissolver-se no universo. A concep&#231;&#227;o &#8220;anal&#243;gica&#8221; entre universo e alma se f&#234;z a tal grau consciente que, em geral, precedia &#224; aventura l&#237;rica, transformando-se a poesia num expediente interpretativo dos fen&#244;menos e dos mist&#233;rios do universo, entendida afinal de contas como uma s&#233;rie de gestos m&#225;gicos realizados pelo poeta que n&#227;o conhece claramente sua significa&#231;&#227;o, mas que acredita firmemente que &#234;sses ritos s&#227;o os elementos de uma magia soberana. Precisamente nessa &#8220;humaniza&#231;&#227;o&#8221; do divino, nesse pressentimento do Infinito nas intui&#231;&#245;es &#8212; como queria Uhland &#8212; est&#225; a ess&#234;ncia do rom&#226;ntico.</p><h4><strong>Ecletismo</strong></h4><p>Em nosso pa&#237;s o Romantismo foi a primeira afirmativa de nossos valores culturais, cujos centros foram as duas Faculdades de Direito: a do Recife e a de S&#227;o Paulo. Na capital paulista os acad&#234;micos se reunem numa associa&#231;&#227;o singular, dedicada aos problemas do esp&#237;rito. Essa sociedade acad&#234;mica chamava-se &#8220;Ensaio Filos&#243;fico&#8221; e mant&#233;m uma publica&#231;&#227;o: a <em>Revista Mensal</em>. &#193;lvares de Azevedo, ao proferir, em 1850, o discurso da sess&#227;o de instala&#231;&#227;o, nos informa do inter&#234;sse filos&#243;fico dos rom&#226;nticos brasileiros. A &#233;poca era dominada pelo ecletismo de Cousin, mas o espiritualismo acomodado do pensador franc&#234;s n&#227;o satisfazia a todos os mo&#231;os. E entre &#234;stes estava &#193;lvares de Azevedo, que preferia &#8220;embebedar-se no transcendentalismo alem&#227;o &#8212; Kant, Fichte, no idealismo mais puro e vaporoso, reduzindo o pante&#237;smo de Espinosa e a vis&#227;o em Deus de Malebranche ao egotismo de Fichte e Hegel&#8221;, proclamando serem &#8220;a filosofia e a poesia dois grandes caminhos das Na&#231;&#245;es, as grandes bossas onde se l&#234; o progresso ao cr&#226;nio popular&#8221;. Sustentava &#193;lvares de Azevedo a necessidade de uma &#8220;filosofia brasileira do s&#233;culo XIX&#8221;, como &#8220;s&#237;ntese de um povo, como a querem Pedro Leroux e Gioberti&#8221;, e &#8220;n&#227;o uma ci&#234;ncia fragment&#225;ria e parasita do passado, p&#225;lida c&#243;pia do que foi, como a entendeu o ecletismo de Cousin&#8221;. Como se v&#234;, &#193;lvares de Azevedo est&#225; impregnado do <em>mal rom&#226;ntico</em>, pois &#233; caracter&#237;stico do pensamento do Romantismo a tend&#234;ncia &#224; identifica&#231;&#227;o dos contr&#225;rios, &#224; fus&#227;o de todos os aspectos da realidade e da cultura num princ&#237;pio &#250;nico, assim como a tese da igualdade essencial de filosofia, ci&#234;ncia, arte e religi&#227;o.</p><p>Tamb&#233;m &#224; par&#225;bola rom&#226;ntica pertence o movimento &#8220;krausista&#8221; que irrompeu na Faculdade de Direito de S&#227;o Paulo. Karl Christian Friedrich Krause (1781-1832) &#233; o criador de um sistema correntemente designado com o nome de <em>panente&#237;smo</em>, no sentido de que faz do mundo o conjunto finito que se desenvolve no seio da infinitude divina. Contudo, Deus se acha, como ser pessoal, separado do mundo; &#233;, pr&#242;priamente, seu fundamento e sua supera&#231;&#227;o. Em Deus se realiza a unidade dos contr&#225;rios que no mundo se manifesta e por isso Deus &#233;, ao mesmo tempo, indiferen&#231;a dos contr&#225;rios e a origem de t&#244;da oposi&#231;&#227;o. O mundo se cinde em dois modos de ser fundamentais &#8212; a natureza e o esp&#237;rito &#8212; unidos na humanidade. Esta se comp&#245;e de um conjunto de s&#234;res que se influenciam reciprocamente e que se vinculam a Deus por sua constante tend&#234;ncia para a unidade suprema. As formas da humanidade e, principalmente, as formas hist&#243;ricas, s&#227;o diferentes graus desta ascens&#227;o, que encontra seu ponto culminante na humanidade racional, na pura gravita&#231;&#227;o para o supremo Bem.</p><p>Como &#233; sabido, essa filosofia, que n&#227;o exerceu grande influ&#234;ncia no pensamento filos&#243;fico em geral, conseguiu, no entanto, agrupar um n&#250;mero bastante consider&#225;vel de disc&#237;pulos que expuseram e propagaram as id&#233;ias de Krause, particularmente no dom&#237;nio da filosofia do Direito. O sucesso do krausismo ocorrido na pen&#237;nsula ib&#233;rica e nas antigas col&#244;nias espanholas e portuguesas, &#233; devido a uma circunst&#226;ncia t&#244;da especial, segundo informa Cabral de Moncada, distinguindo-se, por&#233;m, o krausismo lusitano do castelhano. Os seguidores de Krause, em Portugal, adotaram-no pelo fato de que o krausismo teria sido, de todos os sistemas filos&#243;ficos derivados do idealismo alem&#227;o, aqu&#234;le que precisamente melhor se coadunava com a tradi&#231;&#227;o escol&#225;stica e cat&#243;lica portuguesa, dominante desde a Idade M&#233;dia; aqu&#234;le que, constru&#237;do pelo pietismo de Krause, embora dentro do pensamento protestante, apesar de tudo, maiores afinidades mantinha, se n&#227;o com a dogm&#225;tica, pelo menos com a concep&#231;&#227;o-da-vida do catolicismo. </p><p>Por outro lado, o krausismo, sendo uma revivesc&#234;ncia tardia do Direito Natural do s&#233;culo XIX, vinha, tamb&#233;m por &#234;sse lado, achar-se em perfeita coincid&#234;ncia com a tradi&#231;&#227;o filos&#243;fico-jur&#237;dica portuguesa, n&#227;o s&#243; a da Escol&#225;stica como especialmente a do s&#233;culo XVIII, atrav&#233;s do jusnaturalismo iluminista de Wolff e Martini. Finalmente, o krausismo correspondia tamb&#233;m a uma necessidade espiritual fortemente sentida entre os pensadores lusitanos na segunda metade do s&#233;culo XIX. Isto &#233;, pela laiciza&#231;&#227;o de muitos valores morais e sociais do pensamento cat&#243;lico-escol&#225;stico que o liberalismo individualista e materialista da burguesia portuguesa, na segunda metade do s&#233;culo, tinha, por assim dizer, deixado sem base suficiente, o krausismo representou a salva&#231;&#227;o d&#234;sses valores, fornecendo um oportuno ref&#244;r&#231;o a muitas das velhas cren&#231;as que os sustentavam nos esp&#237;ritos mais cultos.</p><p>Em Espanha &#8212; e, em menor grau, em Portugal &#8212; constituiu o krausismo, mais que uma corrente filos&#243;fica pr&#242;priamente dita, um movimento de renova&#231;&#227;o espiritual que tendia a renovar as energias nacionais em t&#244;das as esferas, particularmente na educa&#231;&#227;o e na pol&#237;tica. Mas, se em Madri e Barcelona a nova corrente ensejou &#225;speras pol&#234;micas e oposi&#231;&#245;es ideol&#243;gicas, chegando Men&#233;ndez y Pelayo a contrapor a <em>hispanidad</em> escol&#225;stica ao <em>europe&#237;smo</em> krausista, em Coimbra a nova doutrina se circunscreveu ao &#226;mbito da Universidade. Conforme depoimento de Cabral de Moncada, o krausismo n&#227;o foi, em Portugal, um vasto movimento cultural, com pretens&#245;es a pot&#234;ncia espiritual, visando diretamente fins de renova&#231;&#227;o pedag&#243;gica e social, saturado de conte&#250;dos pol&#237;ticos, com programa europeizante. </p><p>Nenhum dos representantes portugueses foi politicamente perseguido ou vitoriado ao sabor das vicissitudes e alternativas da agitada vida pol&#237;tica do s&#233;culo, como aconteceu em Espanha. O krausismo lusitano, conservador e tradicionalista, foi logo transplantado para o Brasil, na vers&#227;o que lhe dera Ferrer, que adotara Krause como mentor filos&#243;fico em suas aulas de Coimbra. Ora, se ponderarmos &#8212; como lembra Miguel Reale &#8212; que o comp&#234;ndio de Ferrer foi por muito tempo o livro de cabeceira dos nossos estudiosos de Direito Natural; se pensarmos na influ&#234;ncia poderosa do <em>Curso</em> de Ahrens, o disc&#237;pulo amado de Krause, poder-se-&#225; avaliar a influ&#234;ncia decisiva que o krausismo &#8212; <em>na vers&#227;o portuguesa, bem entendido</em> &#8212; exerceu em nosso ambiente pol&#237;tico e jur&#237;dico, modelando a mentalidade dos liberais do Imp&#233;rio. </p><p>Na Faculdade de Direito de S&#227;o Paulo essa ascend&#234;ncia cresce de ponto, especialmente quando, num mesmo sentido, se conjugam os ensinamentos de Galv&#227;o Bueno no &#8220;Curso Anexo&#8221;, autor de umas <em>No&#231;&#245;es de Filosofia</em>, publicadas em 1877, sob inspira&#231;&#227;o de Tiberghien, com as aulas do prof. Jo&#227;o Teodoro Xavier, cuja obra <em>Teoria Transcendental do Direito</em>, impressa em 1876, compendia os princ&#237;pios fundamentais do &#8220;racionalismo harm&#244;nico&#8221; de Krause, onde reconhece que &#8220;at&#233; hoje o comp&#234;ndio de Ferrer tem nesta Faculdade [de Direito de S&#227;o Paulo] fornecido os temas e a ordem das prele&#231;&#245;es&#8221;. Mas, quer ir mais longe e ent&#227;o se prop&#245;e &#8220;ampliar&#8221; as &#8220;teorias harm&#244;nicas&#8221; de Ahrens e de Krause, j&#225; que seu pensamento se prende a &#234;sses pensadores &#8220;pela afinidade&#8221;. De resto, para o mestre paulista, Krause &#233; o &#8220;sucessor de Kant, Fichte, Schelling e Hegel [que] completou, desenvolveu e coroou as doutrinas d&#234;stes fil&#243;sofos&#8221;. </p><p>Portanto, &#233; com Jo&#227;o Teodoro que o krausismo apresenta no Brasil raros lampejos de desenvolvimento aut&#244;nomo, ao passo que, em outros autores, se transforma num ecletismo impreciso, como o que se depreende desta profiss&#227;o de f&#233; de S&#225; e Benevides: &#8220;Eu professo os princ&#237;pios da escola doutrin&#225;ria de Krause e dos Cat&#243;licos&#8221;.</p><p>Figura das mais curiosas do est&#225;gio rom&#226;ntico do pensamento brasileiro &#233; a do padre Diogo Ant&#244;nio Feij&#243;, que o marca com profundo sulco, por&#233;m, mais com a a&#231;&#227;o que com sua contempla&#231;&#227;o. Vivendo com os padres do Patroc&#237;nio, esp&#233;cie de Port-Royal em Itu, para onde f&#244;ra numa &#226;nsia sincera de pureza e perfei&#231;&#227;o moral, em pleno desenvolvimento de uma crise m&#237;stica culminada na pr&#225;tica de rigorosa ascese, emerge de seu mundo interior solicitado pelos acontecimentos pol&#237;ticos do tempo. O padre, como diz Oct&#225;vio Tarqu&#237;nio de Sousa, que buscava a perfei&#231;&#227;o espiritual nos exerc&#237;cios do cen&#243;bio do Patroc&#237;nio, foi tentado e caiu em tenta&#231;&#227;o. N&#227;o na da carne, n&#227;o na da cobi&#231;a dos bens materiais: na tenta&#231;&#227;o da pol&#237;tica. </p><p>Naturalmente, o momento hist&#243;rico, com os sucessos que iam em breve desenrolar-se, n&#227;o propiciava surtos de natureza m&#237;stica; a &#233;poca seria essencialmente pol&#237;tica, obrigando os homens mais cultos a se ocuparem intensamente da cidade, da coisa p&#250;blica, abafando pendores contemplativos ou as solicita&#231;&#245;es da vida interior. Como efeito, como assinala Victor de Azevedo, foi a gera&#231;&#227;o de Feij&#243; que, depois de assistir &#224; radica&#231;&#227;o da fam&#237;lia real portuguesa no Brasil e &#224; eleva&#231;&#227;o do pa&#237;s &#224; categoria de reino, viu-se chamada a realizar a Independ&#234;ncia pol&#237;tica da nacionalidade e a dar-lhe os primeiros alicerces democr&#225;ticos. Mesmo assim &#8212; adianta o bi&#243;grafo citado &#8212; em filosofia, Feij&#243; avan&#231;ava at&#233; Kant, acompanhando as conquistas da Sociologia e do Direito P&#250;blico.</p><p>Uma leitura atenta de seu comp&#234;ndio, redigido para atender &#224;s aulas que &#234;le ditava em Itu, e a compreens&#227;o do momento hist&#243;rico de sua factura, nos convencem da import&#226;ncia d&#234;sse aspecto pouco conhecido de Feij&#243;. S&#227;o Paulo havia sofrido as descobertas aur&#237;feras no fim do s&#233;culo XVII e no princ&#237;pio do s&#233;culo XVIII. A popula&#231;&#227;o estava rarefeita e a prov&#237;ncia mergulhada na ignor&#226;ncia, dormindo o sono modorrento dos ap&#243;s grandes esfor&#231;os. Uma vila se destacava de t&#244;das, por&#233;m, famosa por suas escolas e pelo saber de seus mestres: Itu. Dentre &#234;sses profess&#244;res sobressa&#237;a Feij&#243;, regendo as cadeiras de filosofia e de ret&#243;rica. Francisco Nardy Filho, historiador ituano, informa: &#8220;Not&#225;vel era o desenvolvimento intelectual da sociedade ituana e seu amor pela instru&#231;&#227;o, pois em 1830 j&#225; existia em Itu um col&#233;gio, mantido pela C&#226;mara, onde era lecionado latim, franc&#234;s, matem&#225;tica, filosofia e ret&#243;rica&#8221;.</p><p>Essa tradi&#231;&#227;o ituana de cultura explicaria o fato de Feij&#243;, em 1818, ou seja, 14 anos apenas ap&#243;s a morte de Kant, e quando ainda n&#227;o era bem conhecido fora da Alemanha, transmitir aos seus alunos as linhas mestras do pensamento kantiano. N&#227;o importa saber, pondera Renato Cirell Czerna, se o conhecimento da obra e da doutrina do fil&#243;sofo tudesco, por parte de Feij&#243;, f&#244;sse direto ou indireto. Nem objetar que, tentando &#234;le uma concilia&#231;&#227;o entre elementos da doutrina criticista e elementos da tradi&#231;&#227;o vigente no Brasil em sua &#233;poca, n&#227;o f&#244;sse puro o seu criticismo. N&#227;o h&#225; d&#250;vida que os elementos de kantismo acumulam-se, uns encobertos por uma terminologia imprecisa e obscura, outros n&#237;tidos e incontest&#225;veis, todos, por&#233;m, significando que o padre Feij&#243;, na pequena vila de Itu, sabia tomar contacto com uma fonte viva do pensamento moderno, d&#234;le assimilando o que era poss&#237;vel assimilar, dadas as circunst&#226;ncias pouco prop&#237;cias do meio e do tempo. E isto porque, segundo Miguel Reale, o que importa mais que a conformidade formal dos textos &#233; o esp&#237;rito novo que anima os escritos do padre Feij&#243;, homem da Igreja, formado &#224; luz de um pensamento dogm&#225;tico e que, no entanto, prefere a Filosofia Cr&#237;tica &#8212; &#8220;que descobre a verdadeira origem dos nossos conhecimentos&#8221;.</p><p>A corrente filos&#243;fica que dominar&#225; o pensamento brasileiro dos meados do s&#233;culo XIX &#233; o Ecletismo, representado por Mont&#8217;Alverne, por Domingos Gon&#231;alves de Magalh&#227;es e por Eduardo Ferreira Fran&#231;a, inspirados em maior ou menor grau por Victor Cousin, que pretendia conciliar, num sistema pouco definido, o que julgava verdadeiro em todos os sistemas, considerados como manifesta&#231;&#245;es parciais de uma verdade &#250;nica e mais ampla. Nesse sentido, &#233; o Ecletismo uma reuni&#227;o de teses concili&#225;veis tomadas de diferentes sistemas de filosofia, e que s&#227;o justapostas, deixando de lado, pura e simplesmente, as partes n&#227;o concili&#225;veis desses sistemas. Conforme Saisset, disc&#237;pulo de Cousin, afirmara na li&#231;&#227;o de abertura do curso de hist&#243;ria da filosofia na Sorbonne, a 19 de janeiro de 1857, &#8220;o Ecletismo criador &#8212; dos homens de g&#234;nio, dos Plat&#245;es, dos Arist&#243;teles, dos Leibniz &#8212; consiste em recolher todas as grandes id&#233;ias suscitadas pelo progresso das idades, e em fundi-las para uni-las no crisol de uma id&#233;ia nova&#8221;.</p><p>Contudo, se em sentido geral, ecl&#233;tica &#233; toda reuni&#227;o de elementos doutrinais alheios num conjunto, cabe distinguir entre a mera sele&#231;&#227;o de doutrinas que atende apenas &#224; sua poss&#237;vel concilia&#231;&#227;o, em virtude das prefer&#234;ncias subjetivas, e a sele&#231;&#227;o produzida por um princ&#237;pio superior, que d&#225; a cada um dos elementos conciliados um novo sentido. A primeira acep&#231;&#227;o &#233; pejorativa, reuni&#227;o que &#233;, sem nova elabora&#231;&#227;o, reservando-se para &#234;ste tipo de concilia&#231;&#227;o sem m&#233;todo e sem cr&#237;tica o t&#234;rmo Sincretismo, definido por Franck &#8212; outro sequaz de Cousin &#8212; como &#8220;concilia&#231;&#227;o mais ou menos for&#231;ada de doutrinas totalmente diferentes&#8221;, pois a posi&#231;&#227;o sincr&#233;tica n&#227;o &#233; uma integra&#231;&#227;o, mas um mero agregado ou justaposi&#231;&#227;o. J&#225; a segunda acep&#231;&#227;o nada tem de pejorativo e traduz o fato de que t&#244;da nova filosofia, em &#250;ltima inst&#226;ncia, &#233; ecl&#233;tica, englobando em seu seio os aspectos de doutrinas alheias, aparentemente incompat&#237;veis com ela.</p><p>Pertence ao Ecletismo aut&#234;ntico o espiritualismo ecl&#233;tico de Victor Cousin, cuja caracter&#237;stica &#233; a ado&#231;&#227;o de um princ&#237;pio que &#233;, ao mesmo tempo, crit&#233;rio de verdade para a discrimina&#231;&#227;o das doutrinas anteriores, as quais n&#227;o s&#227;o negadas ou aceitas em bloco, mas selecionadas de ac&#244;rdo com o resultado dessa discrimina&#231;&#227;o. Da&#237; o pr&#243;prio Cousin repetidamente advertir: &#8220;n&#227;o aconselho, certamente, esse cego sincretismo que perdeu a escola de Alexandria e que procurava aproximar pela f&#244;r&#231;a os sistemas contr&#225;rios; o que recomendo &#233; um ecletismo ilustrado que, julgando com eq&#252;idade e inclusive com benevol&#234;ncia t&#244;das as escolas, pe&#231;a-lhes por empr&#233;stimo o que t&#234;m de verdadeiro e elimine o que t&#234;m de falso&#8221;.</p><p>A filosofia de Cousin, que coincidiu com a situa&#231;&#227;o pol&#237;tica conciliadora de sua &#233;poca, n&#227;o obstante ter sido quase sempre combatida como superficial, estendeu-se r&#224;pidamente, sobretudo nas pen&#237;nsulas ib&#233;rica e it&#225;lica e em alguns pa&#237;ses hispano-americanos, notadamente em Cuba e no Brasil. No Imp&#233;rio de Pedro II foi o Ecletismo recebido com aplausos gerais, gra&#231;as &#224; in&#233;rcia pol&#237;tica daquela sociedade escravocrata e semipatriarcal, onde a luta pelo poder n&#227;o passava de intrigas palacianas, onde os partidos n&#227;o representavam nada de substancial, sendo manejados displicentemente por um monarca bocejante e onde, finalmente, por essa &#233;poca, o marqu&#234;s de Paran&#225; formava o mais heterog&#234;neo e amorfo dos governos, a que a hist&#243;ria batizou precisamente com o predicado pr&#243;prio da filosofia ecl&#233;tica, como o Gabinete da Concilia&#231;&#227;o.</p><p>E conciliador foi o frei Francisco de Mont&#8217;Alverne (1784-1858), frade capuchinho famoso por sua orat&#243;ria mas de limitada import&#226;ncia filos&#243;fica devido ao descaso dos estudos especulativos em sua &#233;poca. S&#237;lvio Romero informa: &#8220;Ent&#227;o o ensino filos&#243;fico era um am&#225;lgama de Storkenau e Genovense, &#234;sses nomes desconhecidos na hist&#243;ria do ensino p&#250;blico dos povos cultos&#8230; Uns restos estropiados de Locke e Condillac, reduzidos a figuras m&#237;nimas pelos disc&#237;pulos e comentadores, e algumas laudas enganadoras, brilhantes pelo estilo e fr&#225;geis pela an&#225;lise, de Laromigui&#232;re, tal o seu conte&#250;do. &#8212; Tudo isto decorado, n&#227;o para perscrutar o enigma do homem e do universo; sim para limar a arg&#250;cia e secundar a loq&#252;ela. </p><p>Depois, mais alguma vulgariza&#231;&#227;o das obras de Maine de Biran, que n&#227;o teve contraditores por n&#227;o ter quem o lesse, segundo diz Taine, e de Victor Cousin, que sacrificava o pensamento pelo amor da frase, como no-lo declara Renan, trouxe a propens&#227;o e finalmente a queda completa para o ecletismo espiritualista franc&#234;s. A esta fase pertencem Mont&#8217;Alverne e os seus continuadores: Eduardo Fran&#231;a e Domingos de Magalh&#227;es. T&#227;o pobre, t&#227;o insalubre foi o alimento que lhe forneceu a cultura de sua p&#225;tria, em seu tempo; t&#227;o ingratas as influ&#234;ncias a que teve de ceder, que a cr&#237;tica sente-se com impulsos de o absorver&#8221;.</p><p>Sua deficiente forma&#231;&#227;o intelectual, por&#233;m, n&#227;o foi obst&#225;culo para que resplandecessem com brilho singular as qualidades orat&#243;rias do frei Francisco, tendo sido, mo&#231;o ainda, nomeado pregador da Real Capela de D. Jo&#227;o VI e, na velhice, j&#225; cego, D. Pedro II f&#234;z-lhe um ap&#234;lo para que pregasse numa festa religiosa a que compareceria a imperial figura do Bragan&#231;a, que se sentia no &#237;ntimo um pol&#237;grafo e um humanista. Tudo colaborava para o sucesso dos serm&#245;es de Mont&#8217;Alverne, dotado de temperamento rom&#226;ntico e de figura f&#237;sica impressionante. Gon&#231;alves de Magalh&#227;es, seu disc&#237;pulo amado, o descreve de alta estatura, de complei&#231;&#227;o musculosa, de rosto longo, descarnado e p&#225;lido, enquadrado escult&#242;ricamente no negro capuz do cenobita; olhos grandes e rasgados, aos quais assomava o entusiasmo na constante dilata&#231;&#227;o das p&#225;lpebras; voz forte, prolongada, flex&#237;vel, de timbre cavernoso e &#225;spero; movimentos amplos, precisos, majestosos. Numa palavra: Jo&#227;o Caetano, o mais famoso ator da ribalta imperial, era ass&#237;duo ouvinte de seus serm&#245;es, que os considerava como a melhor demonstra&#231;&#227;o da arte c&#234;nica.</p><p>Ainda hoje, numa capelinha constru&#237;da por Anchieta, num promont&#243;rio &#224; margem do Saco de S&#227;o Francisco, em Niter&#243;i, &#233; mostrado com orgulho o p&#250;lpito &#8212; hoje lacrado &#8212; onde pregou Mont&#8217;Alverne.</p><p>Sua doc&#234;ncia &#8212; ensinou ret&#243;rica, filosofia e teologia em S&#227;o Paulo e no semin&#225;rio de S&#227;o Jos&#233;, no Rio de Janeiro &#8212; da qual resultou o <em>Comp&#234;ndio de Filosofia</em> (publicado p&#243;stumamente em 1859, mas sua reda&#231;&#227;o data de 1833) era, claro est&#225;, o modelo perfeito da filosofia teatralizada, expondo primeiro as doutrinas de Locke e Condillac, depois os ecl&#233;ticos franceses. O tom orat&#243;rio de Victor Cousin o seduzia de tal forma que n&#227;o duvidava em cham&#225;-lo de sublime. Para Mont&#8217;Alverne o ecl&#233;tico espiritualista franc&#234;s era um d&#234;sses &#8220;g&#234;nios, nascidos para revelar os prod&#237;gios da raz&#227;o humana&#8221;, um homem que se &#8220;levantou como um Deus, no meio do caos, em que se cruzavam e combatiam todos os elementos filos&#243;ficos&#8221;. E n&#227;o titubeava em fazer seu auto-elogio: &#8220;O pa&#237;s tem altamente declarado que eu fui uma dessas gl&#243;rias de que &#234;le ainda hoje se ufana&#8221;. Da&#237; seu prop&#243;sito de forjar por aproveitar o que Cousin tinha feito, &#8220;e restaurar com &#234;le o sistema filos&#243;fico&#8221;, j&#225; que para Mont&#8217;Alverne &#8220;o sistema sublime de M. Cousin apenas &#233; conhecido no Brasil&#8221;.</p><p>Atendendo ao chamado da gl&#243;ria, o orador-fil&#243;sofo proferia ora&#231;&#245;es como quem respira, e ao reunir suas <em>Obras Orat&#243;rias</em>, lamentava no pref&#225;cio a perda de alguns serm&#245;es, mais sens&#237;veis a seus olhos que a dos famosos hex&#226;metros virgilianos. Antecipando-se a poss&#237;veis imperfei&#231;&#245;es nos seus escritos, excusava-se dizendo: &#8220;Quando, pois, havia de exprimir uma id&#233;ia, empregava em sua exposi&#231;&#227;o o t&#234;rmo que me parecia mais significativo ou mais sonoro, sem preocupar-me de sua precis&#227;o nem ainda de sua exist&#234;ncia&#8221;. Isto explica seu entusiasmo pelas doutrinas de Condillac, mais liter&#225;rias do que filos&#243;ficas, mais eloq&#252;entes que profundas, esmaltadas de cita&#231;&#245;es cl&#225;ssicas e que serviam adequadamente &#224; empolada eloq&#252;&#234;ncia sacra de Mont&#8217;Alverne.</p><p>Domingos Jos&#233; Gon&#231;alves de Magalh&#227;es (1811-1882), par do Imp&#233;rio, com o t&#237;tulo de Visconde de Araguaia, foi o disc&#237;pulo predileto, o bi&#243;grafo devotado e o arauto do ecletismo de Mont&#8217;Alverne, reproduzindo as li&#231;&#245;es, o estilo e o cabotinismo do mestre. Depois de passar pelos preparat&#243;rios no Semin&#225;rio de S&#227;o Jos&#233;, onde ouvia, basbaque, as demonstra&#231;&#245;es filos&#243;fico-orat&#243;rias de Mont&#8217;Alverne &#8212; era menos a ci&#234;ncia do que a fac&#250;ndia do mestre que encantava os seus alunos &#8212; formou-se em medicina na Universidade de Coimbra. Em 1841 regeu a cadeira de filosofia no col&#233;gio Pedro II, deixando-a pouco depois para entregar-se &#224; carreira diplom&#225;tica. Precisamente em Paris publicou sua obra principal &#8212; <em>Fatos do esp&#237;rito humano</em>, 1858 &#8212; redigida em N&#225;poles entre 1847 e 1857, e que &#233; um estudo psicol&#243;gico da natureza humana, da origem e valor do conhecimento.</p><p>Gon&#231;alves de Magalh&#227;es, que ouviu as li&#231;&#245;es de Jouffroy em Paris e leu Cousin, era de constitui&#231;&#227;o doentia, talvez epil&#233;tico. F&#244;ra secret&#225;rio do Duque de Caxias, nas campanhas do Maranh&#227;o e canta em odes pind&#225;ricas as vit&#243;rias do c&#233;lebre general, o mesmo fazendo na revolta dos Farrapos, recebendo em paga a investidura parlamentar de deputado pela Prov&#237;ncia do Rio Grande do Sul. Enquanto fil&#243;sofo &#8212; como poeta, Gon&#231;alves de Magalh&#227;es &#233; tido como o introdutor do Romantismo no Brasil &#8212; condensa, com maior ou menor coer&#234;ncia, a escola escocesa, o ecletismo franc&#234;s e o ontologismo italiano. N&#227;o &#233; um ecl&#233;tico t&#227;o ortodoxo como Mont&#8217;Alverne, mas &#233; e mais profundamente ainda se jurasse por Cousin, porquanto sua filosofia &#233; a filosofia da concilia&#231;&#227;o entre o inconcili&#225;vel. Ou seja, achava que infalivelmente operar-se-ia uma fus&#227;o entre os mais opostos sistemas &#8212; sensualismo e espiritismo &#8212; &#8220;os dois grandes e &#250;nicos sistemas fundamentais de t&#244;da a filosofia&#8221;, que &#8220;h&#227;o de acabar infalivelmente por uma fus&#227;o, por uma s&#243; doutrina&#8221;.</p><p>Finalmente, o &#250;ltimo representante do ecletismo brasileiro &#233; Eduardo Ferreira Fran&#231;a (1809-1857), m&#233;dico baiano de renome, formado em Paris, autor de dois tomos encimados pelo t&#237;tulo <em>Investiga&#231;&#245;es de psicologia</em> (1854), onde debate os principais problemas de psicologia experimental de seu tempo, passando em revista Reid, Dugald-Stewart, Gallupi, Maine de Biran, Jouffroy, Royer-Collard, A. Garnier e Tissot.</p><p>Querendo combater a frenologia de Gall em nome do espiritualismo, acaba por nos oferecer uma par&#243;dia substitutiva, suplantando as localiza&#231;&#245;es cerebrais por localiza&#231;&#245;es espirituais, e com o mesmo luxo e frenesi do autor su&#237;&#231;o. Reportando-se &#224; &#8220;locabilidade&#8221; &#8212; faculdade intelectual aut&#244;noma, que nos d&#225; apenas o conhecimento de nosso corpo como nosso, e que sem ela o ver&#237;amos como outro qualquer, estranho por completo a n&#243;s &#8212; Ferreira Fran&#231;a informa que nisso p&#225;ra, nisso esgota sua fun&#231;&#227;o a locabilidade, pois para o tenebroso mundo exterior surge, no momento preciso, outra faculdade: a receptividade. </p><p>Por isso, carradas de raz&#227;o teve S&#237;lvio Romero, quando diz que o espiritualista baiano &#8220;reduz o homem a uma alma rec&#244;ndita, remota, a tal ponto distinta do corpo, que &#234;ste correria o perigo de confundir-se com um outro corpo qualquer, se aquela n&#227;o tivesse uma faculdade especial que o vem salvar de um completo esquecimento. &#201; o requinte da espiritualidade!&#8221;.</p><p>Ao ver de Antonio G&#243;mez Robledo, d&#234;ste tr&#237;ptico do Ecletismo brasileiro, Ferreira Fran&#231;a &#233;, sem d&#250;vida, a figura mais grave. N&#227;o tem a polimatia do Visconde de Araguaia, n&#227;o &#233; um cont&#234;rtulio mais daqueles saraus filos&#243;ficos da c&#244;rte carioca, que faziam as del&#237;cias de Mont&#8217;Alverne. Ao contr&#225;rio d&#234;les, o m&#233;dico baiano, reflexivo e discreto, foi um leal servidor da ci&#234;ncia e possuiu, com voca&#231;&#227;o aut&#234;ntica, o desejo do saber principal. Os v&#237;cios de seu sistema n&#227;o s&#227;o imput&#225;veis a &#234;le, mas ao estado desventurado dos estudos filos&#243;ficos em seu tempo e em seu meio. De qualquer maneira, por&#233;m, os tr&#234;s contribu&#237;ram para a divulga&#231;&#227;o do g&#244;sto pela filosofia no Brasil, e com pleno sucesso. Isto porque, de ac&#244;rdo com Cl&#243;vis Bevil&#225;qua, o Ecletismo foi a filosofia que mais profundas simpatias despertou na alma brasileira, devido ao seu verbalismo exuberante, ao seu lirismo e &#224; sua superficialidade, por sinal, tr&#234;s virtudes bem nacionais&#8230;</p><h4>Ascens&#227;o do positivismo</h4><p>Na segunda metade do s&#233;culo XIX, na Europa, e mais tarde no Brasil, o panorama filos&#243;fico se altera. A nova palavra-de-ordem &#233; reivindicar o valor das ci&#234;ncias particulares contra as &#225;ridas constru&#231;&#245;es metaf&#237;sicas do idealismo transcendental, que vai de Fichte a Hegel e o valor da experi&#234;ncia contra o apriorismo pr&#243;prio da filosofia rom&#226;ntica. &#202;sse novo e vasto movimento filos&#243;fico foi o Positivismo, que deve ser tido n&#227;o apenas como uma dire&#231;&#227;o especulativa, mas, principalmente, como um movimento que informou a cultura europ&#233;ia, a partir da segunda metade do s&#233;culo XIX. Nesse sentido, o Positivismo, mais que uma doutrina filos&#243;fica, foi um m&#233;todo, uma <em>forma mentis</em>, isto &#233;, afirmava que qualquer que f&#244;sse o objeto da investiga&#231;&#227;o, era preciso considerar a experi&#234;ncia como o &#250;nico crit&#233;rio da verdade.</p><p>Assim, n&#227;o obstante as diferen&#231;as que distinguem as v&#225;rias formas positivistas (a francesa, a italiana, a alem&#227;, a inglesa, etc.), suas constantes e pontos comuns podem ser esquematizados assim: a) reformular e buscar a verdade nos fatos positivos; b) considerar a experi&#234;ncia como &#250;nica fonte do saber e crit&#233;rio &#250;ltimo de certeza; c) acordo e quase identidade entre conhecimento filos&#243;fico e conhecimento cient&#237;fico; d) atitude agn&#243;stica ou negativa diante dos problemas da metaf&#237;sica, ou negando os limites da experi&#234;ncia, pertencendo assim ao &#226;mbito da fantasia; e) concep&#231;&#227;o mecanicista da natureza e, consequentemente, determinismo dos fatos naturais e humanos; f) unidade do real, n&#227;o obstante alguns positivistas afirmarem a diversidade da mat&#233;ria com rela&#231;&#227;o ao esp&#237;rito; g) g&#234;nese, explica&#231;&#245;es e justifica&#231;&#245;es dos valores espirituais segundo a evolu&#231;&#227;o biol&#243;gica e as leis da psicologia.</p><p>Assim, se a eclos&#227;o do Positivismo se deve, em parte, a uma rea&#231;&#227;o diante da filosofia rom&#226;ntica especulativa, por outro lado se mant&#233;m quase durante todo o s&#233;culo XIX, penetrando de modo profundo, inclusive nas dire&#231;&#245;es de pensamento que, como o neokantismo, por exemplo, se propuseram combat&#234;-lo. Desta forma, constituiu o Positivismo uma teoria do saber que se negava a admitir outra realidade que n&#227;o fossem os fatos e a investigar outra coisa que n&#227;o fossem as rela&#231;&#245;es entre os fatos. Isto &#233;, o Positivismo n&#227;o s&#243; exigia de toda a ci&#234;ncia que partisse de fatos tomados no sentido de objetos percept&#237;veis, mas que tamb&#233;m se limitasse a comprov&#225;-los e a enla&#231;&#225;-los com leis. Determinado pelo desprezo &#224; metaf&#237;sica e por uma confian&#231;a sem limites na ci&#234;ncia, o Positivismo adotou como crit&#233;rio &#250;nico da verdade o m&#233;todo da ci&#234;ncia, enquanto consistisse em fatos, em fen&#244;menos, em alguma coisa positiva, como se dizia ent&#227;o, com uma palavra em voga. Combatia, pois, qualquer ousadia da raz&#227;o apenas, qualquer pretens&#227;o de conhecimento <em>a priori</em>, qualquer tentativa de alcan&#231;ar aquilo que escapava aos sentidos, que transbordava da experi&#234;ncia &#8212; as chamadas &#8220;coisas em si&#8221;. Esp&#237;rito cient&#237;fico e antimetaf&#237;sico caracterizavam, portanto, o Positivismo que, por isso, era mais uma tend&#234;ncia e uma metodologia, que um sistema doutrinal.</p><p>Em nosso pa&#237;s o Positivismo obteve a mais ampla resson&#226;ncia, figurando na pr&#243;pria bandeira nacional um dos lemas de Augusto Comte. A raz&#227;o do seu sucesso no Brasil talvez se deva tamb&#233;m ao excesso de &#8220;espiritualismo&#8221; da tradi&#231;&#227;o, que cansara os letrados ou, como dizia Cl&#243;vis Bevil&#225;qua, a ascend&#234;ncia dos ideais positivistas se devia &#224; circunst&#226;ncia dessa doutrina haver prometido manter a filosofia &#8220;num terra a terra bem pr&#243;prio para interessar as intelig&#234;ncias pouco afeitas &#224;s contens&#245;es prolongadas e &#224;s abstra&#231;&#245;es elevadas&#8221;. Ou porque, acrescenta: &#8220;O Positivismo, resumindo o conjunto vast&#237;ssimo do saber humano em poucos livros, e impondo os preceitos cient&#237;ficos com o dogmatismo intransigente com que evangelizam as religi&#245;es abolindo m&#225;culas de heresias, favorecia a nossa indol&#234;ncia mental, que prefere os devaneios da imagina&#231;&#227;o e as facilidades do dogmatismo &#224;s asperezas do estudo e da an&#225;lise&#8221;. Portanto, &#233; poss&#237;vel compreender-se o sucesso do Positivismo entre n&#243;s e outros povos parentes do nosso, como o Chile e o M&#233;xico, justamente por esse repouso que permitem ao esp&#237;rito as defini&#231;&#245;es irresist&#237;veis e imperativas do sistema de Comte, porquanto, de todas as formas de evas&#227;o da realidade, o conv&#237;vio das ideias e especula&#231;&#245;es pareceu-nos a mais f&#225;cil em nossa dif&#237;cil adolesc&#234;ncia pol&#237;tica e social.</p><p>No Brasil o Positivismo se bipartiu em duas alas, por vezes antag&#244;nicas: os &#8220;ortodoxos&#8221;, seguidores da Religi&#227;o da Humanidade e crentes no &#8220;Grande Ser&#8221;, representados pelos ap&#243;stolos Miguel Lemos e Teixeira Mendes, e os &#8220;dissidentes&#8221;, cujo vulto maior foi Lu&#237;s Pereira Barreto, e que se limitou ao &#226;mbito estritamente filos&#243;fico da doutrina.</p><p>Este &#250;ltimo, depois de haver cursado a Universidade de Bruxelas, sustenta em 1865, perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, uma tese positivista de grande repercuss&#227;o: <em>Teoria das gastralgias e das neuroses em geral</em>. Em seguida publica os dois primeiros tomos de suas <em>Tr&#234;s filosofias</em> (&#8220;Filosofia teol&#243;gica&#8221;, 1874; &#8220;Filosofia metaf&#237;sica&#8221;, 1876), jamais editando a terceira parte, que se intitularia &#8220;Positivismo&#8221;, devido &#224;s lutas que manteve com os seguidores da Religi&#227;o da Humanidade, cujos reflexos s&#227;o patentes na circular de 1881, assinada por Miguel Lemos, onde a obra da Religi&#227;o da Humanidade jurou sobre o t&#250;mulo do Mestre fidelidade eterna, e cumpriu o compromisso com &#226;nimo admir&#225;vel. </p><p>Quando se retirou da vida ativa, entregou o facho da f&#233; positivista a Teixeira Mendes que, aos quinze anos de idade, recusou-se altivamente a receber o t&#237;tulo de bacharel, para n&#227;o se ver obrigado a jurar fidelidade ao imperador e &#224; religi&#227;o oficial do Estado. Expulso juntamente com Miguel Lemos da Escola Polit&#233;cnica do Rio de Janeiro, matriculou-se na Faculdade de Medicina, n&#227;o para exercer a profiss&#227;o, mas com o &#250;nico prop&#243;sito de adquirir a instru&#231;&#227;o enciclop&#233;dica recomendada por Comte.</p><p>Assim sendo, n&#227;o se exagerou quando Teixeira Mendes foi apontado como o &#250;nico indiv&#237;duo, no mundo, que realizou plenamente, em todos os atos de sua vida p&#250;blica ou privada, o complicado e austero c&#243;digo &#233;tico-jur&#237;dico do Positivismo, encarnando perfeitamente o tipo ideal do homem sonhado por Comte. At&#233; seu casamento foi celebrado segundo o ritual positivista, talvez o primeiro sacramento da Religi&#227;o da Humanidade levado a efeito no continente americano. Em sua casa n&#227;o havia escravos, e muito menos empregadas dom&#233;sticas, e quando algum convidado trazia &#8220;bab&#225;s&#8221;, estas estavam obrigadas a tomar assento &#224; mesa do anfitri&#227;o. Nada de caf&#233;, nem bebidas alco&#243;licas, nem cigarros.</p><p>Consagrados de corpo e alma ao Apostolado, Miguel Lemos e Teixeira Mendes viveram em grande pobreza, chegando o primeiro a exercer o of&#237;cio de relojoeiro, que havia aprendido com sua paci&#234;ncia habitual, recusando assim o audit&#243;rio dos sequazes. Era bem conhecida no Rio de Janeiro a estranha figura de Miguel Lemos, o &#8220;papa verde&#8221; (devido &#224; capinha verde que usava nos of&#237;cios lit&#250;rgicos da igreja positivista), que Lu&#237;s Edmundo descreve todo sebento, sobrando pap&#233;is, sempre viajando de bonde, entre oper&#225;rios e negrinhos, com embrulhos. E ele mesmo, mais de uma vez, foi distribuir folhetos na rua do Ouvidor, de protesto contra o privil&#233;gio funer&#225;rio, contra a troca de caf&#233; por trigo ou contra a vacina&#231;&#227;o obrigat&#243;ria ordenada por Oswaldo Cruz. </p><p>Nesse sentido, insurgindo-se contra o tratado comercial entre o Brasil e a Argentina, dizia Teixeira Mendes que &#8220;o trigo &#233; incontestavelmente um alimento fundamental, ao passo que o caf&#233; &#233; uma subst&#226;ncia cujo car&#225;ter nocivo, salvo casos excepcionais, acha-se proclamado pelo conjunto dos cientistas ocidentais&#8221;. Com refer&#234;ncia &#224; luta de Oswaldo Cruz contra a febre amarela, afirmava Teixeira Mendes que a vacina&#231;&#227;o, al&#233;m de &#8220;tir&#226;nica&#8221;, era anticient&#237;fica (circular de 23 de maio de 1907).</p><p>Diante disso, raz&#227;o tinha Anatole France quando afirmava que a Religi&#227;o da Humanidade era triste e tir&#226;nica, o que explica a arquitetura da Igreja positivista do Rio de Janeiro, instalada num pr&#233;dio frio e severo. Dentro da nave, o busto de Comte e um retrato de Clotilde, simbolizando a humanidade. Ao longo dos muros, os bustos das personalidades hist&#243;ricas que d&#227;o nome aos meses do calend&#225;rio positivista: Mois&#233;s, Arist&#243;teles, C&#233;sar, S&#227;o Paulo, Homero, Carlos Magno, Descartes, Shakespeare, Guttenberg, Arquimedes, Frederico o Grande, Bichat e Helo&#237;sa.</p><p>Lima Barreto, no romance <em>Isa&#237;as Caminha</em>, descreve o cerimonial lit&#250;rgico das pr&#233;dicas dominicais de Teixeira Mendes, quando o seu personagem n&#227;o podia reprimir o riso ao surgir o vice-diretor do Apostolado, com a capinha verde aos ombros, &#8220;ao som de um t&#237;mpano rouco, arrepanhando a batina&#8221;. &#8220;Ficava assombrado &#8212; s&#227;o impress&#245;es que o romancista nos confiou atrav&#233;s de Isa&#237;as Caminha &#8212; com a firmeza com que ele [Teixeira Mendes] anunciava a felicidade contida no Positivismo e a simplicidade dos meios necess&#225;rios para a sua vit&#243;ria: bastava tal medida, bastava essa outra &#8212; e todo aquele r&#237;gido sistema de regras, abrangendo todas as manifesta&#231;&#245;es da vida coletiva e individual, passaria a governar, a modificar costumes, h&#225;bitos e tradi&#231;&#245;es. Explicava o catecismo. Abria o livro, lia um trecho e procurava o caminho para alus&#245;es a quest&#245;es atuais, repetindo f&#243;rmulas para se obter um bom governo que tendesse a preparar a era normal &#8212; o advento final da Religi&#227;o da Humanidade&#8221;. &#8220;Eu achava &#8212; comenta Isa&#237;as &#8212; aquela disserta&#231;&#227;o t&#227;o intelectual, t&#227;o balda de comunica&#231;&#227;o, t&#227;o incapaz de erguer dentro de mim o devotamento, o altru&#237;smo, o esfor&#231;o sobre mim mesmo em favor dos outros, como dizia o Ap&#243;stolo, que me quedava a indagar at&#233; que ponto o audit&#243;rio respeitoso estava convencido e at&#233; que ponto fingia convic&#231;&#227;o&#8221;.</p><p>Seja como for, Teixeira Mendes foi o mais belo fruto moral e cultural do positivismo, no Brasil e no mundo, criando profundas ra&#237;zes seu exemplo e sua li&#231;&#227;o. Por isso p&#244;de afirmar Cruz Costa que &#8220;o Positivismo n&#227;o morreu de todo no Brasil. Desapareceu, ou quase desapareceu, na sua forma religiosa e pouca influ&#234;ncia tem sob a forma pol&#237;tica. Mas, cremos, o seu esp&#237;rito, contradit&#243;rio e aparentemente paradoxal, mant&#233;m-se difuso ainda no pensamento brasileiro&#8221;.</p><p>A mais importante tend&#234;ncia filos&#243;fica ligada ao Positivismo e que, por sua vez, viria acentuar, por volta de 1860, a progressiva import&#226;ncia e influ&#234;ncia das ci&#234;ncias naturais, &#233; o Evolucionismo. Seus primeiros adeptos s&#227;o tr&#226;nsfugas da filosofia positiva, cabendo a Spencer a chefia do novo movimento, porquanto, antecipando-se a Darwin, concebia a ideia de uma interpreta&#231;&#227;o geral da realidade &#224; base do princ&#237;pio de evolu&#231;&#227;o, isto &#233;, transforma&#231;&#227;o que faz passar um agregado do homog&#234;neo ao heterog&#234;neo, ou do menos heterog&#234;neo ao mais heterog&#234;neo. Segundo Spencer, &#8220;a evolu&#231;&#227;o &#233; uma integra&#231;&#227;o de mat&#233;ria e uma dissipa&#231;&#227;o concomitante de movimento, durante a qual a mat&#233;ria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente a uma heterogeneidade definida e coerente, e durante a qual o movimento retido sofre uma transforma&#231;&#227;o paralela&#8221;. Nesse sentido, o Evolucionismo seria a doutrina que afirma que a lei geral do desenvolvimento dos seres &#233; a diferencia&#231;&#227;o &#8212; isto &#233;, transforma&#231;&#227;o de elementos semelhantes em elementos diferentes, ou de elementos menos diferentes em elementos mais diferentes &#8212; acompanhada de integra&#231;&#227;o, lei esta que teria permitido a forma&#231;&#227;o, sucessivamente, do sistema solar, das esp&#233;cies qu&#237;micas, das faculdades intelectuais, das institui&#231;&#245;es sociais, etc.</p><p>Vinculado &#224; filosofia evolucionista est&#225; o Monismo, entendido como uma doutrina que considera a pluralidade dos seres como resol&#250;vel numa unidade fundamental imanente, porquanto o princ&#237;pio evolucionista &#233; &#8212; de modo mais ou menos expl&#237;cito &#8212; essencial ao Monismo. Da&#237; Haeckel defini-lo como &#8220;unidade do universo, sem ant&#237;tese entre esp&#237;rito e mat&#233;ria; identidade de Deus e mundo, que n&#227;o foi criado, mas que evolui segundo leis eternas; nega&#231;&#227;o de uma for&#231;a vital independente das for&#231;as f&#237;sicas e qu&#237;micas; mortalidade da alma; n&#227;o aceita&#231;&#227;o da oposi&#231;&#227;o estabelecida pelo cristianismo entre os fins da carne e os fins do esp&#237;rito; excel&#234;ncia da natureza; racionalismo; religi&#227;o da ci&#234;ncia, do bem e da beleza&#8221;.</p><p>Precisamente somat&#243;ria de Evolucionismo e Monismo &#233; a doutrina adotada pelos corifeus da chamada Escola do Recife: <strong>Tobias Barreto </strong>(1839-1889) e S&#237;lvio Romero (1851-1914) e, em menor grau, Cl&#243;vis Bevil&#225;qua (1859-1944). O sucesso das ideias de Spencer e Haeckel at&#233; certo ponto &#233; compreens&#237;vel pela maneira amena com que esses pensadores expunham suas ideias. Tanto os <em>Primeiros princ&#237;pios</em> como os <em>Enigmas do universo</em>, este &#250;ltimo principalmente, s&#227;o livros que se revestem de um encanto f&#225;cil, envoltos numa atmosfera otimista de perfei&#231;&#227;o das coisas e dos homens atrav&#233;s do progresso. E abordam temas empolgantes que cativam o interesse filos&#243;fico nascente, tais como as quest&#245;es de Deus, da imortalidade, da liberdade. E tudo facilmente resolvido ou prestes a se resolver ou sem solu&#231;&#227;o (que &#233; a forma resolutiva do incognosc&#237;vel spenceriano).</p><p>A vida de Tobias Barreto, mais que um bi&#243;grafo, aguarda um romancista. Foi vers&#225;til e gostava de repetir com Renan que sua gl&#243;ria eram as suas contradi&#231;&#245;es. E confessava: &#8220;Eu sou um pouco vol&#250;vel. Esta verdade, que h&#225; trinta anos j&#225; me dizia em tom convicto a minha primeira deidade, quando se viu sacrificada a um rosto mais gentil, permanece no mesmo estado de frescura, pelo que toca, n&#227;o a amores, mas a teorias, que nunca tiveram for&#231;a de ganhar-me o cora&#231;&#227;o e que, portanto, n&#227;o duvido desprezar de olhos enxutos, por causa de outras, que melhores me pare&#231;am&#8221;.</p><p>Mulato e oriundo, como ele dizia, da &#8220;fulgurante plebe&#8221;, aprendeu latim com um padre e viol&#227;o sozinho. Adolescente, mudou-se para a Bahia com o fito de seguir a carreira eclesi&#225;stica. A primeira e &#250;nica noite de semin&#225;rio foi suficiente para dissuadi-lo da miss&#227;o divina. Impaciente por se ver pr&#234;so no claustro e ralado de saudades, rompeu escandalosamente a tranquilidade da casa cantando uma modinha ao viol&#227;o. Expulso, foi pernoitar numa &#8220;rep&#250;blica&#8221; de estudantes, que nessa mesma noite pegou fogo. O evento &#233; comentado por Roberto Lyra assim: &#8220;devemos bem-dizer aquele inc&#234;ndio do albergue baiano, em que, certa noite, dormiu um seminarista frustro, &#224;s voltas com hinos e latin&#243;rios pios, para amanhecer, livre, de b&#244;lso vazio, cantarolando, lavando o peito com eloqu&#234;ncia bocagiana, na &#8220;golfada da epitheta ornantia&#8221; de que era cioso. Entre os salvados do sinistro, figurava uma carca&#231;a mesti&#231;a, mas ficou reduzido a cinzas todo o seu patrim&#244;nio de aspirante a vig&#225;rio &#8212; um viol&#227;o&#8221;.</p><p>Tobias Barreto tinha de quem puxar, filho que era de um mesti&#231;o bem carregado, tipo folgaz&#227;o, ca&#231;o&#237;sta, liberal-jacobino que exercia as fun&#231;&#245;es de escriv&#227;o de &#243;rf&#227;os e ausentes na remota vila sergipana de Campos. O futuro fil&#243;sofo era bo&#234;mio, gostava de bailes e serenatas, cantava e tocava viol&#227;o admiravelmente, vivia desinteressado de coisas pr&#225;ticas, nunca tendo em grande apre&#231;o os preceitos da higiene, e a veia sat&#237;rica do pai n&#234;le refloria com seiva nova. Em prosa e verso ria-se com fina gra&#231;a das parvo&#237;ces e enganos alheios. Quando desembarca no Recife para estudar Direito, aos primeiros passos em terra, sofre o coice de um burro que o magoou violentamente. Dias depois, cai atacado de var&#237;ola. Em 1864 entra para a Faculdade de Direito onde encontra Castro Alves, e os dois passaram a ser os pontos aglutinantes de prefer&#234;ncias e simpatias, cada qual possuindo o seu bando, a sua fac&#231;&#227;o, a sua c&#244;rte. E ambos se desafiavam em versos na defesa de suas atrizes favoritas, sendo a de Tobias &#8220;formosa ondina das celestes vagas&#8221;. Informa S&#237;lvio Romero que s&#243; depois de 1870 deixou Tobias de ser o eterno recitador de versos nos teatros, nas festas patri&#243;ticas e nos sal&#245;es.</p><p>Depois de formado, embarca para Escada, trocando antes &#8220;a blusa do poeta pelo casa&#231;&#227;o do fil&#243;sofo&#8221;, mantendo-se, por&#233;m, fiel aos tr&#234;s defeitos apontados por S&#237;lvio Romero: &#8220;abusava do caf&#233;, fumava em excesso e era um ca&#237;do por mulheres&#8221;. Antes de viajar para o sert&#227;o pernambucano passa por uma livraria da rua do Imperador. &#201; uma visita hist&#243;rica pois a&#237; encontra um dicion&#225;rio de alem&#227;o, suas n&#250;pcias com o germanismo. Na cidade sertaneja imprime um jornal estranho, do qual era o &#250;nico redator e talvez o &#250;nico leitor: <em>Deutscher K&#228;mpfer</em>. Com 42 anos de idade, amea&#231;ado de morte pelos litigantes do esp&#243;lio de seu sogro, volta ao Recife, disputa uma c&#225;tedra na Faculdade de Direito e &#233; aprovado. Era a origem da escola teuto-sergipana, t&#237;tulo sarc&#225;stico forjado por Carlos de Laet.</p><p>Assim, enrolado no manto ro&#231;agante do fil&#243;sofo, transp&#245;e Tobias os limiares do templo do Direito cujos penetrais ia perscrutar. Jurista ou fil&#243;sofo, foram as ideias gerais, as s&#237;nteses que o seduziam e a que consagrou as energias m&#225;sculas de seu engenho. Mas, se as ideias gerais apanhavam, num amplexo ousado, as bases da ci&#234;ncia, escor&#231;ando-a em tra&#231;os concisos, nunca se ligaram num todo harm&#244;nico de modo a nos darem uma s&#237;ntese completa da filosofia ou do direito. Informa Cl&#243;vis Bevilacqua que &#8220;assim como lhe faltava o g&#244;sto para os detalhes, para as an&#225;lises morosas e percutientes, falecia-lhe a tenacidade para levar a t&#234;rmo uma obra de certa amplitude, cuja constru&#231;&#227;o demandasse uma conten&#231;&#227;o de esp&#237;rito prolongada por longos meses, a vista sempre detida num mesmo c&#237;rculo de ideias. Surgia-lhe a concep&#231;&#227;o, a descarga das f&#244;r&#231;as criadoras levava-o febril &#224; produ&#231;&#227;o, mais aliviada daquela necessidade ps&#237;quica, enfraquecia-o prosseguir no mesmo caminho e anseava por velejar em outros mares e aspirar outros perfumes&#8221;.</p><p>O Monismo de Tobias Barreto era inspirado em Ludwig Noir&#233;, que assumira ares de or&#225;culo na filosofia coeva, pelo fato de mitigar o materialismo de Haeckel, seu mestre, propugnando por um &#8220;monismo filos&#243;fico&#8221; que dissipava as aporias do fil&#243;sofo brasileiro e aquietava as antinomias que o angustiavam, pois no fundo reivindicava um sentimento religioso acima de todo formulismo e superador de todo rito. Ou, conforme a interpreta&#231;&#227;o de Hermes Lima: &#8220;Seu monismo era assim perfeitamente agn&#243;stico. E se &#233; exato que qualquer tipo de monismo, dualista ou pluralista, tender&#225; sempre a acentuar ou a fei&#231;&#227;o espiritualista ou a fei&#231;&#227;o materialista, o de Tobias evoluiu no sentido da primeira&#8221;.</p><p>Quanto a S&#237;lvio Romero, n&#227;o obstante ter ficado, na nossa forma&#231;&#227;o cultural, como cr&#237;tico de literatura, sua grande inclina&#231;&#227;o f&#244;ra a de cr&#237;tico de doutrinas, onde encontrara a dire&#231;&#227;o de seu pensamento, o objetivo de suas disposi&#231;&#245;es intelectuais e a sua voca&#231;&#227;o. A posi&#231;&#227;o filos&#243;fica de S&#237;lvio Romero, por&#233;m, foi menos est&#225;vel que a de Tobias, apesar de terem ambos feito escala em todo sistema que lhes ca&#237;sse sob olhos desmesuradamente abertos aos &#8220;avan&#231;os&#8221; do s&#233;culo. O <em>homo novus</em> que estava em S&#237;lvio se empolgava com os achados cient&#237;ficos das teorias modernas, numa demonstra&#231;&#227;o ostensiva de nefelibatismo, adepto das opini&#245;es em voga, em suma, como quer Leonel Fran&#231;a, &#8220;uma v&#237;tima da moda filos&#243;fica, desejoso de estar sempre com a escola nov&#237;ssima&#8221;. Contudo, algum m&#233;rito tinha S&#237;lvio Romero ao vibrar com sua &#233;poca, empenhando-se nas correntes espirituais contempor&#226;neas.</p><p>Comprimido pelos esquemas positivistas hauridos em Spencer, definia-se, em 1878, na <em>Filosofia no Brasil</em>, &#8220;sect&#225;rio convicto do Positivismo de Comte, n&#227;o na dire&#231;&#227;o que &#234;ste lhe deu nos &#250;ltimos anos de sua vida, mas na ramifica&#231;&#227;o de Littr&#233;, depois que travei conhecimento com o transformismo de Darwin, procuro harmonizar os dois sistemas num criticismo amplo e fecundo&#8221;. Tratava-se, aqui, de um criticismo independente, como &#234;le mesmo esclarecia, firmado nos dados positivos, &#8220;esp&#233;cie de neokantismo, n&#227;o por ir pedir ideias a Kant, mas por tomar-lhe o esp&#237;rito&#8221;, o que traduzia a tend&#234;ncia geral do s&#233;culo XIX, o s&#233;culo do criticismo cient&#237;fico: liberdade infinita de investiga&#231;&#227;o pessoal da verdade. &#8220;Sou eu, pois, sect&#225;rio do positivismo e do transformismo? Sim; entendendo-os por&#233;m dum modo largo e n&#227;o sacrificando a minha liberdade de pensar a certas imposi&#231;&#245;es caprichosas que os sistemas possam, por ventura, apresentar&#8221;. Segundo suas pr&#243;prias palavras, j&#225; no fim da vida, S&#237;lvio Romero se colocava no n&#250;mero dos cr&#237;ticos de filosofia, &#8220;esp&#237;ritos que procuram caminho entre os sistemas europeus, com segura autonomia de pensamento&#8221;.</p><p>De Cl&#243;vis Bevilacqua escreveu S&#237;lvio Romero: &#8220;cr&#237;tico, fil&#243;sofo e jurista, n&#227;o sei se os haver&#225; superiores em nossa terra&#8221;. Foi um dos &#250;ltimos, se n&#227;o o &#250;ltimo dos representantes de uma gera&#231;&#227;o da intelig&#234;ncia brasileira que esteve &#224; altura das exig&#234;ncias do seu tempo. Por isso nunca separou a ci&#234;ncia do verdadeiro sentido que ela deve ter na nossa terra, isto &#233;, formadora de uma consci&#234;ncia nacional.</p><p>Grande jurista, n&#227;o se limitou apenas &#224; literatura jur&#237;dica: resultado dos seus estudos publicou alguns trabalhos merit&#243;rios de filosofia. F&#244;ra introduzido nos ensinamentos positivistas no Rio de Janeiro, para onde se encaminhara a fim de fazer os estudos preparat&#243;rios. De volta ao Recife, compreendeu Comte atrav&#233;s de Littr&#233;, acrescido de Stuart Mill. Por influ&#234;ncia de Tobias Barreto e S&#237;lvio Romero, passou a dedicar-se ao transformismo darwinista, depois ao monismo haeckeliano, para terminar firmando-se, definitivamente, no evolucionismo spenceriano, ao qual se manteve fiel at&#233; o fim de sua vida. Mas um <em>evolucionismo evolu&#237;do</em>, porquanto Cl&#243;vis Bevilacqua propugnava a fus&#227;o de duas ideias aparentemente antag&#244;nicas (movimento e sentimento), atrav&#233;s de uma metemp&#237;rica: &#8220;Por mim, n&#227;o teria escr&#250;pulos de lan&#231;ar a ponte de uma interfer&#234;ncia l&#243;gica s&#244;bre &#234;sses dois dom&#237;nios embora penetrasse no campo que n&#227;o &#233; propriamente da experi&#234;ncia e da observa&#231;&#227;o, mas que o margina em &#237;ntima continuidade. N&#227;o nos &#233; permitido afastar completamente, n&#227;o direi a metaf&#237;sica, mas &#234;sse qu&#234; quer que seja al&#233;m do puramente experimental, a que se d&#225; o nome de <em>metemp&#237;rica</em>&#8221;.</p><h4>Crise positivista e a fase espiritualista</h4><p>Nos fins do s&#233;culo XIX a Europa sofre o abalo de uma crise espiritual. Tudo que representava Positivismo &#8212; na filosofia, nas ci&#234;ncias, nas artes &#8212; passa a ser alvo predileto de uma cr&#237;tica implac&#225;vel. Em nome do esp&#237;rito e dos valores espirituais &#233; feita a revis&#227;o das ci&#234;ncias naturais e de seus pressupostos. As novas correntes idealistas e espiritualistas interrogam criticamente o Positivismo, perguntando-lhe se, como &#234;le pretende, as ci&#234;ncias interpretam com fidelidade os fatos naturais dados pela experi&#234;ncia, se a f&#233; na ci&#234;ncia &#233; menos dogm&#225;tica que a f&#233; na metaf&#237;sica espiritualista, se a ci&#234;ncia &#233; um saber imut&#225;vel ou n&#227;o &#233; mais que um cont&#237;nuo suceder-se de hip&#243;teses, se em verdade &#233; indispens&#225;vel ao saber cient&#237;fico um determinismo universal, se, por &#250;ltimo, a concep&#231;&#227;o mec&#226;nica da natureza corresponde &#224; realidade. </p><p>Entrava assim em franca crise o cientificismo positivista, gra&#231;as principalmente a uma cerrada cr&#237;tica feita por pensadores mergulhados no pr&#243;prio &#8220;esp&#237;rito cient&#237;fico&#8221;, de modo especial Ravaisson, Boutroux e Milhaud, concluindo &#234;ste &#250;ltimo que a mundivid&#234;ncia de Spencer ou de Taine derivava de uma transforma&#231;&#227;o ileg&#237;tima da ci&#234;ncia em metaf&#237;sica. Em suma, &#234;sses investigadores opinavam que a ci&#234;ncia era obra do esp&#237;rito que cria suas conven&#231;&#245;es e como reage em seguida as imp&#245;e &#224; realidade, respondendo esta com &#234;xito ou n&#227;o.</p><p>Do ponto de vista estritamente filos&#243;fico, coube a Bergson fazer a mais vigorosa cr&#237;tica contra o &#8220;cientificismo&#8221; em nome da pr&#243;pria ci&#234;ncia. Para &#234;le, a filosofia era, em primeiro lugar, uma continua&#231;&#227;o das tend&#234;ncias que, opondo-se ao Positivismo, procuravam sua supera&#231;&#227;o por meio de uma assimila&#231;&#227;o de seu conte&#250;do mais valioso. &#202;ste tra&#231;o de assimila&#231;&#227;o da filosofia positivista, &#250;nica forma poss&#237;vel de sua supera&#231;&#227;o, &#233; caracter&#237;stico em Bergson, no mesmo sentido que o &#233; o &#8220;positivismo absoluto&#8221; de Husserl. Segundo Bergson, para captar-se a aut&#234;ntica realidade absoluta do mundo e da vida, &#233; preciso abandonar o ponto de vista da mera contempla&#231;&#227;o extr&#237;nseca a esta realidade em que se coloca o cientista e procurar penetr&#225;-la interiormente, o que se consegue atrav&#233;s da <em>intui&#231;&#227;o</em>, que descreve a realidade como um todo qualitativamente heterog&#234;neo em perfeita continuidade, ao mesmo tempo que em incessante muta&#231;&#227;o.</p><p>De acordo com suas palavras, &#8220;a realidade &#233; um processo de perene cria&#231;&#227;o, sem princ&#237;pio nem fim, que n&#227;o apresenta duas v&#234;zes a mesma fisionomia, mas que mostra em cada instante um aspecto original e imprevis&#237;vel: &#233; um fluxo constante, onde nada persiste, uma continuidade m&#243;vel e viva, sem divis&#227;o alguma de partes&#8221;. &#202;ste processo criador &#233; captado pela <em>intui&#231;&#227;o</em>, que nos mergulha na corrente m&#243;vel da realidade e nos libera dos esquemas abstratos da raz&#227;o, que rompem e solidificam a mobilidade das imagens, fazendo d&#234;stes fragmentos de experi&#234;ncias coisas da natureza, colocadas no espa&#231;o umas ao lado de outras. Para Bergson, pois, a intui&#231;&#227;o &#233; o modo de conhecimento que, em oposi&#231;&#227;o ao pensamento, capta a realidade verdadeira, a interioridade, a dura&#231;&#227;o, a continuidade, o que se move e o que se faz.</p><p>Assim, enquanto o pensamento ro&#231;a o externo, converte o cont&#237;nuo em fragmentos separados, analisa e decomp&#245;e, a intui&#231;&#227;o se dirige ao devir, instala-se no &#226;mago do real e se impregna, como as chamadas intui&#231;&#245;es m&#237;sticas, de inefabilidades. &#201; uma intui&#231;&#227;o dirigida, tamb&#233;m, como a volitiva, &#224;s exist&#234;ncias, mas que n&#227;o surge em virtude de uma resist&#234;ncia, e sim mediante um movimento que rompe as categorias estabelecidas pelo pensamento, que inverte a dire&#231;&#227;o pragm&#225;tica d&#234;ste e se esfor&#231;a por desprender-se das categorias especializadoras do pensar. Desta forma, o intuicionismo bergsoniano se reveste de um sentido que reage contra o racionalismo, aliando-se de certa forma ao irracionalismo.</p><p>Antipositivista declarado e seguidor de Bergson foi <strong>Farias Brito</strong> (1862-1917), cujo pensamento &#233; fruto de um desfor&#231;o pessoal contra os republicanos brasileiros que o perseguiram, da atmosfera simbolista de sua &#233;poca e do alucinado autodidatismo de sua forma&#231;&#227;o filos&#243;fica, do qual resultaram obras de sentido &#8220;estopante e indecifr&#225;vel&#8221;, no dizer de Euclides da Cunha.</p><p>Fazendo sua autobiografia, informava Farias Brito: &#8220;Devo observar que minha vida &#233; extremamente simples. Nada tenho de not&#225;vel. Sou verdadeiramente um homem sem hist&#243;ria, porque nunca se passaram comigo coisas extraordin&#225;rias&#8221;. Teve a vida de um homem comum, com seus problemas cotidianos. Em tr&#234;s ocasi&#245;es, apenas, sua vida destoou destas normas habituais, quando sofre injusti&#231;as odiosas. A primeira, quando foi destitu&#237;do do cargo de secret&#225;rio do Gov&#234;rno do seu Estado, devido &#224; violenta deposi&#231;&#227;o do general Jos&#233; Clarindo, em 1892. A segunda foi causada pelo fato de ter sido preterido no preenchimento da cadeira de L&#243;gica do Col&#233;gio Pedro II, em 1909, gra&#231;as a uma interven&#231;&#227;o decisiva do Bar&#227;o do Rio Branco, o mais influente pol&#237;tico de sua &#233;poca, em favor de Euclides da Cunha, segundo colocado. Rio Branco intercedeu com todo o p&#234;so de seu prest&#237;gio, em carta a Francisco da Veiga: &#8220;Decide-se agora a escolha do lente de L&#243;gica para o Gin&#225;sio Nacional. N&#227;o dei at&#233; aqui um passo a favor de Euclides da Cunha por entender que ele n&#227;o precisa disso. Agora, por&#233;m, que sei ter havido uma escandalosa cabala contra ele, no seio da Congrega&#231;&#227;o, e que outros candidatos recorreram a padrinhos ou pistol&#245;es &#8212; como diz o povo &#8212; sinto-me obrigado &#8212; sem pedido algum dele &#8212; a queimar cartucho em favor desse mo&#231;o puro e digno&#8230;&#8221;. O poderoso ministro conclu&#237;a sua carta nestes termos: &#8220;Pe&#231;o-lhe que fa&#231;a pelo Euclides tudo quanto puder junto ao Presidente e ao Dr. Lira. E n&#227;o h&#225; tempo a perder&#8221;.</p><p>E n&#227;o foi perdido tempo, para desgra&#231;a de Farias Brito. A terceira derrota de sua vida foi motivada pelo malogro de sua candidatura &#224; Academia Brasileira de Letras. Nas tr&#234;s vezes reagiu com orgulho, fanatismo e revolta. A melhor e mais sucinta exposi&#231;&#227;o do pensamento de Farias Brito nos &#233; dada por ele mesmo no verbete que tem o seu nome da <em>Enciclop&#233;dia Jackson</em> (vol. VIII, pp. 4553-4). Por a&#237; sabemos que &#233; preciso distinguir no desenvolvimento da filosofia de Farias Brito quatro per&#237;odos:</p><blockquote><p><strong>a)</strong> Per&#237;odo cr&#237;tico. &#201; o da <em>Filosofia como atividade permanente do esp&#237;rito</em> (1895), cujo pensamento fundamental vem a ser este: que a filosofia &#233; o centro e a base de toda a vida mental. &#201; uma atividade permanente de que resultam todas as energias &#233;tico-ps&#237;quicas e todas as for&#231;as do esp&#237;rito. Devem distinguir-se duas esp&#233;cies de filosofia: uma pr&#233;-cient&#237;fica, a outra super-cient&#237;fica. A esta cumpre fornecer uma interpreta&#231;&#227;o da realidade, dada pela psicologia, &#250;nica ci&#234;ncia que estuda a realidade como ela &#233; em si mesma. Mas entenda-se: pela psicologia posta em rela&#231;&#227;o com o todo universal. De onde a ideia de uma psicologia transcendente, ideia a que o autor liga particular interesse.</p><p><strong>b)</strong> Per&#237;odo hist&#243;rico. &#201; o da <em>Filosofia moderna</em> (1899) e da <em>Evolu&#231;&#227;o e relatividade</em> (1905). Na primeira Farias Brito examina as origens e desenvolvimento do pensamento moderno sob seus aspectos emp&#237;ricos e racionalistas. Na segunda faz a an&#225;lise cr&#237;tica da consci&#234;ncia filos&#243;fica contempor&#226;nea, do monismo evolucionista (Haeckel, Spencer) e da teoria da relatividade do conhecimento sob suas duas formas, objetiva (filosofia positiva) e subjetiva (criticismo). O monismo evolucionista &#233; interpretado como uma renova&#231;&#227;o do materialismo; a teoria da relatividade como uma renova&#231;&#227;o do ceticismo.</p></blockquote><blockquote><p><strong>c)</strong> Per&#237;odo dogm&#225;tico. &#201; o per&#237;odo da <em>Base f&#237;sica do esp&#237;rito</em> (1912), do <em>Mundo interior</em> (1914) e do <em>Ensaio sobre o conhecimento e a realidade</em> (nunca publicado). &#201; uma tentativa de solu&#231;&#227;o dos problemas fundamentais da filosofia primeira pela psicologia, concebido o mundo como atividade intelectual, fazendo-se do conhecimento o fim mesmo da evolu&#231;&#227;o universal e da intelig&#234;ncia a for&#231;a primordial e o princ&#237;pio supremo; concep&#231;&#227;o fundamental espiritualista, na qual o autor, procurando resolver a quest&#227;o da coisa em si e dos fen&#244;menos, interpreta o esp&#237;rito como coisa em si e o mundo como fen&#244;meno do esp&#237;rito. S&#243; o esp&#237;rito &#233; verdadeiramente real e existe em si mesmo; tudo o mais &#233; manifesta&#231;&#227;o ou fen&#244;meno daquele. Farias Brito sustenta o primado da intelig&#234;ncia, proclamando o car&#225;ter negativo do conceito da vontade.</p><p><strong>d)</strong> Per&#237;odo pragm&#225;tico ou pr&#225;tico. &#201; o per&#237;odo ainda em elabora&#231;&#227;o (jamais conclu&#237;do) da <em>L&#243;gica da a&#231;&#227;o</em>. Desta obra, publicou um longo fragmento: <em>A verdade como regra das a&#231;&#245;es</em> (1905). E a&#237; v&#234;m em suas grandes linhas a concep&#231;&#227;o fundamental do autor. O fim da filosofia &#233; a moral, e se filosofamos &#233; porque temos necessidade de firmar em fundamentos inabal&#225;veis as bases eternas da moral. &#201; que a filosofia, fornecendo uma interpreta&#231;&#227;o da exist&#234;ncia, d&#225;-nos ao mesmo tempo a compreens&#227;o do nosso destino. E &#233; s&#243; assim que ficamos a fazer a dedu&#231;&#227;o das leis a que devemos obedecer. Qual vem a ser o crit&#233;rio supremo da conduta? Devemos proceder sempre e em todas as rela&#231;&#245;es da vida de conformidade com a verdade. Mas como o nosso conhecimento &#233; apenas um ponto luminoso no meio de uma noite infinita, como ignoramos tudo, sendo a verdade, por assim dizer, um ideal inating&#237;vel, devemos proceder de conformidade com o que a natureza nos deu em lugar da verdade, e que vem a ser isso que chamamos a nossa convic&#231;&#227;o.</p><p>Esse unit&#225;rio e coerente esquema, por&#233;m, fora de seu auto-expositor, &#233; pass&#237;vel de alguma observa&#231;&#227;o. Segundo Laerte Ramos de Carvalho, a unidade, &#8220;se unidade existe nas obras de Farias Brito&#8221;, adv&#233;m sobretudo das perguntas que formulou, com not&#225;vel const&#226;ncia, durante todo o seu longo itiner&#225;rio intelectual, mas n&#227;o das respostas que prop&#244;s como solu&#231;&#227;o dos problemas filos&#243;ficos.</p></blockquote><p>Para estas perguntas apresentou Farias Brito mais de uma resposta. Em 1895, julgou que o naturalismo filos&#243;fico, inspirado por Noire e conhecido, ent&#227;o, por interm&#233;dio de ligeiras informa&#231;&#245;es de Tobias Barreto, representava a solu&#231;&#227;o definitiva. Resultou deste naturalismo a singular compreens&#227;o do problema religioso e metaf&#237;sico. Em 1899, por&#233;m, trocou o naturalismo filos&#243;fico pelo espinosismo. Em 1905 se encerrou o plano da <em>Finalidade do mundo</em>. Os dois livros, <em>Evolu&#231;&#227;o e relatividade</em> e <em>A verdade como regra das a&#231;&#245;es</em>, quebraram a unidade das primeiras obras e, com a cr&#237;tica do evolucionismo, do monismo, do positivismo e do criticismo, prepararam o caminho espiritualista percorrido nas obras posteriores. Finalmente, em 1912 e 1914, se esbo&#231;ou uma dire&#231;&#227;o espiritualista de suspeitas e equ&#237;vocas ra&#237;zes, que conduziu Farias Brito &#224; retifica&#231;&#227;o de aspectos fundamentais de seu pensamento.</p><p>T&#237;mido por natureza, conformista por destino e idealista fracassado, levou uma vida triste acrescida de pessimismo. Schopenhauer e von Hartmann foram para Farias Brito uma esp&#233;cie de prazer de justifica&#231;&#227;o, de compensa&#231;&#227;o, de consolo. Leu mais do que viveu, fez mais hist&#243;ria da filosofia do que propriamente filosofia, e n&#227;o criou sistema: resumiu-os, resultando da&#237; uma obra &#8220;melanc&#243;lica e caliginosa&#8221;, na aprecia&#231;&#227;o de Cruz Costa, que tamb&#233;m diz: &#8220;A prega&#231;&#227;o de Farias Brito fora in&#250;til, fizera pros&#233;litos para outra seita [&#8216;foi o instrumento de que se serviu a Provid&#234;ncia&#8217;, julga Leonel Franca]. &#201; que Farias havia sido simplesmente o eco, um tanto anacr&#244;nico e artificial, de uma crise que empolgara, em certo momento, o pensamento europeu. A crise se resolvera, ultrapassara as dificuldades que as transi&#231;&#245;es sempre apresentam. Farias Brito ficara na crise e n&#227;o a ultrapassaria. At&#233; morrer, luta para libertar-se das influ&#234;ncias do naturalismo. Agarra-se a Schopenhauer, abriga-se em Renouvier, quer encontrar apoio em Bergson, mas n&#227;o consegue nunca expressar o seu pensamento&#8221;. N&#227;o &#233; por acaso que um dos melhores estudos sobre o fil&#243;sofo cearense, de autoria de S&#237;lvio Rab&#234;lo, intitula-se precisamente: <em>Farias Brito ou uma aventura do esp&#237;rito&#8230;</em></p><h4>Nova matura&#231;&#227;o de tend&#234;ncias: existencialismo, culturalismo, marxismo e neotomismo</h4><p>Um acontecimento social de vincada resson&#226;ncia altera completamente o programa da filosofia: a Primeira Grande Guerra. Essa dolorosa experi&#234;ncia, naturalmente, n&#227;o poderia ter passado em v&#227;o, j&#225; que nas trincheiras n&#227;o haviam combatido e sofrido as categorias e ideias ol&#237;mpicas e inef&#225;veis, mas sim homens de carne e osso. E os homens de carne e osso se voltam depois para a filosofia &#8212; alguns ficaram nos campos de batalha, como, por exemplo, Adolf Reinach, disc&#237;pulo de Husserl e <em>Privatdozent</em> em G&#246;ttingen &#8212; para que esta os atenda nos seus humanos anseios, j&#225; remotos das ideias da pura raz&#227;o ou de uma problem&#225;tica puramente abstrata. Com isto, a filosofia se encontrou de repente colocada, ao acordar de novo, diante de uma incalcul&#225;vel quantidade de grandes temas e problemas que, por sua vez, exigiram um renovado esfor&#231;o de aplica&#231;&#227;o, bem como o emprego de novos princ&#237;pios e m&#233;todos. E assim surgiu um novo estilo filos&#243;fico, caracterizado pela coragem das problem&#225;ticas e pelo vigor no impulso da investiga&#231;&#227;o.</p><p>Desta forma, a filosofia contempor&#226;nea pode ser esquematizada, de um modo geral, pelos seguintes tra&#231;os: partindo da grande transforma&#231;&#227;o operada nas condi&#231;&#245;es da vida e da nova miss&#227;o desta, a filosofia dos nossos dias procura estabelecer novas rela&#231;&#245;es com o passado e novas formas de o interpretar. Abandona progressivamente &#8212; no campo hist&#243;rico-filos&#243;fico, que desde o s&#233;culo XIX se tinha extraordinariamente alargado &#8212; a orienta&#231;&#227;o que consistia na reprodu&#231;&#227;o essencialmente retrospectiva dos sistemas cl&#225;ssicos e na investiga&#231;&#227;o puramente filol&#243;gica, de pormenor, dos textos e opini&#245;es. Pelo contr&#225;rio, o que ela procura &#233; estabelecer uma estreita liga&#231;&#227;o entre a pr&#243;pria hist&#243;ria da filosofia e a consci&#234;ncia dos problemas atuais. Quer isto dizer que vastas, apesar de incertas, perspectivas se abriram ao mundo filos&#243;fico, perto da vida e junto &#224; sua raiz.</p><p>A multiplicidade de formas, de sugest&#245;es e de perspectivas, se n&#227;o novas, ao menos renovadas, do pensamento filos&#243;fico contempor&#226;neo, surgem quase como um caos, sendo dif&#237;cil para n&#227;o dizer imposs&#237;vel, tra&#231;ar o seu perfil mult&#237;modo, acentuando ora o din&#226;mico, ora o biol&#243;gico, ora o hist&#243;rico, ora o existencial, ora o temporal. Dentro deste perfil, e sem que isto represente de modo algum a pretens&#227;o de unificar arbitrariamente tend&#234;ncias diferentes e mesmo opostas, cabem a maioria das correntes filos&#243;ficas contempor&#226;neas.</p><p>Essa multiplicidade das tend&#234;ncias filos&#243;ficas vigentes tamb&#233;m ocorre no Brasil, como &#233; verific&#225;vel nos 25 n&#250;meros da <em>Revista Brasileira de Filosofia</em>, tribuna aberta ao debate especulativo, onde encontram acolhida todas as tend&#234;ncias da filosofia atual, confirmando o polimorfismo e complexidade da fisionomia filos&#243;fica brasileira, convivendo no seu rega&#231;o as mais desencontradas correntes do pensamento hodierno. Destaquemos as mais importantes.</p><p>Miguel Reale (1910), catedr&#225;tico de Filosofia do Direito na Universidade de S&#227;o Paulo, &#233; um dos mais significativos pensadores brasileiros dos nossos dias, n&#227;o s&#243; por seu ativismo (&#233; o presidente e <em>alma mater</em> do Instituto Brasileiro de Filosofia), como e principalmente pela import&#226;ncia de sua obra especulativa. Para ele a filosofia n&#227;o &#233; alguma coisa fechada em si mesma, pois sua verdadeira perenidade est&#225; no sentido de inquieta&#231;&#227;o e busca que a anima. Na estrutura&#231;&#227;o de sua doutrina, Miguel Reale &#233; influenciado por N. Hartmann e por M. Scheler, o primeiro no plano l&#243;gico e o segundo no plano axiol&#243;gico. Cultor das ci&#234;ncias jur&#237;dicas, afirma que o Direito &#233; uma realidade hist&#243;rico-cultural que possui essencialmente tr&#234;s dimens&#245;es, as quais constituem elementos essenciais de toda experi&#234;ncia jur&#237;dica: &#233; um fato espiritual, no qual e pelo qual se concretam historicamente valores, ordenando-se normativamente rela&#231;&#245;es intersubjetivas com rela&#231;&#227;o &#224;s exig&#234;ncias complementares dos indiv&#237;duos e da comunidade. Assim, fato, valor e norma s&#227;o as tr&#234;s dimens&#245;es essenciais da experi&#234;ncia jur&#237;dica.</p><p>Miguel Reale distingue o tratamento filos&#243;fico do cient&#237;fico-positivo da realidade jur&#237;dica. No plano filos&#243;fico, o conhecimento do Direito como &#8220;valor&#8221; suscita uma deontologia jur&#237;dica; como &#8220;fato&#8221;, d&#225; lugar &#224; culturologia jur&#237;dica; e como &#8220;norma&#8221;, leva &#224; epistemologia jur&#237;dica. No plano cient&#237;fico-positivo, a dimens&#227;o de &#8220;valor&#8221; leva a elaborar uma pol&#237;tica do Direito; a dimens&#227;o de &#8220;fato&#8221; d&#225; lugar &#224; hist&#243;ria do Direito, &#224; etnografia jur&#237;dica e &#224; sociologia jur&#237;dica; e a dimens&#227;o de &#8220;norma&#8221; origina a Teoria Geral do Direito e a Ci&#234;ncia jur&#237;dica t&#233;cnico-dogm&#225;tica.</p><p>O pensamento de Miguel Reale &#233; fundamentalmente hist&#243;rico e axiol&#243;gico. Mas, seu historicismo n&#227;o se prende meramente a inclina&#231;&#245;es individuais, estando arraigado nas s&#243;lidas bases do humanismo universal. O ponto de vista hist&#243;rico &#233; necessariamente axiol&#243;gico. &#8220;O que vale na hist&#243;ria&#8221; &#8212; diz &#8212; &#8220;talvez seja menos o fato do que a sua compreens&#227;o, e esta implica necessariamente numa atitude de escolha, numa tomada de posi&#231;&#227;o entre valores, subordinada &#224; hierarquia axiol&#243;gica do ciclo social a que pertencemos&#8221;. &#192; vista desta posi&#231;&#227;o historicista-axiol&#243;gica tornam-se claras e consequentes as doutrinas de Miguel Reale sobre a tridimensionalidade do Direito.</p><p>Vicente Ferreira da Silva (1916), depois de passar pela l&#243;gica matem&#225;tica (foi o primeiro autor brasileiro a publicar um livro de log&#237;stica: <em>Elementos de l&#243;gica matem&#225;tica</em> (1940), tendo sido assistente do prof. Willard Orman Quine) segue hoje, com sentido pessoal, a anal&#237;tica existenci&#225;ria de Heidegger. O ponto de partida da sua cren&#231;a filos&#243;fica est&#225; vinculado &#224; doutrina da Dial&#233;tica Transcendental de Kant, que coloca o mundo n&#227;o como correlato objetivo de um ato de conhecimento transcendente, mas como desenho de uma experi&#234;ncia infinita. Esta tese torna imposs&#237;vel qualquer filosofia do objeto em detrimento de uma filosofia do sujeito. O objeto da reflex&#227;o filos&#243;fica &#233;, portanto, sempre e unicamente, a a&#231;&#227;o humana em sua dial&#233;tica interna e em seus desenvolvimentos.</p><p>Para Ferreira da Silva, as ci&#234;ncias do esp&#237;rito, a antropologia filos&#243;fica e a ontologia existencial completam o quadro das disciplinas propriamente filos&#243;ficas. Qualquer possibilidade de uma representa&#231;&#227;o natural&#237;stica do real, baseada nas categorias do objeto, &#233; eliminada, pela redu&#231;&#227;o cont&#237;nua dos objetos ao plano transcendental de sua possibilidade. Tamb&#233;m fica eliminada qualquer oportunidade de uma concep&#231;&#227;o vitalista, do tipo bergsoniano. A liberdade fica assim entendida como &#250;nica funda&#231;&#227;o para uma elucida&#231;&#227;o do sentido &#250;ltimo do real. Isto &#233;, a filosofia, como queria Fichte, &#233; uma extenuada an&#225;lise do conte&#250;do infinito da liberdade humana.</p><p>Caio Prado J&#250;nior (1907), que fez a primeira interpreta&#231;&#227;o marxista da hist&#243;ria brasileira (<em>Evolu&#231;&#227;o pol&#237;tica do Brasil</em>, 1933), figurando entre os maiores conhecedores da forma&#231;&#227;o hist&#243;rica nacional, publicou seu primeiro livro de filosofia em 1952: <em>Dial&#233;tica do conhecimento</em>. Trata-se de uma obra que segue rigorosamente a ortodoxia do materialismo hist&#243;rico e dial&#233;tico, concebendo os conceitos de nosso c&#233;rebro materialisticamente, &#8220;como reflexos das coisas reais, em lugar de conceber as coisas como reflexo deste ou daquele grau do conceito absoluto&#8221;. Essa forma da dial&#233;tica do conceito n&#227;o &#233; sen&#227;o o reflexo consciente do movimento dial&#233;tico do mundo real. Com isto, inclui na dial&#233;tica, tamb&#233;m, a teoria do conhecimento, j&#225; que o pensar dial&#233;tico &#233; t&#227;o apenas o reflexo do movimento que reina em toda a natureza mediante as oposi&#231;&#245;es. Assim, seu problema nuclear &#233; o da rela&#231;&#227;o entre esp&#237;rito (consci&#234;ncia) e natureza (o ser).</p><p>Portanto, o conhecimento &#233; concebido realisticamente, pois &#233; a mat&#233;ria que determina a consci&#234;ncia. N&#227;o &#233; o sujeito quem engendra o objeto, mas &#233; este que subsiste com independ&#234;ncia do sujeito. O conhecimento consiste no fato de que existem no esp&#237;rito c&#243;pias, reflexos da mat&#233;ria. Ou seja, n&#243;s captamos a natureza das coisas atrav&#233;s dos fen&#244;menos. Assim, l&#243;gica e psicologia se vinculam. De acordo com Caio Prado J&#250;nior, &#8220;a dial&#233;tica do conhecimento j&#225; conta com base segura de desenvolvimento, e reatando a grande tradi&#231;&#227;o da filosofia moderna, rearticular&#225; novamente a psicologia e a l&#243;gica, chegando assim &#224; compreens&#227;o das opera&#231;&#245;es segundo as quais se desenrola o pensamento&#8221;. Extremando este ponto de vista, o autor n&#227;o vacila em afirmar que no futuro a dial&#233;tica deixar&#225; de ser uma l&#243;gica &#8220;para se tornar simplesmente o conhecimento da fun&#231;&#227;o org&#226;nica do pensamento. Psicologia em suma&#8221;.</p><p>Jo&#227;o Cruz Costa (1904), catedr&#225;tico de Filosofia na Universidade de S&#227;o Paulo, o maior conhecedor do pensamento brasileiro e seu melhor expositor, segundo um seu disc&#237;pulo, &#233; &#8220;filosofante extravagante e esquisito, que n&#227;o se prop&#245;e nenhuma constru&#231;&#227;o sistem&#225;tica&#8221;, constituindo sua contribui&#231;&#227;o num ceticismo <em>sui generis</em>, que n&#227;o alimenta a sua d&#250;vida em cren&#231;a, mas a sua cren&#231;a em d&#250;vida. O que faz a d&#250;vida de Cruz Costa &#233; a cren&#231;a e o seu apego ao concreto, ao hist&#243;rico, ao humano. A filosofia como &#8220;sistema&#8221; &#233; a cristaliza&#231;&#227;o de um processo que n&#227;o se interrompe; &#233; portanto o fenecimento e a morte. Dissolver a filosofia como sistema &#233; mergulh&#225;-la no concreto e torn&#225;-la viva e humana.</p><p>O primeiro postulado da filosofia de Cruz Costa &#233; esse reiterado apelo &#224;s exig&#234;ncias do humano. O segundo postulado &#233; que o humano &#233;, em todas as suas manifesta&#231;&#245;es, totalmente hist&#243;rico, e a hist&#243;ria &#233; o &#250;nico caminho para a compreens&#227;o adequada do seu significado. A filosofia como hist&#243;ria foi a meta alcan&#231;ada por Cruz Costa na sua longa peregrina&#231;&#227;o pelos livros de filosofia. &#201; neste ponto que se pode vislumbrar o problema de suas predile&#231;&#245;es filos&#243;ficas e das influ&#234;ncias que informam o seu pensamento. </p><p>Em primeiro lugar, o idealismo hist&#243;rico de Brunschvicg, formulando a filosofia como a autoconsci&#234;ncia do seu passado hist&#243;rico, e o materialismo dial&#233;tico de Marx, dando consist&#234;ncia a essa vis&#227;o hist&#243;rica pela interpreta&#231;&#227;o econ&#244;mico-social desse idealismo. Em seguida, Espinosa, como o ideal para a solu&#231;&#227;o monista das contradi&#231;&#245;es fundamentais, Hegel e Plat&#227;o, fil&#243;sofos todos muito mais pr&#243;ximos do devir hist&#243;rico do que as sistem&#225;ticas filosofias perenes que esquadrinham a realidade, estacando o curso do processo espiritual. Em &#250;ltimo lugar, Dilthey, Unamuno e Ortega y Gasset.</p><p>&#201; nessa ambi&#234;ncia que Cruz Costa vai fundamentar a sua posi&#231;&#227;o, traduzindo influ&#234;ncias sem d&#250;vida, mas terminando definitivamente uma etapa, pela inaugura&#231;&#227;o de um novo caminho, menos ambicioso, mas muito mais ao contato de nossas possibilidades filos&#243;ficas. A filosofia no Brasil dever&#225; ser, daqui por diante, antes de mais nada, a consci&#234;ncia de seu passado, iluminado &#224; dist&#226;ncia pela verdadeira curva de suas vicissitudes. Isto &#233;, sendo a filosofia uma atividade vital insepar&#225;vel da exist&#234;ncia e dos problemas da vida, &#233; necess&#225;rio filosofar sobre o Brasil, vestindo as ideias com os m&#250;sculos, o sangue, os nervos da realidade presente e apreendida: explicar a sua g&#234;nese, analisar a sua natureza, prever as suas diretrizes. </p><p>Em suma, &#233; preciso ligar nossa atividade mental aos destinos da nossa hist&#243;ria, porquanto &#8220;para que o pensamento n&#227;o seja mera fantasia sem proveito, &#8212; como dizia el-rei D. Duarte &#8212; &#233; mister que n&#227;o perca contacto com a hist&#243;ria, com os problemas reais da vida&#8221;.</p><p>Euryalo Cannabrava (1908) figura, sem favor, no atual panorama filos&#243;fico brasileiro com merecido destaque. Sua inquieta trajet&#243;ria especulativa transitou &#8212; est&#225; transitando ainda &#8212; pelas correntes mais atuantes do pensamento hodierno. Depois de estanciar nas figuras de Descartes e Bergson, reconhecendo, a prop&#243;sito de Husserl, a &#8220;prodigiosa vitalidade&#8221; e a &#8220;constante presen&#231;a do pensamento cartesiano&#8221;, e vendo na estrutura &#237;ntima do bergsonismo &#8220;uma for&#231;a viva, uma seiva vigorosa&#8221;, demora-se no que ele chama &#8220;temas do esp&#237;rito moderno&#8221; (mito, inconsciente, nacionalismo, progresso, juda&#237;smo e metaf&#237;sica), acreditando &#8220;sinceramente&#8221;, que a idade moderna ficar&#225; assinalada, &#8220;entre outras, como o per&#237;odo da hist&#243;ria em que o homem sentiu mais profundamente a ang&#250;stia da situa&#231;&#227;o problem&#225;tica&#8221;. Nesse primeiro est&#225;gio, Euryalo Cannabrava se mostra integrado na corrente existencial.</p><p>Todavia, no dantesco &#8220;meio caminho&#8221; de sua vida d&#225; uma guinada na rota especulativa que vinha seguindo, abandonando o mar revolto da metaf&#237;sica para aguar numa arribada serena e pl&#225;cida: as categorias log&#237;sticas que ele engloba na denomina&#231;&#227;o de <em>objetivismo cr&#237;tico</em>. A paisagem agora &#233; outra, o pr&#243;prio estilo, antes liter&#225;rio, se geometriza e em lugar de conceitos aparecem s&#237;mbolos matem&#225;ticos. Euryalo Cannabrava, rompendo com a ontologia, aceita e assimila integralmente a tese de que a atividade filos&#243;fica se limita &#224; clarifica&#231;&#227;o das proposi&#231;&#245;es cient&#237;ficas, n&#227;o passando os problemas metaf&#237;sicos de pseudoproblemas ou proposi&#231;&#245;es metemp&#237;ricas, que escapam ao controle da verificabilidade humana. Isto &#233;, a ren&#250;ncia &#224;s t&#233;cnicas racionais e emp&#237;ricas, no dom&#237;nio da filosofia, pode associar-se &#224; disponibilidade em mat&#233;ria de rigor e disciplina, ao gosto pela aventura e ao cultivo premeditado da linguagem confusa e sibilina.</p><p><strong>Leonel Franca </strong>(1893-1948), ilustre jesu&#237;ta, est&#225; integrado no movimento neo-escol&#225;stico que, como se sabe, n&#227;o se limita geralmente a uma repeti&#231;&#227;o dos problemas e solu&#231;&#245;es da escol&#225;stica medieval, mas sim, por um lado, procura ampliar suas pr&#243;prias tradi&#231;&#245;es e, por outro, integrar em seu corpo a corrente da filosofia moderna, de acordo com o lema <em>vetera novis augere</em>, aumentar com as novas as coisas antigas. De acordo com<strong> </strong>Leonel Franca, &#8220;a filosofia neo-escol&#225;stica, conservando os resultados adquiridos, prop&#245;e-se sinceramente levar a efeito a desejada harmoniza&#231;&#227;o da qual as duas ordens do conhecimento s&#243; poder&#227;o auferir inestim&#225;veis vantagens: a filosofia, sint&#233;tica e dedutiva, mantendo-se em cont&#237;nuo contato com a realidade e ampliando suas bases positivas; a ci&#234;ncia, anal&#237;tica e indutiva, tornando-se mais rigorosa nos seus processos l&#243;gicos e adquirindo, numa ordem superior do conhecimento, esta unidade do saber que &#233; a aspira&#231;&#227;o natural da intelig&#234;ncia&#8221;.</p><p>Mas &#233; como fil&#243;sofo social que Leonel Franca revela com mais tens&#227;o e originalidade seu pensamento. Em <em>A crise do mundo moderno</em>, sua obra principal, afirma que &#8220;todo o progresso material revelou-se incapaz de satisfazer &#224;s exig&#234;ncias profundas da nossa natureza. &#201; a li&#231;&#227;o mais tr&#225;gica que nos d&#225; o mundo contempor&#226;neo inquieto e convulsionado. Em face do aperfei&#231;oamento maravilhoso dos meios, esquecemos o fim. E nesta subvers&#227;o metaf&#237;sica dos valores manifesta-se um dos sintomas mais alarmantes de decad&#234;ncia. Urge, pois, restituir &#224; nossa civiliza&#231;&#227;o periclitante as for&#231;as interiores que asseguram a todo esfor&#231;o social a sua vitalidade. O Cristianismo tem as dimens&#245;es da hist&#243;ria humana. Para todas as eras e em todos os problemas Cristo &#233; luz da vida. As agonias do mundo contempor&#226;neo h&#227;o de encontrar numa medita&#231;&#227;o mais profunda das suas palavras que n&#227;o passam, uma resposta pacificadora. &#201; uma cristandade nova, cuja estrutura mal nos &#233; dado entrever, mas cujos sinais precursores repontam em toda parte, poder&#225; congregar uma humanidade melhor numa fase mais elevada de sua penosa ascens&#227;o espiritual&#8221;.</p><p>Concluindo: a hist&#243;ria da filosofia no Brasil encerra-se no presente, mas o presente, carregado de todo o pret&#233;rito, transporta dentro de si o futuro e a sua miss&#227;o consiste em p&#244;-lo em marcha. Sem d&#250;vida os nossos <em>filosofantes</em> n&#227;o ficar&#227;o alheios a esse movimento. O esfor&#231;o aqui esbo&#231;ado &#233; o aval da assertiva.</p><h4>Bibliografia</h4><p>ANTOLOGIAS: Carlos Malheiro Dias, <em>Pensadores brasileiros</em>, Lisboa, 1934; Djacir Menezes, <em>O Brasil no pensamento brasileiro</em>, Rio de Janeiro, 1957.</p><p>OBRAS GERAIS: Sylvio Romero, <em>A philosophia no Brasil</em>, Porto Alegre, 1878; Leonel Franca, S. J., <em>No&#231;&#245;es de hist&#243;ria da filosofia</em> (Parte VII, &#8220;A filosofia no Brasil&#8221;), 12.&#170; ed., Rio de Janeiro, 1949; Guillermo Francovich, <em>Filosofos brasile&#241;os</em>, Buenos Aires, 1943; Cruz Costa, <em>A filosofia no Brasil</em>, Porto Alegre, 1945; Antonio G&#243;mez Robledo, <em>La Filosofia en el Brasil</em>, M&#233;xico, 1946; Jo&#227;o Cruz Costa, <em>O pensamento brasileiro</em>, S&#227;o Paulo, 1946; Lu&#237;s Washington Vita, <em>A filosofia no Brasil</em>, S&#227;o Paulo, 1950; Diversos, <em>Filosofia no Brasil</em>, in &#8220;Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Filosofia&#8221;, S&#227;o Paulo, 1950 (pp. 87-262 do vol. I); Jo&#227;o Cruz Costa, <em>Contribui&#231;&#227;o &#224; hist&#243;ria das id&#233;ias no Brasil</em>, Rio de Janeiro, 1956; H. Padovani-L. Castagnola, <em>Hist&#243;ria da filosofia</em> (Parte VII, &#8220;O pensamento filos&#243;fico no Brasil&#8221;), 2.&#170; ed., S&#227;o Paulo, 1956; H&#233;lio Jaguaribe, <em>A filosofia no Brasil</em>, Rio de Janeiro, 1957; Cruz Costa, <em>Esbozo de una historia de las ideas en el Brasil</em> (trad. esp. de J. L&#243;pez P&#225;ez), M&#233;xico-Buenos Aires, 1957; Miguel Reale, <em>Momentos decisivos e olvidados do pensamento brasileiro</em>, Porto Alegre, 1957.</p><p>OBRAS ESPECIAIS: <em>Filosofia colonial</em> &#8212; Alcides Bezerra, <em>A filosofia na fase colonial</em>, Rio de Janeiro, 1936; J. J. Lopes Pra&#231;a, <em>Hist&#243;ria da filosofia em Portugal</em>, Coimbra, 1868; Fernando de Azevedo, <em>A cultura brasileira</em>, Rio de Janeiro, 1943; Joaquim de Carvalho, <em>Estudos s&#244;bre a cultura portuguesa do s&#233;culo XVI</em>, 2 vols., Coimbra, 1947-8; L. Cabral de Moncada, <em>Estudos de hist&#243;ria do direito</em>, vol. III, Coimbra, 1950; Laerte Ramos de Carvalho, <em>As reformas pombalinas da instru&#231;&#227;o p&#250;blica</em>, S&#227;o Paulo, 1952; Lourival Gomes Machado, <em>O &#8220;Tratado de direito natural&#8221; de Tom&#225;s Ant&#244;nio Gonzaga</em>, Rio de Janeiro, 1953; Eduardo Frieiro, <em>O diabo na livraria do c&#244;nego</em>, Belo Horizonte, 1945; Ernesto Ennes, <em>Dois paulistas insignes</em>, S&#227;o Paulo, 1944. <em>Filosofia rom&#226;ntica</em> &#8212; Miguel Reale, <em>A doutrina de Kant no Brasil</em>, S&#227;o Paulo, 1949; Juan L&#243;pez Morillas, <em>El krausismo espa&#241;ol</em>, M&#233;xico, 1956; L. Cabral de Moncada, <em>Subs&#237;dios para uma hist&#243;ria da filosofia do direito em Portugal</em>, 2.&#170; ed., Coimbra, 1938; Miguel Reale, <em>Feij&#243; e o kantismo</em>, S&#227;o Paulo, 1951; Laerte Ramos de Carvalho, <em>Feij&#243; e o kantismo</em>, S&#227;o Paulo, 1952. <em>Filosofia ecl&#233;tica</em> &#8212; Laerte Ramos de Carvalho, <em>A l&#243;gica de Monte Alverne</em>, S&#227;o Paulo, 1936. <em>Filosofia positivista</em> &#8212; Jo&#227;o Camilo de Oliveira Torres, <em>O positivismo no Brasil</em>, Petr&#243;polis, 1943; Cruz Costa, <em>O positivismo na Rep&#250;blica</em>, S&#227;o Paulo, 1956; Miguel Lemos &amp; Teixeira Mendes, <em>Nossa inicia&#231;&#227;o no positivismo</em>, Rio de Janeiro, 1889. <em>Filosofia evolucionista</em> &#8212; Hermes Lima, <em>Tobias Barreto</em>, S&#227;o Paulo, 1939; Roberto Lyra, <em>Tobias Barreto, o homem-p&#234;ndulo</em>, Rio de Janeiro, 1937; Omer Mont&#8217;Alegre, <em>A vida admir&#225;vel de Tobias Barreto</em>, 2.&#170; ed., Rio de Janeiro, 1941; Celso Vieira, <em>Tobias Barreto</em>, Rio de Janeiro, 1939; Janot Silveira, <em>O romance de Tobias Barreto</em>, Bahia, 1953; Lafayette Rodrigues Pereira, <em>Vindiciae</em>, 3.&#170; ed., Rio de Janeiro, 1940; Carlos S&#252;ssekind de Mendon&#231;a, <em>S&#237;lvio Romero</em>, S&#227;o Paulo, 1938; Sylvio Rabello, <em>Itiner&#225;rio de S&#237;lvio Romero</em>, Rio de Janeiro, 1944; Mac&#225;rio de Lemos Pican&#231;o, <em>Cl&#243;vis Bevil&#225;qua</em>, Rio de Janeiro, 1936; Lauro Romero, <em>Cl&#243;vis Bevil&#225;qua</em>, Rio de Janeiro, 1956. <em>Filosofia anti-positivista</em> &#8212; J&#244;natas Serrano, <em>Farias Brito</em>, S&#227;o Paulo, 1939; Laerte Ramos de Carvalho, <em>A forma&#231;&#227;o filos&#243;fica de Farias Brito</em>, S&#227;o Paulo, 1951; Francisco Elias de Tejada, <em>Las doctrinas pol&#237;ticas de Raimundo de Farias Brito</em>, Sevilla, 1955. <em>Filosofia contempor&#226;nea</em> &#8212; Diacir Menezes, <em>A filosofia no Brasil no s&#233;culo XX</em> (in &#8220;Revista Brasileira de Filosofia&#8221;, vol. VI, fasc. III, 1956); Luigi Bagolini, <em>Direito e valores no pensamento de Miguel Reale</em>, S&#227;o Paulo, 1952; Lu&#237;s Washington Vita, <em>Nam&#244;ro com Th&#233;mis</em>, S&#227;o Paulo, 1958 (s&#244;bre Miguel Reale); Lu&#237;s Washington, <em>Dial&#233;tica do conhecimento</em> (s&#244;bre Caio Prado J&#250;nior, in &#8220;Di&#225;rio de S. Paulo&#8221;, edi&#231;&#227;o de 30-3-52); Laerte Ramos de Carvalho, <em>A filosofia no Brasil</em> (s&#244;bre Cruz Costa, in &#8220;O Estado de S. Paulo&#8221;, edi&#231;&#227;o de 7-2-46); Ant&#244;nio C&#226;ndido, <em>A filosofia no Brasil</em> (s&#244;bre Cruz Costa, in &#8220;Di&#225;rio de S. Paulo&#8221;, edi&#231;&#227;o de 22-11-45); Jos&#233; Ferrater Mora, pref&#225;cio in <em>Elementos de metodologia filos&#243;fica</em>, de Euryalo Cannabrava, S&#227;o Paulo, 1956; Lu&#237;s Washington Vita, resenha s&#244;bre o livro supra, in vol. VI, fasc. IV da &#8220;Revista Brasileira de Filosofia&#8221;, 1956; Luiz Gonzaga da Silveira D&#8217;Elboux, S. J., <em>O padre Leonel Franca, S. J.</em>, Rio de Janeiro, 1953.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A filosofia no Brasil]]></title><description><![CDATA[Considera&#231;&#245;es introdut&#243;rias]]></description><link>https://renam.substack.com/p/a-filosofia-no-brasil</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/a-filosofia-no-brasil</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 24 Jan 2026 18:04:29 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F658109c6-19f2-41b8-861c-25ee03387aac_1160x768.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tenho algumas pesquisas a que chamo por &#8220;mineirescas&#8221;, pois n&#227;o tenho pressa alguma em esgot&#225;-las t&#227;o cedo em forma livresca. Vou lendo coisa aqui e acol&#225;, despretensiosamente. Uma delas &#233; sobre a hist&#243;ria cultural do Brasil, distribu&#237;da em quatro eixos: religiosa, intelectual, educacional e pol&#237;tica. Dentro do eixo intelectual, temos a biografia da filosofia <strong>no </strong>Brasil, tal como se costumou dizer; ao inv&#233;s de filosofia <strong>do </strong>Brasil. De fato, a Filosofia n&#227;o possui nacionalidade, com pena de n&#227;o ser filosofia, mas propaganda pol&#237;tica.</p><p>A mesma avalia&#231;&#227;o faz Jo&#227;o Cruz Costa, sob este crit&#233;rio:</p><p><em>&#8220;N&#227;o existe, a meu ver, uma Filosofia Nacional. Nem creio que possa existir sen&#227;o assim: <strong>tudo que fazemos deve ter e tem o cunho da nossa maneira de ser</strong>. Lembro aqui, a prop&#243;sito, o que escrevia o meu saudoso amigo, Prof. Joaquim de Carvalho: &#8216;Jamais pa&#237;s algum conquistou a sua personalidade espiritual confinando-se dentro de muralhas, nem robusteceu a sua vitalidade com a assepsia de todos os alimentos, mas tamb&#233;m povo algum afirmou a sua capacidade intelectual importando o pensar alheio, nem progrediu com o est&#237;mulo fr&#237;gido do cosmopolitismo.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></em></p><p>Em falar de nacionalidade, dizem que o Brasil &#233; o gigante adormecido. <strong>Digo, por&#233;m, que o Brasil tem gigantes esquecidos</strong>, isto sim. Esquecidos ou pela indiferen&#231;a voraz do tempo, ou pela dureza ingrata dos homens, ou pelas modas vol&#225;teis do meio. Ainda n&#227;o escapamos a esses tr&#234;s inimigos do esp&#237;rito brasileiro. </p><p>H&#225;, &#233; claro, o ant&#237;doto adequado para cada um: perante a voracidade do tempo, o estudo cuidadoso de nossa hist&#243;ria cultural, n&#227;o apenas factual ou politiqueira; perante a doen&#231;a da ingratid&#227;o, o cultivo de nossa l&#237;ngua &#8212; pressuposto o amplo conhecimento de seus grandes cultores, por que podemos dizer os melhores louvores; perante as modas, mesmo que sadias, a emula&#231;&#227;o consciente do esfor&#231;o her&#243;ico desses homens.</p><p><strong>I. A transposi&#231;&#227;o de modas e estilos</strong></p><p>Esse problema, o da mera transposi&#231;&#227;o de modas, chamado de <strong>filone&#237;smo </strong>(amor &#224;s modas), foi alertado por Cruz Costa:</p><p><em>&#8220;A Filosofia no Brasil sempre foi um produto de importa&#231;&#227;o. Eu procurei mostrar isso em me&#1077;&#1080; livro. Na Col&#244;nia, a escol&#225;stica importada de Coi&#1090;bra; no Imp&#233;rio, o ecletismo; a seguir o positivismo e o evolucionismo, que chegaram at&#233; a Rep&#250;blica. Depois, o neokantismo, um pouco de bergsonismo, muito ralo; o marxismo, o existencialismo e at&#233; Husserl, Hartmann e Heidegger! (...) Mais recentemente, o estruturalismo. At&#233; a funda&#231;&#227;o da Faculdade de Filosofia, o filone&#237;smo dominou nossa cultura. Era importante haver lido a obra mais recentemente publicada e, de prefer&#234;ncia, no original. Mas n&#227;o se indagava muito se o leitor assimilava o que lera. Assim, a Filosofia, co&#1090;&#1086; muito mais, era privil&#233;gio de rar&#237;ssimas pessoas. Com o advento dos cursos regulares de Filosofia, a situa&#231;&#227;o modificou-se em parte. Come&#231;amos ent&#227;o a nos vestir mais simplesmente, mais moderadamente, tendo em conta, por certo, a moda, mas sem os atapios e falsos luxos filoneistas. Fugir &#224; moda n&#227;o &#233; f&#225;cil, mas vestir-se com exagero &#233; ridiculo.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-2" target="_self">2</a></p><p>Somos t&#227;o, t&#227;o apegados &#224; necessidade hist&#233;rica de macaquear as modas, que sequer alcan&#231;amos o feito m&#237;nimo de disponibilizar em vern&#225;culo um acervo cr&#237;tico suficiente das obras antigas, gregas e romanas. Provid&#234;ncia esta que foi a primeira e mais urgente em todos os pa&#237;ses cuja l&#237;ngua come&#231;ou a balbuciar as primeiras reflex&#245;es. </p><p>Aqui, neste texto, enfatizo a filosofia porque representa a completude das ambi&#231;&#245;es espirituais de um povo. H&#225; algo nela de po&#233;tico, de m&#237;stico, pol&#237;tico, pedag&#243;gico e de cient&#237;fico. E tamb&#233;m acho que &#233; a parte mais esquecida dos quatros eixos mencionados. </p><p>Contudo, muito j&#225; foi dito sobre a atividade filos&#243;fica no Brasil, embora pouco tenha repercutido. N&#227;o repercutiu, ali&#225;s, pela radical transforma&#231;&#227;o da academia brasileira durante o regime militar. Houve ali um deslocamento, gradualmente grosseiro, para a agenda, a milit&#226;ncia, cujos rebentos mais ressequidos temos visto ultimamente; enfim, uma surdez &#224; advert&#234;ncia de Leonardo Van Acker:</p><p><em>&#8220;Pe&#231;o v&#233;nia para ponderar que, antes de cuidarmos dos poss&#237;veis resultados pr&#225;ticos da Filosofia, devemos tratar de cultivar a pr&#243;pria Filosofia; pois, as contribui&#231;&#245;es pr&#225;ticas vir&#227;o por acr&#233;scimo.&#8221; </em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-3" target="_self">3</a></p><p>Complementa Ant&#244;nio Joaquim Severino:</p><p><em>O fil&#243;sofo brasileiro ter&#225; import&#226;ncia no panorama universal da Filosofia quando suas intui&#231;&#245;es forem originais por serem sentidas em seu contexto existencial. A pretexto de que a Filosofia &#233; um fluxo puramente &#8220;universal&#8221;, isto &#233;, desligado da realidade individualizada, eliminar todo esfor&#231;o de cria&#231;&#227;o pessoal e de interroga&#231;&#227;o meditativa e paciente das situa&#231;&#245;es individuais, &#233; matematizar a Filosofia.&#8221;</em></p><p><em>&#8220;A repercuss&#227;o de um pensamento filos&#243;fico numa esfera supranacional s&#243; se d&#225; quando ele &#233;, antes de tudo, profundamente &#8220;nacional&#8221;, ou s&#243; ser&#225; universalmente influente quando for originariamente encarnado.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-4" target="_self">4</a></p><p>Todo povo &#233; a sucess&#227;o de gera&#231;&#245;es que se orienta por um mesmo horizonte metaf&#237;sico. Sup&#245;e-se, com efeito, a transmiss&#227;o cont&#237;nua desse horizonte, para que, desse modo, sempre se mostre apto a expandir-se. Ubiratan de Macedo enquadrou bem o aspecto correlato a isso, o da forma&#231;&#227;o est&#225;vel de uma tradi&#231;&#227;o, face ao perigo de reduzir a pr&#225;tica filos&#243;fica &#224; reflex&#227;o de um programa de desenvolvimento nacional &#8212; seja qual for sua base ideol&#243;gica. Concorda que n&#227;o h&#225; filosofia nacional no sentido do termo, mas pode haver, sim, um jeito de filosofar tradicionalmente consolidado na biogradia hist&#243;rica de um povo:</p><p><em>&#8220;<strong>Uma Filosofia Nacional s&#243; aparece no fim de uma tradi&#231;&#227;o de gera&#231;&#245;es de fil&#243;sofos, que leram os mesmos mestres, e praticaram os mesmos m&#233;todos;</strong> n&#227;o obstante a diversidade de suas posi&#231;&#245;es, apresentam um matiz comum a identific&#225;-los com uma nacionalidade, por causa dos antecedentes comuns.&#8217;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-5" target="_self">5</a></p><p><strong>II. A filosofia livresca</strong></p><p>&#201; claro que nosso contexto, digamos, pragm&#225;tico, existencial, n&#227;o pode ser ignorado. Toda filosofia &#233; filosofia quando nasce de uma situa&#231;&#227;o t&#227;o cosmicamente concreta, que se revela ao mesmo tempo resposta ao meio imediato em que se instala, e ao fim &#250;ltimo e universal de sua miss&#227;o; podendo, por isso, tanto ensinar aos pros&#233;litos de ra&#231;a, quanto a todos os homens distantes no tempo. Aqui, temos o problema inverso &#224; pura pragm&#225;tica, que &#233; o mero cultivo livresco da filosofia.</p><p><em>&#8220;H&#225; no Brasil muitos cultores da Filosofia, muitos professores de Filosofia, mas nenhum fil&#243;sofo. H&#225; um h&#225;bito livresco entre n&#243;s, onde se mede o valor de um homem, de um escritor, pela quantidade de livros e autores que ele &#233; capaz de citar. Com isso, <strong>esfor&#231;ando-se por penetrar no pensamento dos outros, o brasileiro esquece os seus pr&#243;prios pensamentos</strong>.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-6" target="_self">6</a></p><p>Sobre essa timidez da filosofia no Brasil, volto a citar Ant&#244;nio Joaquim Severino:</p><p><em>&#8220;O que sempre se cultivou como sendo Filosofia foram valiosas amostras de pensamento universal que repercutiram com maior intensidade em outros pa&#237;ses ou em outras &#233;pocas e que foram para c&#225; transportadas como se fossem f&#243;rmulas de produtos qu&#237;micos, de acordo com a conveni&#234;ncia de elementos isolados dentro da cultura nacional.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-7" target="_self">7</a></p><p>Historicamente, temos um quadrante bem definido de tend&#234;ncias que disputam o cen&#225;rio das discuss&#245;es: <strong>a positivista, a existencialista, a marxista e a tomista. Todas com suas variantes e permutas</strong>. O in&#237;cio da primeira rep&#250;blica foi marcado pela positivista, a redemocratiza&#231;&#227;o p&#243;s-regime teve acento marcado do marxismo. O per&#237;odo que antecede o regime militar possui ampla circula&#231;&#227;o existencialista e neotomista. Enquanto o per&#237;odo imperial &#233; denominado de ecl&#233;tico, pela abund&#226;ncia de misturas nos meios eruditos e asu&#234;ncia de institui&#231;&#245;es que estabilizem qualquer vertente. Como diz Severino:</p><p><em> &#8220;Em Filosofia, os pensadores brasileiros se definem como tomistas, positivistas, marxistas ou existencialistas.&#8221;</em></p><p><strong>III. O universalimo a que somos prometidos face &#224;quele que nos &#233; estregue</strong></p><p>Por outro lado, essa aus&#234;ncia de comunica&#231;&#227;o, de continuidade, de tradi&#231;&#227;o, que &#233; a condi&#231;&#227;o vital para o sentido maior da educa&#231;&#227;o, &#233; tamb&#233;m uma condicionante positiva, dado que comprova a insufici&#234;ncia da mera exporta&#231;&#227;o de express&#245;es estrangeiras, mesmo que aut&#234;nticas.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-8" target="_self">8</a> &#201; positiva porque isenta o brasileiro de um comprometimento tal com as modas de fora, que sua consci&#234;ncia hist&#243;rica seja totalmente solapada e raptada. Sempre que surgem modas, surgem tamb&#233;m rea&#231;&#245;es de retorno &#224; sua identidade fundamental, mesmo que amb&#237;guas e convulsivas. Vejamos o que diz M&#225;rio Ferreira:</p><p><em>&#8220;Posso colocar-me na seguinte posi&#231;&#227;o: n&#243;s, brasileiros, por vivermos materialmente o universal humano, por n&#227;o termos compromissos hist&#243;ricos que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tampouco compromissos filos&#243;ficos, somos um povo apto para uma Filosofia de car&#225;ter ecum&#234;nico, uma Filosofia que corresponda ao verdadeiro sentido com que ela foi criada desde o in&#237;cio.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-9" target="_self">9</a></p><p> <strong>Sucede, no entanto, que esse universalismo material tende &#224; in-formidade cultural.</strong> Isso &#233; natural se levamos em conta o tamanho do Brasil. O Brasil, como os Estados Unidos, &#233; uma Europa reunida &#8212; &#233; o mundo reunido, &#233; um pa&#237;s continental, e que portanto privilegia express&#245;es locais plurais de literatura, religiosidade e, consequentemente, de filosofia. Dar um sentido transcendente a um mosaico t&#227;o difuso de express&#245;es &#233; desafiador. </p><p><em>&#8220;Partindo, por exemplo, das implica&#231;&#245;es da experi&#234;ncia intelectual brasileira b&#225;sica; <strong>Brasileiros pelo sentimento, somos europeus pela imagina&#231;&#227;o:</strong> assim definia Joaquim Nabuco a dupla fidelidade respons&#225;vel pelo permanente mal-estar na cultura brasileira, uma obsess&#227;o nacional hoje em dia recalcada&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-10" target="_self">10</a></p><p>A Europa aguentou tal transcend&#234;ncia enquanto l&#225; se preservou a f&#233; cat&#243;lica, supra-nacional. Quanto aos Estados Unidos, h&#225; ali uma semelhan&#231;a &#224; unidade pluralista da religi&#227;o secular romana &#8212; que encontrava na <em>lex  </em>seu lastro de continuidade, concretamente expressa pela tradi&#231;&#227;o conservadora inglesa. H&#225; muita inspira&#231;&#227;o crist&#227; na constitui&#231;&#227;o dos Estados Unidos, &#233; o que mostra David Holmes em seu <em>The Faiths of the Founding Fathers;</em> mas sua B&#237;blia n&#227;o &#233; a Palavra de Deus, &#233; sua constitui&#231;&#227;o fundadora. </p><p>J&#225; o Brasil, possui outros caminhos, outros ascendentes, outra composi&#231;&#227;o. Sua expans&#227;o foi forjada pelas miss&#245;es jesu&#237;ticas, sua unidade encarnada na pessoa do Imperador-Moderador, seus destinos pol&#237;ticos, ora encabe&#231;ados pela ma&#231;onaria, ora por prelados cat&#243;licos e, nos &#250;ltimos tempos, pelo parasitismo marxista e suas variantes dial&#233;ticas. Seu universalismo, como diz M&#225;rio, &#233; material, isto &#233;, o mundo todo est&#225; injetado no sangue de sua ra&#231;a, que &#233; um pouco de tudo e, tamb&#233;m por isso, uma paisagem indiscern&#237;vel do nada. </p><p>Lembre-se nosso trauma irrecuper&#225;vel, representado pela ades&#227;o estadista ao ilumismo. &#201; um trauma porque as correntes iluministas n&#227;o surgiram de modo org&#226;nico em Portugal.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-11" target="_self">11</a> A filosofia moderna, em Portugal, come&#231;a velha e imposta como programa pol&#237;tico, n&#227;o como desenvolvimento org&#226;nico de novos horizontes especulativos. Com esse fato, sua tradi&#231;&#227;o escol&#225;stica foi n&#227;o s&#243; rompida, como suprimida historicamente; n&#227;o por uma supera&#231;&#227;o intelectual absorvente, mas por uma reviravolta puramente estadista e ideol&#243;gica inteiri&#231;amente. &#192; diferen&#231;a de outros lugares, a filosofia escol&#225;stica ib&#233;rica tinha f&#233;rvida vitalidade nos s&#233;culos XVI e XVII. </p><p>Portanto, os lusitanos, tanto quanto n&#243;s, tamb&#233;m estamos bem esquecidos de seu passado intelectual. Essa condi&#231;&#227;o &#233; um heran&#231;a j&#225; lusitana, s&#243; que dirigida ao pr&#243;prio legado portugu&#234;s no Brasil. </p><p>Diz M&#225;rio:</p><p><em>&#8220;Quando hoje se visita Portugal e se v&#234; qual a atitude predominante neste pa&#237;s em rela&#231;&#227;o ao seu patrim&#244;nio filos&#243;fico, espanta verificar a completa ignor&#226;ncia sobre o que de grande j&#225; se realizou na Filosofia Portuguesa. Atualmente, nada se estuda, nas escolas, da Filosofia Portuguesa dos s&#233;culos XV, XVI e XVII. Parece que Portugal nada realizou; <strong>desconhece-se que, por quase dois s&#233;culos, a Filosofia Portuguesa imperou no mundo</strong>. Desconhecem-se autores como: Pedro Hispano; Ant&#244;nio de S&#227;o Domingos, O.P.; Francisco Su&#225;rez, S. J., que embora espanhol, viveu grande parte da sua vida intelectual em Portugal, onde adquiriu o seu saber&#8230; Pedro da Fonseca, S. J; Baltazar Alvares, S. J;  Jo&#227;o de S&#227;o Tom&#225;s, O. P;  </em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-12" target="_self">12</a></p><p>Continua depois:</p><p><em>N&#243;s, brasileiros, contudo, por um esp&#237;rito de colonialismo passivo, que nos domina at&#233; hoje, n&#227;o cremos em n&#243;s mesmos. S&#243; damos valor &#224;quilo que tem origem estrangeira, e n&#227;o seja de Portugal, porque tamb&#233;m esta proced&#234;ncia n&#227;o goza de nossa admira&#231;&#227;o. E natural, pois, que falar numa Filosofia Nacional cause manifesta&#231;&#245;es de completa descren&#231;a. N&#227;o acreditar que ela exista, nem tampouco que possa surgir, &#233; atitude geral. Ainda hoje, &#8216;famosos professores de Filosofia&#8217; em Portugal dizem que &#233; imposs&#237;vel criar-se uma Filosofia aut&#243;ctone naquele pa&#237;s. <strong>Para o portugu&#234;s, o que vale &#233;: &#8216;Penso, logo n&#227;o existo&#8217; ou &#8216;Existo, logo n&#227;o penso.&#8221; </strong></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-13" target="_self">13</a></p><p>Resta-nos uma revis&#227;o completa e profunda de todos esses fatores: o esquecimento do legado, a investiga&#231;&#227;o das reais causas de ruptura, uma renova&#231;&#227;o de sentido que n&#227;o seja nem panflet&#225;ria, nem apressada e tampouco provinciana perante a Hist&#243;ria, ou meramente exeg&#233;tica. Essa afirma&#231;&#227;o quase afor&#237;stica e algo sarc&#225;stica de Washington Vita &#233; de inteira sensatez:</p><p><em>&#8220;Sem d&#250;vida pode existir uma Filosofia nacional na medida em que na na&#231;&#227;o haja fil&#243;sofos. Ali&#225;s, cada pa&#237;s tem a Filosofia que merece...&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-14" target="_self">14</a></p><p><strong>IV. A consolida&#231;&#227;o de uma academia sem existir uma filosofia</strong></p><p>O desafio continua. Na verdade, duplicamo-lo; uma vez constatada essa situa&#231;&#227;o de reprodu&#231;&#227;o, de falta de autenticidade, de psitacismo, de pedantismo irrefletido, houve uma guinada total para o <strong>&#8220;rigor do m&#233;todo</strong>&#8221;. O rigor hermen&#234;utico, principalmente o de &#237;ndole uspiana, trouxe a estabilidade nunca antes vista &#224; pr&#225;tica filos&#243;fica no Brasil. Trouxe a &#226;ncora, o ponto de partida s&#243;lido, s&#233;rio &#8212; admitamos. <strong>Mas n&#227;o trouxe filosofia</strong>. Trouxe, sim &#8212; ou melhor, implantou com sucesso, a vis&#227;o do fil&#243;sofo como especialista: o fil&#243;logo que examina o texto de outros fil&#243;sofos cientificamente. Era o perigo a que insinuava Ubiratan: </p><p><em>&#8220;A Filosofia &#233; hoje, para o homem do s&#233;culo XX, uma institui&#231;&#227;o social. Existem c&#225;tedras, institutos, editoras, sociedades consagradas &#224; Filosofia. Existe tamb&#233;m a estranha figura do professor de Filosofia, que vive dela. Paira sobre a Filosofia, assim entendida, a suspeita de inautenticidade. Talvez seja uma atividade ideol&#243;gica de defesa da sociedade. Mas antes de se coagular em institui&#231;&#227;o, a <strong>Filosofia foi vida, necessidade vital para os homens </strong>que a inventaram. Ainda hoje &#225; Filosofia &#233; necessidade vital para alguns homens.<strong> Para a maioria &#233;, por&#233;m, um complemento l&#243;gico de uma forma&#231;&#227;o especializada.&#8221;</strong></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-15" target="_self">15</a></p><p>N&#227;o havendo a personaliza&#231;&#227;o da filosofia no Brasil, optou-se por outro tipo de mimetismo, agora impessoal, que, se por um lado trouxe benef&#237;cios &#224; exegese filos&#243;fica, acabou por impedir para sempre a incorpora&#231;&#227;o acad&#234;mica de uma filosofia aut&#234;ntica.  Como resultante, as grandes vozes nacionais se perdem ofuscadas ante o desejo renovadamente incontido de participar das correntes externas. E, a cada vez que isso ocorre, as novas gera&#231;&#245;es agravam sua aliena&#231;&#227;o do passado, tomadas por um novo ciclo de &#226;nsia por explicar o Brasil pelo que vigora mundo afora. </p><p><em>&#8220;Foi amparado na lucidez e na abertura de esp&#237;rito de Cruz Costa e de L&#237;vio Teixeira que o Departamento de Filosofia da USP se firmou, na d&#233;cada de 60, como exemplo de rigor metodol&#243;gico e de aprimoramento t&#233;cnico-conceitual, caracteristicas mais tarde assimiladas por outros centros universit&#225;rios, que paulatinamente foram vencendo a in&#233;rcia das tradi&#231;&#245;es e a consolida&#231;&#227;o de h&#225;bitos intelectuais nem sempre os mais favor&#225;veis para o adequado desenvolvimento da reflex&#227;o filos&#243;fica&#8230;</em></p><p><em>Ainda assim, e com &#234;nfase nos anos mais recentes, formaram-se em v&#225;rios pontos do pa&#237;s grupos que, &#224; semelhan&#231;a do n&#250;cleo de filosofia da USP nos anos 60, procuram desenvolver a ensino e a pesquisa filos&#243;fica sob a &#233;gide do rigor metodologico e da seriedade acad&#234;mica, no af&#227; de superar, no plano intelectual, o subdesenvolvimento s&#243;cio-econ&#244;mico.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-16" target="_self">16</a></p><p>Uma conclus&#227;o paraxodal emerge de tudo que foi dito. Os filosofantes brasileiros, por um lado, abrem liberalmente os bra&#231;os para a produ&#231;&#227;o acadm&#234;mica estrangeira &#8212; ali&#225;s, ao ponto de at&#233; os dias atuais estarem em d&#237;vida com uma definitiva disponibiliza&#231;&#227;o vern&#225;cula e cr&#237;tica de todas as obras que desenharam nossa hist&#243;ria desde a antiguidade; por outro, esfamaidos por acompanhar os debates mundo afora, nunca estabelecem uma tradi&#231;&#227;o fecunda de discuss&#245;es internas &#8212; tirante aquelas que envolvem estrat&#233;gias de domina&#231;&#227;o pol&#237;tica, internas a partidos, n&#227;o ao debate filos&#243;fico.</p><p>Enfim, como diz Miguel Reale,<em> &#8220;&#233; necess&#225;rio que o brasileiro ven&#231;a certo complexo de inferioridade que o arreda da pr&#243;pria experi&#234;ncia filos&#243;fica, levando-o a repetir apenas o pensado alhures. <strong>O essencial, repito, &#233; n&#227;o querer atingir, por falsa intui&#231;&#227;o e aos saltos, o que os outros povos souberam fazer com paciente confian&#231;a nos valores do tempo e do m&#233;todo.</strong>&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-17" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-17" target="_self">17</a></p><p>A &#250;ltima pondera&#231;&#227;o que deixo &#233; o parecer final que o Pe. Stanilaus Ladusans faz no ep&#237;logo dos <em>Rumos da filosofia no Brasil , </em>ap&#243;s sopesar ao longo do livro as posi&#231;&#245;es  <em>&#8220;contrastantes com respeito &#224; Filosofia Brasileira: algumas s&#227;o pessimistas, outras otimistas; algumas s&#227;o taxativas, outras evasivas. Isto nos move ainda mais para refletir com sinceridade sobre o grau da originalidade do atual pensamento filos&#243;fico brasileiro. Que pensar a respeito?&#8221;</em></p><p>Eis o seu ju&#237;zo:</p><p>&#8220;<em>Por&#233;m, existe ainda o quarto sentido de originalidade, que a Hist&#243;ria da Filosofia revela: <strong>a originalidade de grandes sistemas filos&#243;ficos</strong>, que exerceram ou est&#227;o exercendo influ&#234;ncias mundialmente, no pensamento de tantos povos. Esta &#233; uma originalidade de primeira categoria, que at&#233; agora n&#227;o se manifestou no Brasil.</em></p><p><em>O pensador brasileiro j&#225; alcan&#231;ou muito<strong>: l.&#176; &#8212; a originalidade de quarta categoria</strong>, isto &#233;, a da participa&#231;&#227;o consciente e vital na perene problem&#225;tica filos&#243;fica; <strong>2.&#176; &#8212; a originalidade de terceira categoria </strong>&#8212; a que se manifesta no repensar cr&#237;tico dos sistemas estrangeiros; <strong>3.&#176; &#8212; a originalidade de segunda categoria</strong> &#8212; a que se manifesta nos rumos que a Filosofia tra&#231;a para a pr&#225;tica nacional, que &#233; pluridimensional.</em></p><p><em>O nosso pensamento filos&#243;fico apenas encaminha-se lentamente na dire&#231;&#227;o criativa para alcan&#231;ar a <strong>originalidade de primeira categoria, que ainda n&#227;o possui &#8212; </strong></em>uma filosofia de valor universal.</p><p><em>O que realmente &#233; importante neste encaminhar-se filos&#243;fico &#233;, superando complexos de inferioridade, n&#227;o contaminar-se com o prurido de sistemas, isto &#233;, evitar um querer artificial e desordenado de sistemas simplesmente por ter sistemas em qualquer maneira e qualquer que seja.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-18" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-18" target="_self">18</a></p><p><strong>V. A filosofia no Brasil: panorama historiogr&#225;fico</strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-19" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-19" target="_self">19</a></p><p><em>&#8220;Nunca ser&#225; demais dedicar alguns par&#225;grafos &#224; filosofia no Brasil. N&#227;o que o nosso legado especulativo j&#225; tenha direitos assegurados para figurar no imenso painel do pensamento humano, mas algumas manchas de c&#244;res ex&#243;ticas n&#227;o ficariam mal, imprimindo certa vivacidade no conjunto grave. Al&#233;m disso, a abordagem d&#234;ste tema, perfunt&#243;ria e aned&#243;tica, tem o cond&#227;o de equacionar alguns problemas que jamais seriam debatidos n&#227;o f&#244;sse esta ousada fa&#231;anha, de resto pr&#243;pria da gabolice latino-americana.</em></p><p><em>De fato, cumprindo seu destino e sua voca&#231;&#227;o,<strong> o pensamento brasileiro, mais do que criativo, &#233; assimilativo das id&#233;ias alheias e, ao inv&#233;s de abrir rumos novos, limita-se a assimilar e a incorporar o que vem de fora</strong>. Da&#237; a hist&#243;ria da filosofia no Brasil ser, em geral, uma hist&#243;ria da penetra&#231;&#227;o do pensamento alheio nos recessos de nossa vida especulativa, ser, em suma, a narrativa do grau de compreens&#227;o, da nossa capacidade de assimila&#231;&#227;o nas diferentes &#233;pocas e do nosso quociente de sensibilidade espiritual.</em></p><p><em>Contudo, n&#227;o devemos perder de vista a circunst&#226;ncia de que as id&#233;ias filos&#243;ficas, ao desembarcarem nas costas brasileiras, quase sempre passam por estranha e curiosa sorte. A mudan&#231;a de habitat &#8212; um pensamento, meditado &#224; sombra de carvalhos, deve ser remedidado &#224; vista de canaviais&#8230; &#8212; serve autom&#224;ticamente de campo de prova para as velhas id&#233;ias: algumas destas atingem nova significa&#231;&#227;o, outras logo se perdem. Disto resulta que a hist&#243;ria das id&#233;ias nas Am&#233;ricas, em geral, e no Brasil, em particular, adquire grande import&#226;ncia, pois serve para determinar a sua generalidade, a sua aplica&#231;&#227;o &#224;s atividades humanas e a sua flexibilidade cultural.</em></p><p><em>Por outro lado, diferentemente do fil&#243;sofo europeu, n&#227;o &#233; a necessidade pura e desumanizada do conhecimento abstrato que incita o pensador brasileiro, mas uma necessidade pragm&#225;tica. Isto &#233;, enquanto na Europa o pensador &#233; um produto do ambiente em que se formou e atua, no Brasil &#233; um reativo, um criador de atmosfera, um excitante intelectual, porque &#233; sempre o condutor daquilo que espiritualmente &#233; produto de outra circunst&#226;ncia espiritual. Da&#237; o personalismo e o extremismo de suas id&#233;ias, n&#227;o admitindo os matizes, as restri&#231;&#245;es ou mesmo a d&#250;vida filos&#243;fica: &#233; sempre categ&#243;rico. Por isso p&#244;de afirmar, acertadamente, Guillermo Francovitch, que &#8220;<strong>a hip&#243;tese europ&#233;ia se torna axioma americano e, muitas v&#234;zes, a teoria se converte em dogma</strong>&#8221;.</em></p><p><em>Claro est&#225; que entre assimilar e vulgarizar medeia um abismo. A assimila&#231;&#227;o tem aqui, por assim dizer, um sentido fisiol&#243;gico, transformando as id&#233;ias e incorporando-as num processo de enriquecimento. A vulgariza&#231;&#227;o, por sua vez, &#233; a atividade intelectual passiva, de falsa clareza, porque arbitr&#224;riamente simplifica o complexo e for&#231;a a elementariza&#231;&#227;o. J&#225; se disse que trivializar n&#227;o &#233; esclarecer, e muito menos o &#233; essa impertinente falsifica&#231;&#227;o em que costumam incorrer alguns supostos clarificadores. A clareza l&#237;cita e desej&#225;vel &#233; a do exame ou da exposi&#231;&#227;o do assunto, que pode ser por si mesmo sumamente obscuro e o mais que se pode e a que se deve chegar em tais casos &#233; mostrar, com lucidez e honestidade intelectual, suas obscuridades. Nesse sentido, os fil&#243;sofos nacionais, ao contr&#225;rio de terem sido meros vulgarizadores, foram e continuam sendo assimiladores de doutrinas alheias, adaptando-as &#224;s exig&#234;ncias de nossa forma&#231;&#227;o espiritual.</em></p><p><em>&#201; bem verdade que t&#234;m sido diminutas as nossas contribui&#231;&#245;es positivas ao conhecimento filos&#243;fico geral. Esse fen&#244;meno &#233; fruto normal das situa&#231;&#245;es hist&#243;ricas que v&#234;m condicionando o desenvolvimento cultural e pedag&#243;gico do Brasil. A Col&#244;nia, o Imp&#233;rio e a Rep&#250;blica s&#227;o tr&#234;s fases hist&#243;ricas ou tr&#234;s ilustra&#231;&#245;es pol&#237;ticas, da mesma depend&#234;ncia econ&#244;mica do Brasil em face de outras na&#231;&#245;es. Essa depend&#234;ncia &#8212; que pode admitir, como fic&#231;&#227;o legal, a soberania do Estado dependente &#8212; n&#227;o proporciona, por&#233;m, &#224;quelas condi&#231;&#245;es materiais e culturais imprescind&#237;veis &#224; eclos&#227;o do esp&#237;rito de livre cr&#237;tica, ponto de partida da autonomia e da originalidade do pensamento, especialmente do pensamento filos&#243;fico.</em></p><p><em>Todavia, at&#233; onde um pensamento possa ser original &#233; uma quest&#227;o controvertida. Isto porque a originalidade n&#227;o consiste apenas na singularidade absoluta da cria&#231;&#227;o, se acaso esta &#233; poss&#237;vel; verifica-se tamb&#233;m quando o esp&#237;rito, com autonomia e consci&#234;ncia, aceita o que outros disseram e o reelabora com plena independ&#234;ncia. Por isso a pretens&#227;o de se bastar a si pr&#243;prio e o narcisismo da intelig&#234;ncia s&#227;o quase sempre uma marcha para a esterilidade. Ou seja, o esp&#237;rito vive de comunica&#231;&#227;o e de cont&#237;nua permuta, e n&#227;o de barreiras nem de autolatrias. Da&#237; a caracter&#237;stica assimilativa do pensamento brasileiro que consiste na oblitera&#231;&#227;o, substitui&#231;&#227;o e modifica&#231;&#227;o de modos de sentir, pensar e agir por novos h&#225;bitos que se exteriorizam sob a emula&#231;&#227;o ou sugest&#227;o de id&#233;ias advent&#237;cias &#8220;aclimatadas&#8221;, que conseguem sobreviver no novo habitat.</em></p><p><em>Desta forma, a antinomia cultural que Joaquim Nabuco vislumbrara na nossa hist&#243;ria &#8212; pertencemos &#224; Am&#233;rica pelo &#8220;sentimento novo, flutuante do nosso esp&#237;rito&#8221;, e &#224; Europa pelas &#8220;camadas estratificadas do nosso esp&#237;rito&#8221; &#8212; tem uma vig&#234;ncia relativa. Principalmente quando se leva em conta que as obras de filosofia, pensadas e redigidas em nosso pa&#237;s, para serem entendidas e compreendidas, devem ser tomadas &#224; luz do momento hist&#243;rico em que foram escritas e da finalidade a que visavam. Encarado d&#234;ste ponto de vista, o problema da interpreta&#231;&#227;o e da compreens&#227;o dos nossos filosofantes que expressaram as vicissitudes das correntes europ&#233;ias no Brasil, apresenta-se de outra maneira, sob novas luzes, com diversa significa&#231;&#227;o.</em></p><p><em>Fica, portanto, insinuada &#8212; a demonstra&#231;&#227;o &#233; a narrativa que segue &#8212; a exist&#234;ncia de uma filosofia no Brasil, n&#227;o como um organismo eid&#233;tico, supratemporal, totalmente imune &#224; conting&#234;ncia hist&#243;rica, mas como alguma coisa que n&#227;o &#233; mais que a eleva&#231;&#227;o abstrativa de uma situa&#231;&#227;o vital historicamente dada. <strong>No processo de assimila&#231;&#227;o das id&#233;ias alheias, imprimimos as nossas caracter&#237;sticas, de ac&#244;rdo ali&#225;s com o velho princ&#237;pio: tudo o que se recebe toma a forma do recipiente</strong>, ou como certos perfumes que, em contato com a epiderme, sofrem uma altera&#231;&#227;o qu&#237;mica que lhes altera a fragr&#226;ncia, e nisto consiste nossa &#8220;originalidade&#8221;.</em></p><p><em>De resto, a filosofia no Brasil formula problemas pr&#243;prios. Evidentemente, em primeiro lugar &#233; o prolongamento de uma tradi&#231;&#227;o que nasceu na Gr&#233;cia, nada tendo de estranho que suas influ&#234;ncias gerais tenham sido &#8220;europ&#233;ias&#8221; e que n&#227;o se tenha desviado, no essencial, do curso seguido pela medita&#231;&#227;o filos&#243;fica da &#233;poca moderna. Em segundo lugar, os sucessivos pronunciamentos de originalidade dos nossos pensadores &#8212; &#8220;pretens&#245;es nunca justificadas&#8221;, ao ver de Cruz Costa &#8212; devem ser entendidos, menos como uma filosofia peculiar do que como temas peculiares, nos quais &#233; flagrante sua autenticidade, gra&#231;as ao profundo v&#237;nculo com a concreta circunst&#226;ncia nacional. Claro est&#225; que esta autenticidade n&#227;o significa que se tenha de sacrificar o peculiar ao verdadeiro, nem impede, da mesma forma, que um dos elementos dela seja, neste caso, sua fun&#231;&#227;o de prolongamento e colabora&#231;&#227;o &#224; tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica do Ocidente.</em></p><p><em>Justificada a sintonia da filosofia no Brasil com a filosofia universal, tornam-se &#243;bvios os reflexos desta s&#244;bre aquela, com pequenas ou grandes diferen&#231;as sincr&#244;nicas. Isto &#233; patente nas gera&#231;&#245;es ligadas ao ecletismo, ao positivismo, ao espiritualismo, ao historicismo e ao existencialismo, recolhendo da tradi&#231;&#227;o europ&#233;ia o mais caracter&#237;stico do pensamento contempor&#226;neo, procurando desenvolver, com sucesso diverso, as diferentes correntes especulativas que coincidiam com as mais fundas aspira&#231;&#245;es das camadas intelectuais superiores.</em></p><p><em><strong>Nesse sentido, temos Matias Aires assimilando o iluminismo, Diogo Ant&#244;nio Feij&#243; o kantismo, Mont&#8217;Alverne o ecletismo, Gon&#231;alves de Magalh&#227;es o espiritualismo, Pereira Barreto o positivismo, Tobias Barreto o evolucionismo, Farias Brito o bergsonismo, Leonel Fran&#231;a a neo-escol&#225;stica, Miguel Reale o culturalismo, Cruz Costa o historicismo, Vicente Ferreira da Silva o existencialismo, Caio Prado J&#250;nior o marxismo, Euryalo Cannabrava o positivismo l&#243;gico, para s&#243; citar os chefes de escolas</strong>. Ao lado d&#234;sses filosofantes perfila a dissolu&#231;&#227;o da filosofia na literatura</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-20" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-20" target="_self">20</a><em> e no pensamento geral, que &#233; precisamente uma das caracter&#237;sticas do pensamento filos&#243;fico no Brasil. &#201; o caso de Paulo Prado ou S&#233;rgio Milliet, Gilberto Freyre ou Afr&#226;nio Coutinho, Fernando de Azevedo ou Oswald de Andrade, Oliveira Viana ou M&#225;rio de Andrade, etc., que, sem tratar seus temas de maneira estritamente filos&#243;fica, sem d&#250;vida adensam a problem&#225;tica especulativa.</em></p><p><em>Portanto, a filosofia no Brasil n&#227;o &#233;, mesmo em suas tend&#234;ncias mais &#8220;logicistas&#8221;, ocupa&#231;&#227;o exclusiva s&#244;bre temas abstratos, como tamb&#233;m n&#227;o &#233; simples reflex&#227;o s&#244;bre circunst&#226;ncias concretas com uma finalidade meramente pr&#225;tica. Por isso podemos afirmar que h&#225; uma filosofia brasileira, contanto que n&#227;o omitamos uma tradi&#231;&#227;o que, como a do Ocidente, se caracteriza em grande parte por haver engendrado a forma do pensar filos&#243;fico, e contanto que, a procura de uma autenticidade e peculiaridade brasileiras n&#227;o nos fa&#231;a esquecer que,<strong> em &#250;ltima inst&#226;ncia, o que importa na filosofia &#233; a verdade</strong>.&#8221;</em></p><h4>VI. Apontamentos bibliogr&#225;ficos</h4><p>A t&#237;tulo de informa&#231;&#227;o, quanto ao que j&#225; foi dito, deixo aqui algumas provis&#245;es bibliogr&#225;ficas fundamentais:</p><p>Mencione-se j&#225; o livro mesmo de que nos servimos amplamente neste artigo: </p><p><em>Rumos da filosofia no Brasil (Org. de Stanislaus Ladus&#227;ns)</em></p><p><strong>A.  Subs&#237;dio introdut&#243;rio</strong></p><p><em>Gilberto Freyre: </em></p><ol><li><p>Interpreta&#231;&#227;o do Brasil</p></li></ol><p><em>Jo&#227;o Camilo de Oliveira Torres:</em></p><ol start="2"><li><p>Interpreta&#231;&#227;o da realidade brasileira</p></li></ol><p><strong>B. A tr&#237;ade fundamental:</strong></p><p><em>Jo&#227;o Cruz Costa:</em></p><ol start="3"><li><p>A filosofia no Brasil</p></li><li><p>Contribui&#231;&#227;o &#224; hist&#243;ria das id&#233;ias no Brasil</p></li><li><p>Panorama da Hist&#243;ria da Filosofia no Brasil</p></li></ol><p><em>Lu&#237;s Washington Vita</em></p><ol start="6"><li><p>Hist&#243;ria da filosofia no Brasil</p></li></ol><p><em>Ant&#244;nio Paim:</em></p><ol start="7"><li><p>Hist&#243;ria das ideias filos&#243;ficas no Brasil</p></li></ol><p><strong>C. O pioneiro e o sobrevivente:</strong></p><p><em>Sylvio Romero:</em></p><ol start="8"><li><p>Philosofia no Brasil: ensaio cr&#237;tico</p></li></ol><p><em>Olavo de Carvalho:</em></p><ol start="9"><li><p>Futuro do pensamento brasileiro</p></li></ol><p><strong>D. Para um princ&#237;pio de revis&#227;o das contribui&#231;&#245;es acad&#234;micas</strong></p><p><em>Edmundo Campos Coelho</em></p><ol start="10"><li><p>A sinecura acad&#234;mica: a &#233;tica universit&#225;ria em quest&#227;o</p></li></ol><p><em>Paulo Arantes</em></p><ol start="11"><li><p>Um departamento franc&#234;s de ultramar<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-21" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-21" target="_self">21</a></p></li></ol><p><strong>E. Os antecedentes lusitanos</strong></p><p><em>Pedro Calafate:</em></p><ol start="12"><li><p>Hist&#243;ria do pensamento filos&#243;fico portugu&#234;s (cinco volumes)</p></li></ol><p><strong>F. Subs&#237;dio amplo:</strong></p><p><em>Ant&#244;nio Saraiva:</em></p><ol start="13"><li><p>Para a hist&#243;ria da cultura em Portugal</p></li></ol><p><em>Fernando de Azevedo:</em></p><ol start="14"><li><p>A cultura brasileira</p></li></ol><p><em>Wilson Martins</em></p><ol start="15"><li><p>Hist&#243;ria da intelig&#234;ncia brasileira</p></li></ol><p></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>In: <strong>Rumos da filosofia no Brasil</strong> (Org. de S. Ladusans)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Ibid</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Ibid</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Exemplo marcado dessa abertura ao universal que encarna uma originalidade aut&#234;ntica e encarnada segundo as notas pr&#243;prias de seu meio, &#233; Jo&#227;o Camilo de Oliveira Torres. Veja-se a amplitude de refer&#234;ncias de que d&#225; testemunho em sua forma&#231;&#227;o, cujas resultantes redundaram em verdadeira originalidade:</p><p><em>&#8216;Fixada sempre a posi&#231;&#227;o b&#225;sica, de cunho tomista tradicional, sofri as seguintes influ&#234;ncias, em ordem mais ou menos cronol&#243;gica: a) Max Scheler, que me marcou bastante na fase de forma&#231;&#227;o e cujas posi&#231;&#245;es fundamentais em axiologia mantenho; Bergson; Duns Esco- to, que come&#231;ou a interessar-me a partir da guerra e que tenho estudado com intervalos &#8212; em certa &#233;poca, por exemplo, ele foi objeto de intensa correspond&#234;ncia com Frei Constantino Koser, O.F.M., hoje Superior Geral dos Franciscanos; Su&#225;rez paralelamente, sobretudo na parte pol&#237;tica e nestes &#250;ltimos tempos Teilhard de Chardin. Natural- niente sofri consider&#225;vel influ&#234;ncia (paralela &#224;s citadas) de Maritain, como todos os de minha gera&#231;&#227;o. Como aconteceu com muita gente, li Freud e Maurras (para a pol&#237;tica), na mocidade, sofri influ&#234;ncias de Spengler, Ferrero, Toynbee etc. Podemos consider&#225;-las influ&#234;ncias marginais e avulsas. A moderna teologia &#8212; Scheeben, Adam, Dani&#233;lou, Jornet, Congar, D. V. Hildebrand e Thils (por esses nomes pode-se deduzir a minha linha nesta parte) &#8212; tem sido estudada para fins de atualiza&#231;&#227;o. Influ&#234;ncias maiores: Scheeben e Dani&#233;lou.&#8221; <strong>Ibid</strong></em></p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>in: <strong>Rumos da filosofia no Brasil</strong> (Org. de S. Ladusans). </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Le&#244;ncio Basbaum. <strong>Ibid</strong></p><p>Basbaum foi dos pioneiros do comunismo no Brasil, da&#237; essa &#234;nfase da a&#231;&#227;o presente. Por incr&#237;vel que pare&#231;a, a concretiza&#231;&#227;o desse filosofar a partir da condi&#231;&#227;o presente a ponto de atingir as massas, penso, se deu com Olavo de Carvalho; por ironia das moiras.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p><em>Ibid</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>No momento, vivemos novamente isso. Se antes &#233;ramos majoritariamente alimentados pela produ&#231;&#227;o intelectual francesa, agora dirigimos nosso mimetismo filos&#243;fico e ideol&#243;gico para as produ&#231;&#245;es americanas. Se, por um lado, importa-se indiscriminadamente os autores de ideologia &#8220;<em>woke</em>&#8221;, temos por outro a importa&#231;&#227;o de liberais e conservadores.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Cita&#231;&#227;o tamb&#233;m extra&#237;da do livro organizado pelo Pe. Ladusans. Ali&#225;s, a resposta oral das perguntas dirigidas a M&#225;rio Ferreira pode ser acessada aqui: </p><div id="youtube2-JQ0A3nqNx5o" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;JQ0A3nqNx5o&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fwww.youtube-nocookie.com%2Fembed%2FJQ0A3nqNx5o%3Frel%3D0%26amp%3Bautoplay%3D0%26amp%3Bshowinfo%3D0%26amp%3Benablejsapi%3D0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Paulo Arantes, em artigo <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Ffilosofianreapucarana.pbworks.com%2Ff%2FA%2BFilosofia%2Bno%2BBrasil.pdf">aqui</a></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Para isso, basta lembrar a propor&#231;&#227;o assustadora do er&#225;rio real dirigida &#224; difus&#227;o da propaganda iluminista pelo Maqu&#234;s de Pombal. </p><p><em>&#8220;Interessante capitulo seria, para uma biogratia imparcial do marques de combal, o que, baseando se em documentos coevos, nos informasse sobre qual foi a principal preocupa&#231;&#227;o deste ministro nos quatro anos que se seguiram ao terrivel terremoto de Lisboa em 1755.</em></p><p><em>Creio que n&#227;o andaria longe da verdade quem afirmasse que o negocio que mais lhe absorveu as aten&#231;&#245;es durante aquele tempo n&#227;o foi acudir com auxilios pecuniarios e aliviar os males da infeliz capital, como tinha obrigas &#231;&#227;o de fazer, mais sim guerrear e por todos os meios levar a cabo o exter-minio da Companhia de Jesus em Portugal e seus dominios, no que gastou somas fabulosas e o melhor do seu tempo. E assim n&#227;o admira que, esque:</em></p><p><em>cido dos infelizes sinistrados, deixasse apodrecer os enviados de Inglaterra, nos por&#245;es dos navios, donde foram baldeados para S&#243; o Breve da Reforma, diz o consciencioso escritor brasileiro, Dr. Alberto Lamego, &#8220;custou ao cr&#225;rio publico 300:000 cruzados&#8221;. Notavel &#233; a &#234;ste pro-posito o testemunho do insuspeito Theiner. Diz ele que Pombal gastava de 800:000 a 1.200:000 ducados por ano somente em pagar a escritores venaes para escreverem contra os jesuitas&#8221;.</em></p><p><em>Nestes quatro anos escreveu &#234;le proprio os dois famosos libelos, a Relas &#231;&#227;o abreviada e a volumosa Dedu&#231;&#227;o chronologica, que mandou traduzir em linguas estrangeiras e espalhar profusamente por todas as partes, chegando um exemplar daquela, luxuosamente encadernado, at&#233; &#225;s m&#227;os do Papa, que a &#234;le se refere no Breve da Reforma.</em></p><p><em>A principal acusa&#231;&#227;o que principalmente procuram incriminar aos jesuitas, foi a de &#234;stes no Brasil exercerem comercio. O eminentissimo Cardeal res formador chegou a afirmar terem eles &#8220;dentro nas proprias casas de sua resi. d&#234;ncia tendas de generos molhados ou de comestiveis, a&#231;ougues e outras oficinas sordidissimas&#8221;.</em></p><p><em>Se o honrado Arcebispo da Baia aqui perto as tivesse reconhecido como o Eminentissimo Purpurado as viu l&#225; de Lisboa, n&#227;o teria sido castigado com a priva&#231;&#227;o de sua mitra e das suas congruas e n&#227;o iria morrer pobre a Itapagipe. </em></p><p><em>E o curioso &#233; que os autores portugu&#234;ses d&#227;o este ponto do comercio jesuitico como coisa certa. Oliveira Martins assegura que os jesuitas eram negociantes &#8220;como os que mais eram&#8221;. E Lucio de Azevedo afirma que o Geral Ricci &#8220;faltava sem rebu&#231;o &#224; verdade&#8221; quando escreveu n&#227;o conhecer tal comercio. &#8220;Era preciso mais que mediana impud&#234;ncia... contin&#250;a ele, para alegar ignorancia de factos t&#227;o notorios&#8221;.</em></p><p><em>Not&#243;rios? como os prova?&#8221;</em></p><p>Nota do traduor &#224; obra <em><strong>Os Jesu&#237;tas do Brasil e da &#205;ndia na Persegui&#231;&#227;o do Marqu&#234;s de Pombal</strong></em>, do P. Jos&#233; Caeiro S.J.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p><em>Continua: al&#233;m dos outros dois Francisco Soares, lusitanos; Martim de Ledesma, espanhol de origem, cuja forma&#231;&#227;o intelectual realizou-se igualmente em Portugal; Francisco a Cristo, O.S.A., e Eg&#237;dio da Apresenta&#231;&#227;o, O.S.A., Andr&#233;ias de Almada, S. J.; Ludovico de Sotto Maior, O. P.; Gabriel da Costa; Hector Pinto, O. S.; Hieron; Francisco da Fonseca, O.E.S.A.; Manoel Tavares, da Ordem carmelitana e Francisco Carreiro, da Ordem cisterciense; Jorge O. Serr&#227;o, S. J.; Ferdinando Peres, embora nascido em C&#243;rdova, foi outro que adquiriu a sua cultura em Portugal; Ludovico de Molina, S. J., nascido na Espanha, viveu, contudo, a maior parte do seu tempo em Portugal, onde estudou e foi disc&#237;pulo de Pedro da Fonseca, S. J., O Arist&#243;teles portugu&#234;s; Petrus Lu&#237;s, S. J.; Ant&#244;nio Carvalho, S. J.; Baltazar Alvares, S. J.; Hieronimus Fernandes, S. J.; Gaspar Gon&#231;alves, S. J.; Ludovicus de Cerqueira, S. J.; Gaspar Vaz, S. J.; Diogo Alves, S. J.; Francisco de Gouv&#234;a, S. J.; Ferdinando Rebelo, S. J.; Gaspar Gomes, S. J.; Benedictus Pereira, S. J.; Sebasti&#227;o de Couto, S. J.; Bl&#225;sio Viegas, S. J.; Emanuel de G&#243;is, S. J.; Cosmas de Magalh&#227;es, S. J.; Pedro da Orta, S. J.; Jo&#227;o de S&#227;o Tom&#225;s, O. P., para citar apenas alguns, Portugal nos deu esta flora&#231;&#227;o de fil&#243;sofos, afora os mais conhecidos, como Sanches e ou-tros, porque correspondem &#224; atual maneira de filosofar no mundo moderno. </em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>No per&#237;odo republicano, surgiram no Brasil muitas faculdades de filosofia marcadaemtne neo-escol&#225;sticas. Mas isto j&#225; era uma importa&#231;&#227;o de cima, program&#225;tica, de prelados cat&#243;licos. Fa&#231;o especial &#234;nfase &#224; Universidade Cat&#243;lica de Lovaina, que teve papel preponderante nessa difus&#227;o por aqui. Ainda assim, os grandes nomes que sa&#237;ram dessa tend&#234;ncia viram-na como positiva se se considera a necess&#225;ria forma&#231;&#227;o de base, que era rigorosa. Vide o testemunho do insuspeito Lima Vaz: </p><p>&#8220;<em>A forma&#231;&#227;o filos&#243;fica ali (</em>Faculdade Pontif&#237;cia de Filosofia, da ent&#227;o Prov&#237;ncia do Brasil Central da Companhia de Jesus)<em> ministrada era rigidamente escol&#225;stica e acentuava fortemente, mesmo sob o ponto de vista did&#225;tico da distribui&#231;&#227;o das disciplinas, o car&#225;ter sistem&#225;tico do modo de pensar filos&#243;fico. Tinha, no entanto, um m&#233;rito incontest&#225;vel: o m&#233;rito de existir e, portanto, de oferecer um bem definido ponto de partida aos que se sentissem chamados a uma voca&#231;&#227;o de fil&#243;sofo por esse incompar&#225;vel instrumento de precis&#227;o que &#233; o latim escol&#225;stico. O texto adotado na &#233;poca, na Faculdade de Filosofia de Friburgo, era a Philosophiae scholasticae summa de V. Remer, S.J., outrora professor da Universidade Gregoriana. Esse texto s&#243;brio e rigoroso tinha, pelo menos, uma originalidade: a constante refer&#234;ncia &#225;s obras de Arist&#243;teles e Santo Tom&#225;s de Aquino, citadas a cada p&#225;gina. Ele abria, portanto, generosamente, a jovens &#225;vidos e cheios de um entusiasmo hoje dificilmente compreens&#237;vel pelo tir&#226;nico imediatismo que nos domina, duas das fontes mais ricas do pensamento ocidental. </em></p><p><em>Guiado ou motivado pelas cita&#231;&#245;es de Remer, entreguei-me &#224; leitura anotada, p&#225;gina por p&#225;gina, do Coment&#225;rio de Santo Tom&#225;s &#224; Metaf&#237;sica de Arist&#243;teles, naqueles grandes volumes, encadernados de vermelho, (existir&#227;o ainda, depois de tantas mudan&#231;as e tantos &#8220;aggiornamenti&#8221;?) das &#8220;Opera omnia&#8221; do Aquinate da edi&#231;&#227;o de Parma. Foi para mim a primeira experi&#234;ncia, que recordo com extraordin&#225;ria emo&#231;&#227;o, da leitura e medita&#231;&#227;o de um grande texto filos&#243;fico. Entre os meus professores, dois, sobretudo, exerceram sobre mim uma influ&#234;ncia decisiva: o Pe. Eduardo Magalh&#227;es Lustosa e o Pe. Francisco Xavier Roser, ambos j&#225; falecidos. O primeiro abriu*me, ainda que timidamente, as portas da filosofia moderna. Deu-me a ler alguns artigos sobre Husserl e Heidegger e alguns textos, traduzidos em espanhol e franc&#234;s, desses fil&#243;sofos.&#8221;</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Ibid</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>Ibid</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>Conf. nota dez.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-17" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-17" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">17</a><div class="footnote-content"><p>Conf. nota dez.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-18" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-18" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">18</a><div class="footnote-content"><p>Note-se que a produ&#231;&#227;o monumental de M&#225;rio Ferreira dos Santos &#233; contempor&#226;nea a essas entrevistas. De todo modo, ainda resta desprezada pelos pr&#243;prios compatriotas, coisa que me faz exclu&#237;-la de uma realiza&#231;&#227;o, ao menos presente, dessa condi&#231;&#227;o primeira de originalidade. Mais tarde, Pe. Ladusans dir&#225; o seguinte:</p><p><em>&#8220;Estou realizando uma pesquisa cient&#237;fica sobre a situa&#231;&#227;o atual do pensamento filos&#243;fico, a fim de constatar, com objetividade, em que ponto se encontra a Filosofiahoje no Brasil, como ela se desenvolve, que metas est&#225; visando e que objetivos deve atingir. Durante esta pesquisa cient&#237;fica, ainda em curso, descobri um Pensador de extraordin&#225;rio valor &#8211; Dr. M&#225;rio Ferreira dos Santos, nascido no dia 3 de janeiro de 1907 e falecido no dia 11 de abril de 1968. A descoberta deste Fil&#243;sofo solit&#225;rio, dedicado a uma intensa atividade de pensamento e produ&#231;&#227;o liter&#225;ria, surpreendeu-me n&#227;o pouco e proporcionou-me a grata oportunidade de entrar em freq&#252;entes contatos pessoais com ele, homem, que ainda n&#227;o foi encontrado no Brasil.&#8221;</em></p><p><em>&#8220;Pe. Ladus&#227;ns, S.J., reconhecendo o valor de M&#225;rio Ferreira dos Santos procurou difundir sua obra enviando-a para v&#225;rias bibliotecas cat&#243;licas da Europa.&#8221;</em></p><p><em> (Apud: Monografia-biografia sobre M&#225;rio Ferreira dos Santos, por Nadiejda Santos Nunes Galv&#227;o e Yolanda Lhullier dos Santos, 2001)</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-19" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-19" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">19</a><div class="footnote-content"><p><strong>A sequ&#234;ncia desse artigo &#233; uma s&#237;ntese panor&#226;mica de Washgington Vita, cuja  continua&#231;&#227;o colocarei num segundo artigo, por ser muito mais extensa e pela fun&#231;&#227;o de introdu&#231;&#227;o historiogr&#225;fica. </strong>Trata-se do excerto inicial do artigo hom&#244;nimo presente na colet&#226;nea &#8220;O Mito de Hefestos&#8221;, 1959. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-20" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-20" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">20</a><div class="footnote-content"><p><em>Na hist&#243;ria da intelig&#234;ncia brasileira, uma tradi&#231;&#227;o que remonta aos primeiros tempos de nossa vida independente consagra o interesse pelo tema &#1087;&#1072;cional, conferindo-lhe inclusive conota&#231;&#227;o progressista, enquanto repudia o incaracter&#237;stico universal, condenado por inaut&#234;ntico e alienante. Onde essa tradi&#231;&#227;o melhor se expressou foi na literatura, durante um longo per&#237;odo nossa principal atividade intelectual: quem escrevia, fazia-o na inten&#231;&#227;o de revelar o Brasil aos seus compatriotas e possu&#237;do pelo sentimento de estar contribuindo para a consolida&#231;&#227;o da nacionalidade ainda incerta, como at&#233; hoje. Na base desse impulso coletivo, formou-se a literatura brasileira, como mostrou Antonio C&#226;ndido. </em></p><p><em><strong>Deu-se o inverso com a Filosofia</strong>. N&#227;o se prestando &#224; figura&#231;&#227;o da realidade como a literatur&#1072;, a Filosofia n&#227;o ultrapassou entre n&#243;s o limiar da mera curiosidade, epis&#243;dica e err&#225;tica, por livrOS de filosofia (era considerado fil&#243;sofo quem os lia) ate a sua organiza&#231;&#227;o na forma de cursos superio res regulares, a partir dos anos 30 deste s&#233;culo, quando ent&#227;o reencontrou seu destino moderno de esp&#1077;cialidade universit&#225;ria como outra qualquer. Co&#1090;parada &#224; literatura, trata-se de um enxerto sem passado. </em></p><p><em>Link tamb&#233;m na nota dez.</em></p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-21" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-21" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">21</a><div class="footnote-content"><p>Por motivos obviamente suspeitos, esses dois livros est&#227;o sob grave dificuldade de difus&#227;o.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Fenomenologia da vocação filosófica]]></title><description><![CDATA[Ou&#231;a agora | Vida intelectual &#224;s &#250;ltimas consequ&#234;ncias]]></description><link>https://renam.substack.com/p/fenomenologia-da-vocacao-filosofica</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/fenomenologia-da-vocacao-filosofica</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Sat, 17 Jan 2026 20:42:22 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5296042f-ff08-40ae-b307-d0678ac23262_1143x1260.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p>
      <p>
          <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2Fp%2Ffenomenologia-da-vocacao-filosofica">
              Read more
          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Morbus brasiliensis contagiosus]]></title><description><![CDATA[A doen&#231;a bras&#237;lica]]></description><link>https://renam.substack.com/p/morbus-brasiliensis-contagiosus</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/morbus-brasiliensis-contagiosus</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Fri, 09 Jan 2026 18:24:12 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F86eafba6-67d5-4012-8310-45a7ad1b38b0_490x500.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; um conto de Machado, em que o personagem sofre d&#8217;O Lapso, doen&#231;a por que a alma &#233; impedida de conceber certa ideia. &#8220;<em>Ocorre-lhe o abismo de Pascal, mas por dentro&#8221;.</em> Assim, a certa mulher ocorreu-lha a aus&#234;ncia da no&#231;&#227;o de marido; a outro, da no&#231;&#227;o de espa&#231;o; A Tom&#233; Gon&#231;alves, ocorreu-lhe a aus&#234;ncia da ideia de d&#237;vida: &#8220;<em>perdeu inteiramente a ideia de pagar.&#8221; </em></p><div class="pullquote"><p>&#8220;Conheci isto h&#225; dois meses, estando em casa dele, quando ali foi o prior do Carmo, dizendo que ia 'pagar-lhe a fineza de uma visita&#8217;. Tom&#233; Gon&#231;alves, apenas o prio se despediu, perguntou-me o que era <em>pagar</em>&#8230; por ouvir da boca do prior, supunha ser latim.&#8221;</p></div><p>Os credores recorreram a Jeremias Halma, m&#233;dico da cidade, que determinou o rem&#233;dio: reaver o lado abstrato da cura, que &#233; restaurar paulatinamente aquela no&#231;&#227;o ausentada; e reintroduzir a concretude, ligando a ideia ao caso. </p><div class="pullquote"><p>&#8220;O modo geral e abstrato, restaura&#231;&#227;o da ideia de pagar, com as no&#231;&#245;es correlatas; e o modo particular e concreto, insinua&#231;&#227;o ou designa&#231;&#227;o de uma certa d&#237;vida e de um certo credor&#8230; O m&#233;dico levava o doente &#224;s lojas de sapatos, para assistir &#224; compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a a&#231;&#227;o de pagar; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes &#224; casa de Tom&#233; Gon&#231;alves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabeleireiro, o segeiro, o botic&#225;rio, um a um.&#8221;</p></div><p>O conto me impressionou. Fu&#231;ados os manuscritos originais, descobri vest&#237;gios marginais de um certo Jeremias Halma, m&#233;dico da &#233;poca de Machado, que, ali&#225;s, porventura tratou um certo Policarpo &#8212; deste, cujas notas de prontu&#225;rio serviram de inspira&#231;&#227;o &#224; fic&#231;&#227;o de Lima Barreto. Havia, no Brasil, repercuss&#245;es mais severas do que a mera aus&#234;ncia da no&#231;&#227;o de pagar.</p><p>Perante os fatos, o conto n&#227;o mente ao falar que Dr. Jeremias j&#225; houvera tratado outros lapsistas mundo afora. S&#243; omite que, ao pisar no Brasil, o doutor enfrentou caso contr&#225;rio: quem tinha o lapso era na verdade considerado s&#227;o, e, quem n&#227;o o tinha, era considerado doente. Essa invers&#227;o diab&#243;lica parece t&#234;-lo atormentado ao ponto de deix&#225;-lo obsecado, fugindo-lhe a ideia de cura &#8212; fato que inspirou o Alienista, tamb&#233;m de Machado.</p><p>Encontrados os di&#225;rios desse pobre homem, pude precisar o que lhe causou o que chamara  de&#8220;o lapso dos lapsos&#8221;: a considera&#231;&#227;o por doente quem &#233; s&#227;o e s&#227;o quem &#233; doente. Jeremias denominou essa doen&#231;a como <em><strong>morbus brasiliensis contagiosus.</strong></em></p><p>Mas no que consiste esse lapso? T&#227;o severo ao grau de impedir a pr&#243;pria cura. </p><p>Segundo os abundantes registros de Dr. Jeremias, trata-se do lapso do saber e de todas as no&#231;&#245;es correlatas, tais como:<em> estudar, ler, investigar, entender, admirar, aprender. </em>A asu&#234;ncia da ideia de saber &#233; o <em>morbus brasiliensis contagiosus, </em>para ser rigoroso nos termos. De fato, nos demais casos, &#233; poss&#237;vel restabelecer aquela ideia ausente, mesmo que lentamente. Aqui, n&#227;o. Restabelecer uma ideia &#233; poss&#237;vel, mas como restabelecer a aus&#234;ncia em si mesma? Neste tipo de lapso, ausenta-se a pr&#243;pria no&#231;&#227;o de ideia. </p><p>Consequentemente, pela raridade daqueles que lhe s&#227;o imunes, quem venha a ter alguma ideia, ser&#225; considerado doente.</p><p>Dr. Jeremias tentou de tudo. De tudo. Dentro daquele procedimento relatado acima. </p><p>Punha o paciente &#224; mesa de estudos, falava-lhe de livros interessantes, mostrava-lhe as pr&#243;prias notas, instigava-lhe com perguntas espirituais. Nada. Nada funcionou. Tudo redundava em t&#233;dio e bocejo. Por vezes, fazia o paciente olhar o c&#233;u pejado de astros, observar o mar calmo e reflexivo, mas nada lhe vinha. </p><p>Jeremias chegou a encomendar &#224; Europa um paciente mais esperan&#231;oso, que  acreditava piamente que a ideia de saber consistia num papel registrando seu nome junto a certa ci&#234;ncia. Dizia com todas as letras que o saber estava num lugar: Coimbra. Ir at&#233; l&#225;, atravessar seus p&#225;tios, vagabundear por uma que outra sala, falar qualquer coisa e ouvir quaisquer outras e voltar feito s&#225;bio. Eis o avan&#231;o: a ideia est&#225; num lugar. Dr. Jeremias esfor&#231;ou-se por fazer-lhe crer na possibilidade desse lugar ser sua cabe&#231;a, mas isso parecia ao jovem um fanatismo jesu&#237;tico.</p><p>Era o mais esperan&#231;oso porque at&#233; tinha alguma ideia, mesmo que redut&#237;vel ao papel e ao lugar. Por detr&#225;s daquele papel ao menos germinavam protoideias de sociedade, aprendizado, cultura, etc. Mas n&#227;o foi adiante. O paciente acumulou diplomas. Jeremias resignou-se, era o m&#225;ximo que podia fazer. Seus melhores pacientes eram aqueles que supriam o lapso de ideias com esses peda&#231;os de papel que dizem: <em>asseguro que fulano tem ideias. </em></p><p>Foi nessa &#233;poca que descobriu Policarpo, seu paciente de sucesso. Ou melhor, de &#234;xito fracassado. Policarpo teve ideias, muitas ideias. Era uma atr&#225;s de outra. Come&#231;ou a n&#227;o s&#243; comprar, como ler os livros. N&#227;o s&#243; ler, mas a conversar sobre o que lia. N&#227;o s&#243; conversar, mas a escrever. N&#227;o s&#243; escrever, mas a viver. Eis problema: Policarpo n&#227;o tinha o que fazer com essas ideias. Persistindo no idealismo, assumiu um novo est&#225;gio da doen&#231;a.</p><p>Esse nosso tr&#225;gico paciente sofreu do lapso contr&#225;rio, talvez igualmente severo: ausentou-lhe a realidade, sobraram-lhe apenas suas ideias. Foi tido por louco, pois quem tem muitas ideias &#233; louco. Acabou que fez dessa irrealidade uma ideia, elouquecendo mesmo. Com isso, Dr. Jeremias enloqueceu tamb&#233;m &#8212; ausentou-lhe a ideia de cura. As observa&#231;&#245;es de campo de Jeremias, suas anota&#231;&#245;es, seu di&#225;rio, seus testemunhos ainda aguardam uma solu&#231;&#227;o para o <strong>morbus brasiliensis contagiosus.</strong></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Lista dos livros que não li este ano]]></title><description><![CDATA[O que chamo de fortuna bibliogr&#225;fica]]></description><link>https://renam.substack.com/p/lista-dos-livros-que-nao-li-este</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/lista-dos-livros-que-nao-li-este</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Wed, 31 Dec 2025 20:19:16 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F63f48628-4f5f-457f-98d6-dde039c57048_189x267.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No fim do ano passado, falei da <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2Fp%2Fa-curiosidade-do-pesquisador%3Fr%3D1p1h8g%26amp%3Butm_medium%3Dios%26amp%3BtriedRedirect%3Dtrue">curiosidade do pesquisador</a>, apresentando o que chamo de &#8220;biblioteca&#8221;: o conjunto de livros a que minhas pesquisas me levam. Trata-se de uma fortuna bibliog&#225;fica, de um floril&#233;gio de obras a que cheguei por meio de outras. H&#225; anos pratico esse exerc&#237;cio, que redunda numa anota&#231;&#227;o &#250;nica com todas as obras pesquisadas ao longo daquele ano. </p><p>Contando o mesmo tipo de exerc&#237;cio em bibliotecas f&#237;sicas (o de folhear livro por livro numa estante, despretenciosamente), j&#225; devo ter espiolhado uns 20 mil t&#237;tulos. &#201; aquilo que Mortimer Adler chamava de leitura preliminar: examinar t&#237;tulo, autor, sum&#225;rio e, a partir daqui, folhear alguns trechos. Muitas vezes s&#243; o t&#237;tulo j&#225; vale preciosos insights; noutras, me sinto curioso para conhecer as demais obras do autor; ainda noutras, leio um trecho ou outro por uns minutos &#8212; quantas ilumina&#231;&#245;es inesperadas j&#225; n&#227;o recebi insistindo um pouco em dado trecho. Em alguns casos, quando o livro me convence de que me dar&#225; respostas &#224;s inquieta&#231;&#245;es do momento, coloco-o na lista de leitura (que &#233; s&#243; imagin&#225;ria); ou simplesmente pauso todas as leituras para l&#234;-lo.</p><p>Contudo, o que ocorre na maioria das vezes &#233; o registro de que h&#225; aquele autor, h&#225; aquele livro, h&#225; aquele assunto e que, portanto, como se formassem uma provis&#227;o que previne as ignor&#226;ncias futuras, merecem a devida aten&#231;&#245;a no momento oportuno &#224; devida inquieta&#231;&#227;o. O nativo sabe onde fica cada erva na vasta selva, mas isto n&#227;o signifca que venha a necessitar de todas ao longo da vida. Saber onde est&#225; cada coisa j&#225; &#233; por si um tipo de rem&#233;dio &#8212; talvez o mais importante ao homem. &#201; assim que a lista anual se forma. </p><p>No caso desses livros, deixo registrada com eles alguma pista mnem&#244;nica sobre o autor, o assunto ou a rela&#231;&#227;o dele com uma poss&#237;vel coordenada de pesquisa. Aqui vai foturna bibliogr&#225;fica de 2025, a t&#237;tulo de exemplo:</p><p></p><ol><li><p><em>The Classical Heritage of the Middle Ages</em>. Charles Homer Haskins. Estudo cl&#225;ssico sobre a preserva&#231;&#227;o, transmiss&#227;o e transforma&#231;&#227;o da cultura antiga na civiliza&#231;&#227;o medieval.</p></li><li><p><em><strong>Fim do Mundo Moderno</strong></em><strong>. Romano Guardini</strong>. Diagn&#243;stico filos&#243;fico-espiritual da modernidade como dissolu&#231;&#227;o das formas simb&#243;licas e da ordem interior.</p></li><li><p><em>Vida em comunh&#227;o</em>. Dietrich Bonhoeffer. Medita&#231;&#227;o teol&#243;gica sobre a vida comunit&#225;ria crist&#227;, seus fundamentos espirituais e seus limites humanos.</p></li><li><p><em>A Perfect Moral Storm: The Ethical Tragedy of Climate Change</em>. Stephen Gardiner. Autor n&#227;o indicado no registro. Discuss&#227;o &#233;tica da crise clim&#225;tica como converg&#234;ncia de falhas morais, pol&#237;ticas e institucionais.</p></li><li><p><em>The Darkness of God: Negativity in Western Christian Mysticism</em>. Denys Turner. Estudo da teologia negativa e da experi&#234;ncia do sil&#234;ncio e da aus&#234;ncia de Deus na m&#237;stica crist&#227;.</p></li><li><p><em>Psiche e Techne: o Homem na Idade da T&#233;cnica</em>. Umberto Galimberti. An&#225;lise filos&#243;fica da t&#233;cnica moderna e de seus efeitos sobre a subjetividade humana.</p></li><li><p><em>The Hidden Persuaders</em>. Vance Packard. Investiga&#231;&#227;o cr&#237;tica das t&#233;cnicas psicol&#243;gicas de persuas&#227;o na publicidade e na cultura de massa.</p></li><li><p><em>A conquista da Am&#233;rica</em>. Tzvetan Todorov. Reflex&#227;o os dilemas &#233;ticos da conquista do Novo Mundo.</p></li><li><p><em><strong>Platonisme et Th&#233;ologie Mystique</strong></em><strong>. Jean Dani&#233;lou.</strong> Estudo fundamental sobre a incorpora&#231;&#227;o do platonismo na m&#237;stica crist&#227; de Greg&#243;rio de Nissa.</p></li><li><p><em>Christian Paideia</em>. Brian Welter. Exposi&#231;&#227;o da forma&#231;&#227;o crist&#227; como continuidade e transfigura&#231;&#227;o da paideia cl&#225;ssica.</p></li><li><p><em>Lutero: el fraile hambriento de Dios</em>. Garcia Villoslada. Biografia intelectual e espiritual de Lutero centrada em seu drama religioso interior.</p></li><li><p><em>Logos Heracl&#237;tico</em>. Dami&#227;o Berge. Interpreta&#231;&#227;o filos&#243;fica do logos como princ&#237;pio estruturante do pensamento de Her&#225;clito.</p></li><li><p><em>Tragedy and Hope: a History of the World in Our Time</em>. Carroll Quigley. Leitura estrutural da hist&#243;ria contempor&#226;nea focada no poder pol&#237;tico e financeiro.</p></li><li><p><em>Designing Your Own Classical Curriculum</em>. Laura Berquist. Guia pr&#225;tico para a elabora&#231;&#227;o de um curr&#237;culo de educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica.</p></li><li><p><em>Lucretius and the History of Science</em>. Monte Johnson. Estudo do papel de Lucr&#233;cio na forma&#231;&#227;o do pensamento cient&#237;fico moderno.</p></li><li><p><em>The Committed World</em>. James Engell. Reflex&#227;o sobre engajamento intelectual, responsabilidade moral e cultura moderna.</p></li><li><p><em>The American School, a Global Context</em>. Joel Spring. An&#225;lise cr&#237;tica da educa&#231;&#227;o americana sob a influ&#234;ncia de for&#231;as globais e ideol&#243;gicas.</p></li><li><p>The Medieval Scriptorium: Making Books in the Middle Ages. Sara Charles</p></li><li><p><em>O Significado, Contexto e Legado da Polis Paralela</em>. V&#225;clav Benda. An&#225;lise da &#8220;polis paralela&#8221; como forma de organiza&#231;&#227;o moral e cultural sob regimes totalit&#225;rios.</p></li><li><p><em>O poder dos impotentes</em>. V&#225;clav Havel. Ensaio sobre a for&#231;a pol&#237;tica da verdade vivida e da responsabilidade pessoal em sociedades ideologizadas.</p></li><li><p><em><strong>Literature Lost: Social Agenda and the Corruption of Humanities</strong></em><strong>.</strong> John Ellis. Cr&#237;tica &#224; instrumentaliza&#231;&#227;o ideol&#243;gica das humanidades nas universidades modernas.</p></li><li><p><em>Heran&#231;a grega dos fil&#243;sofos medievais</em>. Miguel Spinelli. Estudo da recep&#231;&#227;o e transforma&#231;&#227;o da filosofia grega na Idade M&#233;dia.</p></li><li><p><em>A Social History of Knowledge</em>. Peter Burke. Hist&#243;ria cultural da produ&#231;&#227;o, circula&#231;&#227;o e institucionaliza&#231;&#227;o do saber.</p></li><li><p><em><strong>Desconstruction: an American institution</strong></em><strong>. Gregory Jones</strong>. An&#225;lise da desconstru&#231;&#227;o como fen&#244;meno acad&#234;mico e cultural nos Estados Unidos.</p></li><li><p><em>Le malade imaginaire</em>. Moli&#232;re. S&#225;tira do pedantismo m&#233;dico e da falsa autoridade cient&#237;fica na sociedade moderna.</p></li><li><p><em>Dos livros aos cad&#225;veres</em>. Luis Filipe Maiolini. Estudo hist&#243;rico da reforma do ensino m&#233;dico em Coimbra no s&#233;culo XVIII.</p></li><li><p><em>The Destruction of the Christian Tradition</em>. Rama Coomaraswamy. Cr&#237;tica &#224; dissolu&#231;&#227;o da tradi&#231;&#227;o crist&#227; por processos modernos de adapta&#231;&#227;o cultural.</p></li><li><p><em>Os grandes processos da hist&#243;ria</em>. Henri Robert. Interpreta&#231;&#227;o de longo alcance dos movimentos estruturais da hist&#243;ria humana.</p></li><li><p><em>Une histoire &#233;motionnelle du savoir</em>. Fran&#231;oise Waquet. Investiga&#231;&#227;o do papel das emo&#231;&#245;es na vida intelectual do s&#233;culo XVII ao XXI.</p></li><li><p><em>Desenvolvendo a cultura, o problema do esteticismo no Brasil</em>. M&#225;rio Vieira de Melo. Cr&#237;tica ao esteticismo cultural desvinculado de fundamentos &#233;ticos e espirituais.</p></li><li><p><em>Ideologia do s&#233;culo XX</em>. Jos&#233; Osvaldo de Meira Penna. An&#225;lise cr&#237;tica das ideologias modernas e de seus mecanismos de poder.</p></li><li><p><em>Tovas populares brasileiras</em>. Afr&#226;nio Peixoto. Colet&#226;nea comentada da poesia popular brasileira.</p></li><li><p><em><strong>Antologia Escolar brasileira</strong></em><strong>. Marques Rebelo. Sele&#231;&#227;o liter&#225;ria destinada &#224; forma&#231;&#227;o cultural e lingu&#237;stica escolar.</strong></p></li><li><p><em>Uma hist&#243;ria da universidade na Europa</em>. Walter R&#252;egg. Hist&#243;ria institucional e intelectual da universidade europeia desde a Idade M&#233;dia.</p></li><li><p><em>La querelle des universaux</em>. Alain de Libera. Estudo hist&#243;rico-filos&#243;fico da controv&#233;rsia dos universais da Antiguidade ao fim da Idade M&#233;dia.</p></li><li><p><em>Socratismo crist&#227;o e as origens da metaf&#237;sica moderna</em>. Eduardo Prado de Mendon&#231;a. An&#225;lise da heran&#231;a socr&#225;tica crist&#227; na forma&#231;&#227;o da metaf&#237;sica moderna.</p></li><li><p><em>A Vocabulary of the Ancient Commentators on Aristotle</em>. Richard D. McKirahan. L&#233;xico t&#233;cnico para o estudo da tradi&#231;&#227;o exeg&#233;tica aristot&#233;lica antiga.</p></li><li><p><em>De la gnose &#224; l&#8217;oecumenisme</em>. Etienne Couvert. Cr&#237;tica hist&#243;rico-doutrinal de correntes religiosas modernas e ecum&#234;nicas.</p></li><li><p><em>A forma&#231;&#227;o intelectual do jesu&#237;ta</em>. Francisco Rodrigues. Estudo do ideal pedag&#243;gico e intelectual da Companhia de Jesus.</p></li><li><p><em><strong>Hist&#243;ria da Companhia de Jesus na assist&#234;ncia de Portugal</strong></em><strong>. Francisco Rodrigues. Hist&#243;ria institucional dos jesu&#237;tas em Portugal e suas atividades culturais.</strong></p></li><li><p><em>Geocentrism 101</em>. Robert Sungenis. Introdu&#231;&#227;o ao geocentrismo como sistema cosmol&#243;gico e cient&#237;fico alternativo.</p></li><li><p><em>The Modern Gentleman</em>. Phineas Mollod. Reflex&#227;o &#233;tica sobre o ideal masculino e o car&#225;ter na modernidade.</p></li><li><p><em>The Compleat Gentleman</em>. Brad Miner. Defesa do ideal cl&#225;ssico do gentleman crist&#227;o e suas virtudes morais.</p></li><li><p><em>Terra da Gram&#225;tica</em>. M. L. Nesbitt. Introdu&#231;&#227;o pedag&#243;gica ao estudo da linguagem e da gram&#225;tica como fundamento cultural.</p></li><li><p><em>Roman Philosophers</em>. Mark Morford. Panorama da filosofia romana em seu contexto hist&#243;rico, &#233;tico e pol&#237;tico.</p></li><li><p><em><strong>Albertus Magnus and the Sciences</strong></em><strong>. James Weisheipl. Estudo da contribui&#231;&#227;o cient&#237;fica e filos&#243;fica de Alberto Magno.</strong></p></li><li><p><em>Against Deconstruction</em>. John Ellis. Refuta&#231;&#227;o cr&#237;tica da desconstru&#231;&#227;o liter&#225;ria e filos&#243;fica.</p></li><li><p><em>A morte do autor</em>. Roland Barthes. Ensaio sobre autoria, texto e interpreta&#231;&#227;o na teoria liter&#225;ria contempor&#226;nea.</p></li><li><p><em>As rep&#250;blicas municipais no Brasil</em>. Manoel Rodrigues Ferreira. Estudo hist&#243;rico do municipalismo brasileiro e de suas ra&#237;zes pol&#237;ticas.</p></li><li><p><em><strong>Hist&#243;ria das ideias pol&#237;ticas no Brasil</strong></em><strong>. Nelson Rodrigues Saldanha. Panorama da tradi&#231;&#227;o intelectual e pol&#237;tica brasileira.</strong></p></li><li><p><em>A History of Education</em>. Paul Monroe. Hist&#243;ria geral das ideias, institui&#231;&#245;es e modelos educacionais.</p></li><li><p><em>Os Elementos de Euclides</em>. David Berlinski. Leitura filos&#243;fica e cultural da matem&#225;tica cl&#225;ssica como forma&#231;&#227;o do esp&#237;rito.</p></li><li><p><em>Handbook of Biblical Chronology</em>. Jack Finegan. Manual t&#233;cnico de refer&#234;ncia sobre cronologia b&#237;blica.</p></li><li><p><em>O fim da modernidade</em>. Gianni Vattimo. Diagn&#243;stico p&#243;s-moderno do enfraquecimento das grandes narrativas modernas.</p></li><li><p><em>Mestre de bom humor</em>. Jos&#233; Luis Soria. </p></li><li><p><em><strong>Dicion&#225;rio de Rimas</strong></em><strong>. Jos&#233; Augusto Fernandes. Instrumento t&#233;cnico para versifica&#231;&#227;o e composi&#231;&#227;o po&#233;tica.</strong></p></li><li><p><em>Vittorino da Feltre and other humanist educators</em>. William Harrisson Woodward. Estudo dos educadores humanistas e de seus ideais formativos.</p></li><li><p><em><strong>The Elements of Teaching</strong></em><strong>. James Banner. Introdu&#231;&#227;o clara aos fundamentos pr&#225;ticos e &#233;ticos do ensino.</strong></p></li><li><p><em>The Seven Laws of Teaching</em>. John Milton Gregory. Exposi&#231;&#227;o cl&#225;ssica dos princ&#237;pios fundamentais da arte de ensinar.</p></li><li><p><em><strong>The Mystery of Being</strong></em><strong>. Gabriel Marcel. Metaf&#237;sica existencial crist&#227; centrada no ser como presen&#231;a e mist&#233;rio.</strong></p></li><li><p><em>A crise do nosso tempo</em>. Pitirim Sorokin. An&#225;lise sociol&#243;gica das desordens culturais da civiliza&#231;&#227;o moderna.</p></li><li><p><em>Redu&#231;&#227;o sociol&#243;gica</em>. Guerreiro Ramos. Proposta metodol&#243;gica cr&#237;tica para a sociologia em contextos perif&#233;ricos.</p></li><li><p><em>Poesia grega de Alcman a Te&#243;crito</em>. Antologia da l&#237;rica grega arcaica e helen&#237;stica.</p></li><li><p><em><strong>Comp&#234;ndio de literatura grega</strong></em><strong>. Jaqueline de Romilly. S&#237;ntese clara da tradi&#231;&#227;o liter&#225;ria grega e de seus valores culturais.</strong></p></li><li><p><em>Elegia grega arcaica: uma antologia</em>. </p></li><li><p><em>Dicion&#225;rio de figuras e s&#237;mbolos b&#237;blicos</em>. Instrumento hermen&#234;utico para leitura simb&#243;lica da Escritura.</p></li><li><p><em>Breves no&#231;&#245;es da hist&#243;ria da literatura portuguesa</em>. Renato Figueiredo. Panorama sint&#233;tico da tradi&#231;&#227;o liter&#225;ria portuguesa.</p></li><li><p><em><strong>Aristotle in Aquinas&#8217;s Theology</strong></em><strong>. Gilles Emery e Matthew Levering. Estudo da integra&#231;&#227;o de Arist&#243;teles na teologia de Tom&#225;s de Aquino.</strong></p></li><li><p><em>Filosofia da biologia de Arist&#243;teles</em>. Jorge Ferigolo. An&#225;lise da biologia aristot&#233;lica como filosofia da natureza.</p></li><li><p><em>Th&#233;ologie de l&#8217;histoire</em>. Robert Calmel. Interpreta&#231;&#227;o teol&#243;gica do sentido providencial da hist&#243;ria.</p></li><li><p><em>A Multid&#227;o</em>. Gustave Le Bon. Estudo cl&#225;ssico da psicologia das massas e do comportamento coletivo.</p></li><li><p><em><strong>A Lexicon of St. Thomas Aquinas</strong></em><strong>. Roy Deferrari. L&#233;xico t&#233;cnico para a leitura precisa da obra tomista.</strong></p></li><li><p><em>Liturgical Theology: The Church as Worshiping Community</em>. Simon Chan. Teologia da liturgia como express&#227;o constitutiva da Igreja.</p></li><li><p><em><strong>Triunfo da terap&#234;utica</strong></em><strong>. Philip Rieff. Cr&#237;tica cultural &#224; substitui&#231;&#227;o da moral por categorias terap&#234;uticas.</strong></p></li><li><p><em>The Rise of Christianity</em>. Rodney Stark. Interpreta&#231;&#227;o sociol&#243;gica da expans&#227;o do cristianismo primitivo.</p></li><li><p><em>A batalha de Monte Cassino</em>. Rudolf B&#246;hmler. Narrativa hist&#243;rica de um epis&#243;dio decisivo da Segunda Guerra Mundial.</p></li><li><p><em><strong>El temple de un Padre de la Iglesia</strong></em><strong>. Cornelio Fabro. </strong></p></li><li><p><em>A metaf&#237;sica do fen&#244;meno</em>. Andr&#233; de Muralt. Investiga&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o entre fenomenologia e metaf&#237;sica.</p></li><li><p><em>Como analisar literatura</em>. William Kenney. Guia metodol&#243;gico para leitura cr&#237;tica de textos liter&#225;rios.</p></li><li><p><em>A filosofia contempor&#226;nea</em>. Leonardo Van Acker. Introdu&#231;&#227;o sistem&#225;tica &#224;s principais correntes filos&#243;ficas modernas.</p></li><li><p><em>A filosofia bergsoniana</em>. Leonardo Van Acker. Exposi&#231;&#227;o clara do pensamento de Henri Bergson.</p></li><li><p><em>History of the German People</em>. Johannes Jansen. Hist&#243;ria cultural e religiosa do povo alem&#227;o.</p></li><li><p><em><strong>Il pensiero pedagogico dello umanesimo</strong></em><strong>. Eugenio Garin. Estudo do ideal educativo humanista renascentista.</strong></p></li><li><p><em>Ensaio sobre a origem da linguagem</em>. Johann Gottfried von Herder. Reflex&#227;o filos&#243;fica sobre linguagem, cultura e humanidade.</p></li><li><p><em>Ensayos sobre Pedagog&#237;a seg&#250;n la mente de Santo Tom&#225;s de Aquino</em>. Alberto Garcia Vieyra. Ensaios te&#243;ricos sobre educa&#231;&#227;o e forma&#231;&#227;o humana.</p></li><li><p><em>A universidade reformada</em>. Luiz Ant&#244;nio Cunha. An&#225;lise da moderniza&#231;&#227;o do ensino superior brasileiro ap&#243;s 1964.</p></li><li><p><em>The Evolution of Liberal Arts in the Global Age</em>. Peter Marber. Estudo das transforma&#231;&#245;es contempor&#226;neas das artes liberais.</p></li><li><p><em>Entes matem&#225;ticos e metaf&#237;sica</em>. Elisabetta Cattanei. An&#225;lise do estatuto ontol&#243;gico dos objetos matem&#225;ticos.</p></li><li><p><em><strong>The Battle of the Classics</strong></em><strong>. Eric Adler. Defesa contempor&#226;nea dos estudos cl&#225;ssicos e das humanidades.</strong></p></li><li><p><em>In Defense of Liberal Education</em>. Fareed Zakaria. Apologia pragm&#225;tica e cultural da educa&#231;&#227;o liberal.</p></li><li><p><em>You Can Do Anything</em>. George Anders. An&#225;lise do valor inesperado da educa&#231;&#227;o liberal na vida profissional.</p></li><li><p><em>Os sete saberes necess&#225;rios &#224; educa&#231;&#227;o do futuro</em>. Edgar Morin. Proposta de uma educa&#231;&#227;o integradora e complexa.</p></li><li><p><em>Another Sort of Learning</em>. James Schall. Defesa da educa&#231;&#227;o contemplativa e da leitura como forma&#231;&#227;o do esp&#237;rito.</p></li><li><p><em>Pais ocupados, filhos distantes</em>. Gordon Neufeld. An&#225;lise psicol&#243;gica das rupturas de v&#237;nculo na fam&#237;lia contempor&#226;nea.</p></li><li><p><em>Les questions disput&#233;es et les questions quodlib&#233;tiques</em>. Bernardo Baz&#224;n. Estudo institucional da disputa acad&#234;mica medieval.</p></li><li><p><em><strong>The Illustrated Beatus</strong></em><strong>. John Williams. Estudo da iconografia apocal&#237;ptica nos manuscritos medievais do Beatus.</strong></p></li><li><p><em>Culture and Anarchy</em>. Matthew Arnold. Defesa da cultura como forma&#231;&#227;o integral contra o utilitarismo social.</p></li><li><p><em>Real Presences</em>. George Steiner. Defesa da presen&#231;a real do sentido na arte e na linguagem.</p></li><li><p><em><strong>The Emergence of American University</strong></em><strong>. Laurence Veysey. Hist&#243;ria intelectual da universidade moderna nos Estados Unidos.</strong></p></li><li><p><em>The Moral Obligation to Be Intelligent</em>. John Erskine. Ensaio sobre o dever moral da intelig&#234;ncia e da clareza intelectual.</p></li><li><p><em>Teacher in America</em>. Jacques Barzun. Diagn&#243;stico cr&#237;tico do ensino e da cultura educacional americana.</p></li><li><p><em>Lost in Thought</em>. Zena Hitz. Apologia da vida intelectual desinteressada contra o produtivismo acad&#234;mico.</p></li><li><p><em>Rescuing Socrates</em>. Roosevelt Mont&#225;s. Testemunho sobre o poder formativo dos grandes livros.</p></li><li><p><em>The Dream of a Democratic Culture</em>. Tim Lacy. Hist&#243;ria do ideal dos Great Books e de Mortimer Adler.</p></li><li><p><em>Orators and Philosophers</em>. Bruce Kimball. Hist&#243;ria das duas tradi&#231;&#245;es centrais da educa&#231;&#227;o liberal.</p></li><li><p><em>The Techniques of Disputation in the History of Logic</em>. Ignacio Angelelli. Estudo hist&#243;rico da arte da disputa l&#243;gica.</p></li><li><p><em>Controversiae Theologiae inter S. Thomam et Scotum</em>. Juan de Rada. An&#225;lise das controv&#233;rsias teol&#243;gicas entre Tom&#225;s e Escoto.</p></li><li><p><em><strong>Collationes doctrinae S. Thomae et Scoti</strong></em><strong>. Francisco Macedo. Compara&#231;&#227;o sistem&#225;tica das doutrinas de Tom&#225;s de Aquino e Duns Scotus.</strong></p></li></ol><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como estudar sem explodir a cabeça]]></title><description><![CDATA[Conselhos a um aluno]]></description><link>https://renam.substack.com/p/como-estudar-sem-explodir-a-cabeca</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/como-estudar-sem-explodir-a-cabeca</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Tue, 23 Dec 2025 21:31:36 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbad0cba0-3512-4fe9-806a-1908d698472e_208x243.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; muitos assuntos sobre que poderia escrever longos textos. Mas me recuso. A explica&#231;&#227;o longa por vezes sufoca e encorberta a intui&#231;&#227;o essencial. Ali&#225;s, pode ocorrer algo pior se o assunto for de ordem pr&#225;tica. Quando recebemos uma explica&#231;&#227;o exaustiva e a contento sobre dada mat&#233;ria, pode ocorrer-nos a impress&#227;o de ter alcan&#231;ado pela teoria o que implica exerc&#237;cio e pr&#225;tica. </p><p>Sei de uma pessoa que, ao ouvir uma bela explica&#231;&#227;o sobre os princ&#237;pios do jiu-j&#237;tsu, de t&#227;o encantada com o assunto, nunca mais tornou a lutar. Aquela explica&#231;&#227;o pareceu-lhe dar um dom&#237;nio da luta que nunca teve, como se se j&#225; tivesse feito guerreiro s&#243; com o serm&#227;o de batalha. Por essas raz&#245;es, n&#227;o me estenderei muito. </p><p><strong>Por que tua cabe&#231;a explodiu? </strong></p><p>Quando estudamos um assunto que ultrapassa nossa capacidade de compenetra&#231;&#227;o e introspec&#231;&#227;o, esgotamo-nos mentalmente. Nossa imagina&#231;&#227;o n&#227;o estava acostumada a a fornecer imagens t&#227;o precisas, o est&#244;mago da mem&#243;ria esvaziou-se, deixando a mente fraca; e a raz&#227;o, no desejo de manter-se ao encal&#231;o daquela miragem, esgota-se e se perde, ao modo de um cavaleiro iniciante que exaure seu pangar&#233; sem dar-lhe oportunidade de descanso; a intelig&#234;ncia, que nunca se cansa, resiste. &#201; assim que o esp&#237;rito, demasiadamente sedento, d&#225; brecha aos maiores v&#237;cios, pois deixa a carne vulner&#225;vel e sujeita aos excessos.</p><p>Contudo, n&#227;o penso que seja o teu caso. Tua mente j&#225; est&#225; habituada a estas longas medita&#231;&#245;es; teu corpo j&#225; se acostumou a n&#227;o reivindicar mais do que o necess&#225;rio nestes momentos de absor&#231;&#227;o. Tuas faculdades j&#225; s&#227;o oper&#225;rios abnegados, cada qual favorecendo o esp&#237;rito naquilo que lhe compete. Ali&#225;s, quanta ajuda n&#227;o presta em tudo isso aquela for&#231;a que se acrescenta &#224; natureza, dando-lhe vigor e desenvoltura &#8212; a <em>virtus</em>, a for&#231;a moral.</p><p>Tua condi&#231;&#227;o &#233; outra. N&#227;o &#233; tua mente que resfolega por falta de pr&#225;tica, &#233; o assunto que se desvencilha de ti a cada esfor&#231;o de agarr&#225;-lo. Esse &#233; o segundo modo com que a mente se exaure. O corpo se esgota tanto quando opera o que n&#227;o est&#225; acostumado do ponto de vista qualitativo, quanto do ponto de vista quantitativo. No teu caso, j&#225; adquiriste a capacidade, j&#225; sabes percorrer longas dist&#226;ncias. Agora, o que te falta j&#225; n&#227;o &#233; a capacidade de buscar, mas a de aguardar. </p><p>Considera que os bens perdidos s&#243; s&#227;o encontrados quando n&#227;o mais os procuramos. &#201; assim tamb&#233;m com os bens sapienciais. &#201; s&#243; quando n&#227;o mais estamos pressurosos por encontr&#225;-los que temos a tranquilidade suficiente para olhar de uma vis&#227;o mais privilegiada e abrangente &#8212; quantos viajantes n&#227;o recuperam o vigor ao olhar, do alto, o caminho todo percorrido; e quantos mais n&#227;o redescobram a&#237; o sentido inteiro da viagem. Contemplando, assim, o lugar daquilo que v&#234; no todo, o todo e o seu pr&#243;prio lugar no todo. Os tr&#234;s ingredientes s&#227;o imprescind&#237;veis. Acredite, &#233; numa caminhada, numa conversa, num recreio qualquer que o clar&#227;o se manifesta.</p><p>&#201; a forma discreta com que o Sumo-Bem nos educa: as verdades mais belas n&#227;o aparecem com dia certo e hora marcada &#8212; n&#227;o marcam hor&#225;rio em nossa mesa de estudos. Conv&#233;m esperar. Uma espera laboriosa, mas gratuita, desapegada. </p><p>Leia, ou&#231;a alguma aula, converse, escreva, caminhe, trabalhe com senso de humor, ore, durma bem. N&#227;o h&#225; milagre. </p><p>Na verdade, h&#225;. Mas o milagre &#233; o milagre de uma vida inteira assim comprometida. E qu&#227;o fecundos n&#227;o s&#227;o os frutos. </p><p>&#201; aquela perene f&#243;rmula vitorina: <em><strong>lectio, meditatio, oratio, contemplatio, operatio</strong></em>. Com a <em>lectio </em>entendemos, com a meditatio procuramos a raz&#227;o que explica o que entendemos. E, se n&#227;o a visualizamos, imploramos ao Verbo uma resposta na ora&#231;&#227;o, a qual encontramos na contempla&#231;&#227;o e a fazemos nossa pelas boas obras. Lembre-se do que falavam de Santo Tom&#225;s:</p><p><em>&#8220;Sempre que lhe sobrevinha alguma d&#250;vida, recorria fervorosamente &#224; ora&#231;&#227;o.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-1" target="_self">1</a></em></p><p> Veja que a ora&#231;&#227;o est&#225; no meio da balan&#231;a. Ela &#233; o verdadeiro repouso. Se, por um lado a <em>lectio </em>e a <em>meditatio </em>buscam com todas as for&#231;as, a <em>contemplatio </em>encontra e a <em>operatio </em>usufrui. Sem a ora&#231;&#227;o, toda busca se torna avidez e todo encontro se reduz &#224; cobi&#231;a; toda leitura gula, toda a&#231;&#227;o vaidade. </p><p>Nunca se esque&#231;a do fiel da balan&#231;a.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2F%23footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>GRABMANN, Martin. <em>The Interior Life of St. Thomas Aquinas</em>.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre a unidade das disciplinas]]></title><description><![CDATA[Minha vis&#227;o germinal sobre a unidade das artes, das ci&#234;ncias e da sabedoria]]></description><link>https://renam.substack.com/p/sobre-a-unidade-das-disciplinas</link><guid isPermaLink="false">https://renam.substack.com/p/sobre-a-unidade-das-disciplinas</guid><dc:creator><![CDATA[Renam Larentis]]></dc:creator><pubDate>Tue, 16 Dec 2025 20:30:09 GMT</pubDate><enclosure url="iframe.php?url=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fca918164-1361-4b73-a041-0601cb7d8ab1_600x372.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nesse &#225;udio, falo de minha vis&#227;o sobre a unidade das artes, das ci&#234;ncias e da sabedoria, que tenta levar &#224; considera&#231;&#227;o das disciplinas como um verdadeiro organismo, desde o mais concreto ao mais per&#8230;</p>
      <p>
          <a href="iframe.php?url=https%3A%2F%2Frenam.substack.com%2Fp%2Fsobre-a-unidade-das-disciplinas">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item></channel></rss>